Augusto dos Anjos: Cantor da Poesia de tudo que é morto

Augusto dos Anjos já esteve em nosso Momento Poético antes, certamente voltará outras vezes. Dessa feita foi levado por nossa poetisa Anita Dubeux, que selecionou, com apuro, alguns poemas do autor para dividir com o grupo. Considerado um dos poetas mais críticos de sua época e um dos mais importantes representantes do pré-modernismo, apesar de sua poesia conter raízes do simbolismo, no gosto pela morte,pela angústia, melancolia e no uso de metáforas. O autor parece querer desafiar os parnasianos, utilizando palavras não-poéticas como verme, cuspe, vômito, entre outras. A obra só possuiu grande vendagem após a morte do poeta.  Declarou-se Cantor da poesia de tudo que é morto. E como o faz bem!

Nasceu no engenho Pau d’Arco, na Paraíba, no dia 22 de abril de 1884, filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e de Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos.
No ano de 1900, ingressa no Liceu Paraibano e produz seu primeiro soneto.
Durante a vida publicou vários poemas em jornais e periódicos e em 1912 editou o seu único livro EU, que causou espanto nos críticos da época, diante de um vocabulário grotesco e sua obsessão pela morte: podridão da carne, cadáveres fétidos e vermes famintos.

Possuía uma retórica delirante, criativa, por vezes absurda, como neste trecho do poema Psicologia de um Vencido:

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro da escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Augusto dos Anjos estudou na Faculdade de Direito do Recife entre 1903 e 1907 e após sua formatura retornou a João Pessoa, onde passou a lecionar Literatura Brasileira, em aulas particulares.

Faleceu em Leopoldina, Minas Gerais, no dia 12 de novembro de 1914.

Poemas memoráveis desse poeta paraibano, hoje universal:

O martírio do artista

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!…
É como o paralítico que, à míngua
Da própria voz, e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!

Vencedor

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E á rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pude domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta

Poema Negro está entre os mais lidos e elogiados poemas de Augusto dos Anjos.

 

Após a leitura dos poemas de Augusto dos Anjos, continuamos a viagem, agora com a releitura do conto de  Raduan Nassar, Hoje de Madrugada, elaborada por João Gratuliano que deu o título bastante criativo de As Madrugadas de Ontem, assim mesmo, no plural.  Uma boa releitura sempre irá depender da leitura particular que o leitor fez da obra, mediada pela sua visão de mundo, sensibilidade para captar silêncios, não-ditos, de viajar com as palavras, de abrir suas valises e escarafunchá-las em busca de novos sentidos, cheiros,  cores, musicalidade. João Gratuliano faz isso muito bem. As Madrugadas de Ontem, longe de reproduzir o texto original, é uma criação, trazendo o novo sem perder o elo com a fonte que serviu de inspiração. Disposto sempre a aceitar desafio, Gratuliano aceitou a proposta do grupo e refez o texto apresentado na Oficina, com a participação de todos, especialmente de Everaldo Júnior que foi quem liderou o processo,  dessa vez escondendo o gênero do personagem que só foi revelado no final. Valeu como exercício de desbloqueio criativo.

Sobre a Programação para o Segundo Semestre discutimos um pouco e ficou acordado que iniciaríamos com a autora sul coreana Kyung Sook Shin, Por Favor, Cuide da Mamãe, que já dispomos em meio digital, o que facilitará bastante para  a leitura na próxima quarta-feira. Trata-se de um livro com muitos recursos técnicos literários instigantes, inovadores,  trama bem articulada e extremamente interessante que fisga você nas primeiras páginas.

Lourdes Rodrigues

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Viagem pelos arredores de A Terra Inútil

Relatos de viagem, 23 de maio/2017

*Salete Oliveira

 

Num só minuto há tempo
Para decisões e revisões, a revogar noutro minuto.
Pois já as conheço todas bem, conheço todas –
Sei as noites, as tardes, as manhãs,
Às colheres de café andei medindo a minha vida;
Sei que em breve agonia se esvaem as vozes
Abafadas na música de um quarto mais além.
Como havia eu de ousar, assim?
T. S. Eliot

pesquiso pesquiso… apenas a pesquisar
nada escrevo, ainda não terminou o prazo (?)
apenas a me encantar, arregalo os olhos
semelhante ao dia da leitura na Oficina LIterária,
não é inglês (?), americano de nascimento,
filho de imigrantes, emigrou de volta,
largou ao terminar em Harvard, o país natal,
as vésperas da primeira guerra,
em plena revolução industrial,
atravessou mares e pontes, olhou os mesmos objetos,
Torre de Londres, Museu Britânico… (como tantos turistas fazem todo dia,
como fiz, 30 anos após sua morte…)

às margens do Tâmisa, se encontrou, se naturalizou,
como mais conhecido poeta britânico se imortalizou!

(onde vi, li seu nome pela primeira vez?)
não lembro, mas em mim seu nome tem um lugar
aconchegante, um júbilo ao ouvir se pronunciar
T. S. Eliot

procuro de onde nos conhecemos,
onde se cruza nossa existência como viventes,
quando casou pela segunda vez, já na Inglaterra,
eu engatinhava, nos idos de 1957,
quando morreu, o Brasil já estava sob ditadura militar,
com certeza não me foi apresentado quando ainda vivo,
embora vivo vá continuar sempre a cada leitura,

no Tópico V. O que disse o Trovão, do Poema The Waste Land, de 1922,
http://marocidental.blogspot.com.br/2012/01/waste-land-t-s-eliot-traduzido.html
todas as lembranças são do Agreste pernambucano, das Vertentes,
da Serra de Taquaritinga, do céu escuro em nuvens
que se batem em trovões e relâmpagos,
caem em granizos em final da tarde…

mas… chega de tergiversação, escreve escreve,
diz-me o vento sibilante, deixa de caraminholas, é julho!

Lourdes Rodrigues nos trouxe T. S. Eliot para o momento poético naquela quarta-feira, 23 de maio de 2017, a iniciar a Oficina. O poema escolhido foi:

 

A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock

S’i credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Ma però che già mai di questo fondo
Questa fiamma staria senza più scosse.
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.

(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)

Vamos lá, você e eu
quando a noite está espalhada contra o céu
tal paciente eterizado sobre a mesa
vamos nós, por tais semi-desertas alamedas
as quebras quietas
de inquieta noite insone na espeluncas de uma noite
bistrôs baratos com jornal no chão:
ruas que seguem tal tedioso argumento
de perigosa pretensão:
levá-lo a uma pergunta arrasadora…
ah, “qual seria?”, não insista,
vamos lá à nossa visita.

na saleta, as moças em deâmbulo
falam de michelangelo.

a névoa espessa roça as costas nas venezianas
fumaça espessa que o focinho roça nas venezianas
raspando a língua nas esquinas do anoitecer
demora sobre as poças sobre os ralos
derruba em suas costas cinzas lá das chaminés
desliza no terraço, faz-se reerguer
e vendo que era noite calma de um outubro
em volta enrosca a casa a adormecer.

e é certo, o tempo vai chegar
para o fumo espesso errante pela rua,
que esfrega as costas nas venezianas;
o tempo vai chegar e vai chegar
de preparar a cara a ver as caras conhecidas suas;
vai chegar o tempo de criar e de matar
e o tempo dos trabalhos e os dias e as mãos
que erguem e jogam a dúvida em seu prato;
tempo pra você e para mim,
e tempo pra mais cem indecisões,
e mais cem visões e revisões,
antes da hora de tomar chá com torrada.

na saleta, as moças em deâmbulo
falam de michelangelo.

e é certo, o tempo vai chegar
em que se possa perguntar, “eu ousaria?”
tempo para voltar e descer a escadaria,
e a mancha calva no meio da cabeça já se via –
(vão dizer: “como o cabelo dele vai rareando!)
meu fraque e o colarinho bem alto abotoando,
minha gravata honesta e rica, com uma só prega fechando
(vão dizer: mas como as pernas e os braços dele tão afinando!”)
ousaria
o universo perturbar?
num minuto há muito tempo
em que o minuto as decisões e revisões pode abortar.

pois eu já as conheci a todas elas, todas elas –
conheço as noites, tardes e manhãs, até,
eu medi a minha vida em colherinhas de café
conheço as vozes abafadas se apagando
em meio à música de um quarto distante.
como é que eu ia adivinhar?

e eu conheci os olhos todos, todos eles –
os olhos que lhe pregam numa frase formulada,
e quando eu, formulado, num alfinete a estrebuchar,
quando eu estou pregado e me espalhando na parede,
como é que eu ia começar a
cuspir bitucas dos dias e vias?
como é que eu ia adivinhar?
pois eu já conheci os braços todos, todos eles –
braceletados braços, brancos e desnudos
(à meia luz, porém, cobertos com ruiva penugem!)
será o perfume de um vestido
que me faz assim perdido?
braços jogados sobre as mesas, ou nos xales enrolados.
então como é que eu ia adivinhar?
como eu podia começar?
***
e eu direi que andei ruelas pelo anoitecer
que vi a fumaça fugindo dos cachimbos
de uns homens solitários de pijama nas janelas?
eu devia era ter sido um par de diras garras
pairando pelos leitos de quietos oceanos.
***
e o entardecer, o anoitecer, dorme em tanta paz!
por longos dedos acariciado
dormindo… cansado… ou finge dor,
espichado aqui no chão, do meu lado e do seu,
devia eu, depois do licorzinho nesse cálice,
ter força de forçar o instante até seu ápice?
embora eu tenha feito reza, cena e até quaresma,
embora eu tenha visto minha cabeça (já meio careca) trazida na bandeja,
não sou profeta – e aqui deixo pro azar;
eu vi o meu momento de grandeza tremular,
e eu vi o Lacaio eterno com o meu terno e um riso abafar,
e, resumindo, eu tive medo.

e valeria a pena, ao fim de tudo,
das xícaras, do chá e das geleias,
em meio às porcelanas e íntimas trocas de ideias,
teria, ao fim, valido alguma pena
ter encerrado num sorriso nossa cena,
e espremer o universo numa bola
rolá-lo a uma pergunta arrasadora,
dizer “eu sou lázaro, vindo dos mortos
retorno para lhes dizer tudo, direi tudo” –
se então, ajeitando o travesseiro em sua cabeça
alguém dissesse: “não é nada disso tudo;
não é isso, eu juro.”

e valeria a pena, ao fim de tudo,
e valeria alguma pena
depois do pôr-do-sol e das soleiras e das ruas respingadas,
depois dos livros e dos chás, depois das saias que se arrastam pelo chão –
e disso e muito mais então? –
é impossível dizer tudo o que eu quero!

mas como se a lanterna mágica lançasse seus padrões num anteparo:
valeria alguma pena
se alguém, ajeitando o travesseiro ou enrolando um xale,
ao virar-se pra janela, enfim dissesse:
“não foi isso, eu juro,
fui incompreendida em tudo.”
***
não! não sou príncipe hamlet, nem era para ser
sou um nobre figurante, que vai só servir
pra inchar a comitiva, uma cena ou mais abrir,
aconselhar o príncipe, decerto, papel simples,
deferente, feliz por ser de auxílio,
sagaz, meticuloso e precavido;
cheio de frases feitas, mas meio perdido;
às vezes, até, quase ridículo –
às vezes, quase, o Tolo.

envelheço… envelheço…
vou dobrar as barras da minha calça eu mesmo.
ousarei comer um pêssego? reparto meu cabelo pra trás?
vou por calças de flanela branca e sair pra andar na praia.
ouvi o canto das sereias, e cantavam entre si.
não acho que elas vão cantar pra mim.

e as vi cortando as ondas para o mar
partindo as cãs das ondas para trás
quando o vento sopra as alvinegras águas.
passeamos nos palácios do oceano
co’ondinas coroadas de algas rubras
té que com humanas vozes despertando,
morramos afogados.

Para nossa melhor compreensão, lemos também no original, a buscar nas suas palavras a essência dos versos, a querer compreender o âmago do poema, a alma do poeta:

The Love Song of J. Alfred Prufrock

S’i credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.

(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)

Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question. . .
Oh, do not ask, “What is it?”
Let us go and make our visit.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

The yellow fog that rubs its back upon the window-panes
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-
panes
Licked its tongue into the corners of the evening
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night
Curled once about the house, and fell asleep.

And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions
And for a hundred visions and revisions
Before the taking of a toast and tea.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

And indeed there will be time
To wonder, “Do I dare?” and, “Do I dare?”
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair –
[They will say: “How his hair is growing thin!”]
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin–
[They will say: “But how his arms and legs are thin!”]
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.

For I have known them all already, known them all;
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.

So how should I presume?
And I have known the eyes already, known them all –
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?
And I have known the arms already, known them all –
Arms that are braceleted and white and bare
[But in the lamplight, downed with light brown hair!]
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.

And should I then presume?
And how should I begin?
Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? . .
I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.
And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!

Smoothed by long fingers,
Asleep . . . tired . . . or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.

Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head (grown slightly bald)
brought in upon a platter,
I am no prophet–and here’s no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and
snicker,
And in short, I was afraid.

And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it toward some overwhelming question,
To say: “I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all”
If one, settling a pillow by her head,
Should say, “That is not what I meant at all.
That is not it, at all.”

And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled
streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that
trail along the floor –
And this, and so much more? –
It is impossible to say just what I mean!

But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on
a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
“That is not it at all,
That is not what I meant, at all.”

No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous –
Almost, at times, the Fool.

I grow old . . . I grow old . . .
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.
Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the
beach.

I have heard the mermaids singing, each to each.

I do not think they will sing to me.

I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.

We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.

Em dos relatos sobre T. S. Eliot encontramos a seguinte análise:

O poema é considerado um dos mais belos poemas produzidos na literatura inglesa do século XX, “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”, com as suas imagens floridas em uma densa agonia destilada em versos livres, a traduzir um angustiante estado da alma, complexa, com palavras sopradas como uma canção simbolista, rumando ao vazio.

T. S. Eliot escreveu o poema em 1912, numa época de marasmo que se seguiu aos novos costumes trazidos pela Revolução Industrial, e o período de conturbações que culminaria com o início da Primeira Guerra Mundial. “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” só seria publicado pela primeira vez em 1915, na revista “Poetry”, e lançado no livro “Prufrock e Outras Observações”, em 1917, que trazia uma recolha de poemas do autor. Uma vez publicado, o poema deu uma outra visão à poesia inglesa que se espalhou pelo mundo.

O poema não deixa de ser uma canção de amor, bela e inquietante, que sopra sobre uma hesitação perene, os sentimentos parecem petrificados pela existência, oscilando entre o desejo e a estabilidade do tédio. As máscaras de Prufrock revelam-lhes os sentimentos e também o próprio T.S. Eliot.

A tradução do poema aqui apresentada é do português João Almeida Flor, que a designou como “uma ordem de construção musical”. Na transposição para a língua portuguesa, os versos ficaram maiores do que os do poema original. O tradutor preferiu estar atento aos ritmos sonoros e à musicalidade do poema.

O volume ‘Poesia’, das obras completas, tem tradução, introdução e notas do poeta Ivan Junqueira, carioca nascido em 1934, crítico literário e ensaísta, presidente da Academia Brasileira de Letras. Em páginas espelhadas, o livro apresenta os poemas de T.S. Eliot em inglês e português, em um dos trabalhos de tradução feitos no Brasil, fruto da dedicação de Ivan Junqueira a Eliot.

Nesse relato, acrescento o poema traduzido por Ivan Junqueira, para que possamos exercitar leitura comparativa de dois tradutores, dentre outros.

A canção de amor de J. Alfred Prufrock

S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo.
Dante Alighieri. Ladivina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66 (N. do T.)

Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, não perguntes: “Qual?”
Sigamos a cumprir nossa visita.
No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
A fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.
E na verdade tempo haver á
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.
No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. “Ousarei” E . . “Ousarei?”
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: “Como andam ralos seus cabelos!”)
– Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o
queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete
apruma
(Dirão eles: “Mas como estão finos seus braços e pernas! “)
– Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.
Pois já conheci a todos, a todos conheci
– Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?
E já conheci os olhos, a todos conheci
– Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,
Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
E como iria atrever-me?
E já conheci também os braços, a todos conheci
– Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam.
E ainda assim me atreveria?
E como o iniciaria?
…….
Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, à janela
debruçados?
Eu teria sido um par de espedaçadas garras
A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares.
…….
E a tarde e o crepúsculo tão .docemente adormecem!
Por longos dedos acariciados,
Entorpecidos . . . exangues . . . ou a fingir-se de enfermos,
Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado.
Após o chá, os biscoitos, os sorvetes,
Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise?
Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada)
servida numa travessa,
Não sou profeta – mas isso pouco importa;
Percebi quando titubeou minha grandeza,
E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu
sobretudo.
Enfim, tive medo.
E valeria a pena, afinal,
Após as chávenas, a geléia, o chá,
Entre porcelanas e algumas palavras que disseste,
Teria valido a pena
Cortar o assunto com um sorriso,
Comprimir todo o universo numa bola
E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação,
Dizer: “Sou Lázaro, venho de entre os mortos,
Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei.”
– Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro,
Dissesse: “Não é absolutamente isso o que quis dizer
Não é nada disso, em absoluto.”
E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
– Tudo isso, e tanto mais ainda? –
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos . . .
Teria valido a pena,
Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale às
pressas,
E ao voltar em direção à janela, dissesse:
“Não é absolutamente isso,
Não é isso o que quis dizer, em absoluto.”
Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.
Sou um lorde assistente, o que tudo fará
Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas,
Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil
manuseio,
Respeitoso, contente de ser útil,
Político, prudente e meticuloso;
Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso;
As vezes, de fato, quase ridículo
Quase o Idiota, às vezes.
Envelheci . . . envelheci . . .
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.
Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um
pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.
Não creio que um dia elas cantem para mim.
Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento um claro-escuro abre nas águas.
Tardamos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.

Particularmente, preferí a tradução de Ivan Junqueira. A sensação que me passa o poema, considerando o contexto da época, a idade do poeta, 24 anos, já terminado os estudos em Harvard, é que o poeta fala de si mesmo e seus sonhos de emigrar, voltar à Inglaterra e lá morar, ali plantava e germinavam as sementes do seu futuro, com todos os questionamentos e revisões que uma decisão dessas traz a qualquer pessoa. A sua ousadia o fez merecedor dos louros como poeta, até mesmo um prêmio Nobel!

Em relação à biografia de T. S. Eliot, encontramos diversos relatos:

Thomas Stearns Eliot nasceu em St. Louis, Estados Unidos, a 26 de setembro de 1888. Mudou-se para a Inglaterra aos 25 anos, em 1914.Em 1927, aos 39 anos, tornou-se cidadão britânico, e como tal, tornou-se um dos maiores representantes do modernismo britânico, sendo um dos seus principais poeta e dramaturgo.

A poesia de T. S. Eliot revela uma originalidade profunda e singular, repleta de muitas influências, entre elas a dos simbolistas franceses. Ao ler o livro “The Symbolist Movement in Literature”, de Arthur Symons, revelou-se-lhe uma grande influência, que culminaria com a poesia de Laforgue. Os estudos de filosofia auxiliaram o escritor a ter uma sensível concepção metafísica, ligando assim as palavras e idéias a objetos singulares, traduzindo-as em linguagem falada.

T. S. Eliot rompeu com a tradição poética do século XIX. Os temas da sua obra eram o vazio, a penitência, a redenção, a futilidade da existência, a angústia, a incerteza do tédio e a morte.

O escritor recebeu o prêmio Nobel de literatura em 1948.

Era um homem angustiado com o tédio, um denso propagador da desolação vincada pelas palavras livres, límpidas em seus símbolos.

Morreu em Londres, em janeiro de 1965.

Uma biografia com mais detalhes podemos encontrar nos links abaixo:

 

Os Eliot… – Veja mais em https://educacao.uol.com.br/biografias/t-s-eliot.htm?cmpid=copiaecola . Em inglês, https://www.poetryfoundation.org/poets/t-s-eliot

Seguiu-se ao momento poético, não menos surpreendente, à leitura de um conto escrito pelo viageiro Sarmento, atual, denso e ao mesmo tempo muito divertido, com duas versões (a) e (b), que nos dois primeiros parágrafos se igualavam, após o que seguiam caminhos diversos e dois finais, que para culminar, ficavam em aberto!
Se o mar parecia agitado, então se formaram torvelinhos…

A questionar e comentar o conto de Osvaldo Sarmento, todos viramos críticos, ensaístas além de leitores apaixonados que somos, o calor do tema nos tomando na leitura/discussão. Sarmento, com sabedoria e bom humor, entremeou em seu conto temas da atualidade: questões de gênero, nominação politicamente correta, movimentos sociais e feminista, casamento, encontros e desencontros, nova sexualidade. Foi prazerosa a leitura e muito rica a discussão.
Seguem os dois primeiros parágrafos (o final/os finais, estão em revisão e posteriormente serão relidos, para nova prazerosa tarde na Oficina):

O DILEMA DE PUREZA (b)

Osvaldo Sarmento

A movimentação pré-carnavalesca seguia animada, intensa, mas um tanto repetitiva. Os meios de comunicação da cidade não poupavam espaço para as obviedades de sempre: os dias, a ordem e o roteiro do desfile das agremiações, a quantidade de casas no centro da fuzarca ainda disponível para aluguel, as verbas da prefeitura para o evento e assim por diante. Foi então que se soube da grande novidade e seu aparente desfecho. Acontecera que o “Nem um Direito a Menos”, proclamado como o mais radical dos movimentos feministas, havia encaminhado, semanas atrás, à diretoria do bloco “O Garanhão e a Piranha da Meia Noite”, mais conhecido por Garapira, uma demanda enérgica, e ao mesmo tempo discreta, a ponto de passar despercebida inicialmente pelos jornalistas. Exigia que fosse mudado imediatamente o nome do bloco. A justificativa apoiava-se na palavra “piranha” que, segundo o ponto de vista da presidente do movimento, buscava desmerecer e estigmatizar as profissionais do sexo, indo, por consequência, de encontro a uma de suas bandeiras. Outra reivindicação menos contundente era quanto à ordem dos gêneros: “Por que sempre “o garanhão e a piranha”, ao invés de “a piranha e o garanhão”? Já era tempo de as mulheres – até pela sua importância na história da humanidade – serem citadas em primeiro lugar. Ontem o pedido havia sido negado, sem maiores justificativas e, segundo a presidente, em tom de galhofa.

Longe dali, no outro lado da cidade, Pureza reflete mais uma vez sobre seu casamento de apenas dois anos. Os quatro primeiro meses foram ótimos. A maioria das posições do Kama Sutra foram praticadas, algumas exigiam uma condição atlética além dos limites do casal. Aprendeu todas as “modernidades” do sexo. Depois, a rotina. Há pouco, ouvira falar de coisas como o tal do “swing”, do ménage à trois, à quatre ou même à cinq, que poderiam apimentar e até recuperar uma relação desgastada. Achou que não havia abertura suficiente para conversar sobre isso com o agora circunspecto marido. O fato é que a paixão se fora e, para piorar a situação, não conseguia encontrar qualquer fiapo que lhe prendesse ao marido. Nem um filho, nem nada.

  • Salete Oliveira, engª química, poeta, contista, ensaísta.

 

A Festa de Anita

A FESTA DE ANITA

 Luzia Ferrão

Na esfera do bem querer não é computado o tempo. Daí o nosso marujo mais recente, Sarmento, tal como um mecenas da arte, tornou-se o financiador voluntário do aniversário da maruja, amiga, poetisa, fala mansa, Anita, que no cronograma da sua vida ocorreu em 25 de maio. Além de trazer os comestíveis, celebrou o momento cantando (no gogó) recente composição sua, sugestiva de um hino à esperança de um mundo com justiça social e liberdade, sem dominação, em que todos são irmãos, um mundo em harmonia. Diante da atual situação que vivemos, o hino de Sarmento nos lembrou do poema Liberdade,  de Paul Eluard  feito pouco antes da 2ª Guerra.Mundial, mas que teve um papel importante no resgate da esperança da resistência francesa, dos soldados que lutavam nos campos de  guerra. (que, coincidentemente, seria lido no mesmo dia na Oficina).

COISAS QUE TANTO QUERO
Osvaldo Sarmento

As coisas que tanto quero
Só meus sonhos chegam lá.
São poucas e corriqueiras,
Mas difíceis de alcançar
As coisas que tanto quero
As coisas que tanto quero

Sonho ir além do horizonte,
E fazer o destino mudar (Pra ver o que o destino me dá)
Pra que, não muito distante, (Saber se não muito distante)
Se possa um dia chegar (Eu possa um dia chegar)
Às coisas que tanto quero
As coisas que tanto quero

Quero um caminho e uma ponte
Sem ter que neles morar,
Um vale calmo, sem montes
Difíceis de atravessar.
Quero uma mesa bem-posta
Pros filhos de qualquer lugar.
Emprego certo, aos montes,
Jorrando que nem uma fonte
As coisas que tanto quero
As coisas que tanto quero

As coisas que tanto quero
Só meus sonhos chegam lá.
São poucas e corriqueiras,
Mas difíceis de alcançar
As coisas que tanto quero
As coisas que tanto quero

Quero só gente decente
P’ra iluminar nossa gente
Livros, bonecas e bolas
Crianças todas na escola
Chega de andar por aí (Chega de FMI)
Sem rumo, sem ter aonde ir (Já temos bastante aquii)

Chega de dominação
Devemos ser todos irmãos
Perseverança à beça
De um povo farto de promessas
Clamando o que tanto quero
Clamando o que tanto quero

Após o poema, Sarmento fez um breve e emocionante discurso, que deixou os navegantes muito felizes tanto por tocar a cada um em particular,  como pela criatividade e humor.

Também quero lembrar e repartir com o mundo coisas, não tão corriqueiras, algumas delas que já tive a graça recente de consegui-las. Quero um mundo cheio de oficinas: literária, do trabalho, do amor, da esperança, do exercício da honestidade, da cidadania, da solidariedade, etc. Quero um mundo pleno de Anitas, nossa homenageada de hoje, artesã das palavras que desconfio ter a mágica de nos transmitir ternura até nas tramas da paixão, do ódio e da inveja, por exemplo. Torço por um mundo cheio de Adelaides, Cacildas, Eletas. Um mundo repleto de Lourdes, nossa líder, a estrela guia de nosso veleiro pelas águas revoltas da poesia, do conto e pelo que de belo existir na combinação infinita das palavras. Quero um mundo de Luzias, um mundo de Saletes, poetisa, com sua lição de como enxotar a saudade, ainda por mim não inteiramente assimilada; Não pode faltar nesse mundo as Salomés, com seu repente, e quem mais de mulher for desse maravilhoso grupo. Também quero um mundo pleno daquele que fala do tridente do diabo, só superável em maldade pelo tridente de Temer, objeto da próxima obra fantástica do nosso João. Um mundo pleno de Tadeus, com o auxílio de dona Guiomar livrando-nos do mal, amém; finalmente, precisamos de Juniors, tenaz, memória do tamanho do mundo, e cujas intervenções nos remetem aos escombros da alma. Enfim, caras e caros colegas, quero um mundo em que a bondade, a esperança, a solidariedade sempre prevaleçam.

 A nossa homenageada deu-nos um poema para esse blog, escolhido com muito carinho por representar o seu atual momento. Este poema está na coletânea que está sendo publicada pela Editora Chiado, em Portugal, mas que será feito um lançamento aqui em Recife, em data ainda a ser confirmada.

SETE CIDADES

Anita Dubeux

Ruínas sob o sol. Silêncio.
Deserta paisagem onde
outrora ouviam-se cânticos
entoados para amenizar o trabalho
árduo e sempre igual.
Hoje apenas árvores
e folhas soltas no chão
– dissipadas pelo vento constante –
ressoam no cenário de recordação.

O tempo retido no gesto inacabado,
na palavra impronunciada
e para sempre inútil.
Vivenda de lembranças
onde repousa o amor antigo
que habita Sete Cidades.

Recife, janeiro de 2017

De volta ao começo, no Momento Poético tivemos um poema de Paul Eluard que Salete nos enviou, lamentando por não poder estar presente naquele dia. O poema foi Liberdade que, além de ser uma grande obra literária, teve importante papel na história recente, fundamentalmente durante a Segunda Guerra Mundial. Escrito em 1942, com o titulo Une Seule Pensée (Um Único Pensamento), o poema foi transportado clandestinamente para a Inglaterra onde foi traduzido para várias línguas e distribuído sob a forma de panfleto, lançados dos aviões dos aliados em toda a Europa ocupada. Uma parte dessa história nos diz respeito porque foi Cícero Dias, pintor pernambucano, que morava em Paris à época, o responsável por contrabandear o poema da França ocupada para a Inglaterra. Por esse gesto,  Dias (1907-2003) recebeu a condecoração Ordem Nacional do Mérito,do Governo Francês, em 1998. Outro pernambucano teve contato com a obra e com o próprio autor, Paul Eluard, em 1913-14, quando ambos lutavam contra a tuberculose num sanatório em Cladavel, na Suiça: Manuel Bandeira. Muitos anos depois, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade fizeram a tradução do poema. É esta tradução  que nós estamos trazendo hoje aqui para o blog.

Paul Éluard, pseudônimo de Eugène Emile Paul Grindel (Saint-Denis, 14/12/1895 – Charenton-le-Pont, 18/11/1952)  foi um poeta francês,  autor de poemas contra o nazismo que circularam clandestinamente durante a Segunda Guerra Mundial. Tornou-se mundialmente conhecido como O Poeta da Liberdade. Paul Eluard tem poemas nos filmes de Godard. Liberté também apareceu em filme.

 

LIBERTÉ                                                                  LIBERDADE

Tradução:  Manuel Bandeira                e                 Carlos Drummond de Andrade

Sur mesahiers solier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom
Sur toutes les pages lues

Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nomSur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nomSur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nomSur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nomSur tous mes chiffons d’azur
Sur l’étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J’écris ton nomSur les champs sur l’horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J’écris ton nomSur chaque bouffée d’aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J’écris ton nomSur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l’orage
Sur la pluie épaisse et fade
J’écris ton nom

Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J’écris ton nom

Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J’écris ton nom

Sur la lampe qui s’allume
Sur la lampe qui s’éteint
Sur mes maisons réunies
J’écris ton nom

Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J’écris ton nom

Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J’écris ton nom

Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J’écris ton nom

Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom

Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J’écris ton nom

Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J’écris ton nom

Sur l’absence sans désir
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J’écris ton nom

Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l’espoir sans souvenir
J’écris ton nom

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.

Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome Em toda página lida
Em toda página branca
Pedra sangue papel cinza
Escrevo teu nome Nas imagens redouradas
Na armadura dos guerreiros
E na coroa dos reis
Escrevo teu nomeNas jungles e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
No céu da minha infância
Escrevo teu nome Nas maravilhas das noites
No pão branco da alvorada
Nas estações enlaçadas
Escrevo teu nome

Nos meus farrapos de azul
No tanque sol que mofou
No lago lua vivendo
Escrevo teu nome

Nas campinas do horizonte
Nas asas dos passarinhos
E no moinho das sombras
Escrevo teu nome

Em cada sopro de aurora
Na água do mar nos navios
Na serrania demente
Escrevo teu nome

Até na espuma das nuvens
No suor das tempestades
Na chuva insípida e espessa
Escrevo teu nome

Nas formas resplandecentes
Nos sinos das sete cores
E na física verdade
Escrevo teu nome

Nas veredas acordadas
E nos caminhos abertos
Nas praças que regurgitam
Escrevo teu nome

Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome

No fruto partido em dois
de meu espelho e meu quarto
Na cama concha vazia
Escrevo teu nome

Em meu cão guloso e meigo
Em suas orelhas fitas
Em sua pata canhestra
Escrevo teu nome

No trampolim desta porta
Nos objetos familiares
Na língua do fogo puro
Escrevo teu nome

Em toda carne possuída
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome

Na vidraça das surpresas
Nos lábios que estão atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome

Em meus refúgios destruídos
Em meus faróis desabados
Nas paredes do meu tédio
Escrevo teu nome

Na ausência sem mais desejos
Na solidão despojada
E nas escadas da morte
Escrevo teu nome

Na saúde recobrada
No perigo dissipado
Na esperança sem memórias
Escrevo teu nome

E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

Liberdade

 

Em seguida foi lido A Festa no Jardim, de Katherine Mansfield. A capitã da embarcação, Lourdes Rodrigues, falou um pouco sobre a autora, da amizade e rivalidade entre ela e Virgínia Woolf que confessara em seu diário ter sido Katherine a única autora que ela realmente invejara. O estilo moderno da autora realmente influenciou toda uma geração de escritores que viam na sua escrita intimista muita densidade e qualidade literária.  A leitura do conto foi acompanhada pelo original em Inglês, o que ajudou a tirar algumas dúvidas, pois havia mais de uma tradução do conto na ocasião. Lourdes Rodrigues havia pedido que lêssemos em casa antes e refletíssemos um pouco, usando os conhecimentos que já dispomos para análise e anotássemos as observações mais relevantes. Além disso como se tratava de um Estudo de Caso extraído do livro Para ler Literatura como um Professor , de Thomas C. Foster, havia uma pergunta que deveríamos fazer :O que trata o conto? Pergunta direcionadora da discussão que revelou não haver muitos pontos comuns, mostrando que a leitura coletiva é muito mais rica exatamente por esse aspecto. Qualquer leitura individual não nos dará a visão ampliada que uma leitura coletiva nos oferece. Houve uma rodada por todos os participantes, cada um do seu lugar no mundo e na literatura trazendo a sua contribuição. Lourdes pediu que levássemos por escrito as nossas visões para compor a análise que seria objeto de um blog. Entretanto, a  análise do nosso marujo  Junior, aplaudida no final, pela profundidade e clareza do ponto de vista psicanalista dos ingredientes do conto, nós gravamos e vamos deixar aqui postado.

:

 

Mais fragmentos do baú

Das viagens marianas tirei do baú Austro Costa, apresentado por Salomé Barros, viageira que gosta muito dos versos dos poetas da terrinha, assim como todos nós.

Austro Costa, além de poeta, jornalista, compositor nascido Austriclínio Ferreira Quirino, que ele assim que se descobriu homem das letras tratou de modificar, adotando aquele pseudônimo. Ao longo do tempo usou outros, entre eles, João da Rua Nova, Alcedo Tryste, Chrispim Fialho, Fra-Diávolo, João Queremista, João-do-Moka sem abandonar, jamais, o primeiro. Nasceu em Limoeiro, em 1899, órfão de pai, abandonado pela mãe, criado por um tio comerciante que o colocou para trabalhar no balcão de sua loja de tecidos. Mas parece que não era muito dado aos negócios, preferindo trabalhar na biblioteca como zelador, mais próximo dos seus amores. A sua carreira poética iniciou em LImoeiro, ali publicou seu primeiro poema, no jornal “O Empata”.

Vindo para a cidade do Recife, trabalhou numa empresa distribuidora de livros em fascículos (1918) e atuou na imprensa ocupando funções de repórter, cronista, copydesk em vários jornais A Luta, Jornal do Recife, Jornal do Comercio, A Notícia, Diário da Tarde e no Diário de Pernambuco, onde escreveu regularmente de 1922 a 1929. No Diário da Tarde, manteve a seção de sonetos humorísticos De Monóculo, de 1933 a 1935, da qual nasceu o livro póstumo organizado pelo escritor Luiz Delgado em 1967. A sua faceta humorística e satírica, que explorava bem o coloquial e a circunstância, são constatadas na longa série de sonetos De monóculo. Ele fazia um tipo dândi sempre presente nos círculos sociais, nas revistas e jornais com muito sucesso pela seu humor e sociabilidade.

O primeiro livro de poesias Mulheres e rosas foi publicado em 1922, recebendo boa crítica. Integrou em 1924, o Movimento Modernista em Pernambuco, aderindo ao verso livre, versando sobre o cotidiano. Seu segundo e último  livro De Vida e Sonho recebeu o prêmio Academia Pernambucana de Letras, Othon Bezerra de Melo. O poeta também compôs vários hinos. Ele dizia que tinha três “cachaças”: imprensa, política e poesia.

Segundo Gilberto Freyre, ele foi “um dos melhores poetas românticos de Pernambuco. Entre seus poemas mais famosos estão Capibaribe, meu rio; Salomé Toda de Verde;  O Recife da Madrugada é um Poema Futurista; Tartufo-mor; e O Último Porto, considerado pelo crítico Fausto Cunha como um dos vinte maiores sonetos da literatura brasileira.Em 1994, a FUNDARPE publicou uma antologia poética de Austro Costa, organizada pelo escritor Paulo Gustavo e com prefácio de Mauro Mota. Poemas que só foram publicados em revistas e jornais e que permaneciam inéditos em livro. Em 1949, ele havia tomado posse na cadeira nº. 5 da Academia Pernambucana de Letras.

Casou-se aos quarenta e oito anos de idade com Helena Lins de Oliveira.

Faleceu em Recife, outubro de 1953, em decorrência do acidente com o ônibus no qual ele viajava. Dizem que ele havia cedido o seu lugar para uma senhora e viajava, na ocasião, em pé, lendo um livro.

Austro Costa privilegiou o seu tempo, as paisagens, os lugares, costumes, eventos através de crônicas e versos.

O Último Porto
A Nehemias Gueiros

Porto do Desencanto. Cais do tédio.
Calmaria. Abandono. Solidão.
(A quem dizer meu último epicédio
A quem fazer minha última canção)

Depois de tanto malogrado assédio
a naus esquivas que bem longe vão,
– eate ancorar soturno, e sem remédio,
do velho brigue que é meu coração…

meu navio-pirata doutros dias,
velas colhidas – que de nostalgias
nessa langue modorra junto aos cais!

Ontem Mar alto… expedições bizarras…
Hoje (é inútil que tremas nas amarras)
a solidão… a bruma… o nunca-mais!…

Salomé toda de verde…

O teu vestido verde, esse vestido
com que te vi domingo, na novena,
não condiz bem com tua tez morena..
Não o uses mais! Atende a este pedido

Tu, que és somente Malvadez e Olvido
e tens no peito um coração de hiena,
olha que esse vestido te condena
e é, no teu corpo, um símbolo traído!

Guarda o vestido verde… ou não te zangue
o que te imploro aqui, flor das ingratas:
muda-lhe a cor… embebe-o no meu sangue!

Sou teu São João, ó Salomé sem dança!
mas, se – morena e má – rindo me matas,
não me mates vestida de esperança!…

Poema do Frevo

A Cidade, cedo, vira camarada,
vem toda para rua, […]
toda alvoroçada,
toda colorida,
sem pensar na crise,
sem pensar na vida,
sem pensar em nada…
vem toda para a rua vibrante, enfustecida
saracoteante”.
vibrar,
delirar…
E a farsa burguesa dos vãos preconceitos
Visíveis e estreitos
– Olé !-
de logo é esquecida, anulada, vaiada em tumulto […]
isto é,
o estalido orgulho, a vã fatuidade,
toda a austeridade
da burguesia
de pronto se desfazem em louca alegria
– EVOHE! EVOHE! –
e haja liberdade,
e haja intimidade,
a larga, a vontade…
Que promiscuidade!
Que democracia!
Carnavalesca Cidade!
Paraíso da Folia!…
FOLIA!

Depois de Austro Costa, continuamos a nossa viagem literária  dessa feita com o cordel de Salomé Barros Maturidade Rima com Sexualidade:

MATURIDADE RIMA COM SEXUALIDADE

Salomé Barros

A vida nesse planeta
Tem constante evolução
Já nascemos programados
Pra cumprir uma missão
E tudo correndo bem
Ganhamos prorrogação

Acrescentar vida aos anos
Riqueza à maturidade
Incluindo com certeza
A sexualidade
Cuidando pra não perder
O prazo de validade

Cada um é diferente
Ninguém vai poder negar
Uns abertos para o mundo
Outros mais de observar
Mas todos sem exceção
Gostam de se aconchegar

Não é só na juventude
Que o desejo aparece
Só muda a qualidade
O afeto fortalece
E viver sem emoções
Afinal ninguém merece

Experiência de vida
Vem junto com a idade
Muitos anos de convívio
Provocam cumplicidade
Companheirismo e afeto
Num clima de liberdade

Quem disse que os idosos
Se aposentam da vida
Só são avôs e avós
E tem vida aborrecida
Precisa nos seus neurônios
Dar uma boa mexida

Por incrível que pareça
Ainda há preconceito
Resquício da educação
Carregada de conceito
De que sexo é pecado
Falar era desrespeito

Talvez só com a idade
Auge do conhecimento
Onde a personalidade
Atinge o melhor momento
As formas de amor e sexo
Alcancem seu crescimento

A mídia traz o enfoque
Na imagem corporal
Distorcer essa visão
Faz um diferencial
Valorizando equilíbrio
E saúde emocional

Afetividade inclui
Sentimentos e emoções
Auto-estima também conta
Pra apimentar as paixões
É um pacote completo
Que alimenta as pulsões

As mudanças acontecem
Nem toda fase é igual
Há que se redescobrir
O que pra nós é legal
O desejo é que não muda
É impulso natural

Descobertas científicas
Vem pra desmistificar
E trazem as soluções
Para o sexo ajudar
Farmácias estão aí
É só ir lá e comprar

Importante envelhecer
Com qualidade de vida
E se nada acontecer
Dê uma boa sacudida
Se enfeite e saia pra o mundo
Com a alma abastecida

Ficamos encantados com o texto de Salomé, nossa cordelista de primeira linha. É sempre com prazer que ouvimos um cordel, essa riqueza cultural da nossa Região. Há pouco li no livro Lá Sou Amigo do Rei, de Carlos Marques, que um decano da Sorbonne um dos maiores especialistas em cordel de todos os tempos, Raymond Cantel, segundo o autor, havia deixado em testamento o seu acervo de milhares de livretos de cordel adquiridos em vários estados do Nordeste para a Universidade de Poitiers, em Paris, onde hoje se encontra digitalizado e conservado em salas cuidadosamente refrigeradas, para serem estudados por pesquisadores do mundo inteiro. Informação que muito nos alegra não só pela valorização dessa produção genuinamente popular em suas origens, como pela sua preservação senão aqui pelo menos no exterior. .

Em seguida,  Anita trouxe a sua releitura do conto – Hoje de Madrugada – de Raduan Nassar, onde ela conta a história a partir do personagem feminino, entregando-lhe a voz para falar dos seus sentimentos naquele encontro que ela mesma provocou durante a madrugada. O texto foi muito elogiado pelos viageiros que o acharam muito bem escrito, muito bem tecido, trazendo aspectos novos para a história .Apesar de muito bom, a ponto de alguns viageiros terem dificuldade de apresentar alguma sugestão de mudança, por sugestão de Júnior, foi proposto que ela desse mais espaço à histeria que uma rejeição daquela poderia provocar em uma mulher, afastando-se mais do autor Raduan Nassar, recriando as cenas ao estilo da escritora Anita. Ela concordou, ficando de apresentar posteriormente a sua reescrita.

O encontro terminou com a continuação da leitura do capítulos III de O Riso de Bergson.

                                         Lourdes Rodrigues

Mais fragmentos de viagens do báu

 

Adelaide, nossa viageira sempre presente mesmo quando ausente,  havia enviado para o grupo um poema de Jaci Bezerra, poeta nordestino, alagoano, radicado em Pernambuco, que foi lido no Oficina. Sarmento, que também é das Alagoas, falou-nos do poeta com quem conviveu um pouco, e com a família mais ainda.

Lançado por César Leal no Suplemento Literário do Diário de Pernambuco em 1966, Jaci Bezerra publicou vários livros, assim como participou de alguns importantes movimentos literários, entre eles, A Geração 65, marco irreversível na história da cultura brasileira, segundo César Leal. Além de poeta, Jaci Bezerra é dramaturgo, entre as peças de sua autoria O Galo  e Auto da Renovação. Poeta, contista, dramaturgo, cronista, editor e animador cultural, fundou, em 1979, com alguns companheiros,  a Edições Pirata, do Recife, responsável pela publicação de mais de duas centenas de títulos de escritores brasileiros de várias gerações e tendências.

 

 

 

 

 

 

 

São alguns dos livros que publicou: Romances, Lavradouro, Livro de Olinda, Linha D’Água, Comarca da Memória, entre outros.

 

LINHA D’ÁGUA
Jaci Bezerra

Em Alagoas me achei, achando o mar,
desde então o conservo em mim, aberto,

porém nunca aprendi a soletrar
a insone cadência dos seus metros.

Talvez porque o mar, nervoso e inquieto,
no pacífico silêncio onde Deus viça,

não escreve nem repete o mesmo verso
no seu caderno de águas movediças.

Achando o mar me fiz cúmplice da beleza,
mas ao me consumir em suas chamas

soube que a alma é uma onda de incerteza
presa na cela da nossa areia humana.

Aprendi com o mar a ser constante
e a aceitar, sem pudor, as coisas frágeis:

A fazer da inconstância dos instantes
lembranças o mais possível perduráveis.

Entregue ao mar, pago ao mar o meu tributo,
e ao escutá-lo na minha humana cela,

sinto que o mar, fremindo longe e oculto,
me conta coisas que a ninguém revela.
Linha d’água,2007.

 

CANÇÃO

 

Vou plantar na varanda a minha mágoa,

e espero, assim, que a vida a mim esqueça.

Fluídico e sereno como as águas

deixem, vocês, que eu me desapareça.

Vou partir depois disso, prontos tenho

o passaporte e a blusa de emigrante.

Deixem vocês, eu parto como venho

para ser outra vez o que fui antes,

As lágrimas ardendo são estrelas

cintilando no fundo de outro poço.

Vocês não se debrucem para vê-las

que, nelas, acharão só meus destroços

(a canção que inventei de ouvido, inteira,

e as rosas florescendo nos meus ossos).

Não procurem saber dos meus intentos,

peço como um favor, ninguém me ouça,

pois rosário já vem tangendo os ventos

e apaziguando a minha carne moça,

vem molhada de luz, vem sem lamentos,

trazendo um lírio em suas mãos de louça.

Já é chegada a hora da partida,

No meu bolso soluça o coração,

por isso, não liguem muito à vida

que para olhar e ver, trago na mão.

Nem olhem, se ainda me veem, para a ferida

que expõe, aberta, a minha solidão.

Parto rendido e entregue aos meus afetos,

e amigos que não tenho, não terei.

Matei as sempre-vivas do deserto

recusando as canções que não criei.

E descobri, sentindo o amor tão perto,

que nada sou do sonho que inventei.

Depois dos poemas de Jaci Bezerra foi lido um conto incrível de Cortázar levado por mim, por sugestão de Luzia. Sempre estamos velejando pelos mares do escritor argentino por eles nos instigarem a ver além do seu conteúdo formal, por nos permitirem enveredar pela  magia e fantasia, pelo fantástico e mistério. São passagens que nos conduzem a veredas densas, de complexa travessia. As Babas do Diabo permitiu-nos muita discussão, numa bela esgrima entre o que cada um levou de seu nessa viagem, fazendo o seu próprio percurso e o que a narrativa oferecia concretamente. Certamente novas releituras serão feitas, assim como resenhas, resumos, análises.

Jaboatão dos Guararapes, maio de 2017

Lourdes Rodrigues

 

Escarafunchando baús

Escarafunchando baús encontrei fragmentos de viagens pelos mares das palavras que, embora amarfanhados, permaneciam registros vivos, pulsantes, de grandes momentos vividos.

Uma delas foi a de 15 de abril quando Paulo Tadeu, viageiro de longas datas, nos levou a poeta portuguesa Florbela Espanca com o poema Tarde no Mar.

Tarde no Mar
Florbela Espanca

A tarde é de oiro rútilo: esbraseia
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue ao seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia.
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar…

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes…

Este vídeo fala de Florbela Espanca, da sua importância para o mundo literário, dos problemas emocionais que culminaram com o seu suicídio ao 36 anos de idade, apenas.

Em seguida, como era uma semana para nós cristãos de muito siso e pouco riso, dirigimos o leme para o Uruguai e ali escolhemos um roteiro mais denso. Começamos com o conto O Outro Eu, de Mario Benedetii,  que numa narrativa breve, eu diria até brevíssima,  extremamente interessante,  trouxe mais uma vez,  à Oficina, a questão do duplo, tão intensamente analisada quando lemos Wilson, Wilson, de Edgar Alan Poe.

O Outro Eu

(A morte e outras surpresas, 1968)

Mário Benedetti

Tratava-se de um rapaz comum: usava calças da moda, lia gibis, fazia barulho enquanto comia, cutucava o nariz com o dedo, roncava durante a soneca, se chamava Armando Corrente em tudo menos em uma coisa: tinha um Outro Eu.

O Outro Eu usava certa poesia no olhar, se apaixonava pelas atrizes, mentia cautelosamente, se emocionava com o entardecer. O rapaz se preocupava muito com seu Outro Eu e o fazia se sentir incomodado diante de seus amigos. Já o Outro Eu era melancólico e, por causa disso, Armando não podia ser tão vulgar quanto desejava.
Uma tarde Armando chegou cansado do trabalho, tirou os sapatos, moveu lentamente os dedos dos pés e ligou o rádio. Estava tocando Mozart, mas o rapaz dormiu. Quando acordou, o Outro Eu chorava desconsoladamente. Em um primeiro momento, o rapaz não soube o que fazer, mas depois se refez e conscientemente insultou o Outro Eu. Este não disse nada, mas na manhã seguinte já havia se matado.

No começo, a morte do Outro Eu foi um duro golpe para o pobre Armando, mas depois ele pensou que agora sim poderia ser inteiramente vulgar. Esse pensamento o reconfortou.

Levava apenas cinco dias de luto quando saiu pelas ruas com o propósito de exibir sua nova e completa vulgaridade. De longe viu que seus amigos se aproximavam. Isso o encheu de felicidade e o fez imediatamente explodir em risadas. Entretanto, quando passaram próximo dele, seus amigos não notaram sua presença. Para piorar, o rapaz pôde escutar que comentavam: “Pobre Armando. E pensar que parecia tão forte e saudável”.

O rapaz não teve outro remédio que parar de rir e, ao mesmo tempo, sentiu na altura do peito uma aflição que se parecia muito a nostalgia. Mas ele não pôde sentir uma autêntica melancolia, porque toda a melancolia tinha sido levada pelo Outro Eu.

A viagem seguinte foi pelo quarto de Sútulin, na Rússia, que ao aplicar o conteúdo de uma bisnaguinha escura, fininha, em seu quarto, começou a vê-lo crescer, crescer, de forma incontrolável. Trata-se de um conto de Sigismund Krzyanowski, que permaneceu quase toda a sua vida sem ser reconhecido,  cuja  narrativa bem se enquadra no fantástico maravilhoso hiperbólico, segundo Todorov, em que o exagero das dimensões daquele quarto vão criando tensão, asfixiando o leitor,  apesar de  consciente de sua irrealidade. Fantástico! Alguns vídeos e filmes foram feitos baseados nesse conto.  Aqui está um deles, excelente.

Os outros fragmentos ficarão para outra postagem.

Jaboatão dos Guararapes, 23 de maior de 2017

Lourdes Rodrigues

 

 

 

Viagem da Nau da Literatura.

Registro da  viagem de 26 de abril de 2017  da Nau da Literatura.

*Anita Dubeux

Mantendo a tradição de partida, iniciando  com o Momento Poético,  a viageira Luzia trouxe a leitura de dois poemas de Joseph Brodsky, poeta russo, nascido em Leningrado, em 1940.

Joseph Brodsky (1940-1996)  sentia-se marginalizado por sua descendência judaica. Começou a ser conhecido como poeta aos 23 anos. Logo, logo foi denunciado por um jornal de Leningrado  e preso, sob a acusação de “parasitismo social”, já que não possuía nenhum emprego fixo além de escrever poesias. Condenado em 1964 a cinco anos de prisão com trabalhos forçados, passou 18 meses numa região remota e gelada, ao norte do país, onde rachava lenha, quebrava pedras e nas horas livres se dedicava à leitura de antologias de poesia inglesa e americana. Uma campanha realizada pelos poetas soviéticos pressionou o governo a libertá-lo antes do prazo previsto. Mesmo assim, foi  impedido de publicar seus poemas, tendo que fazê-lo clandestinamente, em livretos que circulavam de mão em mão. Em 1971 ele foi convidado pelo Governo a se retirar do país e emigrar para Israel, mas o poeta não aceitou. Saiu um ano depois, embarcado  num avião rumo a Viena. Antes de partir, ele deixou uma carta ao então líder soviético, Leonid Brejnev, em que dizia: “Embora esteja perdendo minha cidadania soviética, eu não deixo de ser um poeta russo”. Brodsky cumpriu o que dissera, mudou-se para Nova Iorque, ajudado pelo seu amigo e poeta inglês W.H. Auden, conseguiu fixar residência nos Estados Unidos, onde permaneceu até sua morte, em 1996. Embora naturalizado americano, continuou escrevendo em russo. Ele mesmo fazia a tradução de seus poemas, que eram publicados em revistas e suplementos literários dos jornais.
Em 1987, Joseph Brodsky recebeu o Prêmio Nobel de Literatura da Real Academia Sueca, empenhada em tirar das bibliotecas os grandes escritores esquecidos pelo mercado editorial e restrito ao mundo acadêmico e projetá-los mundialmente.
Depois do Nobel, a imprensa soviética começou a anunciar a publicação de alguns de seus poemas na revista literária Novy Mir. Cético quanto ao possível reconhecimento tardio de sua arte, Brodsky declarou: “Poemas, romances – essas coisas pertencem à nação, à cultura e ao povo. Elas foram roubadas do povo e agora as coisas roubadas estão sendo devolvidas a seus donos, mas não acho que os donos devam estar agradecidos em recebê-las”.  Contam que no seu famoso julgamento na Russia, o juiz perguntara: “Quem o reconheceu como poeta? Quem o enlistou no rol dos poetas?”, e ele calmamente respondera: “Ninguém. Quem me enlistou no rol da raça humana?”
Há uma tradução do Julgamento de Brodsky que será postada no final.

M.B

Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde
para respirar o ar fresco que vinha do oceano.
O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro
e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.

Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,
tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,
divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro
e, a julgar pelas cartas, tomaste-te aflitivamente idiota.

Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,
em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora
não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda
distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.

Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome
já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,
só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos
de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.

Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre – salvo talvez
numa fotografia – de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?
Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez
dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.

Tradução de Carlos Leite. Paisagem Com Inundação (Lisboa: Edições Cotovia, 2001).

Antes de ler a segunda poesia, inspirada na mitologia grega, Luzia trouxe um resumo  do mito de Odisseu e Telêmaco, abrindo as portas para a melhor compreensão do significado desse poema.

Odisseu a Telêmaco

Caro Telêmaco,
encerrou-se a Guerra
de Tróia. Quem venceu, não lembro. Gregos,
sem dúvida: só gregos deixariam
tantos defuntos longe de seu lar.
Mesmo assim, o caminho para casa
mostrou-se demasiado longo, como
se Posseidon, enquanto ali perdíamos
nosso tempo, tivesse ampliado o espaço.

Não sei nem onde estou nem o que tenho
diante de mim, que suja ilhota é esta,
que moitas, casas, porcos a grunhir,
jardins abandonados, que rainha,
capim, raízes, pedras. Meu Telêmaco,
as ilhas todas se parecem quando
já se viaja há tanto tempo, o cérebro
confunde-se contando as ondas, o olho
chora entulhado de horizonte e a carne
das águas nos entope enfim o ouvido.
Não lembro como terminou a guerra
e quantos anos tens, tampouco lembro.

Cresce, Telêmaco meu filho, os deuses,
só eles sabem se nos reveremos.
Não és mais o garoto em frente a quem
contive touros bravos. Viveríamos
juntos os dois, não fosse Palamedes,*
que estava, talvez, certo, pois, sem mim,
podes, liberto das paixões de Édipo,
ter sonhos, meu Telêmaco, impolutos.

Tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher. Quase uma elegia (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996).

A Song – Poem by Joseph Brodsky

I wish you were here, dear,
I wish you were here.
I wish you sat on the sofa
and I sat near.
The handkerchief could be yours,
the tear could be mine, chin-bound.
Though it could be, of course,
the other way around.

I wish you were here, dear,
I wish you were here.
I wish we were in my car
and you’d shift the gear.
We’d find ourselves elsewhere,
on an unknown shore.
Or else we’d repair
to where we’ve been before.

I wish you were here, dear,
I wish you were here.
I wish I knew no astronomy
when stars appear,
when the moon skims the water
that sighs and shifts in its slumber.
I wish it were still a quarter
to dial your number.

I wish you were here, dear,
in this hemisphere,
as I sit on the porch
sipping a beer.
It’s evening, the sun is setting;
boys shout and gulls are crying.
What’s the point of forgetting
if it’s followed by dying?

Em seguida, Lourdes destacou a ausência de Adelaide e a falta que ela faz: o companheirismo, as contribuições nos debates dos assuntos tratados. Propôs, e foi unanimemente aceito, que as próximas reuniões possam ocorrer em sua casa, uma vez que ela não está em condições de saúde que possibilite deslocamento. Todos manifestaram auguro de melhora da saúde de Adelaide.

A Timoneira lembrou a tarefa sugerida na viagem anterior, de escrita de versões individuais sobre o trio de personagens do conto As Babas do Diabo, de Julio Cortázar, lido naquela ocasião.

O foco principal dessa viagem foi inegavelmente o conto de autoria de Paulo Tadeu, Livrai-nos do Mal, Amém , que ele leu em voz alta e suscitou inúmeras interpretações e sugestões por parte dos viageiros atentos. Uma trama bem urdida e que levou em consideração as recomendações básicas da escrita de contos. O autor deverá apresentar uma nova versão do texto, no próximo encontro, contemplando algumas das sugestões apresentadas, enquanto que os viageiros foram desafiados a escrever versões diferentes, do ponto de vista dos personagens, para efeito didático de escrita criativa.

Lourdes sugeriu um exercício de escrita para Tadeu: reescrever inteiramente o conto a partir da perspectiva da personagem Rute.O viageiro João Gratuliano sugeriu “Então tá, Jeeves”, de P. G. Wodehouse como exemplo de uma narrativa que mostra em vez de dizer e “Emissários do Diabo”, de Gilvan Lemos como exemplo de um romance escrito em falsa terceira pessoa.

Como sugestão de seleção da próxima leitura, surgiu a ideia da escolha de um conto ou romance que contasse com uma resenha elaborada pelo próprio autor.João já havia sugerido “O risco do Bordado” de Autran Dourado que relatou a sua gênese no livro “Uma poética do romance” ou “Doutor Fausto” de Thomas Mann e “A gênese do doutor Fausto”. Eu sugeri “O coração é um caçador solitário”, de Carson McCullers, que na verdade queria dizer “Balada do Café Triste”, que ela resenha detalhadamente no livro póstumo, “Coração Hipotecado”, dissecando cada personagem.

A viagem da semana foi encerrada com o humor das tirinhas de Mafalda.

  • Anita Dubeux é poeta, contista, resenhista, ensaísta.

 O JULGAMENTO DE BRODSKY – texto retirado do blog ESCAMANDRO- poesia tradução crítica –  Tradução do francês de Guilherme Gontijo Flores. A edição utilizada foi Brodski ou le procès d’un poète: commentaires d’Efim Etkind, préface d’Hélène Carrère D’Encausse. Traduzido do russo para o françês por Janine Lévy. Editado pela Librairie Générale Française, em 1988.

As anotações das audiências feitas por Frida Vigdorova e posteriormente editadas na forma de um diálogo é uma experiência digna de peças de Beckett. Por isso, traduzi a partir do francês uma boa parte do processo que hoje funciona como uma espécie de monumento: as perguntas do juiz Savelieva permanecerão, creio, como pérolas da percepção ocidental — não apenas soviética — sobre o ofício do poeta, enquanto as tentativas de resposta de Brodsky por vezes nos fazem lembrar personagens de Kafka, presos num universo burocrático que não parece fazer sentido, diante de um processo em que só poderá ser condenado, ainda que não compreenda muito bem. (Guilherme Gontijo Flores)

Primeira audiência no tribunal

Bairro Dzerjinsky, cidade Leningrado, rua Vosstania, 36.
Juiz Savelieva.
18 de fevereiro de 1964.

Juiz: Qual é a sua profissão?

Brodsky: Escrevo poemas. Faço traduções. Suponho…

J.: Guarde as suposições para o senhor! Porte-se de modo adequado! Não fique em cima do muro! Olhe para o tribunal! Responda de modo conveniente a uma corte! (para mim) Para imediatamente de fazer notas, ou expulsarei a senhora daqui! (Para Brodsky). O senhor tem um trabalho regular?

B.: Eu pensei que se tratasse de um trabalho regular.

J.: Responda a questão!

B.: Escrevo poemas. Pensava que seriam publicados. Suponho…

J.: Não nos interessam as suas suposições. Responda à questão: por que o senhor não trabalhava?

B.: Eu trabalhava. Escrevia poemas.

J.: Isso não nos interessa. O que queremos saber é a instituição à qual o senhor estava ligado.

B.: Eu tinha contratos com uma editora.

J.: Ganhava o suficiente para viver? Quais contratos? Para quais datas? Por quais valores? Seja mais preciso.

B.: Já não lembro exatamente. Estão todos com meu advogado.

J.: O senhor é o interrogado.

B.: Saíram em Moscou dois livros com traduções minhas (ele informa quais).

J.: Qual é a sua experiência profissional, e quanto tempo durou?

B.: Cerca de…

J.: Nada de “cerca”. Isso não é resposta.

B.: Cinco anos.

J.: Onde o senhor trabalhou?

B.: Numa usina. Com uma equipe de geólogos.

J.: Quanto tempo trabalhou na usina?

B.: Um ano.

J.: Em qual cargo?

B.: Perfurador.

J.: De modo geral, qual é a sua especialidade?

B.: Eu sou poeta. Poeta-tradutor.

J.: Quem decidiu que o senhor era poeta? Quem o classificou entre os poetas?

B.: Ninguém. (Sem qualquer desafio) E quem me classificou no gênero humano?

J.: E o senhor estudou com tal objetivo?

B.: Qual objetivo?

J.: De se tornar poeta. Não tentou fazer os estudos superiores para se preparar… para aprender…

B.: Eu não pensava que seria possível aprender isso.

J.: Como se tornar poeta, então?

B.: Penso que… (Desconcertado) … é um dom de Deus…

J.: O senhor deseja apresentar alguma demanda ao tribunal?

B.: Adoraria saber por que fui preso.

J.: Isso é uma questão, não uma demanda.

B.: Nesse caso, não tenho demanda a formular.

J.: A defesa tem questões?

Advogada: Sim. Cidadão Brodsky, o dinheiro que o senhor ganhou, por acaso foi levado à sua família?

B.: Sim.

A.: Seus pais também trabalhavam?

B.: São aposentados.

A.: Vocês vivem juntos?

B.: Sim.

A.: Portanto, a sua renda contribuía para o orçamento familiar.

J.: A senhora não está apresentando questões, está generalizando. E o ajuda a responder. Não generalize: apenas apresente questões.

A.: O senhor foi inscrito num asilo psiquiátrico?

B.: Sim.

A.: O senhor foi hospitalizado?

B.: Do fim de dezembro de 1963 até 5 de janeiro deste ano, em Moscou, no Hospital Kachtchenko.

A.: O senhor não acha que a sua enfermidade o impediu de manter por muito tempo o mesmo emprego?

B.: É possível. Certamente. Na verdade, não sei bem. Não, não sei.

A.: O senhor traduziu poemas para uma antologia de poetas cubanos?

B.: Sim.

A.: O senhor traduziu romanceros espanhóis?

B.: Sim.

A.: O senhor tinha relações com a seção de tradução da União dos Escritores?

B.: Sim.

A.: Demando ao tribunal que sejam versados no dossiê o atestado do Escritório dos Tradutores, a lista de poemas publicados, a cópia dos contratos (ela os enumera), o seguinte telegrama: “Favor acelerar assinatura contrato”. Demando que o cidadão Brodsky seja objeto de um exame médico em que seja constatado seu estado de saúde e se estabeleça se ele o impediria de ocupar um emprego regular. Ademais, demando que o cidadão Brodsky seja libertado sem demora. Considero que ele não cometeu qualquer delito e que seu encarceramento não apresenta fundamento legal. Ele tem domicílio fixo e pode, portanto, responder um mandato de comparecimento.

O tribunal se retira para deliberar. Depois, retoma seu lugar, e o juiz lê o arrazoado:

“Submeter Brodsky a um exame psiquiátrico que deverá decidir se ele sofre ou não de alguma enfermidade psíquica, e se tal enfermidade impediria que ele fosse enviado aos trabalhos forçados em regiões distantes. Uma vez que o dossiê indica que Brodsky recusa hospitalização, encarregar a seção 18 da milícia para conduzi-lo ao exame psiquiátrico.”

J.: O senhor tem alguma questão?

B.: Gostaria que levassem papel e um lápis para minha cela.

J.: Quanto a isso, dirija-se ao chefe da milícia.

B.: Eu já lhe demandei, e ele me negou. Eu peço papel e um lápis.

J.: (amansado): Pois bem. Eu concederei.

B.: Obrigado.

Quando o público evacuava a sala, nós percebemos uma multidão, sobretudo jovens, nos corredores e escadas.

J.: Quanta gente! Não imaginei que haveria tamanho agrupamento.

Alguém na multidão: Não é todo dia que se julga um poeta.

J.: Poeta ou não, para nós dá no mesmo!

Segundo a senhora Toporova, advogada de defesa, o juiz Savelieva deveria ter libertado Brodsky para que este fosse por conta própria ao exame, no dia seguinte, no hospital psiquiátrico; porém Savelieva o manteve preso, e foi sob escolta que ele foi conduzido ao hospital.

Segunda Audiência

Fontanka, sala do Clube de Construtores.
13 de março de 1964.

As conclusões do exame são as seguintes: reconhece-se a existência de traços psicopáticos de caráter, mas considera-se que o sujeito está apto para o trabalho. Que, por conseguinte, pode ser submetido a medidas administrativas.

Um letreiro acolhe quem chega: “Processo do parasita social Brodsky”. A grande sala do Clube de Construtores está repleta de gente.

[…]

J.: Quanto aos autointitulados poemas, nós concedemos [a retirada do dossiê]; mas quanto ao diário íntimo, não há qualquer motivo para removê-lo do dossiê. Cidadão Brodsky, desde 1956 o senhor mudou treze vezes de emprego. Trabalhou um ano numa usina, depois parou de trabalhar por seis meses. No verão seguinte, participou de uma excursão geológica, então passou quatro meses sem trabalhar. (Ele enumera os diversos postos e as interrupções entre cada um deles) Explique à corte porque, nesses intervalos do seu trabalho, o senhor viveu como parasita.

B.: Nesses intervalos, eu trabalhava. Ocupava-me com o que me ocupo sempre: escrevia poemas.

J.: Então o senhor escrevia os seus autointitulados poemas? Qual era a utilidade dessas constantes trocas de emprego?

B.: Eu comecei a trabalhar aos quinze. Tudo me interessava. Eu trocava porque queria conhecer o máximo possível das coisas e das pessoas.

J.: E o que o senhor fez de útil pela pátria?

B.: Escrevi poemas. É o meu trabalho. Estou convencido… creio realmente que aquilo que escrevi presta um serviço não apenas aos homens de hoje, como também às gerações por vir.

Uma voz no público: Ah, bom, vai, diz! Ele não se acha pouco!

Outra voz: Um poeta, é normal que pense assim.

J.: Então o senhor considera que os seus autointitulados poemas são úteis aos homens?

B.: Por que o senhor sempre qualifica os meus poemas como “autointitulados” poemas?

J.: Nós os chamamos de “autointiulados” poemas porque não podemos considerar de outro modo.

Sarokin (procurador geral): O senhor nos disse que estava ávido por saber. Por que não quis fazer o serviço militar?

B.: Não responderei esse tipo de questão.

J.: Responda!

B.: Eu fui dispensado. O que eu “quis” não tem pertinência alguma, simplesmente fui liberado. Não é a mesma coisa. Eu fui dispensado duas vezes. Na primeira por causa da enfermidade de meu pai, na segunda por causa da minha.

S.: É possível viver com o que o senhor ganha?

B.: É possível. Na prisão, pediam-me todo dia uma assinatura para reconhecer que eu custava quarenta kopecks à administração. Ora, eu ganhava mais de quarenta kopecks por dia.

S.: Mas era necessário se vestir, se calçar.

B.: Eu tenho uma roupa. É velha, mas tenho uma. Pra mim basta.

A.: Os especialistas apreciavam os seus poemas?

B.: Sim. Tchoukovski e Marchak me fizeram grandes elogios pelas traduções. Mais do que eu merecia.

A.: O senhor travou relações com a seção de tradutores da União dos Escritores?

B.: Sim. Participei da revista Pela primeira vez em língua russa e apresentei leituras da minhas traduções do polonês.

J.: A senhora deveria interrogá-lo sobre o que ele fez de útil, e só apresenta questões a respeito das suas leituras e traduções.

A.: Suas traduções representam precisamente um trabalho útil.

J.: Brodsky, explique à corte porque o senhor não fazia nada entre dois empregos.

B.: Eu trabalhava. Escrevia poemas.

J.: Como isso lhe impedia de trabalhar de verdade.

B.: Eu trabalhava. Escrevia poemas.

J.: Havia pessoas que trabalhavam na usina e que ao mesmo tempo escreviam poemas. O que lhe impedia de fazer o mesmo?

B.: Nem todos se parecem comigo, até mesmo na cor dos olhos ou na expressão do rosto.

J.: Não foi o senhor quem descobriu isso. Todos o sabem. Melhor seria se o senhor nos explicasse o valor da sua participação em nossa grande marcha progressiva rumo ao comunismo.

B.: Não se constrói o comunismo apenas manuseando ferramentas o trabalhando na terra. É também o trabalho intelectual que…

J.: Grandiosas frases! Diga-nos em que bases o senhor pretende construir o seu futuro profissional.

B.: Eu pensavam em escrever poemas e fazer traduções. Mas, se é contrário a uma norma qualquer, admitida em geral, eu terei um emprego e escreverei do mesmo modo os poemas.

Tiagli (jurado): Entre nós, todos trabalhamos. Como o senhor viveu tanto tempo na indolência?

B.: O senhor não reconhece meu trabalho como tal. Eu escrevia versos, para mim é um trabalho.

J.: O senhor aprendeu uma lição a partir do que se publicou a seu respeito?

B.: O artigo de Lerner era mentiroso. Foi a única lição que eu aprendi.

J.: Assim, ela não te inspirou outra coisa?

B.: Não. Eu não me considero um parasita social.

[….]

J.: Pare de tomar notas!

Eu: Eu sou jornalista, membro da União dos Escritores. Faço artigos sobre a educação da juventude. Peço-lhe permissão para tomar notas.

J.: Quem sabe as notas que a senhora vai tomar! Pare imediatamente!

Uma voz no público: Ela voltou a tomar notas!

[…]

O tribunal retoma seu lugar e o juiz lê a sentença:

“Como bem provam as frequentes mudanças de emprego, Brodsky se esquivou sistematicamente de seu dever como cidadão soviético, que deve produzir bens materiais e garantir pessoalmente sua subsistência. Em 1961 e 1962, os órgãos do MGB [trata-se da KGB da época] darem-lhe um aviso. Ele prometeu conseguir um emprego regular. Mas não fez nada disso e continuou sem trabalhar, escrevendo e apresentando leituras de poemas decadentes. Dos relatórios das comissões de trabalho com os jovens autores, conclui-se que Brodsky não é poeta. Os leitores do Vechernij Leningrad [nome de um jornal de Leningrado] o condenaram. Por conseguinte, em aplicação do decreto de 4 de maio de 1961, o tribunal estipula que Brodsky será enviado para cinco anos de trabalhos forçados em uma região distante.”

Um auxiliar da milícia (que passava diante da advogada): Então, a senhora perdeu o caso, camarada advogada?

[transcrição do processo efetuada por Frida Vigdorova.

Viagem Oitava pelo Riso ou Diário de Bordo de 05 de abril de 2017

Diário de bordo do dia 5 de Abril de 2017.

*João Gratuliano como primeiro oficial ad hoc no comando da nau por motivo de doença da capitã.

Todo ditado popular tem sua sabedoria, e quando os gatos saem, os ratos fazem a festa não foge à regra. Sem a capitã, nosso quebra gelo foi um pouco mais prolongado. A tripulação esteve um pouco reduzida, mas quando já estavam Salete, Anita, Adelaide, Sarmento, Everaldo Júnior, Paulo, eu e as irmãs Cajazeiras, digo, Portela, nosso viageiro Everaldo Júnior  falou de um texto escrito por Freud  sobre a transitoriedade, que surgiu de um passeio do mestre da psicanálise com dois amigos (que os historiadores dizem ter sido Rilke e Lou Andreas Salomé) por uns campos sorridentes. 

.Eis o texto:

8. SOBRE A TRANSITORIEDADE (1916 [1915])

VERGÄNGLICHKEIT

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:1916 Em Das Land Goethes 1914-1916. Stuttgart: Deutsche Verlagsanstalt. Pág. 37-8.1926 Almlanach 1927, 39-42.
1928 G.S., 11, 291-4.1946 G.W., 10, 358-61.
(b) TRADUÇÃO INGLESA:‘On Transience’1942 Int. J. Psycho-Anal., 23 (2), 84-5. (Trad. de James Strachey.)1950 C.P., 5, 79-82. (Mesmo tradutor.)

A presente tradução inglesa é uma reimpressão ligeiramente alterada da que foi publicada em 1950.
Este ensaio foi escrito em novembro de 1915, a convite da Berliner Goetherbund (Sociedade Goethe de Berlim) para um volume comemorativo lançado no ano seguinte sob o título de Das Land Goethes (O País de Goethe). Esse volume, produzido com esmero, enfeixava grande número de contribuições de autores e artistas conhecidos, passados e atuais, como von Bülow, von Brentano, Ricardo Huch, Hauptmann e Liebermann. O original alemão (exceto o quadro que apresenta dos sentimetnos de Freud sobre a guerra, que estava então em seu segundo ano) constitui excelente prova de seus poderes literários. É interessante notar que o ensaio abrange um enunciado da teoria do luto contido em ‘Luto e Melancolia’ (1971e), que Freud escrevera alguns meses antes, mas que só foi publicado dois anos depois.

SOBRE A TRANSITORIEDADE

Não faz muito tempo empreendi, num dia de verão, uma caminhada através de campos sorridentes na companhia de um amigo taciturno e de um poeta jovem mas já famoso. O poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade.

A propensão de tudo que é belo e perfeito à decadência, pode, como sabemos, dar margem a dois impulsos diferentes na mente. Um leva ao penoso desalento sentido pelo jovem poeta, ao passo que o outro conduz à rebelião contra o fato consumado. Não! É impossível que toda essa beleza da Natureza e da Arte, do mundo de nossas sensações e do mundo externo, realmente venha a se desfazer em nada. Seria por demais insensato, por demais pretensioso acreditar nisso. De uma maneira ou de outra essa beleza deve ser capaz de persistir e de escapar a todos os poderes de destruição.

Mas essa exigência de imortalidade, por ser tão obviamente um produto dos nossos desejos, não pode reivindicar seu direito à realidade; o que é penoso pode, não obstante, ser verdadeiro. Não vi como discutir a transitoriedade de todas as coisas, nem pude insistir numa exceção em favor do que é belo e perfeito. Não deixei, porém, de discutir o ponto de vista pessimista do poeta de que a transitoriedade do que é belo implica uma perda de seu valor.

Pelo contrário, implica um aumento! O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição. Era incompreensível, declarei, que o pensamento sobre a transitoriedade da beleza interferisse na alegria que dela derivamos. Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, do modo que, em relação à duração de nossas vidas, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado encanto. Um flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal. Realmente, talvez chegue o dia em que os quadros e estátuas que hoje admiramos venham a ficar reduzidos a pó, ou que nos possa suceder uma raça de homens que venha a não mais compreender as obras de nossos poetas e pensadores, ou talvez até mesmo sobrevenha uma era geológica na qual cesse toda vida animada sobre a Terra; visto, contudo, que o valor de toda essa beleza e perfeição é determinado somente por sua significação para nossa própria vida emocional, não precisa sobreviver a nós, independendo, portanto, da duração absoluta.

Essas considerações me pareceram incontestáveis, mas observei que não causara impressão quer no poeta quer em meu amigo. Meu fracasso levou-me a inferir que algum fator emocional poderoso se achava em ação, perturbando-lhes o discernimento, e acreditei, depois, ter descoberto o que era. O que lhes estragou a fruição da beleza deve ter sido uma revolta em suas mentes contra o luto. A idéia de que toda essa beleza era transitória comunicou a esses dois espíritos sensíveis uma antecipação de luto pela morte dessa mesma beleza; e, como a mente instintivamente recua de algo que é penoso, sentiram que em sua fruição de beleza interferiam pensamentos sobre sua transitoriedade.

O luto pela perda de algo que amamos ou admiramos se afigura tão natural ao leigo, que ele o considera evidente por si mesmo. Para os psicólogos, porém, o luto constitui um grande enigma, um daqueles fenômenos que por si sós não podem ser explicados, mas a partir dos quais podem ser rastreadas outras obscuridades. Possuímos, segundo parece, certa dose de capacidade para o amor – que denominamos de libido – que nas etapas iniciais do desenvolvimento é dirigido no sentido de nosso próprio ego. Depois, embora ainda numa época muito inicial, essa libido é desviada do ego para objetos, que são assim, num certo sentido, levados para nosso ego. Se os objetos forem destruídos ou se ficarem perdidos para nós, nossa capacidade para o amor (nossa libido) será mais uma vez liberada e poderá então ou substituí-los por outros objetos ou retornar temporariamente ao ego. Mas permanece um mistério para nós o motivo pelo qual esse desligamento da libido de seus objetos deve constituir um processo tão penoso, até agora não fomos capazes de formular qualquer hipótese para explicá-lo. Vemos apenas que a libido se apega a seus objetos e não renuncia àqueles que se perderam, mesmo quando um substituto se acha bem à mão. Assim é o luto.

Minha palestra com o poeta ocorreu no verão antes da guerra. Um ano depois, irrompeu o conflito que lhe subtraiu o mundo de suas belezas. Não só destruiu a beleza dos campos que atravessava e as obras de arte que encontrava em seu caminho, como também destroçou nosso orgulho pelas realizações de nossa civilização, nossa admiração por numerosos filósofos e artistas, e nossas esperanças quanto a um triunfo final sobre as divergências entre as nações e as raças. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ciência, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de nós os maus espíritos que julgávamos terem sido domados para sempre, por séculos de ininterrupta educação pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez nosso país e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos do muito que amáramos e mostrou-nos quão efêmeras eram inúmeras coisas que consideráramos imutáveis.

Não pode surpreender-nos o fato de que nossa libido, assim privada de tantos dos seus objetos, se tenha apegado com intensidade ainda maior ao que nos sobrou, que o amor pela nossa pátria, nossa afeição pelos que se acham mais próximos de nós e nosso orgulho pelo que nos é comum, subitamente se tenham tornado mais vigorosos. Contudo, será que aqueles outros bens, que agora perdemos, realmente deixaram de ter qualquer valor para nós por se revelarem tão perecíveis e tão sem resistência? Isso parece ser o caso de muitos de nós; só que, na minha opinião, mais uma vez, erradamente. Creio que aqueles que pensam assim, de e parecem prontos a aceitar uma renúncia permanente porque o que era precioso revelou não ser duradouro, encontram-se simplesmente num estado de luto pelo que se perdeu. O luto, como sabemos, por mais doloroso que possa ser, chega a um fim espontâneo. Quando renunciou a tudo que foi perdido, então consumiu-se a si próprio, e nossa libido fica mais uma vez livre (enquanto ainda formos jovens e ativos) para substituir os objetos perdidos por novos igualmente, ou ainda mais, preciosos. É de esperar que isso também seja verdade em relação às perdas causadas pela presente guerra. Quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito em que tínhamos as riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes.

Em seguida surgiu um debate sobre a mulher. Sobre o seu papel e as dificuldades numa sociedade ocidental machista. Tínhamos uma artigo para ler sobre o conto Hoje de Madrugada de Raduan Nassar, segundo Anita, um dos contos mais impactantes que ela já leu ultimamente. E segundo Adelaide, “Um sopapo escrito e narrado por um homem que percebe os meandros da alma feminina e do que magoa e sabe como narrá-lo. (…) Erótico implícito.”

Como nem todos haviam lido o conto, não vou denunciar quem fui que não leu, então resolvemos relê-lo. E seguiram-se os comentários sobre o conto e de como cada um tinha sido impactado por ele. Com isso não havia mais tempo para ler o artigo e deixamos para o próximo encontro. Não sei se foi só isso, mas sei que foi assim.

Segue o Conto de Raduan Nassar lido:

Hoje de Madrugada

Raduan Nassar

O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali ao canto; me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que .me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranquilizá-la. De olhos sempre baixos, passei a rabiscar ao verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhas em cima do papel que eu rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.

Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligrafia rápida e nervosa; foi una frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: “vim em busca de amor” estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. ?Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos: “responda” ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada; provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: “não tenho afeto para dar”, não cuidando sequer de lhe empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão, com a avidez de um bico, se lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos. Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto.

Não demorou, minha mulher deu a volta na mesa e logo senti sua sombra atrás da cadeira, e suas unhas no dorso do meu pescoço, me roçando as orelhas de passagem, raspando o meu couro, seus dedos trêmulos me entrando pelos cabelos desde a nuca. Sem me virar, subi o braço, fechei minha mão ao alto, retirando sua mão dali como se retirasse um objeto corrompido, mas de repente frio, perdido entre meus cabelos. Desci lentamente nossas mãos até onde chegava o comprimento do seu braço, e foi nessa altura que eu, num gesto claro, abandonei sua mão no ar. A sombra atrás de mim se deslocou, o pano da camisola esboçou um voo largo, foi num só lance para a janela, tinha até verdade naquela ponta de teatralidade. Mas as venezianas estavam fechadas, ela não tinha o que ver, nem mesmo através das frinchas, a madrugada lá fora ainda ressonava. Espreitei um instante: minha mulher estava de costas, a mão suspensa na boca, mordia os dedos.

Quando ela veio da janela, ficando de novo à minha frente, do outro lado da mesa, não me surpreendi com o laço desfeito do decote, nem com os seios flácidos tristemente expostos, e nem com o traço de demência lhe pervertendo a cara. Retomei o rabisco enquanto ela espalmava as mãos na superfície, e, debaixo da mesa, onde eu tinha os pés descalços na travessa, tampouco me surpreendi com a artimanha do seu pé, tocando com as pontas dos dedos a sola do meu, sondando clandestino minha pele no subsolo. Mais seguro, próspero, devasso, seu pé logo se perdeu sob o pano do meu pijama, se esfregando na densidade dos meus pelos, subindo afoito, me lambendo a perna feito uma chama. Fiz a tentativa com vagar, seu pé de início se atracou voluntarioso na barra, e brigava, resistia, mas sem pressa me desembaracei dele, recolhendo meus próprios pés que cruzei sob a cadeira. Voltei a erguer os olhos, sua postura, ainda que eloquente, era de pedra: a cabeça jogada em arremesso para trás, os cabelos escorridos sem tocar as costas, os olhos cerrados; dois frisos úmidos e brilhantes contornando o arco das pálpebras; a boca escancarada, e eu não minto quando digo que  não eram os lábios descorados, mas seus dentes é que tremiam.

Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar. Pode ser simplesmente que ela se remetesse então a uma tarefa trivial a ser cumprida quando o dia clareasse. Ou pode ser também que ela não entendesse a progressiva escuridão que se instalava para sempre em sua memória. Não importa que fosse por esse ou aquele motivo, só sei que, passado o instante de suposta reflexão minha mulher, os ombros caídos, deixou o quarto feito sonâmbula.

O texto acima foi extraído dos “Cadernos de Literatura Brasileira”, Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro, exemplar número 2 de setembro de 1996, pág. 56.

  • João Gratuliano é contista, ensaísta, poeta, crítico literário.