PROGRAMAÇÃO 2020

TRAÇO FREUDIANO VEREDAS LACANIANAS ESCOLA DE SPSICANÁLISE

OFICINA DE CRIAÇÃO LITERÁRIA CLARICE LISPECTOR

PROPOSTA DE PROGRAMAÇÃO PARA 2020

Data de início – 05/02/2020

Horário – Quartas-feiras de 14h00 às 16h00
Local: Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise – Rua Alfredo Fernandes, 285, Casa Forte – Recife- PE
Contatos –Fone: 3265-5705 (Luciene).

Blog: www.traco-freudiano.org/blog 

E-mail: oficinaclaricelispector@googlegroups.com

O tema para direcionamento de leituras e escritas será a condição humana: o vazio, a angústia, o ser ou não ser, o medo da morte, o desejo, o amor, a culpa, o ódio, a frustração, a paixão, a falta, a solidão, o sonho, a fantasia. Fontes primárias dos escritores que estão bem adiante das pessoas comuns no conhecimento da mente humana, segundo Freud. Elas permitem a tessitura de tramas que se tornam grandes obras literárias. Desvendar o homem através de seus sentimentos, diante de determinadas circunstâncias, é o peregrinar contínuo do escritor ficcional e o que o diferencia dos demais escritores.

Para apoio à análise das obras selecionadas e à escrita dos participantes será aprofundado o estudo de elementos narrativos fundamentais: tipos de narrador e de focos narrativos; e nuances para construção de diálogos.

Como vai funcionar:

  • Leitura e análise de poema, conto ou peça teatral de autores selecionados.
  • Leitura e análise dos escritos dos participantes.
  • Leitura de Teoria Literária e exercícios de técnicas quando o contexto assim o exigir.

Participantes:

  • Interessados em desbloquear a escrita, viajar pelas emoções através da Literatura, do mistério e deslizamento das palavras;
  • Escritores, potenciais escritores e críticos literários movidos pelo desejo de escrever e realizar leituras que ultrapassam os significados das palavras e deslizam para seus outros sentidos.

Bibliografia:

Sugestões de Material Teórico

ECO, Umberto – Confissões de um Jovem Romancista, Editora Record.

LEITE, Lígia Chiappini Moraes – O Foco Narrativo, Editora Ática.

MCKEE, Robert – DIÁLOGO – A Arte da Ação Verbal na Página, no Palco e na Tela, Editora Arte e Letra.

Sugestões de Contos:

ANTUNES, Lobo – A História do Hidroavião – digitalizado

ASSIS, Machado – A Igreja do Diabo – digitalizado

CALVINO, Ítalo – Os Filhos Madraços

CAMUS, Albert – A Mulher Adúltera

                            – O Avesso e o Direito

CRUZ, Afonso – A Queda de um Anjo – digitalizado

JORGE, Lídia – Dama Polaca Voando em Limusine Preta – digitalizado

LISPECTOR, Clarice – A Fuga – digitalizado

MARÍAS, JAVIER – Uma Noite de Amor – digitalizado

PEDROSA, Inês – Quartos de Hotel – digitalizado

PEIXOTO, José Luiz – Aqui, Aqui, Aqui – digitalizado

ROSA, João Guimarães – Nada e a nossa condição – digitalizado

TAVARES, Gonçalo M – A Moeda – digitalizado

VILELA, Luiz – Confissão – digitalizado

                        – O Buraco – digitalizado

Lourdes Rodrigues publicou dois livros de contos: Bandeiras Dilaceradas e Situação-Limite, pela Bagaço.  Organizou, prefaciou e participou dos cinco livros Escrituras, que contemplam textos literários dos participantes da Oficina relativos aos períodos 2006/2019.  Coautora de rodopiano, e de A Criação Literária à Luz do livro Incidentes em um Ano Bissexto de Luiz-Olintho Telles da Silva. Publicou ensaios na Revista Veredas. Membro do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise desde 2003, onde participa, atualmente, do grupo de Arte e Psicanálise. A partir de 2006 passou a coordenar a Oficina de Criação Literária Clarice Lispector.

Leituras Realizadas

Além das leituras realizadas durante a viagem pelos mares das palavras às quartas-feiras, já registradas no prefácio de Escrituras V, Velas a Barlavento, somos leitores ávidos e muitas outras leituras foram feitas por cada um durante o ano de 2019. Para dividirmos algumas dessas leituras criamos o Carrossel Literário, momento em que levamos livros para compartilhar, resultando num troca troca muito agradável. Além disso, alguns viageiros, entre eles eu me incluo, fizeram uma lista dos livros lidos durante o ano, que apresento aqui.

Meus Livros: com certeza esqueci de alguns. Esses foram os lembrados.

  1. – A Máquina de Fazer Espanhóis – Valter Hugo Mãe
  2. – Palmeiras Selvagens – William Faulkner
  3. – A Praia de Manhattan – Jennifer Egan
  4.  – A Visita Cruel do Tempo – Jennifer Egan
  5.  –Eu sei por que o pássaro canta na gaiola – Maya Angelou
  6.  – O caminho de Casa – Yaa Gyasi
  7.  – No seu pescoço – Chimamand Ngosi
  8.  –  Essa Gente – Chico Buarque
  9.  –  Prohibido Morir Aqui – Elizabeth Taylor
  10. – The Reckoning – John Grisham
  11. – Rushing Waters – Danielle Steel
  12. – Romancista como vocação – Haruki Murakami
  13. – Mulher Desiludida – Simone de Beauvoir
  14. – Um Homem Bom é Difícil de Encontrar – Flannery O’Connor
  15. ­– A Velocidade da Luz – Javier Cercas
  16. – Prólogo, Ato, Epílogo: Memórias – Fernanda Montenegro
  17. – De amor e Trevas – Amós Oz
  18. – Elza – Zeca Camargo
  19. – A Arte da Sabedoria – Baltasar Gracián
  20. – Como se Faz Literatura – Affonso Romano de Sant’Ana
  21. – Contos Completos – Flannery O’Connor
  22. – Quarenta Dias – Maria Valéria Rezende
  23. – Silêncio – A biografia de Maria Theresa Goulart – Wagner William
  24. – Caetano – Biografia – Caetano Veloso
  25. — Livros e Borrachas – Eduardo Ericson
  26. – E a História Começa – Amóz Oz
  27. — O Dilema do Porco Espinho – Leandro Karnal
  28. – La Habana Vieja: olhos de ver – Políbio Alves
  29. – A Leste dos Homens – Políbio Alves
  30. – O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação – Haruki Murakami
  31. – A flor Lilás e outros contos – Ricardo Braga
  32. – Um Conto de Natal – Charles Dickens
  33. – Laços – Domenico Starnone
  34. – Amor Incômodo – Elena Ferrante

Livros que li em 2019 (que eu me recorde)

Elizabeth Freire

1.0 -O filho de mil homens – Valter Hugo Mãe

2.0 – Praia de Manhatan – Jennifer Egan

3.0 – Romancista como vocação – Haruki Murakami

4.0 – O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação- Haruki Murakami

5.0 – IQ84 (volume I) –  Haruki Murakami

6.0 – Contos mais populares e os menos conhecidos de Machado de Assis

7.0 – A Paixão segundo G H – Clarice Lispector

8.0 – O Grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald

9.0 – Dias de abandono – Elena Ferrante

10.0 – O estrangeiro – Albert Camus

De alguns gostei muito, de outros nem tanto e de poucos não gostei.

O que mais me chamou atenção pela sutileza dos personagens, pelo estilo encantador e pela mensagem de esperança foi o Filho de Mil Homens – de Valter Hugo Mãe.

Os 10 melhores livros que li (ou reli) em 2019

Fernando Gusmão

1.0 – A Intermitência da Morte, de José Saramago

2.0 – Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis

3.0 – Para viver em paz – O milagre da mente alertado, de Thich Nliât Hanli

4.0 – A ilha do conhecimento: os limites da ciência e a busca por sentido, de Marcelo Gleiser.

5.0 – Quincas Borba, de Machado de Assis

6.0 – O Velho e o Mar, de Ernest Hemmingway

7.0 – Os homens que não amavam as Mulheres, de Stieg Larsson

8.0 – O terrorista elegante e outras histórias, de Mia Couto e José Eduardo Agualusa

9.0 – A Livraria dos Finais Felizes, de Katarina Bivald

10.0 – Um amor incômodo, de Elena Ferrante

Livros lidos em 2019

Paulo Tadeu

Uma breve história da filosofia Nigel Warburton
Pantera no porão Amós Oz
Frufru Rataplã Dolores Dalton Trevisan
A mulher mais linda da cidade e outras histórias Charles Bukouwski
O fim do ciúme e outros contos Marcel Proust
Mayombe Pepetela
A noite em questão Tobias Wolff
O homem que queria ser rei e outros contos Rudyard Kipling
O estranho caso do Dr. Jekill e do Sr. Hide Robert L. Stevenson
O ladrão de cadáveres Robert L. Stevenson
Moby Dick Herman Melville
Histórias dos mares do sul W. Somerset Maugham
A morte de Olivier Bécaille Èmile Zola
A promessa; A pane Friedrich Dürrenmatt
Adeus às armas Ernest Hemingway
Havana para um infante defunto G. Cabrera Infante

Livros lidos em 2019

Lilia Gondim

Autor Título Obs
1 ErnestHemingway Um lugar limpo e bem Iluminado Conto isolado
2 Flannery ’Connor Contos completos  
3 Javier Cercas A velocidade da luz Conto isolado
4 Diana Gabaldon Outlander livro 6  
5 Diana Gabaldon Outlander livro 7  
6 M Valéria Rezende Outros cantos  
7 M Valéria Rezende Carta á rainha louca  
8 Ambrose Bierce O rastro de Charles Ashmore Conto isolado
9 Ambrose Bierce Um incidente na ponte Owl Crek Conto isolado
10 Machado de Assis O machete Conto isolado
11 Lisa Klein Ofélia  
12 Teresa Sales Cheiro de Velame  
13 Fred Vargas The accordionist  
14 Philippa Gregory Três irmãs, três rainhas  
15 Jenny Colgan A padaria dos finais felizes  
16 Nina George O livro dos sonhos  
17 Armando Lucas Correa A garota alemã  
18 Markus Zusak O construtor de pontes  
19 Saramago O cerco de Lisboa Relido
20 Saramago Memorial do convento Relido
21 Umberto Eco O nome da rosa Relido
22 V Nabokov Lolita Relido
23 Ildefonso Falcones A rainha descalça  
24 Ildefonso Falcones A mão de Fátima  
25 Urariano Mota A mais longa duração da juventude  
26 Manuel Pinheiro Chagas O terremoto de Lisboa  
27 Eva Werner O menino dos fantoches de Varsóvia  
28 Nina George A livraria mágica deParis  
29 Ken Follett Um lugar chamado liberdade  
30 Ken Follett Coluna de fogo  
31 Adrienne Monnier Rua do Odeon  
32 Thomas Harding A casa do lago  
33 Saramago Objeto quase  
34 Philip Roth Quando ela era boa  
35 Philip Roth Operação Shylock  
36 Maxim Huerta Uma loja em Paris  
37 Maria Dueñas As filhas do capitão  
38 Ariano Suassuna Romance de D. Pantero  
39 Elena Ferrante Um amor incômodo  
40 Elena Ferrante A filha perdida  
41 AntonioCavanillas de Blas A amiga de Leonardo da Vinci  
42 Jean E. Pendziwol O farol e a libélula  
43 Jennifer Egan Praia de Manhattan  
44 Paulo Cognatti As oito montanhas  
45 Valter Hugo Mãe A desumanização  
46 Valter Hugo Mãe O remorso de Baltazar Serapião  
47 Ana M. Gonçalves Um defeito de cor  
48 Marco Albertim Conspiração Guadalupe  
49 Marcelo M Melo Adversos Resistentes  
50 Hermilo Borba Filho Agá – Versão vermelha  
51 Hermilo Borba
Filho
Os ambulantes de Deus  
52 W Faulkner Enquanto agonizo  
53 Amós Oz A pantera no porão  
54 Mauro Mota Crônicas escolhidas  
55 Ricardo Braga A flor lilás e outros contos  
56 MargarethAtwood O conto da aia  
57 José Almino Alencar Gordos, magros e guenzos  
58 Walter Isaacson Leonardo da Vinci  

Mitafá

As leituras que lembro ter feito em 2019:

  1. –  O Falador, Mario Vargas Llosa.
  2. –  Madame Bovary, Flaubert
  3. –  Obras Completas, Raduan Nassar
  4. –   Werther Goethe
  5. –  A Metamorfose, Kafka
  6.  – A Lebre com olhos de âmbar, Edmundo Wall
  7. – O Estrangeiro, Albert Camus
  8. –  Vivendo com os Mestres do Himalaia, Swami Ajaya( org.)
  9. – Poesia Completa de Fernando Reis, Fernando Pessoa
  10. – Para Viver com Poesia, Mário Quintana
  11. – Infanto juvenis: A Origem do Mundo, Maria Augusta Randon
  12. –  Livro das Origens, José Arrabal
  13. –  Baús de trocas, Marilene lemos
  14. –  A Arte de Contar Histórias no séc.XXI, Cléo Busato
  15. –  O Valor Terapêutico de contar histórias, Margot Sunderland        (releitura)
  16. –  Psicologia Analítica e os contos de fadas, Patrícia Moreira
  17. –  A Arte de Encantar e o contador de história contemporâneo e seus olhares, Fabiano Moraes e Lenice Gomes(orgs)
  18. – O ofício do Contador de histórias, Gislayne Matos (releitura)
  19. –  Palavra do Contador de Histórias, Gislayne Matos( releitura)
  20. –  Seis Passeios pelos bosques da ficção, Humberto Eco
  21. ­– O Fluxo de Consciência, Robert Humphrey
  22. –  Tecendo fios, Campos de Queirós
  23. –  O Destino das Metáforas – Sidney Rocha

LUZIA FERRÃO

LEITURAS EFETUADAS/ ANO 2019
 
A CEIA DOS CARDEAIS                                  JULIO DANTAS
A CINZA DO PURGATÓRIO                           OTTO MARIA CARPEAUX
A JORNADA DO ESCRITOR                            CHRISTOPHER VOGL
A ÁRVORE (Conto)                                        MARIA LUISA BOMBAL
A FLOR LILÁS E OUTROS CONTOS                RICARDO BRAGA
A CHUVA (Conto)                                           SOMERSET MUGHAM
A PAIXÃO SEGUNDO GH                               CLARICE LISPECTOR
A TARDE DE UM ESCRITOR                           PETER HANDKE
ANTÍGONE                                                       SÓFOCLES     
A ANGUSTIA DA NFLUENCIA                       HAROLD BLOOM
A ILHA                                                             ALDOUS HUXLEI
A INTERPRETAÇAO DOS SONHOS               FREUD
ALGUNS ASPECTOS DO CONTO                   CORTAZAR
A MULHER DESILUDIDA                                SIMONE DE BEAUVIOR                                                           
A SERPENTE                                                     NELSON RODRIGUESS
A VELOCIDADE DA LUZ                                  JAVIER CERCAS
ANDANÇAS PELA FICÇÃO                              LOURDES RODRIGUES
ALMAS MORTAS                                             GOGOL                                           
CANTARES                                                        HILDA HIRST
CARTAS A RAINHA LOUCA                               MARIA VALERIA REZENDE
CONQUISTA DE BRAGA                                     SARAMAGO
CONTOS DE MACHADE DE ASSIS                      MACHADO DE ASSIS
CONTOS COMPLETOS                                           FLANERY O’CONORY  
CONTOS DE IMAGINAÇÃO E MISTERIOS            EDGAR ALLAN POE
CONTOS LATINO-AMERICANOS ETERNOS          VÁRIOS AUTORES
CRONICA                                                               LUANA BERNARDESO
DO RIO QUE TUDO ARRASTA                                  BERTOLT BRECHT
DE AMOR E TREVAS                                             AMOZ OZ                                       
ENSAIO AUTOBIOGRAFICO                                  JORGE LUIS BORGES
ENTREVISTA                                                               HUMBERTO ECO
ESPERANÇA                                                                EMILY DICKSON
EXPLORADORES, MAIS QUE INVENTORES            ERNESTO SABATO
MADRIGAIS PRIVADOS                                          EUGENIO MONTELE                                                      
GRANDE INQUISIDOR (Conto)                                 DOSTOIEVSKI
HISTORIAS EXTRAORDINARIAS                               EDGAR ALLAN POE
KAFKA E A BONECA VIAJANTE                            JORDI SIERRA FABRA
LUTO E MELANCOLIA                                                    FREUD
LAÇOS                                                         DOMENICO STARNONEN                                                    
MEMORIAL DE BRAS CUBAS                                 MACHADO DE ASSIS
MULHERES SEM NOME                                       MARTHA HALL KELLY
MUNDO CRISTAO E A FUND.DA EUROPA        OTTO M CARPEAUX                                                                
NO DEPARTAMENTO DOS CORREIOS(Conto)     ANTON TCHÉKHOV                                                           
TERRORISTA ELEGANTE E OUTRAS        MIA COUTO, J.E.AGUALUSA                                                                                      
O PRÓPRIO SER EU CANTO                                        WALT WHITMAN
O NARIZ                                                                              GOGOL
OS ESTRANHOS                                                             STEPHAN   KING
ODISSEU A TELÊMACO                                              JOSEPH BRODSKY
OBRA ABERTA                                                              HUMBERTO ECO
O MACHETE   (Conto)                                     MACHADO DE ASSISS                                                
PARA INTRODUZIR O NARCISISMO                                FREUD
POEMAS                                                                 JORGE LUIS BORGES
POEMAS                                                                           ADELIA PRADO
POEMAS                                                                             PUCHINK
POEMAS                                                                             TCHÉCKOV
POEMAS                                                                        BERTOLT BRETCH
POEMAS                                                                             MIA COUTO
POEMAS                                                                       THIAGO DE MELO
POEMAS                                                         SOROR INES DE LA CRUZU                                                                                                                                                                                                      
RÉQUIEM  POR TATIANA                                               TATIANA
RETRATO DE UM ARTISTA QUANDO JOVEM             JAMES JOYCE
SEIS PASSOS PELO BOSQUE DAS PALAVRAS             HUMBERTO ECCO                               
SOBRE A TRANSITORIEDADE                       FREUD VERGÄNGLICKEIT                                                         
TODAS AS CRONICAS                                             CLARICE LISPECTOR                                                                
UM CORAÇÃO SINGELO                                                    FLAUBERT
UM AMOR INCOMODO                                             ELENA FERRANTE
UM LUGAR LIMPO E ILUMINADO                    ERNEST HEMINGWAY                                                            
VASOS COMUNICANTES E CAIXA CHINESA   MARIO VARGAS LLOSA
VIDAS SECA                                                           GRACILIANO RAMOS
VIDA E DESTINO                                                     VASSILI GROSSMAN
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   
 
 
 
 
 
 

Escritos sobre a Oficina

A Oficina de Criação Literária Clarice Lispector foi criada em 2006, no Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise. Surgiu de um grupo dedicado às leituras da obra de Clarice Lispector, daí o seu nome. Tem como objetivo o trato com a palavra, dada a sua importância para os estudos literários e psicanalíticos. Seu desenvolvimento está pautado em três linhas básicas: a teórica, a do conhecimento crítico da obra em esNtudo e a da escrita dos participantes seja sob a forma ficcional, poética ou ensaísta.

De quase uma década e meia de encontros às quartas-feiras a Oficina retém registros, diários de bordo sob a forma de livros que recebem o nome de Escrituras.  Mais do que simples grafos pretos em papel Escrituras são a memória de um tempo de descobertas, fantasias e palavras tecidas com rigor artesanal, criando perspectivas infinitas de caminhos ou de bosques a serem enveredados.

Escrituras V- Velas a Barlavento traz alguns rastros dos percursos realizados por dezoito participantes da Oficina – de um total de vinte – nos últimos dois anos. São dezoito autores  que se inscrevem na história desse tempo com seus poemas, contos, crônicas, ensaios, resenhas e novela.

A Literatura tem sido o traço que dá consistência imaginária ao grupo e a ilusão de completude. Os oficineiros se dizem viageiros pelos mares das palavras, constituindo-se, assim, sujeitos que navegam pelas letras.

                                                                         Lourdes Rodrigues

Coisas que a Oficina Clarice Lispector vem me mostrando
Fernando Gusmão

Na quarta-feira passada, quando estávamos discutindo o boneco da edição do Escrituras5, foi comentado que o livro era muito importante por mostrar os resultados da produção da Oficina nos dois últimos anos. Claro! Naquele material, tão bem reunido em forma e conteúdo, está um pedacinho de cada um de nós. Mas, fiquei pensando que, muito embora o livro materialize e sintetize nossa convivência na Oficina durante aquele período, para mim o convívio —em si— foi mais longe, foi mais rico e bem maior do que o que está mostrado nas Escrituras5. Principalmente porque a partilha semanal que fazemos do tema Literatura se dá na forma de uma roda de conversa, num clima de informalidade e brincadeira, mas, ao mesmo tempo, de seriedade e responsabilidade, onde a ressonância coletiva provoca a construção e a reconstrução de conceitos e de argumentos, através dos diálogos dos participantes —e de cada um consigo mesmo— mas, principalmente por conta da escuta de cada um. São expressas livremente inquietações, opiniões e expectativas. Discutem-se verdades de quem fala, e de todos.

A Oficina demonstra como sábios são os povos que desde a antiguidade já praticavam, e praticam até hoje, o hábito de sentar em roda para resolver conflitos ou para que comemorar festas da comunidade. Mais ainda, para que uma geração aprenda com a outra.  Esse formato em círculo possibilita que todos possam ao mesmo tempo se ver e, com paciência e sabedoria, falem e escutem. Ninguém fica fora da roda. Há disponibilidade para ouvir o outro —o que não é comum no nosso cotidiano— pois no círculo, necessariamente, os momentos de escuta são mais numerosos do que os de fala, surgindo daí o silêncio observador e reflexivo. São momentos singulares de partilha onde as opiniões de cada um são construídas a partir da interação com o outro, complementando, discordando ou, até mesmo, concordando. Nessas conversas aparece a compreensão de maior profundidade, de mais reflexão, assim como de ponderação, buscando o franco compartilhamento.

A Oficina é, portanto, um dispositivo que permite a repartição de experiências e o desenvolvimento de ponderações sobre as práticas criativas em um processo mediado pela interação entre os pares, tanto nos diálogos externos, como nos internos.  Neste círculo forjam-se opiniões e formas de reviver o prazer da troca e da produção rica de conteúdo e de significado.  São experiências pessoais e profissionais que se articulam e que desaguam nas questões da Literatura.
E Escrituras V mostra que a reflexão individual não se desenvolve sem o concomitante crescimento da intercomunicação crítica. Por isso, a Oficina, inclusive, muda caminhos.

Outra coisa que me marcou foi constatar que a Oficina vem ensinando que somos sempre narradores em potencial. Mas que não narramos sozinhos: reproduzimos vozes, discursos e memórias de outras pessoas, que se associam à nossa no processo de rememoração e de socialização, numa construção coletiva de significados. Cada um de nós sendo, assim, também protagonista do aprimoramento literário que os demais vivenciam. Isso faz brotar o pensamento capaz de levar à compreensão e à reelaboração de conceitos e de conhecimentos sobre o criar literário.

E, assim, a conversa vai seguindo criativa e divertida… Em um modelo ganha/ganha em que o contentamento e a alegria estão sempre presentes.

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O que a Oficina faz por mim

Elizabeth Freire

Fui conhecer a Oficina numa quarta-feira de agosto de dois mil e dezoito, para ver se gostava.  Não gostei. Amei!  Posso dizer que foi paixão à primeira visita. O ambiente é muito agradável, acolhedor.
Duas coisas me cativaram: a seriedade como os trabalhos são conduzidos e as pessoas do grupo que são bastante generosas umas com as outras. Mesmo as mais avançadas fazem questão de dividir seu conhecimento com os iniciantes na arte de escrever.
Todas as quartas-feiras, nós, os viageiros, somos transportados por uma nau mágica, sob o comando de Lourdinha, para uma tarde de navegação pelo mundo das palavras.
Contar uma história pode até ser fácil, mas transmitir emoções, fazer o leitor sorrir, chorar, torcer, rezar, sofrer, é uma tarefa difícil, ao menos para mim. Fazer tudo isso de uma forma original, buscando um estilo próprio, tem sido percorrer uma estrada sem saber se chegarei ao meu destino.
Graças à Oficina voltei a ler com a assiduidade perdida ao longo dos anos. Encontrei uma atividade instigante, que exige criatividade, dedicação e perseverança. Conheci pessoas inteligentes, sensíveis e dispostas a se ajudarem mutuamente.
Estou com mais de sessenta anos. Faz pouco tempo que perdi meu amor, meu companheiro de toda uma vida. Sigo em frente, sempre acreditando que nunca é tarde para sonhar. Decidi trilhar o tortuoso, lindo e mágico caminho das palavras. Talvez nunca seja de fato uma escritora, mas o coração e a mente estão abertos e plenos de emoção.
Obrigada a todos que fazem a Oficina navegar.

Escrituras V – Velas a Barlavento

Lançamento em 11/12/2019

O lançamento de Escrituras V – Velas a Barlavento foi uma grande festa! As pessoas foram chegando devagar, ocupando os espaços e quando nos demos conta quase não podíamos circular tão cheia estava a livraria da Praça de Casa Forte, local do lançamento. Amigos novos, amigos de sempre, amigos que não víamos há muito tempo reforçando sentimento antigo de amizade. Companheiros de luta, de ideias, de paixão pela Literatura. Ouvi dos outros autores as mesmas falas sobre os seus convidados ali presentes. Uma festa, uma grande festa! Segundo um amigo, deveria ter sido em outro lugar, bem mais amplo, para que todos coubessem com certo conforto. Não sei. Aquele lugar lindo e adorável da Livraria não nos deixava sentir o desconforto da circulação difícil, antes dava-nos sensação de aconchego, e a grata possibilidade de sentir cheiros e ouvir sons agradáveis e conhecidos. Encantado, outro amigo me disse, você jamais conseguirá repetir esse lançamento: isso foi um grande acontecimento! Concordo que foi um grande acontecimento. Assim foi registrado na nossa Carta de Navegação. Quanto a não ser capaz de repetir, acredito. Nada se repete. Sequer nós seremos os mesmos num próximo lançamento. O próximo terá o seu brilho particular, as suas sutilezas, e registrará outras viagens, outros percursos porque com as velas a barlavento a nossa nau continuará a singrar outros mares em 2020.

Algumas imagens do evento:


Viageiro em ação

Dividindo o tempo entre a Psicanálise e a Literatura, escrevo alguns contos que às vezes me confunde em que momento estou. O ato de escrever, em muitas ocasiões, parece-me com aquele instante do despertar, que ainda confusos não sabemos se foi sonho ou um acontecimento da realidade. A voz narrativa nos conduz a aventuras inesperadas. A escrita desses pequenos contos foi assim, escrevia e reescrevia sem parar, até que um dia consegui afastar-me deles e enviá-los à Oficina. Depois atendo à tentação de nova aproximação. Que novela!
Everaldo Soares Júnior
João pessoa, maio de 2019

MEMORAÇÃO

Everaldo Soares Júnior

Pensando bem, se é possível pensar assim, foi a tempo de se perder nas lembranças. Não sei o que aconteceu, aconteceu, o instante se fez, nada de nada, nem pressa ou demora, mais nada. E o mesmo se repetiu.

Alguma franja avermelhada no horizonte do céu com a terra sinalizava que era o anoitecer, hora de descansar o peso do corpo na linha comprida da terra. Abri o saco, passei a mão por dentro catando um resto de comida para enganar o ronco do estômago.

Estirado no chão, olhei para cima. Tudo estrelado, nuvens passando, escuro nenhum, a lua começando a aparecer majestosa.

No meio do moído de dores, um pensamento me subiu à cabeça: o que aconteceu, aconteceu, havia mesmo de parar aqui. Não esqueço, vi a cara de espanto dela escorada na cama, o barulho que ouvira foi da banda da janela batendo e logo a zoada do pulo no chão do terreiro. Ligeiro, com a pistola na mão, passei pela porta de trás da casa, nem precisou fazer mira, puxei o gatilho, escutei três estampidos e a pólvora sombreou a minha mão direita.
Peguei o saco, enchi com o que pude e saí desatinado pelos matos afora.

Agora não necessito de volta, aconteceu, aconteceu, um fiapo de tempo sem sentido mudou o rumo da vida. Fazer o quê?

O que insistia era a lembrança do verde de folhas novas dos seus olhos, o cheiro de jasmim, a respiração ofegante no meu pescoço, a pele macia, arrepiada e o coração batendo apressado. Beleza, seu corpo amparado nos meus braços.

Vai passar, o que aconteceu, já aconteceu, arrependimento de nada adianta, melhor que fique cada um no seu lugar.

Acontece

Everaldo Soares Júnior

Há momentos que não consigo me dominar. Não tinha nada que me alterar daquele jeito. Ela ficou calada e baixou a cabeça, logo vi a besteira do meu descontrole. Saiu de casa e por azar meu, encontrou-se com aquele Nilson no portão, muito intrometido. Demoraram mais de meia hora conversando.
Cara, você tem que maneirar mais. Ela ficou sentida.
Sei, Nilson, mas depois resolvo. Agora vamos terminar esse trabalho chato.
Concordo, já não é sem tempo.
Queria dormir cedo, a amiga insônia chegou e veio com seu parceiro, o coração apressado. Vou telefonar.
Quero conversar, tem coisas em mim que, por mais cuidado que tenha, não controlo.
Agora não, amanhã, às quatro horas no Café da Praça.
Certo, até amanhã à tarde.
Mais calmo, vou dormir, ajeitei os travesseiros. Na mesa cabeceira apalpei a caixa de balas da pistola que trouxe para casa.

Moço, por favor, traga-me uma água com gás e um café simples.
Pensei em já encontrá-la aqui. O coração acelerou antes da hora.
Lembrei do cardiologista, depois de me auscultar e ler meus exames, ele falou: os resultados estão ainda na faixa da normalidade, mas vamos cuidar dessa arritmia.
E a pressão arterial?
Procure relaxar, que a máxima está 160, mas acontece que a mínima não passa de 90 e isso é o que nos interessa no momento, vou medicá-lo.
Procuro argumentos para justificar esse destempero e eu mesmo não me convenço. As brigas dos velhos ainda ressoam no meu destempero. As chateações do trabalho, o trânsito infernal, o cansaço, minha solidão maior que a dos outros, desamparo amoroso. Que nada, tudo besteira para justificar a atrapalhação que faço. No início é um calor no corpo todo, logo, logo, vem a raiva que espanta e afasta qualquer pensamento. O arrependimento não adianta nada. Volta tudo de novo.

Está demorando muito, será que vem? Ainda não consegui acabar o amor todo de seu coração. Assim espero.
Moço, mais um café.
Acho que enchi o saco com o desmedido, ficou triste e foi embora, pronto terminou.
Será? Também não fui só ruim assim. Uma vez vi na televisão um documentário sobre a visita de Vinicius ao amigo João Cabral de Melo Neto, em Sevílha. Grande festa organizada pela filha do João. O Poetinha pegou o violão e começou a cantar uma bossa nova que falava do amor e do coração. Distingui uma voz rouca e baixinha lá no fundo da sala que dizia, essa é a única víscera que ele sabe cantar? Puxa, chamou o coração de víscera. E muita gente deu risada.
Alô, sim sou eu, mas agora não, estou aguardando uma pessoa me ligar, amanhã conversamos sobre a reforma desse escritório, desculpe.
Está atrasada, ontem ficou com lábios cerrados, pálida e a testa franzida, olhos sem expressão, foi embora sem despedida. Também a repetição se tornou tão frequente. Via o seu rosto cada vez mais triste, muito diferente do dia que a conheci. Foi na festa do Nilson. Aproximei-me da mesa do aniversariante e logo a notei, parecia uma rosa sorrindo. Parei, tomado de simpatia, irradiava atenções, falava com as pessoas, ficou dançando solta numa roda animada.
Fiquei bem perto da animação e fui descoberto pelo seu olhar. Estendendo nossas mãos chegamos próximos e começamos a dançar juntos.
O telefone dela está fora da área ou encontra-se desligado. Não vem e nem quer falar comigo.
Pareço aquele personagem, Juan Pablo, de Ernesto Sábato, do livro O Túnel. Tudo tinha de ser como ele dizia. Usava as palavras da moça para argumentar contra ela. Humilhada, concordava e ele ainda ficava satisfeito. Não, assim é demais, também sofri, a disritmia é a prova disso. Tivemos momentos encantadores, inesquecíveis, olhávamo-nos nos olhos, seu corpo macio junto ao meu, abraçados assim, o tempo desaparecia. Espere, são quase seis horas, estou aqui há mais de duas. Podia ter me casado com ela, agora teria filhos, casa, quem sabe se eu não estaria melhor dessa mortificação.
Alô Rosa, estou lhe ouvindo bem.
Ernesto, estou no hospital, acompanhando meu pai.
O que foi que ele teve?
Uma arritmia e a pressão arterial subiu muito, está na U T I.
Bom, se a mínima não ultrapassou 90 mm de Hg, pode ser medicado e logo vai melhorar. Qual é o hospital?
Acontece que a mínima ultrapassou os 90, eu vim com Nilson, não se preocupe.
O coração disparou.
Está bem, depois a gente se vê
Garçom, traga-me aquele conhaque espanhol, pode ser duplo e a conta.
Bebeu sorvendo de gole em gole.
Levantou-se devagar, saiu com passos largos até a calçada.
A avenida era um corredor. A passagem de pedestre era no final da quadra mais adiante. Parado, resolveu atravessar ali mesmo. Com passos largos começou a travessia movimentada e perigosa. Nos primeiros metros foi mais rápido que os carros, depois um automóvel de luxo parou em cima dele, cantando os pneus. O motorista gritou bravo, mas ele não deu ouvidos. Continuou andando depressa até o estacionamento
O carro estava limpo, foi lavado e lubrificado. Abriu a porta, sentou-se. Encontrou no porta-luvas a pistola. Ligou o som na música que gostava, respirou pausadamente, com a mão direita levou a arma até a cabeça, do lado direito, acima da orelha. Continuava respirando devagar. Sabia que tinha que apertar ligeiro o gatilho.

João pessoa 5 de maio de 2019.

Guarda-roupa

Fernando Gusmão

A Cruz dos Sete Andares

No verão, ao anoitecer, quando o calor é menos intenso, agradava-me fazer longas caminhadas pelas fraldas da Borborema, na companhia do meu tio Lucas. Não havia rocha, ruína, olho d’água ou vale solitário que ele não soubesse de alguma história estrambótica para contar. Narrativas envolvendo viageiros e tesouros, pois nunca houve alguém tão afeito para esbanjar conteúdos de cofres escondidos e de tesouros perdidos como tio Lucas, tio-avô, irmão do pai do meu pai. No fim da vida, ficou conhecido em Campina Grande pelo nome de Guarda-Roupa por andar sempre vestido com muitas roupas.

— O que é aquela cruz sobre uma pilha de pedras, em direção à estreiteza da ravina, meu tio?

— Ah! Não é nada, apenas um tropeiro, meu conhecido, que foi assassinado, há alguns anos.

— Se entendo, meu tio, havia assaltantes assassinos quase na entrada de Campina?

Essa conversa aconteceu no dia em que tínhamos partido para uma daquelas longas caminhadas e subíamos um caminho rampeado, tio Lucas mais comunicativo que de costume, quando vimos uma enorme cruz meio arruinada, ao pé de umbuzeiros e gameleiras.

— Esta é a Cruz dos Sete Andares!

E mostrou as pedras ao pé do lenho, a marca meio apagada, que parecia o INRI, mas que, apurando a vista, vi que era algo como 51RN, gravada a fogo e desbotada. Falou em tom baixo que ali morava uma assombração desde o tempo em que os mouros tomaram o Cariri, vindos dos lados de Sevilha e Granada. Esse fantasma, murmurou, aparecia na forma de um cavalo sem cabeça, mas com orelhas, botando fogo pelas fuças, perseguido por seis cães, que latiam e lançavam uivos terríveis.

— Você já o viu? – Perguntei.

— Não, graças a Deus, não! Mas, meu avô, amigo do alfaiate, conheceu muitas pessoas lá em Patos que toparam com ele. Antigamente aparecia com mais frequência do que agora, sob uma ou outra forma. Todos em Cajazeiras e Patos já ouviram falar do Orelhudo e as avós assustavam as crianças chamando por ele quando os meninos faziam o malfeito. Diziam os mais velhos que era a alma sofrida de um cruel rei mouro, que matou seus seis filhos e os enterrou por aqui.

Abstenho-me de contar os detalhes surpreendentes, na maioria das vezes, simples e pueris, que me deu tio Lucas sobre este respeitável fantasma e sobre a Cruz que ele dissera ser cópia da que existiu em Granada, à porta onde Boabdil, também conhecido como al-Zugabi (“O desafortunado”), veio a entregar sua cidade aos Reis Católicos.

Andando, cursávamos agora uma área bem arborizada, ouvindo dois ou três nambus lançarem ao ar trinados pouco harmoniosos. No meio do arvoredo, algumas cisternas estilo mourisco e uma porta cortada no coração da rocha, mas obstruída naquele momento. Ali havia alguns açudes que, contou meu tio, eram os favoritos dele e de seus companheiros de infância, mesmo eles sabendo da história do hediondo Zanatas, que costumava sair pela porta da rocha para levar para o Hades banhistas incautos, que por ali se atreviam a tomar banho.

Maravilhosos arvoredos, semelhantes aos do Generalife, ficavam para trás enquanto continuávamos nosso pisar, descendo por uma trilha solitária e chegando ao campo sem fim, triste e melancólico, desnudo de árvores e pontilhado pela caatinga. Tudo o que se via era estéril e quase impossível de se conceber que, a uma curta distância de onde estávamos, existissem pomares floridos. Esse é o clima da Borborema: selvagem e duro, mas onde a seca e o jardim convivem, dizia tio Lucas, feito o amor e o desamor: sempre atrelados um ao outro.

Tropeiros

Na Caatinga, tio Lucas ficava sempre mais animado. Aproveitei para saber um pouco mais sobre o assassinado. Ele, como que desconversou, começando a falar do tempo em que ganhava a vida como tropeiro, tangendo burros de carga entre Cajazeiras, Patos e Campina Grande. Andávamos e ele falava dos bons tempos em que se percorria o sertão a casco de burro. Eu, calado, esperava. Talvez saísse alguma coisa sobre o homicídio.

— Ganhava-se com as coisas naturais do sertão e o convívio com sua boa gente. Aquela nossa maneira de viajar, levando mercadorias em costas de animais, era testemunha de muita hospitalidade. Havia, quase sempre, confiança entre os viajantes e os senhores das terras e, à noite, cada um podia dirigir-se ao castelo mais próximo, certo de bom acolhimento. Dormia-se a bom dormir, após a caminhada diária de cinco a seis léguas, no passo miúdo das mulas seleiras, depois da ceia muito rica, onde nunca faltava carne de sol assada, farofa e queijo de coalho.

Tocando aqui e ali com a bengala de ébano moçambicano, finamente trabalhada, que sempre portava, aduzia:

— Mas também tinha espíritos-de-porco, como bem avisava Pedro Malasarte. Lembro de uma certa vez em que levava uma tropa no rumo de Floresta Nova, junto com um amarelinho, que havia tomado como sócio nessa expedição, cearense, por nome Raimundo Nonato, que me fora apresentado por um amigo cigano. Caía a noite e pedimos guarida em um castelo à beira da estrada, de muitas janelas e, também, de muitas seteiras, com um grande aprisco ao lado. Fomos atendidos. O capataz nos ajudou com os burros na estrebaria, mostrou onde dormir e nos levou para jantar. Na rica mesa, além de nós, um caixeiro-viajante e mais três tropeiros, dos quais um eu conhecia de vista. Foi aí que apareceu toda a maldade do barão e da sua consorte: pois, quando estávamos de colher na mão, prontos para nos deliciar com tantas iguarias, eis que se ergue o barão, que estava à cabeceira com a mulher, muito bem vestida, com uma mantilha de cetim aleonado forrada de tela de prata, e recita em tom peremptório:

— Estou feito e satisfeito, eu e minha mulher! E, assim, há de fazer, quem vergonha tiver!

Olhamos uns para os outros. Todos sertanejos fortes e de muita vergonha. E quando estávamos nos levantando, dispostos a ir dormir com fome, mas a dignidade preservada, o cearense amarelinho, baixinho, que só tinha cabeça, Raimundo Nonato, ainda sentado e de prato cheio, formando como que um cálculo, respondeu alto e esganiçado:

— Nem deixo o prato, nem arreio a colher! Como o que aqui está e mais o que vier!

O barão embasbacado, puxou a baronesa pelo braço e, balançando, como se tivesse tomado todas, desapareceu da sala. Comemos muito bem, do bom e do melhor. Dali, nunca esqueci um excelente rubacão de arroz-vermelho e um divino licor de jabuticaba, de Bananeiras, do Brejo paraibano. Enquanto ceávamos, um jovem copeiro nos explicou que o seu senhor era useiro e vezeiro nesse artifício. Quando os hóspedes saiam da sala para ir dormir com fome, ele voltava com a baronesa e se esbaldavam sozinhos na janta. Soube, tempos depois, que o barão de Floresta Nova tinha ficado, de tal modo, impressionado com o amarelinho, que lhe tinha dado a filha mais nova Isabelle em casamento, com um dote de cinquenta e uma cabras leiteiras.

Acordava-se, na maioria das vezes, tiritando de frio, naquele deleitoso Cariri, de planuras e serrotas elevadas pelos 600 metros sobre o nível do mar, esperando-se, ainda, na rede ancorada ao espeque da alpendrada, que o arrieiro aprontasse a fumegante chaleira de café. Enquanto isso, a burralhada da tropa mastigava o rijo milho sertanejo, que enchia os embornais.

Era, dizia meu tio, como viajavam senhoras, homens e senhoritas, figurões do comércio e da política, monsenhores, poetas e estudantes.

— Seu pai, eu me lembro, veio criança de Patos para Campina desse jeito. No lombo de uma mula, dentro de um caçoá equilibrado por uma saca de farinha de mandioca. Engana-se, porém, quem pensar que as noites naqueles ermos corriam silenciosas. Vozes mil de corujas, bacuraus, tetéus, caborés, mães-da-lua acompanhavam-nos pela estrada, quando à noite viajávamos à suave luz do luar, ou quando, cansados, dormíamos.

O caminho estreito, que agora trilhávamos, chamava-se, falou Tio Lucas, Barranco Tisnado, porque no passado ali havia sido escondida uma sacola de couro de cabra com mais de 50 moedas de ouro e prata e um estranho monograma de letras e números, que tinha sido queimada em uma disputa com cangaceiros. Sobre essa sacola quem mais sabia eram os ciganos, que viviam nas cavernas das encostas da Borborema. Para meu tio, homens de bem, incapazes de fazer o mal a quem quer que seja. Muito menos a um tropeiro.

— Mas, um dos que viu o almocreve ser chacinado, morreu no mesmo dia, 28 de julho de 1938, em Poço Redondo, no sertão de Sergipe. Eu estava lá.

Zoraya

Aguardei mais. Ele, pensativo, fechou-se. Continuamos o caminho em silêncio, até o topo do penhasco, deixando para trás a Cadeira do Diabo, para onde teria fugido o infeliz Boabdil, enfeitiçado por Isabelle de Solis cristã, que havia sido feita prisioneira e depois converteu-se ao Islã com o nome de Zoraya, quando lhe fez uma declaração, que meu tio sabia de cor e recitou enquanto andávamos:

Zoraya!

Quando te vi, me apaixonei, padeci de coisa patente, senti o que nunca pensei, n’alma, no corpo, na mente. Pareceu uma mundrunga, talvez mesmo, bruxaria. Sortilégio, feito macumba, bagata, bozó, feitiçaria. De pai-de-santo, despacho; da parte de bruxa, mandraca.

Na certa, mandinga sacaca, coisa-feita de yara-macho. Trabalho sob’encomenda, braba e velha traquinice, com fungu de preta-renda; mais mocó que mandraquice.

Ei de fugir desse bruxedo, do mundo paranormal, com força libidinal perder do malfeito o medo, tomar energia primal (antes engano que ledo) e, com o milagre do sal, lavar do caborje o azedo, destruir a preta mandê, em Alhandra não mais ir, de fantasmas passar a rir: pra pensar só em você!

Chegamos, finalmente, àquela parte mais alta da serra. Ao cair da noite, o sol dourava os pontos mais elevados da paisagem. Aqui e ali podia ser visto um ou outro vivente tangendo burramas cansadas, acelerando a caminhada para chegar às portas da cidade antes do anoitecer.

De repente, o grave som de um sino (ou teria sido um longínquo trovão?), veio através dos campos e vales, proclamando a hora da Oração. O toque foi glorificado pelas arribaçãs nos galhos mais altos das algarobas. Tio Lucas, ao pé da colina, tirou o chapéu enfeitado de espelhos e ficou por um momento imóvel, rezando contrito a oração vespertina, prestando homenagem e agradecendo a Deus pelas misericórdias do dia. Parecia que alguma santidade, momentaneamente entre nós, irmanava-se ao espetáculo do sol afundando esplendidamente no horizonte, numa majestosa solenidade. Na ocasião, o efeito foi mais surpreendente por conta do aspecto selvagem e solitário do local. Estávamos em um planalto nu e agreste, com ruínas que falavam de antigas gentes. Enquanto andava por entre os entulhos, meu Tio apontou com sua bengala um buraco circular que parecia penetrar no coração do morro. Era, sem dúvida, uma cisterna profunda, aberta pelos incansáveis ​​mouros para tirar e preservar seu elemento de maior valor com a mais possível pureza. Tio Lucas saiu do seu mutismo e me segredou que, na verdade, o buraco era a entrada oculta para as cavernas subterrâneas da Serra, onde Boabdil e sua corte se esconderam dos espanhóis e dos mouros.

O crepúsculo neste clima é de curta duração e nos avisou que era hora de deixarmos esse rincão maravilhoso. Quando descemos as encostas já não se via muita coisa. Sobrava só o chilrear dos nossos próprios passos. As sombras do vale se tornaram mais densas, até que, de repente, tudo escureceu ao nosso redor. No céu, um vago brilho da luz do dia; os altos da Borborema, como que cobertos de neve, brilhavam no azul do firmamento, e parecia que estavam bem perto de nós, dada a extrema pureza do ar.

— Quão perto a Serra está! Parece que pode ser tocada com a mão e, no entanto, fica a léguas daqui!

Enquanto meu tio falava, uma estrela apareceu no céu. Tão pura, grande, brilhante e bonita, que o fez exclamar num transporte de alegria: “ó que linda estrela! Tão clara e limpa! Pode haver outra mais brilhante?”

Notei várias vezes essa sensibilidade do sertanejo para com os encantos das coisas naturais. O fulgor de uma estrela, a beleza e a fragrância de uma flor, a corrente cristalina de uma fonte, inspiravam uma espécie de alegria poética; e então, frases mais que bonitas falavam, numa linguagem magnífica, seus transportes de alegria.

— Mas que luzes são essas, Tio Lucas, que vejo coruscar por todo arredor? Pareceriam estrelas se não fossem vermelhas e não brilhassem nas saias da Borborema!

— Aquelas, meu filho, são as fogueiras que iluminavam os caminhos de Granada. Os almocreves, com suas mulas, iam até a Serra todas as tardes e se revezavam, alguns descansando, aquecendo-se nas fogueiras; outros enchiam os matulões de neve. Depois, desciam e chegavam aos portões de Patos, antes do amanhecer. A Borborema, meu filho, é uma montanha de gelo colocada no meio da terra para que a Paraíba sempre fique fresca durante o verão.

Procissões

Estava completamente escuro e voltamos atravessando a garganta, onde restava a cruz do tropeiro assassinado. À distância, lusco-fuscos se moviam. Mais perto, deu para perceber que eram tochas carregadas por um cortejo de estranhas figuras vestidas de preto. Parecia uma procissão horrivelmente sombria na crueza e solidão do lugar. Tio Lucas se aproximou de mim e disse, em voz baixa, que aquilo era um enterro: estavam carregando o cadáver do tropeiro assassinado para o Santo Amaro. É hoje! Meu coração começou a bater mais forte. Um mistério está para ser revelado, pensei. À medida que a procissão lentamente passava, os reflexos tristes das tochas iluminavam as feições sombrias e as vestes funestas dos acompanhantes e das carpideiras. O efeito era tenebroso; mas, foi ainda mais arrepiador quando o rosto do cadáver —de olhos abertos— foi banhado em luz, pois, segundo o costume espanhol, estava descoberto e via a cara do seu assassino. Permaneci por muito tempo apático, apalermado, seguindo com os olhos o préstito subindo pela Serra, tal qual outra comitiva de demônios levara um dia o corpo de um pecador para ser enterrado na cratera do Stromboli.

— Ah, meu filho! Exclamou tio Lucas. —Eu poderia lhe falar de uma procissão parecida que vi nessas serras, mas você iria rir de mim, pois dizem que é só mais uma das histórias que seu avô Bráulio herdou do alfaiate.

— Não, meu tio, conte, porque não há nada que mais me interesse do que suas histórias admiráveis (Era agora!).

— Bem, meu filho, você sabe que, há muitos anos, no tempo dos Reis a das Rainhas, havia em Patos um velho lorde da Pedra do Reino chamado Pedro Sánchez Pérez-Castejón, conhecido por todos como Mestre Pedro. Pois bem, certa vez retornava ele de Patos para a Rainha da Borborema, já era noite, quando terminou por adormecer na sela, balançando a cabeça para lá e para cá, deixando a mula seguir sozinha, pelas beiradas de precipícios, subindo encostas e descendo escarpadas ravinas. Depois de algum tempo, Mestre Pedro acordou, olhou para trás e ficou surpreso e espantado… E, de fato, havia motivo para isso! Porque, ao belo luar, que brilhava como o dia, viu perfeitamente Patos lá embaixo, com seus edifícios brancos como uma xícara de prata à luz da estrela da noite. Mas, por Deus, meu filho, não se parecia em nada com a cidade que ele havia deixado algumas horas antes! Em vez da igreja, com a sua cúpula e torre, o convento com suas escadarias, tudo encimado com a Santa Cruz, o que ele divisava eram mesquitas, minaretes e cúpulas adornadas por crescentes brilhantes, como são vistos nas bandeiras bérberes. Enquanto estava abestado, olhando para aquela impossível cidade, um extraordinário cortejo subiu a Serra. Eram soldados de infantaria e cavalaria, armados à moda mourisca. Mestre Pedro tentou sair do caminho, mas sua mula velha empancou e se recusou a dar um passo. Parado, tremendo, ele viu a comitiva fantástica passando por eles. Entre os guerreiros, alguns aparentemente tocando trombetas, e outros, tambores e címbalos. Nenhum som era ouvido, todos marchavam sem fazer o menor estalido, rostos pálidos como o de Abaddon. À frente, entre dois mouros negros a cavalo, o Grande Inquisidor de Granada em uma enorme mula branca como a neve. Mestre Pedro sabia que o Cardeal era famoso por seu ódio aos mouros e a todos os tipos de infiéis, judeus, hereges e cangaceiros, que perseguia a sangue e a fogo. Na presença da autoridade católica, sentiu-se seguro. Fazendo o sinal da cruz, pediu sua bênção. Em resposta, sentiu um chicote golpeando-lhe a cabeça. Ele e sua mula caíram no fundo de uma loca, rolando algumas vezes de ponta-cabeça e outras tantas de pé. Enquanto rodopiava, passou pela mente do Mestre que havia voltado ao sertão de Sergipe: era noite, chovia muito. Ele e os compartes em barracas. Viu quando se levantarem pela manhã para rezar o ofício e preparar o café. Mas, quando deram por conta, já era tarde. O ataque durou cerca de vinte minutos e poucos conseguiram escapar ao cerco e à morte. Dos trinta e quatro presentes, onze acabaram ali mesmo. Outros foram presos. Ele e mais três conseguiram escapar. No sonho, os volantes, eufóricos com o sucesso da empreitada, tomaram conta dos bens do bando e mutilaram os mortos. Levantou-se no fundo da ravina e ainda deu para ver, no fim do desfile, em uma leva de acorrentados, Colchete e Macela, Quinta-Feira, Mergulhão, Luís Pedro, Elétrico, Enedina, Moeda, Alecrim e Raimundo Nonato.

— Então, tio Lucas, isto aqui está mais para uma espécie de limbo mourisco? No meio dessas serras, para onde o Padre Inquisidor foi levado?

— Não, pelo amor de Deus, meu filho! Eu não sei nada sobre isso. Eu só conto o que ouvi do seu bisavô, marido de Zoraya.

*Fernando Gusmão é engenheiro, administrador de empresas, poeta, contista, cronista, ensaísta.

Uma Quarta-Feira muito especial

As quartas-feiras – dia do nosso encontro na Oficina de Criação Literária Clarice Lispector – são, sempre, muito especiais. Leituras de obras de autores clássicos, aqueles que ocupam trono no panteão dos deuses da literatura, ou de autores mais atuais, porém, de reconhecido lugar no mundo literário, nos levam a intensas viagens pelos mundos das palavras. Também, as produções dos próprios viageiros – participantes da Oficina – encantam essas tardes, tanto pela tessitura dos escritos como pela criatividade deles.

Os trabalhos são começados, sempre, com alguns poemas. Sentíamos que a chegada à Oficina, o encontro com os companheiros de muitas viagens deixavam-nos muito excitados, necessitando de algo muito forte que nos fizesse mergulhar dentro de nós mesmos para acalmarmo-nos e prepararmo-nos para os trabalhos. Por isso, surgiu o Momento Poético. Mas, de um mero recurso para trazer-nos a calmaria necessária à viagem que iríamos empreender, esse momento cresceu, ganhando espaço maior, conquistando-nos de tal forma que hoje, temos dificuldade de cumprir a programação para a tarde, tão enlevados que ficamos com a leitura dos poemas e as falas sobre os poetas que são trazidos.

Aqui está uma quarta-feira muito especial, na qual os escritores da casa fizeram e comandaram a festa.

O cenário do semi-árido nordestino, da estiagem prolongada, da dura e cruel seca do sertão esteve presente no poema de Lília Gondim, Ciclica Estiagem e na prosa poética de Elizabeth

CÍCLICA ESTIAGEM

Lília Gondim

Triste gente de semiárida vida,

deixando pra trás casebres,

 os seus minguados pertences;

promessas, feitas p’ros céus,             

já  muitas vezes cumpridas.





Vagam, em fila, impotentes,

procurando o que foi rio,

outrora tão caudaloso.

Hoje, o que sobra é um fio

de água turva, empoçada,

alento mais que insalubre

pr’os que conseguem chegar,

sendo bicho ou mesmo homem.





É trágica a estiagem !





Outros já partiram antes,

desde que a roça secou.

Reza nenhuma ajudou!

Todo o gado, esfomeado,

murchou e se abandonou

pela terra ressecada,

em largas fendas rachada.





Dos filhos, irmãos, avós,

Só restaram mesmo as ossadas.





É tétrica a estiagem !

É só fome, sede, morte…





Vão-se em busca de outro norte,

de terras sempre orvalhadas,

quiçá, vida de mais sorte!





E a chuva os trará de volta,

Esquecem a desesperança.





Pelos sítios, nas noites invernais,

cantarão outras novenas,

farão novas louvações

e puxarão “incelênças”

lembrando dos que ficaram

nessa  árdua caminhada.





Trabalharão confiantes

na força da sua enxada

e no seu amor ao rio,

novamente tão crescido,

burburinhando  entre as pedras.





No fundo calam a certeza

de que muitas outras vezes,

como o fizeram seus pais

 e, antes, os seus avós,

trilharão a atroz jornada.





Partirão,

sempre que o sol,

teimoso, abrasante,

inclemente e tórrido,

desafiando os seus santos,

expulsar da terra a chuva.

Triste gente de semiárida vida…

Desesperança

Maria Elizabeth Freire


As chamas balançam amareladas e tímidas no pequeno fogareiro de barro. Uma panela de alumínio, machucada e sem tampa, tenta cozinhar a última porção de feijão. 

Lá fora o sol nasce insistente, afoito. Não se cansa de aquecer a terra dura e sofrida de onde nada brota. Até o roçado de palma murchou.

Os ossos de Mimosa estão espalhados pelo terreiro. Nem para os urubus servem mais. Não tiveram coragem de abatê-la enquanto ainda possuía alguma carne. Mimosa, não. Por tantos anos seu leite aplacou a fome e a sede dos meninos.

Katyelle Caroline com seus passos lentos e miúdos segue procurando Mimi. Desde ontem, o gatinho sumiu. Dimerson Janailson está sentado com Baleia ao seu lado. Gente e bicho sem forças para brincar.

No barreiro atrás de casa, lama. Só lama, que seca mais a cada dia.

Na cisterna, que algum governo construiu, os derradeiros litros d’agua são regrados com cuidado e medo.

Debruçada na janela, a mulher passa a mão pelo ventre saliente. Espia, com olhos melancólicos, os outros filhos lá fora. O homem continua deitado na rede. Balança para lá e para cá embalado pela desesperança.

A vida no sertão é para os fortes, já disse Euclides da Cunha. No entanto, hoje, até os fortes estão enfraquecendo. Os vizinhos foram embora para São Paulo há muito tempo, deixando a terra abandonada. Eles ficaram. O homem já trabalhou diversas vezes no Sul, sempre como servente na construção civil. Nunca quis levar a família para aquelas bandas. Sempre voltou. Às vezes, com algum dinheiro, outras, sem um tostão. Com dinheiro ou sem dinheiro, jamais aceitou sair do seu lugar neste mundo. A mulher bem que tentou convencê-lo a largar tudo e tentar a vida em outro canto. Inútil. Este sítio é nosso desde meu bisavô, mulher. A família fica onde eu quero, dissera várias vezes. Ela limitava-se a balançar a cabeça em sinal de desencantamento.

No chão de terra batida, Jamerson Clayton, nariz escorrendo, barrigão de vermes, engatinha choramingando. Vai em direção à mãe. Ela sai da janela e pega o bebê no colo. Dá-lhe um ralo mingau de farinha. O menino se cala alimentado pelo carinho da mãe. Adormece. A mulher suspira.

De repente, Mimi volta. A menina para. O bebê acorda. Uma Asa Branca passa cantando. O menino levanta-se. Baleia abana o rabo longo e fino. O homem sai da rede. A mulher mexe a panela no fogo. Vão todos para fora de casa. Olham para cima, admirando aquele céu lindo e cinzento. Um clarão risca no horizonte. Ao longe se ouve um estrondo bonito, forte. As crianças gritam, a do ventre se mexe. A mulher acaricia a barriga e quase sorri. O homem olha o céu mais uma vez e volta para rede.
 

Outros poemas

Lília Gondim


SÓ MARIA


Já tinha sido A Maria:
Maria Amada, Maria Tudo...
Essa certeza,
bem lá no fundo de Maria Coração,
calava um sentimento
de Maria Importante,
Maria Querida, Maria Amiga,
Maria Desejada, Maria Companheira,
Maria Mulher.
 
Surpreendeu-se um dia,
com a indefinição do artigo
que precedia seu nome.
 
Por não ser mais A Maria,
Tornou-se UMA Maria:
Maria Indeterminada, Maria Indefinida,
Maria Sem Direção.
Maria Solta, perdida,
Maria Desesperada,
pensou ser Maria Morte.
Mas sendo Maria Amor,
queria, Maria, a vida:
Maria Contradição!
 
Dos pensamentos contrários,
gerou-se Maria Luta:
se não era A Maria,
também não Uma Maria!
Bastava ser SÓ Maria:
nem ser diferenciada
nem ser Maria Qualquer.
 
Seria apenas Maria,
Maria, toda Maria,
Maria feita de sonho,
Maria feita de amor.
 
Maria, ganhando a vida,
Maria mudando o mundo
junto a milhões de Marias,
lutando no dia a dia.
E descobriu-se por fim
uma Maria Maior!
 
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SEXTA FEIRA

A sexta vai ser bem dura,
começando, logo cedo,
no birô da Prefeitura.
No almoço,
engolir às pressas
qualquer comida pedida,
dessas chamadas de “expressas”.
 
Em seguida o pior...
Sair voando daqui,
dar aula em Tejipió.
Lá, na expressão corporal,
alongamento anti estresse,
a turma bem relaxada
e eu própria muito cansada
da minha vida apressada.
 
De lá direto pro CAC:
ensaio extra marcado!
No meio das partituras
dos sons de vários matizes
quase que somos felizes;
bemóis, sustenidos, pautas,
afinações e deslizes.
 
Mas pra compensar o dia,
só posso esperar,
mais tarde,
nossa verdadeira arte,
a de quem muito se ama:
um concerto de verdade,
belíssimo,
em nossa cama!
 
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Adelaide Câmara é uma viageira que insiste em dizer que não escreve ficção, apesar de todas as evidências provarem o contrário. A verdade é que escreve muito bem, com um estilo muito particular. No conto ora apresentado, O Dinheiro, o Amor, um Juiz, esse estilo está bem presente, onde a sagacidade, a ironia fina se unem a um registro cruel de uma realidade social perversa.

O Dinheiro, o Amor, um Juiz

Maria Adelaide Câmara

Trabalhava numa mercearia. Jovem ainda, um pouco gasta. Sonhava em manter-se, ajudar nas despesas da casa e ainda custear algum estudo.

O patrão, homem de seus trinta e poucos, barriguinha incipiente, agitava-se entre as amabilidades com os clientes e o caixa. Contratara-a para ajudar nas vendas e no atendimento. Queixava-se da coluna. Procurava alguém que pudesse substituí-lo em momentos de repouso forçado, muito raros, dissera. Ela era trabalhadeira, muito despachada. Assim, as crises do patrão podiam ser cada vez mais frequentes. O salário pingava quinzenalmente, no princípio com regularidade. Um desafogo!

Além dela, havia o encarregado de carga, descarga e estoque e um auxiliar para mandados e faxina, um meninote. Certo dia, o rapazote, surpreendido a sono solto, fora para o olho da rua.

 O patrão pediu à funcionária um ligeiro acréscimo de funções a que corresponderia remuneração extra, só enquanto procurava um substituto.

O tempo foi passando, o salário atrasando e o extra, dopado e adormecido na esteira das vendas enfraquecidas, atrelado à melhoria da situação nacional. Ela pau-para-toda-obra, ele nem pau nem obra.

Cansou-se. Para tanto trabalho haveria de ter um juiz. Achou-o. Ganhou a causa. Dez mil reais arbitrados como a ela devidos.

Uma semana depois, apresentam-se novamente ao juiz a empregada e seu patrão. Ela desistia da ação, haviam feito um acordo.

Macaco velho nas mutretas humanas, o juiz dispensa o patrão e interroga a moça. Depois de rodeamentos, considerando o togado um homem muito justo, conta-lhe que o patrão lhe propusera casamento.  Enfadado, o juiz quer saber por que se fiava nisso. E ela, como em todos os tempos, dá as razões do coração. O juiz manda chamar o noivo e determina-lhe depositar judicialmente um mil reais para a prometida, durante 10 meses, daquele momento até o casório.

Despedem-se e retornam a seus anteriores: o juiz às querelas alheias, a empregada a seu patrão, ambos aos secos e molhados.

Três meses depois, aparece ao juiz a empregada capionga e cabisbaixa. O casamento estava desmanchado.

Narciso está sempre presente nas nossas discussões, afinal a interface da Literatura com a Psicanálise e a Mitologia são frequentemente referidas nas nossas leituras, assim como nas escritas. Ricardo levou, nesse dia, contos sobre o Espelho que confirmam o que já se sabe dele, a grande maestria com as palavras, dessa vez, primando pela teoria do iceberg em que o que está aparente, na superfície do texto, é uma pequena parte do que está encoberto, do não dito.

ESPELHO

Ricardo Braga

Microconto

No espelho de si, narcísico não se enxerga

Mesoconto

Quarenta anos completos

Olha-se diante do espelho:

Bebê risonho, garota de perninhas grossas, peitinhos surpresa, peitos tesudos, executiva impetuosa, peitos minando leite, filhos queridos, filhos sugadores

Não dá mais, Jorge

Exaspero, desespero

Separação

Olha-se atentamente através espelho:

Rugas anunciadas, olheiras marcantes, lábios carecendo batom, olhos marejados de saudade

Interrogação… na fumaça do cigarro

Olha-se para além do espelho:

Corpo de velha

Amigos escassos

Ideias dissonantes

Solidão

Nega-se a continuar, abandona o espelho, corre à procura da mãe

Reconhece a escuta sem pressa, a fala não imposta, o criativo ócio de quem tem tempo para pensar.

Abraça-a como se fosse a si mesma, amanhã.

Um rei chamado Beethoven

Graça Lins trouxe para a Oficina a história de Beethoven, o cão de um morador de rua que vive nas cercanias da ponte da Torre, chamando a atenção de todos que passam por ali. Em cima de um carrinho de compras, muito bem acolchoado, Beethoven, que tem direito ao sobrenome de seu dono, está sempre coroado como se fora um rei, do reino da fantasia do seu dono. Tanto se falou dele que tornou-se personagem de vários escritos dos viageiros, numa demonstração de que a ficção nasce de fatos cotidianos, de observações do mundo real.

Amigos Inseparáveis

Ana Amâncio

Jurandir tinha família e sua vida era igual a de muitas pessoas. Ele tinha um emprego, não gostava muito do que fazia, mas não tinha disposição de jogar tudo para o alto pois os familiares dependiam dele.

Seus sonhos sempre ficando para depois e assim o tempo foi passando. Uma viagem de férias com toda a família, entretanto, não poderia ter dado mais errada, e um acidente foi fatal para todos, apenas, Jurandir, sofreu pequenos arranhões.

Sua vida, após o acidente, tornou-se insuportável. Ficou tão desorientado que andava sem destino e sem hora para voltar para casa. Algumas vezes ficava dias vagando sem comer, sem dormir, só pensando no que havia acontecido e que ele não pôde fazer nada para salvar sua família. E se perguntava: Por que tinha sobrevivido?  Não tinha resposta. Achava que era um castigo. Seu sofrimento era grande.

Após muitos dias caminhando, já não sabia mais onde morava, quantos dias estava fora de casa, muito desorientado e muito sofrido adormeceu numa calçada.  Aos primeiros raios do sol acordou com lambidas na cara. Arregalou os olhos e ainda sonolento vislumbrou um cão que só  fazia lamber a sua cara. Ele enxotou o animal, gritou com ele, mas de nada adiantou. Tentou voltar a dormir, mas o cachorro não deixou, queria brincar. Trouxe um pedaço  de pau e colocou junto dele. Jurandir não queria brincar, estava triste. O cão saiu correndo e trouxe uma bolinha velha, murcha e colocou junto das mãos dele, sem sucesso. Ele não desistiu até conquistá-lo e começarem a brincar juntos e se tornarem companheiros inseparáveis.

Ter um companheiro inseparável e muito leal faz toda diferença na vida de uma pessoa, ainda mais se sua casa for as ruas de uma cidade.

Muito Prazer, Jurandir

Maria Elizabeth Freire

 Eu sou Jurandir, figura conhecida entre os que moram ou passam por Casa Amarela. Sei que vocês têm curiosidade de saber como vim parar aqui com meu cachorro de nome imponente.

Nasci numa família de classe média. Tenho o segundo grau completo.  Levei uma vida normal, como dizem alguns, por muitos anos. Foi então que conheci Maria. Uma moça de olhar tristonho que me conquistou com o balanço dos seus quadris e aquele sorriso de Mona Lisa.

Casamos. Morávamos numa casa pequena, confortável e bem equipada.  Pensávamos em ter filhos, ao menos dois. Eu trabalhava num banco e Maria tomava conta da casa. Nunca quis trabalhar fora. Eu entendia. Minha mulher tocava piano desde menina. Mesmo com a casa sem muito espaço, conseguimos um cantinho para acomodar o instrumento. Ela passava horas tocando. Esquecia do mundo. Às vezes queimava o feijão, esquecia a roupa no varal, mas eu nunca me importei. Sua alegria quando me via chegar era tocante.

O tempo foi passando e nada de Maria engravidar. Começou a sentir-se só. Foi deixando de tocar piano. Fiquei preocupado. Seu olhar foi ficando dia a dia mais distante. Aconselharam-me, então, a comprar um cachorro para fazer companhia à minha mulher.

Quando cheguei em casa com aquela criaturinha frágil, necessitando de tantos cuidados, Maria nem ligou. Eu não sabia o que fazer. Deixei o cãozinho do lado de fora e fui deitar. Estava cansado e decepcionado comigo mesmo.

Maria ficou na sala, deitada no sofá, com aquele olhar vazio.

De madrugada, passei o braço procurando por ela e percebi que estava dormindo sozinho. Fui para a sala e vi uma cena que até hoje me enche o coração de alegria. Maria, sentada no batente da porta do quintal, embalando o cachorrinho cantarolando a Nona Sinfonia de Beethoven.

Ele estava chorando com frio e fome. Tive pena, ela disse. Dei uma mamadeira de leite e enrolei o bichinho neste lençol. Ele olhou pra mim com uns olhos tão meigos que não resisti e coloquei o danadinho nos meus braços. Cantarolei minha peça de piano predileta e ele adormeceu.

Demos a ele o nome de Beethoven. Passou a ser fiel companheiro de minha mulher. Vez por outra ela tocava alguma música no seu piano. Tudo ia bem, ao menos assim eu acreditava.

Então, num dia chuvoso, chego em casa e encontro Beethoven embaixo da mesa da cozinha, acabrunhado, triste.

Procuro por Maria. Entro na sala e noto algo estranho. O piano! Cadê o piano? Que diabos era aquilo? Gritei por Maria e não houve resposta. Corri pela casa toda à sua procura. Nada.

Voltei para a cozinha, o cão continuava no mesmo lugar, ainda mais triste. Apoiei-me na mesa e então vi um papel embaixo de um vaso. Um bilhete.

Tremi ao pegar o pedaço de papel. Li e reli mil vezes sem acreditar. Maria havia saído da minha vida sem explicação. O bilhete dizia: Vou te amar para sempre. Cuide de Beethoven. E um beijo de batom vermelho terminava a mensagem.

Daquele dia em diante, gastei tudo que tinha procurando Maria. Encontrei o velho piano numa escola de música. O proprietário me informou que uma moça bonita o havia vendido havia seis anos. Não tivera mais notícias dela. Chamou-lhe a atenção seus olhos lindos e melancólicos.

Perdi o interesse por tudo. Passei a viver assim na rua, sempre na esperança de ver Maria passar. Minha única alegria desde então tem sido Beethoven. Ele amou Maria tanto quanto eu.

QUATRO SENTIDOS

Quatro Sentidos

Graça Lins

          Meu dono insiste em dizer que minto quando eu digo que não escuto bem as buzinas. Mesmo a mais estridente de uma camionete, cheia de bananas, que passa diariamente. Observo o movimento frenético da rua, imagino ruídos que não escuto. Vejo as crianças indo à escola. Não ouço bem o que dizem, nem mesmo a fala do meu dono. O seu carinho em minhas orelhas é o bastante.

         Sinto os cheiros que se misturam, vindos da lanchonete. O aroma do café quentinho e do queijo frito que escorre do pão e penetram nas minhas narinas sem pedir licença.

        Minha casa? Um velho carrinho de supermercado, aconchegante e seguro.  Também serve para transportar meus sonhos . É nele que me aninho entre almofadões encardidos, doados pelos vizinhos.  E  é de lá que avisto a vida que não vivo.

       Um dia, meu dono me levou para conhecer o Museu que fica bem em frente ao Posto de combustível onde passamos boa parte do dia. Foi um passeio mais que curto porque “reguei” a estátua do jardim e o vigilante nos pôs para fora de imediato. Sei que queria me oferecer um dia diferente de todos os outros em que ficamos, no semáforo, pedindo dinheiro aos passantes.

       Ele me falou que vou ganhar uma companheira igual a mim, da minha cor e que tem olhos serenos e observadores como os meus. Só uma coisa irá diferir. Não terá coroa de Rainha, pois a minha de Rei ganhei no carnaval passado quando vi o maracatu desfilar.  Estava quieto, embaixo da marquise, mas meu dono me deixou ver de perto toda aquela realeza. Bombos enormes, uma grande sombrinha, um colorido indescritível e com certeza tocavam uma música contagiante que fazia todos dançarem de uma forma muito engraçada. Eu queria cantar também. Mas só uivava.

         Por não ouvir bem, aguço os outros sentidos. Foi aí que, um dia, vi meu dono envolver o pé com uma gaze e botar uma tintura de cheiro esquisito numa ferida que nunca existiu. Nesse dia, andou mancando e todas as vezes que o semáforo ficava vermelho as pessoas paravam seus carros e davam bem mais dinheiro. Tinham dó dele e nem me davam atenção. Acho que a esperteza valeu a pena. Com o que arrecadou, comprou comida para 3 dias.

        Fiquei farto com tamanho banquete e depois, durante a sesta, sonhei com um compositor famoso que, assim como eu, não ouvia bem.  Decerto é em sua homenagem meu nome de batismo: BEETHOVEN, ou seja, RÔMULO BEETHOVEN SOARES DE MELO.

Cada qual tem uma vida

                                      Fátima Pinheiro

Coroa de rei me veste, transito num carro acolchoado, mas minha vida não é a que parece, é vida de cão, acreditem.

Feliz me encontro de ter um amigo fiel, Jurandir, embora os outros pensem que é ele que me tem.  

Todas as manhãs, estendendo-se às tardes, passeamos por uma rua de destaque em nossa cidade. Não sou peça de museu, embora muitas pessoas me olhem com admiração, apenas desfilo em frente a um deles.

Eu, de olhar atento, aprecio o vai e vem dos carros sentindo o sol e a brisa me acarinhar.

A noite chega e o meu dono diz, Beethoven, hora de nos recolhermos. Um transeunte curioso avisa, Beethoven é nome de músico. Lato respondendo: Me deixa quieto, qualquer semelhança é mera coincidência.

                                                                     


C’est La Vie…

Salete Oliveira

Eu me coçava, as pulgas pulavam, rodava tentando alcançar o rabo, que agonia, as costelas ferindo o couro dos costados, um carro dobrou entrando na avenida, cantou pneus, dei um pulo ganindo, raspou na minha pata o pneu, me arrastando caí no gramado, ele dormia no seu papelão, coberto com andrajos, abriu um olho devagar, depois o outro, nos olhamos por um longo tempo, gani baixinho, as pulgas voltando a me picar, ele começou a se coçar, também, gritou: cachorro pulguento, ah não! Junto de mim só se for limpo e cheiroso! Sentou-se e me puxou, os carrapatos estalavam entre suas unhas, as pulgas corriam sobre o couro querendo fugir, assim raiou o sol, ele atravessou a rua e me deixou lá sobre o cobertor, voltou com sabão escova de metal e talco, ligou a mangueira após amarrar meu pescoço com camiseta velha e me segurar firme com a mão esquerda, banho gelado às seis da madrugada? Tremi e mijei ali sem tempo de levantar a pata, sem poste sem tronco, transido de frio, depois veio só alívio, a escova raspando meu couro, ele cortando os tufos embaraçados. Cortou também minhas unhas e passou um creme melado na pata dolorida, ardeu, mas aguentei, um cuidado desses fazia tempos que eu  não tinha… Era hora de sair a furar sacos de lixo das lanchonetes ao redor, já tinha a minha favorita ali perto, comia os guardanapos melados de molhos com restos de carne, queijos e pão, escapei e corri pela calçada, ele foi atrás, encontrei uma fatia de pizza, trinquei nos dentes e levei pra ele, arregalou os olhos e entendeu, olhou com olhar agradecido e comeu. Saímos a andar juntos, descemos a ponte para o outro lado do rio onde pessoas caminhavam toda manhã, sentados nos bancos velhos e babás, carrinhos de bebês cheirosos, espirrei perto deles, uma babá me enxotou, um velho disse, faça isso não, cachorros são muito mais sensíveis que nós… Encontrei amigos por lá, cachorros e também gatos, e ele me acompanhando, subi, à sua frente, pela outra ponte,  a tempo de ver estudantes em sua algazarra, entrando em faculdade e colégios, dessa vez caminhei por ruas secundárias, o guinchar dos pneus ainda feria meus ouvidos. Perto das doze horas voltamos àquela esquina, ele começou a fazer piruetas frente aos carros no sinal fechado. Depois, parou e colocou duas tigelas com comida e água fresca para mim e me deu um edredom, deitei, barriga cheia, sem coceiras,dormi a tarde inteira, acordei com ele coçando minha barriga, tá  pensando que é rei, acorde ?! Dia seguinte chegou com carrinho vermelho e coroa que algum folião perdera na volta de algum bloco de carnaval, colocou o edredom dentro do carrinho e a coroa na minha cabeça, enfeitou o carrinho  com fitas e bolas de Natal e tiras de panos coloridos e disse, pronto, essa é sua carruagem, seu reinado é essa esquina, te batizo com o nome de príncipe, guarde bem esse nome que é seu. Bem, os óculos escuros fui eu quem achei no supermercado em frente, alguém perdeu. Ele não quis, colocou em mim no final da tarde, nunca mais sofri com lusco-fusco até que ele sentou em cima, dia desses, mas ouvi uma professora simpática dizer que vai me arranjar outro! Vidinha mais ou menos para um cachorro vira-latas, não é, não? Estou treinando o ganido, quem sabe chego a cantar melhor que o Rossi, meu ídolo!?

A Crônica como uma Forma de Literatura – características do gênero

Fernando Gusmão

Introdução

As considerações que se seguem resultam —inclusive e principalmente— da leitura que fiz do capítulo VI, do livro “A criação literária – Prosa Volume II”, de Massaud Moisés. Este meu texto, é claro, não esgota o assunto. No que se segue, excertos da obra em referência estão colocados entre aspas duplas.

De início, muito me chamou a atenção o fato de existir uma discussão séria na crítica literária sobre o gênero crônica: seria a crônica, enquanto gênero literário, de uma importância secundária?

Essa opinião me pareceu ser esposada por Moisés. Na obra citada ele, entre outros, faz o seguinte registro: “o fato da crônica estar voltada para o cotidiano fugaz e endereçar-se ao público de jornal e revistas é, sem dúvida, uma limitação do gênero”. E mais, “fruto do improviso, da resposta imediata ao acontecimento que fere a rotina do escritor, e lhe suscita reminiscências caladas no fundo da memória, a crônica, por conseguinte, não pressupõe o estatuto de livro”. Outro ensaísta, Luiz Costa Lima, é mais peremptório quando diz que ‘a crônica é reconhecidamente um gênero menor’.

Por outro lado, vendo a crônica sob o viés do igualmente afamado literata Afrânio Coutinho notamos que este percebe o assunto de forma diferente quando afirma que é enganoso supor que o livro é que dá qualificação definitiva a qualquer escrito. Acrescenta: ‘e a crônica que não haja pago excessivo tributo à frivolidade ou não seja uma simples reportagem, estará sempre a salvo, como obra de pensamento ou de arte, embora não saia nunca das folhas de um periódico. Mais poéticas ou mais bem-humoradas, mais sensíveis ou mais debochadas, a vasta gama de possibilidades da crônica indica sua complexidade, seus limites imprecisos e as largas opções de desenvolvimento. Qualquer forma literária só será considerada gênero literário quando apresentar qualidade literária, libertando-se de sua condição circunstancial pelo estilo e pela individualidade do autor’.

História

Do ponto de vista histórico, o vocábulo crônica “designava, “no início da era cristã, uma lista ou relação de acontecimentos ordenados segundo a marcha do tempo (Kronos), isto é, em sequência cronológica. Situada no espaço entre os anais e a história, limitava-se a registrar os eventos, sem aprofundar-lhes as causas ou tentar interpretá-los”. A partir da renascença, o termo continuou a ser utilizado no sentido histórico ao longo do século XVI como, por exemplo, nas Chronicles of England, Scotland, and Ireland (1577), de Raphael Holinshed, ou nas “chronicle plays”, peças de teatro calcadas em assuntos verídicos, como não poucas de Shakespeare. “Na acepção moderna a crônica entrou a ser empregada no século XIX quando, liberto de sua conotação histórica, o vocábulo passou a revestir sentido estritamente literário”.

A crônica está hoje, “afastada do sentido de história, do sentido de documentário”. Na maioria dos casos, é “uma prosa poemática, humor lírico, ou fantasia”. Interessante também notar que a crônica, tal qual se desenvolveu no Brasil, “parece não ter similar noutras literaturas, salvo por influência de nossos escritores, como no caso da moderna literatura portuguesa”.

Da maior importância é o fato de que a crônica” brasileira surgiu e se desenvolveu de forma, como que, simbiótica ao jornalismo nacional, notadamente do jornalismo carioca. Ou seja, a crônica brasileira nasceu para ser publicada em jornais e semanários. A crônica” oscila, assim, entre a reportagem e a literatura, entre o relato impessoal, frio e descolorido de um acontecimento trivial, “e a recriação do cotidiano por meio da fantasia”.

O Cronista

“O cronista pretende ser não o repórter, mas o poeta ou o ficcionista do cotidiano ao desentranhar do acontecido sua porção inerente de fantasia. Aliás, como procede todo autor de ficção mas, com a diferença de que “o cronista reage de imediato ao acontecimento, sem deixar que o tempo lhe filtre as impurezas ou lhe confira as dimensões de mito, horizonte ambicionado por todo ficcionista de lei”.

“Mais do que um poema, a crônica” perde quando lida em série; “reclama a degustação autônoma”, uma a uma, como se o imprevisto fizesse parte de sua natureza, e um imprevisto colhido na efemeridade do jornal, não na permanência do livro. É preciso, pois, que ocorra o encontro feliz entre o motivo da crônica” e algo da sensibilidade do cronista “à espera do chamado para vir a superfície, ocasião em que se estabelece a fortuita afinidade entre o acontecimento e o mundo íntimo do escritor”.

A crônica” somente ganhou “a consideração dos críticos e historiadores da literatura no instante em que, ultrapassando as barreiras do seu veículo original, o jornal, conheceu a forma de livro”.

Tipos de “crônicas”

Quando o caráter literário assume a primazia, a crônica” deriva para o conto ou a poesia, conforme se acentue o aspecto narrativo ou o contemplativo.

“Existem dois tipos fundamentais de crônica”: a “crônica”-poema e a “crônica”-conto”.

O cronista tece a sua malha de considerações em torno de um acontecimento “visando não a persuadir ou a fazer prosélitos, mas simplesmente a pensar em voz alta uma filosofia de vida apoiada no efêmero cotidiano”.

Não há dois cronistas iguais, nem duas “crônicas” idênticas, “seja porque a mutação permanente do cotidiano determina a mobilidade do texto, seja porque a crônica” registra a variação do emocional do escritor”. A clave emocional da crônica” vai, desde a trágica, até a cômica, passando pela humorística, pessimista, depressiva, otimista, entre outras.

Crônica e Poesia

Enquanto poesia, a crônica” explora a temática do “eu”. Ou seja, resulta do “eu” ser o assunto e o narrador a um só tempo, “precisamente como todo ato poético”.

A crônica” se insere no âmbito da prosa poética, visto que “denuncia a simbiose entre os dois gêneros”.  A crônica” é o espaço livre do cronista, “que o usa para escrever poemas em prosa, poesias, contar estórias, fantasias, fazer ensaios”.

Crônica” e Conto

A crônica”, quando voltada para o horizonte do conto, “prima pela ênfase posta no não-eu”, no acontecimento, que provocou a atenção do “eu”, do escritor”. Quando se aproxima do conto, sem dele se metamorfosear, mantendo intactas suas características de base, “a crônica corre o risco de constituir-se na mera literalização de acontecimentos verídicos”: estes, funcionando como o estopim, que deflagra o comentário, estabelecem uma aliança entre o “eu” e o “não-eu”. “Não dispensando o acontecimento, plano do “não eu”, nem o lirismo, plano do “eu”, a crônica pode ser conceituada como a poetização do cotidiano”.

A crônica” é, por índole e definição, “o relato de acontecimentos diários e, portanto, deles depender para erguer-se como tal”. Dado o caráter ambíguo da crônica”, podemos tirar a seguinte inferência: “o meio termo entre acontecimentos e lirismo” parece ser o lugar ideal da crônica.

Características da crônica”

A crônica” tem duas características específicas.

A primeira, pela sua relevância, é a subjetividade. “Na crônica, o foco narrativo situa-se, invariavelmente na primeira pessoa do singular. E, mesmo quando o “não-eu” avulta, por encerrar um acontecimento de monta, o “eu” está presente de forma direta ou na transmissão do acontecimento segundo sua visão pessoal”. É a sua visão das coisas que importa ao cronista e ao leitor; “a veracidade positiva dos acontecimentos cede lugar à veracidade emotiva com que os cronistas divisam o mundo”.

A segunda é a brevidade: “No geral, a crônica” é um texto curto, de meia coluna de jornal ou de página de revista”. Somente por extensão, como “em algumas crônicas de Eneida, o texto se estende por várias laudas”. Imposta pela circunstância de a crônica” ser publicada em jornal ou revista, a brevidade reflete, e, a um só tempo, determina suas as marcas”.

A crônica” seria um monodiálogo. Simultaneamente, monólogo e diálogo.

Linguagem

Para casar com o estilo marcado pela oralidade, nada mais próprio que os temas do cotidiano sejam tratados na “crônica com “um grão de análise, de filosofismo, o suficiente para temperar um prato de suave digestão”.

Requisitos essenciais da “crônica”

Ambiguidade, brevidade, subjetividade, diálogo, estilo entre oral e literário, temas do cotidiano, ausência de transcendência, efemeridade.

“A crônica, fugaz, como a existência do jornal e da revista, mal resiste ao livro: quando um escritor se decide a perpetuar os textos que espalhou no dia-a-dia jornalístico, inevitavelmente seleciona aqueles que sua autocrítica e a alheia lhe sugerem como os aptos a enfrentar o desafio do tempo”.

Expressão literária que faz do cotidiano o seu prato diário, que existe na razão direta da sucessão de acontecimentos, a crônica”, para Fernando Sabino, “busca o cotidiano de cada um, visando o circunstancial, o pitoresco”.

Conclusão

Os textos literários – romances, crônicas, contos, poesias – que se notabilizaram pela qualidade, tiveram seu valor ora pelo conteúdo, ora pelo estilo, e muitas vezes por ambos. O mesmo se dá com a crônica, na medida em que o autor —independentemente do veículo—souber sobrelevar a circunstância ou fazer brilhar um estilo próprio.