Que quer uma Mulher? O feminino nas palavras

Ementa/Programa :

A oficina irá priorizar, no primeiro semestre de 2019,  a abordagem do feminino, mais especificamente, a relação filha-mãe, seguindo, inicialmente,  as pegadas  da Literatura de Elena Ferrante em O Amor Incômodo, e o eco das palavras de Freud, Afinal, o que quer uma Mulher? A complexa relação da personagem narradora com a sua mãe traz para reflexão a afirmação de Lacan de que o amor materno, pela sua impossibilidade de acontecer,  pode ser devastador para uma filha. Sob o ponto de vista essencialmente literário, a narrativa pode ser vista como uma Obra Aberta,  no sentido atribuído por Umberto Eco, pela ambiguidade e possibilidades que ela enseja. Trata-se de um romance de pouco mais de cento e setenta páginas, mas muito rico tanto pela sua forma, como pelo seu conteúdo instigante.

Além da leitura da obra catalizadora O Amor Incômodo, de Elena Ferrante, muitas outras atividades com as palavras serão desenvolvidas  visando:

  • Contato mais intenso com a linguagem poética através da leitura de poemas na abertura dos trabalhos;
  •  Produção de textos criativos, fugindo do convencional, da mesmice, pelo  exercício de escritas, a partir de linhas de história, jogos de     palavras, associações livres, releituras de narrativas clássicas, mudanças de   ponto de vista, alterações de cenário, tempos de narrativas, diálogos;
  • Produção de ensaios e resenhas a partir dos trabalhos realizados;
  • Fortalecimento do senso crítico a partir da leitura particular, da teoria literária e das técnicas utilizadas para análise literária;
  •  Participação como crítico ou autor da construção coletiva do romance iniciado  em 2015;
  • Postagens no blog da Oficina.

Como vai funcionar:

  • Leituras do romance, poemas e contos no computador, tablet, celular ou impressos.
  • Exercícios de escrita na Oficina ou leitura de textos produzidos pelos participantes.
  • Leitura de A História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux.
  • Leitura de Teoria Literária e exercício de técnicas quando o contexto assim o exigir.

Participantes:

  • Interessados em desbloquear a escrita, viajar pelas emoções através da Literatura, do mistério e deslizamento das palavras;
  • Escritores, potenciais escritores e críticos literários movidos pelo desejo de escrever e realizar leituras que ultrapassam os significados das palavras e deslizam para seus outros sentidos e não ditos.

Bibliografia:

CARPEAUX, Otto Maria – História da Literatura Ocidental, Editora Leya, São Paulo                 

D’Onofrio, Salvatore – Forma e Sentido do Texto Literário – Atica, São Paulo, 2007
Eco, Umberto – A Obra Aberta – Editora Perspectiva, São Paulo, 2008.

                        – Entre a Mentira e a Ficção – Editora Record, São Paulo, 2006

                        – Passeios pelos Bosques

Goldberg, Natalie – Escrevendo com a Alma – Martins Fontes, São Paulo, 2008

Kohan, Silvia Adela – Os Segredos da Criatividade –  Gutenberg, São Paulo, 2009
Lodge, David. – A Arte d a Ficção – L&PM, Porto Alegre, 2009
Llosa, Mario Vargas – Cartas a um Jovem Escritor
Moisés, Massaud– A criação Literária –Cultrix, São Paulo
Prose, Francine – Para ler como um escritor,
Wood, James. Como Funciona a Ficção – COSACNAIFY,São Paulo, 2011

Sugestões de bibliografia para Contos:


Casares, Adolfo Bioy, Gomes, Jorge Luis -e Silvina – Antologia da Literatura Fantástica, COSACNAIFY, São Paulo.
Costa, Flávio Moreira – Os Melhores Contos de Loucura – Ediouro, 2007
                                    – Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal,

                                       Ediouro, 2001
                                    –  Os 100 Melhores Contos de Erotismo da Literatura   

                                        Universal, Ediouro

                                     –  Os Melhores Contos da América Latina, Agir, 2008
Gomide, Bruno Barreto (Org.) – Nova Antologia do Conto Russo (1792-1998),

                                                    Ed.34, São Paulo.
Mansfield, Katherine – K. Mansfield, COSACNAIFY, São Paulo
Poe, Edgar Allan – Contos de Imaginação e Mistério, Tordesilhas, 2012
Renner, Rolf G e Backes, Marcelo – Escombros e CaprichosO Melhor do Conto Alemão no Século 20
Wilde, Oscar – As Obras Primas – Ediouro, 2000
Woolf, Virgínia – V. Woolf, COSACNAIFY, Sâo Paulo

Coordenação:

Lourdes Rodrigues publicou dois livros de contos: Bandeiras Dilaceradas e Situação-Limite pela Bagaço.  Participou de algumas Antologias de Contos da UBE, de Benito Araújo e da Oficina de Raimundo Carrero, da qual fez parte por mais de 10 anos. Organizou e prefaciou o livro Escrituras, publicação que contemplou os textos literários dos participantes da Oficina relativos ao período 2006/2009.  Organizou, prefaciou e participou com contos e ensaio de Escrituras II, Escrituras III e Escrituras IV, este último publicado por meio digital pela Amazon.com. que abrangeram os trabalhos literários dos oficineiros de 2010 a 2017. Coautora de A Criação Literária à Luz do livro Incidentes em um Ano Bissexto de Luiz-Olintho Telles da Silva. Outra importante área de seu interesse sempre foi a Psicanálise, tornando-se membro do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise em 2003, onde participou de vários grupos de estudos e hoje participa do grupo de Arte e Psicanálise. Desde 2006 coordena no Traço a Oficina de Criação Literária Clarice Lispector, primeiro dividindo o leme com outro colega viageiro, depois num trabalho coletivo com os seus integrantes. Decorrente desse vínculo com o Traço foi coautora do livro rodopiano e publicou vários ensaios na Revista Veredas, participando do conselho editorial da Revista.

Psicanálise e Literatura

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Psicanálise e Literatura

*Fernando Gusmão

Sabemos que Sigmund Freud, enquanto criava a Psicanálise, mostrava-se para o mundo como um escritor de invejável qualidade. Já em 1930, Walter Muschg, o primeiro crítico a estudar a prosa freudiana, na abertura do ensaio “Freud como escritor”, comentava: “… Ele exprime a rara unidade entre conteúdo e forma que sentimos como algo espontâneo”.

Como escritor, Freud, no seu robusto artigo “Escritores Criativos e Devaneio” (1908/1996), coloca questões que muito nos interessam: O que os escritores fazem, ao elaborar suas criações literárias? De onde eles extraem seus conteúdos? Como suas criações afetam seus leitores?

Tirei desse artigo passagens que dizem respeito a essas indagações:

Sempre sentimos uma intensa curiosidade em saber de que fontes esse estranho ser, o escritor criativo, retira seu material, e como consegue impressionar-nos com o mesmo e despertar-nos emoções das quais talvez nem nos julgássemos capazes. Nosso interesse intensifica-se ainda mais pelo fato de que, ao ser interrogado, o escritor não nos oferece uma explicação, ou pelo menos nenhuma explicação satisfatória.

Os escritores, o que, de fato, eles fazem?

Para responder a essa pergunta, comecemos por compreender que a ocupação favorita e mais intensa da criança é o brinquedo ou os jogos. Acaso não poderíamos dizer que ao brincar toda criança se comporta como um escritor criativo, pois cria um mundo próprio, ou melhor, reajusta os elementos de seu mundo de uma nova forma que lhe agrade? Seria errado supor que a criança não leva esse mundo a sério; ao contrário, leva muito a sério a sua brincadeira e despende na mesma muita emoção. Vale notar que a antítese de brincar não é o que é sério, mas o que é real. Ela distingue perfeitamente seu mundo de brinquedo da realidade e gosta de ligar seus objetos e situações imaginados às coisas visíveis e tangíveis do mundo real. Essa conexão é tudo o que diferencia o ‘brincar’ infantil do ‘fantasiar’.

Ao crescer, as pessoas param de brincar e parecem renunciar ao prazer que obtinham nesse brincar. Contudo, quem compreende a mente humana sabe que nada é tão difícil para o homem quanto abdicar de um prazer que já experimentou. Na realidade, nunca renunciamos a nada; apenas trocamos uma coisa por outra. O que parece ser uma renúncia é, na verdade, a formação de um substituto ou sub-rogado. Acredito que a maioria das pessoas construa fantasias em algum período de suas vidas. Este é um fato a que, por muito tempo, não se deu atenção, e cuja importância não foi, assim, suficientemente considerada. Em vez de brincar, agora fantasiamos. Construímos castelos no ar e criamos o que chamamos de devaneios.

As fantasias das pessoas são menos fáceis de observar do que o brincar das crianças. A criança, mesmo que não brinque em frente dos adultos, não lhes oculta seu brinquedo. O adulto, ao contrário, envergonha-se de suas fantasias, escondendo-as das outras pessoas. Acalenta suas fantasias como seu bem mais íntimo, e em geral preferiria confessar suas faltas do que confiar a outro suas fantasias.

Vamos agora examinar algumas características do fantasiar. Podemos partir da tese de que a pessoa feliz nunca fantasia, somente a insatisfeita. As forças motivadoras das fantasias são os desejos insatisfeitos, e toda fantasia é a realização de um desejo, uma correção da realidade insatisfatória. Ademais, os desejos motivadores variam de acordo com o sexo, o caráter e as circunstâncias da pessoa que fantasia.

No que diz respeito à relação entre a fantasia e o tempo é como se ela flutuasse entre três tempos – os três momentos abrangidos pela nossa ideação. O trabalho mental vincula-se a uma impressão atual, a alguma ocasião motivadora no presente que foi capaz de despertar um dos desejos principais do sujeito. Dali, retrocede à lembrança de uma experiência anterior (geralmente da infância) na qual esse desejo foi realizado, criando uma situação referente ao futuro que representa a realização do desejo. O que se cria então é um devaneio ou fantasia, que encerra traços de sua origem a partir da ocasião que o provocou e a partir da lembrança. Dessa forma o passado, o presente e o futuro são entrelaçados pelo fio do desejo que os une.

Não posso ignorar a relação entre as fantasias e os sonhos. Nossos sonhos noturnos nada mais são do que fantasias dessa espécie, como podemos demonstrar pela interpretação de sonhos. A linguagem, com sua inigualável sabedoria, há muito lançou luz sobre a natureza básica dos sonhos, denominando de ‘devaneios’ as etéreas criações da fantasia.

Deixemos agora as fantasias e passemos ao escritor criativo. Acaso é realmente válido comparar o escritor imaginativo ao ‘sonhador em plena luz do dia’, e suas criações com os devaneios? Para que nossa comparação do escritor imaginativo com o homem que devaneia —e da criação poética com o devaneio— tenha algum valor é necessário, acima de tudo, que se revele frutuosa, de uma forma ou de outra.

O escritor suaviza o caráter de seus devaneios egoístas por meio de alterações e disfarces, e nos suborna com o prazer puramente formal, isto é, estético, que nos oferece na apresentação de suas fantasias. Em minha opinião, todo prazer estético que o escritor criativo nos proporciona é da mesma natureza desse prazer preliminar, e a verdadeira satisfação que usufruímos de uma obra literária procede de uma libertação de tensões em nossas mentes.

Assim, podemos considerar as criações literárias como uma realidade convencional, libertadora, que promove fuga da penosa e austera realidade concreta. São criações imaginárias, é verdade, mas despertam emoções reais antes vistas como impróprias a um adulto.

As criações literárias são uma das principais vias de acesso aos conteúdos inconscientes. Proporcionam prazeres psíquicos elevadíssimos aos seus criadores, ao passo que aos seus leitores trazem, igualmente, prazeres psíquicos que, mesmo se parciais, não são menos importantes.

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Texto produzido a partir da leitura de

FREUD, Sigmund. Escritores Criativos e Devaneio (1908/1996). In: FREUD, Sigmund. “Gradiva” de Jensen e outros trabalhos (1906-08/1996). Edição standard brasileira das obras psicológicas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: IMAGO. Disponível em 26/10/2018 em:

http://www.portalentretextos.com.br/noticias/escritores-criativos-e-devaneio-1908-1907,2137.html >

  • Fernando Gusmão, engenheiro, poeta, cronista, ensaísta, contista.

resenhas

Os nossos viageiros produzem resenhas com as suas impressões sobre  a leitura de um conto ou de um romance. Enquanto leitores empíricos, eles fazem as suas próprias andanças pelo texto, o que as tornam extremamente interessantes.

Aqui temos duas delas, a de Graça Lins, Professora de Literatura, viageira atenta aos silêncios e simbolismos de uma escritora como Clarice Lispector em A Paixão, Segundo G,H; e, a de Fernando Gusmão, viageiro-escritor-poeta, muito atento ao concerto musical de A Arvore, metáfora usada pela escritora Maria Luísa Bombal. 

A PAIXAO “SEGUINDO” GH

Graça Lins

Ler ou decifrar? Reler ou indignar-se?  “Tresler” ou esvaziar-se de toda Teoria da Literatura? Eram as frequentes indagações que se faziam a cada leitura compartilhada de A Paixão segundo GH, no grupo da Oficina Literária, cuja madrinha é a própria Clarice Lispector.  

Os olhos atentos e impactados dos leitores, quase sempre, sem respostas. Quem busca logicidade em Clarice se depara com o caos milimetricamente construído. Pensei e calei.

A Literatura e a Psicanálise dialogavam. A Linguística, também. E os leitores? Todos na expectativa do banquete: uma barata de longos cílios e massa branca escorrendo do ventre.

A cada leitura, novos questionamentos: “De quem é essa mão a que GH se refere?” “Por que o uso de tantos travessões, sem indicativo de fala de alguém como a norma gramatical preconiza?” “Seria uma linha pontilhada, indicando  um caminho já  percorrido?” “O livro termina com 6 travessões? Que estranho!”

Enquanto a narrativa se desenrolava, os presentes mais se confundiam e os ausentes queriam, mesmo, era participar do prazer gastronômico que Clarice anunciava e os envolvia como uma tecelã, usando fios ficcionais que atavam à imaginação as imagens que construíam e desconstruíam a cada  capítulo.

Para essa tessitura, outros leitores foram convidados: Freud, Sartre, Lacan, Kierkgaard, Camus, São Tomás de Aquino. Valei-nos!  Até passagens do Levítico.

As citações bíblicas eram um bálsamo para o mal-estar da incompreensão. A interlocução, com a figura de um possível leitor, lembrava o mesmo recurso estilístico machadiano, mas nada acrescentava ou esclarecia.

 “Segura minha mão, porque sinto que estou indo. Estou de novo indo para a mais primária vida divina…” (p.59)

 “Ah, meu amor, as coisas são muito delicadas. A gente pisa nelas com uma pata humana demais, com sentimentos demais.” (p. 154)

“Dá-me a tua mão. Porque não sei mais do que estou falando. Acho que inventei tudo, nada disso existiu! (p.96)

Terminado o banquete, ainda de guardanapo alvíssimo nas mãos, decidi ler GH do final para o começo, como se lê um mangá. Recolhendo os destroços do que ficou pelas páginas rabiscadas. Parágrafos inteiros marcados de verde, pequenas notas de rodapé, a fala dos colegas transcritas na lateral dos infindáveis capítulos. Comentários, intervenções e emoções expressas ao longo do texto. Isto sim, um real banquete.

Desse mastigar laborioso, retomei algumas metáforas que se repetiam e iluminavam a releitura: a alusão ao Minarete ( torre alta de uma mesquita, onde se anuncia as 5 chamadas do dia para a oração dos mulçumanos). Bem assim era a obra. De uma estrutura ficcional realmente muito “alta” Clarice nos falava. A barata, como o mais inexpressivo dos seres e a mão, que apenas é referida mas não realiza nenhuma ação protetora.

Assim, dessa pós leitura, fui guardando os achados nas entrelinhas do texto que a própria autora denomina de relato

“Meu desejo agora seria o de interromper tudo isto e inserir neste difícil relato…”(p. 80)

“De uma coisa eu sei: se chegar ao fim deste relato…” (p. 162)

Um relato constituído de indagações filosóficas, questionamentos sobre a estética, a religião e a moral, sentimentos confusos e contraditórios sobre o amor, o medo, a sexualidade, a insegurança, os problemas éticos, a fragilidade dos relacionamentos humanos, compondo uma busca desenfreada por uma identidade que se dizia desconhecida.

Ao final, diante da singularidade e da qualidade literária da narrativa, senti-me no alto de um minarete anunciando a outros leitores as possíveis  leituras de GH, com sua carga de universalidade e inconfundível beleza estética.

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Análise do Conto “A Árvore”, de Maria Luisa Bombal

Fernando Gusmão

Encontro Brígida, 18 anos, protagonista do conto, em um concerto de música clássica. Enquanto aguarda o início da apresentação, cumprimenta uma conhecida, que traz notícias do seu ex-marido. Começa a primeira peça do espetáculo; de Mozart.

Ela se deixa embalar pela música, nos percursos da infância e da sua limitada juventude. Mozart, fiel ao seu estilo, começa leve e agradável, falando com clareza, equilíbrio e transparência, mas, caminha para um foco intenso e sensual. “¡Qué agradable es ser ignorante! ¡No saber exactamente quién fue Mozart; desconocer sus orígenes, sus influencias, las particularidades de su técnica! Dejarse solamente llevar por la mano, como ahora”.

Ao som da música, seus devaneios me dizem de sua história: infância de bela menina,  pai viúvo cheio de filhas mais velhas, que negligenciou sua educação, sua formação, que se conforma: “Es tan tonta como linda”. Ao contrário de suas irmãs, que iam sendo pedidas em casamento uma a uma, Brígida não era pedida por ninguém. Isso faz com que ela, muito jovem, case-se com Luis, bem mais velho, amigo do pai. Uma sociedade patriarcal, decidindo o comportamento feminino apropriado, dificulta, ainda mais, a capacidade de Brígida viver a própria vida. O casamento falha em fornecer satisfação. Ela passa das restrições da casa do pai às limitações da vida com o marido. Sua relação com Luis baseia-se em uma relação de companhia, e não de amor. Luis, por sua vez, também se sente garroteado: “Eres como un collar de pájaros”. O conceito de casamento como estagnação está subjacente para o marido e para a mulher.

Mas, agora, Mozart entra num ritmo mais urgente e arrasta Brígida pela mão, fecha a porta do passado com um acorde doce e firme e a traz de volta para a sala de concertos, trajando preto, batendo palmas mecanicamente, enquanto a chama de luzes artificiais cresce lentamente.

Após alguns minutos, se faz, outra vez, um silêncio de expectativas, que começa a ser alumiado por uma nova harmonia. É Beethoven, que principia a tratar suas notas de forma suave e lírica, quase religiosa, autêntica.

“—No tienes corazón, no tienes corazón. —. Nunca estás conmigo cuando estás a mi lado. ¿Por qué te has casado conmigo?

—Porque tienes ojos de venadito assustado.

— Nunca me has contado de qué color era exactamente tu pelo cuando eras chico.

—Mañana te contaré. Tengo sueño, Brígida, estoy muy cansado. Apaga la luz. —Estoy ocupado. No puedo acompañarte… Tengo mucho que hacer, no alcanzo a llegar para el almuerzo…  Un compromiso. No. No sé. Más vale que no me esperes, Brígida.

—¡Si tuviera amigas! —suspiraba ella.

—Me gustaría ver nevar alguna vez, Luis.

—Este verano te llevaré a Europa y como allá es invierno podrás ver nevar.”

Chega o verão. Seu primeiro verão de casada. Novas ocupações não deixam que Luis cumpra sua promessa.

“—¿Qué te pasa? ¿En qué piensas, Brígida?”

—Tengo sueño…

—¿Todavía está enojada, Brígida?

… … …”

Brígida acha a arma que havia encontrado sem pensar: o silêncio!

Na sala de concertos, a música de Beethoven é, como toda música, um composto de sons e silêncios. Mas, pode, às vezes, ser colérica, plena de espírito de luta, de força de vontade e de uma enorme coragem; obstinada como o granito.

“—Bien sabes que te quiero, collar de pájaros

… … …

—Pero no puedo estar contigo a toda hora

… … …

—¿Quieres que salgamos esta noche?

 … … …

—¿No quieres? Paciencia.

… … …

—Dime, ¿llamó Roberto desde Montevideo?

… … … .

—¡Qué lindo traje! ¿Es nuevo?

 … … … .

—¿Es nuevo, Brígida? Contesta, contéstame!

… … …”

E então, para ela, o inesperado, o incrível, o absurdo: Luis se levanta da cadeira, joga violentamente o guardanapo sobre a mesa e sai da casa batendo as portas. Ela corre para o quarto de vestir.

“¡Ah, me voy, me voy esta misma noche! No volveré a pisar nunca más esta casa… Y abría con furia los armarios de su cuarto de vestir, tiraba desatinadamente la ropa al suelo”.

Algo, então, bate na janela: A árvore, um gomero, que, ao sopro do vento e da chuva golpeava com suas ramas os vidros da janela. Punhados de perolas que chovem a jorros sobre um teto de prata. Chopin!

A música de Chopin é intensamente pessoal, pela grande força espiritual, pela extrema sensibilidade, com um acento romântico cheio de melancolia e, em outras ocasiões, de uma pungente tristeza. Ao escutá-la acredita-se ouvir o andar, mais que firme, pesado, de seres que afrontam orgulhosos de valentia tudo o que a sorte possa trazer de injusto. É a mensagem da esperança, do otimismo, do espírito combativo, mesmo que permeado de dúvidas.

O que fazer no verão quando chove tanto? Ficar o dia inteiro no quarto fingindo uma doença ou uma tristeza?

Uma tarde, Luis entra timidamente. Ela senta-se muito dura. Em silêncio…

“—Brígida, ¿entonces es cierto? ¿Ya no me quieres? —En todo caso, no creo que nos convenga separarnos, Brígida. Hay que pensarlo mucho.”  E Luis foge do quarto.

Ela vai até a janela do quarto de vestir e encosta a testa no vidro gelado. Lá está o gomero recebendo serenamente a chuva que o atingia, calma e regular. O quarto, imobilizado na escuridão, em ordem e silencioso. Tudo parece parar, eterno e muito nobre. Isso era a vida. E havia certa grandeza em aceitá-la dessa maneira, medíocre, como algo definitivo, irremediável.

¡Siempre!

¡Nunca!…

E a chuva, secreta e igual, ainda continuava sussurrando em Chopin.

E, noite após noite, ela dormia ao lado do marido, sofrendo rajadas de dor. Mas, quando sua dor se condensava até machucá-la, como um assovio, quando ela era assediada por um desejo imperioso demais de acordar Luis para atingi-lo ou acariciá-lo, ia até o quarto de vestir na ponta dos pés e abria a janela. O quarto era imediatamente preenchido com ruídos discretos e presenças tranquilas, de passos misteriosos, de vibração, de sutis cliques vegetais, do doce gemido de um grilo escondido sob a casca do gomero afundado nas estrelas de uma noite quente de verão. Não sabia por que lhe era tão fácil sofrer naquele quarto. Era a melancolia e a pungente tristeza de Chopin engatando um estudo atrás do outro, engatando una melancolia atrás da outra, imperturbável.

Veio o outono. Haviam voltado a conversar. Voltara a ser sua esposa, sem entusiasmo e sem raiva. Não o queria mais. Mas, não sofria mais. Pelo contrário, uma sensação inesperada de plenitude, de placidez, tinha tomado posse dela. Ninguém ou nada poderia machucá-la mais. A verdadeira felicidade podia estar na convicção de que a felicidade havia sido irremediavelmente perdida. “Entonces empezamos a movernos por la vida sin esperanzas ni miedos, capaces de gozar por fin todos los pequeños goces, que son los más perdurables”.

Súbito, um rugido feroz, depois um clarão branco que a empurra para trás, toda tremendo.

¿Es el entreacto? No. Es el gomero, ella lo sabe. Lo habían abatido!

Haviam tirado sua privacidade, seu segredo; ela estava nua no meio da rua, nua ao lado de um marido que lhe virava as costas para dormir, que não lhe dera filhos. Ela não entendia como podia ter suportado o riso de Luis por um ano, aquela falsa risada de um homem que treinou para rir porque é necessário rir em certas ocasiões.

—Pero, Brígida, ¿por qué te vas?,  —había preguntado Luis.

—¡El árbol, Luis, el árbol! Han derribado el gomero.

Faz-se silêncio. E a realidade, finalmente, se sobrepõe ao mundo fantasioso de Brígida. Ela conclui que a árvore, como o marido, estão ambos sujeitos a viver e a morrer. Entende que nem a árvore nem o marido podem lhe fornecer uma existência estável. Nessa descoberta, ela rejeita sua condição anterior de dependência e decide que assumirá inteiramente a própria vida:

“¡Mentira! Eran mentiras su resignación y su serenidad; quería amor, sí, amor, y viajes y locuras, y amor, amor…”

De Maria Luisa Bombal fica para mim, principalmente, seu estilo, que desenha um fundo de familiaridade trágica. O ritmo compassado de sua escrita —e a nuance poética das figuras a cada instante evocadas— que anulam qualquer pieguice melodramática e varrem, aos poucos, toda e qualquer hipótese de dúvida entre anseio e sonho.

Setembro de 2018.


O Leitor Ideal e o Autor Ideal

 

TEXTO, LEITOR E AUTOR EM “SEIS PASSEIOS PELO BOSQUE DA FICÇÃO”, DE UMBERTO ECO

Fernando Gusmão

Qualquer texto exige, sempre, duas outras categorias de entidades diretamente a ele vinculadas: o Autor e o Leitor. O Autor, entidade objetiva que registra a história e o Leitor, que vem, necessariamente, com o texto, porque, para “entender” uma mensagem verbal faz-se necessário “além da competência linguística, uma competência variadamente circunstancial, capacidade de pressupor, de reprimir idiossincrasias, etc.”.

Por outro lado, tal texto consiste, em última análise, de um adequado composto de locuções, declarações e informações. No entanto, qualquer texto está, sempre, completamente intercalado pelo não-dito, por aquilo que não se mostra na superfície, no plano da expressão. Dizendo de outra forma, conforme postulou Umberto Eco em 1988, o texto está repleto de buracos brancos, cheio de fissuras a serem preenchidas.

Até a algum tempo atrás admitia-se que o texto literário era a expressão das ideias de seu autor e que tocaria, tão-somente, ao Leitor a função passiva de interpretar o que o Autor aspirava dizer. Por isso, anteriormente, estudar a obra só tinha significado se se estudasse, também, a biografia de seu Autor.

Mas, como em uma história sempre há um leitor, e esse leitor é um elemento essencial, não só do procedimento de contar uma história, como, também, da própria história, o crítico francês Roland Barthes escreveu, em 1968, o ensaio “A morte do Autor”, introduzindo uma atitude pós-estruturalista de crítica ao papel centralizador do Autor.

Pode-se dizer que nesse ensaio Barthes ponderava que o Autor não era o único locus da autoridade criativa, mas que ele —o Autor— seria, no máximo, um “Scriptor” – palavra que ele empregou para esvaziar o sentido de poder existente nas palavras “autor” e “autoridade”. Conforme esse crítico, o Scriptor, que “nasce simultaneamente com a obra”, existia para produzir e não para explicar e estabelecer uma “perspectiva” e, com isso, determinar o significado do texto, da obra. Na nova visão de Barthes, o Leitor passa a deter um “privilégio que tinha sido considerado prerrogativa dos textos”, a saber, o de fundar um “ponto de vista”, definindo, assim, a acepção do texto. Ler um texto seria, pois, desconstruir qualquer ideia de origem e construir novos significados, permitidos pelos signos do texto, mas deslocados ad infinitum pelas multíplices condições de produção.

Importante ressaltar que Eco, em “Seis Passeios pelo Bosque da Ficção” —onde Bosque” é uma metáfora para o texto narrativo— diz que o Leitor tem inteira li­berdade de escolha em relação ao livro que está lendo. E que essa liberdade é possível precisamente “porque os Leitores se dis­põem a fazer suas escolhas no bosque da narrativa, acreditando que algumas delas serão mais razoáveis que outras”.

Para tanto, Eco vê o Leitor classificado em duas categorias: O Leitor-Empírico e o Leitor-Modelo.

O Leitor empírico é você, eu, todos nós, quando lemos um texto. O Leitor-Empírico é aquele que realiza uma leitura específica e pessoal de determinada obra. Os Leitores-Empíricos leem de múltiplas formas e não existe lei que decida como devem ler. Isso, porque, regra geral, aproveitam o texto como um continente de suas próprias paixões, externas ao texto ou instigadas pelo próprio texto.

Por sua vez, o Leitor-Modelo de uma história não é o Leitor-Empírico. É, sim, aquele que o texto pressupõe como seu leitor ideal. O Leitor-Modelo de Eco (1979), não só figura como interagente e colaborador do texto; “mas, muito mais — e, em certo sentido, menos —, ele brota do texto, sendo o suporte de sua estratégia de interpretação”. O Leitor-Modelo seria, dessa forma, capaz de movimentar-se interpretativamente conforme ele, o Autor, se movimentou gerativamente. Prever o próprio Leitor-Modelo, de acordo com Eco, não significa somente “esperar” que esse exista, mas, implica que se deve mover o texto no sentido de construí-lo. Eco exemplifica o Leitor-Modelo em Finnegans Wake, de James Joyce, dizendo que “esta obra projeta um leitor ideal que disponha de muito tempo, tenha perspicácia associativa com uma enciclopédia vasta, consiga fazer leituras cruzadas, domine a língua inglesa e possua um dicionário de pelo menos duas mil palavras desta língua”. Fácil entender que quando referida ao Leitor não postulado, a obra ou torna-se ilegível ou torna-se outro livro.

Vale acrescentar, ainda, que nós Leitores-Empíricos —eu, vocês— contamos com dois Autores:

Um, o Autor-Empírico, como sujeito da enunciação textual, que cria hipoteticamente um Leitor-Modelo e, ao fazê-lo, arquiteta seu texto com uma estratégia textual. Sendo mais claro, o Autor-Empírico é uma entidade objetiva que registra a história e resolve que Leitor-Modelo lhe toca estabelecer.

Outro autor, o Autor-Modelo, que age para nos dizer quais locuções colocadas no texto devem servir como estímulos para nossa imaginação e para nossas reações físicas. Ele, o Autor-Modelo, aparece como uma estratégia narrativa, um “conjunto de instruções, que nos são dadas passo a passo e que devemos se­guir quando decidimos agir como o Leitor-Modelo”. No final, pode-se entender o Autor-Modelo tam­bém como um determinado estilo, claro e inconfundível.

Importante é que o leitor empírico pode atribuir diferentes sentidos à obra, sejam eles acenados pela enunciação, ou pela cultura, pelo “espírito do tempo”, ou pelo “horizonte de expectativas”, por motivações pessoais, etc, e que, dessa forma, não há limites para a interpretação, que se constitui, como via de consequência, em um processo aberto e cooperativo entre autor, texto e leitor.

Recife, setembro de 2018.

 

 

 

 

Era uma vez …

 

Era uma vez  uma mulher que adorava ler romances. Brincava, ora de dona de casa, ora de psicóloga. Em dado momento,  resolveu brincar de estudar literatura. Pensou no mestrado. Como ouvinte, freqüentou os cursos de Teoria e Crítica Literária. Ficou fascinada. Perdeu a primeira aula e até hoje não conseguiu ler o texto de Jameson nem concluir vários outros de autores diversos. Tempo padrasto. Não desanimou. Tornou-se uma “fiel ouvinte”.

No começo, brigava com o vocabulário específico da área. Haja dicionário para se familiarizar, muitas vezes refamiliarizar-se…

No conforto do diletantismo, fez uma longa viagem pela modernidade ocidental, partindo de um impressionismo pessoal, romântico e ignorante até a terrível discussão dos descentramentos das identidades, das rupturas, das desconstruções intermináveis. De vez em quando, lembrava-se da desintegração e angústia esquizofrênica estudadas no passado. Embrenhou-se no fogo cruzado das ambigüidades das discussões do que seria modernidade, pós-modernidade, modernidade tardia. Visitou, aturdida, templos teóricos de difícil acesso, como o dos estruturalistas. Passou antes pelo precursor formalismo russo, com seu apego estrito à morfologia literária, ao sincronismo  nuançado pelo estudo da evolução literária de Tynianov. Achou bonito e poético o termo “estranhamento” para descrever o especificamente literário, dentre outras coisas. Perdeu-se num labirinto de funções , ações/fábulas, enredos, séries, sistemas, idéias de dominante… Ficou danada porque Tristram Shandy estava em sua estante, intocado.  A Pushkin, se a memória não falhava, só conhecia de nome, e até com o risco de confundi-lo com o músico italiano Puccini, que nascera 21 anos depois de sua morte. Jakobson, sim, conhecera-o num trabalho sobre  a aquisição e perda da linguagem na afasia infantil.

Quase se afoga nos significantes flutuantes, ela que vivia em busca de significados. Perdeu-se entre sintagmas, paradigmas, núcleos, catálises, índices, classificações e mais classificações. O texto dissecado, órfão de autor e de leitor. Deixou de gostar de Goldfinger/James Bond, mas notou o valor deste movimento generalizador que buscou e conseguiu descrever e analisar  obras literárias com  objetividade  científica.

Meio tonta ainda, a mulher suspirou de alívio ao ler a frase de Proust na epígrafe do artigo de Bourdieu: “As teorias e as escolas, como os micróbios e os glóbulos, devoram-se entre si e com sua luta asseguram a continuidade da vida.” O autor não deixou por menos ao analisar interdependências e interinfluências entre artista, obra, mercado,  editor, público, modismos, etc… desmitificando  legitimações e consagrações  nem sempre inocentes ou desvinculadas institucionalmente.  Contrariou-se um pouco: tantos determinismos ameaçavam outras tantas idealizações…

Para consolo, em um altar em Constança, viu, envaidecida, um novo santo milagreiro chamado LEITOR. Leitor primeiro da própria obra escrita para outros leitores. Todos inseridos no contexto histórico, intercambiando-se. Se antes eram os significantes que flutuavam, agora é o sentido da obra que está em contínua formação no percurso produção – recepção. Leitor implícito, leitor explícito, leitor ideal. Simultaneidades não-simultâneas derrubam noções de época definida.

A mulher continua a visita, cada vez mais apressada, sem tempo para parar. Chegou a ouvir vozes, diversas vozes. Não, não estava louca. Eram mensagens do russo, durante muitos anos habitante do gelo siberiano. Clamavam que todos somos influenciados pelo discurso do outro, e que qualquer expressão individual é produto de inúmeras e variadas vozes. Nos textos falam: autor,  precursores, narrador, personagens, conterrâneos, em qualquer pessoa gramatical. Uma troca coletiva de diálogos. E aí morava o significado. Entendeu, mas perdeu-se no meio dos tipos de discurso na prosa. Viu, porém, que, a essa altura, transitava pelo terreno da ideologia e daí a Lukács e Benjamin era um pulo. Ambos em luta contra o fascismo, ambos com textos nos quais transparecia a acusação da cultura e sociedade burguesas. Ambos marxistas de diferente modo. O primeiro viveu muito, ocupou cargos, foi reconhecido. O segundo, de glória póstuma, foi sempre um desajeitado para a vida, no dizer de Hanna Arendt.

Cumprimenta de longe Derrida, Foucault, Deleuze, Cixous e tangencia as diversidades culturais, o multiculturalismo, as oposições binárias, o feminismo, a morte do autor, os questionamentos de estruturas, de autoridades, de códigos e discursos fluidos, o infindável jogo de diferir e de diferençar. Quase tem um pesadelo ao ler que nenhum texto diz coisa alguma, inclusive o que assim prega.

Preocupou-se com a afirmação de Cixous da impossibilidade de uma escritura feminina, enquanto os termos da fração dominante/dominado, ativo/passivo não forem invertidos. Assusta-se com a conclusão da escritora: “Enquanto a mulher e o feminino forem construídos como passivos e incompreensíveis outros, permanecerão imprensados entre dois horripilantes mitos:  a Medusa e o Abismo.”

Depois de tão longo passeio, viu-se no meio de uma globalizada crise de identidades e sob o signo do camaleão. Descontinuidade, fragmentação, ruptura versus identidades culturais e nacionais eram agora as matérias para reflexão. Constatou que as certezas haviam ido pelo  ralo. A moda é tudo discutir, pesar, decidir no aqui e agora.

Aportou, enfim, na discussão sobre latino-americanismo, no mundo dos “pós”. Tradição, tradução, traição? Seguira um roteiro intenso e extenso para seu tempo pessoal e, de repente,  via-se no centro de uma acirrada disputa  inconclusa  em torno de temas e teorias ocidentais e contemporâneas, mudanças de paradigmas, implicações sociopolíticas,  redefinições de sujeito e de objeto mutantes, perplexidades! Tudo a partir do texto literário e de suas relações com o autor e o leitor.

A mulher que brincava de psicóloga leu, ouviu e até mesmo vislumbrou que vários autores se  serviam, em maior ou menor grau, de forma mais ou menos transparente, do método psicanalítico na abordagem da cultura, na abordagem dos textos. Por outro lado, as obras, muitas vezes, parecem impregnadas de um “saber” psicanalítico, quer o escritor queira, quer não. O olhar que autor e leitor lançam sobre os escritos perdeu a inocência. Afinal, teorias, romances, poesias… nascem dos recessos da mente humana com todos os seus mecanismos específicos, e o ser humano é o assunto da psicanálise. Lembrou-se do comentário de Helio Pellegrino de que Clarice Lispector através da literatura domou a loucura. Interessou-se pela função defensiva bem sucedida ou não, que a obra teria para alguns criadores… Observou que Freud,  através de sua escuta, criou  o ‘embrião de um outro lugar para as mulheres’, lugar esse que   Cixous procura afirmar com seu ataque à cultura patriarcal. E a mulher ficou muito curiosa a respeito de como construir uma ponte entre todas essas mudanças de paradigmas, essas rupturas e a  crise por que passa a psicanálise, com várias sentenças de morte já anunciadas. Para essa psicóloga, a Psicanálise – assim como a literatura, ambas linguagem – não cessa de surpreender.

Foi-se uma vez uma mulher que se acreditava centrada, unificada, que ousou brincar com a literatura. Ficou na dúvida para sempre. Entrou por uma perna de pinto, saiu por uma de pato, Sr. Rei, digo Sra. Rainha mandou dizer que contasse quatro.

                                  Olinda, 29/06/1999

                                    *  Maria Adelaide Câmara

  • Maria Adelaide Câmara é psicóloga, ensaísta, ficcionista, amante daw arte e da literatura.

Conversa com Fernando Pessoa

O nosso Momento Poético continua sendo um dos grandes momentos da nossa viagem às quartas-feiras. Nessa ocasião, ora são homenageados poetas além mar, ora do nosso continente, outras vezes das cercanias nordestinas ou da nossa cidade. Mas, quando lemos um poema de um dos navegantes, sempre junta-se a  emoção do dizer poético ao orgulho de se estar tão perto naquela viagem do seu criador. É sempre assim.

Fernando Gusmão é um viageiro recente no chegar, mas já lançou âncoras profundas nos nossos mares, tanto pela sua participação durante as viagens, a  gentileza com os companheiros, como e principalmente pelo grande interesse pelo saber das coisas literárias, razão maior da existência desse grupo.  Levou para o Momento Poético um  poema dedicado à sua amada Adriana, inspirado, ainda, em dois grandes poetas, Fernando Pessoa e Omar Khayaam.

CONVERSA COM FERNANDO PESSOA

Para Adriana

Pessoa falou:

“Se tive amores? Já não sei se os tive.

Quem ontem fui já hoje em mim não vive.

Bebe, que tudo é líquido e embriaga,

E a vida morre enquanto o ser revive”.

Por sua causa, cantei diferente:

Se tive amores? Ela mostra quanto tive.

O bem que sempre flui hoje em mim vive.

Bebo à Vida que de Amor me embriaga.

Se eu morro por ela a Vida em mim revive.

O Poeta insistiu:

“Cada dia me traz com que esperar

o que dia nenhum poderá dar.

Cada dia me cansa da esperança,

mas viver é esperar e se cansar”.

Respondi:

Cada dia é razão para dela esperar

o que de melhor ela tem para me dar.

Em cada dia vive minha esperança.

Viver a esperá-la nunca será cansar.

Ele retrucou:

“O prometido nunca será dado,

porque no prometer cumpriu-se o fado,

O que se espera, se a esperança é gosto,

gastou-se no esperá-lo, e está acabado”.

Encerrei:

Ela prometeu e sei que a mim será dado,

pois o Amor é certeza, é fato, é fado,

Ela é diferente: nela, esperança é gosto,

promessa do Querer pronto e acabado.

 Fernando Gusmão, 2002

Notas:

1 – Do Livro Poesias Inéditas, 1930-1935, de Fernando Pessoa

2 – Rubaíyyat de Omar Khayaam

3 – Ruba’i – Estrofes formadas por 4 versos, esquema rimático AABA, característico do ruba’i.

4 – Ghiyath al-Din Abu’l-Fath Umar ibn Ibrahim al-Nisaburi al-Khayyami, mais conhecido como Omar Khayaam, (1048-1131 d.C.), iraniano, foi um matemático, astrônomo, filósofo e poeta muçulmano persa, cujos interesses também incluíam a música, a mecânica e a geografia.

Khayyam é conhecido por seus rubaíyyat (quartetos), que são estrofes de duas linhas formadas por duas partes. O termo é derivado da raiz árabe da  palavra “quatro”.