Percursos da Literatura Ocidental

Percursos da História da Literatura Ocidental, sob o olhar de Otto Maria Carpeaux

Lourdes Rodrigues

 

Programamos seguir os percursos da Literatura Ocidental, sob o olhar experiente e sábio de Otto Maria Carpeaux, grande historiador e crítico literário. Ele escreveu uma grande obra, republicada pela LEYA, em seis volumes. A ideia é seguir o percurso realizado pelo autor através dessa obra.

Carpeaux inicia dizendo que História da Literatura” é um conceito moderno, que os antigos não se preocuparam em organizar panoramas históricos das suas literaturas, que aos gregos e romanos jamais ocorreu a ideia de referir os acontecimentos literários de seu tempo e tempos idos,  o que não quer dizer que não fossem interessados em colecionar e interpretar fatos literários. Só na decadência das letras e da civilização surgiu o interesse puramente pragmático, da parte de professores de Retórica ou de bibliófilos, de organizar relações de livros mais úteis para o ensino, para melhorar o gosto decaído, ou então, compor dicionários de citações e florilégios de resumos, para salvar da destruição pelos bárbaros os tesouros literários do passado.

Então ele cita Marcus Fabius Quintilianus (35-95 da nossa era), professor de Língua e Retórica, conservador doloroso, romano austero de estirpe espanhola, segundo Carpeaux, que ao observar com tristeza a decadência estilística e moral dos profissionais de sua arte, decidiu escrever uma obra (Institutio oratoria) para ajudar na preparação da formação dos alunos, e no décimo livro inseriu uma apreciação sumária dos mais importantes autores gregos e latinos, menos com a preocupação de fazer um resumo bibliográfico e mais como um esboço de um biblioteca mínima para o aluno de Retórica. Ele organizou uma relação de livros-modelo, de Homero, através de Píndaro, Eurípides, Ésquilo, Sófocles, Aristófanes, Heródoto, Tucídides, Demóstenes, Platão, Xenofonte, até Aristóteles; e de Lucrécio, através de Virgílio, Horácio, Salústio e Tito Lívio, até Cícero e Sêneca.

Carpeaux diz que ele não suspeitou das consequências da sua escolha. Até para definir se vão ser conservados ou não, uma obra e seu autor, em épocas de grandes perdas e destruições, essas definições passaram a ser regidas pelas escolhas de Quintiliano. Na primeira Idade Média, os monges de São Bento escolheram entre as obras de Quintiliano os livros didáticos para os jovens estudiosos dos conventos; os humanistas usaram a relação para discutir a importância dos autores citados; na época de Luís XV, durante a Querelle des Anciens et des Modernes, os argumentos de Quíntiliano em favor dos gregos foram bastante usados pelos defensores dos modelos clássicos e os argumentos dele em favor dos romanos pelos defensores da poesia moderna.

Essa seleção continua sendo uma tábua de valores, embora  Quintiliano não tenha escrito uma história da literatura. Houve só um Quintiliano, embora muitos outros espíritos menores tenham organizado fichários, listas bibliográficas, sem jamais atingir o seu nível de qualidade e extensão.

Os eruditos barrocos preferiram as enciclopédias críticas, nas quais as biografias de eruditos célebres de todos os tempos serviam de pretexto para se lhes discutirem as opiniões filosóficas e religiosas… O Dicionário de Bayle (1697) foi um mero pretexto para destruir a credibilidade de inúmeras lendas gregas e romanas Nascia assim a crítica histórica. Na querela entre os antigos e modernos é posta em dúvida a superioridade dos gregos e romanos. Vico reconhecerá os valores de diferentes épocas. Montesquieu deduzirá da história romana certas leis gerais da evolução das nações. O tempo passa a ser visto agora não mais só como passado mas como evolução que continua. Começam-se a se compor histórias das literaturas modernas, histórias no sentido de erudição barroca, coleções imensas, enciclopédicas, obras de verdadeiro fanatismo de reunir datas e fatos.

A História Literária da França, iniciada em 1733 pelos beneditinos, ainda estava nos primeiros volumes quando os jacobinos deram fim violento aos religiosos, várias décadas depois. No século XIX a Academia das Inscrições se propôs a dar continuidade, mas traçou um plano tão vasto que não foi possível concluí-la.

Na Espanha, em 1766 dois franciscanos tentaram fazer a Historia Literária da Espanha, uma obra tão grande, que no décimo volume, publicado em 1791, vinte e cinco anos depois, os autores ainda não haviam acabado a introdução.

Enfim, o jesuíta italiano Girolano Tiboschi compilou entre 1722 e 1782 em 9 volumes, a história da literatura italiana, embora seja apenas um trabalho de levantamento bibliográfico, nada que representa a história da literatura como se entende hoje. O que faltava a Timboshi, segundo Carpeaux, era a capacidade de narrar, o senso crítico.

O primeiro grande crítico ele diz ter sido Samuel Johnson que optou pela forma biográfica (The Lives of the Poets, 1781) A ligação entre história e crítica veio do pré-romantismo, com seu forte interesse pelas tradições históricas das nações modernas e pela apreciação crítica de épocas então meio esquecidas, como a Idade Média. O precursor foi Thomas Warton: a sua History of English Poetry (…) é a primeira obra na qual a história literária é tratada como se trata a história política. Mas, o fundador da história literária autônoma foi Herder, embora não tenha deixado uma única obra definitiva, apenas inúmeros escritos. Com ele, os registros dos livros foram substituídos pelas histórias das obras e das ideias.

Após mencionar vários seguidores de Herder, Carpeaux diz que a única forma de resolver a multiplicidade de obras sínteses representativas das literaturas de vários países, seria retirar o viés nacionalista da História da Literatura (gregos, romanos, franceses, italianos, alemães, etc.), … abolir as fronteiras Nacionais para realizar a história da literatura europeia (e americana) e chegar, enfim, a uma História da Literatura Universal.

A história dessa Literatura internacional é composta de grandes períodos: Idade Média, Renascença, Barroco, Ilustração, Romantismo, Realismo, Naturalismo, Simbolismo, que, graças à análise estilística e ideológica, já têm sentido. E ele completa, a Literatura não existe no ar, ele diz, e sim no Tempo, no Tempo Histórico, que obedece ao seu próprio ritmo dialético. Ele ressalta, entretanto, que a Literatura reflete esse ritmo, mas não o acompanha. E diz que essa distinção é importante para não transformar a literatura em mero documento das situações e transições sociais, porque a repercussão imediata dos acontecimentos políticos na literatura não vai muito além da superfície. Quanto aos efeitos da situação social dos escritores sobre a sua atividade literária será preciso distinguir nitidamente entre as classes da sociedade e as “classes literárias”. Um terceiro aspecto que ele considera é a relação da literatura com a sociedade que não é de mera dependência: é uma relação complicada de dependência recíproca e interdependência dos fatores espirituais (ideológicos e estilísticos) e dos fatores materiais (estrutura social e econômica). Essa interdependência ele diz que constitui o objeto da “sociologia do saber”, cujos conceitos permitem estudar os reflexos da situação social na literatura sem abandonar o conceito da evolução autônoma da literatura.

Assim, em sua HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL, Carpeaux diz que a literatura é estudada como expressão estilística do Espírito objetivo, autônomo, e ao mesmo tempo como reflexo das situações sociais.

Como Fazer Uma Resenha Literária

Rolando Barthes, em A Preparação do Romance, defende a tese de que só se escreve porque se lê. Neste momento, não estamos falando desse processo que leva à criação literária ficcional, leitura particular que aprisiona o leitor na armadilha das palavras. E sim, da leitura que leva à necessidade de resenhar a obra lida, seja para reter seus aspectos fundamentais, seja para estruturar uma avaliação crítica para transmissão, publicação ou satisfação particular.

Para que isso aconteça, o primeiro passo é uma leitura atenta, que na maioria das vezes, exige muitas releituras. É importante tentar apreender nessas leituras o tipo de gênero textual que se tem em mãos, se prosa, poesia, ficção ou não ficção, ensaios, documentos históricos. Depois da primeira leitura, a segunda já deve ser sublinhando palavras, frases, períodos, fazendo anotações à margem (quem gostar), buscando relacionar com outras passagens mais adiante, indo e voltando quantas vezes sentir necessidade, Marcar tudo que chamar a atenção ou tiver conexão.

A estruturação de uma linha de pensamento sobre a qual vai se pretender escrever a resenha, é um facilitador. Para isso, identificar nas  marcações as passagens que vão ajudar a construir essa linha.

Se o texto for ficcional, atenção para os seguintes aspectos, não importa a ordem com que são abordados na resenha:

  • Análise dos elementos formais da narrativa. É uma narrativa circular ou retrospectiva? Como os capítulos se dividem? Determinar como a estrutura e a forma escolhidas afetam a narrativa.
  • Como  situar a narrativa? Drama psicológico, aventura, mistério, realismo fantástico, texto discursivo, metalinguagem, persuasivo, sátira, lírico. Aqui o resenhista deve se sentir livre para escarafunchar o texto tentando desvendá-lo.
  • Qual o foco narrativo? Existe mais de um? De quem é a voz que narra? Existe mais de uma? Como elas se conectam na história? Analisar se o texto está na primeira ou na terceira pessoa. Qual o tipo de narrador? É possível identificar o narratário? O texto mostra mais do que narra? Há muitas histórias paralelas ou subjacentes? O Espaço narrativo e o tempo narrativo, como estão sendo tratados no texto? Qual a trama, o estilo, os personagens? Personagem redondo ou plano? Há efeitos de repetição? Musicalidade?
  • Que tema ou temas são tratados no texto? Podem existir vários, mas qual o tema central, aquele que é a espinha dorsal da narrativa?

No texto não ficcional, outros elementos são importantes, como as fundamentações teóricas sobre as quais repousam os argumentos do autor. Se é um texto argumentativo que tenta defender alguma ideia, concentrar a análise na força dos argumentos. Se é um texto discursivo, verificar a coerência, a base de referência utilizada se é reconhecidamente adequada, quais as circunstâncias culturais, sociais, históricas, econômicas observadas.

Analisar o mérito da Obra, qual a contribuição dela para a Literatura;  as ideias apresentadas são criativas, originais. O texto é claro? A quem essa obra é dirigida? Que tipo de leitor?

Em qualquer tipo  de resenha é indispensável trazer informações sobre o autor, outras obras suas, a época em que a obra foi escrita para situá-la num contexto socioeconômico e literário.

Na obra que está sendo resenhada, informar, ainda:

– Catalogação da Obra

  • Título (subtítulo)
  • Publicação (número, editora, data)
  • Tradução (Quando se tratar de uma Obra Estrangeira)

A linguagem deve ser clara, informal, quase uma conversa. A avaliação crítica tem que ser bem pessoal. Mesmo quando usar análises de outras pessoas, não deixar de opinar no final. Pode ser escrita na primeira pessoa. A conclusão deverá resumir as informações apresentadas na resenha, de modo claro e interessante.

Jaboatão dos Guararapes, março de 2018

Lourdes Rodrigues

Do Riso ao Siso, Contos à Beira do Cais

Lourdes Rodrigues

Era uma vez um jovem rapaz, deitado numa relva, sentindo-se entediado em pastorear ovelhas num bosque imenso e silencioso, onde nada parecia acontecer, imaginou-se sendo atacado por um lobo. A fantasia o empolgou. E ele continuou a deixá-la fluir. E se os aldeões soubessem que eles estavam sendo atacados pela fera? Aquela ideia o atiçou ainda mais. Então, ele começou a gritar Lobo, Lobo, Socorro, Lobo. Os seus gritos de terror foram ouvidos pela aldeia inteira que saiu às carreiras, armada como podia, para socorrer as ovelhas e ao pobre rapaz. Indignada, a aldeia descobriu que havia sido ludibriada, ao encontrar o rapaz rolando pelo chão às gargalhadas. E isto se repetiu, até que certo dia, o rapaz gritou por socorro e os aldeões silenciaram, do canto não se mexeram, e o lobo fez a festa.

Nabokov usa a fábula de Esopo[1] para dizer que a Literatura não nasceu quando o rapaz começou a gritar Lobo, Lobo, e saiu a correr com um grande lobo às suas costas, mas quando ele gritou Lobo, Lobo e não havia nenhum lobo a persegui-lo. É inteiramente acidental se o pequeno pastor de ovelhas acabou sendo comido pelo lobo, quando desacreditado pelos alarmes mentirosos, seu grito ecoou em ouvidos moucos na aldeia.

Para a Literatura, diz ele, o que tem importância é a invenção, a capacidade inventiva do pastor. A literatura é, acima de tudo, invenção, ficção, fantasia. A magia dessa fábula está na sombra do lobo que o pastor de ovelhas deliberadamente criou, no fantasma que ele trouxe e que percorreu de ponta a ponta a aldeia. Mas, ao pastor, não lhe bastava a criação fantasmática.  Ela carecia de valor social, valor cuja autenticidade somente o outro poderia conferir. Então, ele gritou.

Se as mentiras, por um lado, levaram o pastor e as ovelhas a morrerem devorados pelo lobo, rendendo lição de que a mentira não compensa, para ser contada ao redor da fogueira; por outro, propiciou ao personagem-pastor o seu reconhecimento como o pequeno mago, o criador, o inventor, aquele que transfigurou a realidade com seu espírito criativo e deu-lhe novo formato,  o de uma realidade imaginária, ficcional.

É neste ponto, na transfiguração da realidade, que Marília Morais, em seu texto sobre Poesia, Psicanálise e Ato Criativo diz que o fazer psicanalítico guarda similaridade com o fazer poético: na capacidade criadora que ambos têm de instaurar novas realidades: (…) o poema não reproduz o dizível, ele cria o dizível. A psicanálise, no seu fazer, cria para o analisando a possibilidade de realidades diferentes, de novas invenções de si mesmo.[2]

Freud chama a atenção em Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen para a importância da parceria que a psicanálise poderia ter com a literatura:

os escritores criativos são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar. Estão bem adiante de nós, gente comum, no conhecimento da mente, já que se nutrem em fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência.[3]

Marília Morais, inspirada em Freud, arremata que o poeta fala, sem saber, aquilo que o psicanalista concluirá após muito estudo e reflexão.

Em um evento como este deu-se o meu encontro com o Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise, em 2003. Chamada por um cartaz exposto na UBE (União Brasileira dos Escritores), eu tentava acompanhar as falas e me perdia no meio delas. Leitora voraz, desde criança, julgava-me, pretensiosamente, conhecedora de um pouco de Literatura, embora aquele autor me fosse desconhecido: James Joyce. Estaria no evento certo, eu me perguntava. Sim, estava. No intervalo vieram as apresentações e o convite para participar de um grupo de estudos de Clarice Lispector, de quem eu já lera algumas obras e admirava.

Iniciava o meu percurso rumo à literatura interfaceada com a psicanálise, esta, até então, eu só conhecera de alguns consultórios pelos quais eu havia passado ao longo da minha vida, e de algumas leituras curiosas.

O estranhamento inicial das falas da tribo psicanalista freud-lacaniana cedeu lugar ao sentimento de quem havia encontrado a sua aldeia, pelo acolhimento, e, sobretudo, pelo caminhar juntos da Literatura com a Psicanálise. Um caminhar, como diz Tania Rivera, uma diante da outra, reabrindo possibilidades de ligação, sem se deixarem reduzir uma a outra.

As palavras deslizantes de Clarice, a sua sintaxe mutante, aprisionaram a mim e aos outros participantes, engravidando-nos de desejo de criarmos um espaço em que a leitura e a escrita pudessem estar acasaladas e fossem a sua base de sustentação e procriação.

Nascia assim a Oficina de Criação Literária Clarice Lispector, em 2006. Os participantes, chamados de viageiros pelos mares das palavras, encontram-se uma vez por semana, realizando longas viagens, de duração em torno de dez meses, todos os anos. Aos navegantes é estimulado lançarem-se ao mar dispostos a sentir a viagem de todas as maneiras, parafraseando Fernando Pessoa:

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.[4]

Toda realidade é um excesso, diz o poeta. Sabato complementa, só na arte se revela a realidade, toda a realidade. E assim como na Viagem Sentimental, de Laurence Sterne, com quem aprendemos, prazerosamente, que ao viajante cabe procurar a essência das coisas, não sob o claro meio-dia em ruas largas e abertas, mas em uma esquina despercebida de entrada escura, os viageiros da Oficina, sempre, dirigiram sua atenção às sinuosidades, silêncio, sombras e deslizes das palavras, realizando o que Francine Prose chama de close reading, Umberto Eco de leitura empírica, e nós chamamos de leitura por fora das palavras, pelos não-ditos, pelas elipses.

As Cartas Náuticas que desenhamos antes da partida são meras referências, não impedem de a rota ser alterada sempre que algo chamar a nossa atenção. Se as condições atmosféricas são atraentes, se os navegadores estão movidos pelo desejo do sentir, a carta de navegação não tem a rigidez dos icebergs, mas a flexibilidade das velas sob o humor dos ventos. Assim, se preciso for, outra rota será traçada e a nau seguirá em frente em busca de novos sentimentos.

Essa aparente negligência com a programação estabelecida reflete o espírito de aventura daqueles que singram mares em busca das águas profundas, aquelas que nos levam aos precipícios da alma, mesmo que, em seguida, busquemos águas mais rasas que nos permitam, aliviados, ver praias à distância. É a viagem ziguezagueante da mente errante, no dizer de Sterne, a mesma viagem da libélula que não escolhe as flores aleatoriamente, mas por uma primorosa harmonia ou alguma brilhante discordância.

Muito há para se falar dessas viagens que não cabe em sua totalidade num texto como esse. Todavia, há espaço suficiente para registrar algumas liturgias e um pouco das milhas percorridas.

Há que se dizer que antes de lançarmo-nos ao mar, seguimos sempre um ritual: receber bons augúrios da nossa madrinha Clarice Lispector, batizando-nos com a leitura dos seus escritos. A sua arte inspiradora, marcada pelas metáforas, frases anômalas, associações, epifanias são o mergulho intimista que precisamos para dar início à viagem.[5]

Há que se dizer, ainda, que o riso de Bergson nos ensinou que,  além de ser do humano o riso, ele é sempre de um grupo, porque carece de eco para existir. É com disposição de espírito para o humor que zarpamos rumo às nossas viagens, e o ribombar do riso se faz sempre ecoar. Esteve muito presente quando lidos trechos que beiravam o escatológico em Gargântua e Pantagruel, de Rabelais, e pelos rubores e desconcertos diante da beleza e irreverência de passagens eróticas de alguns clássicos como Metamorfose, de Lucio Apuleio, A Poética do Sexo, de Ovídio, Cântico dos Cânticos, de Salomão, entre muitos outros.[6] Risos mais contidos ou desconcertados, quando lemos o Marquês de Sade, por percebermos exigência de maior sobriedade, não tanto em O Marido que Recebeu a Lição, muito mais em Monges e Virgens. A perversão explícita, em sua forma de relação com a fantasia, trouxe algum desconforto aos viageiros, talvez pela leitura coletiva. Pela mesma razão, em O Olho do Gato, de Bataille, o riso deu lugar ao espanto e ao silêncio de quem se sente inseguro quanto à fronteira entre a obra essencialmente literária e a pornográfica, exigindo releituras para melhor discernimento.

Nem só de riso, entretanto, se faz o balanço das nossas viagens. Do riso ao siso, sempre uma travessia difícil. Alguns ensaios de Montaigne[7] são como uma ponte prazerosa e rica entre momentos tão próximos e tão distantes. E assim içamos as velas rumo ao teatro, primeiro ao grego clássico, de Sofócles, um grande artista da palavra. Duas obras fundamentais foram lidas: Édipo Rei e Édipo em Colono. Para Nietzsche, o grego conhecia e sentia os pavores e sustos da existência: simplesmente para poder viver, tinha de estender à frente deles a resplandecente miragem dos habitantes do Olimpo.  Ainda na rota do teatro, seguimos para o período de ouro do teatro inglês com Shakespeare, para podermos, enfim, ancorarmos na dramaturgia moderna de Ibsen, com A Casa de Bonecas, entre  outros.

Os mares das palavras são muitos e diversos, como a metáfora dos bosques, citada por Umberto Eco para definir um jardim em que vários caminhos se bifurcam. Saindo da tragédia, enveredamos por outros caminhos, entre eles, o do fantástico, na temática do duplo, desde a raiz mitológica, do Doppelganger[8], à interpretação psicanalítica do Unheimliche, de Freud, em que o familiar e ao mesmo tempo estranho, trazem profundo desconforto. A técnica da duplicação estimula o interesse do leitor que tenta desvendar esse sujeito que é uno e duplo, ao mesmo tempo, com inúmeras possibilidades interpretativas. Umberto Eco diz que não há lei que delimite a forma de ler do leitor empírico, ela é resultado das suas paixões que podem ser exteriores ao texto ou provocadas pelo próprio texto. Assim foi em Aura, de Carlos Fuentes; no O Horla de Guy de Maupassant, em William Wilson, de Edgard Allan Poe, O Homem de Areia, de Hoffmann. Grandes escritores usaram e continuam a usar o duplo em suas narrativas, muitas delas foram objeto de nossas leituras e análises.[9]

Há de se mencionar, ainda, que dos escombros da alma, pinçamos a loucura, amparados pelo poeta Fernando Pessoa quando diz, Sem a loucura que é o homem/Mais que a besta sadia/Cadáver adiado que procria?  A atração que o tema exerce, levou Foucault a afirmar que a loucura é um saber. Eu diria que para os escritores, em particular, a loucura, enquanto abismo da alma, no dizer de Artaud, é um vasto e profundo campo de criação poética e ficcional. Fascinantes o Diário de um Louco, de Gogol, as Memórias do Subsolo, de Dostoievski, os Signos e Símbolos, de Nabokov, só para falar de algumas.[10]

Muitas tardes da Flor de Santana e da Alfredo Fernandes foram dedicadas às veredas fantásticas das vozes e murmúrios saídos das pedras e de debaixo da terra em Comala, de Pedro Páramo;   aos queridos anti-heróis de O Vermelho e o Negro, de O Estrangeiro,  de Madame Bovary;  à compaixão pela solidão, desamparo e servidão humana dos personagens em A morte de Ivan  Ilitich,  na Obscena Senhora D,  e em Marido; aos comoventes ritos de passagem em Menina a Caminho e A festa no Jardim.

Que dizer das muitas leituras labirínticas, polifônicas, caleidoscópicas, dos monólogos e fluxos de consciência, entre elas, O Som e a Fúria, de Faulkner, trazendo o cheiro das madressilvas e a lembrança de Benjy, o idiota, que não fala, mas narra a história no primeiro capítulo, através dos seus choramingos, olhos e pensamentos fragmentados; do barulho do martelo para fazer o caixão da mãe e da longa agonia para enterrá-la em Enquanto Agonizo, do mesmo autor; da festa de Clarissa em Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf, de O Monólogo de Molly Bloom, de James Joyce. [11]

E da grandeza de obras como A Praça do Diamante, Ana-Não, Bartleby, o Escrivão.[12]

Foram tantas viagens em prosa ao longo de treze anos, impossível citá-las todas. Nos livros que publicamos estão mencionadas boa parte delas. O Escrituras IV foi publicado, eletronicamente, pela Amazon.com, e a intenção é publicar os outros ainda neste semestre. No blog da Oficina há registro delas, das resenhas que foram feitas, de vários escritos sobre os nossos trabalhos.

Mas não só de prosa se fizeram as nossas viagens. Carentes de poesia, os navegantes pediram para criar um Momento Poético para leitura de um poema, no início de cada percurso. De benção necessária à iniciação, se transformou em momento especial de mergulho dos viageiros para uma travessia muito particular.  Grandes poetas por ali passaram.[13]

Rolando Barthes, em A Preparação do Romance, defende a tese de que só se escreve, porque se lê. Não qualquer leitura, tantos leem e tão poucos escrevem, diz ele. A sua tese é de que só a leitura particular, a leitura tópica do desejo do leitor, aquela que o aprisiona no armadilha das palavras e lhe semeia a esperança de ele próprio escrever, pois cada palavra é um caminho de transcendência, leva o sujeito à criação literária. Leitura transformadora, consumida pelo suplício de uma falta.

Como pode uma leitura ser particular, tópica, se realizada por um grupo, como no caso da Oficina, lugar onde o amor a si mesmo narcisista está sujeito à limitações? Segundo Freud, são os laços libidinais que se constituem entre os participante do grupo que desvanecem a intolerância às diferenças internas, às peculiaridades de cada um, reduzindo as possíveis aversões que poderiam surgir. O amor por si mesmo só conhece uma barreira: o amor pelos outros, o amor por objetos, diz ele. E mais, que esses laços nascem da identificação a um traço comum, colocado no lugar do Ideal do Eu, o mecanismo que responderia pela consistência do grupo ao oferecer um poderoso meio de satisfação substitutiva para seus membros.

Um grupo assim constituído é mais do que uma soma de pessoas, cada sujeito nele envolvido traz sua grupalidade anterior, suas tradições e costumes, as suas funções e posições particulares, as suas paixões, sua visão de mundo, inclusive, suas contradições, e uma vez do grupo participando, a partir da sua interação com ele, gera uma nova totalidade. Quanto mais forte for esse laço, mais o grupo se consolida, inclusive nas suas diferenças. E o resultado será sempre a exaltação ou intensificação da emoção

A Literatura tem sido esse traço na Oficina. A magia da fabulação, da fantasia é o traço que nos une. É nele que encontramos a satisfação substitutiva que nos compensa das renúncias que fazemos ao nosso amor narcísico, que dá consistência imaginária ao grupo promovendo uma ilusão de completude.

O grupo não é o mesmo de quando começou. Alguns viageiros aportaram chamados pela vida ou por razões que estiveram além da sua vontade, deixando saudades e registros das suas pegadas nas Escrituras. Outros amantes da aventura literária sempre nos esperam nos portos em que atracamos e são recebidos com guirlandas de flores. Sempre uma grande festa a chegada de outro companheiro.

E é desse encontro amoroso com a Literatura, desse intenso exercício de sensibilidade, que as armadilhas contidas nas palavras nos fazem sentir o seu efeito germinador e ouvir a trombeta do pai a soar e ressoar … toda palavra, sim, é uma semente. Passar da leitura para a escrita, no rastro do desejo, acontece pela mediação de uma prática de imitação, diz Haroldo Bloom. Não a imitação pobre do plágio, mas a imitação transformadora, aquela em que o leitor versus escritor realiza o clinamen, situação típica de apropriação sob a forma de releitura ou interpretação desviante, no ponto em que o escritor influenciado acredita ser necessário corrigir o poema do seu antecessor. Fortes fatores emocionais envolvem esse processo e Haroldo Bloom os chama de Angústia da Influência.

Para Roland Barthes, o eu do sujeito é falado a partir do lugar do Outro, da identificação ao outro que permite situar com certa precisão a sua relação imaginária e libidinal com o mundo e ver o seu lugar, e estruturar, em função desse lugar e do seu mundo, seu ser.

Do riso ao siso, da comédia ao trágico, muitas leituras que por ali passaram gestaram centenas de escritas, boa parte delas registradas nos quatro livros chamados de Escrituras, já publicados pela Oficina. O êxito de uma oficina é medido pela escrita dos seus participantes. Muitas releituras foram realizadas de obras que impactaram os viageiros, com total licença poética, desde o enredo, ao ponto de vista usado pelo narrador, entre elas A Missa do Galo, A Pomba Enamorada, Delírio, Viagem à Petrópolis, Hoje de Madrugada, As babas do Diabo, O Patinho Feio. Muitas resenhas são escritas sobre as obras lidas. No início da Oficina, havia os exercícios para quebra de bloqueio criativo, desde os jogos para composição de texto usados pelos surrealistas, tipo cadavre-exquis, ao uso dos constrangimentos oulipianos, tipo tautogramas,por exemplo. Ás vezes basta uma palavra, uma cena, uma música, um tema para estimular a criatividade.

Quando perguntado sobre o que era Literatura, Borges disse, certa vez, irritado, Ninguém indaga qual é a utilidade do canto de um canário ou do avermelhado do crepúsculo.

Na verdade, são muitos os caminhos das letras. Quanto mais elas andam, mais o círculo brilhante que as circunda deixa sombras de mistério e de silêncio em seus rastros. A bússola dos viageiros são essas pegadas que elas largam. Segui-las é mais do que uma escolha, torna-se a própria razão de ser da viagem. Pouco importam os mares revoltos, os ventos açoitadores, os cantos das sereias, os icebergs enganadores. É preciso segui-las, desvendar-lhes os mistérios, reconhecê-las em suas incompletudes e mesmo assim continuar a persegui-las. É preciso viver a utopia de que vai alcançá-las, de que até vai dominá-las para aquietar essa ansiedade que norteia um navegante viageiro das palavras.

Jaboatão dos Guararapes, fevereiro de 2018

NOTAS:

 [1] NABOKOV, Vlademir – Aulas de Literatura – Relógio D’Água Editores, Lisboa, 2004

[2] MORAES, Marília – Poesia, Psicanálise e Ato Criativo – texto eletrônico

[3] FREUD, Sigmund – O Delírio e os Sonhos na Gradiva de Jensen e outros textos – V. VIII – Imago.

[4] PESSOA, Fernando – Poemas – heterônimo, Álvaro de Campos.

[5] Vários contos de Clarice Lispector foram lidos ao longo desses anos:  Laços de Família, Amor, Feliz Aniversário, A menor mulher do mundo, Começos de uma fortuna, Viagem à Petrópolis, Felicidade Clandestina, A Via Crucis do Corpo, O Primeiro Beijo, O Búfalo, A Galinha.  Foi lido também Água Viva, e várias das suas crônicas de A Descoberta do Mundo

[6] Entre os clássicos lidos, ainda, no tema do erotismo estão: Eros Místico, de Juan de La Cruz, Sonetos, de Bocage, O Amor e o Belo, no Banquete, de Platão, A Sedução Criativa,  de Casanova, o Canto V, do Inferno de Dante. Alguns anos antes havíamos lido todo o Inferno, da Divina Comédia, de Dante

[7] MONTAIGNE, Ensaios.

[8] Palavra germânica que significa duplo frequentador.

[9] O Outro Eu, de Mario Benedetti, e em tantas outras obras de autores que passaram por lá, como Dostoievski, Virgínia Woolf, Saramago, Borges, Cortázar, Robert Stevenson, entre outros.

[10] O Sistema de Alcatrão e do Professor Pena, O Coração Delator, de Egard Allan Poe, , A Galinha Degolada, de Horácio Quiroga, Erostrato, de Jean Paul-Sartre, O Túnel, de Ernesto Sábato, Sutulin, do escritor russo, As Babas do Diabo, de Cortázar Elogio da Loucura, de Erasmo Roterdã, este último não concluído. E outras mais.

[11] Água Viva, de Clarice Lispector, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, Essa Terra, de  Antonio Torres, Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, dos contos vários de Guimarães Rosa que ao longo desses anos foram lidos.

[12]   A Varanda de Frangipanni, de Mia Couto, Os Mortos, de James Joyce, Os Moedeiros Falsos, de André Gide.

[13] Charles Baudelaire, Shakespeare, Camões, Emily Dickinson, Lautréamont, Paul Valéry, Wislawa Szymborska, Sylvia Plath, Li Po, Yeats, Elizabeth Browning, Elizabeth Bishop, Cesare Pavese, Paul Verlaine, Paul Éluard, , Edgar Allan Poe, Fernando Pessoa, , Sophia de Mello Breyner Andresen, Federico Garcia Lorca, T.S Eliot,  Florbela Espanca, Joseph Brodoski,  Auden, Elizabeth Frye, Walt Whitman, Ezra Pound,  Charles Bukowski,   José Régio, entre outros. Entre os brasileiros, Cora, Coralina, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Manoel Bandeira, Manuel de Barros, Vinicius de Moraes, Carlos Pena Filho, Augusto dos Anjos, Mario Quintana, Ferreira Gular, Cecília Meirelles, Affonso Romano Sant’Anna, Daniel Lima, Paulo Leminski, entre muitos outros.

 

 

O Cheiro de Maresia

Quando o cheiro de maresia começa a penetrar a alma do navegante é tempo de içar  as velas e voltar ao mar. Assim, enlevados pelo cheiro que a brisa do mar nos trazia, partimos do Porto-Traço, mais uma vez, seguindo as pegadas da Literatura. Nas mãos, um desenho, inicial, de roteiro para a nossa viagem, que apresentaremos aqui, após um pouco de poesia com Sophia de Mello Breyner e Eugênio Montale.

Por sugestão de Adelaide, que não esteve presente no dia da partida, mas se fez presente através do poema trazido por Anita de  Eugênio Montale, poeta italiano, nascido em Gênova.

Os limões 

Escuta-me,
os poetas laureados
circulam apenas entre plantas
de nomes pouco usados: buxeiros alienas ou acantos.

Eu, por mim, amo os caminhos que levam às valas
ervosas onde em lamaçais
já meio secos meninos apanham
alguma pequena enguia:
as trilhas que bordejam os taludes
descem por entre os tufos de caniços
e se metem nas hortas, entre os pés de limão.

Melhor se as algazarras dos pássaros
se dissipam engolidas pelo azul:
mais claro se escuta o sussurro
dos galhos amigos no ar que mal se move,
e os sensos deste cheiro
que não se larga da terra
e chove em peito uma doçura inquieta.

Aqui das desencontradas paixões
por milagre cala-se a guerra,
aqui toca até a nós, pobres, a nossa parcela de riqueza
e é o cheiro dos limões.

Vê, neste silêncio no qual as coisas
se entregam e parecem prestes
a trair o seu último segredo,
às vezes esperamos
descobrir um defeito da Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não prende,
o fio a desenredar que enfim nos leve
no meio duma verdade.

O olhar perscruta em volta,
a mente indaga concerta desune
no perfume que se espalha
quando o dia mais enlanguesce.

São os silêncios em que se vê
em cada sombra humana que se afasta
alguma Divindade surpreendida.

 

PROGRAMAÇÃO 2018

Nas pegadas da Literatura

 

Momento Poético
· Leitura de poema, breve biografia do poeta escolhido por um viageiro/viageira.
· Operacionalização: Será realizado quinzenalmente, ocupando o tempo máximo de 30 minutos.

Leitura e Análise Crítica
Formas breves ou Romances.
· Leitura Empírica (Close Reading) da obra integral, analisando estrutura, técnicas, enredo, estilo, personagens, espaço e tempo narrativos. Interfaces.
Operacionalização: Leitura do romance A paixão, segundo G.H. Antes de cada leitura na Oficina, os capítulos deverão ser lidos antes, e a coordenação deverá enviar esquema facilitador da discussão.

Escrita ficcional, resenhas, ensaios
· contos, a partir de algum estímulo ou não;
· resenhas ou ensaios baseados em obras ficcionais, teorias ou movimentos literários.

Estrutura Teórica

· História da Literatura – a partir dos estilos literários, como expressões dos fatores sociais modificáveis, e das qualidades humanas permanentes. Os critérios da exposição historiográfica, são, portanto, estilísticos e sociológicos. (Carpeaux)
Operacionalização: Divididos os tópicos entre os participantes, que farão a análise e apresentarão os resultados sob a forma de resenha ou ensaio para a Oficina. Cada um ficou responsável por um período.

o A Herança (gregos, romanos)- Lourdes
o O Mundo Cristão – Cacilda/Eleta/Luzia
o A Transição – Adelaide
o Renascença e Reforma – Salete
o Barroco e Classicismo – Salomé
o Ilustração e Barroco – Ana Amâncio
o O Romantismo – Paulo Tadeu
o Época da Classe Média – Graça
o Fin de siècle e depois – Mitá
o Literatura e Realidade – Sarmento

· Teoria Literária
o O Escritor e seus Fantasmas – Ernesto Sabato
o Seis Passeios pelo Bosque da Ficção – Umberto Eco
· Técnicas Literárias
o Fluxo de Consciência – Robert Humphrey

Publicações – eletrônicas (livros, blog)
· Eletrônicas e em papel pela Amazon.com – Escrituras I, II e III – IV
· Postagens do Blog – seleção – publicação Amazon.com
· Alimentação do blog
· Escrituras V

Escrituras IV – Do riso ao siso, contos à beira do cais

Encerramos a nossa viagem de 2017 com a publicação pela Amazon.com de Escrituras IV – Do riso ao siso, contos à beira do cais, que nos deixou muito felizes por registrar a nossa jornada durante os doze anos de existência da Oficina. O livro está à venda no link: https://www.amazon.com.br/gp/aw/s/ref=nb_sb_noss/131-8624433-6602358?k=lourdes+rodrigues.

Postamos aqui o prefácio do livro, para deixar registrado na  Carta de Navegação do nosso blog, os percursos realizados.

Os Caminhos das Letras

Lourdes Rodrigues

São tantos os caminhos das letras. Quanto mais elas andam mais o círculo brilhante que as circundam deixam sombras de mistério e de silêncio em seus rastros. A bússola dos viageiros são essas pegadas que elas largam. Segui-las é mais do que uma escolha, torna-se a própria razão de ser da viagem. Pouco importam os mares revoltos, os ventos açoitadores, os cantos das sereias, os icebergs enganadores. É preciso segui-las, desvendar-lhes os mistérios, reconhecê-las em suas incompletudes e mesmo assim continuar a persegui-las. É preciso viver a utopia de que vai alcançá-las, de que até vai dominá-las para aquietar essa ansiedade que norteia um caminhante viageiro das palavras.

Mas há um tempo para aportar.

Voltar ao cais não significa encerrar a viagem, desistir do sonho ou acreditar que ele foi alcançado. Ele vai estar sempre na linha do horizonte. É preciso aportar para rever cartas náuticas ou simplesmente ficar olhando as estrelas sem marear, num descanso justo de quem sabe que muitas milhas ainda há por navegar.

Os diários de bordo registram que a travessia não foi fácil: as notícias de casa falavam de hostilidade, intolerância, abusos, ameaças à liberdade. Apreensivos, os navegantes mergulharam nas águas profundas das palavras. A poesia deixou de ser um momento da viagem para se tornar o seu suporte e salvação. Os becos de Cora Coralina foram fontes onde se bebeu para tentar compreender a sociedade, as suas configurações em torno das relações de poder. Em vão. Como compreender A morte de um pássaro (…) se ele nascera para cantar, assim disse Vinicius de Moraes em seu Réquiem a Federico Garcia Lorca, cujos lábios frios mal puderam articular as palavras de pasmo que lhe causava a vista de todos aqueles homens preparados para matá-lo. Lorca não tinha o mesmo gosto pela morte que o poeta Augusto dos Anjos, este parecia querer desafiar as almas sensíveis falando de verme, cuspe, vômito. Recorreu-se a T.S Eliot para fugir da crueza dos versos do poeta paraibano, procurando conforto no monólogo A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock, o pensamento de um homem maduro que busca amor e razão para um mundo tão incerto e crepuscular. Mas foi o grito de Liberdade, de Paul Éluard, que devolveu a esperança à resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial, lido nas traduções belíssimas de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, que resgatou a confiança dos viageiros. Assim finalizam seus versos:

Escrevo teu nome
E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar
Liberdade

O marujo Sarmento reforçou esse sentimento com uma música de sua autoria, cantada à capela, que fala das coisas que ele tanto quer: Sonho ir além do horizonte/E fazer o destino mudar /Pra que não muito distante/Se possa um dia chegar/Às coisas que tanto quero/Às coisas que tanto quero.

Muitos outros poetas vieram à nossa embarcação, Joseph Brodoski, russo que se exilou nos Estados Unidos, prêmio Nobel de Literatura, cujo julgamento em seu país ficou famoso pela insistência com que ele dizia que o seu trabalho era de poeta, o que levou o juiz a perguntar Quem o enlistou como poeta? E ele com altivez devolver: Quem me enlistou no rol da raça humana? Grandes poetas estiveram entre nós como W.H. Auden com seu belíssimo Funeral Blues, Elizabeth Frye, Walt Whitman, Ezra Pound, Florbela Espanca, Charles Bukowski, José María Eguren, Anna Akhmátova, Fernando Pessoa, entre outros.

Não se buscou apenas poetas de outros oceanos. Dos mesmos mares vieram nos abençoar Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Manuel de Barros, Manoel Bandeira, Adélia Prado, Jaci Bezerra, Austro Costa, Daniel Lima, Esman Dias, Geir Campos, Políbio Alves, Sérgio de Castro Pinto, certamente outros mais que os registros falharam. Nunca se deveu tanto à poesia quanto nessa travessia.

Mas a prosa não perdeu o seu espaço.

Viajamos por águas desconhecidas de correntes coreanas nas perdas e culpas irreparáveis de Por Favor, Cuide da Mamãe. Jornada difícil, cheia de interrupções, adiamentos. Desacostumados ao tratamento íntimo do tu, os viageiros entreolhavam-se desconfiados, esquivavam-se. Muitos se renderam e até voltaram a refazer o percurso, deixando-se levar por aquele tratamento atrevido. Outros permaneceram num distanciamento respeitoso de quem admira, mas não se aproxima. Houve até quem não a suportasse e a rejeição se fez presente. Do balanço final fica a certeza de que não é viagem para ser feita uma única vez, algumas revisitas poderão trazer descobertas surpreendentes.

Mergulho em mares do nosso continente permitiu-nos atravessar O Túnel de Ernesto Sabato, para seguir Juan Pablo Castel em sua obsessiva perseguição a Maria Iribarne, sem entender suas razões ou desrazões, encantados com a grandeza e complexidade psicológica do personagem. Ainda na Argentina, agora num percurso bem mais curto, vimos As Babas do Diabo, de Cortázar, onde enveredamos pela magia e fantasia, pelo fantástico e mistério. As Babas do Diabo permitiu-nos muita discussão, numa bela esgrima entre o que cada um levou de seu nessa viagem, fazendo o próprio percurso, e o que a narrativa oferecia concretamente. No mesmo continente, agora no Uruguai, visitamos Mario Benedetti com a sua prosa breve, brevíssima, O Outro Eu, trazendo de volta, de forma magistral, a questão do duplo tão trabalhada em anos anteriores.
O roteiro seguinte foi pelo quarto de Sútulin, na Rússia, que ao aplicar o conteúdo de uma bisnaga escura, fininha, em seu quarto, começou a vê-lo crescer, crescer, de forma incontrolável. Trata-se de um conto de Sigismund Krzyanowski, narrativa que se enquadra no fantástico maravilhoso hiperbólico, segundo Todorov, em que o exagero das dimensões do quarto vão criando tensão, asfixiando o leitor, apesar de ele estar consciente de sua irrealidade. Vídeos e filmes foram feitos baseados nesse conto, um deles foi apresentado na Oficina.

A Festa no Jardim trouxe-nos de volta Katherine Mansfield, escritora da insular Nova Zelândia, de quem Virgínia Woolf confessou ter inveja em seus diários. O conto trouxe muitas visões, demonstrando, mais uma vez, quanto a leitura coletiva é rica. Desde a análise sociológica à psicológica, as interpretações fluíram livremente, sequenciando boas resenhas.Outro conto lido foi Ele? de Guy Maupassant, grande mestre das histórias curtas, especialmente fantásticas, que retratam situações psicológicas e críticas da sociedade de forma aprofundada.

A personagem ratinha, uma das mais belas da literatura universal, comoveu a todos no conto Amor, do autor persa Saadi (1184-1291), em tradução primorosa de Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Holanda. Trata-se da história de amor de uma ratinha por um gato, ambos vivendo em uma mesquita abandonada, na qual quase todos os ratos haviam sido dizimados pelo tal gato. A ratinha é porta-voz dos ratos sobreviventes para tentar convencer o gato a se mudar do local. Belíssima e comovente história.

O teatro devolveu-nos o riso com a Comédia Francesa de Moliére: As Preciosas Ridículas. Investidos nos seus personagens, os viageiros que andavam muito sisudos recuperaram o humor e trouxeram grande descontração com o drama dos burgueses ávidos por apresentar uma cultura que eles estavam longe de ter. Ainda no teatro, dessa feita com o brasileiro Menotti Del Picchia e seu poema lírico Máscaras que fala do amor de dois homens muito diferentes Pierrot e Arlequim por uma linda Colombina, belo triângulo amoroso que representa a difícil escolha entre deuses igualmente encantadores como Dionísio e Apolo, o primeiro lhe realiza o desejo, a paixão avassaladora, o outro lhe dá a certeza, a paz, a segurança, o amor lírico.

Mas foi o conto de Raduan Nassar, Hoje de Madrugada¸ que trouxe o momento íntimo de um casal, onde a mulher suplicava o amor do companheiro e ele dizia que não tinha amor para dar, que provocou muita discussão, análise literária e psicológica como a do marujo Everaldo Júnior, que teve o aplauso de todos. A frieza da rejeição atingiu os viageiros, especialmente, as mulheres. Algumas releituras foram escritas, ora sob o ponto de vista da personagem rejeitada, ora sob o ponto de vista do sujeito que rejeitou. Houve mudança no tempo da narrativa e histórias foram contadas pelos viageiros dando continuidade ao conto de Raduan. Momentos criativos e ricos de interpretação. Os contos dos viageiros longe de reproduzir o texto original, são novas criações, trazendo a inovação sem perder o elo com a fonte que serviu de inspiração.

E por falar na criação dos escritores-navegantes, se não foi uma jornada especialmente pródiga em termos de quantidade em 2017, quando comparada com a jornada anterior, foi muito fértil em termos de inventividade, criatividade tanto na prosa como na poesia, no cordel. Escrituras IV traz essas caminhadas, assim como outros percursos realizados pela Oficina e registrados em Escrituras, Escrituras II e Escrituras III, num resgate do passado, para dar uma visão completa do que tem sido essas viagens durante doze anos. Aos leitores que nos acompanharam nas viagens anteriores, a oportunidade de relembrar, aos que ainda não o fizeram esse resgate é uma amostra do que podem encontrar naqueles livros que, com certeza, irão procurar para ler.

As viagens de 2017 tiveram dois ancoradouros, o de sempre, o Porto-Traço, e o da nossa querida maruja Adelaide Câmara, o Porto-dos-Afetos, das guloseimas deliciosas de Paula que tornaram as nossas tardes ainda mais agradáveis. Forças adversas a impedem de estar conosco no Porto-Traço, como sempre aconteceu nesses doze anos, mas não nos impedem de aportarmos em seu cais para ouvir os poemas que selecionou, para escutá-la em sua sabedoria, toda vez que os bons ventos assim o permitem.

Jaboatão dos Guararapes, 18 de dezembro de 2017

 

A estética dos becos em Cora Coralina

A estética dos becos em Cora Coralina

                                                                                                      Anita Dubeux*

O momento poético desta viagem foi capitaneado por Luzia Ferrão que nos trouxe a poesia telúrica de Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins Guimarães Peixoto Bretas, nascida em 20 de agosto de 1889, na cidade de Goiás (época do Império) e  falecida em 10 de abril de 1985, aos 95, na cidade de Goiânia. Os dados de crítica literária tiveram como principal fonte de consulta o estudo denominado A estética dos becos em Cora Coralina ou Um modo diferente de contar velhas estórias, da autoria do doutor em sociologia e professor da Universidade Federal de Sergipe, Clóvis Carvalho Britto.

Cora Coralina

Os textos lidos trataram sobre a vida e a obra de Cora Coralina, notadamente situando sua poesia no contexto da cidade onde nasceu e viveu, Goiás, localizada no coração do Brasil. A partir de seu olhar sobre a cidade Cora Coralina dá vida ao que é comum e, ao mesmo tempo, diferencial. No dizer de Clovis Carvalho Britto, citado por Luzia, “em Cora, a estória não quer ser história. A estória, nela, é contra a história. Contra uma história e uma memória coletiva, uniformizadoras e agressoras. Goiás é um compartimento fechado por todos os lados. Em volta, o sertão. Dentro da cidade, ruas delimitando classes, orgulho de família, preconceitos sociais, rotina…”. E é nesse contexto que a poesia de Cora se torna local e universal. Com efeito, “os poemas dos becos se tornou uma fonte de mulher, sobre mulheres, nos permitindo compreender como Cora Coralina pensou a sociedade de seu tempo, perseguindo temáticas e estratégias utilizadas para enfrentar os silêncios. Nesses poemas Cora questiona paradigmas socioculturais que têm procurado justificar certas configurações constituídas em torno de relações de poder.”

Luzia ressalta que a poeta “desmantelaria o mito da casa como espaço da harmonia, sacralidade e paz, focalizando variadas violências de acordo com a posição da mulher no tecido familiar, por isso não há como negar a centralidade da mulher na reprodução das relações de poder: a violência não se restringe às figuras masculinas, também está presente nas relações entre senhora e escrava, mãe e filhos, filha mais velha e irmãos menores.

A Professora Solange Yokozawa, associada da Universidade Federal de Goiás, referenciada por Luzia, destaca que a poeta Cora Coralina “deixa entreaberta sua opção pela vida das mulheres obscuras, habitantes dos becos físicos e simbólicos, conclamando em cada estrofe muitas das personagens que comparecem em toda a obra: a cabocla velha, a lavadeira do Rio Vermelho, a cozinheira, a mulher do povo, a roceira, a mulher da vida.”

E ainda, o professor Gustavo Coelho destaca a função dos becos como uma referência simbólica, tendo em vista que “o beco se contrapunha ao largo. Enquanto os largos eram ligados pelas ruas principais, onde viviam as famílias da sociedade reconhecida, os becos eram construções para facilitar o acesso às ruas, geralmente surgindo na confluência dos quintais e funcionando como repositório de tudo o que a “boa sociedade” desejava evitar e, por isso, se tornou o lugar a partir do qual Cora Coralina desvendou a sociedade de seu tempo.”

Os becos de Goiás, com suas histórias de vida constitui a memória da cidade e foram imortalizados na poesia de Cora:

Becos da minha terra,

discriminados e humildes,

 lembrando passadas eras…

 Beco do Cisco.

 Beco do Cotovelo.

 Beco do Antônio Gomes.

 Beco das Taquaras.

 Beco do Seminário.

Bequinho da Escola.

 Beco do Ouro Fino.

 Beco da Cachoeira Grande.

 Beco do Calabrote.

Beco do Mingú.

Beco da Vila Rica…

Finalmente, Luzia destaca o lado culinário da poeta que se considerava “mais doceira do que escritora”, tendo escrito alguns poemas sob essa inspiração. Ainda que Coralina tenha se notabilizado na valorização metafórica de uma poética dos becos − a exemplo do poema “O palácio dos Arcos”, em que opta por narrar a trajetória de um índio carajá, ao invés de descrever a vida dos governadores de província que lá passaram − sua poesia incorpora personagens como Lampião, Tiradentes e os judeus errantes. Referencia também os boiadeiros, a guiar os animais pelo interior em “Evém boiada!”, “Trem de gado” e “Pouso de boiadas”, além de realizar uma celebração vegetal em “Oração do milho” e “Poema do milho”, demonstrando que, apesar de sua “origem obscura e ascendência pobre” e embora não pertença a “hierarquia tradicional do trigo”, exerce um importante papel na história da humanidade.

Luzia selecionou, para o momento poético, dois poemas que considerou simbólicos da obra da poeta e escritora goianense:

Poeminha Amoroso

Este é um poema de amor

 tão meigo, tão terno, tão teu…

É uma oferenda aos teus momentos

de luta e de brisa e de céu…

E eu,

quero te servir a poesia

numa concha azul do mar

ou numa cesta de flores do campo.

 Talvez tu possas entender o meu amor.

 Mas se isso não acontecer,

não importa.

Já está declarado e estampado

nas linhas e entrelinhas

 deste pequeno poema,

 o verso;

 o tão famoso e inesperado verso que

te deixará pasmo, surpreso, perplexo…

 eu te amo, perdoa-me, eu te amo…

 

Humildade

Senhor, fazei com que eu aceite

 minha pobreza  tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.

Não lamente o que podia ter

 e se perdeu por caminhos errados

e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade

seja como a chuva desejada

caindo mansa,

longa noite escura

numa terra sedenta

 e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,

minha cama estreita,

minhas coisinhas pobres,

minha casa de chão,

pedras e tábuas remontadas.

E ter sempre um feixe de lenha

debaixo do meu fogão de taipa,

 e acender, eu mesma,

 o fogo alegre da minha casa

na manhã de um novo dia que começa.

Selecionou, também, um poema em vídeo e que foi disponibilizado no endereço eletrônico dos viageiros, “Cora Coralina em desenho”, mas que não pode ser apresentado devido a uma falha no televisor. Agora está postado aqui.

Após o momento poético, Lourdes Rodrigues apresentou o rascunho do nosso livro Escrituras III, na Amazon.com, para que sugeríssemos as alterações  que se fizessem necessárias e enfim pudéssemos realizar a publicação definitiva.  Em seguida, Lourdes trouxe à discussão a continuidade ou não da leitura do livro Por Favor, Cuidem da Mamãe, da escritora Sul Coreana Kyung-sook Shin, que ela observou não estar despertando o entusiasmo de todos. Segundo o seu ponto de vista, a passagem do conto para a novela talvez tenha levado a esse estranhamento com o romance. As formas breves de escrita, em especial, o conto, empolgam muito porque há um texto com começo, meio e fim, concluído, numa assentada, como dizia Poe, instigando todos a participarem  com comentários, análises, resenhas. Além disso, o uso da segunda pessoa, às vezes fica um pouco desagradável para o leitor, um pouco cansativo, na verdade. E há que acrescentar, segundo ela, que o tempo de leitura do livro tornou-se muito curto porque o Momento Poético tem crescido substancialmente, ocupando, algumas vezes, quase 2/3 do tempo da oficina, o que leva o tempo para a leitura do romance ficar muito curto.  A sugestão apresentada na ocasião foi que todos fizessem uma resenha  até onde já foi lido, para facilitar o fechamento do primeiro capítulo na próxima oficina. Depois, então, será iniciada a leitura de O túnel, de Ernesto Sabato, pequeno romance no número de páginas, mas uma obra considerada pela crítica como excepcional.

Nesse momento, compartilhei a emoção de estar lendo um dos mais extraordinários romances que eu tive a oportunidade de conhecer, SOBRE HERÓIS E TUMBAS, também, de Ernesto Sabato.  Eu já havia lido O Túnel e penso que essa leitura foi importante ter sido feita anteriormente. Como se não bastasse ser um dos mais importantes escritores do Século XX, Ernesto Sabato exerceu um papel fundamental na defesa dos direitos humanos quando presidiu a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas – CONADEP, no período de 1983-1984, sendo principal responsável por levar a julgamento os militares da ditadura argentina. Na entrevista, que pode ser acessada no link a seguir, é possível conhecer um pouco do que pensa esse escritor e ser humano singular: https://youtu.be/H4A2wfaMZNo.

Na ocasião, li um breve texto para ilustrar a genialidade do escritor  Ernesto Sabato e aqui vai a transcrição (SOBRE HERÓIS E TUMBAS, Ernesto Sabato, Ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1980, págs. 121-123):

“− Nunca poderei te beijar, nunca poderei tocar teu corpo? – perguntou Martín quase com cômica e infantil amargura. Viu que ela punha as mãos sobre o rosto e o apertava como se lhe doessem as faces. Depois acendeu um cigarro e sem falar foi até a janela, onde ficou até termina-lo. Finalmente, voltou até a cama, sentou-se, o olhou longa e seriamente e começou a despir-se.Martín, quase aterrorizado, como quem assiste a um ato longamente desejado, mas que no momento de produzir-se compreende que também é obscuramente temível viu como seu corpo ia pouco a pouco emergindo da escuridão; já de pé, à luz da lua, contemplava sua cintura estreita, que podia ser abarcada por um só braço; suas largas cadeiras; seus peitos altos e triangulares, abertos para fora, trêmulos pelos movimentos de Alejandra; seu longo cabelo liso caindo agora sobre seus ombros. Seu rosto era sério, quase trágico, e parecia alimentado por uma seca desesperação, por uma tensa e quase elétrica desesperação. Coisa singular: os olhos de Martín se haviam enchido de lágrimas e sua pele estremecida como com febre. A via como uma ânfora antiga, alta, bela e tremente ânfora de carne; uma carne que sutilmente estava entremeada, para Martín, a uma ânsia de comunhão, pois como dizia Bruno, uma das trágicas precariedades do espírito, mas também uma de suas sutilezas mais profundas era sua impossibilidade de ser senão mediante a carne. O mundo exterior havia deixado de existir para Martín e agora o círculo mágico o isolava vertiginosamente daquela cidade terrível, de suas misérias e fealdades, dos milhões de homens e mulheres e crianças que falavam, sofriam, disputavam, odiavam, comiam. Pelos fantásticos poderes do amor, tudo aquilo ficava abolido, menos aquele corpo de Alejandra que esperava a seu lado, um corpo que algum dia morreria e se corromperia, mas que agora era imortal e incorruptível, como se o espírito que o habitava transmitisse a sua carne os atributos de sua eternidade. As batidas de seu coração demonstravam a ele, Martín, que estava ascendendo a uma altura antes nunca alcançada, um cimo onde o ar era puríssimo mas tenso, uma alta montanha talvez rodeada de atmosfera eletrizada, a alturas incomensuráveis sobre pântanos escuros e pestilentos em que antes havia ouvido chafurdar bestas deformadas e sujas.”

* Anita Dubeux é poeta e escritora.

 

 

A Morte de Madrugada Não Desvendada

A Morte de Madrugada não Desvendada

*Salete Oliveira

A nossa comandante Lourdes Rodrigues telefona à hora do almoço, fala com cada um de nós já no Traço, Everaldo Júnior, Luzia e eu. Levem o barco hoje à tarde, pede; dá-nos tarefas a cumprir: Júnior, assuma o comando, Salete faça o momento poético, Luzia leia seu conto; se sobrar tempo, adiantem a leitura de Por Favor, Cuide da Mamãe. Ficamos a comer a sobremesa, salada de frutas com leite condensado, a ouvir Sarmento que chega cedo, brindando-nos com suas canções, ainda no cais.

E então, começamos a nossa viagem.

O Momento Poético veio de uma forma singular, através de um meme sobre o fuzilamento de Federico García Lorca, por ocasião do aniversário de sua morte em 19 de agosto, o que provocou um paralelo entre a ditadura espanhola e o momento atual em nosso país; as discussões sobre a impossibilidade da foto ter sido realizada; as motivações e condições irreveladas de sua morte, da qual nunca se teve testemunhos. Everaldo Júnior trouxe além do meme, o poema de Vinícius de Moraes sobre a morte de Federico Garcia Lorca de tal forma tocante, que nos faz acreditar ter sido ele testemunha ocular da tragédia. Veio, também,  um Réquiem escrito por Vinícius. Assim veio Lorca para nós, já em sua hora derradeira. A leveza do almoço e sobremesa nos deu força para ler, ouvir, chorar com os testemunhos de Vinícius. Lourdinha nos prometeu trazer Lorca em toda sua pujança de paixão e vida em um próximo momento.

Federico García Lorca, nascido em Granada,  foi um dos maiores poetas espanhóis do século XX, além de um grande dramaturgo que levou para as suas peças a cultura do seu povo, fazendo um teatro itinerante, popular e de vanguarda, que permanecem até hoje como fonte de inspiração para outros escritores e criadores cênicos.

O meme que circula na Internet tem sido criticado pela sua inverdade. Federico Garcia Lorca foi arrastado de sua casa, morto de madrugada e enterrado numa vala comum, sem que jamais tenha sido encontrado o seu corpo. Questiona-se ainda a cena, como uma representação cinematográfica, cujo ator distancia-se muito de Lorca na aparência, no gestual.  De qualquer forma, é considerada válida para não ser esquecido esse terrível momento histórico em que o fascismo tomava conta da Espanha, ceifando milhões de vidas, entre elas a do grande poeta e dramaturgo Federico Lorca.

A família de Garcia Lorca não aprovou a busca do corpo para exumação, não se esclarecendo as circunstâncias de sua morte. A família concorda que fique junto de milhares de outros que foram mortos e enterrados em vala comum, considerada um lugar de reverência.

A morte de madrugada

Muerto cayó Federico.
Antonio Machado

Uma certa madrugada
Eu por um caminho andava
Não sei bem se estava bêbado
Ou se tinha a morte n’alma
Não sei também se o caminho
Me perdia ou encaminhava
Só sei que a sede queimava-me
A boca desidratada.
Era uma terra estrangeira
Que me recordava algo
Com sua argila cor de sangue
E seu ar desesperado.
Lembro que havia uma estrela
Morrendo no céu vazio
De uma outra coisa me lembro:
… Un horizonte de perros
Ladra muy lejos del río…

De repente reconheço:
Eram campos de Granada!
Estava em terras de Espanha
Em sua terra ensangüentada
Por que estranha providência
Não sei… não sabia nada…
Só sei da nuvem de pó
Caminhando sobre a estrada
E um duro passo de marcha
Que em meu sentido avançava.

Como uma mancha de sangue
Abria-se a madrugada
Enquanto a estrela morria
Numa tremura de lágrima
Sobre as colinas vermelhas
Os galhos também choravam
Aumentando a fria angústia
Que de mim transverberava.

Era um grupo de soldados
Que pela estrada marchava
Trazendo fuzis ao ombro
E impiedade na cara
Entre eles andava um moço
De face morena e cálida
Cabelos soltos ao vento
Camisa desabotoada.
Diante de um velho muro
O tenente gritou: Alto!
E à frente conduz o moço
De fisionomia pálida.
Sem ser visto me aproximo
Daquela cena macabra
Ao tempo em que o pelotão
Se dispunha horizontal.

Súbito um raio de sol
Ao moço ilumina a face
E eu à boca levo as mãos
Para evitar que gritasse.
Era ele, era Federico
O poeta meu muito amado
A um muro de pedra seca
Colado, como um fantasma.
Chamei-o: Garcia Lorca!
Mas já não ouvia nada
O horror da morte imatura
Sobre a expressão estampada…
Mas que me via, me via
Porque em seus olhos havia
Uma luz mal-disfarçada.
Com o peito de dor rompido
Me quedei, paralisado
Enquanto os soldados miram
A cabeça delicada.

Assim vi a Federico
Entre dois canos de arma
A fitar-me estranhamente
Como querendo falar-me.
Hoje sei que teve medo
Diante do inesperado
E foi maior seu martírio
Do que a tortura da carne.
Hoje sei que teve medo
Mas sei que não foi covarde
Pela curiosa maneira
Com que de longe me olhava
Como quem me diz: a morte
É sempre desagradável
Mas antes morrer ciente
Do que viver enganado.

Atiraram-lhe na cara
Os vendilhões de sua pátria
Nos seus olhos andaluzes
Em sua boca de palavras.
Muerto cayó Federico
Sobre a terra de Granada
La tierra del inocente
No la tierra del culpable.
Nos olhos que tinha abertos
Numa infinita mirada
Em meio a flores de sangue
A expressão se conservava
Como a segredar-me: – A morte
É simples, de madrugada…

 Vinicius de Moraes, em “Poemas esparsos”. [organização Eucanaã Ferraz]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

MORTE DE UM PÁSSARO
(Réquiem para Federico Garcia Lorca)

 

Ele estava pálido e suas mãos tremiam. Sim, ele estava com medo porque era tudo tão inesperado. Quis falar, e seus lábios frios mal puderam articular as palavras de pasmo que lhe causava a vista de todos aqueles homens preparados para matá-lo. Havia estrelas infantis a balbuciar preces matinais no céu deliqüescente. Seu olhar elevou-se até elas e ele, menos que nunca, compreendeu a razão de ser de tudo aquilo. Ele era um pássaro, nascera para cantar. Aquela madrugada que raiava para presenciar sua morte, não tinha sido ela sempre a sua grande amiga? Não ficara ela tantas vezes a escutar suas canções de silêncio? Por que o haviam arrancado a seu sono povoado de aves brancas e feito marchar em meio a outros homens de barba rude e olhar escuro?

Pensou em fugir, em correr doidamente para a aurora, em bater asas inexistentes até voar. Escaparia assim à fria sanha daqueles caçadores maus que o confundiam com o milhafre, ele cuja única missão era cantar a beleza das coisas naturais e o amor dos homens; ele, um pássaro inocente, em cuja voz havia ritmos de dança.

Mas permaneceu em sua atonia, sem acreditar bem que aquilo tudo estivesse acontecendo. Era, por certo, um mal-entendido. Dentro em pouco chegaria a ordem para soltá-lo, e aqueles mesmos homens que o miravam com ruim catadura chegariam até ele rindo risos francos e, de braços dados, iriam todos beber manzanilla numa tasca qualquer, e cantariam canções de cante-hondo até que a noite viesse recolher seus corpos bêbados em sua negra, maternal mantilha.

As ordens, no entanto, foram rápidas. O grupo foi levado, a coronhadas e empurrões, até a vala comum aberta, e os nodosos pescoços penderam no desalento final. Lábios partiram-se em adeuses, murmurando marias e consuelos. Só sua cabeça movia-se para todos os lados, num movimento de busca e negação, como a do pássaro frágil na mão do armadilheiro impiedoso. O sangue cantava-lhe aos ouvidos, o sangue que fora a seiva mais viva de sua poesia, o sangue que tinha visto e que não quisera ver, o sangue de sua Espanha louca e lúcida, o sangue das paixões desencadeadas, o sangue de Ignácio Sánchez Mejías, o sangue das bodas de sangre, o sangue dos homens que morrem para que nasça um mundo sem violência. Por um segundo passou-lhe a visão de seus amigos distantes. Alberti, Neruda, Manolo Ortiz, Bergamín, Delia, María Rosa – e a minha própria visão, a do poeta brasileiro que teria sido como um irmão seu e que dele viria a receber o legado de todos esses amigos exemplares, e que com ele teria passado noites a tocar guitarra, a se trocarem canções pungentes.

Sim, teve medo. E quem, em seu lugar, não o teria? Ele não nascera para morrer assim, para morrer antes de sua própria morte. Nascera para a vida e suas dádivas mais ardentes, num mundo de poesia e música, configurado na face da mulher, na face do amigo e na face do povo. Se tivesse tido tempo de correr pela campina, seu corpo de poeta-pássaro ter-se-ia certamente libertado das contingências físicas e alçado vôo para os espaços além; pois tal era sua ânsia de viver para poder cantar, cada vez mais longe e cada vez melhor, o amor, o grande amor que era nele sentimento de permanência e sensação de eternidade.

Mas foram apenas outros pássaros, seus irmãos, que voaram assustados dentro da luz da antemanhã, quando os tiros do pelotão de morte soaram no silêncio da madrugada.

– Vinicius de Moraes, em “Poemas esparsos”. [organização Eucanaã Ferraz]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Face of Garcia Lorca in the Form of a Fruit Dish with Three Figs, 1938 – by Salvador Daly

Esta imagem da tela de Salvador Dali, o poema e o réquiem de Vinicius de Moraes foram retirados de: http://www.revistaprosaversoearte.com/garcia-lorca-e-os-poetas-brasileiros/. Há outros poemas dedicados a Garcia Lorca por poetas brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Hilda Hilst, Manuel Bandeira:

Em seguida ao Momento Poético,  Luzia leu um conto surpreendente, Pobre Moça Rica, que nos conta a história de uma moça pobre que esconde sua falta de atrativos e riquezas atrás de uma máscara de amor incondicional e beatitude frente à vida e suas adversas condições, convivendo com grupo de pessoas, seu oposto de beleza e posses materiais. Com surpreendente e abrupto desfecho deixou o grupo atônito e cheio de perguntas, mas… se o próprio narrador assim também o estava, afinal a conhecia tão pouco, como responder às nossas perguntas de leitores ávidos para nos imiscuirmos na vida da Pobre Moça Rica. Júnior sugeriu que o relêssemos em casa voltando a ser relido em uma próxima ocasião na Oficina.

Continuamos a leitura do Livro “Por favor, cuide da mamãe”, na viagem da escritora sul coreana Kyung-sook Shin. Em sua forma detalhada e intimista, a narradora continua a nos surpreender com seus sentimentos, relacionamento com a família, a mãe em especial e os preparativos culinários que pormenoriza.

  • Salete Oliveira é engenheira química, poeta, contista, resenhista.

 

Augusto dos Anjos: Cantor da Poesia de tudo que é morto

Augusto dos Anjos já esteve em nosso Momento Poético antes, certamente voltará outras vezes. Dessa feita foi levado por nossa poetisa Anita Dubeux, que selecionou, com apuro, alguns poemas do autor para dividir com o grupo. Considerado um dos poetas mais críticos de sua época e um dos mais importantes representantes do pré-modernismo, apesar de sua poesia conter raízes do simbolismo, no gosto pela morte,pela angústia, melancolia e no uso de metáforas. O autor parece querer desafiar os parnasianos, utilizando palavras não-poéticas como verme, cuspe, vômito, entre outras. A obra só possuiu grande vendagem após a morte do poeta.  Declarou-se Cantor da poesia de tudo que é morto. E como o faz bem!

Nasceu no engenho Pau d’Arco, na Paraíba, no dia 22 de abril de 1884, filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e de Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos.
No ano de 1900, ingressa no Liceu Paraibano e produz seu primeiro soneto.
Durante a vida publicou vários poemas em jornais e periódicos e em 1912 editou o seu único livro EU, que causou espanto nos críticos da época, diante de um vocabulário grotesco e sua obsessão pela morte: podridão da carne, cadáveres fétidos e vermes famintos.

Possuía uma retórica delirante, criativa, por vezes absurda, como neste trecho do poema Psicologia de um Vencido:

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro da escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Augusto dos Anjos estudou na Faculdade de Direito do Recife entre 1903 e 1907 e após sua formatura retornou a João Pessoa, onde passou a lecionar Literatura Brasileira, em aulas particulares.

Faleceu em Leopoldina, Minas Gerais, no dia 12 de novembro de 1914.

Poemas memoráveis desse poeta paraibano, hoje universal:

O martírio do artista

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!…
É como o paralítico que, à míngua
Da própria voz, e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!

Vencedor

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E á rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pude domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta

Poema Negro está entre os mais lidos e elogiados poemas de Augusto dos Anjos.

 

Após a leitura dos poemas de Augusto dos Anjos, continuamos a viagem, agora com a releitura do conto de  Raduan Nassar, Hoje de Madrugada, elaborada por João Gratuliano que deu o título bastante criativo de As Madrugadas de Ontem, assim mesmo, no plural.  Uma boa releitura sempre irá depender da leitura particular que o leitor fez da obra, mediada pela sua visão de mundo, sensibilidade para captar silêncios, não-ditos, de viajar com as palavras, de abrir suas valises e escarafunchá-las em busca de novos sentidos, cheiros,  cores, musicalidade. João Gratuliano faz isso muito bem. As Madrugadas de Ontem, longe de reproduzir o texto original, é uma criação, trazendo o novo sem perder o elo com a fonte que serviu de inspiração. Disposto sempre a aceitar desafio, Gratuliano aceitou a proposta do grupo e refez o texto apresentado na Oficina, com a participação de todos, especialmente de Everaldo Júnior que foi quem liderou o processo,  dessa vez escondendo o gênero do personagem que só foi revelado no final. Valeu como exercício de desbloqueio criativo.

Sobre a Programação para o Segundo Semestre discutimos um pouco e ficou acordado que iniciaríamos com a autora sul coreana Kyung Sook Shin, Por Favor, Cuide da Mamãe, que já dispomos em meio digital, o que facilitará bastante para  a leitura na próxima quarta-feira. Trata-se de um livro com muitos recursos técnicos literários instigantes, inovadores,  trama bem articulada e extremamente interessante que fisga você nas primeiras páginas.

Lourdes Rodrigues

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