Notas sobre O Vermelho e o Negro

Algumas notas sobre O Vermelho e o Negro, de Stendhal
(até a leitura do capítulo 5) 

*Teresa Sales

08 de março de 2014

 

            Don Gruffot Papera, já referido aqui no blog, avisa-nos que a cidadezinha de Verrières, uma das mais bonitas do Franco Condado, não existe de fato e, tal como o cenário reconstruído de uma novela, é inventada pelo autor. Pelo ensaio de Heinrich Mann, que aborda principalmente a vida pessoal do autor, também ficamos a saber o quanto a criação da natureza e da personagem principal, Julien, tem a ver com a sua própria trajetória de vida.

            Diferentemente do que ensinam os manuais, onde se deve capturar o leitor já no primeiro capítulo, apontando uma possível trama ou conflito, no capítulo inicial desse livro temos apenas uma belíssima descrição da cidadezinha, cenário da trama que virá a seguir. A personagem principal não aparece ainda. Os que aparecem, completando o cenário da cidadezinha com as serrarias, a fábrica de pregos e a de tecidos estampados, são o camponês e o nobre, ambos recém transformados em burgueses. O primeiro, carregando seu modo grosseiro de vida. O segundo, a sua aristocracia e, para não se envergonhar de ser industrial, fez-se prefeito.

            A negociação pelo espaço urbano entre o industrial aristocrata e o industrial camponês; assim como a promiscuidade entre o público e o privado incorporada na figura do primeiro; e ainda a tirania da opinião, ou despotismo característico da província; remete-nos aos dias de hoje, com outros personagens, em pleno século XXI.

            Seria isso então a capturar o leitor? A universalidade da arte de narrar, que nos leva, pela leitura, a co-autores da narrativa?

            É no capítulo II, que tem como personagem principal o prefeito, que começam a aparecer os conflitos: entre o poder civil local, representado pelo Senhor. Rênal (prefeito); e a Igreja, representado pelo Padre Célan; e o poder central em Paris, representado pelo Sr. Appert.

            Até o capítulo V a narrativa se parece com um jogo de quebra-cabeça em que cada peça nova vai se somando às anteriores, dentro de uma paisagem apresentada em grandes traços no primeiro capítulo.

          Ficou uma dúvida: é um narrador intruso ou discurso indireto livre que caracterizam alguns parágrafos desse segundo capítulo?

            O capítulo III é dos mais repletos de cenas. Aprofunda-se o conflito do capítulo II já referido, interrompido abruptamente pelo susto causado pelo filho dos de Rênal subindo em um muro perigoso, o que leva o Sr. de Rênal a consolidar sua decisão de aprofundar seu prestígio social, contratando um preceptor para os filhos. É nesse capítulo que sai do anonimato a Senhora de Rênal, não somente expressando uma opinião em relação ao conflito, mas sendo apresentada em algumas de suas características de personalidade: uma mãe fervorosa que não quer olhar o enfado de sua relação conjugal, na qual o amor está ausente e ela é desmerecida em suas opiniões e preocupações com os filhos e que, desde que lhe deixem com esses e seu jardim magnífico, nada questiona.

            Outra peça do quebra-cabeça aparece no capítulo IV, através de duas cenas: a proposta da contratação do Julien feita pelo aristocrata de Rênal ao seu pai, o camponês Sorel; e a rude relação entre o pai e o filho Sorel, que serve como título ao capítulo.

            O capítulo V, chamado “Uma negociação”, na qual “a astúcia do camponês venceu a astúcia do homem rico, que não precisa dela para viver”, dá continuidade à rudeza na relação pai-filho, apresentando algumas características de Julien: sua fantástica memória, suas preferências literárias e como se constituiu a sua alma hipócrita. Aqui outra intrusão: “A palavra (hipocrisia) surpreende os leitores? Até chegar a essa palavra horrível, a alma do jovem camponês teve de percorrer um bom caminho”.  Seguem-se nove parágrafos de flashback sobre Julien, interrompendo a narrativa quando ele deu a paradinha na igreja.

            A descrição de Julien na igreja deixa duas insinuações (suponho que isso há de ter alguma nomeação na arte da narrativa de ficção) que possivelmente serão retomadas mais adiante. Primeiro, o bilhete que ele encontra no genuflexório com o brasão do Senhor. de Rênal. E, “ao sair, acreditou ver sangue perto da pia; era água benta que se derramara: o reflexo das cortinas vermelhas que cobriam as janelas fazia que parecesse sangue” (a mim, lembrou uma cena emblemática carregada de símbolos do filme de Kleber Mendonça “O som ao redor”, quando a cor da água da cachoeira do engenho passa da cor normal à cor vermelha).

*Teresa Sales – Socióloga, ensaísta, cronista, ficcionista.

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