RESENHA DE A HISTÓRIA, PARTE II DO LIVRO ASPECTOS DO ROMANCE DE EDWARD MORGAN FORSTER

 

 Aspectos do Romance é um estudo sobre o romance. O autor garante não ter a pretensão de ser “científico”, por isso o título de “Aspectos”, mas de permitir ao leitor olhar de diferentes maneiras o romance e dar ao próprio romancista a oportunidade de ver o seu trabalho. A linguagem coloquial adotada resulta de a origem ter sido as conferências que ele realizou na Universidade de Cambridge ao suceder T.S.Eliot.

Edward Morgan Forster, mais conhecido por E. M. Forster, (1879 a 1970), inglês de família tradicional, orfão de pai aos dois anos de idade, foi educado pela mãe, com quem manteve ligação extremamente forte. Virgínia Woolf critica em seu diário o fato de ele, homem já maduro, refugiar-se com a mãe em Weybridge, uma velha, niquenta & severa, numa casa velha, a uma milha da estação.

Ele frequentou o King´s College, em Cambridge, onde conheceu as pessoas que formaram o o grupo artístico e literário Bloomsbury, cujos participantes eram chamados de Apóstolos, passando a fazer parte dele. O grupo ficou conhecido, também, como a máfia da intelectualidade, por usar rituais secretos. Após a morte da mãe, ele foi eleito membro honorário do King’s College, onde viveu até ao fim dos seus dias.

Escreveu vários livros, entre ensaios, contos e romances: Where Angels Fear to Tread, The Longest  Journey, Um quarto à vista,  Howard´s End e Passagem para a India, estes dois últimos objeto de belos filmes, Maurice e Artic Summer (incompleto). Publicou ainda três livros de contos: The celestial omnibus and other stories, The eternal moment and other stories, mais tarde reunidos num só volume, e postumamente The life to come and other stories. Dos 14 contos ali reunidos, apenas dois foram publicados antes da sua morte, pois assim como Maurice, a maioria dos contos explorava temas homossexuais.

Estudioso de Teoria Literária, seu livro Aspectos do Romance, razão desta resenha, foi publicado em 1927 e ficou célebre pela sua classificação das personagens em esféricas ou planas, tornando-se a sua obra teórica mais conhecida.

O primeiro aspecto considerado no livro é A História, aspecto fundamental de todo romance, segundo o autor. Para defender a sua tese ele faz uso de metáfora sonora ao estruturar os seus argumentos com base no tom de voz em que o leitor respondia a pergunta: O que é que um romance faz. Na verdade, por trás do tom de voz ele situava o leitor no seu contexto social, econômico e cultural, usando substantivos e adjetivos que não deixavam dúvidas sobre o sujeito da fala, nem sobre a sua relação de simpatia ou antipatia por ele. Assim, o leitor-motorista, cidadão comum, de recursos econômicos e culturais limitados, contava com o respeito e a admiração do autor ao responder, de forma plácida, que não sabia bem… que aquela era uma pergunta engraçada…, mas que ele supunha que o romance contava uma história. Por outro lado, o leitor-golfista, cidadão amealhado, arrogante e agressivo na resposta: Ora, conta uma história, é claro, pois assim era o seu desejo, dele e da mulher, diga-se de passagem, sendo tal desejo soberano, nada mais podendo lhe interessar, embora dispusesse de recursos social e econômico para maior refinamento cultural, e ainda exibindo profundo desprezo pelas artes, Você pode ficar com a sua arte, a sua literatura, a sua música, desde que me dê uma boa história, desnecessário seria dizer o quanto o autor o achava detestável e ao mesmo tempo temia tal leitor, pois para ele, E.M.Forster, a arte valia à pena pela arte. E, por fim, o tipo leitor-beletrista, em que ele mesmo se inclui, que cheio de desânimo e pesar responde: Oh, sim, meu caro, sim, o romance conta uma história, pois ele bem que gostaria de que assim não fosse, que o romance pudesse ser algo diferente, como por exemplo, melodia, percepção da verdade, e não esta baixa forma atávica.

Pouco importa o lugar que o sujeito ocupa na sociedade, enquanto leitor desejante há um máximo divisor comum que une a todos ao ler um romance: a  história que ele conta. Mas é do lugar de leitor-beletrista, daquele que lamenta que assim seja, que ele vai mostrar o que realmente significa a história no romance.

Por que lamenta o beletrista? Afinal, a unanimidade deveria ser suficiente para acalmá-lo. Não, não, não, diz ele, se forem retirados da história todos os seus refinamentos pouco resta para admirar. O que mantêm a história viva desde o homem de Neanderthal, quando ela era contada ao redor de uma fogueira, é o desejo dos ouvintes de saber o que vai acontecer depois, tal qual o esposo de Sherezade nas Mil e uma noites, e outras tantas audiências de seu tempo – do autor – para quem a curiosidade primitiva ainda prevalece sobre qualquer julgamento literário. Assim, ele resume que a história tem apenas um mérito: fazer a audiência desejar saber o que acontece depois. E, inversamente, pode ter uma única falta: fazer com que o auditório não queira saber o que acontece depois.

Apesar disso ele reconhece que a história tem muito a ensinar. E começa por apresentar a sua conexão com a vida cotidiana, usando o sentido de tempo e o senso de valoração sempre presentes nela: … a vida cotidiana, qualquer que seja, é praticamente composta de duas vidas – a vida no tempo e a vida dos valores; e nossa conduta revela uma dupla fidelidade: “ Eu a vi só por cinco minutos, mas valeu a pena”. Igualmente, o papel da história é narrar a vida no tempo, enquanto que o romance como um todo –se ele é um bom romance – tem o papel de agregar-lhe valores, a partir de alguns recursos ficcionais, prestando, assim, dupla fidelidade. E reforçando o seu argumento ele diz que no romance a fidelidade ao tempo é imperativa, mais do que na vida cotidiana, quando as pessoas chegam a negar que o tempo existe, que até podem esquecer que o relógio está tique-taqueando, e agirem segundo tal pensamento. Um romancista não pode fazer assim, ele jamais poderá ignorar o tempo dentro da textura do seu romance. O escritor pode usar de muitos artifícios para tentar esconder o tempo, assim como Proust, Emily Brontë e Sterne o fizeram, mas nenhum deles contradiz a tese do autor de que : a base de um romance é uma história, e a história é uma narrativa de acontecimento dispostos em sequência no tempo.

Ainda no desenvolvimento da sua tese ele passa a analisar as obras de alguns escritores. Começa com Sir Walter Scott, escritor inglês ( 17711832), criador do genuíno romance histórico. Antes dele alguns autores haviam procurado essa modalidade literária, mas o público e a crítica não compreenderam a intenção.A análise crítica do autor é bastante severa: Não sabe construir: não possui nem despreendimento artístico, nem paixão. Apesar disso, ele reconhece a fama do escritor e a atribui a dois fatores. O primeiro deles, a razões sentimentais, porque ouviram na juventude a sua leitura em voz alta, associando-a com lembranças de momentos felizes. E o segundo, porque ele sabia contar uma história.Tinha o primitivo poder de conservar o leitor em “suspense e brincar com a sua curiosidade.O texto analisado é O Antiquário que ele esmiuça, apresentando diversas falhas, mas acaba por concluir que é um livro em que a vida no tempo é celebrada instintivamente pelo romancista.

Em seguida, ele faz breve comentário sobre The Old Wives´Tale, de Arnold Bennett, publicado em 1908 com grande sucesso, considerado uma obra prima. Neste romance o tempo é o verdadeiro herói,.o processo de envelhecimento dos seus personagens é surpreendente, até o cão da casa velho e reumático arrasta-se para ver se resta alguma coisa no prato. E ele reconhece que é um livro muito forte, sincero e triste, mas contesta a sua grandeza, grandeza que ele vai encontrar em Guerra e Paz de Tolstoi. Segundo  Forster, ali não só o tempo, mas o espaço, também, foi contemplado, podendo até ser dito que o espaço é que é o senhor do romance, espaço da imensa área da Rússia, das suas florestas, das suas pontes e rios congelados, dos jardins, estradas e campos.

E para concluir a sua argumentação ele diz que a história, além de dizer uma coisa depois da outra, acrescenta algo por causa de sua conexão com uma voz. Assim, como repositório de uma voz, ela pede para ser lida em voz alta, não pela cadência ou melodia, para estas o olho é suficiente, por mais incrível que pareça,  mas dada a sua primitividade, antes mesmo da descoberta da leitura, a “voz” que fala, a voz do narrador da tribo, agachado no meio da caverna atrai o que há de primitivo em nós, exigindo que nos transforme de leitores em ouvintes.

Por todos os argumentos apresentados é que ele insiste para que os ouvintes de sua conferência não respondam com a inocência do leitor-motorista quando lhe perguntarem o que um romance faz, porque eles não têm esse direito, e eu acrescento, não têm mais a inocência daquele leitor; também não respondam tal e qual o leitor-golfista, porque a eles não cabem o perfil porque têm muito mais sabedoria; digam assim como ele, e não tenham dúvida de que estarão certos, embora um pouco tristes, pesarosos: sim – oh, meu caro, sim -, o romance conta uma história.

Edward M. Forster, com certeza, não é um ensaísta-conferencista plácido, para usar o seu adjetivo. A medida que lemos o seu texto surpreendemo-nos com o tom contundente, margeante da grosseria, algumas vezes. De qualquer forma, a geração dos anos vinte foi uma geração vanguardista que se caracterizou pela quebra de padrões no fazer literário: James Joyce no ápice da pirâmide, Virgínia Woolf uma das suas mais brilhantes seguidoras. Além disso, pertencer ou ter pertencido ao Bloomsbury, grupo intelectual inglês de grande expressão, já lhe dava a licença poética necessária para se expressar como bem quisesse, até para fazer citações pessoais do tipo: Poderia ter sido um escritor mais famoso se tivesse escrito e publicado mais, mas o sexo não permitiu esta última. (Wikipédia). Afinal, o máximo divisor comum é eles serem todos herdeiros de Flaubert na busca por um escrever absoluto, sem amarras, medidas ou fronteiras:

   O que me parece belo, o que eu gostaria de fazer, é um livro sobre nada, um livro sem amarra exterior, que se sustentaria pela força interna do seu estilo, como a terra, sem estar sustentada, se mantém no ar, um livro que não teria quase tema, ou pelo menos em que o tema fosse quase invisível, se é que pode haver. As obras mais belas são as qu têm menos matéria; mais a expressão se aproxima do pensamento, mais a palavra cola em cima e desaparece, maior é a beleza.

Assim, não poderia deixar de ser triste a resposta do leitor-escritor-beletrista: Sim, o romance conta uma história.

                                                                 Jaboatão dos Guararapes, 08 de março de 2009          

                                                                                               Lourdes Rodrigues 

 

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