Poesia às Quartas-feiras

 

A MULHER QUE PASSA

Vinicius de Moares, Rio de Janeiro , 1938

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

O poema trazido por Mônica, nossa viageira arquiteta, amante das artes e da literatura, veio sem o nome do autor para que o descobríssemos. Não foi difícil porque à medida que ela ia lendo as imagens de A mulher que passa iam sendo associadas à Garota de Ipanema e, consequentemente, a Vinicius de Moraes, o seu coautor. A mulher que passa é de 1938, nos primórdios de sua carreira de poeta. Consta na sua biografia que em 1938 ele havia ganho uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesa na Universidade de Oxford. Diria bem mais que a convivência com os poetas ingleses havia mudado o seu estilo tonando-o “mais conciso e mais enxuto” ao invés de caudaloso e grandiloquente de até então.

Sobre Vinícius disse Manuel Bandeira:

{Vinícius de Moraes tem} o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a perícia dos parnasianos (sem refugar, como estes, as sutilezas barrocas), e, finalmente, o homem bem do seu tempo, a liberdade {…} dos modernos.

Anos mais tarde, em 1962, Vinicius de Moraes faz a letra e Tom Jobim a música de Garota de Ipanema que postamos a seguir.

Jaboatão dos Guararapes, 28 de setembro de 2015

Lourdes Rodrigues

Primavera e temperos

A nossa colega Salete sempre está nos trazendo seus escritos poéticos. Alguns que ela descobre quase por acaso nas andanças pelas suas memórias e gavetas; outros que surgem provocados pela sua aguçada sensibilidade aos sons, aos cheiros, às imagens. É um prazer, sempre, compartilhá-los.

Aqui estão:


2015-09-20_22.59.34 (1)

                               Quietude & tempero

                                                                        *Salete Oliveira

Quietude… Onde?
Na mão na caneta
No sexo no corte
No ego na culpa
Na mente no amor
Na emoção na tristeza
Na raiva na dor
No lavor na candura
No silêncio na noite
Na praça na casa
No uísque na pizza
Na lua crescente sol poente
No dia ao que agoniza
Na noite ao que nasce.
Às pimentas e às mostardas 
Uma pausa.
Que é, tudo?
Sal Azeite Pão
Comunhão
É o tu/do nada                     
Começar conhecer
Esse poço sem fundo
De pedras ou lama, 
trama qui é tu de (tem pe ro) .(final)?

 
 

Incomensurável instante

                                                             Salete Oliveira

20 de setembro,

amanhã 21, dia da árvore,
que pena…
só um dia no ano para ser dedicado às árvores
que nos dão tanto, flores, frutos, sombra, móveis, fogo,,  p
cores, casa, sementes, doces, cura,lições a cada estação,
calma e clareza…

dia 22, dia dos amantes…
quem inventou isso?
amantes querem
imensos dias inteiros para si,

24 horas sempre é pouco
para se deleitar ou curtir ou mesmo sonhar
com um encontro e rememorar os instantes
em que estiveram juntos…
curtir cada linha do rosto,
curva do corpo, reviravoltas do ser,
gravar a imagem nas retinas, e
em mil arquivos do coração,
bilhões de células, gotas de suor…

24 horas sempre é pouco
para se deleitar ou curtir ou mesmo sonhar
com um encontro e rememorar
os instantes em que estiveram juntos…
curtir cada linha do rosto,
curva do corpo, reviravoltas do ser,
gravar a imagem nas retinas, e
em mil arquivos do coração,
bilhões de células, gotas de suor…

24 horas sempre é pouco
para se deleitar ou curtir ou mesmo sonhar
com um encontro e rememorar
os instantes em que estiveram juntos…
curtir cada linha do rosto,
curva do corpo, reviravoltas do ser,
gravar a imagem nas retinas,
e em mil arquivos do coração,
bilhões de células, gotas de suor…

24 horas sempre é pouco
para se deleitar ou curtir ou mesmo sonhar
com um encontro e rememorar os instantes em que estiveram juntos…
curtir cada linha do rosto,
curva do corpo, reviravoltas do ser,
gravar a imagem nas retinas, em mil arquivos do coração,
bilhões de células, gotas de suor…

dia 23, chega a primavera
oficialmente marcada no calendário,
como só dia 23?
se dela já estamos inebriados e por ela possuídos?
árvores, amantes,
todos explodem em flores e exuberãncia,
intensidade de viver e existir,
um segundo, um instante, vale tanto,
um olhar,
um carinho,
o vento no rosto,
o cheiro de terra molhada, de sol
que queima a pele,
o cantar dos pássaros,
o colorido das flores,
e cheiros, e frutos minúsculos a se formar…
é primavera,
todos os dias,

novas flores, novos odores, novas cores, novos amores,
sem tempo marcado
disso ou daquilo,
apenas um suspiro a marcar
a mudança do incomensurável instante.

** Maria Salete Oliveira – engenheira química, poeta, cronista, ficcionista

Poesia às Quartas-Feiras

Nessa última  quarta-feira tivemos Sylvia Plath e Calderon de La Barca, duas escolhas excelentes.

A poesia de Sylvia Plath foi trazido pela nossa querida viageira Adelaide Câmara que já havia feito um ensaio sobre a poetisa americana intitulado  Quando Escolher é Dizer “Sylvia Plath: ‘A escritura fica: sozinha percorre o mundo'”para apresentação numa das Jornadas do Traço. Esse ensaio está na Revista Veredas nº9. 

Ela nos trouxe Espelho (em inglês e versão para o português não identificada a autoria)  Palavras (tradução de Ana Maria César). Adelaide, inclusive,  fez restrição à tradução de replaces por repõe no poema (…seu rosto repõe a escuridão.) preferindo, em seu lugar, substitui.

ESPELHO

Sylvia Plath

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, desembaçado de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, desbotada. Há tanto tempo olho para ela
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ela falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.

Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vem e vai.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.

23 de outubro de 1961

 

MIRROR

Sylvia Plath

I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful —
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.
(23 October 1961)

Por orientação de Adelaide encontrei alguns vídeos no Youtube com o poema e escolhi esse filme de E Irving, principalmente, por causa da  voz de M..Wagner que para mim traduziu bem o sentimento que perpassa cada verso.

O segundo poema lido Palavras:

PALAVRAS

Sylvia Plath

Golpes
De machado que fazem soar a madeira,
e os ecos!
Ecos partem
Do centro como cavalos.

A seiva
Jorra como lágrimas, como a
água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e rola,
Crânio branco
Comido por ervas daninhas.
Anos depois as encontro
Na estrada —

Palavras secas e sem rumo,
Infatigável bater de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço estrelas fixas
Governam uma vida.

(Tradução: Ana Cristina César)

 

Levei para os oficineiros alguns trechos de Os diários de Sylvia Plath – 1950-1962, editados por Karen V. Kukil, tradução de Celso Nogueira, que foi publicado pela Editora Globo. Não por acaso, evidente, selecionei algumas notas de Sylvia Plath sobre as suas sessões com RB, como assim denomina no diário a sua analista. Na verdade, não sei se era análise no sentido formal o que ela fazia, mas pela sua disposição para as sessões fica claro que a sua intenção era essa:

Se eu vou pagar  pelo tempo e cérebro dela, como se estivesse fazendo supervisão da vida e das emoções e o que fazer de ambas, então vou trabalhar para danar, questionar, revirar a lama e o lixo e me obrigar a tirar o máximo proveito disso.

Desde quarta-feira sinto-me “uma nova pessoa”. Como se tomasse um gole de conhaque, cheirasse cocaína e isso me pegou de jeito, estou viva e presente. Melhor do que tratamento de choque: “Eu lhe dou permissão para odiar sua mãe”.

Esta suposta permissão para odiar a mãe, libertando-a do Pássaro do Pânico em seu coração, foi fundamental para instalar as bases do processo de transferência com a sua analista que passou a ser vista como aquela a quem ela poderia:  confiar qualquer coisa, sem que fique arrepiada ou ralhe comigo ou pare de me escutar, o que é um sucedâneo agradável para o amor.

O ódio pela mãe tem raízes bem edipianas, conforme ela mesma o diz em suas notas: Quanto a mim, jamais conheci o amor de um pai, o amor de um homem sólido, com laços de sangue, após a idade de oito anos, Minha mãe matou o único (o grifo é meu) homem que me amaria incondicionalmente pela vida afora:apareceu certa manhã com lágrimas generosas nos olhos e contou que ele se fora para sempre. Eu a odeio por isso.

Falando desse ódio e se perguntando como manifestá-lo ela diz:

Nas emoções mais profundas penso nela como um inimigo: alguém que “matou” meu pai, meu primeiro aliado masculino no mundo. Ela é uma assassina da masculinidade. Deito-me na cama quando penso que minha mente ficará vazia para sempre e penso no regozijo que seria matá-la, estrangular sua garganta magra cheia de veias que nunca pôde ser grande o bastante para me proteger do mundo. Mas eu era boa demais para matar. Tentei me matar: para deixar de ser um constrangimento para as pessoas que amo e para me livrar do inferno do vácuo mental. Muito bem: Faça a ti o que faria aos outros. Eu seria capaz de matá-la, por isso me matei.

A primeira tentativa de suicídio de Sylvia Plath foi em 1953, vitimada por uma depressão profunda. A família internou-a para tratamento psiquiátrico. Quando se recuperou, retornou os estudos no Smith College e a vida literária, recebendo vários  prêmios. Em 1956, casa com Ted Hughes, também poeta, após três meses de namoro. Em 1963, dez anos após a primeira tentativa de suicídio, numa manhã gelada,  Sylvia,  veda cuidadosamente o quarto dos filhos, e deixa um copo de leite ao lado de cada cabeceira, liga a torneira do gás de cozinha, inspira o ar e morre asfixiada por não suportar mais a profunda depressão que a assolou após se separar do marido que estava envolvido com outra mulher.

Encontrei no Youtube um vídeo com Sylvia Plath fazendo a leitura do seu poema Papai, Daddy que postamos aqui. Segundo Jairo Pereira, a poesia de Sylvia Plath é confessional e Papai é um aula de exorcismo poético.

 

 

*PAPAI

Sylvia Plath

Você não serve, você não serve,
Não serve mais, sapato negro
Em que eu vivi como um pé
Por trinta anos, branca e pobre,
Mal me atrevendo a um espirro sequer.

Eu tive de matar você, papai.
Você morreu antes que eu pudesse –
Peso de mármore, saco repleto de Deus,
Estátua medonha com um dedão gris
Do tamanho de uma foca de Frisco*

E uma cabeça onde o estranho Atlântico
Derrama o verde-vagem sobre o azul
Nas águas da magnífica Nauset.
Eu rezava para recuperá-lo
Ach, du.

Na língua alemã, na vila polonesa
Aterradas pelo rolo-compressor
Das guerras, guerras, guerras.
Mas o nome do lugar é comum.
Diz meu amigo polaco
Que há uma ou duas dúzias.
Assim nunca soube onde você
Fincou seus pés, suas raízes,
Com você nunca pude falar.
A língua presa no maxilar.

Arapuca de arame farpado.
Ich, ich, ich, ich,
Mal conseguia dizer.
Em todo alemão vi você.
E a linguagem obscena

Uma locomotiva, uma locomotiva
Em vapores me leva como Judia.
Uma Judia para Dachau, Auschwtiz, Belsen.
Passei a falar como uma Judia.
Acho que bem posso ser Judia.

A neve do Tirol, a cerveja clara de Viena
Não são lá muito puras ou genuínas
Com minha ancestral cigana, minha estranha sina
E meu baralho de tarô, meu baralho de tarô
Eu devo ser um pouco Judia.
Você sempre me meteu medo,
Com sua Luftwaffe, seu papo furado.
E o seu bigode asseado
O olho ariano, bem azulado.
Homem-panzer, homem-panzer, oh Você –

Não Deus, mas uma suástica.
Tão negra que nem céu vara.
Toda mulher adora um Fascista,
A bota na cara, o bruto
Coração de um bruto da sua laia.

Você está de pé na lousa, papai,
Na imagem que levo comigo,
Em vez do pé, o queixo fendido,
Mas não menos diabo por isso, oh não
Não menos que o homem que em dois

Partiu meu belo e rubro coração.
Eu tinha dez anos quando o enterraram.
Aos vinte, eu tentei morrer
E voltar, voltar pra você.
Achei que mesmo os ossos serviram.

Mas me puxaram saco afora,
Juntaram meus pedaços com cola.
E aí eu soube o que fazer.
Eu fiz um modelo de você,
Homem de negro, Meinkampf no jeito

À tortura e ao torniquete afeito.
E eu disse aceito, aceito
Então, papai, finalmente acabei.
Arranquei o telefone negro da raiz,
As vozes já não rastejam até aqui.

Se matei um homem, matei dois –
O vampiro que me disse ser você
E sugou meu sangue por um ano afora,
Sete anos, se quiser saber
Papai pode voltar a se deitar agora.

Há uma estaca em seu coração negro
E os homens da vila jamais gostaram de você.
Estão espezinhando, dançando sobre você.
Eles sempre souberam que era você.
Papai, papai, seu canalha, acabei.

 

* Extraído do texto Sylvia Plath: quatro “poemas-porrada”, publicado nos Cadernos de Literatura em Tradução, n. 7.

 

Também foi lido um trecho da peça de Calderón de La Barca que o nosso querido viageiro Everaldo Júnior nos enviou por email. Com essa peça o autor inaugura de forma estrondeante o barroco no teatro espanhol. Trata-se de uma tragédia em que, similar a Édipo o Rei, há um presságio de que o filho do rei que está para nascer irá cometer muitas atrocidades. Acontece, que a mãe morre ao lhe dar a luz e o pai, rei da Polonia,  o prende em uma torre para que nunca possa ameaçar a sua vida e o seu reino. Quando ele já está adulto o pai arrependido manda soltá-lo para ver o que acontece. Para isso ele manda narcotizar o filho para quando ele acordar já estar no palácio, vestido como um príncipe. E tentariam faze-lo entender que tudo não passou de um sonho.O trecho que ora postamos se refere ao momento em que Segismundo, após viver as honrarias e pompas no palácio de seu pai, o rei Basílio, começa a fazer os desmandos que haviam sido vaticinados e o rei manda outra vez narcotizá-lo e devolver à torre onde sempre havia sido mantido prisioneiro. Quando ele acorda, desespera-se por, esse retorno à desgraçada condição de prisioneiro . O seu carcereiro então o convence de que tudo que ele viveu não passou de um sonho e acrescenta que, mesmo em sonhos, ele deveria ter praticado boas ações.

*VIDA É SONHO

Pedro Calderón de La Barca

É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.
* Trecho extraído do www.deleituras.com/cronicas/avidaeumsonho.htm

Jaboatão dos Guararapes, 20 de setembro de 2015

Lourdes Rodrigues

Poesia às Quartas-Feiras

Luzia Ferrão trouxe-nos o poeta que vende suas poesias nos semáforos. Em metade de uma folha de papel ofício estavam  datilografados oito (8) pequenos poemas, de apenas uma estrofe cada, e uma mini biografia com os seguintes  dados do autor:

 Nascida em Gameleira, veio morar em Jaboatão dos Guararapes aos 16 anos. Desde então ganha o seu sustento com a venda de suas poesias nos semáforos do Recife e do Jaboatão dos Guararapes. Através dos seus poemas expressa suas ideias sobre o amor, a paixão, a beleza feminina e, não o bastante, à difícil realidade do brasileira, expressa também a sua indignação diante das injustiças sociais. Jovem, batalhadora e cidadã essa é Lenemar Santos que cria seu trabalho para levar a poesia.

Duas de suas poesias:

 Jardim

Eu tinha uma selva, lá era tudo escuro, tinha animais ferozes, era cheia de medo. Meu amor me repreendia o tempo todo e me mandava trocar, mas como trocar uma selva? Ora meu amor! Troque por um jardim, coloque nele gatinhos ao invés de tigres, dê vida às flores, deixe os pássaros cantar, quero ver borboletas voar. E assim eu fiz, hoje eu tenho um jardim e colho flores. Hoje eu tenho um jardim, tenho estilingue ao invés de zarabatana e toco violino. Guardei os tambores, hoje eu tenho um jardim.

                                    

 Protesto

O mundo está escuro, às vezes quando penso que está ficando cinza, ou algo parecido, logo vem uma tempestade.  O mundo está de pernas pro ar, todos querem protestar, querem seus direitos, e ninguém cumpre com seus deveres.

Não nos cabe aqui analisar literariamente os escritos de Lenemar Santos. Não nos cabe sequer questionar se eles são poesias, até porque alguém já disse certa vez que poesia é tudo aquilo que a pessoa queira chamar de poesia. Cabe-nos, apenas, registrar o gesto dessa jovem que decidiu usar as palavras para ganhar a sua sobrevivência, vendendo-as nos semáforos. Através dos seus escritos percebe-se que conseguiu sair da selva e criar o seu jardim, onde colhe flores. Que bom!

Outras poesias foram lidas, ainda, na quarta-feira, desta vez trazidas pela nossa viageira Adelaide Câmara. Ela nos presenteou com Daniel Lima, grande poeta que partiu para as estrelas há pouco tempo, após uma longa vida de lutas e poesias.danile_lima2

Ao nasceres, tinhas o prefigurado rosto
Que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
No tempo singular de tua vida.

Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste

E mais estas sobre a condição humana:

Há misérias nos homens
Os anjos cantam nas nuvens.

Era Sexta-feira Santa
Cristo morria.
Judas se enforcava.
E eu tomava sorvete.

Sobre os seus poemas após a sua morte:

Eu sou a metáfora de mim.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.

Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.

E mais esta, uma das minhas preferidas, talvez por remeter a outros viageiros que navegam em incertos mares, os mares das palavras::

Minha mãe era feita de incertezas.
tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viageiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
Vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus solhos,
nas mãos, nos gestos
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.

E eu perguntava coisas
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.

Minha mãe era feita de incertezas
mas, por certo, sabia o que queria.

 

danile_lima6Daniel Lima, mais conhecido como Padre Daniel,  embora não fosse mais padre há muito tempo, era pernambucano, de Timbaúba. Inconformado com as injustiças sociais, com o sofrimento do homem do campo, fez parte da ala progressista da Igreja e também atuou nas Ligas Camponesas.Era um grande orador, encantava os seus alunos com a sua retórica e o seu carisma, tornando-se um nome sempre citado nas rodas acadêmicas e literárias de Pernambuco..

Estava no hospital, aos 95 anos de idade, ainda lúcido e solar quando soube que recebera o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional, pelo seu primeiro livro de poesia Poemas publicado pela CEPE, e que havia sido escolhido por unanimidade, superando  grandes poetas como Ferreira Gullar e Affonso Romano de Sant’ Anna. No inicio, ele pensou que se tratava de uma brincadeira, custou a acreditar. Não é uma brincadeira, perguntava.

Daniel Lima disse certa vez :

 “Fico arrasado pela beleza que consegui apanhar na palavra que é tão pobre. O que escrevi me comove profundamente. O que eu escrevi passou de mim, transbordou-se do meu pensamento e da minha forma de configurar os objetos. Eu mesmo adoeço quando escrevo muita poesia.”

                                        Jaboatão dos Guararapes, 12 de setembro de 2015

Lourdes Rodrigues

 

 

Poesia às Quartas-Feiras

Ontem, descobrimos que não ficara uma pessoa responsável pela poesia, mas não houve problema, as memórias de Teresinha Ponce de León e de Eleta Ladoski salvaram a  situação. Elas nos trouxeram Camões com o seu Soneto Sete Anos de pastor Jacob servia, uma complementando o que a outra esquecia, num dueto muito agradável.

sonetodecamoes

E com o poema veio a história de Jacó, Raquel e Lia, contadas aos pedaços pelas lembranças de cada uma das pessoas ali presentes que haviam lido essa passagem da Bíblia que está em Gênesis, capítulos 28,29 e 30.

Isaac ordenou que seu filho Jacó fosse à Padã-Aram, à casa de Batuel, seu avô materno, e lá escolhesse uma mulher, entre as filhas de Labão, seu tio. Isaac considerava as mulheres cananeias muito mal vistas, indignas de seu filho muito amado.

el-encuentro-de-jacob-y-raquel-william-dyceChegando a Harã, ele parou junto a um poço onde muitas ovelhas e pastores esperavam outros pastores para, então, levantarem uma pedra e os animais, finalmente, saciarem a sua sede. Ele começou a conversar e a perguntar por Labão, seu tio, quando eles mostraram uma moça pastora, chamada Raquel, que estava chegando, filha de Labão. Jacó então tirou a pedra que tapava o poço e deu água para o rebanho do seu tio. Ele apresentou-se como sobrinho do seu pai e beijou-a. Labão correu ao encontro do rapaz e lhe cobriu de beijos, levando-o para casa.

Disposto a trabalhar para Labão, negociou salário da seguinte forma: 7 anos de trabalho pela mão da sua filha Raquel, em casamento. O velho concordou dizendo: É melhor dá-la a você do que a outro qualquer. Jacó serviu sete anos por Raquel, e estava tão apaixonado que mal cumpriu o período cobrou: me dê minha mulher, para que eu viva com ela, Labão fez um banquete, à noite, pegou sua filha Lia, e a levou para Jacó que, no escuro, não percebeu quem era. De quebra, ele deu Zelfa, como serva de Lia. No dia seguinte, Jacó descobriu que era Lia e ficou irado, foi cobrar do sogro o acordo feito e acusá-lo de tê-lo enganado. O sogro justificou que era tradição da região casar a mais velha primeiro. E mais, Termine esta semana de núpcias, e eu lhe darei também a outra em troca do serviço que você me fará durante outros sete anos.

Jacó aceitou. Terminou a semana de núpcias com Lia, e recebeu Raquel como mulher, que levou  Bala, como serva. E mais sete anos de trabalho ele dedicou ao tio Labão.  Apaixonado por Raquel, Lia foi desprezada, mantida à distância.  Javé para compensá-la tornou-a fértil, pariu Rúben, Simeão, Levi e Javé, enquanto Raquel não conseguia engravidar. Desesperada ela disse para Jacó: Ou você me dá filhos ou eu morro”. Colocado em xeque, ele atacou possesso: Por acaso eu sou Deus para lhe negar a maternidade? Raquel então lhe deu a serva Bala e disse: Una-se a ela, para que ela dê à luz sobre os meus joelhos. Bala pariu Dã e Neftali. Lia enfurecida pela sua perda no diferencial fertilidade e suspeitando que não teria mais filhos, usou também a barriga “de aluguel”, da sua serva Zelfa para gerar Gad e Aser.

Diz no Gênesis que Rúben colheu algumas mandrágoras para a sua mãe e que Raquel pediu a Lia que lhe desse algumas, ao que Lia respondeu: Você acha pouco ter tirado o meu marido?Agora quer também as mandrágoras do meu filho?  Raquel enlouquecida pelas mandrágoras, disse: Pois bem! Que ele durma esta noite com você, em troca das mandrágoras do seu filho.  As mandrágoras, frutos  amarelos, carnosos, aromáticos eram chamados de “as maçãs do diabo” , pelos árabes, dizem que pelos supostos efeitos afrodisíacos. Lia não se fez de rogada e correu para os braços de Jacó contando do acerto feito com Raquel. E então Lia gerou o quinto filho de Jacó, Issacar. E depois daí continuou dormindo com Jacó porque nasceu-lhe o sexto filho, Zabulon e em seguida, uma filha, Dina.  Lia, cheia de orgulho, disse, com tantos filhos agora eu dominarei meu marido. Enciumada, desesperada, Raquel não sabia o que fazer com aquela desvantagem. Então Deus a ajudou e ela tornou-se fértil e  deu à luz, um filho, a quem ela chamou de José. Raquel pediu mais a Javé, mais um, pelo menos. Mas parece que não foi atendida.

Certamente voltaremos com outros Sonetos de Camões posteriormente.

                     Jaboatão dos Guararapes, 03 de setembro de 2015

                                               Lourdes Rodrigues

Poesia às Quartas-Feiras

Leminski

 

Pergunte ao pó

Paulo Lemiinsky


Cresce a vida
Cresce o tempo
Cresce tudo
E vira sempre
Esse momento

Cresce o ponto
Bem no meio
Do amor seu centro
Assim como
O que a gente sente
E não diz
Cresce dentro

O atraso pontual

Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relógio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser no tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bençãos e desgraças
Vêm sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
Entre o tempo e o espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que faço?

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Não sou o silêncio
que quer dizer palavras
ou bater palmas
pras performances do acaso

Sou um rio de palavras
peço um minuto de silêncios
pausas valsas calmas penadas
e um pouco de esquecimento

Apenas um e eu posso deixar o espaço
e estrelar este teatro
que se chama tempo.

A nossa querida navegante, Adelaide Câmara,  trouxe-nos duas poesias de Paulo Leminski, retiradas do seu livro Toda Poesia. Poeta curitibano que fez parte dos grandes movimentos literários no Brasil, ao lado de outros nomes como Haroldo Campos, Augusto Campos. Além de poeta, tradutor, ensaísta, músico e letrista de várias músicas gravadas por cantores da MPB, assim como Caetano Veloso. A obra do poeta é imensa, em poesia, prosa, ensaios e biografias, traduções, letra e música, parcerias nas letras de dezenas de músicas. Embora tenha participado de todos os movimentos culturais das décadas de  70 e 80, mais do que um poeta de vanguarda ele era visto como um intelectual da contracultura por suas publicações sempre em revistas alternativas. Falava seis idiomas, inglês, francês, espanhol, latim, grego e japonês. O título de um dos poemas ora apresentados é o mesmo de uma das traduções que ele fez, Pergunte ao Pó,  de John Fante, escritor norte-americano que tornou-se famoso com esse livro.

Paulo Leminski morreu ainda jovem devido a uma cirrose hepática..

Adelaide leu ainda dois poemas de Ferreira Gullar, poemas curtos, bem interessantes que depois serão publicados neste blog, quando o poeta for o escolhido para a quarta-feira..