Paul Verlaine, poeta decadente ou o Príncipe dos Poetas?

Eleta Ladoski levou para a Oficina um poeta de primeira linha, Paul Verlaine. Levou-nos a tradução de Manoel Bandeira, do qual ela discordava de algumas palavras como por exemplo, a tradução de langor por consolação. Alguns colegas consideraram que langor era pouco usual na nossa língua e dificilmente ele encontraria melhor rima para coração. Na mesma ocasião, João conseguiu um áudio da leitura do poema em Francês que não reproduzimos aqui, porque encontramos vídeos com imagem e voz bem interessantes. As traduções de Manoel Bandeira são consideradas muito ricas tanto pelo respeito ao texto original como pela qualidade poética.

manuel-bandeiraChora em meu coração

Paul Verlaine (tradução de Manoel Bandeira)

Chora em meu coração

 Como chove lá fora.

 Que desconsolação

   Me aperta o coração!

xxx

 Oh a chuva no telhado

 Batendo em doce ruído!

Para as horas de enfado,

 Oh a chuva no telhado!

xxx

Chora em ti sem razão,

 Coração sem coragem.

 Se não houve traição,

Teu luto é sem razão.

.

Certo, é essa a pior dor:

 O não saber por que

  Sem ódio e sem amor

 Há em mim tamanha dor

No original 

Il pleure dans mon Coeur

Paul Verlaine

Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville ;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur ?

Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits !
Pour un coeur qui s’ennuie,
Ô le chant de la pluie !

Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s’écoeure.
Quoi ! nulle trahison ?…
Ce deuil est sans raison.

C’est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine !

 

Encontrei na tese de DOUTORADO de Aglaé Maria Araújo  Fernandes (INTERINSTITUCIONAL UFSC / UFPB / UFCG) sobre os  POEMAS TRADUZIDOS DO FRANCÊS AO PORTUGUÊS POR MANUEL BANDEIRA, a seguinte análise sobre Il pleure dans mon Coeur que registro nesse blog:

O poema de Bandeira se estrutura em quatro quadras hexassílabas, com o esquema de rimas abaa, onde a última palavra do primeiro verso se repete no final do quarto verso. O poema se serve da evocação da chuva para investigar o estado de espírito melancólico do sujeito poético. Os elementos chuva e choro são colocados em paralelo e remetem à tristeza. As duas primeiras quadras, à maneira de um ubi sunt, investigam a melancolia sem razão aparente que experimenta o sujeito poético. A terceira quadra esclarece que não há razão para a dor, enquanto a quarta quadra conclui ser justamente a ausência de causa que torna a tristeza mais doída. O original apresenta a estrutura adotada pelo tradutor.

 

Paul Marie Auguste Verlaine (1844-1896), nasceu em Metz, mas viveu quase sempre em Paris, desde os estudos secundários. Funcionário da Prefeitura, vivia mais na boemia do que trabalhando. Sua primeira aparição no mundo literário foi com Poemas Saturninos, 1866. Embora Parnasiano no início, o seu instinto poético exigia-lhe dar maior agilidade ao alexandrino e utilizar os ritmos ímpares, sugerindo vagos estados por estrofes vaporosas. Marcou a poesia francesa com o seu lirismo musical e evanescente, exercendo forte influência no desenvolvimento do simbolismo. Com Mallarmé e Baudelaire formou o grupo dos chamados poetas decadentes.
Espírito inquieto, ao se casar com Mathild Meauté pareceu ter adquirido certa paz e estabilidade, pelo menos, nos dois primeiros anos. Depois disso, abandonou a esposa e o filho e voltou à  vida boêmia, iniciando forte e turbulento romance com Arthur Rimbaud com quem percorreu vários países europeus.

A relação acabou de forma violenta, com Paul Verlaine atirando em Rimbaud várias vezes, inconformado porque este o queria abandonar. Passou dois anos preso, a esposa pediu o divórcio, o que o abalou profundamente, fazendo-o voltar-se para a Religião. Dessa fase vieram os seus livros Romances sans paroles? (1874; Romances sem palavras) e Sagesse? (1880; Sabedoria). Já em liberdade, tenta a reconciliação em vão com Rimbaud. Morou no Reino Unido até 1877, quando então volta à França. Os seus escritos poéticos revelam a influência de Rimbaud na escolha dos tema e dos ritmos. Embora bastante referido no meio intelectual, considerado verdadeiro mestre pelos jovens simbolistas que o consagraram com o título de O Príncipe dos Poetas, a sua degradação física e emocional pelas várias tentativas de reconciliação com a esposa e com Rimbaud, fizeram-no mergulhar cada vez mais no álcool, na boemia.
Paul Verlaine viveu miseravelmente de hospital em hospital e de café em café até à sua morte em 1896, em Paris.

300px-Paul_VerlaineSuas obras:

Poesias

Poèmes saturniens (1866)
Les Amies (1867)
Fêtes galantes (1869)
La Bonne chanson (1870)
Romances sans paroles (1874)
Art Poétique (1874)
Sagesse (1880)
Jadis et naguère (1884)
Amour (1888)
Parallèlement (1889)
Dédicaces (1890)
Femmes (1890)
Hombres (1891)
Bonheur (1891)
Chansons pour elle (1891)
Liturgies intimes (1892)
Élégies (1893)
Odes en son honneur (1893)
Dans les limbes (1894)
Épigrammes (1894)
Chair (1896)
Invectives (1896)
Biblio-sonnets (1913)
Œuvres oubliées (1926-1929)
Cellulairement

Prosa

Les Poètes maudits (1884)
Louise Leclercq (1886)
Les Mémoires d’un veuf (1886)
Mes hôpitaux (1891)
Mes prisons (1893)
Quinze jours en Hollande (1893)
Vingt-sept biographies de poètes et littérateurs (em Les Hommes d’aujourd’hui)
Confessions (1895)

Votos Partidos (Broken wows or Donal Og)

Na última quarta-feira, Anita Dubeaux nos trouxe um belíssimo poema Gaélico, anônimo, da Irlanda, do século VIII, traduzido para o Inglês por Lady Gregory, irlandesa. Ele recebeu o título em Inglês de Broken Wows, mais também é conhecido pelo seu título original Donal Og.

Ela o ouviu pela primeira vez no filme de John Huston, Os Vivos e Os Mortos, 1987, baseado no conto de James Joyce, Os Mortos. Durante muito tempo ela procurou o poema e somente muitos anos depois conseguiu, enfim, achá-lo, na tradução de Lady Gregory (a mesma utilizada no filme, de forma incompleta). Este foi o último filme de John Huston que ele já o fez amparado pelos assistentes, com uma máscara de oxigênio ao lado, pronta para ser utilizada, tão grave era o seu estado. O cineasta morreu antes do seu lançamento em Cannes, pouco depois de concluído. Em entrevista, ele havia dito que James Joyce havia sido o escritor que ele mais “sentira” na vida. Com o filme ele presta sua homenagem ao escritor.

A tradutora do poema, Lady Gregory, também, irlandesa, manteve a estrura gramatical do poema original, porém, com o que os críticos chamam de lírica econômica: reduziu o poema de 14 estrofes para 9. O poema em Inglês ganhou ainda mais força e beleza. A contribuição de Lady Gregory para o renascimento literário irlandês foi considerado inestimável tanto pela tradução das lendas, contos populares e baladas do gaélico original, como, e principalmente, pela forma como o fez tornando a língua disponível para qualquer pessoa não irlandêsa. Com Yeats e outros ela fundou o Teatro Literário Irlandês e o Teatro Abbey e escreveu inúmeras peças de teatro.Lady-Augusta-Gregory-001

Anita nos trouxe a tradução de Lady Gregory, a tradução para o Português, e o link para assistirmos o trecho do filme em que ele é recitado pelo personagem Sr. Grace. Foram momentos encantadores vividos na última quarta-feira que trouxemos para compartilhar nesse blog.

Broken Wows

It is late last night the dog was speaking of you;
the snipe was speaking of you in her deep marsh.
It is you are the lonely bird through the woods;
and that you may be without a mate until you find me.

You promised me, and you said a lie to me,
that you would be before me where the sheep are flocked;
I gave a whistle and three hundred cries to you,
and I found nothing there but a bleating lamb.

You promised me a thing that was hard for you,
a ship of gold under a silver mast;
twelve towns with a market in all of them,
and a fine white court by the side of the sea.

You promised me a thing that is not possible,
that you would give me gloves of the skin of a fish;
that you would give me shoes of the skin of a bird;
and a suit of the dearest silk in Ireland.

When I go by myself to the Well of Loneliness,
I sit down and I go through my trouble;
when I see the world and do not see my boy,
he that has an amber shade in his hair.

It was on that Sunday I gave my love to you;
the Sunday that is last before Easter Sunday
and myself on my knees reading the Passion;
and my two eyes giving love to you for ever.

My mother has said to me not to be talking with you today,
or tomorrow, or on the Sunday;
it was a bad time she took for telling me that;
it was shutting the door after the house was robbed.

My heart is as black as the blackness of the sloe,
or as the black coal that is on the smith’s forge;
or as the sole of a shoe left in white halls;
it was you put that darkness over my life.

You have taken the east from me, you have taken the west from me;
you have taken what is before me and what is behind me;
you have taken the moon, you have taken the sun from me;
and my fear is great that you have taken God from me!

Votos Partidos*

Era  tarde a noite passada.
O cão falava de você.
O pássaro cantava no pântano.
Falava de você.
Você é o pássaro solitário das florestas.

Que você fique sem companhia,
Até achar-me.
Você prometeu e me traiu.
Disse que estaria junto a mim
Quando os carneiros fossem arrebanhados.

Eu assobiei e gritei cem vezes.
E não achei nada lá,
A não ser uma ovelha balindo.
Você prometeu uma coisa difícil.

Um navio de ouro sob um mastro prateado.
Doze cidades e um mercado alegre em todas elas.
E uma branca e bela praça à beira-mar.
Você prometeu algo impossível.

Que me daria luvas de pele de peixe.
E sapatos de asas de ave.
E roupa da melhor seda da Irlanda.
Minha mãe disse para eu não falar com você.
Nem hoje, nem amanhã. Nem Domingo.

Foi um mau momento para dizer-me isso.
Como trancar a porta após ter a casa arrombada.
Você tirou o leste de mim.
Tirou o oeste de mim.
Tirou o que existe à minha frente.
Tirou o que há atrás.
Tirou a lua.
Tirou o sol de mim,
E meu medo é grande.
Você tirou Deus de mim.

Cena do filme Os Vivos e os Mortos, John Huston:

Marido

imagesMARIDO faz parte de uma coletânea de contos que recebeu o título Marido e outros contos, da autora portuguesa Lídia Jorge, nascida em Algarve. O livro foi editado pelas Publicações Dom Quixote, em 1997. No Brasil foi lançado em Ouro Preto, no Fórum das Letras, em outubro de 2014, com o título de Antologia de Contos.
Lídia Jorge é considerada uma das grandes vozes da Literatura Portuguesa Contemporânea. Desde 1980, quando publicou o seu primeiro livro, O Dia dos Prodígios, pelas mãos do escritor Vergílio Ferreira, tornou-se importante acontecimento no meio literário, lançando até o momento, mais de vinte obras. Está no prefácio da primeira edição de O Vale da Paixão:

O seu primeiro romance, O Dia dos Prodígios(1980), foi um importante acontecimento literário, iniciando uma nova fase, de grande qualidade, na literatura portuguesa recente. O Cais das merendas(1982) e Notícia da Cidade Silvestre(1984) foram ambos distinguidos com o Prémio Literário do Município de Lisboa, seguindo-se A Costa dos Murmúrios(1988), A Última Dona(1992), O Jardim sem Limites(1995) – distinguido com o Prémio Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa, A Maçon (Teatro, 1996) e Marido e Outros Contos(Contos, 1997). As obras de Lídia Jorge encontram-se traduzidas em diversas línguas. (JORGE, 1998)

O Vale da Paixão, publicado em 1998, recebeu os prêmios Dom Dinis, Bordalo, Ficção do Pen Clube, Máxima de Literatura e o Jean Monet de Literatura Europeia – Escritor Europeu do Ano. O meu primeiro contato com a literatura de Lídia Jorge foi através desse livro, que eu comprei em Lisboa, que me deixou tão impressionada, que repassei para a Oficina o meu sentimento e os viageiros começaram a entrar em campo e a descobrir outras obras da autora na internet. Frutos dessas pesquisas surgiram Marido e outros Contos e Combateremos as sombras, este último premiado com o Charles Bisset, da Associação Psiquiátrica Francesa.

A leitura de Marido foi tão impactante na Oficina que ao encerrá-la, nos primeiros segundos, todos ficaram mudos, o silêncio era total. Depois de quebrado por mim, todos queriam falar ao mesmo tempo, cada um com a sua própria leitura do conto, querendo ser ouvido. A duras penas conseguimos acalmar as excitações e ouvir algumas opiniões. O tempo da Oficina foi esgotado, mas a discussão ainda continuou por bom tempo.

Esta resenha é uma tentativa de colocar a minha leitura particular do conto. Gostaria que os outros viageiros também o fizessem, para que as variadas interpretações ficassem registradas. É muito rica a leitura coletiva, são várias visões de mundo que se interconectam em acordos e desacordos.

· Marido

O conto começa com a primeira frase da Salve Rainha, em Latim, acrescida no seu final da palavra vem, rezada pela personagem principal, a porteira, assim referida o tempo todo pelo narrador. O leitor só saberá do seu nome quando, em flashback, o narrador trouxer lembranças do marido chegando em casa, embriagado, aos brados, chamando-a: Lúcia! Ó Lúcia!

O parágrafo é uma oração, através da qual a porteira, em desespero, clama pela vinda de Regina, daí o acréscimo da palavra vem à Salve Rainha, para abafar a vida, a roupa, a sala, o fogão, a espera com teu doce bafo. Mais do que esse abafo, ela pede amparo para a vela, o fósforo, para concentrar, proteger da aragem a chama da vela até a chegada dele. Há uma angústia imensa nessa espera que ela não pode suportar sozinha, sem Regina. Daí o seu desespero pela presença da Rainha Mãe. Outra preocupação da porteira, que no final das contas é a mesma, porque ela usa o verbo abafar e a repetição tem uma função específica na frase, de confirmar, reforçar o que já fora dito antes, é com o silêncio. Ela pede a Regina por silêncio, que abafe o som, proteja-o da ira dos inquilinos até ele tocar. Lá no final vamos entender o porquê da preocupação em abafar o som apenas até a chegada do marido.

Mas ela teme que o marido veja Regina, então, pede-lhe para se esconder, ficar de cócoras, e intercalando palavras da Salve Rainha em Latim, suplica a Regina para que não me deslargues, não desesperes, não desconfines. Ansiosa, questiona, Por que esperas. Abre as asas e protege já, protege de seguida, protege contínuo, sem intervalo, sem desfalecimento. E novamente intercala palavras em Latim, encerrando o parágrafo com o final da Ave Maria, em Português, agora e na hora da nossa morte, Amén. Fecho em Latim.

Neste primeiro parágrafo, o personagem, num fluxo de consciência, revela grande angústia nas suas orações, advindas da espera do marido que voltará para casa embriagado. Segundo Robert Humphrey, em O Fluxo de Consciência, esse recurso literário é usado quando se quer dar ênfase aos níveis de consciência que antecedem a fala, para revelar antes de tudo, o estado psíquico do personagem. A narrativa é entrecortada de pedaços de orações em Latim e Português com súplicas e pedidos de socorro, na primeira pessoa, isso fica bem evidente, principalmente, quando ela diz minha Regina, para que não me deslargues, não desesperes, não me desconfines. Assim, trata-se de um narrador autodiegético, que conhece bem os fatos que lhe estão perturbando, porque é de si que ele está falando, do seu medo que vai se avolumando com aquela espera. É um personagem aterrorizado diante da proximidade da chegada do marido embriagado, que apela à proteção da Mãe Rainha e que teme que Regina não a ampare.

No segundo parágrafo entra um narrador onisciente que parece saber do íntimo do personagem e fala dele na terceira pessoa. Com tais características, a rigor, pode-se dizer que ele não é personagem, tratando-se de um narrador heterodiegético. Entretanto, embora onisciente e falando na terceira pessoa, ele não é um narrador neutro, segundo a tipologia de Norman Friedman. Para tanto, ele precisava não emitir qualquer instrução ou comentário ou opinião sobre o comportamento dos personagens. Aqui, ele parece ser um narrador intruso, porque aqui e acolá, se mete na história, opina, ajuíza, advoga, toma partido. Tenta interferir junto à Rainha pedindo que Ela proteja a porteira, não só a ela, mas ao marido, também. E como conhecedor de tudo que acontece na vida deles, dirige a sua câmara para o marido, mudando de foco narrativo e traz para o narratário (possivelmente, Regina, aliás, Regina parece ser o narratário de ambos, porque é o da porteira, também) a sua rotina entediante, pedindo proteção para ele, por entender que está em perigo com o tipo de trabalho que realiza: Claro que está em perigo (por que claro, quem o estava questionando?Regina?) E opina: ele faz bem em não continuar depois das cinco, por causa do perigo. E diz o que ele deveria fazer: vir para casa, trabalhar na gaiola dos pombos (aqui se percebe a intertextualidade com A Praça do Diamante, de Mercè Rodoreda, imediatamente, a nossa viageira Adelaide lembrou) e fala dos perigos que ele corre não vindo para casa, passando em sítios que a porteira nem nomeia. Ora, mas ele não é onisciente? Ele só sabe o que a porteira diz? Ela não nomeia, mas ele deveria saber. O narrador, apenas, insiste em falar dos perigos da passagem por aqueles sítios e da rigidez corporal que o vinho erecto provoca no marido da porteira.

Na segunda página, num longo parágrafo, a mediação entre narrador e personagem fica tênue quando é trazida a cena do marido chegando embriagado, desde o momento que ele toca (porteiro eletrônico?) lá embaixo no prédio, abre o elevador com dificuldade e por aÍ vai. Nesse trecho, ele assume o papel de anjo da guarda de Lúcia e implora: Rex e Regina, venham e salvem a porteira, salvem-na da madrugada, salvem-na acocorada no trono do pombal, com a cabeça sob os panos, no alto do seu mundo… Mais adiante, ele se distancia e retoma a sua postura de narrador, trazendo o final dessa cena que é apenas uma rememoração (em termos de tempo narrativo).

Daí em diante, o narrador usa o olhar da porteira, o seu ponto de vista para trazer a sua condição social naquele prédio. Aqui o privado e o público são vistos sob o olhar dela. Todos os personagens são apresentados pelas suas funções, o advogado, representante da lei, o médico, da saúde, a assistente social dos direitos da mulher como ser completo. Todos combinados contra ela, mais precisamente, contra o seu homem, assim pensa a porteira, porque pretendem afastá-la dele, oferecendo os seus préstimos para tanto. Aqui, a voz de cada um deles representa um ponto de vista, numa polifonia de vozes que ameaçam a porteira. E tão alterada se sente ao relembrar essa pressão, o tapete de negrume e de solidão que eles lhe estendem, que recomeça a orar em Latim e a falar do sacramento do casamento e de como a vida seria triste sem marido.

Outra vez, num sugestivo discurso indireto livre, não há marcas que indiquem a separação da fala do narrador da fala do personagem, Lúcia passa a falar das suas dependências daquele marido, que iria perder muitas coisas só por causa de quinze minutos de sobressalto!

A ironia do narrador está presente em algumas partes do conto, quando ao elencar as sujeições da porteira ao marido às pequenas e inexpressivas coisas, apontadas por ela mesma através de pensamentos, ele complementa Que papel imprescindível, que pessoa necessária na vida da porteira. Presente, ainda, a ironia, quando ela diz que …fora da bebida nunca tinha querido bater nem matar, como tantos há . Só por causa de quinze minutos de sobressalto dentro dos quais ela poderia apanhar ou até morrer? Bobagem. E o dinheiro que ficava sempre com ela, menos aquele que marido gastava na bebida, como ele não chegava a vir… ela não podia amealhar. Mais ironia quando diz que ele não ligava que ela se entregasse à devoção: Pouco se ralava que ela fosse ou viesse. Uma liberdade com ares de bastante indiferença.

A dolorosa rememoração da pressão dos moradores, após muito sofrimento e súplicas a Rex e Regina para abafar o medo, a angústia e solidão naquela varanda escura à espera de marido, leva Lúcia a tomar a decisão de enfrentar o marido, salvar seu casamento, vencer os vizinhos, proteger o seu homem, o sacramento que ainda é mais importante para ela. E conclui: Não a demoveram. Afinal, o que o marido queria não era incendiar-lhe o cabelo, mas apenas acender a vela. Tomada de coragem, como se de repente sentisse uma força sobre-humana vir de dentro dela, sem precisar do auxílio da própria Regina, decide não fugir e enfrentar a chegada do marido. Ela mesma estará junto da porta, e ele não precisará de chamar porque a verá antes de qualquer outro objecto da casa. Ele há de enxergá-la mal entre. Com jeito, ela há-de acalmá-lo, em silêncio…

Penso que essa decisão já estava tomada muito antes. No primeiro parágrafo, ela pede para Regina abafar todo som até ele chegar à porta dela, devido à sua preocupação com os condôminos, para que não ouvissem qualquer ruído quando ele chegasse, para que não tentassem separá-la dele, dali em diante, ela cuidaria. Para isso, ela estava disposta a descalçá-lo, ampará-lo na queda, calá-lo, embalá-lo, retê-lo junto de si com voz baixa, massajar-lhe as pernas, esfregar-lhe as mãos. Essa decisão deixara-a tão leve, tão em paz que ela nem sentiu o tempo passar. E então ele chega.

.A narrativa da chegada é dividida entre o narrador descrevendo a cena e a porteira chamando Marido? Marido? Marido? Essa repetição tem a força da confirmação do seu desejo. Sim, Marido, eternamente Marido, Amém. À medida que a tensão vai aumentando, tem-se a impressão de que o narrador já não mais media a cena, que ele desapareceu assustado com o que vai acontecer. Lúcia está sozinha, como sempre temeu estar, onde estão Rex e Regina, ela não mais pergunta, decidida a ir em frente com a sua decisão. Não parece temerosa quando diz Vejam como ele se vira, como o seu cabelo curto de homem lhe cai pela testa, como é bonito o lábio roxo do marido, sem som, só bafo. E ela continua a mostrar, quem sabe para os condôminos, os vizinhos do prédio que pretendem separá-la de seu homem: Vejam como ele procura o casaco… como procura nos bolsos… Como acende o isqueiro… E ela se propõe a ficar muda para que jamais alguém se atreva a insinuar uma vingança forçada, uma separação desventurosa, um desquite profano… Mesmo que ele lhe aproxime o isqueiro da cara e lho passe pelo cabelo. Ela se afastará do isqueiro.

A cena final é a apoteose do seu ato de coragem, na realidade, de sua entrega à fúria da última doce madrugada, segundo Maria Madalena Gonçalves que escreveu sobre A Arte de Escrever em Lídia Jorge:

A cena final deste conto é constituída pela projeção do que Lúcia imagina vir a acontecer no momento em que o marido entra em casa e a encontra imediatamente à porta. Esse momento é para ela o começo de uma nova vida, de uma ‘doce mudança’ (p. 21). É neste ponto da narrativa – quando o desejo se põe a funcionar como realidade – que a personagem sai da crise e resolve, ainda que ficticiamente, as suas contradições. Na verdade, a resolução é da pura ordem do fantasma, quer dizer, de um desejo que não é preenchido, justamente por, sendo da ordem do fantasma, o não poder ser. Efectivamente, Lúcia morre às mãos do marido e da vela acesa por este sem ter conseguido operar a mudança que imaginava. Não consegue porque morre, mas a sua morte – homicídio ou suicídio – pode ser lida como um desafio simbólico à mudança e, nesse sentido, não como um fim mas como a continuidade da vida, uma espécie de reverso dela, seu complemento e até seu apogeu. Nesta perspectiva é possível falar em mudança e, mesmo, em ‘doce mudança’ (‘doce’ porque é feita na continuidade) já que a morte às mãos do marido prova que não há separação entre o real (a total dependência e sujeição de Lúcia ao poder conjugal) e o que é da ordem dos desejos da personagem (manter a todo o custo a sua unidade identitária no seio da conjugalidade). Assim, numa perspectiva simbólica, a morte terá dado a Lúcia a ‘doce mudança’ por que tanto ansiava. (GONÇALVES, 2000, p. 124-125)

Em termos plásticos é uma cena bonita, pela leveza como é descrita, intercalada por trechos da Salve Rainha, e o seu rolar silencioso, como ela queria, como se estivesse em câmara lenta, de andar em andar até simbolicamente parar no quinto andar, o andar do advogado e ali crepitar, estalar, sem fazer barulho. Assim, Regina quer, o narrador diz. E as asas de Regina estão sobre ela no quinto andar. E transformado em personagem, o narrador implora a Regina:

Abre as asas, advocata, levanta vôo, leva a porteira, condu-la na maca, ergue-lhe a vista, Regina, separa-a definitivamente da cama, do balde e do fogão. Separa-a dos dez andares que o prédio tem, separa agora, et nunc, et sempre, et séculos, das janelas abertas, cheias das silhuetas dos inquilinos lilases e brancos pela fúria da última madrugada. Levem-na, Regina e Rex, com vossas quatro mãos, vossos quatro pés, deste lacrimarum Valle, eia ergo, ad nos converte. Levem-na sem ruído, sem sirene, sem apito, sem camisa, sem cabelo, sem pele, post hoc exilium, ostende.

Marido é um conto cuja leitura leva a muitas reflexões e interpretações. A preocupação nessa resenha foi tentar entender as figuras literárias do narrador e personagem que nem sempre estiveram claras.

Jaboatão dos Guararapes, 09 de agosto de 2016.
Lourdes Rodrigues

Cântico Negro

Ao iniciarmos as atividades da Oficina nesse segundo semestre, para o Momento Poético Adelaide Câmara nos trouxe Cântico Negro, de José Régio, que foi lido por ela. João Gratuliano tinha em seu computador o poema na voz de Maria Betânia e pudemos ouvir essa excelente recitação. No mesmo dia recebemos, ainda, dessa feita pelo what’s app um vídeo com o poema na voz de Paulo Gracindo. Estão todos aqui no blog.

*Cântico negro

José Régio

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
joseregioÉ um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista “Presença”, e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — “Poemas de Deus e do Diabo” (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

  • Retirado do site de Releituras.