Cajueiro

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*Salete Oliveira

o tempo não para,
sem pressa, sem demora, é preciso
gastar o tempo, precioso, eu preciso,
vejo-o passar, minutos, segundos,
colho os instantes, a observar,
germinar de uma castanha,
alegria serena ao olhar,
delicadeza envoltura,
em folhas se abrirá,
ainda não hoje,
amanhã,
o coração,
desabrocha
broto, amor,
acolhe a chuva,
ilumina-se ao sol,
raízes crescem sob o chão,
flores brancas rosadas, miúdas,
desprendem seu perfume ao vento,
surpresas de cachos, profusos frutos,
suculenta carne, castanha, cajueiro.

 

*Salete Oliveira é engenheira química, poetisa, contista.

Pomba Enamorada ou Uma História de Amor

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 Pomba Enamorada ou Uma História de Amor, de Lygia Fagundes Telles, na  Antologia:  Meus Contos Preferidos, Rio de Janeiro, Editora Rocco, 2004.

Trata-se de uma história de amor não correspondido, narrado na terceira pessoa, com alguns diálogos diretos inseridos dentro da narração, sem passagem ou pontuação específica. Observa-se, algumas vezes o diálogo indireto e até o indireto livre quando a passagem do narrador para o personagem se faz de forma quase imperceptível. O enredo está contido num único e longo parágrafo.

O título do conto nos remete a um folhetim, a uma história de amor dessas que enche os altos falantes das festas de rua do interior e as rádios da cidade com pedidos de música através de pseudônimos do tipo Pomba Enamorada, Coração Apaixonado.

Mas também o enredo lembra-nos um conto de fadas. Há um baile no Clube, onde será escolhida a rainha da Primavera. Ela, que ainda não é a pomba enamorada, apenas uma humilde ajudante de cabeleireira, candidatou-se ao título, que não consegue, segundo a sua própria versão, porque o namorado da outra comprou todos os votos. Quando o rapaz a convida para dançar teve tontura, enxugou depressa as mãos molhadas de suor no corpete do vestido (fingindo que alisava alguma prega) e de pernas bambas abriu-lhe os braços e o sorriso. É o seu príncipe! Assim, como nos contos de fada, ela imaginou que seriam felizes para sempre, pois estava decidida a amá-lo por toda vida. O príncipe não era lá muito polido, declarou a sua insatisfação por ela não ter ganhado o concurso porque a rainha é uma bela bosta, com o perdão da palavra.   As únicas palavras que trocaram e que lhe deram a certeza de que ele era seu namorado, ali em seus braços, ao som da Valsa dos Miosótis. Quando o príncipe se afasta dizendo que iria fumar, já dançando o bis da valsa, e  desaparece, ela fica a procurá-lo de forma tão insistente que o diretor do clube quis saber quem era o procurado, e ela não hesita ao dizer, meu namorado. O estranhamento do diretor fez com que, em segundos, desse-lhe o nome (Antenor) e perfil do rapaz (não esquenta o rabo em nenhum emprego…) e acrescentasse maldosamente, embora com ar de distraído enquanto a apertava com força ao som de Nosoutros: É que ele saiu logo depois da valsa, todo atracado com uma escurinha de frente única…

O repertório musical escolhido pela autora para essa festa faz a ambientação do romance, primeiro com o casal dançando a Valsa do Miosótis, depois, quando já o rapaz desaparece e o diretor entra em cena, com Nosoutros.  Pode-se imaginar a cena entre as décadas de sessenta e setenta, em um clube de bairro ou de uma cidade de interior. Mergulhado no tempo e espaço da narrativa o leitor corre os olhos sobre as letras para acompanhar o romance.

Com o endereço dado pelo diretor ela vai procurá-lo na oficina e percebendo que sequer a reconhecia, disse eu sou a princesa do São Paulo Chique, lembra? Lembrou-se, e balançando a cabeça com ar incrédulo, trata de despachá-la, dizendo que qualquer hora daria uma ligada, que guardaria o número do telefone que ela lhe dava, sem sequer se dar ao trabalho de anotá-lo. Não ligou. A personagem, como boa Capricorniana, sabe que jamais irá conseguir algo fácil, que deve lutar o dobro para vencer. E vai à luta. Recorre aos santos, acende velas, faz novenas e telefona, inicialmente, apenas para ouvir a voz e desligar, depois, animada pelo vermute que Rôni lhe dera, amigo e companheiro de trabalho no salão, decide falar. Ela outra vez se apresenta como a princesa do baile e convida-o para ver um filme nacional que estava passando, pertinho da oficina que ele trabalhava. A resposta foi o silêncio, tão longo que ela pensa ter caído a linha. Rôni a socorre com outro vermute e se oferece para falar por ela. A reação de Antenor é tão violenta que Rôni, revirando os olhos associa aquela voz a voz dos mafiosos do cinema. Não, ele não quer ir ao cinema, não quer que lhe telefonem mais, o patrão está puto da vida, e diz que está comprometido e se um dia lhe desse na telha, ELE MESMO TELEFONARIA. Assim, aos berros.

E foram muitas e muitas tentativas, catorze cartas, nove românticas e as demais eróticas, estas últimas ela acabou não enviando. Todas assinadas com o pseudônimo de Pomba Enamorada que ao longo do tempo resumiu para P.E. Antenor, insensível aos apelos da pombinha, foi num crescente caprichando na rejeição grosseira. Mas ela não desiste.

Quando soube por um chofer de praça muito bonzinho, amigo de Antenor, que ele estaria se casando naquele dia, justo quando acabara de levar pratinho de doces para São Cosme e São Damião, não chorou, foi ao crediário do Mappin, comprou um licoreiro, escreveu um cartão desejando-lhe todas as felicidades do mundo, pediu ao Gilvan que levasse o presente, escreveu no papel de seda do pacote um P.E. bem grande (tinha esquecido de assinar o cartão) e quando chegou em casa bebeu soda cáustica.

Ela sai do hospital amparada pelo chofer de praça, que se torna seu marido, pouco tempo depois. Mas não desliga o GPS continua acompanhando as passadas de Antenor e enviando postais dando conta da sua vida, da sua televisão à cores, seu canário e seu cachorrinho chamado Perereca. Apesar das constantes mudanças de emprego do rapaz ela o localiza e escreve colando um amor- perfeito seco na carta. E os anos foram se passando, e as cartas da Pomba Enamorada se sucedendo, até que, no noivado da sua filha caçula foi a uma cartomante que disse que ela fosse à estação rodoviária no próximo domingo, onde veria chegar um homem que mudaria por completo sua vida, cujo nome começava por A.

No domingo, ela deixa a neta com uma comadre, veste o vestido azul-turquesa das suas bodas de prata, confere que o horóscopo do dia lhe é favorável e  vai à rodoviária.

O final do conto está aberto. Se o leitor for muito positivista vai pensar que ela irá encontrar Antenor e ele mais uma vez vai rejeitá-la com grosseria. Caso o leitor seja romântico ao extremo, fará o seu final com Antenor e Pomba Enamorada caindo nos braços um do outro. Ou ainda, se ele for cético vai deixá-la horas aguardando na rodoviária em vão, porque ninguém pode dar crédito ao que diz uma cartomante. Enfim, brincamos um pouco na Oficina com os possíveis finais do conto e os viageiros ficaram de dar continuidade, escrevendo eles mesmos o que aconteceu nesse encontro, desencontro ou qualquer que seja, porque como escritores muito criativos, eles irão dar asas  à imaginação.

Lygia Fagundes Telles é uma das maiores escritora do Brasil. Transformar uma história comum de amor não correspondido numa obra literária de tamanha beleza é preciso muito maestria. Que venha o grande prêmio literário para ela!

Jaboatão dos Guararapes, 12 de setembro de 2016

Lourdes Rodrigues