A estética dos becos em Cora Coralina

A estética dos becos em Cora Coralina

                                                                                                      Anita Dubeux*

O momento poético desta viagem foi capitaneado por Luzia Ferrão que nos trouxe a poesia telúrica de Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins Guimarães Peixoto Bretas, nascida em 20 de agosto de 1889, na cidade de Goiás (época do Império) e  falecida em 10 de abril de 1985, aos 95, na cidade de Goiânia. Os dados de crítica literária tiveram como principal fonte de consulta o estudo denominado A estética dos becos em Cora Coralina ou Um modo diferente de contar velhas estórias, da autoria do doutor em sociologia e professor da Universidade Federal de Sergipe, Clóvis Carvalho Britto.

Cora Coralina

Os textos lidos trataram sobre a vida e a obra de Cora Coralina, notadamente situando sua poesia no contexto da cidade onde nasceu e viveu, Goiás, localizada no coração do Brasil. A partir de seu olhar sobre a cidade Cora Coralina dá vida ao que é comum e, ao mesmo tempo, diferencial. No dizer de Clovis Carvalho Britto, citado por Luzia, “em Cora, a estória não quer ser história. A estória, nela, é contra a história. Contra uma história e uma memória coletiva, uniformizadoras e agressoras. Goiás é um compartimento fechado por todos os lados. Em volta, o sertão. Dentro da cidade, ruas delimitando classes, orgulho de família, preconceitos sociais, rotina…”. E é nesse contexto que a poesia de Cora se torna local e universal. Com efeito, “os poemas dos becos se tornou uma fonte de mulher, sobre mulheres, nos permitindo compreender como Cora Coralina pensou a sociedade de seu tempo, perseguindo temáticas e estratégias utilizadas para enfrentar os silêncios. Nesses poemas Cora questiona paradigmas socioculturais que têm procurado justificar certas configurações constituídas em torno de relações de poder.”

Luzia ressalta que a poeta “desmantelaria o mito da casa como espaço da harmonia, sacralidade e paz, focalizando variadas violências de acordo com a posição da mulher no tecido familiar, por isso não há como negar a centralidade da mulher na reprodução das relações de poder: a violência não se restringe às figuras masculinas, também está presente nas relações entre senhora e escrava, mãe e filhos, filha mais velha e irmãos menores.

A Professora Solange Yokozawa, associada da Universidade Federal de Goiás, referenciada por Luzia, destaca que a poeta Cora Coralina “deixa entreaberta sua opção pela vida das mulheres obscuras, habitantes dos becos físicos e simbólicos, conclamando em cada estrofe muitas das personagens que comparecem em toda a obra: a cabocla velha, a lavadeira do Rio Vermelho, a cozinheira, a mulher do povo, a roceira, a mulher da vida.”

E ainda, o professor Gustavo Coelho destaca a função dos becos como uma referência simbólica, tendo em vista que “o beco se contrapunha ao largo. Enquanto os largos eram ligados pelas ruas principais, onde viviam as famílias da sociedade reconhecida, os becos eram construções para facilitar o acesso às ruas, geralmente surgindo na confluência dos quintais e funcionando como repositório de tudo o que a “boa sociedade” desejava evitar e, por isso, se tornou o lugar a partir do qual Cora Coralina desvendou a sociedade de seu tempo.”

Os becos de Goiás, com suas histórias de vida constitui a memória da cidade e foram imortalizados na poesia de Cora:

Becos da minha terra,

discriminados e humildes,

 lembrando passadas eras…

 Beco do Cisco.

 Beco do Cotovelo.

 Beco do Antônio Gomes.

 Beco das Taquaras.

 Beco do Seminário.

Bequinho da Escola.

 Beco do Ouro Fino.

 Beco da Cachoeira Grande.

 Beco do Calabrote.

Beco do Mingú.

Beco da Vila Rica…

Finalmente, Luzia destaca o lado culinário da poeta que se considerava “mais doceira do que escritora”, tendo escrito alguns poemas sob essa inspiração. Ainda que Coralina tenha se notabilizado na valorização metafórica de uma poética dos becos − a exemplo do poema “O palácio dos Arcos”, em que opta por narrar a trajetória de um índio carajá, ao invés de descrever a vida dos governadores de província que lá passaram − sua poesia incorpora personagens como Lampião, Tiradentes e os judeus errantes. Referencia também os boiadeiros, a guiar os animais pelo interior em “Evém boiada!”, “Trem de gado” e “Pouso de boiadas”, além de realizar uma celebração vegetal em “Oração do milho” e “Poema do milho”, demonstrando que, apesar de sua “origem obscura e ascendência pobre” e embora não pertença a “hierarquia tradicional do trigo”, exerce um importante papel na história da humanidade.

Luzia selecionou, para o momento poético, dois poemas que considerou simbólicos da obra da poeta e escritora goianense:

Poeminha Amoroso

Este é um poema de amor

 tão meigo, tão terno, tão teu…

É uma oferenda aos teus momentos

de luta e de brisa e de céu…

E eu,

quero te servir a poesia

numa concha azul do mar

ou numa cesta de flores do campo.

 Talvez tu possas entender o meu amor.

 Mas se isso não acontecer,

não importa.

Já está declarado e estampado

nas linhas e entrelinhas

 deste pequeno poema,

 o verso;

 o tão famoso e inesperado verso que

te deixará pasmo, surpreso, perplexo…

 eu te amo, perdoa-me, eu te amo…

 

Humildade

Senhor, fazei com que eu aceite

 minha pobreza  tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.

Não lamente o que podia ter

 e se perdeu por caminhos errados

e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade

seja como a chuva desejada

caindo mansa,

longa noite escura

numa terra sedenta

 e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,

minha cama estreita,

minhas coisinhas pobres,

minha casa de chão,

pedras e tábuas remontadas.

E ter sempre um feixe de lenha

debaixo do meu fogão de taipa,

 e acender, eu mesma,

 o fogo alegre da minha casa

na manhã de um novo dia que começa.

Selecionou, também, um poema em vídeo e que foi disponibilizado no endereço eletrônico dos viageiros, “Cora Coralina em desenho”, mas que não pode ser apresentado devido a uma falha no televisor. Agora está postado aqui.

Após o momento poético, Lourdes Rodrigues apresentou o rascunho do nosso livro Escrituras III, na Amazon.com, para que sugeríssemos as alterações  que se fizessem necessárias e enfim pudéssemos realizar a publicação definitiva.  Em seguida, Lourdes trouxe à discussão a continuidade ou não da leitura do livro Por Favor, Cuidem da Mamãe, da escritora Sul Coreana Kyung-sook Shin, que ela observou não estar despertando o entusiasmo de todos. Segundo o seu ponto de vista, a passagem do conto para a novela talvez tenha levado a esse estranhamento com o romance. As formas breves de escrita, em especial, o conto, empolgam muito porque há um texto com começo, meio e fim, concluído, numa assentada, como dizia Poe, instigando todos a participarem  com comentários, análises, resenhas. Além disso, o uso da segunda pessoa, às vezes fica um pouco desagradável para o leitor, um pouco cansativo, na verdade. E há que acrescentar, segundo ela, que o tempo de leitura do livro tornou-se muito curto porque o Momento Poético tem crescido substancialmente, ocupando, algumas vezes, quase 2/3 do tempo da oficina, o que leva o tempo para a leitura do romance ficar muito curto.  A sugestão apresentada na ocasião foi que todos fizessem uma resenha  até onde já foi lido, para facilitar o fechamento do primeiro capítulo na próxima oficina. Depois, então, será iniciada a leitura de O túnel, de Ernesto Sabato, pequeno romance no número de páginas, mas uma obra considerada pela crítica como excepcional.

Nesse momento, compartilhei a emoção de estar lendo um dos mais extraordinários romances que eu tive a oportunidade de conhecer, SOBRE HERÓIS E TUMBAS, também, de Ernesto Sabato.  Eu já havia lido O Túnel e penso que essa leitura foi importante ter sido feita anteriormente. Como se não bastasse ser um dos mais importantes escritores do Século XX, Ernesto Sabato exerceu um papel fundamental na defesa dos direitos humanos quando presidiu a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas – CONADEP, no período de 1983-1984, sendo principal responsável por levar a julgamento os militares da ditadura argentina. Na entrevista, que pode ser acessada no link a seguir, é possível conhecer um pouco do que pensa esse escritor e ser humano singular: https://youtu.be/H4A2wfaMZNo.

Na ocasião, li um breve texto para ilustrar a genialidade do escritor  Ernesto Sabato e aqui vai a transcrição (SOBRE HERÓIS E TUMBAS, Ernesto Sabato, Ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1980, págs. 121-123):

“− Nunca poderei te beijar, nunca poderei tocar teu corpo? – perguntou Martín quase com cômica e infantil amargura. Viu que ela punha as mãos sobre o rosto e o apertava como se lhe doessem as faces. Depois acendeu um cigarro e sem falar foi até a janela, onde ficou até termina-lo. Finalmente, voltou até a cama, sentou-se, o olhou longa e seriamente e começou a despir-se.Martín, quase aterrorizado, como quem assiste a um ato longamente desejado, mas que no momento de produzir-se compreende que também é obscuramente temível viu como seu corpo ia pouco a pouco emergindo da escuridão; já de pé, à luz da lua, contemplava sua cintura estreita, que podia ser abarcada por um só braço; suas largas cadeiras; seus peitos altos e triangulares, abertos para fora, trêmulos pelos movimentos de Alejandra; seu longo cabelo liso caindo agora sobre seus ombros. Seu rosto era sério, quase trágico, e parecia alimentado por uma seca desesperação, por uma tensa e quase elétrica desesperação. Coisa singular: os olhos de Martín se haviam enchido de lágrimas e sua pele estremecida como com febre. A via como uma ânfora antiga, alta, bela e tremente ânfora de carne; uma carne que sutilmente estava entremeada, para Martín, a uma ânsia de comunhão, pois como dizia Bruno, uma das trágicas precariedades do espírito, mas também uma de suas sutilezas mais profundas era sua impossibilidade de ser senão mediante a carne. O mundo exterior havia deixado de existir para Martín e agora o círculo mágico o isolava vertiginosamente daquela cidade terrível, de suas misérias e fealdades, dos milhões de homens e mulheres e crianças que falavam, sofriam, disputavam, odiavam, comiam. Pelos fantásticos poderes do amor, tudo aquilo ficava abolido, menos aquele corpo de Alejandra que esperava a seu lado, um corpo que algum dia morreria e se corromperia, mas que agora era imortal e incorruptível, como se o espírito que o habitava transmitisse a sua carne os atributos de sua eternidade. As batidas de seu coração demonstravam a ele, Martín, que estava ascendendo a uma altura antes nunca alcançada, um cimo onde o ar era puríssimo mas tenso, uma alta montanha talvez rodeada de atmosfera eletrizada, a alturas incomensuráveis sobre pântanos escuros e pestilentos em que antes havia ouvido chafurdar bestas deformadas e sujas.”

* Anita Dubeux é poeta e escritora.

 

 

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