A Flor Lilás e Outros Contos

Lourdes Rodrigues

Ricardo Braga, autor de A Flor Lilás  e Outros Contos, é biólogo, com mestrado e doutorado em Ecologia e Engenharia Hidráulica e Saneamento, mas sobretudo, escritor, bom escritor, tendo recebido, inclusive, muito merecidamente, o III Prêmio Conto CEPE Nacional de Literatura 2017 com esse livro.

Gabriel García Márquez  disse, certa vez, em uma entrevista, que considerava a arte de escrever contos mais difícil do que a de romances, porque o mais difícil para ele era começar e  num livro de contos são vários começos que ele teria de enfrentar.

Ricardo Braga não parece pensar assim. Se eu tivesse que eleger um dos contos desse livro, como o melhor deles, teria dificuldade.  São dez contos, dez histórias tecidas com muita maestria, onde personagens e espaços narrativos dialogam com muita beleza e propriedade.

O conto de abertura, Miudão, traz um personagem que vive numa pequena cidade do interior e  que igual a tantos outros meninos da idade dele gosta de falar muito e contar histórias.  Mas, Miúdo, assim chamado quando pequeno,  não se limitava a contar as histórias que ouvia, ele também as criava com uma convicção que lhes dava ares de verdade.  Essa capacidade de criar faz de Miúdo uma pessoa ouvida, porque ele tem algo a mais para dizer que extrapola os limites do fato acontecido, dando realce e poder às suas histórias. E cada vez mais pessoas o ouvem, levando-o ao rádio onde o seu alcance vai extrapolar as fronteiras de Mororó. Na intimidade dos lares, nos campos, nas ruas a sua voz era ouvida, seus conselhos eram escutados e Miudão, que já era um homem, ganha importância no  cotidiano daquelas pessoas. O desenrolar vai num crescente e culmina de forma poética e surpreendente, num misto de ingenuidade e de sabedoria  popular.

Também  Amaro, outro grande personagem que junto com a sua enxada e  pá carrega violenta crítica social,  dramática radiografia da miséria, do abandono, da solidão. Esse conto é um soco no estômago. A solidão de Amaro devido o abandono do pai, a desistência da vida pela mãe que não poupou sequer o filho que carregava no ventre, deixam-no tão só que nem podia chorar, porque o choro era uma forma de comunicação e ele já não teria com quem se comunicar. E ao cavar a sepultura da mãe e do recém-nascido no próprio quarto, é  como se ele preferisse a companhia dos mortos, a ficar sozinho. E segue a vida, tapando buraco na estrada com a sua enxada e pá, para os carros passarem, em troca de biscoito, de trocados, até um dia subir na boleia de um caminhão e partir dali para bater pernas no mundo, tornando-se caminhoneiro. Um dia Amaro volta aquela casa e encontra uma surpresa …

A construção dos personagens é magistral, assim como a atmosfera criada em torno desses personagens. Ora estão no corte da cana, dançando sob o som da zabumba, ou fugindo da polícia como Zé, em Palmares;  ou pisando em flores ao caminhar pela praia feito Antônio, flores que trazem lembranças de Maria, como em A Flor de Lilás; ou ainda, embriagado à porta de casa em busca da identidade perdida, como Gustavo, em Acorda, Gustavo; ou vivendo a angústia da demissão, às vésperas da aposentadoria, como André, Na Companhia das Sombras; ou impactado com a descoberta de não ser filho do seu pai, como em O Pai que não conheço.

Narrativas na terceira pessoa em que o narrador cede passagem, muitas vezes, ao personagem, dando mais intensidade ao relato. Personagens, em sua maioria,  homens, apenas dois personagens femininos  em Amores Perdidos, Eva, que ao perder Davi, por quem era apaixonada vive anos de luto e de rememorações, até que inicia viagem com destino a Manaus em busca do tempo perdido vivido ao lado do seu amado Davi; e, uma habilidosa cuidadora que devolve o gosto pela vida ao ancião que ela acompanha, em A Cuidadora .

Os contos vão criando um clima de ansiedade no leitor, fazendo-o acompanhar a trama passo a passo, até atingir o seu clímax, sempre, invariavelmente, surpreendente. Segundo o próprio Ricardo Braga:


Este livro teve uma peculiaridade, que talvez o próximo não tenha. Toda a escrita foi feita por associação de ideias e imagens, e o roteiro de cada história não foi definido antes, muito menos o seu final. Por isso os contos saíram de dentro de mim, como um vulcão sai da Terra, com calor e dor. Persegui os personagens para saber para onde iam e não tive a pretensão de orientá-los para um final feliz ou para o desastre. O magma do vulcão dilacera a floresta ou um povoado, mas a fertilidade da terra vulcânica refaz florestas e alimenta povoados inteiros.

Ricardo Braga é um escritor para ser lido, sempre, com muita atenção e grande prazer, pela qualidade literária dos seus contos, mesmo trazendo a dureza da vida.

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