A Morte de Madrugada Não Desvendada

A Morte de Madrugada não Desvendada

*Salete Oliveira

A nossa comandante Lourdes Rodrigues telefona à hora do almoço, fala com cada um de nós já no Traço, Everaldo Júnior, Luzia e eu. Levem o barco hoje à tarde, pede; dá-nos tarefas a cumprir: Júnior, assuma o comando, Salete faça o momento poético, Luzia leia seu conto; se sobrar tempo, adiantem a leitura de Por Favor, Cuide da Mamãe. Ficamos a comer a sobremesa, salada de frutas com leite condensado, a ouvir Sarmento que chega cedo, brindando-nos com suas canções, ainda no cais.

E então, começamos a nossa viagem.

O Momento Poético veio de uma forma singular, através de um meme sobre o fuzilamento de Federico García Lorca, por ocasião do aniversário de sua morte em 19 de agosto, o que provocou um paralelo entre a ditadura espanhola e o momento atual em nosso país; as discussões sobre a impossibilidade da foto ter sido realizada; as motivações e condições irreveladas de sua morte, da qual nunca se teve testemunhos. Everaldo Júnior trouxe além do meme, o poema de Vinícius de Moraes sobre a morte de Federico Garcia Lorca de tal forma tocante, que nos faz acreditar ter sido ele testemunha ocular da tragédia. Veio, também,  um Réquiem escrito por Vinícius. Assim veio Lorca para nós, já em sua hora derradeira. A leveza do almoço e sobremesa nos deu força para ler, ouvir, chorar com os testemunhos de Vinícius. Lourdinha nos prometeu trazer Lorca em toda sua pujança de paixão e vida em um próximo momento.

Federico García Lorca, nascido em Granada,  foi um dos maiores poetas espanhóis do século XX, além de um grande dramaturgo que levou para as suas peças a cultura do seu povo, fazendo um teatro itinerante, popular e de vanguarda, que permanecem até hoje como fonte de inspiração para outros escritores e criadores cênicos.

O meme que circula na Internet tem sido criticado pela sua inverdade. Federico Garcia Lorca foi arrastado de sua casa, morto de madrugada e enterrado numa vala comum, sem que jamais tenha sido encontrado o seu corpo. Questiona-se ainda a cena, como uma representação cinematográfica, cujo ator distancia-se muito de Lorca na aparência, no gestual.  De qualquer forma, é considerada válida para não ser esquecido esse terrível momento histórico em que o fascismo tomava conta da Espanha, ceifando milhões de vidas, entre elas a do grande poeta e dramaturgo Federico Lorca.

A família de Garcia Lorca não aprovou a busca do corpo para exumação, não se esclarecendo as circunstâncias de sua morte. A família concorda que fique junto de milhares de outros que foram mortos e enterrados em vala comum, considerada um lugar de reverência.

A morte de madrugada

Muerto cayó Federico.
Antonio Machado

Uma certa madrugada
Eu por um caminho andava
Não sei bem se estava bêbado
Ou se tinha a morte n’alma
Não sei também se o caminho
Me perdia ou encaminhava
Só sei que a sede queimava-me
A boca desidratada.
Era uma terra estrangeira
Que me recordava algo
Com sua argila cor de sangue
E seu ar desesperado.
Lembro que havia uma estrela
Morrendo no céu vazio
De uma outra coisa me lembro:
… Un horizonte de perros
Ladra muy lejos del río…

De repente reconheço:
Eram campos de Granada!
Estava em terras de Espanha
Em sua terra ensangüentada
Por que estranha providência
Não sei… não sabia nada…
Só sei da nuvem de pó
Caminhando sobre a estrada
E um duro passo de marcha
Que em meu sentido avançava.

Como uma mancha de sangue
Abria-se a madrugada
Enquanto a estrela morria
Numa tremura de lágrima
Sobre as colinas vermelhas
Os galhos também choravam
Aumentando a fria angústia
Que de mim transverberava.

Era um grupo de soldados
Que pela estrada marchava
Trazendo fuzis ao ombro
E impiedade na cara
Entre eles andava um moço
De face morena e cálida
Cabelos soltos ao vento
Camisa desabotoada.
Diante de um velho muro
O tenente gritou: Alto!
E à frente conduz o moço
De fisionomia pálida.
Sem ser visto me aproximo
Daquela cena macabra
Ao tempo em que o pelotão
Se dispunha horizontal.

Súbito um raio de sol
Ao moço ilumina a face
E eu à boca levo as mãos
Para evitar que gritasse.
Era ele, era Federico
O poeta meu muito amado
A um muro de pedra seca
Colado, como um fantasma.
Chamei-o: Garcia Lorca!
Mas já não ouvia nada
O horror da morte imatura
Sobre a expressão estampada…
Mas que me via, me via
Porque em seus olhos havia
Uma luz mal-disfarçada.
Com o peito de dor rompido
Me quedei, paralisado
Enquanto os soldados miram
A cabeça delicada.

Assim vi a Federico
Entre dois canos de arma
A fitar-me estranhamente
Como querendo falar-me.
Hoje sei que teve medo
Diante do inesperado
E foi maior seu martírio
Do que a tortura da carne.
Hoje sei que teve medo
Mas sei que não foi covarde
Pela curiosa maneira
Com que de longe me olhava
Como quem me diz: a morte
É sempre desagradável
Mas antes morrer ciente
Do que viver enganado.

Atiraram-lhe na cara
Os vendilhões de sua pátria
Nos seus olhos andaluzes
Em sua boca de palavras.
Muerto cayó Federico
Sobre a terra de Granada
La tierra del inocente
No la tierra del culpable.
Nos olhos que tinha abertos
Numa infinita mirada
Em meio a flores de sangue
A expressão se conservava
Como a segredar-me: – A morte
É simples, de madrugada…

 Vinicius de Moraes, em “Poemas esparsos”. [organização Eucanaã Ferraz]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

MORTE DE UM PÁSSARO
(Réquiem para Federico Garcia Lorca)

 

Ele estava pálido e suas mãos tremiam. Sim, ele estava com medo porque era tudo tão inesperado. Quis falar, e seus lábios frios mal puderam articular as palavras de pasmo que lhe causava a vista de todos aqueles homens preparados para matá-lo. Havia estrelas infantis a balbuciar preces matinais no céu deliqüescente. Seu olhar elevou-se até elas e ele, menos que nunca, compreendeu a razão de ser de tudo aquilo. Ele era um pássaro, nascera para cantar. Aquela madrugada que raiava para presenciar sua morte, não tinha sido ela sempre a sua grande amiga? Não ficara ela tantas vezes a escutar suas canções de silêncio? Por que o haviam arrancado a seu sono povoado de aves brancas e feito marchar em meio a outros homens de barba rude e olhar escuro?

Pensou em fugir, em correr doidamente para a aurora, em bater asas inexistentes até voar. Escaparia assim à fria sanha daqueles caçadores maus que o confundiam com o milhafre, ele cuja única missão era cantar a beleza das coisas naturais e o amor dos homens; ele, um pássaro inocente, em cuja voz havia ritmos de dança.

Mas permaneceu em sua atonia, sem acreditar bem que aquilo tudo estivesse acontecendo. Era, por certo, um mal-entendido. Dentro em pouco chegaria a ordem para soltá-lo, e aqueles mesmos homens que o miravam com ruim catadura chegariam até ele rindo risos francos e, de braços dados, iriam todos beber manzanilla numa tasca qualquer, e cantariam canções de cante-hondo até que a noite viesse recolher seus corpos bêbados em sua negra, maternal mantilha.

As ordens, no entanto, foram rápidas. O grupo foi levado, a coronhadas e empurrões, até a vala comum aberta, e os nodosos pescoços penderam no desalento final. Lábios partiram-se em adeuses, murmurando marias e consuelos. Só sua cabeça movia-se para todos os lados, num movimento de busca e negação, como a do pássaro frágil na mão do armadilheiro impiedoso. O sangue cantava-lhe aos ouvidos, o sangue que fora a seiva mais viva de sua poesia, o sangue que tinha visto e que não quisera ver, o sangue de sua Espanha louca e lúcida, o sangue das paixões desencadeadas, o sangue de Ignácio Sánchez Mejías, o sangue das bodas de sangre, o sangue dos homens que morrem para que nasça um mundo sem violência. Por um segundo passou-lhe a visão de seus amigos distantes. Alberti, Neruda, Manolo Ortiz, Bergamín, Delia, María Rosa – e a minha própria visão, a do poeta brasileiro que teria sido como um irmão seu e que dele viria a receber o legado de todos esses amigos exemplares, e que com ele teria passado noites a tocar guitarra, a se trocarem canções pungentes.

Sim, teve medo. E quem, em seu lugar, não o teria? Ele não nascera para morrer assim, para morrer antes de sua própria morte. Nascera para a vida e suas dádivas mais ardentes, num mundo de poesia e música, configurado na face da mulher, na face do amigo e na face do povo. Se tivesse tido tempo de correr pela campina, seu corpo de poeta-pássaro ter-se-ia certamente libertado das contingências físicas e alçado vôo para os espaços além; pois tal era sua ânsia de viver para poder cantar, cada vez mais longe e cada vez melhor, o amor, o grande amor que era nele sentimento de permanência e sensação de eternidade.

Mas foram apenas outros pássaros, seus irmãos, que voaram assustados dentro da luz da antemanhã, quando os tiros do pelotão de morte soaram no silêncio da madrugada.

– Vinicius de Moraes, em “Poemas esparsos”. [organização Eucanaã Ferraz]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Face of Garcia Lorca in the Form of a Fruit Dish with Three Figs, 1938 – by Salvador Daly

Esta imagem da tela de Salvador Dali, o poema e o réquiem de Vinicius de Moraes foram retirados de: http://www.revistaprosaversoearte.com/garcia-lorca-e-os-poetas-brasileiros/. Há outros poemas dedicados a Garcia Lorca por poetas brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Hilda Hilst, Manuel Bandeira:

Em seguida ao Momento Poético,  Luzia leu um conto surpreendente, Pobre Moça Rica, que nos conta a história de uma moça pobre que esconde sua falta de atrativos e riquezas atrás de uma máscara de amor incondicional e beatitude frente à vida e suas adversas condições, convivendo com grupo de pessoas, seu oposto de beleza e posses materiais. Com surpreendente e abrupto desfecho deixou o grupo atônito e cheio de perguntas, mas… se o próprio narrador assim também o estava, afinal a conhecia tão pouco, como responder às nossas perguntas de leitores ávidos para nos imiscuirmos na vida da Pobre Moça Rica. Júnior sugeriu que o relêssemos em casa voltando a ser relido em uma próxima ocasião na Oficina.

Continuamos a leitura do Livro “Por favor, cuide da mamãe”, na viagem da escritora sul coreana Kyung-sook Shin. Em sua forma detalhada e intimista, a narradora continua a nos surpreender com seus sentimentos, relacionamento com a família, a mãe em especial e os preparativos culinários que pormenoriza.

  • Salete Oliveira é engenheira química, poeta, contista, resenhista.

 

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