Autran Dourado, Uma Vida em Segredo

Certo dia, peguei por acaso um livro da estante que fazia parte de uma coleção do tipo Mestres da Literatura ou Os Melhores da Literatura, da Abril, eu penso, e comecei a ler. Até aquela data, 14 ou 15 anos atrás, jamais havia lido o autor: Autran Dourado. O livro, Uma Vida em Segredo. À medida que eu ia lendo, sensação de profunda admiração ia se formando e eu não conseguia mais largar aquela leitura suave, bela e simples, completamente capturada pelo livro. Biela me encantava. Pensei: só um grande mestre na arte de escrever poderia construir personagem tão surpreendente. Ela não era admirável por ser um personagem redondo, complexo, muito pelo contrário, era de tal singeleza  e ao mesmo tempo tão rica e bela que só um artesão com pleno domínio da escrita poderia conseguir criá-lo. E na mesma hora fiz paralelo com outros grandes personagens de características similares:Felicidade, de Gustave Flaubert em Um Coração Simples; e, Macabéa,  de Clarice Lispector, em A Hora da Estrela.

O conto de Flaubert fora uma encomenda de George Sand que havia sugerido ao autor escrever uma história de homem sensível, em que, sem pregar a bondade, sem anunciar a bondade com frases de autor, fizesse com que ela aparecesse nos gestos inconscientes da criatura mais humilde e obscura. Penso que Autran Dourado e Clarice Lispector tomaram para si a mesma sugestão e seguiram ao pé da letra o pedido de George Sand, e tanto quanto Flaubert, conseguiram escrever verdadeiras obras primas a partir da provocação.Segundo disse em algumas entrevistas, Uma Vida em Segredo era a obra preferida do autor.

A apresentação de Autran Dourado fora em grande estilo. Pouco tempo depois, na Oficina de Raimundo Carrero,  grande admirador do autor, voltei a ler Autran Dourado,  dessa feita Os Sinos da Agonia, outra escrita de mestre. Mais adiante,  trouxe-o para a Oficina de Clarice Lispector, primeiro, com o Conto de Natal de Machado de Assis, e em seguida, com os contos primorosos de Solidão, Solitude.

AUTRAN DOURADO, assim ele ficou conhecido, mas o seu nome completo era Waldomiro de Freitas Autran Dourado. Mineiro, de Patos, contemporâneo de Otto Lara Rezende, Fernando Sabino, Lúcio Cardoso, Hélio Pellegrino, Murilo Rubião, Paulo Mendes Campos uma turma de mineiros que deu muito que falar no mundo literário brasileiro. Sobreviveu a todos os aqui mencionados, domingo foi a sua vez de partir: morrendo aos 86 anos de idade.

Com catorze anos, ele havia ido para Belo Horizonte, onde fez o curso clássico e iniciou a sua carreira literária. Aos dezessete escreveu o seu primeiro livro de contos. Submete-o à apreciação de Godofredo Rangel, escritor e tradutor renomado, muito amigo de Monteiro Lobato, que  o aconselhou a guardar, incentivando-a continuar escrevendo, mas depois de muitos estudos e aprimoramento. Não é a toa que o mestre imaginário criado por Autran no futuro recebesse o nome de Erasmo Rangel, segundo ele, parente de Godofredo Rangel,  seu pai poético. Ainda por conta da grande admiração, Autran Dourado transforma-o em personagem no seu livro  O Artista Aprendiz.

Filho de jurista,  tornou-se estudante de Direito, sem, contudo, abandonar as atividades literárias. Na Faculdade encontrou outros jovens poetas e escritores e juntos fundaram, em 1946,  a Revista Edifício, da qual era o redator-chefe e conseguiram publicar quatro números. Mais ou menos nesse período publica a novela Teia, depois Sombra e Exílio, em 1950. Esta última valeu-lhe o Prêmio Mário Sette, do Jornal de Letras. As duas novelas foram, depois, reunidas num só volume: Novelas de Aprendizado.

Dois anos depois, lança o seu primeiro romance,Tempo de Amar, que ganharia o Prêmio Cidade de Belo Horizonte. Ele sempre dedicou um carinho todo especial a este livro.

Assessor de Imprensa do presidente Juscelino Kubitschek foi morar no Rio de Janeiro, mas continuou a sua produção literária. É dessa época Três Histórias na Praia (1955), republicado em 1957 com o título de Nove Histórias em Grupo de Três, que é distinguido com o Prêmio Arthur Azevedo do Instituto Nacional do Livro. A estes contos, seriam acrescentados mais três em 1972, alterando-se o título para Solidão Solitude, lido em nossa Oficina.

Depois que abandonou a vida pública, por volta de 1961,  Autran Dourado dedicou-se inteiramente à vida literária, surgindo livros que o consagraram definitivamente no cenário nacional e além das nossas fronteiras: A Barca dos Homens (1961, romance), Prêmio Fernando Chinaglia; Uma Vida em Segredo (1964, novela já mencionada); Ópera dos Mortos (1967, romance), considerado a obra-prima do autor e incluída na Coleção de Obras Representativas da Literatura Universal da UNESCO; O Risco do Bordado (1973, romance), Prêmio Pen-Club do Brasil; Os Sinos da Agonia (1974, romance já mencionado), Prêmio Paula Brito do Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro. Este livro passou a ser adotado nos exames de agrégation das universidades francesas; As Imaginações Pecaminosas (1981, contos), Prêmio Jabuti e Prêmio Goethe de Literatura.

São mais de vinte títulos, todos de grande valor literário, o que lhe fez receber vários prêmios, entre eles, o Prêmio Camões. As suas obras estão traduzidas em muitos idiomas, entre eles, o alemão, o francês, o espanhol o inglês e o italiano. Nos meios acadêmicos  várias teses têm surgido baseadas em seus livros. Extensa carreira literária,  mais de 60 anos já se passaram desde a primeira publicação. Os seus pais poéticos declarados foram Machado, Stendhal, Flaubert, Tchecov e Faulkner.

A influência de Faulkner é bem visível em várias de suas obras, os fluxos de consciência, as narrativas fragmentadas em blocos, a polifonia, cenários repetidos de uma  cidade imaginária Duas Pontes, as diversas gerações de uma família ficcional Honório Cota, transitando entre os séculos do apogeu da mineração ouro até os dias de hoje. O Estado de Minas Gerais foi o cenário preferido do autor.

Autran Dourado publicou alguns ensaios sobre teoria literária, forma encontrada para expor o seu processo pessoal de produção, entre elas Uma Poética para o Romance: Matéria de Carpintaria,  onde ele apresenta a planta baixa para elaboração de um romance, fala de algumas das  suas fontes de inspiração, passa para o leitor alguns segredos do seu fazer literário.

O MEU MESTRE IMAGINÁRIO

Autran Dourado criou um mestre imaginário chamado Flávio Rangel, o seu alter ego,  que ele dizia ser agnóstico-aristotélico, platônico, kantiano-wittgensteiniano  e que- além disso era um grande mentiroso, sempre o mesmo, sempre mutável . Um mestre que não tinha idade. O Meu Mestre Imaginário é o titulo de um livro de Autran no qual ele pretendeu dar todas as respostas às perguntas que os leitores poderiam querer fazer para ele e que estavam sempre presentes durante as entrevistas.

Aqui estão algumas dessas respostas.

SOBRE HOMERO

A não ser sabendo grego (mesmo assim não se pode saber como pensavam e viviam os habitantes do mundo grego), é muito difícil ler Homero. Cada tradução do mesmo texto difere tanto da outra, que não parecem traduzir o  mesmo autor, o mesmo texto.

Homero foi uma maneira bem achada da Grécia buscar nele a sua própria imagem. Esse é outro pensamento platônico.

Toda metáfora é uma fábula resumida. Homero como uma metáfora, como uma representação do povo grego, o seu símbolo. Nele, como no escudo do herói, que minuciosamente descreveu, estava escrita toda a história da Grécia.

DO MEU SAMBURÁ

Gostaria de atingir a brevidade de um haicai. Ser breve é uma conquista, nunca uma dádiva dos deuses. Como o estilo simples e despojado. Aliás o estilo varia conforme a concepção de cada um: o estilo é o homem ou o estilo é a matéria.

Às vezes vou escrevendo tão calmo e tão vagaroso, tão simples e silenciosamente, que penso atingir a morte, a nulificação, o Nirvana oriental. […]

Gostaria de compor um hino ao despertar da manhã, mas ela tarda tanto que eu me esforço e vou compondo frases longuíssimas, como o salto de um trapezista calmo e senhor dos seus movimentos e que no entanto às vezes encontra a morte.[…]

Em momentos de serenidade, prefiro a Poética à Retórica, como se os dois livros não fossem escritos pelo mesmo filósofo. Sou dividido, ora sou platônico, ora aristotélico. Coleridge dizia que há dois tipos humanos fundamentais: um nasce platônico, outro aristotélico. 

SOBRE O AUTOR E A SUA OBRA

Entre a obra e o autor se faz um mundo.

A única coisa que um autor tem de verdadeiramente próprio é o corpo; o seu texto talvez não passe de paródias entrelaçadas, acumuladas, expandidas ou superpostas, pando.

Em cada autor há uma série de pequenos autores. O produto final é uma incógnita – o próprio autor, a suma.

SOBRE FLAUBERT

[…]  o emprego que Flaubert fez do passado definido, do particípio presente e do passado indefinido foi alguma coisa tão revolucionária na prosa francesa como o cogito de Descartes.

(…) O subjetivismo de Flaubert se exprime pelo emprego novo não só dos tempos dos verbos, mas das preposições e dos advérbios, os dois últimos não tendo na frase senão um valor rítmico. Um estado que se prolonga é indicado pelo imperfeito e a chamada ao tempo objetivo da narração é feita através do presente do indicativo. (…) O eterno imperfeito, composto em parte de palavras de personagens, que Flaubert utiliza no estilo indireto, para que elas se confundam com o resto, é uma lição que aprendo cada vez que o releio. (…) Tudo isso significa que Flaubert pensa e afirma aquilo, mas os personagens Fredéric e Bovary o dizem.

PROPOSIÇÕES SOBRE O LABIRINTO ´(Após a leitura de Os Sinos da Agonia,de Autran Dourado)  

Labirinto não significa confusão, mas nova ordem. Uma ordem codificada e cifrada, sistema de signos. Uma construção arquitetônica de forma rígida e cerrada, geométrica, pura cristalografia.

Dédalo, pai de toda Arquitetura. Quando se conhece a planta-baixa do labirinto, tudo fica mais claro é fácil. A planta baixa é o princípio e o fim da codificação. O resto é acidente.

Narrativa labiríntica, desenho de linhas puras, convite à razão através do segredo e do mistério. 

SOBRE O MONÓLOGO INTERIOR

A descoberta do monólogo interior foi  uma alegria tão grande para mim, que não sabia o que fazer com ele.Após essa fase de lua-de-mel e depois de praticá-lo à exaustão, convenci-me de que ele não era mais do que uma desordenada associação de imagens, lembranças, impulsos. Nada disso é arte, arte como dizia Leonardo é “cosa  mentale”. A linguagem inteiramente caótica beira a esquizofrenia. A ausência de sintaxe, ou melhor, – a sintaxe confusa não leva à boa linguagem. E literatura é linguagem, devemos ter isso sempre em mente; linguagem carregada de sentido, forma aberta em que cada um dela tira alguma coisa, desde que o artista nela tenha colocado tudo de si, toda a riqueza de que for capaz. E esse balé de minúsculos movimentos não coordenados ainda pela razão tem lugar simultaneamente o fluxo ininterrupto das palavras.

É evidente que esse discurso que se passa no inconsciente e a que o autor procura dar sentido não pode ser um discurso caótico. Os silêncios na escrita falam como um stradivarius nas mãos de um violonista.

O que é importante no stream-of-consciousness de Finnegans Wake é a sua mudança de ritmo, a riqueza quase alucinada desse ritmo. As elipses, os lapsus, as aliterações, são o que fazem da obra final de Joyce uma obra maior do nosso tempo. Aviso: a grandeza de Finnegans Wake é inimitável.

Há livros grandes e livros pequenos, como há poetas menores e poetas maiores. O Ulysses e o Finnegans Wake estão entre os livros maiores. Só conheço cinco obras que podem equiparar-se às duas obras maiores de Joyce: A Montanha Mágica, de Thomas Mann, a Consciência de Zeno, de Svevo, Um Homem sem Qualidades, de Musil, e The Sound and the Fury, de Faulkner.

O stream é uma técnica difícil, que tem de ser usada com habilidade e muita cautela, além da força natural do ficcionista. Confundi-lo com o estilo indireto livre ou o solilóquio é um erro de conseqüências fatais para quem o pratica.

O que  os anglo-saxônicos, os americanos sobretudo, chamam de stream-of-consciousness, os franceses chamam de monologue intérieur. O monólogo interior , como é conhecido no Brasil a técnica literária  que usa a livre associação de idéias para exprimir e narrar o que se passa na região do espírito que não é articulada, nos veio através da França. Mas há uma grande confusão em se tomar como um todo o monólogo interior, que, segundo Humphrey, é uma das modalidades do stream-o-consciousness, que é mais amplo e geral.

CONSELHO

Ler os bons autores, ler os clássicos que sempre permanecem, é o que vivo dizendo. Dizem que sou antiquado, antigo de velho, o que é capaz de ser verdade. Envelheço a olhos vistos. “Nos olhos das mulheres, no espelho do meu quarto, é que vejo a minha idade”, diz uma canção popular que outro dia escutei no rádio.

 

Estamos inteiramente de acordo com Autran Dourado. Além de, freqüentemente, falarmos da importância de se recorrer aos bons autores, aos clássicos, sempre incluímos na nossa programação esse tipo de literatura. Na Oficina, durante os seus sete anos de existência, realizamos a leitura de grandes obras da literatura estrangeira e nacional: William Faulkner (O Som e a Fúria, Enquanto Agonizo), Gustave Flaubert (Madame Bovary, Um coração Simples), Virgínia Woolf (Mrs. Dalloway), León Tolstoi (A morte de Ivan Ilitch), Dante Alighieri (O Inferno – de A Divina Comédia), Laurence Sterne (Viagem Sentimental) Carlos Fuentes (Aura), Clarice Lispector (Água-Viva e diversos contos), Hilda Hilst (A Obscena Senhora D), Raduan Nassar (Lavoura Arcaica),  além de dezenas de contos dos mais diversos autores.

E como já foi dito antes, de Autran Dourado (Solidão, Solitude), autor da nossa admiração permanente.

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