As Brasas

*AS BRASAS, de Sándor Márai

                                César Garcia

 Romance denso sobre a amizade e a traição. Dois homens, ambos militares, amigos desde a infância, encontram-se para tirar dúvidas depois de quarenta e um anos de um afastamento aparentemente inexplicável. A conversa dura toda uma noite e ocupa cem páginas das cento e setenta e duas do livro. O general, Henrik, dono do castelo em que se encontram, fala quase o tempo todo e apenas pede que o amigo, Konrad, responda às suas perguntas. São duas, as principais: se o amigo tinha tido um romance secreto com Krisztina, mulher do general e se, na última caçada, ele apontara a arma para a sua cabeça a fim de matá-lo, e não para o cervo que se encontrava na mesma linha.  O autor, de nacionalidade húngara, nasceu em 1900 e morreu em 1989. No Brasil, a Companhia das Letras publicou também O Legado de Ezter, Veredicto em  Canudos, Divórcio em Buda, Rebeldes, Confissão de um Burguês, De verdade e Libertação.

Veredicto em Canudos, a ação se passa no sertão da Bahia e foi escrita em 1960, depois de ler Os Sertões de Euclides da Cunha. 

Sándor Márai publicou mais de 60 livros. Em 1989, ele se suicida. Morava em San Diego, nos EUA.

EXCERTO DE AS VELAS ARDEM ATÉ O FIM  DE SÁNDOR MARAI

ENVELHECER
Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo tão real, conhece o significado das coisas, tudo se repete tão terrível e fastidiosamente. Isso também é velhice. Quando já sabe que um corpo não é mais que um corpo. E um homem, coitado, não é mais que um homem, um ser mortal, faça o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, não, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o estômago, ou o coração. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, começa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decrépito que seja o corpo, a alma ainda está repleta de desejos e de recordações, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recordações, ou a vaidade; e então é que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: já não sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exatidão: a Primavera ou o Inverno, os cenários habituais, o tempo, a ordem da vida. Não pode acontecer nada de inesperado: não te surpreeende nem o imprevisto, nem o invulgar ou o horrível, porque conheces todas as probabilidades, tens tudo calculado, já não esperas nada, nem o bem, nem o mal… e isso é precisamente a velhice.

 

* Tradução de Rosa Freira D´Águiar – Companhia das Letras, 172 p.

Uma ideia sobre “As Brasas

  1. Lí na tradução inglesa. Impressionante como a tensão dramática é mantida dentro de uma estrutura narrativa complexa, onde a confrontação entre os dois velhos é contraposta à “back story” da traição (ou pecado) original. Segundo Wikipedia, “As velas ardem até o fim” é uma tradução mais literal do título na língua original, mas também em inglês apareceu como “Embers”.

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