Augusto dos Anjos: Cantor da Poesia de tudo que é morto

Augusto dos Anjos já esteve em nosso Momento Poético antes, certamente voltará outras vezes. Dessa feita foi levado por nossa poetisa Anita Dubeux, que selecionou, com apuro, alguns poemas do autor para dividir com o grupo. Considerado um dos poetas mais críticos de sua época e um dos mais importantes representantes do pré-modernismo, apesar de sua poesia conter raízes do simbolismo, no gosto pela morte,pela angústia, melancolia e no uso de metáforas. O autor parece querer desafiar os parnasianos, utilizando palavras não-poéticas como verme, cuspe, vômito, entre outras. A obra só possuiu grande vendagem após a morte do poeta.  Declarou-se Cantor da poesia de tudo que é morto. E como o faz bem!

Nasceu no engenho Pau d’Arco, na Paraíba, no dia 22 de abril de 1884, filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e de Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos.
No ano de 1900, ingressa no Liceu Paraibano e produz seu primeiro soneto.
Durante a vida publicou vários poemas em jornais e periódicos e em 1912 editou o seu único livro EU, que causou espanto nos críticos da época, diante de um vocabulário grotesco e sua obsessão pela morte: podridão da carne, cadáveres fétidos e vermes famintos.

Possuía uma retórica delirante, criativa, por vezes absurda, como neste trecho do poema Psicologia de um Vencido:

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro da escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Augusto dos Anjos estudou na Faculdade de Direito do Recife entre 1903 e 1907 e após sua formatura retornou a João Pessoa, onde passou a lecionar Literatura Brasileira, em aulas particulares.

Faleceu em Leopoldina, Minas Gerais, no dia 12 de novembro de 1914.

Poemas memoráveis desse poeta paraibano, hoje universal:

O martírio do artista

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!…
É como o paralítico que, à míngua
Da própria voz, e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!

Vencedor

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E á rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pude domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta

Poema Negro está entre os mais lidos e elogiados poemas de Augusto dos Anjos.

 

Após a leitura dos poemas de Augusto dos Anjos, continuamos a viagem, agora com a releitura do conto de  Raduan Nassar, Hoje de Madrugada, elaborada por João Gratuliano que deu o título bastante criativo de As Madrugadas de Ontem, assim mesmo, no plural.  Uma boa releitura sempre irá depender da leitura particular que o leitor fez da obra, mediada pela sua visão de mundo, sensibilidade para captar silêncios, não-ditos, de viajar com as palavras, de abrir suas valises e escarafunchá-las em busca de novos sentidos, cheiros,  cores, musicalidade. João Gratuliano faz isso muito bem. As Madrugadas de Ontem, longe de reproduzir o texto original, é uma criação, trazendo o novo sem perder o elo com a fonte que serviu de inspiração. Disposto sempre a aceitar desafio, Gratuliano aceitou a proposta do grupo e refez o texto apresentado na Oficina, com a participação de todos, especialmente de Everaldo Júnior que foi quem liderou o processo,  dessa vez escondendo o gênero do personagem que só foi revelado no final. Valeu como exercício de desbloqueio criativo.

Sobre a Programação para o Segundo Semestre discutimos um pouco e ficou acordado que iniciaríamos com a autora sul coreana Kyung Sook Shin, Por Favor, Cuide da Mamãe, que já dispomos em meio digital, o que facilitará bastante para  a leitura na próxima quarta-feira. Trata-se de um livro com muitos recursos técnicos literários instigantes, inovadores,  trama bem articulada e extremamente interessante que fisga você nas primeiras páginas.

Lourdes Rodrigues

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