Sobre Lourdes Rodrigues

Contista, ensaísta, coordenadora da Oficina de Criação Literária Clarice Lispector do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise

Viagem Oitava pelo Riso ou Diário de Bordo de 05 de abril de 2017

Diário de bordo do dia 5 de Abril de 2017.

*João Gratuliano como primeiro oficial ad hoc no comando da nau por motivo de doença da capitã.

Todo ditado popular tem sua sabedoria, e quando os gatos saem, os ratos fazem a festa não foge à regra. Sem a capitã, nosso quebra gelo foi um pouco mais prolongado. A tripulação esteve um pouco reduzida, mas quando já estavam Salete, Anita, Adelaide, Sarmento, Everaldo Júnior, Paulo, eu e as irmãs Cajazeiras, digo, Portela, nosso viageiro Everaldo Júnior  falou de um texto escrito por Freud  sobre a transitoriedade, que surgiu de um passeio do mestre da psicanálise com dois amigos (que os historiadores dizem ter sido Rilke e Lou Andreas Salomé) por uns campos sorridentes. 

.Eis o texto:

8. SOBRE A TRANSITORIEDADE (1916 [1915])

VERGÄNGLICHKEIT

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:1916 Em Das Land Goethes 1914-1916. Stuttgart: Deutsche Verlagsanstalt. Pág. 37-8.1926 Almlanach 1927, 39-42.
1928 G.S., 11, 291-4.1946 G.W., 10, 358-61.
(b) TRADUÇÃO INGLESA:‘On Transience’1942 Int. J. Psycho-Anal., 23 (2), 84-5. (Trad. de James Strachey.)1950 C.P., 5, 79-82. (Mesmo tradutor.)

A presente tradução inglesa é uma reimpressão ligeiramente alterada da que foi publicada em 1950.
Este ensaio foi escrito em novembro de 1915, a convite da Berliner Goetherbund (Sociedade Goethe de Berlim) para um volume comemorativo lançado no ano seguinte sob o título de Das Land Goethes (O País de Goethe). Esse volume, produzido com esmero, enfeixava grande número de contribuições de autores e artistas conhecidos, passados e atuais, como von Bülow, von Brentano, Ricardo Huch, Hauptmann e Liebermann. O original alemão (exceto o quadro que apresenta dos sentimetnos de Freud sobre a guerra, que estava então em seu segundo ano) constitui excelente prova de seus poderes literários. É interessante notar que o ensaio abrange um enunciado da teoria do luto contido em ‘Luto e Melancolia’ (1971e), que Freud escrevera alguns meses antes, mas que só foi publicado dois anos depois.

SOBRE A TRANSITORIEDADE

Não faz muito tempo empreendi, num dia de verão, uma caminhada através de campos sorridentes na companhia de um amigo taciturno e de um poeta jovem mas já famoso. O poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade.

A propensão de tudo que é belo e perfeito à decadência, pode, como sabemos, dar margem a dois impulsos diferentes na mente. Um leva ao penoso desalento sentido pelo jovem poeta, ao passo que o outro conduz à rebelião contra o fato consumado. Não! É impossível que toda essa beleza da Natureza e da Arte, do mundo de nossas sensações e do mundo externo, realmente venha a se desfazer em nada. Seria por demais insensato, por demais pretensioso acreditar nisso. De uma maneira ou de outra essa beleza deve ser capaz de persistir e de escapar a todos os poderes de destruição.

Mas essa exigência de imortalidade, por ser tão obviamente um produto dos nossos desejos, não pode reivindicar seu direito à realidade; o que é penoso pode, não obstante, ser verdadeiro. Não vi como discutir a transitoriedade de todas as coisas, nem pude insistir numa exceção em favor do que é belo e perfeito. Não deixei, porém, de discutir o ponto de vista pessimista do poeta de que a transitoriedade do que é belo implica uma perda de seu valor.

Pelo contrário, implica um aumento! O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição. Era incompreensível, declarei, que o pensamento sobre a transitoriedade da beleza interferisse na alegria que dela derivamos. Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, do modo que, em relação à duração de nossas vidas, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado encanto. Um flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal. Realmente, talvez chegue o dia em que os quadros e estátuas que hoje admiramos venham a ficar reduzidos a pó, ou que nos possa suceder uma raça de homens que venha a não mais compreender as obras de nossos poetas e pensadores, ou talvez até mesmo sobrevenha uma era geológica na qual cesse toda vida animada sobre a Terra; visto, contudo, que o valor de toda essa beleza e perfeição é determinado somente por sua significação para nossa própria vida emocional, não precisa sobreviver a nós, independendo, portanto, da duração absoluta.

Essas considerações me pareceram incontestáveis, mas observei que não causara impressão quer no poeta quer em meu amigo. Meu fracasso levou-me a inferir que algum fator emocional poderoso se achava em ação, perturbando-lhes o discernimento, e acreditei, depois, ter descoberto o que era. O que lhes estragou a fruição da beleza deve ter sido uma revolta em suas mentes contra o luto. A idéia de que toda essa beleza era transitória comunicou a esses dois espíritos sensíveis uma antecipação de luto pela morte dessa mesma beleza; e, como a mente instintivamente recua de algo que é penoso, sentiram que em sua fruição de beleza interferiam pensamentos sobre sua transitoriedade.

O luto pela perda de algo que amamos ou admiramos se afigura tão natural ao leigo, que ele o considera evidente por si mesmo. Para os psicólogos, porém, o luto constitui um grande enigma, um daqueles fenômenos que por si sós não podem ser explicados, mas a partir dos quais podem ser rastreadas outras obscuridades. Possuímos, segundo parece, certa dose de capacidade para o amor – que denominamos de libido – que nas etapas iniciais do desenvolvimento é dirigido no sentido de nosso próprio ego. Depois, embora ainda numa época muito inicial, essa libido é desviada do ego para objetos, que são assim, num certo sentido, levados para nosso ego. Se os objetos forem destruídos ou se ficarem perdidos para nós, nossa capacidade para o amor (nossa libido) será mais uma vez liberada e poderá então ou substituí-los por outros objetos ou retornar temporariamente ao ego. Mas permanece um mistério para nós o motivo pelo qual esse desligamento da libido de seus objetos deve constituir um processo tão penoso, até agora não fomos capazes de formular qualquer hipótese para explicá-lo. Vemos apenas que a libido se apega a seus objetos e não renuncia àqueles que se perderam, mesmo quando um substituto se acha bem à mão. Assim é o luto.

Minha palestra com o poeta ocorreu no verão antes da guerra. Um ano depois, irrompeu o conflito que lhe subtraiu o mundo de suas belezas. Não só destruiu a beleza dos campos que atravessava e as obras de arte que encontrava em seu caminho, como também destroçou nosso orgulho pelas realizações de nossa civilização, nossa admiração por numerosos filósofos e artistas, e nossas esperanças quanto a um triunfo final sobre as divergências entre as nações e as raças. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ciência, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de nós os maus espíritos que julgávamos terem sido domados para sempre, por séculos de ininterrupta educação pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez nosso país e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos do muito que amáramos e mostrou-nos quão efêmeras eram inúmeras coisas que consideráramos imutáveis.

Não pode surpreender-nos o fato de que nossa libido, assim privada de tantos dos seus objetos, se tenha apegado com intensidade ainda maior ao que nos sobrou, que o amor pela nossa pátria, nossa afeição pelos que se acham mais próximos de nós e nosso orgulho pelo que nos é comum, subitamente se tenham tornado mais vigorosos. Contudo, será que aqueles outros bens, que agora perdemos, realmente deixaram de ter qualquer valor para nós por se revelarem tão perecíveis e tão sem resistência? Isso parece ser o caso de muitos de nós; só que, na minha opinião, mais uma vez, erradamente. Creio que aqueles que pensam assim, de e parecem prontos a aceitar uma renúncia permanente porque o que era precioso revelou não ser duradouro, encontram-se simplesmente num estado de luto pelo que se perdeu. O luto, como sabemos, por mais doloroso que possa ser, chega a um fim espontâneo. Quando renunciou a tudo que foi perdido, então consumiu-se a si próprio, e nossa libido fica mais uma vez livre (enquanto ainda formos jovens e ativos) para substituir os objetos perdidos por novos igualmente, ou ainda mais, preciosos. É de esperar que isso também seja verdade em relação às perdas causadas pela presente guerra. Quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito em que tínhamos as riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes.

Em seguida surgiu um debate sobre a mulher. Sobre o seu papel e as dificuldades numa sociedade ocidental machista. Tínhamos uma artigo para ler sobre o conto Hoje de Madrugada de Raduan Nassar, segundo Anita, um dos contos mais impactantes que ela já leu ultimamente. E segundo Adelaide, “Um sopapo escrito e narrado por um homem que percebe os meandros da alma feminina e do que magoa e sabe como narrá-lo. (…) Erótico implícito.”

Como nem todos haviam lido o conto, não vou denunciar quem fui que não leu, então resolvemos relê-lo. E seguiram-se os comentários sobre o conto e de como cada um tinha sido impactado por ele. Com isso não havia mais tempo para ler o artigo e deixamos para o próximo encontro. Não sei se foi só isso, mas sei que foi assim.

Segue o Conto de Raduan Nassar lido:

Hoje de Madrugada

Raduan Nassar

O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali ao canto; me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que .me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranquilizá-la. De olhos sempre baixos, passei a rabiscar ao verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhas em cima do papel que eu rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.

Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligrafia rápida e nervosa; foi una frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: “vim em busca de amor” estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. ?Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos: “responda” ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada; provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: “não tenho afeto para dar”, não cuidando sequer de lhe empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão, com a avidez de um bico, se lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos. Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto.

Não demorou, minha mulher deu a volta na mesa e logo senti sua sombra atrás da cadeira, e suas unhas no dorso do meu pescoço, me roçando as orelhas de passagem, raspando o meu couro, seus dedos trêmulos me entrando pelos cabelos desde a nuca. Sem me virar, subi o braço, fechei minha mão ao alto, retirando sua mão dali como se retirasse um objeto corrompido, mas de repente frio, perdido entre meus cabelos. Desci lentamente nossas mãos até onde chegava o comprimento do seu braço, e foi nessa altura que eu, num gesto claro, abandonei sua mão no ar. A sombra atrás de mim se deslocou, o pano da camisola esboçou um voo largo, foi num só lance para a janela, tinha até verdade naquela ponta de teatralidade. Mas as venezianas estavam fechadas, ela não tinha o que ver, nem mesmo através das frinchas, a madrugada lá fora ainda ressonava. Espreitei um instante: minha mulher estava de costas, a mão suspensa na boca, mordia os dedos.

Quando ela veio da janela, ficando de novo à minha frente, do outro lado da mesa, não me surpreendi com o laço desfeito do decote, nem com os seios flácidos tristemente expostos, e nem com o traço de demência lhe pervertendo a cara. Retomei o rabisco enquanto ela espalmava as mãos na superfície, e, debaixo da mesa, onde eu tinha os pés descalços na travessa, tampouco me surpreendi com a artimanha do seu pé, tocando com as pontas dos dedos a sola do meu, sondando clandestino minha pele no subsolo. Mais seguro, próspero, devasso, seu pé logo se perdeu sob o pano do meu pijama, se esfregando na densidade dos meus pelos, subindo afoito, me lambendo a perna feito uma chama. Fiz a tentativa com vagar, seu pé de início se atracou voluntarioso na barra, e brigava, resistia, mas sem pressa me desembaracei dele, recolhendo meus próprios pés que cruzei sob a cadeira. Voltei a erguer os olhos, sua postura, ainda que eloquente, era de pedra: a cabeça jogada em arremesso para trás, os cabelos escorridos sem tocar as costas, os olhos cerrados; dois frisos úmidos e brilhantes contornando o arco das pálpebras; a boca escancarada, e eu não minto quando digo que  não eram os lábios descorados, mas seus dentes é que tremiam.

Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar. Pode ser simplesmente que ela se remetesse então a uma tarefa trivial a ser cumprida quando o dia clareasse. Ou pode ser também que ela não entendesse a progressiva escuridão que se instalava para sempre em sua memória. Não importa que fosse por esse ou aquele motivo, só sei que, passado o instante de suposta reflexão minha mulher, os ombros caídos, deixou o quarto feito sonâmbula.

O texto acima foi extraído dos “Cadernos de Literatura Brasileira”, Instituto Moreira Salles – Rio de Janeiro, exemplar número 2 de setembro de 1996, pág. 56.

  • João Gratuliano é contista, ensaísta, poeta, crítico literário.

 

 

Viagem Sétima pelo Riso

VIAGEM SÉTIMA PELO RISO

*Salete Oliveira

Aceitei o desafio de contar a viagem da última quarta-feira, 28, março, que findava sem chuvas a fechar o verão, hoje quando escrevo, cai uma chuva maravilhosa, com trovões, abril abrindo com chuvas do outono.

Dá um aconchego bom essa chuva atrasada, tal o que senti ao chegar na Oficina Literária, já começada, repleta de viageiros, ali na bica, para serem bebidos em sua essência, sem destilação: poemas de Charles Bukowski.

Engraçado como de repente uma cortina se abre e lembramos já termos ouvido suas frases em lugares diversos, até em postagem do filho, e mesmo escolhido um livro dele ao acaso em livraria de aeroporto, para ler no avião. Essas surpresas são parte da Oficina, tão deliciosas como os doces Lolita que Adelaide nos traz,
e que alegria que ela estava lá, já sentada ao lado de Lourdinha, a nos falar sobre ele ser um escritor apreciado dos jovens e movimento Underground.

Para saber tudo sobre ele existe esse site, tem uma time-line ótima, não deixem de dar uma espiada: https://bukowski.net/

Então, aqui vou dizer pouco: Charles Bukowski nasceu na Alemanha em 1920, aos três anos mudou-se com a sua família para Los Angeles, USA. Publicou mais de 45 livros de poesia e prosa, dentre os quais Misto-quente, Numa Fria, Factótum, Notas de um velho safado, Fabulário geral do delírio cotidiano e Pulp (o que comprei no aeroporto), concluído alguns meses antes de sua morte, em março de 1994, aos 73 anos.

Trazidos por Lourdinha, responsável pelo Momento Poético nesse dia, foram lidos os seguintes poemas e algumas frases de Bukowski:

Um poema de amor

 Charles Bukowski (Tradução: Jorge Wanderley)

todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.

suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.

principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.

há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.

sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar — eu estava ocupado
com coisas maiores.

mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só um
aprendiz.

sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra. sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.

essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.

O Pássaro Azul

Charles Bukovski (Tradução: Pedro Gonzaga)

 

há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?

Bluebird

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the ****s and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.
then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?

então queres ser um escritor?

(Tradução: Manuel A. Domingos)

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.

As frases de Bukowski lidas na ocasião;

 

Ainda no Momento Poético, Sarmento nos trouxe a música Mulheres, de Martinho da Vila, que Um Poema de Amor” o fez lembrar, com similar tema.

Mulheres

Martinho da Vila

Já tive mulheres de todas as cores
De várias idades, de muitos amores
Com umas até certo tempo fiquei
Pra outras apenas um pouco me dei
Já tive mulheres do tipo atrevida
Do tipo acanhada, do tipo vivida
Casada carente, solteira feliz
Já tive donzela e até meretriz
Mulheres cabeça e desequilibradas
Mulheres confusas, de guerra e de paz
Mas nenhuma delas me fez tão feliz
Como você me faz
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem, mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida, a minha vontade
Você não é mentira, você é verdade
É tudo o que um dia eu sonhei pra mim
Já tive mulheres de todas as cores
De várias idades, de muitos amores
Com umas até certo tempo fiquei
Pra outras apenas um pouco me dei
Já tive mulheres do tipo atrevida
Do tipo acanhada, do tipo vivida
Casada carente, solteira feliz
Já tive donzela e até meretriz
Mulheres cabeça e desequilibradas
Mulheres confusas, de guerra e de paz
Mas nenhuma delas me fez tão feliz
Como você me faz
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem, mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida, a minha vontade
Você não é mentira, você é verdade.
É tudo o que um dia eu sonhei pra mim
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem, mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida, a minha vontade
Você não é mentira, você é verdade
É tudo o que um dia eu sonhei pra mim

Após saboreado o momento poético, Eleta leu o seu conto CARNAVAL, que os viageiros, ansiosos para entender a  história em meio a fantasias, foliões, frevos, suspiros e decepções amorosas, logo lhe cobriram de perguntas, e deram  algumas sugestões, em alvoroço de mar agitado.

Passamos à leitura de um conto de Raduan Nassar (para acalmar os ânimos e os espíritos?): Hoje de Madrugada: 

“O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali ao canto; me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que .me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranquilizá-la. De olhos sempre baixos, passei a rabiscar ao verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhos em cima do papel que eu rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.”

Registrei aqui apenas o primeiro parágrafo desse conto, que Adelaide nos tinha enviado por e-mail, e vários dentre os viageiros o leram e discutiram à época; em consenso: um soco no estômago! Relido, agora, na Oficina, ainda mais nos assombrou e doeu. É assim Raduan Nassar, não escreve à toa. Merecidamente recebeu o prêmio Camões de Literatura 2016:

https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2017/02/17/raduan-nassar-recebe-premio-camoes-com-criticas-a-temer-e-ao-stf.htm

E assim voltamos para casa, marujadamente maravilhados, querendo  ler e reler, escrever, cortar, recortar e reescrever nossos enxeridos escritos, depois de ler mestres.

*Salete Oliveira é engenheira química, poeta e contista

Viagem Sexta pelo Riso

 

Viagem Sexta pelo Riso

*Luzia Ferrão

O viageiro Sarmento, no Momento Poético, relembrou um passado que não passou e que continua muito vivo ainda em nossas lembranças, com a poesia Operário em Construção, de Vinicius de Moraes. Certamente este poema, parafraseando o próprio poeta, será imortal enquanto dure, enquanto dure a exploração do homem pelo próprio homem, eu acrescentaria.

O operário de construção, semelhante a um pássaro sem asas, subia com as casas que lhe brotavam das mãos. Estávamos vivendo um Brasil ditatorial cruel que não permitia –aos operários/povo- reconhecer o valor do seu trabalho. Vinicius mostra esse desconhecimento ao dizer: Como podia o operário compreender porque um tijolo valia mais que um pão? Como também desconhecia que o operário faz a coisa e a coisa faz o operário. Os ditadores não conseguiram impedir que pelas mãos desse humilde operário nascesse  um mundo novo, adquirindo a dimensão da poesia que ia aos poucos sendo derramada nos corações dos outros operários. E o operário disse NÃO! Um não que custou a ele e seus companheiros bárbaros tratamentos, pau de arara, choque elétrico, morte, sem direito à família de velar o seu defunto, restando a esperança de que novos tempos viriam. Muitas águas passaram por debaixo da ponte, mas a violência não conseguiu que o operário deixasse de enxergar, de agigantar-se, vendo em tudo que fazia o que de fato acontecia: o lucro do patrão. Neste poema, Vinicius descreve o processo de tomada de consciência do operário, partindo do pressuposto marxista de alienação.

 

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO
(Rio de Janeiro,1959)

Vinicius de Moraes

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia…
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– “Convençam-no” do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

Nem precisa ser muito ligado em literatura para gostar do diplomata, jornalista, compositor (dos bons), poeta Marcus Vinicius de Mello Moraes, ou Vinicius de Moraes, como era mais conhecido, ou  simplesmente poetinha, como o chamava Tom Jobim. Era como poeta e compositor,  através de sonetos e de canções,  que ele gostava de ser reconhecido. Carioca da gema, sessenta e seis anos vividos intensamente, casou nove vezes, era um boêmio curtindo a vida carioca com cigarro e uísque.

É difícil elencar a obra deste gênio brasileiro, por isso escolhemos citar trechos de algumas delas para ilustrar a poesis do branco mais preto do Brasil

Soneto da fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Que ele seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

Samba da benção

È melhor ser alegre que ser triste
A alegria é a melhor coisa que existe
Mas pra se fazer um samba com beleza
é preciso um bocado de tristeza
Se não, não se faz um samba não
A vida é arte do encontro
Embora exista tantos desencontros pela vida

Cantos de Ossanha

Não vou eu não sou ninguém de ir
Em conversas de esquecer a tristeza
De um amor que passou
Não eu sou vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor

Rosa de Hiroschima

A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

Onde anda você

E por falar em saudade
Onde anda você
Onde andam seus olhos que a gente não vê

Minha namorada

Mais se em vez minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mais amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer

Garota do Ipanema

Vejam que coisa mais linda
Mais cheia de graça
é ela menina
que vem e que passa
no doce balanço
A caminho do mar

Samba em preludio

Eu sem você não tenho nem porque
Porque sem você
Não sei nem chorar
Sou chama sem luz
Jardim sem luar

Sarmento continuou alimentando o grupo sedento de poesia, dessa feita com os poemas de Geir Campos, Tarefa e Alba, seguindo a mesma trilha de poesia de denúncia social, poesia comprometida politico e socialmente.


Tarefa

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis…
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.
(1957)

**Alba

Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
de leste – o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.
(1957)

O poeta Geir Canpos é capixaba, membro do partido comunista, engajado nas lutas políticas e sociais., formado em Teatro e Doutor em Comunicação Social. Talvez por suas posições políticas  foi pouco difundido pela mídia. Poeta, livreiro, tradutor, faz parte dos poetas da chamada geração 45, destacava-se pelo rigor literário e estético.. Foi um dos fundadores da editora Hipocampo, junto com o poeta Thiago de Melo, para difundir suas obras de forma artesanal. Marcou presença também como um dos organizadores dos Cadernos do Povo Brasileiro, Violão de Rua, publicados pelo Centro Popular de Cultura da UNE.

. “A poesia de Geir Campos tem circulação, ousadia e canto. Ninguém pode equivocar-se: aproximando o ouvido, sentimo-la como um rumor de cristal errante, sentido e som da poesia verdadeira.” (Pablo Neruda)

**Alba significado: Claridade que precede ao nascer do dia

Seguindo com a Oficina, outro pilar dos trabalhos foi iniciado com a leitura dos contos escritos pelos seus participantes, os viageiros pelos mares das palavras. Três contos estavam previstos para serem lidos, sendo seus autores eu,  Salete e Eleta. A Oficina procura estimular a criatividade e o exercício da lapidação das palavras, para que  os viageiros  se tornem  artesãos da escrita. trabalhando técnicas de ensaio, contos, novelas ou outras, sobre temas acordados entre seus pares. Neste dia o tema foi o do  triangulo amoroso, com  o constrangimento da duplicação, em que uma história estaria sendo contada e outra estava ocorrendo ao mesmo tempo, tão ou mais importante do que a primeira. A ideia do constrangimento decorre da concepção Oulipiana de limitar a escrita a alguma condição anterior.

Iniciando a leitura dos contos por mim, Luzia, com  o conto Corações na Bananeira, que gerou um debate profundo sobre a construção do tema, entendimento dos personagens, linguagem poética, ortografia, gramatica, ineditismo.O tempo da oficina esgotou-se sem as demais leituras programadas e sem a conclusão da análise do meu conto. Por conta disso, algumas sugestões foram apontadas para maximizar o tempo para as análises das narrativas, entre elas,  a da leitura antecipada, cada participante traria a sua análise para que melhor fosse aproveitado esse importante momento literário.

*Luzia Ferrão, professora universitária, assistente social, contista, ensaísta.

**Alba significado: Claridade que precede ao nascer do dia

Viagem Quinta pelo Riso

Assim como no ano anterior, comemoramos o dia Internacional da Mulher com poesia, que outra forma melhor para se homenagear um ser tão inspirador dos poetas? Foi por isso que levamos o papa da poesia americana, com assento no panteão poético universal, Walt Whitman, com Esta é a Forma Fêmea:

Esta é a Forma Fêmea

*Walt Whitman

Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu não fosse mais
que um indefeso vapor
e, a não ser ela e eu, tudo se põe de lado
— artes, letras, tempos, religiões,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes mãos caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.

Eis o núcleo — depois vem a criança
nascida de mulher,
vem o homem nascido de mulher;
eis o banho de origem,
a emergência do pequeno e do grande,
e de novo a saída.

Não se envergonhem, mulheres:
é de vocês o privilégio de conterem
os outros e darem saída aos outros
— vocês são os portões do corpo
e são os portões da alma.

A fêmea contém todas
as qualidades e a graça de as temperar,
está no lugar dela e movimenta-se
em perfeito equilíbrio,
ela é todas as coisas devidamente veladas,
é ao mesmo tempo passiva e activa,
e está no mundo para dar ao mundo
tanto filhos como filhas,
tanto filhas como filhos.
Assim como na Natureza eu vejo
minha alma refletida,
assim como através de um nevoeiro,
eu vejo Uma de indizível plenitude
e beleza e saúde,
com a cabeça inclinada e os braços
cruzados sobre o peito
— a Fêmea eu vejo.

Sempre procuramos postar, junto ao traduzido, o poema no seu original, para dar a sua verdadeira dimensão, força e beleza. Não foi fácil dessa vez,  o único encontrado pelas minhas pesquisas estava incompleto, então recorri a Adelaide, a nossa maruja garimpadora de perolas poéticas, para me ajudar. E aqui está o poema em Inglês completo: This is the female form , in  Leaves of Grass. 

This is the female form

A divine nimbus exhales from it from head to foot,
It attracts with fierce undeniable attraction,
I am drawn by its breath as if I were no more than a helpless
vapor, all falls aside but myself and it,
Books, art, religion, time, the visible and solid earth, and what was
expected of heaven or fear’d of hell, are now consumed,
Mad filaments, ungovernable shoots play out of it, the response
likewise ungovernable,
Hair, bosom, hips, bend of legs, negligent falling hands all dif
fused, mine too diffused,
Ebb stung by the flow and flow stung by the ebb, love-flesh swell-
ing and deliciously aching,
Limitless limpid jets of love hot and enormous, quivering jelly of
love, white-blow and delirious juice,
Bridegroom night of love working surely and softly into the pros-
trate dawn,
Undulating into the willing and yielding day,
Lost in the cleave of the clasping and sweet-flesh’d day.

This the nucleus—after the child is born of woman, man is born
of woman,
This the bath of birth, this the merge of small and large, and the
outlet again.

Be not ashamed women, your privilege encloses the rest, and is the
exit of the rest,
You are the gates of the body, and you are the gates of the soul.

The female contains all qualities and tempers them,
She is in her place and moves with perfect balance,
She is all things duly veil’d, she is both passive and active,
She is to conceive daughters as well as sons, and sons as well as
daughters.

As I see my soul reflected in Nature,
As I see through a mist, One with inexpressible completeness,
sanity, beauty,
See the bent head and arms folded over the breast, the Female
I see.

No ano anterior trouxemos Carlos Drummond de Andrade para homenagear a Mulher. Agora, em 2017,  revemos poema já lido anteriormente na Oficina,  de Vinicius de Moraes, A Mulher que Passa, uma entre várias celebrações desse poeta às mulheres.

A Mulher que Passa

Vinicius de Moraes

 

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Porque me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passa?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

O nosso companheiro de viagens, Everaldo Soares Júnior, levou para a Oficina um grande poeta: Ezra Pound, famoso pelos seus poemas e pela influência sobre escritores e poetas famosos como James Joyce, T.S Eliot e muitos outros cardeais da Literatura.

Júnior levou uma pequena biografia do poeta para que nos familiarizássemos um pouco mais com ele, até porque ficou muito marcado pela sua posição política, principalmente, durante um dos períodos mais negros da nossa história que foi a Segunda Guerra MUndial.

Americano, nascido em Halley, Idaho, cresceu perto da Filadéfia e formou-se na Universidade da Pensilvânia. Durante algum tempo foi professor e em seguida viajou pela Espanha, Itália e França. O primeiro livro de poesias ele  publicou em Veneza, em 1908. Mudou-se para Londres onde fez um círculo de amizade com escritores importantes como Ford Madox, James Joyce, Yeats, T.S.Eliot, Windham Lewis, influenciando todos eles. Nesse período, publicou Personae e Exultations e um volume de ensaios sobre o Romance. Participou como coautor de Revistas em Londres e depois em Paris, para onde foi morar. Data de 1920 a publicação de textos críticos sobre Literatura. Conhecedor da Literatura Ocidental e Oriental, Pound, associou-se ao movimento Imagista, do qual foi o líder durante algum tempo. A ideia que circunscrevia esse movimento era que o poeta deveria explorar de forma disciplinada as potencialidades da imagem e da metáfora., consideradas a essência da poesia.  As origens desse movimento se encontravam na poesia chinesa e japonesa, na poesia latina, em poemas de tradição medieval inglesa. Pound escreveu Cantos, publicados ao longo de 1917/1949, e inacabados, onde pretendia fazer uma versão moderna da Divina Comédia de Dante.

Ao se mudar para a Itália, em 1924, as suas posições teóricas sobre política e economia o associaram ao fascismo, tendo inclusive feito pronunciamentos antidemocráticos numa radio italiana, durante a Segunda Guerra Mundial. Devido ao seu comprometimento com o fascismo foi preso em 1945 e solto pela pressão internacional dos artistas, quando foi repatriado. A defesa usou como argumento para que fosse libertado, que ele era mentalmente incapaz. Por conta disso, ao ser repatriado ele ficou internado num hospital psiquiátrico em Washington. Quando a acusação de traição, enfim,  foi retirada, em 1958, Pound voltou à Itália e continuou escrevendo os seus Cantos  até 1972, ano da sua morte.

Considerado um dos maiores poetas do século XX,  título que divide com Maiakóvski, a sua obra lírica, erudita, carregada de citações e alusões históricas, renovou a linguagem poética. Sendo o primeiro líder do modernismo dos Estados Unidos, sua influência fez-se sentir inclusive na poesia da Geração beat, que levou a extremos a ideia poundiana de que o poema deve reproduzir a ordem natural da sintaxe de uma língua (falada) e não afastar-se demais da música ou da própria língua falada, já que o poema deve soar natural ao ouvido se lido em voz alta. 

Pound classifica três maneiras de escrever poesia: uma voltada para as suas qualidades sonoras, pela sua melodia (melopeia); outra voltada para as imagens, para o visual (fanopeia), e outra para o que ele chamou de “a dança das ideias”, (logopeia).  Ele continua presente na poesia, ultrapassando as fronteiras da Europa e da língua inglesa.  No Brasil, a sua influência foi percebida no grupo da Poesia Concreta, na defesa pela economia verbal, sendo o exemplo mais claro João Cabral de Melo Neto.

Aqui estão as poesias trazidas por Everaldo Júnior no original e traduzidas, a exceção de Salvação que não consegui encontrar:

Envoi (1919)

Ezra Pound – tradução de Augusto Campos

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

 

Envoi

By Ezra Pound

Go, dumb-born book,
Tell her that sang me once that song of Lawes:
Hadst thou but song
As thou hast subjects known,
Then were there cause in thee that should condone
Even my faults that heavy upon me lie
And build her glories their longevity.

Tell her that sheds
Such treasure in the air,
Recking naught else but that her graces give
Life to the moment,
I would bid them live
As roses might, in magic amber laid,
Red overwrought with orange and all made
One substance and one colour
Braving time.

Tell her that goes
With song upon her lips
But sings not out the song, nor knows
The maker of it, some other mouth,
May be as fair as hers,
Might, in new ages, gain her worshippers,
When our two dusts with Waller’s shall be laid,
Siftings on siftings in oblivion,
Till change hath broken down
All things save Beauty alone.

E ASSIM EM NÍNIVE

Ezra Pound – tradução de Augusto Campos

“Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

“Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

“Não é, Ruaana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.”

And Thus In Nineveh – Poem by Ezra Pound

Aye! I am a poet and upon my tomb
Shall maidens scatter rose leaves
And men myrtles, ere the night
Slays day with her dark sword.

‘Lo ! this thing is not mine
Nor thine to hinder,
For the custom is full old,
And here in Nineveh have I beheld
Many a singer pass and take his place
In those dim halls where no man troubleth
His sleep or song.
And many a one hath sung his songs
More craftily, more subtle-souled than I;
And many a one now doth surpass
My wave-worn beauty with his wind of flowers,
Yet am I poet, and upon my tomb
Shall all men scatter rose leaves
Ere the night slay light
With her blue sword.

‘It is not, Raana, that my song rings highest
Or more sweet in tone than any, but that I
Am here a Poet, that doth drink of life
As lesser men drink wine.’
Ezra Pound

SAUDAÇÃO

Ezra Pound – tradução de Mário Faustino

Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.

Foi um dia muito intenso na Oficina, além dos poetas referidos, lemos uma peça teatral de Moliére, As Preciosas Ridículas . Dividimos os papéis e ficou muito interessante a leitura, momento de descontração incrível por perceber o drama dos burgueses querendo apresentar uma cultura que eles não tinham.

Molière  (1622/1673) foi um dramaturgo francês, além de encenador e ator. Ele foi considerado um mestre no teatro, especialmente na comédia satírica que, até então, era muito dependente das tragédias gregas. Ele inaugurou uma nova forma de fazer teatro, em que a crítica aos costumes da época era a tônica. Foi considerado o fundador da Comédie -Française . As Preciosas Ridículas chamou a atenção da crítica para Moliére, mas não foi um sucesso absoluto, na época. Só muitos anos depois a peça começou a figurar entre as grandes obras do autor.

Não houve tempo para se discutir mais a peça nem o seu autor porque havia se esgotado o tempo e nem nos déramos conta.

Lourdes Rodrigues

 

 

Viagem Quarta pelo Riso

Às vésperas do Carnaval, os rufos dos tambores já sendo ouvidos muito próximos, a batucada no ar, a cuíca gemendo, alguns viageiros já alhures para não cederem a apelos tão fortes, nós navegantes que permanecemos a velejar vestimos as  fantasias e fizemos um carnaval literário com direito a muitos poemas, teatro e cantos. E festejamos a chegada do novo viageiro Sarmento que se diz disposto a enfrentar os mares das palavras com toda paixão que eles exigem. Salve, navegante! . 

O Momento Poético começou com Zodíaco,  de Daniel Lima, escolhido pela nossa viageira Adelaide Câmara que, infelizmente, não pôde estar presente  embora muito o quisesse. Só a saúde bombardeada por uma tosse inimiga atroz a impediria de ali estar para ela mesma ler o seu poeta. O poema escolhido fala mesmo do carnaval, do mês de fevereiro:

ZODÍACO
5 – Janeiro e fevereiro

                                                                                      Daniel Lima       

             E ao chegar fevereiro
             ainda serás imortal
            da trágica imortalidade dos palhaços
            das colombinas e dos arlequins.
 
                Fevereiro é o Brasil,
               já vem gingando.
             (e o que é gingar?
               Não perguntes,
           não se diz,
               não se explica:
                              só se vendo (ou se fazendo)
             Fevereiro desfila
                      gosta de ser fevereiro.
 
Ele se adora.
 
           E porque se adora,
              fevereiro samba e ri
              e se cobre todo de miçangas.
 
              Há borboletas que não vejo
                         no jardim de rosas que não tenho.
 
          Mas fevereiro cria
as rosas e o jardim
              e as borboletas.
 
                   Fevereiro não gosta de Scarlatti
               mas gosta de escarlate
                         e azul
                   e cores misturadas.
 
                  Fevereiro é ligeiro,
            um vôo de pássaro encantado,
                     um relâmpago no céu inesperado
                (o relâmpago e o céu),
                    o céu de fevereiro,
          a luz fugaz de um fósforo aceso.
 
            A alegria que levas de reserva
        colheste-a por certo em fevereiro,
         para queimá-la talvez a vida inteira.
 
               Mês leviano, essencial
                eterno e contingente.

               Fevereiro é geral, não te pertence.
         Universal riso puro
             de todos e ninguém.
 
          Fevereiro é Brasil.
       Viva Macunaíma!
      Ai, que preguiça!
     Do jeito que ora está
  Ninguém aguenta.
    Vou embora pra Bahia
Hoje mesmo,
Que ninguém é de ferro.
E a vida vai comigo.
E fevereiro fica.
Não te esqueças:
Dize:”adeus , fevereiro!”
E outra vez mais:
“Viva Macunaíma!
Ai que preguiça!”
                          Poemas,2011.

E os viageiros  quiseram saber mais de Daniel Lima. Nascido em Timbaúba, foi sacerdote, diretor da Gazeta de Nazaré, um Jornal literário de Recife durante mais de 20 anos, lecionou Psicologia e Filosofia na UFPE. Até 2011 havia escrito 27 livros, 13 de poesia e 14 de Filosofia. Modesto, recusava-se a publicar suas obras, uma de suas alunas levou os originais de Poemas para a CEPE que o editou. Com este livro ele conquistou o primeiro lugar no Prêmio Alphonsus de Guimarães da Biblioteca Nacional. Morreu às vésperas de completar 96 anos, em 2012.

 

Outros poemas de Daniel Lima:

Ao nasceres, tinhas o prefigurado rosto
Que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
No tempo singular de tua vida.
Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste.

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x

Minha mãe era feita de incertezas.
tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viajeiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
Vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus olhos,
nas mãos, nos gestos
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.
E eu perguntava coisas
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.
Minha mãe era feita de incertezas
mas, por certo, sabia o que queria.

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x

Nada será jogado no vazio.
Nem mesmo o vazio da vida,
porque é vida.

Nem mesmo o gesto inútil,
pois-que é gesto.

Nem mesmo o que não chegou a realizar-se,
pois-que é possível.

Nem mesmo ainda o que jamais se realizará,
porque é promessa.

E o próprio impossível
é vontade absurda de existir.
E nisso existe.

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x

Os pássaros são sábios.
Não discutem: cantam.
Cantar é o jeito mais puro de entender
a vida.

Em seguida foi lido o poema Apego, da nossa viageira-poeta Salete Oliveira:

Apego

Salete Oliveira

Ah pego
Apego
Afeição
Ah pego
Simpatia
Gosto
Ah pego
Amor
Enamorar-me
Ah pego
Zelo
Paixão
Ah pego
Admiração
Enternecimento
Ah pego
Porque não sou uma pedra
E mesmo as pedras,
Vestem-se de multicoloridos limos

Após o Momento Poético, dirigimo-nos ao teatro para assistir o poema lírico em formato de peça teatral Máscaras, de Menotti Del Picchia, que fala do encantamento de dois homens muito diferentes, Arlequim e Pierrot, por uma mesma Mulher, Colombina.

Paulo Menotti del Picchia, paulista (1892/1988), poeta, ficcionista, ensaísta, editor, jornalista, industrial, banqueiro, deputado estadual e federal, escultor.  Ficou conhecido ao projetar a Semana de Arte Moderna de 1922, da qual fez um diário na imprensa entre 20 e 30, tendo sido membro das Academias Paulista e Brasileira de Letras. Ao completar 85 anos, Menotti concedeu entrevistas das quais transcrevemos um trecho que pensamos traduzir bem a sua escrita:

Em matéria de arte não admito pressão externa: a arte deve ser pessoal, independente e livre; é ela que tira o ser humano da animalidade. (Folha de S.Paulo, 20 mar.1982).

O texto foi escrito em 1920 período  de extrema  efervescência cultural no Brasil. Os personagens, entretanto, já eram conhecidos, vieram da Commedia dell”arte,  século XVIII, na Itália, também chamada de Comedia de Ofício e Comédia Artesã porque nasceu nos berços da cultura popular, com roteiros simples,  os personagens usavam máscaras durante a encenação para não serem identificados. Tratava-se de uma espécie de resposta ao teatro clássico, ao teatro dos grandes e nobres salões. Na ocasião lemos um texto que falava de cada personagem, de como ele surgiu, de suas características Quem são o Pierrô, o Arlequim e a Colombina?

Na leitura da peça, Salete foi a Colombina que Paulo-Arlequim e Eleta-Pierrot tentaram conquistar.  Foi muito engraçado, principalmente quando Colombina se confessava em dúvida com qual dos dois ficar. Foram horas muito divertidas.

Após a leitura, Sarmento disse que sempre havia gostado muito do tema, embora jamais houvesse pesquisado sobre as suas origens, disse ter gostado muito das informações e análises que foram levadas naquela tarde. Ele, inclusive, falou de  uma marchinha de carnaval que havia feito há alguns anos, usando os personagens, e nós tivemos que insistir para que ele a cantasse..

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Lemos ainda trechos de um artigo que analisa sob o ponto de vista psicanalítico e um pouco literário este poema e dá uma breve biografia do seu autor, As máscaras de Menotti del’Picchia: Arlequim, o desejo − Colombina, a mulher − Pierrot, o sonho, de Stetina Trani de Meneses Dacorso. A epigrafe deste trabalho, retirada de uma música de Chico Buarque e Edu LObo, diz muito dos conflitos amorosos, triangulares ou não:

Mesmo sendo errados os amantes, 
Seus amores serão bons.
 
(Choro Bandido,Chico Buarque/Edu Lobo)

 

E encerramos nossos trabalhos.

Jaboatão dos Guararapes, carnaval de 2017.

Lourdes Rodrigues

 

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Viagem Terceira pelo Riso, por Juan Rulfo, digo, João Gratuliano

Registro de nosso encontro em 15 de fevereiro de 2017
por Juan Rulfo, digo, Gratuliano.

Vim a oficina porque me disseram que aqui vivia uma musa, uma tal de literatura. Minha amiga me disse.

Aquele era o tempo do verão, quando o ar de fevereiro sopra quente, envenenado pelo odor apodrecido dos esgotos do Recife. No portão Lu me recebeu com seu cordial boa tarde. Estou aqui esperando dona Lurdinha, para ajudar com as sacolas. Ela vem sempre tão carregada. A porta está aberta. Pode entrar.

Agora eu estava aqui, nesta sala ainda sem os risos. Ouvia meus passos caírem sobre a cerâmica que empedrava o chão. Meus passos ocos, repetindo seu som no eco das paredes tingidas pelo cartazes de seminários do Traço.

Naquela hora, fui andando para o meu lugar. Olhei as cadeiras vazias; apenas quatro estavam ocupadas: Everaldo, Eleta, Cacilda e Salete. Uma bolsa feminina indicava que mais alguém estaria por ali e não tardou para que Anita aparecesse com sua elegância habitual.

Lourdes telefonou nos autorizando a começar a leitura das poesias. Como era mesmo o nome daquele fulano que Eleta nos apresentou? Walt Whitman! Sim, esse senhor um tanto barbudo, que bem poderia ser Pedro Páramo…


Walt Whitman (Huntington, 31 de maio de 1819 – Camden, 26 de março de 1892) foi um poeta, ensaísta e jornalista norte-americano, considerado por muitos como o “pai do verso livre”. Paulo Leminski o considerava o grande poeta da Revolução americana, como Maiakovsky seria o grande poeta da Revolução russa.

Eleta fez uma bela introdução sobre o escritor. E lemos dois poemas curtos:

A um Estranho

Estranho que passa! você não sabe com quanta saudade eu lhe olho,
Você deve ser aquele a quem procuro, ou aquela a quem procuro, (isso me vem, como em um sonho,)
Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar,
Tudo é relembrado neste relance, fluído, afeiçoado, casto, maduro,
Você cresceu comigo, foi um menino comigo, ou uma menina comigo,
Eu comi com você e dormi com você – seu corpo se tornou não apenas seu, nem deixou o meu corpo somente meu,
Você me deu o prazer de seus olhos, rosto, carne, enquanto passamos – você tomou de minha barba, peito, mãos, em retorno,
Eu não devo falar com você – devo pensar em você quando sentar-me sozinho, ou acordar sozinho à noite,
Eu devo esperar – não duvido que lhe reencontrarei,
Eu devo garantir que não irei lhe perder.

To a Stranger

Passing stranger! you do not know how longingly I look upon you,
You must be he I was seeking, or she I was seeking, (it comes to me, as of a dream,)
I have somewhere surely lived a life of joy with you,
All is recall’d as we flit by each other, fluid, affectionate, chaste, matured,
You grew up with me, were a boy with me, or a girl with me,
I ate with you, and slept with you—your body has become not yours only, nor left my body mine only,
You give me the pleasure of your eyes, face, flesh, as we pass—you take of my beard, breast, hands, in return,
I am not to speak to you—I am to think of you when I sit alone, or wake at night alone,
I am to wait—I do not doubt I am to meet you again,
I am to see to it that I do not lose you.

A Você

Estranho! se, ao passar, você me encontrar e desejar falar comigo, por que não falar comigo?
E por que eu não falaria com você?

To You

Stranger! if you, passing, meet me, and desire to speak to me, why should you not speak to me?
And why should I not speak to you?

Chegaram nesse meio tempo, Saló, Lourdes e Luzia carregando a tal bagagem que Lu estava esperado para ajudar.

Dando continuidade ao Momento Poetico, Anita lembrou que o Riso, tema dos nossos trabalhos este ano, também faz poesia e leu o Poema Matuto, Eu e Maria:

POEMA MATUTO

*DO LIVRO ‘CANTIGAS QUE VÊM DA TERRA”

EU E MARIA

Nasci no sítio Belém
Lá nasci e me criei
E desde novo eu jurei
De num casar com ninguém
Por arte num sei de quem
Com Maria me encrontei
Quebrei tudo que jurei
Passei dois mês namorano
Passei três me ajeitano
Com quatro mês me casei
Me casei com muita fé
Mas pro pintura do diacho
Lá perto morava um macho
Inludidô de muié
Um tal de Joca Romeu
E esse um dia apareceu
No rancho que nós vivia
Com um jeitão muito estranho
Um oiá desse tamanho
Reparando pra Maria
Depois de um mês de casado
Eu notei que tinha um sócio
Ela inventou um negócio
De nós drumir apartado
Inventava um bucho inchado
Dô de cabeça e de ouvido
Um tal de corpo doído
Umas fireira no pé…
Essas manha de muié
Que quer dexá o marido
Eu só vivia dizeno:
Talvez nunca me acostume
Eu morrendo de ciúme
E os amô dela cresceno
Sempre aquelas coisa, eu veno
Ela toda diferente
Ele metido a valente
E pra terminar a novela
Tratou de vim buscá ela
Na outra noite da frente
Inda vi eles sainno
Ele perguntou por mim
Ela arrespondeu assim:
O bestaião tá drumino
Eu aquelas coisa ouvino
Fui me levantei também
Ela dizia: Ele vem
Mas num vá temê acocho
Que aquele meu véi é frôxo
Nunca brigou com ninguém
Isso era de madrugada
Quaje amanheceno o dia
Quando eu oiei, eles ia
Já descambando a chapada
Larguei os pés na estrada
Pra ver se ela me atendia
Gritava: Vem cá, Maria
Vorta pronde tu morava!
Mas quato mais eu gritava
Mais a danada corria
Mas sabe o que aconteceu
Com a vida de nós dois?
Com uns dez anos depois
Maria me apareceu
Deixou o Joca Romeu
Voltou toda diferente
Com oito fios na frente
Uns com tosse, outros com gogo
E eu tenho comido é fogo
Pra sustentar tanta gente

*Lançado em 2002 por Geraldo Amâncio e Wanderley Pereira

Após os poemas contamos algumas piadas, rimos muito, mas a coordenadora colocou ordem na casa. Fizemos uma rápida reprogramação da agenda e deixamos a leitura de As Preciosos Ridículas para o próximo encontro.

Lemos um conto de humor, O homem que nem é dental, de João Gratuliano (estranho falar de si mesmo na terceira pessoa) e depois lemos Ele? de Guy de Maupassant. Júnior fez ótimas pontuações sobre a doença que afligiu Guy.

Salete comentou sobre a sessão de leitura do livro de Anita e comentou que pelo prefácio havia descoberto um João Gratuliano menos irônico e mais romântico. E me desafiou a mostrar esse lado. Então eu aproveitei que a audiência estava pequena. Everaldo e Saló já tinham vazado, e li um do meu vasto repertório de três ou quatro poemas meu.

Assim nos despedimos no clima habitual de alegria entre os leitores e escritores de boa vontade. Fomos em paz e que Clarice nos acompanhe.

Viagem Segunda pelo Riso

 

*Anita Dubeux

Esta postagem refere-se à nossa segunda viagem , a que foi realizada no dia 08 de fevereiro de 2017, após zarparmos do cais de nossa maruja Adelaide Câmara, onde fomos recebidos com muitas guirlandas e delicioso banquete.

Ancoramos no Traço Freudiano para mais um encontro de confraternização literária que iniciou com a leitura do cordel de autoria da viageira Salomé, escrito num momento muito especial de sua vida, em 2009,  e que ela dedicou ao marido. Trata-se de um belo e pungente cordel, porque fala do resgate do sorriso  que se perdeu em consequência de uma grande perda.

O RISO PEDE PASSAGEM

**Salomé Barros

Sessenta e três bem vividos
Trinta e sete para cem
Na caminhada da vida
Não sobra para ninguém
E mantendo o alto astral
Vai virar Matusalém

Com esse humor escrachado
Palhaçadas a granel
São tantas as trapalhadas
Que não cabem num cordel
Já conquistou doutorado
E até virou coronel

A manutenção do riso
Faz bem, é fundamental
Existir o ano todo
E não só no carnaval
No seu caso, sobretudo
É energia vital

Não permita que a tristeza
Invada o seu coração
Ela entra atravessada
Errada e na contra mão
Se você não der guarida
Some feito um furacão

Você escolhe na vida
De que lado quer ficar
Altos e baixos existem
Pra gente se equilibrar
Na corda bamba dançando
O riso a contagiar

Em seguida eu li dois poemas de Esman Dias, bem como uma breve biografia desse grande poeta que nos deixou em 2015. Foram eles:

 

FUSÃO

Santo Anjo do Senhor
Tyger! Tyger! burning bright
Meu zeloso guardador
In the forests of the night
Se a Ti me confiou
What immortal hand or eye
A piedade divina
A divina piedade
A mão, o olho imortal
Que deu forma e simetria
Terrível, meu Anjo, Tigre
A Ti, labareda clara
Dá-me teu fogo claro e me incendeia!
Dá-me tua espada à noite e me defende!
Meu santo Anjo do Senhor, meu Tigre!
E minha espada, espada, espada, espada!

 

ALUVIÃO 

Com as mesmas palavras
Girando ao redor do sol
Que as limpa do que não é faca.
João Cabral de Melo Neto

 

Parto in time aspre, et di dolcezza ignudo.
Petrarca

 

Falo do que não falo quando falo:
falo do meu silêncio,
bem mais claro
que as vozes incessantes dos que falam.
Falo do que não falo: do que sou:
bicho da terra — surdo — e mau cantor.
Falo do que não falo: tão pequeno
a destilar a noite o seu veneno.
Falo, não para o mundo dos sentidos:
falo somente para o inteligível.
Falo do que percebo: coisas claras
aéreas superfícies, copos d’água.
Falo na muda fala da batuta,
clara e precisa, do maestro à música.
Falo da pedra dura, da aspereza
de pedra sobre a pedra desta mesa.
Falo de mim em tudo de que falo.
Falo dos meus espelhos, quando calo,
Falo como quem vai a julgamento
sem esperar o indulto do seu tempo.
Falo com a voz alheia que me toca.
Falo e regresso — ileso — à minha toca.

 

Breve biografia do poeta:

ESMAN DIAS nasceu no Cariri – sertão da Paraíba. Ainda criança veio com os pais para Pernambuco. Morou em Olinda até a adolescência e desde então mora no Recife. Seus primeiros poemas foram publicados no Diário de Pernambuco e no Jornal do Commercio, em 1963. Em 1964, publicou “Os Retratos Marinhos”; em 1965, com Everardo Norões e Orley Mesquita, participa da coletânea “Clave”, ilustrada pelos artistas plásticos Anchises Azevedo, João Câmara, José Cláudio e Reynaldo Fonseca. Também em 1965, em parceria com Orley Mesquita, assina a coluna “Poesia e Tempo”, no Jornal do Commercio. Com Alberto da Cunha Melo colabora na realização do documentário “Simetria Terrível”, dirigido por Fernando Monteiro. Vários de seus poemas foram traduzidos para o francês e publicados na coletânea Recife/Nantes. Participa da antologia “46 Poetas Sempre”, organizada por Almir de Castro Barros. É professor de Literatura Anglo-americana no Departamento de Letras da UFPE e foi professor visitante da Universidade de Birmingham, no Alabama e na Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign.

Muito riso provocaram as tirinhas humorísticas selecionadas para o encontro: As Rebordosas, Garfild, Ferrato Pessoa.

O conto AMOR, do autor persa SAADI, poeta e contista “divino” que viveu no período de 1184 – 1291 — em tradução primorosa de Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Holanda — ensejou intensa polêmica e interpretações as mais diversas. Promete ser objeto de muitos escritos dos viageiros.

Trata-se da história de amor de uma ratinha por um gato, que vivia em uma mesquita abandonada, e  que quase havia sido dizimada todos os ratos que por ali viviam. Aparentemente a ratinha é porta-voz dos ratos sobreviventes para tentar convencer o gato a se mudar do local. Mantendo certa distância, para não tornar-se o seu alvo, a ratinha tenta conversar  e acaba se apaixonando seriamente por ele. Vamos aguardar as resenhas que advirão.

Continuando o encontro, foi lido o segundo capítulo do conto de Bergson, O RISO, abordando o tema do humor do ponto de vista psicanalítico.

O navio permanece ancorado, à espera do próximo encontro.

* Anita Dubeux é economista, poeta, ensaísta, contista. Brevemente terá um livro de poemas, Círculo de Seda, publicado pela Chiado Editora, de Lisboa.

** Salomé é psicóloga, cordelista, cronista.

 

 

 

 

 

 

 

Do Riso ao Trágico: Um Mar de Palavras

Embarcamos para a primeira Oficina de 2017 do cais da nossa maruja Adelaide Câmara, onde fomos recebidos com muitas guirlandas.Destaque para as coxinhas e lolitas que Paula nos preparou. Quase todos viageiros estavam presentes, exceções muito sentidas de Paulo, que se recuperava de uma gripe, e de Gratuliano que viajou para dar conta de afazeres inadiáveis com a sua fazenda.

Começamos com a Saudação Poética da nossa anfitriã, Adelaide, que leu o poema de Cecília Meireles, Canção.  É um belo poema  que fala de um sonho posto num navio que o proprio sonhador usa a mãos para fazer naufragar, disposto a chorar todo choro que for preciso para que o navio chegue ao fundo do mar e então “tudo estará perfeito: praia lisa, águas ordenadas,/meus olhos secos como pedras/
e as minhas duas mãos quebradas”. Muito triste.Tão belo quanto triste, eu diria

CANÇÃO
Cecília Meireles

Pus o meu sonho num navio
E o navio em cima do mar;
-depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Adelaide leu ainda um texto muito interessante de Augusto Abelaira, Requiem pelo ponto de Exclamação. Ele começa falando da particularidade da língua portuguesa ao dispor da palavra saudade, perguntando se os outros povos ignoravam o sentimento saudade e se quem não sabe nominar pode dispor do sentimento. E por aí segue… Leitura agradável, humor fino. O texto vai para a nossa biblioteca para quem se interessar pela leitura.

Iniciamos o humor daquela tarde com François Rabelais, mais precisamente com a leitura dos capítulos III a VII de Gargântua e Pantagruel . Realismo fantástico, absoluto. Gargântua após onze meses no ventre da mãe resolve nascer justo no dia em que ela se empanturrou de dobradinha (tripas de bois engordaddos no estábulo, segundo o autor), apesar dos protestos do marido, comendo dezesseis tonéis, uma pipa e seis alqueires. Ó bela matéria fecal que devia se formar dentro dela!  Não deu outra, depois do excesso gastronômico ela começou a sentir dor, a se lamentar e a gritar, aparecendo parteiras de todos os lados que ao a apalparem encontraram aparas de pele, fétidas, que eram os fundos que se lhe escapavam. Diante dessa situação, a parteira velha experiente deu um restringente tão forte que todas as peles ficaram tão apertadas e cerradas que pelas zonas baixas não passavam mais nada.  A passagem encontrada pela criança para sair foi pelos cotilédonos da matriz, seguindo pela veia cava, trepando pelo diagragma até acima dos ombros, onde a dita veia se divide em duas, tomou caminho à esquerda e saiu pela orelha sinistra. E ao nascer, não chorou como as outras crianças,  mas exclamou em voz bem alta: “Beber, beber, beber!”

Escatologia e realismo fantástico neste obra excelente do escritor francês, que tornou-se um clássico da literatura, inovando o fazer literário do humor. O dialógo dos bêbados é perfeito.São vários homens falando ao mesmo tempo, as conversas mais desencontradas e hilárias que se possa imaginar. Muito bom. A nossa colega Roberta Aymar, na ocasião, fez uma fala com uma sintese de Rabelais, muito interessante.A nosso pedido, ela está elaborando uma biografia do autor para dividir com os marujos e neste blog.

Após Rabelais, lemos um resumo que eu fiz do primeiro capítulo de Henry Bergson sobre O Riso, autor citado em todos os estudos sobre o humor. Filosófo e diplomata francês, ele ficou conhecido por vários trabalhos publicados, entre eles,  O RisoEnsaios sobre os dados imediatos da consciência, Matéria e Memória, A evolução criadora e As duas fontes da moral e da Religião.  O Riso foi publicado em 1899. Ele teve vários seguidores, entre os quais, Gilles Deleuze.

Bergson inicia o ensaio o perguntando o que é o riso? O que há de fato na essência do risível? O que há de comum entre uma careta de palhaço, um jogo de palavras, um qüiproquó de vaudeville, uma cena de comédia fina?  Então, ele cita três observações fundamentais para entender  a questão.

A primeira delas é que a comicidade é do humano. A natureza, os objetos não apresentam comicidade sem a ação do homem, sem a expressão humana.Eles em si não são risíveis.Rimos de um chapéu; mas então não estamos gracejando com o pedaço de feltro ou de palha, mas com a forma que os homens lhe deram, com o capricho humano que lhe serviu de molde.

Os filósofos definiram o homem como um animal que sabe rir. Bergson diz que eles deveriam também ter definido o homem como um animal que faz rir, pois, se algum outro animal ou objeto inanimado consegue fazer rir, é devido a uma semelhança com o homem, à marca que o homem lhe imprime ou ao uso que o homem lhe dá.

Outro ponto ressaltado por Bergson é a insensibilidade que acompanha o riso. Para êle o cômico só produzirá comoção se cair sobre uma superfície d’alma serena e tranquila. A indiferença é o seu meio natural. O maior inimigo do riso, diz Bergson, é a emoção, o que não significa que não se possa rir de quem temos piedade ou afeição. Para que o riso possa acontecer será necessário colocar em suspensão, mesmo que por apenas alguns instantes, qualquer piedade ou sentimento de afeição.

Numa sociedade de puras inteligências provavelmente não mais se choraria, mas talvez ainda se risse; ao passo que almas invariavelmente sensíveis, harmonizadas em uníssono com a vida, nas quais qualquer acontecimento se prolongasse em ressonância sentimental, não conheceriam nem compreenderiam o riso.
Que o leitor tente, por um momento, interessar-se por tudo o que é dito e tudo o que é feito, agindo, em imaginação, com os que agem, sentindo com os que sentem, dando enfim à simpatia a mais irrestrita expressão: como num passe de mágica os objetos mais leves lhe parecerão ganhar peso, e uma coloração grave incidirá sobre todas as coisas. Que o leitor agora se afaste, assistindo à vida como espectador indiferente: muitos dramas se transformarão em comédia. Basta taparmos os ouvidos ao som da música, num salão de baile, para que os dançarinos logo nos pareçam ridículos.
(…) Portanto, para produzir efeito pleno, a comicidade exige enfim algo como uma anestesia momentânea do coração. Ela se dirige à inteligência pura.

Outro aspecto levantado por Bergson é que nosso riso é sempre o riso de um grupo. O riso precisa de eco: Não saborearíamos a comicidade se nos sentíssemos isolados. Ele cita exemplo das pessoas que em viagem ou à mesa de hospedarias ouvem histórias que parecem muito cômicas para os que estão ali, pois os fazem rir o tempo todo e com muito gosto, mas que eles não conseguem alcançar a razão para tanto riso. E ele citou o exemplo do homem que não chorava num sermão em que todos choravam profusamente e quando lhe perguntaram porque não chorava ele respondeu: “Não sou desta paróquia.” Ele diz que isso é ainda mais verdadeiro quando se refere ao riso, porque Por mais franco que o suponham, o riso esconde uma segunda intenção de entendimento, eu diria quase de cumplicidade, com outros ridentes, reais ou imaginários.

Enfim, Bergson diz, para compreender o riso é preciso colocá-lo em seu meio natural, que é a sociedade; é preciso, sobretudo, determinar sua função útil, que é uma função social. O riso deve ter uma significação social.

Foi uma bela tarde em que não faltaram as anedotas, as tirinhas e charges, e ainda as gostosas coxinhas e lolitas feitas por Paula, muito bem registrados por Adriana Câmara.

Lourdes Rodrigues

Programação 2017 – 1º trimestre


​Viageiros e viageiras,

o cheiro da maresia já nos convida ao mar, vamos içar as velas e partir? Marujos, estiquem as canelas, encham os seus baús que é hora de embarcar.

Excepcionalmente, o cais de embarque será o da nossa querida maruja Adelaide Câmara, que inaugurará a nossa viagem, quebrando o champagne da partida. É importante que todos os que forem embarcar na quarta-feira avisem para que ela nos receba com todas as guirlandas necessárias.

Na Carta de Navegação está escrito Do Riso ao Trágico: um mar de Palavras. Sim, serão muitas mil milhas a navegar para dar conta dessa Carta de Marear, com a licença poética de nossa viageira Roberta Aymar. As aliterações estão aí para acordar  nossos poetas que rangerão os dentes ao lê-las.

Bom, para darmos conta de tal roteiro precisamos conhecer um pouco mais da hidrografia do Riso. Afinal, o que vamos encontrar? O grande timoneiro Ariano Suassuna disse: No meu entender o ser humano tem duas saídas para enfrentar o trágico da existência: O sonho e o riso. E o bruxo do Cosme Velho foi ainda mais enigmático ao referir-se a ele : Há pessoas que não sabem, ou não se lembram, de raspar a casca do riso para ver o que há dentro.

É importante que todos conheçam o plano traçado e que façam as suas propostas de correções de rumo antes ou durante a viagem. Ei-lo:

Ementa:

Saudação Poética – O Momento Poético iniciado em 2016 tornou-se essencial para a nossa viagem pelos mares das palavras. Além de estimular a criação poética particular dos poetas embarcados, encantou os viageiros de tal forma que todos eles levaram seus poetas preferidos para apresentá-los aos companheiros.

Carrossel Literário – O compartilhamento de livros embora tenha perdido um pouco de espaço para a saudação poética em 2016, continua importante para a transferência literária entre os participantes, tanto pela identificação de interesses como pela ampliação do conhecimento de autores ainda não conhecidos.

Escrita Criativa – O estímulo à criatividade em 2016 resultou na publicação de Escrituras III. Novos estímulos serão oferecidos em 2017 como faíscas para incendiar a criatividade dos marujos, desde o conto infantil a desafios e jogos de releituras e recriações.

Leitura Crítica – A opção pelos textos curtos (contos) tornou intensa a movimentação literária em 2016, culminando com a produção de muitas resenhas e algumas releituras. Assim, vamos intensificar este ano a leitura de contos.

Leitura Informativa –  Ensaios sobre o riso, a comédia, a farsa, técnicas literárias.

HQs ou Charges – A inovação das tirinhas de quadrinhos e charges para a nossa viagem, além de buscar o riso, contribuirá para a construção de Personagem, para a análise da crítica social e política.

Composição do Romance Coletivo – Iniciado em 2015, não caminhou em 2016. Os marujos deverão bater o martelo se devem continuar ou parar.

Objetivo geral:

Buscar o riso na Literatura, como expressão maior de uma sociedade, desde os gregos, romanos, até os tempos atuais, tentando apreender sua complexidade, grandiosidade, abrangência e, principalmente, sua interface com a dor, a tristeza, a tragédia.

Objetivos específicos:

• Contatar o seu eu mais profundo pela leitura de poemas na Saudação Poética;
• Compartilhar obras literárias relevantes no Carrossel Literário;
• Desenvolver o fazer literário diferente, fugindo do convencional, da mesmice, dando asas céleres ao absurdo e inimaginável com a Escrita Criativa;
• Realizar a Leitura Crítica  de textos literários, preferencialmente formas breves, desconstruindo a hegemonia da história aparente pela identificação da história contada em paralelo;
• Estimular a realização de resenhas e resumos dos textos lidos, a partir da leitura crítica particular e dos instrumentos de análise literária;
• Compartilhar tirinhas em quadrinho e charges para análise de personagem, identificação de objetivo, natureza;
• Participar como crítico ou autor da construção coletiva do Romance Coletivo iniciado em 2015;
• Alimentar o blog da Oficina com a produção dos participantes;
• Desenvolver projeto de publicação da Oficina.

PÚBLICO ALVO:

Interessados em desbloquear a escrita, viajar pelo riso através da Literatura, do mistério e deslizamento das palavras formando novos sentidos; escritores e críticos literários movidos pelo desejo de escrever e ler.

METODOLOGIA:

• Leitura de poema no início dos trabalhos de três das quatro quartas-feiras;
• Exercícios de escrita para estimular a criatividade. Iniciaremos com a provocação com texto infantil. Os textos produzidos serão lidos e comentados.
• Leitura crítica de contos que desafiem a percepção crítica e as emoções dos participantes, de acordo com o tema trabalhado. Iniciaremos com um Conto Infantil e um Conto Sobre o Riso. As resenhas elaboradas serão lidas e comentadas.
• Apresentação de tirinhas de quadrinho ou charges.

RECURSOS DIDÁTICOS :

Trabalhos em grupo e individual de escrita, utilizando papel e caneta, computador ou tablet. Leituras de poemas e contos no notebook, tablet, celular ou impressos.

PERIODICIDADE:
Toda quarta-feira de 14h:00min às 16h:00min.

LOCAL E CONTATOS:

Excepcionalmente, na casa da nossa querida maruja Adelaide, que ainda se recupera de alguns problemas de saúde.
Depois, no Traço: Rua Alfredo Fernandes, 285, Casa Forte, CEP-50060-320 –  Recife- PE –Fone: 3265-5705 (Luciene)

www.traco-freudiano.org/blog ou oficinaclaricelispector@googlegroups.com.br

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Bibliografia inicial:

O riso, Henri Bergson
Gargantua e Pantagruel, François Rabelais
Batracomiomáquia, Homero
Amor, Saadi
O Misantropo, Menandro
O Humor Judaico, Abrasha Rotemberg
Humor (temas abordados na Palestra do J. Maestro)
Alice Através do Espelho, Lewis Carol

Aguardo vocês  com ansiedade no ancoradouro.

Lourdes Rodrigues