Cacilda Becker, fúria santa ou santa fúria

FÚRIA SANTA OU A SANTA FÚRIA DE CACILDA BECKER*

Lourdes Rodrigues

Fúria Santa, a biografia de Cacilda Becker, escrita por Luís Andrade do Prado, estava numa pilha de livros do meu marido, à espera de oportunidade para ser lida, quando eu a encontrei. Retirei-a da fila humilhante e disse: esta aqui eu vou ler primeiro! Nem perguntei se poderia, talvez por receio de ouvir um não, tão encantada que eu ficara com a possibilidade de ler sobre a mulher que se tornara mito na dramaturgia brasileira. A capa, uma bela imagem da atriz quando representou Antígona, de Jean Anouilh, personagem criada por Sófocles que sempre me emocionou pela força, determinação, coragem e beleza. Não foi à toa a escolha daquela capa, com certeza.

À medida que eu ia lendo, me dava conta da qualidade da escrita, tão rara quando se trata de biografia. Muitas vezes o biógrafo, na ânsia de escarafunchar a vida da sua vítima, se descompromete por completo com o estilo, a forma ou mesmo com o português. São livros abandonados, mesmo pelo praticante de voyeurismo de celebridades, porque após o consumo, nada sobra.

Cacilda Becker – fúria santa é uma biografia diferente. Guarda a força e a seriedade documental, pelo registro de uma parte importante da história da arte cênica no país, além de sua relevante qualidade literária. Ela veio para servir de referência à trajetória do teatro brasileiro, contextualizado por cenários socioeconômicos e políticos. E tudo contado com muita mestria, usando artifícios próprios de um ficcionista maduro. Desde o prólogo se percebe isso. Ao usar várias visões para contar o momento em que Cacilda Becker sente-se mal e é socorrida no teatro, entre o primeiro e o segundo ato da peça Esperando Godot, de Samuel Beckett, Luís Carlos Prado deu uma jogada de mestre, demonstrando que o seu objetivo não era registrar o fato como ele ocorreu, na triste e pretensa tarefa do historiador que se engana pensando existir uma verdade a ser contada. Tem-se a impressão de que ele quis mostrar como cada um, do lugar em que se encontrava, viu aquele momento. Lugar aqui entendido como espaço físico (no teatro) e emocional (na relação com a atriz), num resgate possível das emoções daquele dia. As lembranças do filho, Cacá, quase quarenta anos depois (data do depoimento), ainda revelam sentimento de culpa por ter deixado a mãe almoçar sozinha naquele dia, para ir se encontrar com a namorada. E ao ouvir a mãe reclamar de dor de cabeça no teatro, veio-lhe imediato à mente: Sua mãe vai morrer, sua mãe vai morrer. A estudante que estava no teatro para assistir a peça como tarefa da escola (tratava-se de uma matinê só para estudantes), que jamais havia  visto Cacilda Becker antes e nem mais a veria depois, é a única que diz ter percebido a atriz cambalear ainda no primeiro ato. Da longa espera para segundo ato até o aviso de que ela havia passado mal e passarem com ela para uma ambulância, ela  diz: Não deu para ver bem, foi muito rápido e estávamos bagunçando. Mas naquele momento ficou todo mundo quieto e assustado. Marília Pera, jovem atriz, na época, viu tudo com o seu olhar dramático e faz relato emocionante de Cacilda Becker sendo carregada nos braços do palco para a platéia, ainda vestida com o terninho de Estragon (o seu personagem na peça), o braço caído, a mão, os dedos esbarrando pelas cadeiras. Era como se ela estivesse tentando se segurar ou se despedir daquele lugar. O relato mais detalhado fica por conta de Líbero Ripoli Filho, ator da peça, que conta ter levado a atriz nos braços para a ambulância e no caminho, percebendo que ela estava com dificuldade para respirar, atribui ao nariz de palhaço que a atriz ainda estava usando, e pede para ela o retirar, e ao entregá-lo ela diz: Guarda para mim, como se fosse voltar logo.

São sete depoimentos, inclusive, o do ex-marido e companheiro de teatro Walmor Chagas que encurta tanto a sua contação que parece ainda não acreditar no que aconteceu naquele dia. Cada um contou a sua versão, do jeito que ela está na sua lembrança após todas essas décadas. O autor usou nas quase seiscentas páginas, sempre que possível, os depoimentos das pessoas entrevistadas para contar a história da atriz e do teatro, pessoas que conviveram com ela, familiares, vizinhos, conterrâneos, amores, colegas, diretores, dramaturgos.

No último capítulo, Godot Chegou, Luís André de Prado começa com o trecho final do primeiro ato da peça que finaliza com a frase de Estragon/Cacilda: Então, vamos? (Esta frase, inclusive,  abre o capítulo dos sete depoimentos) e Vladimir/Walmor responde: Vamos, para dar continuidade à cena do primeiro capítulo quando Cacilda é levada de ambulância para o hospital, retornando ao momento trágico da atriz, usando da forma circular para contar a história.

Nos dezoito capítulos anteriores ele volta para o começo, para as origens dos Becker e Yaconis, para o caminho percorrido pela atriz desde a menina pobre, apaixonada pela dança – quem sabe sonhando um dia ser tão grande quanto Isadora Duncan, seu paradigma criador somente conhecido muitos anos depois –  e encher os palcos com a sua dança criativa,  até a grande atriz de teatro na qual ela se tornou, um mito da dramaturgia brasileira. A pesquisa do autor o levou ao tataravô de Cacilda Becker, por volta de 1780, na Alemanha, ao conde Von Becker, a linhagem nobre de ascendência da atriz pelo lado materno, cujo neto, Carlos Henrique, quase um século depois, não mais conde e sim ferreiro, o que denota o empobrecimento da família, migrou para o Brasil com a esperança de prosperidade. A ascendência paterna o autor foi buscar na Calábria e Grécia, origem dos Yaconis que migraram para o nosso país, possivelmente na mesma época dos Becker. Questões ligadas à colonização alemã e italiana e ao cenário sociopolítico e econômico dos imigrantes são trazidas com muita competência.

A arte na vida de Cacilda Becker, o autor foi garimpar na fala da atriz: Desde cedo mamãe se incumbiu de despertar em mim o gosto pela arte, porque ela era uma mulher irrealizada. A mãe costumava ligar o gramofone movido a manivela e colocar a filha em cima de uma mesa, onde lhe ensinava alguns gestos: Tenho memória de dançar com o véu de noiva de minha mãe, em cima de uma mesa; Eu era – imagine – tão pequena e a mamãe me ensinava a compor os gestos. Incentivada ou não pela mãe, a verdade é que a menina já levava jeito desde tenra idade. Durante muitos anos, ela fez da dança o seu objetivo, buscando apoio e técnicas, porém sem jamais entrar em aulas formais de balé, usando, essencialmente, a criatividade para se expressar.

O autor recompôs a longa caminhada de Cacilda Becker até chegar ao teatro, descrevendo suas tentativas de fazer carreira como bailarina. Há dois momentos grandiosos desse período, registrados pela imprensa, anunciando a grande estrela que ela viria a ser: a sua primeira apresentação, em carreira solo, no palco; e a última récita, como bailarina, no final de 1939. Da primeira, A Tribuna registra, em out/38:

Em Santos, uma jovem bailarina vae apparecer em público, officialmente, pela primeira vez. Cacilda Becker é uma linda moça. A dansa não é para Ella prenda gentil de menina rica. Dansa porque nasceu dansarina, porque tem no jovem coração occultas melodias e rythmos musicaes no corpo airoso. (…) Dansando para os seus conterrâneos, Cacilda Becker vae, é quase certo, dar-lhes o praser raro de assistir ao desabrochar de uma flor preciosa, ao fulgir primeiro de uma nova estrella.”

Da segunda, O Diário comenta, em nov/ 1939:

“Cacilda vive o que dansa. Suas mãos ganham formas subtilíssimas e seu corpo sabe descrever, em meneios e movimentos agitados, a angustia de um ser que soffre ou o requebro de uma alma em festa. No Bailado das Sombras Felizes, envolta em crepe cinza, revoluteando pelo palco com extrema elegância; na Valsa Triste, de Sybellius,parecendo uma mãe em prece deante do berço do filho enfermo;na Oração a Deus Oriental, em que apparece como provocante odalisca e, finalmente, no Samba Estilizado, que teve nella uma baiana cheinha de balangandãs.”

A atriz estava ali, no palco, desde sempre.

O autor seguindo as pegadas da atriz nos anos quarenta vai localizar a entrada de Cacilda Becker no teatro, mais precisamente no TEB – Teatro do Estudante do Brasil, pelas mãos do seu amigo e incentivador Miroel Silveira que, segundo o biógrafo, já estava certo de que a carreira de bailarina da amiga não tinha futuro. Ele se refere à dificuldade enfrentada por uma bailarina, pouco convencional, para se manter com tal profissão. Cacilda Becker era muito pobre, sabia muito bem o que era passar fome, além de ter de garantir a própria sobrevivência, cabia-lhe colaborar com a renda da família. Não, não, ela não podia se dar ao luxo de uma profissão assim. A frase de Cacilda Becker, que o biógrafo foi buscar, entretanto, demonstra o quanto ela tinha consciência de sua capacidade artística: Eu deveria abdicar e não me desperdiçar como artista; teria que trocar de arte. Até aquele momento, ela jamais havia pisado num teatro fosse para assistir uma tragédia, ou uma comédia, e ela ficou muito surpresa quando Miroel lhe disse ser o teatro o único meio pelo qual ela poderia assumir totalmente a sua vida artística.

O livro é riquíssimo em detalhes sobre a vida de Cacilda Becker no teatro, desde 1941, até a sua última cena, em Esperando Godot. Não foi um caminho fácil, ela parecia ter todas as características que um ator de teatro não poderia ter: respiração curta, voz metálica, dicção acentuada, baixo peso, lutando arduamente para se manter nos 47 kilos, numa época em que as mulheres cheiinhas eram as preferidas. No entanto, a forma como investia nos personagens, o jeito que os representava, eliminava todas as suas fraquezas, subjugando totalmente o personagem à sua interpretação. Décio de Almeida Prado, um dos mais conceituados críticos daquela época, escreve no Estadão que Cacilda Becker, na peça Entre Quatro Paredes, de Jean Paul Sartre, não tinha a voz nem o físico ideal para interpretar o papel de Inês, a lésbica, mas que havia superado com o espírito tais dificuldades, forçando vitoriosamente os limites da própria personalidade. Numa entrevista Cacilda Becker disse:

“Ate que ponto eu penetro dentro de uma personagem e ela dentro de mim, não é fácil dizer. Em poucos momentos eu e a personagem nos tornamos uma coisa só – artisticamente – e daí uma permanente insatisfação. Persigo essa fusão com a personagem, quase uma osmose, e quando ela não vem sinto-me frustrada. (…) Sou um instrumento da minha própria arte, sou o meu próprio violino.

Assim a reconheceu Carlos Drummond de Andrade em seu poema quando de sua morte: A morte emendou a gramática./ Morreram Cacilda Becker/Não era uma só. Era tantas. E o poeta enumera: Professorinha pobre de Pirassununga/Cleópatra e Antígona/Maria Stuart/Mary Tyrone… E o poema segue enumerando tantas Cacildas…

Fúria Santa é um livro para ser lido e relido por todos aqueles que amam o teatro e querem saber sobre ele na década de quarenta, cinqüenta e até quase os anos setenta. A obra recompõe as dificuldades que os atores e produtores vivenciavam nos palcos do Rio de Janeiro, celeiro do teatro brasileiro, ali ele começou e desabrochou. Todas as peças que foram montadas, o empenho dos atores, as respectivas críticas estão cuidadosamente detalhadas. Os movimentos teatrais TEB, GUT, TBC. As inovações, os experimentos, a modernização do teatro, a profissionalização dos atores, o controle pelos italianos, Zampari, Adolfo Celi, o surgimento da figura de diretor, o polonês Ziembinski, os diversos grupos que foram se formando, as paixões, os ciúmes, as peças montadas para arrecadar recursos, as peças idealizadas, enfim, toda a história do teatro brasileiro desse período contou com a participação de Cacilda Becker, de alguma forma. Mesmo tendo em conta uma geração de titãs como Franco Zapari, Flávio Rangel, Ziembinski, Adolfo Celi, Alfredo Mesquita, Paschoal Carlos Magno, Sérgio Cardoso, Bibi Ferreira, Décio de Almeida Prado, Paulo Autran, Nydia Lícia, Nelson Rodrigues, entre outros que contribuíram para ampliar, renovar e modernizar a arte teatral, Cacilda Becker consegue não só se destacar, mas tornar-se um mito. Ela começou a sua carreira numa época em que a polícia ainda cadastrava juntas as atrizes e as prostitutas. Moças de família, jovens talentosas não buscavam o teatro com receio da fama condenável que a profissão lhes daria. E quando morreu, dona do seu próprio teatro há mais de uma década, o Teatro Cacilda Becker, que lhe deu muitas alegrias e não pouco sofrimento para mantê-lo, já havia assegurado, para sempre, o seu lugar na história do teatro.

Foram muitas as batalhas da atriz dentro e fora do palco. Acusada de colonizada por encenar peças estrangeiras numa época em que a fúria nacionalista campeava no mundo artístico, movimento que se propunha a revolucionar o mundo através do palco, ela sofreu duras críticas. Quando ocupou o cargo de presidente do CET – Comissão Estadual de Teatro, órgão da Secretaria de Cultura, no dizer de Sábato Magaldi foi extraordinária em sua atuação, tinha prestígio junto às autoridades, mas teve de enfrentar um grupo de forte oposição o que a deixou muito abalada, numa fase em que ela já enfrentava o luto da sua separação de Walmor Chagas, marido, parceiro, amigo de todas as horas. Não havia sido a primeira separação, mas a dessa vez parecia definitiva. Ela estava disposta a fazer qualquer acordo para tê-lo de volta e de alguma forma ela o conseguiu, porque estavam juntos em sua última peça, naquela da qual sairia dos braços dele para nunca mais voltar: Estragon: Vamos?, Vladimir: Vamos.

Luís André do Prado, o autor, até então desconhecido para mim, é um escritor, pesquisador, jornalista que já trabalhou em vários jornais e revistas de renome. Para a biografia de Cacilda Becker, ele levou sete (7) anos entre pesquisa e elaboração. Em 2011 ele lançou outro livro, agora com o historiador João Braga e sobre a História da Moda no Brasil.

Jaboatão dos Guararapes, 20 de janeiro de 2013

* Publicado no blog de Lourdes Rodrigues: marilurde.wordpress.com

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