Viagem Segunda pelo Riso

 

*Anita Dubeux

Esta postagem refere-se à nossa segunda viagem , a que foi realizada no dia 08 de fevereiro de 2017, após zarparmos do cais de nossa maruja Adelaide Câmara, onde fomos recebidos com muitas guirlandas e delicioso banquete.

Ancoramos no Traço Freudiano para mais um encontro de confraternização literária que iniciou com a leitura do cordel de autoria da viageira Salomé, escrito num momento muito especial de sua vida, em 2009,  e que ela dedicou ao marido. Trata-se de um belo e pungente cordel, porque fala do resgate do sorriso  que se perdeu em consequência de uma grande perda.

O RISO PEDE PASSAGEM

**Salomé Barros

Sessenta e três bem vividos
Trinta e sete para cem
Na caminhada da vida
Não sobra para ninguém
E mantendo o alto astral
Vai virar Matusalém

Com esse humor escrachado
Palhaçadas a granel
São tantas as trapalhadas
Que não cabem num cordel
Já conquistou doutorado
E até virou coronel

A manutenção do riso
Faz bem, é fundamental
Existir o ano todo
E não só no carnaval
No seu caso, sobretudo
É energia vital

Não permita que a tristeza
Invada o seu coração
Ela entra atravessada
Errada e na contra mão
Se você não der guarida
Some feito um furacão

Você escolhe na vida
De que lado quer ficar
Altos e baixos existem
Pra gente se equilibrar
Na corda bamba dançando
O riso a contagiar

Em seguida eu li dois poemas de Esman Dias, bem como uma breve biografia desse grande poeta que nos deixou em 2015. Foram eles:

 

FUSÃO

Santo Anjo do Senhor
Tyger! Tyger! burning bright
Meu zeloso guardador
In the forests of the night
Se a Ti me confiou
What immortal hand or eye
A piedade divina
A divina piedade
A mão, o olho imortal
Que deu forma e simetria
Terrível, meu Anjo, Tigre
A Ti, labareda clara
Dá-me teu fogo claro e me incendeia!
Dá-me tua espada à noite e me defende!
Meu santo Anjo do Senhor, meu Tigre!
E minha espada, espada, espada, espada!

 

ALUVIÃO 

Com as mesmas palavras
Girando ao redor do sol
Que as limpa do que não é faca.
João Cabral de Melo Neto

 

Parto in time aspre, et di dolcezza ignudo.
Petrarca

 

Falo do que não falo quando falo:
falo do meu silêncio,
bem mais claro
que as vozes incessantes dos que falam.
Falo do que não falo: do que sou:
bicho da terra — surdo — e mau cantor.
Falo do que não falo: tão pequeno
a destilar a noite o seu veneno.
Falo, não para o mundo dos sentidos:
falo somente para o inteligível.
Falo do que percebo: coisas claras
aéreas superfícies, copos d’água.
Falo na muda fala da batuta,
clara e precisa, do maestro à música.
Falo da pedra dura, da aspereza
de pedra sobre a pedra desta mesa.
Falo de mim em tudo de que falo.
Falo dos meus espelhos, quando calo,
Falo como quem vai a julgamento
sem esperar o indulto do seu tempo.
Falo com a voz alheia que me toca.
Falo e regresso — ileso — à minha toca.

 

Breve biografia do poeta:

ESMAN DIAS nasceu no Cariri – sertão da Paraíba. Ainda criança veio com os pais para Pernambuco. Morou em Olinda até a adolescência e desde então mora no Recife. Seus primeiros poemas foram publicados no Diário de Pernambuco e no Jornal do Commercio, em 1963. Em 1964, publicou “Os Retratos Marinhos”; em 1965, com Everardo Norões e Orley Mesquita, participa da coletânea “Clave”, ilustrada pelos artistas plásticos Anchises Azevedo, João Câmara, José Cláudio e Reynaldo Fonseca. Também em 1965, em parceria com Orley Mesquita, assina a coluna “Poesia e Tempo”, no Jornal do Commercio. Com Alberto da Cunha Melo colabora na realização do documentário “Simetria Terrível”, dirigido por Fernando Monteiro. Vários de seus poemas foram traduzidos para o francês e publicados na coletânea Recife/Nantes. Participa da antologia “46 Poetas Sempre”, organizada por Almir de Castro Barros. É professor de Literatura Anglo-americana no Departamento de Letras da UFPE e foi professor visitante da Universidade de Birmingham, no Alabama e na Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign.

Muito riso provocaram as tirinhas humorísticas selecionadas para o encontro: As Rebordosas, Garfild, Ferrato Pessoa.

O conto AMOR, do autor persa SAADI, poeta e contista “divino” que viveu no período de 1184 – 1291 — em tradução primorosa de Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Holanda — ensejou intensa polêmica e interpretações as mais diversas. Promete ser objeto de muitos escritos dos viageiros.

Trata-se da história de amor de uma ratinha por um gato, que vivia em uma mesquita abandonada, e  que quase havia sido dizimada todos os ratos que por ali viviam. Aparentemente a ratinha é porta-voz dos ratos sobreviventes para tentar convencer o gato a se mudar do local. Mantendo certa distância, para não tornar-se o seu alvo, a ratinha tenta conversar  e acaba se apaixonando seriamente por ele. Vamos aguardar as resenhas que advirão.

Continuando o encontro, foi lido o segundo capítulo do conto de Bergson, O RISO, abordando o tema do humor do ponto de vista psicanalítico.

O navio permanece ancorado, à espera do próximo encontro.

* Anita Dubeux é economista, poeta, ensaísta, contista. Brevemente terá um livro de poemas, Círculo de Seda, publicado pela Chiado Editora, de Lisboa.

** Salomé é psicóloga, cordelista, cronista.

 

 

 

 

 

 

 

O Duplo

OFICINA_DE CRIAÇÃO_LITERARIA. (3)Trabalhamos na Oficina a temática do duplo tão bem utilizada por Poe, Saramago, Borges, Dostoievsk e tantos outros mais. O grande mestre Poe ficou célebre com o conto William Wilson que nós lemos a propósito do tema. Este  conto é referência em todos os estudos sobre o duplo e é sobre ele que falarei aqui.

O conto traz a narrativa na primeira pessoa. O narrador, num tom confessional,  diz se chamar William Wilson, sugerindo que se trata de um pseudônimo, porque não gostaria de se comprometer revelando o próprio nome. A estrutura da narrativa é circular, começa pelo final quando o personagem aparentemente moribundo Próximo a atravessar o sombrio vale, tenta seduzir o leitor para que se penalize do seu drama ou talvez como uma forma de confissão diante da morte que se aproxima, lançando no seu coração  o que ele chama de influência benéfica de arrependimento e de paz :

Oh! Sou o mais abandonado de todos os proscritos! 0 mundo, as suas honras, as suas flores, as suas aspirações douradas, tudo acabou para mim. E, entre as minhas esperanças e o céu, paira eternamente uma nuvem espessa, lúgubre, ilimitada!

Com esse apelo, não há quem resista. Fisgado, o leitor quer saber o que aconteceu para que o personagem se sinta tão desgraçado. Então, ele se torna avaro, diz que não vai contar todas “as lembranças dos meus últimos anos de miséria e de crime irremissível  porque o que lhe aconteceu num período recente da vida extrapolou toda as dimensões da torpeza e que lhe seria quase impossível descrevê-las. E acrescenta, vou simplesmente determinar a origem desse súbito desenvolvimento de perversidade, porque perverso sempre se considerou, os pais até haviam desistido dele por conta disso, abandonando-o ao seu livre arbítrio, senhor absoluto de todas as ações, numa idade em que poucas crianças pensam ainda em sair do regaço materno. Mas o que aconteceu estava fora dos seus limites até então de perversão. Às vezes ele chega a duvidar se tudo não fora um sonho.

William Wilson começa a trazer as suas lembranças intercaladas com pedidos de desculpas por estar falando tanto de certos cenários do seu passado como da sua casa, da aldeia, do colégio onde tudo começou porque essas recordações são o seu único prazer hoje, quando está mergulhado na desgraça.  Realmente,acho que ele foi muito longe nessas descrições e eu perguntei aos viageiros se eles não achavam que esses cenários poderiam ter sido mais econômicos, porque, na minha opinião, tanta descrição distraíam um pouco o leitor da tensão que inicialmente havia sido criada.Diferente de mim, eles acharam que os cenários tão detalhados criavam a atmosfera necessária ao tom misterioso da narrativa. Penso um pouco diferente, como boa seguidora de Poe e Charles Baudelaire quando eles falam  do conto e da sua imensa vantagem sobre os outros tipos de narrativa, face à sua brevidade que acrescenta muito à intensidade do efeito. Apresentado como uma leitura, que pode ser realizada de um único fôlego, o conto prevalece sobre o romance pela imensa vantagem que a brevidade acrescenta à intensidade do efeito. Tal leitura, que pode ser realizada de um único fôlego. 

Após algumas páginas descritivas do cenário da escola onde ele estudava e exercia certa liderança entre os colegas, surge o momento onde tudo começou: alguém no grupo não lhe dá o lugar distinto e ascendente que os outros dão. É quando ele se dá conta de que aquele aluno sem ter qualquer parentesco com ele tinha o mesmo nome de batismo e de família. Aquela rebelião o incomodava, até porque ele não

podia deixar de encarar a igualdade que mantinha tão facilmente comigo, como uma prova de verdadeira superioridade, porque, pela minha parte, não era sem grandes e contínuos esforços que conseguia conservar-me à sua altura.

Embora ninguém parecesse perceber esse duelo que era travado, numa cegueira inexplicável aos olhos dele, e nem William, o seu duplo, demonstrasse qualquer ambição, mais parecendo que o seu objetivo consistia apenas em contradizê-lo, assustá-lo, atormentá-lo, mesmo assim não deixou de notar com certo espanto que o rival misturava às impertinentes contradições certos ares de afetuosidade, os mais intempestivos e os mais desagradáveis do mundo.

Este tipo de duplo que Cacilda muito bem chama de duplo perseguidor, é o que está mais presente nas narrativas literárias e representam a luta feroz que o indivíduo trava com os seus desejos mais profundos que ameaçam o ser social que ele julga ser. Angústia alucinante resultado dessa luta ferrenha entre o chamado eu-ideal e o ideal do eu. A fronteira entre realidade e fantasia parece se dissolver e esse encontro com  a própria imagem resulta na fantasia de um duplo como alguém estranho que me olha e me ameaça; Eu sou objeto de um outro..Eu vejo a mim como um estranho que vem de fora de mim.  

Alguns viageiros escreveram para expressar a sua visão do duplo. Cacilda Portela, por exemplo, fez algumas reflexões sobre o duplo de Edgard Allain Poe e de Dostoievski e apresentou-as sob o título de Notas:

39_rackham_poe_williamwilson Algumas Notas sobre William Wilson (Edgar Allan Poe)

Cacilda Portela

William Wilson substitui o próprio eu (self) por um estranho. Visão angustiante de si mesmo como outro. Resultado de um lento  processo  de mútua aproximação e reconhecimento no outro até alcançar sua identificação. Uma relação entre o ser e a consciência.

O duplo surge para William Wilson como recusa de uma angústia existencial  para que possa conviver com o benefício e a dificuldade. Transforma a vida num turbilhão de sentimentos e ações desencontradas. É o duplo como perseguidor, vivendo no pesadelo, na alucinação, nos erros e nos horrores. Metáfora da consciência que atormenta, persegue e aterroriza com sua voz sussurrante, com seus conselhos fraternais e com sua  elevação moral.

Escravo de circunstancias superiores ao controle humano, William Wilson se intimida com o risco de ver seu Ego empobrecido e tornar-se inadaptado ao mundo. Na impossibilidade de exorcizar o outro, o jeito é assimilá-lo para que deixe de ser outro. Uma decisão firme de não mais ser escravizado. Perde a luta para si mesmo.

downloadAlgumas Notas sobre O Duplo (Dostoiévski)

Cacilda Portela

“A duplicidade é o traço mais comum das pessoas… não inteiramente comuns”. É a consciência intensa… a exigência de um dever moral perante si mesma e a humanidade”. Dostoiévsky.

Golyádkin substitui o eu self por um outro Godyádkin estranho. Uma visão angustiante como o outro, que nele se reconhece na alucinação, na luta entre sonhos e realidade, ambições e humildade, desejos e fracassos.

Funcionário pobre e sem brilho externo, e com um profundo sentimento de solidão e desordenados devaneios, busca um outro “eu” poderoso para dar sentido a sua própria identidade. Como Golyádkin segundo, ele revela todos os aspectos sombrios de sua consciência, o que acaba sento fatal para o senhor Golyádkin primeiro.

Acredita, desesperado, ter inimigos cruéis que juraram arruiná-lo… Os inimigos de sempre eram o próprio senhor Golyádkin.  O duplo adversário que desafia ao combate o próprio Golyádkin é o mesmo que o sr. Golyádkin criara em seu imaginário doentio para realizar todos os seus sonhos.

Golyádkin transforma a vida num turbilhão de sentimentos desencontrados. Caminha entre o bem e o mal e é o emblema moral da consciência que o levou até a loucura.

Salomé Barros, nossa poeta cordelista, também escreveu o seu duplo com muita propriedade e esmero.

 

O QUE FOR SERÁ

Salomé Barros

Sempre fui independente
Não dependo de ninguém
Jurei, berrei de pé junto
Que jamais serei refém
Minha posição é firme
E alguém que não confirme
Não me trate com desdém

De uns tempos para cá
Tenho ficado assustado
Não mudei de opinião
Mas estou desesperado
Não sei bem como explicar
É um fato singular
Que me faz desconfiado

Faço tudo direitinho
Como manda o figurino
Jamais fui considerado
Mentiroso ou libertino
Mas com essa novidade
Aumenta a ansiedade
E me leva ao desatino

Tem um outro me instigando
Dia e noite sem parar
Já estou me sufocando
E não consigo afastar
Me chama o tempo inteiro
Parece um bisbilhoteiro
Que veio me atanazar

Pra piorar ele exige
Uma reciprocidade
Ameaçando instalar
Um clima de inimizade
Entre a cruz e a espada
Dou resposta salteada
E preservo a identidade

Foi chegando de mansinho
Assim sem querer, querendo
Aos poucos foi me cercando
A insistência crescendo
E eu anestesiado
Fui ficando abobalhado
E sem querer fui cedendo

O mistério desse encosto
É mesmo de arrepiar
Tem um raio de ação
Que chega a qualquer lugar
Seja aqui ou no Japão
Transmite a informação
Na hora, sem reclamar

E me vendo sem saída
Fiquei meio acomodado
Parece que esse outro
Está no corpo moldado
Dorme e acorda comigo
Acho que já é castigo
Será que estou viciado?

Fiz então uma pesquisa
Passando a observar
Pessoas que encontrava
Na rua, em qualquer lugar
E todas, sem exceção
Tem a mesma obsessão
Bem difícil de largar

E foi assim que o outro
Ganhou popularidade
E implantou nas pessoas
Um quê de dubiedade
Se para uns é progresso
Pra outros é retrocesso
E interfere na amizade

Também nas artes plásticas a figura do duplo é muito comum. Morreu esta semana Tunga, pernambucano, artista plástico da maior importância. Fizemos uma pequena homenagem a esse grande mestre que partiu tão cedo ainda na sua capacidade criativa. Além de lermos um pouco da sua biografia, falar de Inhotim seu espaço artístico, vimos pela internet algumas “instaurações” como ele chamava certas obras suas. Escolhemos para deixar aqui nesse blog as “Xifópagas Capilares” que trazem a problemática do duplo.

moledão xifópagas2

O Gênio do Mal

Ontem, 17 de fevereiro de 2016, recomeçamos os trabalhos da Oficina. A nossa carta de navegação estava pronta  para iniciarmos a viagem. Os viageiros presentes –  éramos dez, dois não puderam participar, um porque não havia chegado ainda de viagem (Luzia), outro (Paulo) porque iria fazer parte de um mesa de defesa de tese de mestrado – ansiosos pelas mudanças que havíamos feito nos nossos roteiros, Levei um texto sobre o Conto, extraído do Prefácio de Charles Baudelaire ao livro de Edgard Allan Poe Contos de Imaginação e Mistério, para reforçar a importância dele entre os gêneros literários e tranquilizar uma viageira que teme ser a viagem curta não tão admirável quanto os longos cruzeiros que o romance permite. A opção pelas narrativas mais curtas este ano deveu-se à necessidade de reforçar o crítico literário que existe em cada um de nós, de certa forma comprometido pelas leituras longas quando o interesse pelo que está sendo contado pelo narrador prevalece sobre o como está sendo contado, ansiosos que ficamos, como Nabokov disse, pelo e depois? E depois?

EXTRAÍDO DO PREFACIO DE CHARLES BAUDELAIRE AO LIVRO DE EDGAR ALLAN POE CONTOS DE IMAGINAÇÃO E DE MISTÉRIO

 SOBRE O CONTO

Entre os domínios literários onde a imaginação pode obter os resultados mais curiosos, pode colher tesouros, não os mais ricos e preciosos (esses pertencem à poesia), mas os mais numerosos e variados, está um particularmente querido a Poe, o conto. Ele tem sobre o romance de grandes proporções a imensa vantagem que a brevidade acrescenta à intensidade do efeito. Tal leitura, que pode ser realizada de um único fôlego, deixa no espírito uma marca muito mais poderosa que uma leitura intermitente, muitas vezes interrompida por problemas de negócios e preocupações com interesses mundanos. A unidade da impressão, a totalidade do efeito é uma vantagem imensa que pode dar a esse gênero de composição uma superioridade muito especial, no sentido de que um conto muito curto (o que é, sem dúvida, um defeito) seja ainda melhor que um conto muito extenso. O artista, se é hábil, não acomodará seus pensamentos aos incidentes; mas, tendo concebido deliberadamente, a seu bel-prazer, um efeito a produzir, inventará os incidentes, arranjará os eventos mais apropriados para conduzir ao efeito desejado. Se a primeira frase não for escrita de forma a preparar a impressão final, a obra é deficiente desde o começo. Ao longo da composição não se deve soltar uma única palavra que não seja uma intenção, que não tenda, direta ou indiretamente, a percorrer o plano traçado.

Há um ponto no qual o conto é superior até mesmo ao poema. O ritmo é necessário ao desenvolvimento da ideia de beleza, que é o maior e mais nobre objetivo do poema. Ora, os artifícios do ritmo são um obstáculo insuperável ao desenvolvimento minucioso de pensamentos e expressões que tenham por objetivo a verdade. Pois a verdade pode muitas vezes ser a meta do conto, e o raciocínio a melhor ferramenta para a construção de um conto perfeito. Eis a razão pela qual esse gênero de composição, que não é tratado com tanta elevação quanto a poesia pura, pode fornecer produtos mais variados e mais acessíveis ao gosto do leitor comum. Além disso, o contista tem à sua disposição uma enorme quantidade de tons, de nuances de linguagem – o tom reflexivo, o sarcástico, o humorístico, que repudia a poesia – e que são como dissonâncias, ultrajes à ideia de beleza pura. E é pelo mesmo motivo que o escritor que busca uma única meta de beleza em um conto trabalha em grande desvantagem, sendo privado do instrumento mais útil, o ritmo. Sei que, em todas as literaturas, foram feitos esforços, muitas vezes felizes, para criar contos puramente poéticos; o próprio Edgar Poe fez alguns muito bonitos. Mas são lutas e esforços que servem apenas para demonstrar a força dos verdadeiros recursos adapta­dos às metas correspondentes; não seria arriscado afirmar que para alguns autores, os maiores nos quais podemos pensar, essas tentações heroicas viessem de um desespero.

A saudação poética foi com Gênios do Mal, de Charles Baudelaire que tão bem já havia nos falado sobre o conto. A escolha do poema, entre tantos outros incríveis do poeta, se deu principalmente porque era assim que ele era chamado “Gênio do Mal”  devido ao seu comportamento transgressor e por envolver nas suas narrativas elementos do mal. Charles Baudelaire ficou sem pai muito cedo, aos seis anos de idade, e a mãe casou com um militar de carreira ascendente (tornou-se general, senador, embaixador)  que se incompatibilizou com o enteado de prima. Nada mais agressivo ao gênio poético e livre do garoto do que a rígida disciplina militar. Cansado das contendas, o padrasto exportou-o para a Índia na esperança de ver-se livro do rapaz. Baudelaire não iria deixá-lo sossegado assim tão fácil. Encontrou uma forma de punir o padrasto desembarcando antes de chegar ao seu destino, voltando à Paris livre do jugo doméstico,  lançando-se na boemia, drogas e todo tipo de excessos. Com a maioridade conseguiu tomar posse da herança deixada pelo pai e começou a lapidar a fortuna até sua mãe interditá-lo na justiça, provando a sua prodigalidade e impondo-lhe um tutor. Menos rico, porém tão livre quanto antes, Charles Baudelaire continuou a sua vida desregrada no mundo das artes, da literatura. Em 1857, com trinta e seis anos de idade, publica a sua obra prima Flores do Mal.  A Justiça nem sempre sensível às artes, preocupada que sempre esteve em manter a ordem e os costumes, por mais ultrapassados e medíocres que possam sugerir, condenou o poeta e a editora que o publicou a pagar multas precisamente por causa de seis (6) poemas entre os cem  (100) do livro por atentarem à moral. Baudelaire não se fez de rogado, fez novos poemas, ainda mais belos, segundo ele, e trocou-os. O livro foi liberado. Com a sua morte, dez anos depois, o livro foi publicado com os poemas originais.

Baudelaire, apesar de transgressor, tentou acomodar-se ao status quo  da sociedade parisiense candidatando-se à Academia Francesa. Não há uma opinião formada sobre as razões que o levaram a fazer isso, dizem que para agradar a mãe e ela poder soltar mais dinheiro, ou porque pretendia resgatar a estima do publico devido às sérias críticas da burguesia à sua obra. Talvez o patinho feio quisesse o seu dia de cisne, quem sabe.

Charles Baudelaire é considerado o precursor do Simbolismo, além de fundador da tradição moderna em poesia, ao lado de Walt Whitman. Escreveu poesias e ensaios e as suas obras teóricas influenciaram além da literatura, as artes plásticas do século XIX. Traduziu vários volumes da obra de Edgard Allan Poe e os prefácios que escreveu tornaram-se peças teóricas de referência para a literatura e artes plásticas. Charles Baudelaire morreu jovem ainda, aos quarenta e seis anos, de sífilis, após sofrer sérios ataques nervosos. Os seus biógrafos dizem que morreu nos braços da mãe, com quem morava após a morte do padrasto.

Segundo o poeta, Edgard Alan Poe achava que não era poeta quem não soubesse tocar o intangível. Baudelaire sabia-o muito bem, mesmo quando escreve um poema como este Gênio do Mal que revela uma dor de cotovelo bem tangível. Para Baudelaire Genus irritabile vatum! Que os poetas (vamos utilizar a palavra em seu sentido mais extenso, compreendendo todos os artistas) sejam uma raça irritável é bem sabido; mas o porquê  não me parece tão claro. Bendita irritação que o fez criar poemas que atravessam séculos.

Imagem CB

Gênio do Mal

Charles Baudelaire

Gostavas de tragar o universo inteiro,
Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro,
Para se exercitar no jogo singular,
Por dia um coração precisa devorar.
Os teus olhos, a arder, lembram as gambiarras
Das barracas de feira, e prendem como garras;
Usam com insolência os filtros infernais,
Levando a perdição às almas dos mortais.

Ó monstro surdo e cego, em maldades fecundo!
Engenho salutar, que exaure o sangue do mundo
Tu não sentes pudor? o pejo não te invade?
Nenhum espelho há que te mostre a verdade?
A grandeza do mal, com que tu folgas tanto.
Nunca, jamais, te fez recuar com espanto
Quando a Natura-mãe, com um fim ignorado,
— Ó mulher infernal, rainha do Pecado! —
Vai recorrer a ti para um génio formar?

Ó grandeza de lama! ó ignomínia sem par.

Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal”
Tradução de Delfim Guimarães  – Obtido em Wikisource

Dentro do possível, procuramos acompanhar a leitura do poema ou narrativa traduzidos para o português com a obra original. Se na ficção é importante porque os tradutores, por melhores que sejam, tendem a se tornar coautores e empolgados afastam-se do texto, na poesia onde a sonoridade, muitas vezes a rima, a subjetividade, o intangível são a sua espinha dorsal, ler a tradução é desviar-se substancialmente do autor e aproximar-se do tradutor, havendo perdas substanciais. Eu e Salete tentamos encontrar este poema em Francês e quase varamos uma noite completamente em vão. Não conhecendo suficiente a língua para uma busca mais rigorosa desisti de prosseguir by myself e não ousava insistir com Salete que já havia dedicado bom tempo para encontrá-lo. Coube à nossa viageira Adelaide Câmara a tarefa hercúlea e ela a fez com uma dedicação e determinação admirável. Apoiada pelo marido fez o périplo por quase 1000 páginas da obra de Baudelaire, lendo one by one até encontrar o poema em Francês e o remeter para mim dizendo Segue o poema que “não existe existindo” cuja tradução superparafraseada por Delfim Guimarães me fez vasculhar céus e terras virtuais.. Sim, eles chegaram a duvidar que existisse, que talvez fosse um daqueles casos em que se atribui a obra a um escritor famoso e depois se descobre que não é de sua autoria e sim de um anônimo. Com esse título Gênio do Mal  ele não existe, mas é de Baudelaire e está em Flores do Mal. Segundo Adelaide, a ligação amorosa com a judia Sarah, dita Louchette,  que lhe inspirou um poema truculento e, em certas passagens, poderosamente original (“Não tenho por amante senão…”), bem como o poema XXV (que é este chamado de Gênio do Mal, aqui)de As flores do mal .

À Adelaide, aquela que segunda a própria, nunca se imaginou”fuçadoura” de Baudelaire,  e Câmara,  os nossos agradecimentos maiores.

Eis o poema:

Tu mettrais l’univers entier dans ta ruelle,

Femme impure! Le’ennui rend ton âme cruelle.

Pour exercer tes dents à ce jeu singulier,

Il te faut chaque jour un coeur au râtelier.

Tes yeux, illuminés ainsi que des boutiques

Et des ifs flamboyants dans les fêtes publiques,

Usent insolemment d’un pouvoir emprunté,

Sans connaître jamais la loi de leur beauté.

Machine aveugle et sourde, en cruautés, féconde!

Salutaire instrument, buveur du sang du monde,

Comment n’as-tu pas honte et comment n’as-tu pas

Devant tous les miroirs vu pâlir tes appas?

La grandeur de ce mal où tu te crois savante

Ne t’a donc jamais fait reculer d’épouvante,

Quand la nature, grande en ses desseins cachés,

De toi se sert, ô femme, ô reine des péchés,

— De toi, vil animal, — pour pétrir un génie?

O fangeuse grandeur! sublime ignominie!

A tradução de Ivan Junqueira enviada por Adelaide:

 

Porias o universo inteiro em teu bordel,

Mulher impura! O tédio é que te torna cruel

Para teus dentes neste jogo exercitar,

A cada dia um coração tens que sangrar.

Teus olhos, cuja luz recorda a dos lampejos

E dos rútilos teixos que ardem nos festejos,

Exibem arrogantes uma vã nobreza,

Sem conhecer jamais a lei de sua beleza.

Ó monstro cego e surdo, em cruezas fecundo!

10 Salutar instrumento, vampiro do mundo,

Como não te envergonhas ou não vês sequer

Murchar no espelho teu fascínio de mulher?

A grandeza do mal de que crês saber tanto

Não te obriga jamais a vacilar de espanto

Quando a mãe natureza, em desígnios velados,

Recorre a ti, mulher, ó deusa dos pecados

— A ti, vil animal —, para um gênio forjar?

Ó lodosa grandeza! Ó desonra exemplar!

 Outro poema inspirado em Sarah, La Louchette

Sarah la louchette

Je n’ai pas pour maîtresse une lionne illustre :
La gueuse de mon âme, emprunte tout son lustre ;
Invisible aux regards de l’univers moqueur,
Sa beauté ne fleurit que dans mon triste coeur.

Pour avoir des souliers elle a vendu son âme.
Mais le bon Dieu rirait si, près de cette infâme,
Je tranchais du Tartufe et singeais la hauteur,
Moi qui vends ma pensée et qui veux être auteur.

Vice beaucoup plus grave, elle porte perruque.
Tous ses beaux cheveux noirs ont fui sa blanche nuque ;
Ce qui n’empêche pas les baisers amoureux
De pleuvoir sur son front plus pelé qu’un lépreux.

Elle louche, et l’effet de ce regard étrange
Qu’ombragent des cils noirs plus longs que ceux d’un ange,
Est tel que tous les yeux pour qui l’on s’est damné
Ne valent pas pour moi son oeil juif et cerné.

Elle n’a que vingt ans, la gorge déjà basse
Pend de chaque côté comme une calebasse,
Et pourtant, me traînant chaque nuit sur son corps,
Ainsi qu’un nouveau-né, je la tête et la mords,

Et bien qu’elle n’ait pas souvent même une obole
Pour se frotter la chair et pour s’oindre l’épaule,
Je la lèche en silence avec plus de ferveur
Que Madeleine en feu les deux pieds du Sauveur.

La pauvre créature, au plaisir essoufflée,
A de rauques hoquets la poitrine gonflée,
Et je devine au bruit de son souffle brutal
Qu’elle a souvent mordu le pain de l’hôpital.

Ses grands yeux inquiets, durant la nuit cruelle,
Croient voir deux autres yeux au fond de la ruelle,
Car, ayant trop ouvert son coeur à tous venants,
Elle a peur sans lumière et croit aux revenants.

Ce qui fait que de suif elle use plus de livres
Qu’un vieux savant couché jour et nuit sur ses livres,
Et redoute bien moins la faim et ses tourments
Que l’apparition de ses défunts amants.

Si vous la rencontrez, bizarrement parée,
Se faufilant, au coin d’une rue égarée,
Et la tête et l’oeil bas comme un pigeon blessé,
Traînant dans les ruisseaux un talon déchaussé,

Messieurs, ne crachez pas de jurons ni d’ordure
Au visage fardé de cette pauvre impure
Que déesse Famine a par un soir d’hiver,
Contrainte à relever ses jupons en plein air.

Cette bohème-là, c’est mon tout, ma richesse,
Ma perle, mon bijou, ma reine, ma duchesse,
Celle qui m’a bercé sur son giron vainqueur,
Et qui dans ses deux mains a réchauffé mon coeur.

Poesia, às Quartas-Feiras

Nesta última quarta-feira, a responsabilidade de levar o poema foi minha. A escolha eu a fiz pensando no que Paulo Tadeu havia dito sobre as traduções distanciarem um pouco (ou muito, dependendo do tradutor) do poema original. O tradutor teria que captar o sentimento do poeta e traze-lo para uma outra língua, buscando a mesma sonoridade, tarefa nem sempre de sucesso.

E nós temos grandes poetas, não ficamos a dever na literatura poética a nenhum outro país. E Manuel Bandeira é um ícone da poesia brasileira. Participou em 1922 da Semana da Arte Moderna ocasião em que se despediu para sempre da poesia lírica bem comportada.

Trouxe para o Blog os poemas lidos, inclusive, alguns vídeos com as suas interpretações. Vou-me embora para Pasárgada é um poema que já foi interpretado por muitos cantores, entre eles, Gilberto Gil, Paulo Diniz, Ana Cristina.

 

Vou-me Embora Pra Pasárgada
Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

 

Desencanto

Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento , de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto

Meu verso é sangue , volúpia ardente
Tristeza esparsa , remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota à gota do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

Eu faço versos como quem morre.
Qualquer forma de amor vale a pena!!
Qualquer forma de amor vale amar!

Há muito tempo, cerca de 30 anos,  fiz um curso de Literatura Comparada de Manuel Bandeira e do poeta francês Prevért. Guardei o livro indicado de Bandeira Estrela da Vida Inteira, poesias reunidas, 16ª edição da Editora José Olympio com um carinho especial e a ele recorria todas as vezes que sentia saudade. Quarta-feira levei-o à Oficina, tão cheio de ácaro que recorri ao xerox para ler as poesias aqui postadas, mas continuará sendo a minha referência poética maior.

Jaboatão dos Guararapes, 27 de outubro de 2015

Lourdes Rodrigues

 A LIÇÃO DO MESTRE: ARTE E VIDA


42235675
 A LIÇÃO DO MESTRE: ARTE E VIDA

*Cacilda Portela

A novela gira em torno das disposições contrárias entre a arte e a vida. Do conflito interior de um escritor  de meia idade, cuja obra não tem mais a força dos seus primeiros livros. A Lição do Mestre cria um clima de  mistério e expectativa que organiza os fatos do enredo, que nem sempre são ações concretas, mas movimentos internos dos personagens.

Tem início em uma mansão senhorial do séc. XIX, em Londres, onde estão presentes alguns convidados, entre eles o sr. Henry St. George, sua esposa, Paul Overt e a srta. Marian. As afinidades intelectuais fazem a aproximação entre St. George, o jovem escritor e a srta.Marian.

O sr. Henry St. George, escritor de renome, passa por sentimentos de fuga e incertezas com relação a sua arte, acusada por críticos de um certo artificialismo e uma ambiguidade insondável no tratamento dos temas. Sua esposa, autoritária, administra e disciplina os negócios e a vida particular do marido. Ligada a convenções sociais, cobra do marido a realização de outras obras. Não se interessa pela perfeição na arte. O casal é amigo da jovem Marian, natural e  independente, adora a vida e é uma grande apreciadora das artes. St.George dedica carinhos excessivos à jovem com a complacência da esposa.

Na mansão, St. George conhece, pessoalmente, o jovem e promissor escritor Paul Overt, que passou grande parte de sua vida no estrangeiro, tendo voltado recentemente à Inglaterra. E o  jovem escritor conhece Marian. Juntos eles visitam galerias de arte e exposições privadas;  discutem o elevado tema da obra de arte válida e exemplar, e o escritor se apaixona por ela.

Depois de ter lido uma pequena parte da obra do jovem escritor, St. George vai até ele e afirma que o jovem é mesmo surpreendentemente bom; e que precisa realmente manter o nível como escritor. Confessa ao jovem seus sentimentos, medos e anseios e lhe apresenta sua Lição de Mestre: “…Não se transforme  no que me transformei na velhice: o exemplo de quem cultuou os deuses do mercado, dinheiro, luxo, a sociedade, a mulher, os filhos… A!h! as coisas mesquinhas que nos obrigam a fazer. Uma perdição do ponto de vista da arte. O artista nada tem a ver com o relativo, deve ter afinidade apenas com o absoluto. Não poderá fazer alguma coisa realmente boa sem sacrifício.  Fazer algo, e algo que seja divino é a única coisa em que o artista tem que pensar”. Ou desistir da ideia de perfeição. Paul responde “não; eu sou um artista – não há como evitar”.

Uma semana depois da Lição do Mestre, Paul Overt parte da Inglaterra. Antes, faz uma visita a srta. Marian para se despedir; e mais de três meses depois escreve e observa que lhe devia uma explicação por não lhe haver revelado o que pretendia fazer. A srta. Marian responde com uma carta curta, mas que veio sem tardar, e dava conhecimento da morte da sra. St. George. Tuberculosa, ela veio a falecer poucos meses depois daquele encontro na mansão. Dois anos depois, quando termina de escrever o livro, Paul Overt retorna a Londres e procura a srta. Marian. Ela e  o St George estão de casamento marcado.

Qual teria sido a real intenção da Lição do Mestre?  O objetivo de proteger o jovem romancista para construção de uma arte perfeita, absoluta, infinita; um padrão a ser seguido? A arte como algo de si mesmo que o velho mestre valoriza de forma constante e intensa. Sua real identidade. Sua face reflete a ideia e o sentimento da arte. Ou seria um plano oculto para afastar o romancista e ficar livre para casar com a  Srta. Marian? Sua face revela uma identidade mascarada, contrária aos seus traços, que apenas deixa aparecer o eu idealizado socialmente. Uma imagem do sucesso, das recompensas materiais e da credibilidade social da literatura. Valorização da identidade mascarada em relação ao eu.

Estaria o Mestre realmente livre quando deu sua Lição ao jovem romancista?  Não saberemos ao certo. Não estariam em conflito o eu e o ser social? A própria subjetividade, “experiências de vida sintetizadas: emoções, sentimentos, memória inconsciente de todo o vivido relacional”, que ele demonstra na Lição é controlada pelo social.  O sentimento e a ideia da arte perfeita são controlados por forças sociais e, em seguida, se mascaram. Não estão livres do controle social. O sentido que ele atribui à arte perfeita é formado por uma concepção individual e coletiva de difícil percepção que necessita de minuciosa análise, nem sempre possível, para ser entendida.

* Cacilda Portela é advogada, pesquisadora social, ensaísta.

Dostoievski – Passeio pelos subterrâneos

sendbinary2MEMÓRIAS DE SUBSOLO DE FIÓDOR DOSTOIEVSKI

Dostoievski  sempre foi lembrado ao fazermos a programação anual da Oficina. Chegou a sua vez, em outubro de 2013, com Memórias de Subsolo. A opção pela tradução de Boris Schnaiderman, da Editora 34, 6ª edição, deveu-se ao conhecimento e respeito que eu tenho pelo trabalho desse tradutor de obras extraordinárias de Dostoievski, Tolstoi e vários poetas russos de vanguarda. Certa vez, em entrevista, Boris Schnaiderman disse que no início da sua atividade de tradução ficava muito preso à literalidade, mas com o passar do tempo, passou a adotar forma menos mecânica, bem mais natural, por entender que a tradução é acima de tudo uma arte.

O texto que lemos é uma obra de arte literária e se conseguiu nos impressionar é porque a tradução foi realizada com muita maestria. Em seu prefácio, Bóris Schnaiderman traz  importantes opiniões sobre o livro, entre elas, o impacto que causou em Nietzsche: Um achado fortuito numa livraria: Memórias do Subsolo de Dolstoievski (…) A voz do sangue (como denominá-lo de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites. E ainda as opiniões de André Gide: o ponto culminante de toda a sua obra; de George Steiner: provavelmente o mais dostoiesvskiano dos livros e uma verdadeira suma de toda a sua obra; de Górki:  Para mim, todo Nietzsche está em Memórias do Subsolo.

Mas, antes de falar sobre Memórias do Subsolo gostaria de tentar traçar em grandes linhas o cenário do autor, a Russia do seu tempo, para entender as circunstâncias que envolveram a sua vida literária e política e  que culminaram com a escrita dessa obra.

Fiódor Dostoievski nasceu em Moscou, em novembro de 1821. Ano rico para a literatura porque, Dostoevskij_1872também, nasceram nesse ano, na França, Charles Baudelaire (abril) e Gustave Flaubert.(dezembro). O ano registrou ainda, grandes mudanças na geografia política com a redistribuição  das fronteiras  hispanofônicas a partir do reconhecimento pela Espanha da independência da Venezuela, Peru, Guatemala, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador e México. No Brasil, com a volta do Rei D. João VI para Portugal, deixando D.Pedro I como Regente, começou a se delinear com mais nitidez também o que viria ocorrer em 1822, a sua independência.

A vida de Dostoievski foi marcada por grandes perdas desde cedo. Ainda na adolescência, ficou muito clara para ele a opção pela literatura. A morte da mãe, deixando o pai, médico de  hospital público, com 7 filhos para criar mudou tudo. Esta foi a primeira guinada de cento e oitenta graus em sua vida. O pai tornou-se alcoólatra e sentindo-se incapaz de administrar a família, mandou os dois filhos mais velhos, Mikhail and Fyodor  para a academia militar de São Petersburgo, com o objetivo de garantir o futuro deles. Dostoievski jamais tivera interesse em ser militar e pelo resto de sua vida ele iria se ressentir do grande erro que havia sido cometido pelo pai ao forçá-lo a seguir essa carreira. Em várias obras, os personagens trazem esse ranço contra a academia e os militares. O personagem narrador de Memórias do Subsolo revela  hostilidade aos militares, em especial ao oficial que ele encontra numa taverna, numa sala de bilhar. Por conta de um gesto que ele considerou humilhante, passou a persegui-lo daí em diante. Vejamos a cena primeira:

            Eu estava em pé junto à mesa de bilhar, estorvava a passagem por inadvertência, e ele precisou passar; tomou-me então pelos ombros e, silenciosamente, sem qualquer aviso prévio ou explicação, tirou-me do lugar em que estava, colocou-me em outro e passou por ali, como se nem sequer me notasse.Até pancadas eu teria perdoado, mas de modo nenhum poderia perdoar que ele me mudasse de lugar e, positivamente, não me notasse. (…) Oh, se aquele oficial fosse dos que concordam em lutar num duelo!

Por outro lado, a sua conexão com São Petersburgo foi total, achou a cidade  intensa, abstrata, e, no futuro, os seus personagens também expressarão essa opinião: esta é uma cidade de gente meio louca. Raramente se encontra um lugar com tantas influências sombrias, intensas e estranhas sobre a alma humana, como em São Petersburgo. (…) É uma particular desgraça viver em Petersburgo. O personagem de Memória do Subsolo reclama: …que tenha a infelicidade de habitar Petersburgo, a cidade mais abstrata e meditativa de todo o globo terrestre. Porém, há um momento em que ele diz claramente que não deixará São Petersburgo: Mas ficarei em Petersburgo; não deixarei esta cidade! Não a deixarei porque…Eh! Mas, na realidade, me é de todo indiferente o fato de que a deixe ou não. 

Ele amou São Petersburgo. Aquela foi a cidade de sua juventude, onde despontou como escritor, conheceu o sucesso e viveu trágicas experiências, pesadas perdas. Jamais teve o seu próprio apartamento, sempre morou em locais alugados. Durante os vinte e oito anos de sua permanência em São Petersburgo mudou vinte vezes e jamais morou mais de três anos na mesma casa. Os apartamentos situavam-se sempre em encruzilhadas, bifurcações, locais típicos dos edifícios para aluguel. Os seus personagens também moravam nesse tipo de edifício, ele sempre usou na escrita imóvel similar ao que ele vivia ou vivera. Talvez a sua necessidade de mudança estivesse ligada às exigências da sua criação literária. Das trinta obras de Dostoievski, cerca de vinte tiveram como cenário narrativo São Petersburgo. Essa cidade estranha, muito particular e misteriosa no dizer de Dostoievski oferecia-lhe a ambientação adequada para que em suas novelas o fantástico emergisse na mediocridade, as idéias insanas aparecessem e os crimes fossem cometidos: All of this is so vulgar and ordinary that  I almost borders on the fantastic.[i]

Graduado pela academia militar e designado para o Corpo de Engenheiros, embora Dostoievski jamais tenha abandonado o seu sonho literário, viu-se obrigado a permanecer ali para garantir a sobrevivência. Sempre preocupado em ganhar mais algum dinheiro, iniciou o seu trabalho como tradutor, chegando a traduzir, em duas ou três semanas, Eugene Grandet de Balzac, 365 páginas. As suas traduções não eram simplesmente literais, poderiam mais serem vistas como um tipo especial de literatura, não simplesmente a de Balzac, nem a de Dostoievski, mas a soma criativa dos trabalhos de dois grandes escritores.

Dostoievski reconhecia na leitura a sua principal escola de literatura. Lia compulsivamente, apaixonadamente. A leitura exercia estranho efeito sobre ele. Costumava reler as obras que ele gostava e dizia que novas inspirações, novos insights surgiam dessas releituras, assim como as habilidades para fazer as suas próprias criações. Em várias obras, os protagonistas são leitores e o livro escolhido para eles lerem nunca foi acidental, por exemplo, Nastasia Filippovna, personagem de O Idiota lia Madame Bovary às vésperas da sua morte.

Os personagens de Dostoievski não são apenas grandes leitores, eles têm personalidade muito criativa e tentam viver todo esse potencial criativo. Mas, inicialmente, as suas escritas estavam associadas aos seus anos na academia quando ele ainda sonhava com o sublime e o belo. Desde as primeiras páginas de Memórias do Subsolo que o personagem alude ao belo e sublime: o narrador se queixa de que este “belo e sublime” (sempre dentro de aspas) apertou com força o seu crânio durante quarenta anos. O tradutor, em nota, diz que é uma alusão à obra de Kant: Observações sobre os sentimentos do belo e do sublime (1764) que havia tornado a expressão muito popular entre os críticos russos das décadas de 1830 e  1840. Ele destruiu tudo que escreveu naquela época, ao descobrir que não havia nada mais fantástica que a realidade em si mesma.O personagem de Memórias do Subsolo se refere com desprezo a essa visão filosófica kantiana:. Quanto mais consciência eu tinha do bem e de tudo que é “belo e sublime”, tanto mais me afundava em meu lodo, tanto mais capaz me tornava de imergir nele por completo.Ao começar a olhar ao seu redor,observando os semblantes das pessoas com acuidade, estranhas e maravilhosas figuras, possíveis personagens ele foi descobrindo

             Era como se eu houvesse entendido naquele minuto algo que antes só havia mexido em mim, mas não houvera compreendido; como se visse o mundo através de algo novo, completamente novo e desconhecido; apenas conhecido por algum tipo de sinais misteriosos. Eu penso que foi precisamente nesse momento que a minha existência começou.

Não foi à toa que o seu primeiro livro, o que ele iniciou a carreira literária, Gente Pobre, o protagonista não era um herói romântico, mas um pobre e comum escriturário a quem ele deu roupagem literária, subvertendo o gênero por completo e sendo recebido efusivamente pelo público e pela crítica literária da época. Trata-se de um romance epistolar em que um  funcionário público de escalão inferior e a sua vizinha, uma órfã, ambos humilhados e injustiçados pela sociedade, trocam cartas, permitindo ao leitor acompanhar as pequenas alegrias e as dores dos dois personagens, captando as suas emoções, os seus valores, os seus sonhos, tudo escrito com muita maestria.

Pouco depois da publicação desse livro, Dostoievski foi preso por pertencer a um grupo de jovens e intelectuais que se auto-denominava de fourierista, fascinado pelas idéias do socialismo utópico de Charles Fourier, de uma idade de ouro para a humanidade. Este grupo sonhava com um futuro melhor para a Rússia, mas o Czar Nicolau I assustado com a onda revolucionária que atingia a Europa e ainda sob o temor do que acontecera na Revolução Francesa mandou investigar esses jovens que se reuniam em torno do poeta Mikhail Petrashevski, mandando prende-los, entre eles, Dostoievski. No alvorecer da sua força criativa, Dostoievski, mais uma vez, foi arrancado do seu sonho literário.

Durante oito meses ele ficou em uma solitária da Fortaleza de Pedro e Paulo, em São Petersburgo. Depois, foi enviado para fazer trabalhos forçados em Omsk Prison, por mais quatro anos até ficar exilado na Sibéria por seis anos. O pior de tudo, no entanto, foi a terrível experiência que ele passou. O Czar Nicolau I decidiu punir os idealistas de forma cruel para que servisse de exemplo aos seus contemporâneos. Na madrugada de 22 dezembro de 1849, oito meses após a prisão, eles foram levados para um espetáculo público, onde a execução iria ser promulgada.O ritual da execução penal foi seguido em sua totalidade, soldados perfilados, estáticos, um padre, com um grande crucifixo de ouro nas mãos, marcha à frente dos condenados. Amarrados em estacas, os prisioneiros estão diante do pelotão de fuzilamento. O comandante, acompanhado pelo rufar dos tambores, lê a sentença em voz alta, terminando com as palavras: morte por fuzilamento. Novo rufar dos tambores, ele ergue a mão para ordenar a execução quando, no último momento, surge um mensageiro, trazendo nas mãos nova ordem do Czar: a sentença fora comutada para trabalhos forçados e de serviço no exército. O Czar Nicolau I havia decidido se divertir  às custas deles, usando até mesmo fundos públicos para financiar esta fingida execução. O grupo viveu os piores momentos de sua vida esperando o fuzilamento. Dostoievski descreve em sua novela O Idiota, nas palavras do Prince Myshkin esse momento:

                 O homem foi trazido para a plataforma com alguns outros, e a sentença de execução por fuzilamento, por crime político, foi lida. Em cerca de vinte minutos o perdão foi igualmente lido, e um tipo diferente de punição designada.; contudo, no intervalo entre as duas sentenças, vinte minutos ou no mínimo  um quarto de horas, ele havia vivido com a firme convicção que em poucos minutos ele iria subitamente morrer. Ele lembrou cada coisa com inusual claridade e disse que jamais iria esquecer o que aconteceu naqueles minutos.

Esse fato marcou profundamente Dostoievski. Estar  vivo era o que contava, mesmo diante da possibilidade de passar o resto dos seus dias na prisão, conforme ele mesmo o disse ao ser irmão em carta escrita logo após a simulação do enforcamento:

                Vida é vida em qualquer lugar, a vida está dentro de nós, e não no mundo exterior. As pessoas vão estar ao meu lado,  e ser um ser humano entre pessoas e manter-se único sempre, sejam quais forem os infortúnios que acontecem, não cair em desespero e perecer – isto é o que é a vida, esta é sua missão. Eu percebo assim. Esta ideia entrou em meu corpo e sangue.

Os biógrafos de Dostoievski, todavia,  dizem que a escrita dele está dividida em dois momentos, antes da prisão e depois dela. Dez anos depois quando ele volta para São Petersburgo e reinicia as suas atividades literárias com sofreguidão, em busca do tempo perdido, a sua escrita já não é mais a mesma, está marcada por uma década de pesadas e dolorosas experiências conforme se poderá comprovar com a leitura de Humilhados e Ofendidos e Recordação da Casa dos Mortos.Se antes da prisão Dostoievski acreditava numa idade de ouro para a humanidade, mesmo que para isso fosse necessário fazer uma revolução, após a sua volta ao mundo dos vivos ele já não acreditava mais nessa via, pelo contrário, estava completamente convencido que a violência não traria felicidade para a humanidade.Após viagem à Europa, viagem que ele havia sonhado muitos anos, ainda antes de ser preso, para ver e sentir o que estava acontecendo por lá, deixou-o completamente frustrado, desiludido. Ele chegou à conclusão de que a proposição da Revolução Francesa, Liberdade, Igualidade, Fraternidade era falsa, apenas uma frase que carecia de profundidade. As suas impressões estão no livro Notas de inverno sobre impressões do verão, livro que ele trabalhou quase simultaneamente às Memórias do Subsolo,  onde a ideia principal é a impossibilidade do ser humano reger a sua vida com base na razão.Não é à toa que o personagem de Memórias do Subsolo descrê de todas as utopias, de qualquer possibilidade de existência de um mundo harmônico ou  Palácio de Cristal, sob o argumento de  que  ele seria apenas uma pequena roda dentada dessa engrenagem.

O personagem de Memórias do Subsolo está convencido de que todo o significado da existência humana reside na afirmação da vontade irracional, e ele resiste a toda argumentação matemática da razão. Apesar de tudo, estou firmemente convencido de que não só uma dose muito grande de consciência, mas qualquer consciência, é uma doença. Insisto nisso. 

E ele continua com os seus paradoxos:

Sou homem doente…Um homem mau. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei ao certo, do que estou sofrendo.Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.)  (…) Menti a respeito de mim mesmo quando disse, ainda há pouco, que era um funcionário maldoso. Menti de raiva. (…) Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto. 

Mas ele se considera inteligente e é por conta dessa inteligência que não consegue tornar-se algo, pois somente os imbecis o conseguem. Esta é um reflexão que ele faz em cima dos seus quarenta anos de vida: Esta é a convicção do meus quarenta anos. Por outro lado, ele diz que viver além dos quarenta anos (que ele considera a mais avançada velhice) é indecente, vulgar, imoral! Quem é que vive além dos quarenta? Respondei-me sincera e honestamente. Vou dizer-vos: os imbecis e os canalhas. Vou dizer isto na cara de todos esses anciães respeitáveis e perfumados, de cabelos argênteos. O interessante é que ele se acha com propriedade para falar dessa forma, de agredir a todos os que são velhos  porque ele vai viver até os sessenta! até os setenta! até os oitenta! Em outro momento, se referindo à própria inteligência ele se declara culpado de ser tão inteligente: …tenho culpa de ser mais inteligente que todos à minha volta.(Considerei-me, continuamente, mais inteligente que todos à minha volta, e às vezes – acreditam?- tinha até vergonha disso. Pelo menos, a vida toda olhei de certo modo para o lado e nunca pude fitar as pessoas nos olhos.)

Memórias do Subsolo foi escrito em 1864, quando o escritor vivia momentos muito difíceis com a sua esposa à beira da morte, atacada de tuberculose. Ainda quando estava no exílio, Dostoievski conheceu Maria Dmitrievna, viúva, o primeiro marido havia morrido por conta do alcoolismo, deixando-a com uma criança de seis anos de idade sem condição financeira de criá-la.Nesta época, com a ajuda de amigos, ele passou a ocupar função de oficial subalterno em Semipalatinsk, na Sibéria, onde ainda se encontrava exilado. Para ele que estava recém saído da prisão, vivendo ainda sob controle no exílio, encontrar essa ainda jovem mulher, de vinte e oito anos, bonita, inteligente,  muito educada, esperta, amigável, graciosa (com todos esses elogios, ele falou sobre a jovem viúva para o irmão) deu a Dostoievski sentimento de liberdade, de felicidade e retorno à vida normal. Eles se casaram e dois anos depois foi permitido a ele deixar a Sibéria, por questões de saúde, mas foi direcionado para Tver e proibido de entrar em Moscou, São Peterburgo ou adjacências.Mas ele não se demorou muito em Tver, conseguiu finalmente autorização para voltar para São Petersburgo, exatos 10 anos depois dali ter saído, em 1859.

A vigilância sobre ele permaneceu até 1875, foram 26 anos sob controle da polícia desde a sua prisão em 1849, isto significava que toda a sua correspondência era lida, todos os seus movimentos acompanhados. Isso levou-o, sem dúvida, a criar os seus personagens com tanta ânsia de liberdade, tão ávidos por decidir eles próprios seu destino.

Memórias do Subsolo é um grande livro que deve ser lido e relido muitas vezes.

                                             Jaboatão dos Guararapes, 02 de dezembro de 2013

                                                        Lourdes Rodrigues


[i] Tudo isso é tão vulgar e comum que quase beira o fantástico. A Guidebook – The Dostoievsky Museum In Saint Petersburg. N.Ashimbaeva, V. Biron

Dia Internacional da Mulher

Na Oficina, quarta-feira, comemoramos o dia internacional da mulher com fragmentos do Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam, e um texto de Virgínia Woolf, apresentado por ela, em 21 de janeiro de 1931, para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres.

Por que escolhi esses dois textos para celebrar a mulher? 

images[1]No Elogio da Loucura, (L&PM, tradução de Paulo Neves), o narrador é a própria Loucura que, numa linguagem coloquial, fala dos deuses e dos homens, muito à vontade, e sem qualquer sombra de modéstia, afirma: Não, não há na terra nem alegria, nem felicidade, nem prazer que não venha de mim. Ao falar da Mulher, ela (a Loucura) diz que a mulher é sempre mulher, isto é, sempre louca, ainda que se esforce para disfarçá-lo, e não acredita que as mulheres fiquem com raiva dela por falar assim,  na realidade, ela as está elogiando, até porque, também, ela própria, é mulher. 

No Prólogo, o autor fala que a inspiração para o livro veio-lhe durante uma longa viagem a cavalo, da Itália à Inglaterra, lembrando-se dos amigos que estaria para rever, em especial de Tomás Morus, por quem tinha afeto especial,e dedicou a obra. Começou pela associação do nome de Morus à Moria, nome que os gregos dão à Loucura, e a intenção era de apenas de se distrair, não era de fazer uma obra séria. Mais de seis séculos se passaram e o livro continua  sendo publicado e admirado por todos os leitores, numa demonstração irrefutável de que se tornou um clássico da literatura.

Erasmo de Rotterdam, por conta do nome do lugar onde nasceu, na verdade, chamava-se Geraldo Elia, herdado do pai. Mais tarde, traduzindo-o do grego e do latim chegou a Desidério Erasmo, conhecido, também, como o Voltaire Latino, face às suas críticas à Igreja. Nasceu no século XV, filho da relação ilícita de Geraldo com Margarida, cuja família passou a persegui-lo, obrigando-o a se refugiar em Roma. Lá, ele soube da morte de Margarida, entrou para o convento e tornou-se padre. Descoberto o engano, abandonou tudo, foi para a Alemanha e passou a viver com a esposa e o filho.  Os seus pais morreram muito jovens e o tutor de Erasmo.internou-o num convento, onde ele, muito amargurado, dedicou-se vigorosamente aos estudos. Aos 21 anos de idade escreveu o seu primeiro livro, O Desespero do Mundo. Elogio da Loucura foi publicado em Paris, em 1509, quando ele já estava bem maduro.

Aqui estão os fragmentos sobre as mulheres, em que  a  Loucura, usando de uma narração autodiegética, na primeira pessoa, protagonista, com total saber sobre fatos e emoções dos personagens diz:  

A exemplo de Homero, que vai sucessivamente da terra aos céus e dos céus à terra, deixo, porém o Olimpo, para voltar uma vez mais entre os homens. Não, não há na terra nem alegria, nem felicidade, nem prazer que não venha de mim. Vêde, primeiramente, com que previdência a natureza, essa terna mãe do gênero humano, teve o cuidado de semear em toda parte o condimento da loucura! Pois, segundo os estóicos, ser sábio é tornar a razão como guia; ser louco é deixar-se levar ao sabor das paixões. Ora, Júpiter, para suavizar um pouco as agruras e os desgostos da vida, não deu aos homens mais paixões do que razão? A proporção de umas à outra é como a de um grão a uma dracma. E essa razão, ele a relegou a um pequeno canto da cabeça, enquanto entregou o resto do corpo às agitações contínuas das paíxões. Depois, ele ainda opôs a essa pobre razão, completamente sozinha, dois tiranos muito impetuosos e violentos: a cólera, que reina na parte superior, e portanto no coração, que é a fonte da vida, e a concupiscência, cujo império estende-se até o púbis. A conduta dos homens mostra bem, diariamente, o que pode a razão contra esses dois poderosos inimigos. Ela prescreve as leis da honestidade, grita até ficar rouca para que sejam observadas; é tudo o que pode fazer. Seus inimigos zombam dessa pretensa rainha, insultam-na e berram mais alto, até que enfim, cansada da resistência inútil, ela se entrega e consente tudo o que eles querem.

Mas como o homem, destinado aos afazeres, não tivesse mais que um pingo de razão para se conduzir, Júpiter, não sabendo o que fazer, me chamou, como de costume, para me consultar. Dei-lhe então um conselho digno de mim: “Faça uma mulher, eu disse, e a dê ao homem como companheira. É verdade que a mulher é um animal extravagante e frívolo; mas é também divertida e agradável. Vivendo com o homem, ela saberá, com suas loucuras, temperar-lhe e suavizar-lhe o humor tristonho e rabugento.”

Quando Platão parece duvidar se deve colocar a mulher na classe dos animais racionais ou na dos brutos, ele quer apenas nos indicar com isso a extrema loucura desse sexo encantador. Com efeito, se acontece de uma mulher querer passar por sábia, ela não faz senão acrescentar uma loucura à que já possuía; pois, quando se recebeu da natureza algum pendor vicioso, querer resistir-lhe ou ocultá-lo sob a máscara da virtude é aumentá-lo. Um macaco é sempre macaco, diz um provérbio grego, mesmo quando vestido de púrpura. Do mesmo modo, uma mulher é sempre uma mulher, isto é, sempre louca, ainda que se esforce por disfarçá-lo.

Não creio que as mulheres sejam tão loucas a ponto de se zangarem com o que digo aqui. Sou do sexo delas, sou a Loucura; provar que são loucas não é o maior elogio que se pode fazer delas? De fato, considerando bem as coisas, não é a essa Loucura que elas devem agradecer por serem infinitamente mais felizes que os homens? Não é dela que recebem aquelas graças, aqueles atrativos, que elas têm razão de preferir a a tudo, e que lhes servem para acorrentar os mais orgulhosos tiranos?

De onde vêm, nos homens, essa aparência repulsiva e selvagem, essa pele áspera, essa floresta de barba e esse ar de velhice que eles têm em todas as idades? Tudo isso vem do maior de todos os vívios, a prudência, As mulheres, ao contrário, têm a face lisa, a voz suave, a pele delicada, tudo nelas oferece a imagem encantadora de uma juventude contínua. Aliás, têm elas outro desejo na vida senão o de agradar os homens? Não é esse o objetivo dos enfeites, das maquiagens, dos banhos, dos penteados, dos perfumes, dos odores, enfim, de todos esses preparados cosméticos que servem para embelezar, pintar ou disfarçar o rosto, os olhos e a pele? Pois bem, não é pela loucura que elas podem atingir esse objetivo tão desejado? E, se os homens toleram tudo nas mulheres, não é unicamente em vista do prazer que delas esperam? E esse prazer, o que é senão a loucura? Estaremos convencidos dessa verdade se atentarmos a todas as futilidades que um homem diz, a todas as loucuras que ele faz com uma mulher, sempre que tem vontade de gozar de seus favores.

Sabeis agora, portanto, qual é a fonte do maior prazer da vida. Mas muita gente, e sobretudo os velhos, preferindo os favores de Baco aos do amor, acha que a soberana volúpia consiste nos prazeres da mesa. Não examinarei aqui se é possível fazer uma boa refeição sem mulheres. O certo é que não haverá nenhuma que seja triste ou insípida, se for alegrada pela loucura.

O segundo texto lido na oficina, foi o discurso que Virgínia Woolf fez na Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres, em 1931. Além de ficcionista, Virgínia Woolf foi excelente ensaísta e resenhista. Grandes autores, grandes obras foram resenhadas por ela. Na Oficina tivemos a oportunidade de ler a resenha sobre Viagem Sentimental, de Laurence Sterne, objeto de  postagem nesse blog. Além disso, foi uma militante da causa feminista, havendo muitos escritos que retratam bem essa sua posição em favor do gênero, ela era sempre convidada para falar em encontros onde se discutia a questão da mulher.

Eis o texto lido na oficina, extraído do livro publicado pela L&PM, com  tradução de Denise Bottman: Profissões para mulheres e outros artigos feministas.. Vale a pena ler o livro,, são excelentes todos os textos escritos pela autora.

 

 

 Profissões para mulheres


Virgínia Wòolf  leu esse texto para a Sociedade
Nacional de Auxílio às Mulheres em 2 1 de janeiro de 1931 . Foi publicado postumamente em A Morte da Mariposa,  1942.

 
profissoes_para_mulheres_m[1]Quando a secretária de vocês me convidou para vir aqui, ela me disse que esta Sociedade atende à colocação profissional das mulheres e sugeriu que eu falasse um pouco sobre minhas experiências profissionais. Sou mulher, é verdade; tenho emprego, é verdade; mas que experiências profissionais tive eu? Difícil dizer. Minha profissão é a literatura; e é a profissão que, tirando o palco, menos experiência oferece às mulheres — menos, quero dizer, que sejam específicas das mulheres. Pois o caminho foi aberto muitos anos atrás — por Fanny- Bumey, Aphra Behn, Harriet Maitineau, Jane Austen, George Eliot* —; muitas mulheres famosas e muitas outras desconhecidas e esquecidas vieram antes, aplainando o terreno e orientando meus passos. Então, quando comecei a escrever, eram pouquíssimos os obstáculos concretos em meu caminho. Escrever era uma atividade respeitável e inofensiva. O riscar da caneta não perturbava a paz do lar. Não se retirava nada do orçamento familiar. Dezesseis pences bastam para comprar papel para todas as peças de Shakespeare — se a gente for pensar assim. Um escritor não precisa de pianos nem de modelos, nem de Paris, Viena ou Berlim, nem de mestres e  amantes. Claro que foi por causa do preço baixo do papel que as mulheres deram certo como escritoras, antes de dar certo nas outras profissões.

Mas vamos à minha história — ela é simples. Basta que vocês imaginem uma moça num quarto, com uma caneta na mão. Só precisava mover aquela caneta da esquerda para a direita— das dez à uma. Então ela teve uma ideia que no fundo é bem simples e barata – enfiar algumas daquelas páginas dentro de um envelope, colar um selo no canto de cima e pôr o envelope na caixa vermelha da esquina. Foi assim que virei jornalista,- e meu trabalho foi recompensado no primeiro dia do mês seguinte—um dia gloriosíssimo para mim — com uma carta de um editor, um cheque de uma libra, dez xelins e seis pences. Mas, para lhes mostrar que não mereço muito ser chamada de profissional, que não conheço  muito as lutas e as dificuldades da vida de mulher profissional, devo admitir que, em vez de gastar aquele dinheiro com pão e manteiga, aluguel, meias e sapatos ou com a conta do açougueiro, saí e comprei um gato — um gato lindo, um gato persa, que logo me criou sérias brigas com os vizinhos.

Existe coisa mais fácil do que escrever artigos e comprar gatos persas com o pagamento? Mas esperem aí. Os artigos têm de ser sobre alguma coisa. O meu, se bem me lembro, era sobre um romance de um homem famoso. E, quando eu estava escrevendo aquela resenha, descobri que, se fosse resenhar livros, ia ter de combater
certo fantasma. E o fantasma era uma mulher, 
  quando a conheci melhor, dei a ela o nome da heroína de um famoso poema, “O Anjo do Lar”. Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel enquanto eu fazia as resenhas. Era ela que me incomodava, tomava meu tempo e me atormentava tanto que no fim matei essa mulher. Vocês, que são de uma geração mais jovem e mais feliz, talvez não tenham ouvido falar dela—talvez não saibam o que quero dizer com o Anjo do Lar. Vou tentar resumir. Ela era extremamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta.  Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado, era ali que ia se sentar—em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo — nem preciso dizer — ela era pura. Sua pureza era tida como
sua maior beleza — enrubescer era seu grande encanto. Naqueles dias — os últimos da rainha Vitória — toda casa tinha seu Anjo. E,  quando fui escrever, topei com ela já nas primeiras palavras. Suas asas fizeram sombra na página; ouvi o
farfalhar de suas saias no quarto. Quer dizer, na  hora em que peguei a caneta para resenhar aquele romance de um homem famoso, ela logo apareceu atrás de mim e sussurrou: “Querida, você é uma moça. Está escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja afável; seja meiga; lisonjeie; engane; use todas as artes e manhas de nosso sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem opinião própria. E principalmente seja pura” . E ela fez que ia guiar minha caneta. E agora eu conto a única ação minha em que vejo algum mérito próprio, embora na verdade o mérito seja de alguns excelentes antepassados que me deixaram um bom dinheiro—digamos, umas quinhentas libras anuais? — e assim eu não precisava só do charme para viver. Fui para cima dela e agarrei-a pela garganta. Fiz de tudo para esganá-la. Minha desculpa, se tivesse de comparecer a um tribunal, seria legítima defesa. Se eu não a matasse, ela é que me mataria. Arrancaria o coração de minha escrita. Pois, na hora em que pus a caneta no
papel, percebi que não dá para fazer nem mesmo uma resenha sem ter opinião própria, sem dizer o que a gente pensa ser verdade nas relações humanas, na moral, no sexo. E, segundo o Anjo do Lar, as mulheres não podem tratar de nenhuma dessas questões com liberdade e franqueza; se querem se dar bem, elas precisam agradar, precisam conciliar, precisam — falando sem rodeios — mentir.
Assim, toda vez que eu percebia a sombra de sua asa ou o brilho de sua auréola em cima da página, eu pegava o tinteiro e atirava nela. Demorou para morrer. Sua natureza fictícia lhe foi de grande ajuda. É muito mais difícil matar um fantasma
do que uma realidade. Quando eu achava que já tinha acabado com ela, sempre reaparecia sorrateira. No fim consegui, e me orgulho, mas a luta foi dura; levou muito tempo, que mais valia ter usado para aprender grego ou sair pelo mundo
em busca de aventuras. Mas foi uma experiência
  real; foi uma experiência inevitável para todas as escritoras daquela época. Matar o Anjo do Lar fazia parte da atrvidade de uma escritora.

Mas continuando minha história: o Anjo morreu, e o que ficou? Vocês podem dizer que o que ficou foi algo simples e comum — uma jovem num quarto com um tinteiro. Em outras palavras, agora que tinha se livrado da falsidade, a moça só tinha de ser ela mesma. Ah, mas o que é “ela mesma”? Quer dizer, o que é uma mulher? Juro
que não sei. E duvido que vocês saibam. Duvido que alguém possa saber, enquanto ela não se expressar em todas as artes e profissões abertas às capacidades humanas. E de fato esta é uma das razões pelas quais estou aqui, em respeito a vocês, que estão nos mostrando com suas experiências o que é uma mulher, que estão nos dando, com seus fracassos e sucessos, essa informação da
maior importância.

Mas retomando a história de minhas experiências profissionais. Recebi uma libra, dez xelins e seis pences por minha primeira resenha, e comprei um gato persa com esse dinheiro. E aí fiquei ambiciosa. Um gato persa é uma coisa ótima, disse eu; mas um gato persa não chega.Preciso de um carro.! E foi assim que virei romancista — pois é muito estranho que as pessoas nos dêem um carro se a gente contar uma história para elas. E é ainda mais estranho, pois a coisa mais gostosa do mundo é contar histórias. E muito mais agradável do que escrever resenhas
de romances famosos. Mas, se é para atender à secretária de vocês e lhes contar minhas experiências profissionais como romancista, preciso falar de uma experiência muito esquisita que me aconteceu como romancista. E, para entender, primeiro vocês têm de tentar imaginar o estado de espírito de um romancista. Acho que não estou revelando nenhum segredo profissional ao dizer que o maior desejo de um romancista é ser o mais inconsciente possível. Ele precisa se induzir a um
estado de letargia constante. Ele quer que a vida siga com toda a calma e regularidade. Enquanto escreve, ele quer ver os mesmos rostos, ler os mesmos livros, fazer as mesmas coisas um dia depois do outro, um mês depois do outro, para que nada venha a romper a ilusão em que vive — para que nada incomode ou perturbe os misteriosos movimentos de farejar e sentir ao redor, os saltos, as arremetidas e as súbitas descobertas daquele  espírito tão tímido e esquivo, a imaginação. Desconfio que seja o mesmo estado de espírito para homens e mulheres. Seja como for, quero que vocês me imaginem escrevendo um romance em estado de transe. Quero que vocês imaginem uma moça sentada com uma caneta na mão, passando  minutos, na verdade horas, sem molhar a pena no tinteiro. Quando penso nessa moça, a imagem que me ocorre é alguém pescando, em devaneios à beira de um lago fundo, com um caniço na mão. Ela deixava a imaginação vaguear livre por todas as pedras e fendas do mundo submerso nas profundezas de nosso ser inconsciente. Então vem a experiência, a experiência que creio ser muito mais comum com as mulheres do que com os homens que escrevem. A linha correu pelos dedos da moça. Um tranco puxou a imaginação. Ela tinha sondado as poças, as funduras, as sombras onde ficam os peixes maiores. E então bate em alguma coisa. Foi uma pancada forte. Espumarada, tumulto. A imaginação tinha colidido numa coisa dura. A moça foi despertada do sonho. E de
fato ficou na mais viva angustia e aflição. Falando sem metáforas, ela pensou numa coisa, uma coisa sobre o corpo, sobre as paixões, que para ela, como mulher, era impróprio dizer. E a razão lhe diz que os homens ficariam chocados. Foi a consciência do que diriam os homens sobre uma mulher que fala de suas paixões que a despertou do estado de inconsciência como artista. Não podia mais escrever. O transe tinha acabado. A imaginação não conseguia mais trabalhar. Isso creio que é uma experiência muito comum entre as mulheres que escrevem — ficam bloqueadas pelo extremo convencionalismo do outro sexo. Pois, embora sensatamente os homens se permitam grande liberdade em tais assuntos, duvido que percebam ou consigam controlar o extremo rigor com que condenam a mesma liberdade nas mulheres.

Então, essas foram duas experiências muito genuínas que tive. Foram duas das aventuras de minha vida profissional. A primeira — matar o Anjo do Lar — creio que resolvi.  Ele morreu. Mas a segunda, falar a verdade sobre minhas experiências do corpo, creio que não resolvi. Duvido que alguma mulher já tenha resolvido. Os obstáculos ainda são imensamente grandes — e muito difíceis de definir. De fora, existe coisa mais simples do que escrever livros? De fora, quais os obstáculos
para uma mulher, e não para um homem? Por dentro, penso eu, a questão é muito diferente; ela ainda tem muitos fantasmas a combater, muitos preconceitos a vencer. Na verdade, penso eu, ainda vai levar muito tempo até que uma mulher
possa se sentar e escrever um livro sem encontrar com um fantasma que precise matar, uma rocha que precise enfrentar- E se é assim na literatura, a profissão mais livre de todas para as mulheres, quem dirá nas novas profissões que agora vocês 
estão exercendo pela primeira vez? São perguntas que gostaria de lhes fazer,
se tivesse tempo. Na verdade, se insisti nessas minhas experiências profissionais, foi porque creio que também sejam as  de vocês, embora de outras maneiras. Mesmo quando o caminho está nominalmente aberto—quando nada impede qu
uma mulher seja médica, advogada, funcionária pública —, são muitos, imagino eu, os fantasmas e obstáculos pelo  caminho. Penso que é muito bom e importante discuti-los e defini-los, pois só assim é possível dividir o trabalho, resolver a
dificuldades. Mas, além disso, também é necessário discutir as metas e os fins pelos quais lutamos, pelos quais combatemos esses obstáculos tremendos. Não podemos achar que essas metas estão dadas; precisam ser questionadas e examinadas constantemente. Toda a questão, como eu vejo – aqui neste salão, cercada de mulheres que praticam pela primeira vez na história não sei quantas
profissões diferentes —, é de importância e interesse extraordinário. Vocês ganharam quartos próprios na casa que até agora era só dos homens. Podem, embora com muito trabalho e esforço, pagar o aluguel. Estão ganhando suas quinhentas libras por ano. Mas essa liberdade é só o começo; o quarto é de vocês, mas ainda está vazio. Precisa ser mobiliado, precisa ser decorado, precisa ser dividido- Como “vocês vão mobiliar, como voces vão decorar? Com quem vão dividi-lo e em que termos? São perguntas, penso eu, da  maior importância e interesse. Pela primera vez na história, vocês podem fazer essas perguntas; pela primeira vez, podem decidir quais serão as respostas. Bem que eu gostaria de ficar e discutir essas perguntas e respostas — mas não hoje. Meu tempo acabou, e paro por aqui.

Leituras dos Viageiros II

Leituras realizadas por viageiros da

Oficina de Criação Literária Clarice Lispector

Certa vez, Henry Miller disse que a vida de um livro era consequência direta da recomendação apaixonada que um leitor faz a outro. Com a segunda lista de comentários de nossas leituras postadas aqui neste blog (a primeira foi em maio de 2012), talvez esteja fortemente presente o desejo de perpetuarmos alguns livros que tanto prazer nos deram ao serem lidos.

A primeira a aderir ao convite de dar continuidade aos comentários sobre as nossas leituras recentes foi Ângela Cysneiros. Eis as suas leituras e comentários:

Ângela Carolina Cysneiros

 Os meninos da rua PauloOs Meninos da Rua Paulo, do escritor húngaro Ferenc Molnar, que recebi de um amigo especial com uma recomendação especial: observar um dos garotos por quem, inevitavelmente, iria me apaixonar: tiro e queda. Trata-se de romance escrito no começo do século passado, com tradução e notas de Paulo Rónai, também húngaro, retratando a vida de meninos que, a exemplo de nossos irmãos ” meninos”, brincavam nas ruas, tinham seu reduto, sua fortaleza e códigos de honra que mais lembram os herois gregos, rivalidades, ” guerra” por poder e espaço. Uma delícia de livro. Se para mim que vivi, por tabela, realidade parecida, em que a rua era um mundo a parte, no qual a realidade e a fantasia se misturavam, as amizades nasciam com pretensão de serem ” para sempre” – e tantas o foram -, imagino o que seria para eles…Uma leitura deliciosa. Existe, em Budapeste, numa calçada, uma cena, em escultura, que retrata os meninos, a coisa mais linda.

Entre os livros de áudio, chamou-me a atenção Se eu fechar os meus olhos agora, de Ednei Silvestre. Trama muito bem urdida, bem escrita, numa linguagem simples, porém elegante, sem o esperado tom jornalistico, intrigante e além de tudo, com personagens ricos sob o ponto de vista psicológico. Tudo é colocado, todas as tramas, mortes, miséria humana, sem criticas morais ou julgamentos, com incursões na vida política do Brasil da época em que os fatos se passaram. Muito convincente e verossímil. Vale muito a pena. Além do mais, o escritor é de uma simpatia e simplicidade próprias de escritor de peso. Recomendo.

Ainda no esquema dobradinha audio livro/arrumações de gavetas e armários, com o som acompanhando os movimentos, recurso dos “sem tempo”, diverti-me a valer com as aventuras de A mulher que escreveu a Biblia, engraçadíssimo, às vezes escrachado, até, mas muito interessante. A história da mulher super feia, tipo Raimunda, que casa com o rei Salomão e cuja maior virtude é saber ler e escrever. De Moacir Scliar. Imperdível.

AInda  me diverti com os contos de Tchécov, choquei-me e baixei o astral com os do angustiado Edgar Allan Poe, torci pelo injustiçado Conde de Monte Cristo em uma versão simplificada à qual assisti, por coincidência na TV, e outros contos mais.. Este recurso tem sido minha salvação na angústia da falta de tempo para dedicar-me às leituras, como gosto de fazer.

Comecei/recontinuei a ler os contos do nosso César Garcia, que, como sempre, nos surpreende. Depois coloco minhas impressões.

Ah, ganhei e comecei a ler, também, Mia Couto, cujo título encantou-me de pronto: Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. Tive a oportunidade de vê-lo no Roda VIva e achei-o, como sempre, encantador, sem estrelismos e muito consciente do papel dele como Africano e como cidadão do mundo. Homem inteligente, simples. Li somente o primeiro capítulo para me assenhorar do que se tratava, e de início, prendeu-me a bela narrativa. Estou ansiosa para continuar a leitura.

Ouvi a biografia de Paulo Coelho e deixou-me intrigada. Não consigo “qualificá-lo.” Ele é uma pessoa singular, obstinada, um louco, talvez, muito lúcido, oportunista em ambos os sentidos do termo, mas que não se pode negar ser um fenômeno. A que creditar essa verdadeira alucinação que o mundo inteiro tem por ele, não se sabe. Claro que a escrita – nunca o li, não por preconceito, mas por falta de oportunidade e interesse, claro- não pode ser considerada literatura de primeiro nivel, mas o fato é que ele tem um carisma que somente com a leitura de sua biografia pude dimensionar. A biografia é muito bem escrita, o biógrafo (escritor sério, autor de outras importantes biografias), acompanhou-o por três anos, pesquisou sua vida, lugares onde morou, seus escritos escondidos num baú lacrado cuja destinação após sua morte seria a incineração, vontade registrada em cartório, diz ser ele um homem singular. E esta a impressão que fica, ao final da leitura. Um homem que tinha uma obstinada vontade de ser escritor – famoso e respeitado – e que, se não é respeitado como intelectual, literato, conseguiu ser membro da ABL, é conhecido e reverenciado pelo mundo todo, seu nome e sua pessoa abrem caminhos seja onde for. Um fenômeno. Desceu aos infernos de um hospício, das drogas, dos porões da ditadura, do satanismo do sexo e soube sair de tudo isto aproveitando o que cada um desses infernos tinha para lhe ensinar. É casado há mais de 30 anos com a mesma mulher, leva uma vida simples, foi agraciado com castelo, carros, e sequer tem um chofer. É, de fato, não importa o que se diga dele como ser humano e como escritor, um homem singular e que, ao que parece, não guardou das más experiências ou incompreensões, mágoas.

Leituras de César Garcia

A Confissão da Leoa. de Mia Couto. O autor mais uma vez denuncia a violência dos homens contra as mulheres, mostra a importância das crenças, mitos e mistérios da sociedade antiga de Moçambique e a influência dos valores europeus. O romance é narrado em primeira pessoa por dois personagens. Tem feito sucesso entre críticos e leitores.

Diário da Queda,  Michel Laub, autor gaúcho radicado em São Paulo. Por meio de um diário, o personagem judeu registra seus traumas desde a infância e a história de seu pai e de seu avô, sobrevivente de Auschwitz. Um dos traumas vem da queda que os meninos judeus causam a um colega pobre, não judeu, por pura crueldade.

No teu Deserto,  romance de Miguel Sousa Tavares, português, narra a viagem de um jornalista e uma jovem através do deserto de Saara. Ótima leitura para as férias. (Agradeço a Diva o presente do amigo secreto.)

Últimas Palavras, pequeno livro em que Christopher Hitchens, jornalista inglês radicado nos EUA, reafirma suas ideias de ateu militante nos últimos dias antes de morrer de câncer.

O Escaravelho de Ouro, famoso conto de EdgarAllan Poe.

L’Inutile Beauté, fantástico conto de Guy de Maupassant que estou traduzindo do Francês por não ter encontrado em Português e que pretendo oferecer aos colegas da oficina.

O Inquietante,  artigo de Freud em que ele comenta o conto O Homem da Areia,  lido em nossa oficina.

A Consciência de Zeno,  de Ítalo Svevo, que vivia em Trieste, só teve sucesso depois que James Joyce, amigo do autor, expressou seu entusiasmo e o enviou para a França onde foi traduzido. Assim, o sucesso na Itália só veio depois da repercussão entre o público e os críticos franceses. O contato entre os dois autores foi bastante importante para criar relações estreitas entre o livro de Svevo e ULISSES, de Joyce.”Suas conexões com Ulisses são tão repetidas e óbvias que há até quem considere Svevo o inspirador de Leopold Bloom”… (José Nêumane, Cabra-Cega nos Espelhos, apresentação da edição Saraiva de bolso, do livro A Consciência de Zeno). Já as ousadias gráficas e a criação de palavras, tão frequentes em ULISSES, são claramente a sequência das invenções de Lawrence Sterne, irlandês como Joyce, em A VIDA E AS OPINIÕES DO CAVALHEIRO TRISTRAM SHANDY. E aqui no Brasil, essas relações aparecem entre Sterne e Machado de Assis em MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS em que o narrador morto, contando sua própria história, dirige-se com frequência ao leitor. Assim, Zeno, Shandy, Bloom e Cubas são quatro personagens que embora distantes geograficamente, teriam muito o que conversar sobre o que disseram de suas vidas esses quatro autores imortais cujas obras não podem ser ignoradas por quem gosta de literatura.

É Isto um Homem?,terrível livro do italiano PRIMO LEVI, também sobre a perversão nazista. O livro é famoso.

Finalmente, iniciei a leitura do famoso A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy, de Lawrence Sterne, em Português, que consegui comprar na Estante Virtual.

Leituras de Lourdes Rodrigues:

A Coleção Folha Literatura Íbero Americana, da qual eu li alguns dos livros que vou comentar aqui, surpreendeu-me pela qualidade da literatura. É muito comum as coleções incluírem alguns bons e consagrados escritores – âncoras para atraírem o leitor – ao lado de outros que não se sabe a razão de estarem ali. Na Coleção Folha os autores são excelentes, a obra escolhida pode não ser a obra prima de cada um, mas figura entre as suas grandes criações, com certeza. Por enquanto, vou comentar sobre Tia Júlia e o Escrevinhador, de Mário Vargas Llosa; Delírio, de Laura Restrepo; O Túnel, de Ernesto Sábato; e, O livro de Areia, de Jorge Luís Borges.

Tia Júlia e o Escrevinhador,  de Mário Vargas Llosa, pode não ser o melhor livro do autor, mas tem um lugar de relevo no seu patrimônio literário, pela sua originalidade, pela estrutura da narrativa, pelo humor. No Prólogo, o autor dá a dimensão do tempo e esforço na escrita do romance. Ele foi iniciado em Lima, continuou a ser escrito, com muitas interrupções, em Barcelona, La Romana, Nova York e de novo em Lima, onde concluiu quatro anos depois. Não se sabe, na verdade, o tempo que levou para a sua elaboração. E ele fala que baseou o romance em fato real, num autor de radionovelas que havia conhecido quando jovem, cuja lucidez fora devorada, por algum tempo, por suas histórias melodramáticas. E diz, ainda, que acrescentou dados autobiográficos da sua primeira aventura matrimonial, para que o romance não ficasse artificial demais.

A história fusiona ficção e realidade com muito humor e originalidade. A multiplicidade de narrativas é um recurso utilizado pelo autor para contar a sua paixão pela tia Júlia, o seu desejo de se tornar escritor, a relação com Pedro Camacho, autor compulsivo de radionovelas, e as novelas do frenético radio-ator propriamente ditas. Os capítulos se alternam entre o romance do jovem pretenso escritor e as novelas do fenômeno radiofônico. São duas narrativas em paralelo, a do mundo ficcional de Varguitas, contada na primeira pessoa, e a do mundo ficcional de Pedro Camacho, todas as novelas na terceira pessoa. A mudança de voz e os estilos bem distintos entre um capítulo e outro, embora logo percebidos, não são suficientes para a identificação imediata das duas linhas narrativas. O leitor fica completamente frustrado sem saber o que ocorreu com os personagens da história de Camacho, pois os capítulos sempre se encerram no auge do conflito, cheios de perguntas que jamais serão respondidas. A deterioração do autor Pedro Camacho vai sendo observada pelas perdas de fio das meadas, mistura de enredos, morte e reaparecimento de personagens, entre outros. Este é um romance onde o humor reina com força absoluta. Há uma cena imperdível, em que o autor Varguitas vai entrevistar um mexicano, dirigente de uma revista, escritor, presidente de uma delegação de economistas, de cerca de 60 anos, que estava acompanhado da esposa, uma mulher miúda de olhos muito vivos, que usava um chapeuzinho de flores, e quando ele acompanhava o casal de volta para o hotel, a mulher começa a passar mal, abatida, abrindo e fechando os olhos, mexendo a boca de um jeito estranhíssimo e o marido lança um olhar feroz para a mulher e para ele, depois acelera os passos, abandonando-os à própria sorte. O trajeto para o hotel narrado por um Varguitas, completamente apavorado, é extremamente hilário, ele carregando a mulher nos braços pela rua, o homem correndo na frente, a chegada ao hotel, você fica imaginando a cena e não consegue parar de rir.

Li várias obras de Mário Vargas Llosa, creio até que já havia lido esta, mas não lembrava, talvez porque na época não tivesse a maturidade necessária para compreender a sua grandiosidade, e considero-a uma das suas melhores criações. O romance tem uma estrutura complexa que Mário Vargas Llosa maneja com extrema habilidade, competência e humor.

Delírio,  de Laura Restrepo, surpreendeu-me desde o primeiro parágrafo. Fiquei tão impactada com a sua leitura, que o usei como isca para os escritores da oficina criarem as suas próprias versões da história ali começada. É muito difícil escrever o primeiro parágrafo de um livro, parágrafo em que o autor ou atinge o leitor de forma mortal, e ele não tem mais como abandoná-lo, sob pena de se arrepender amargamente, ou vai entediá-lo, fazendo-o fechar o livro para nunca mais voltar a abri-lo. Gabriel Garcia Marquez, por exemplo, disse não ter a menor habilidade para fazer contos, porque a sua maior dificuldade como escritor, consistia na elaboração do primeiro parágrafo, e os contos exigiam vários começos. No início do primeiro parágrafo de Delírio, o personagem, na primeira pessoa, narra o momento em que ele entra num quarto de hotel, cuja porta foi aberta por um homem, e vê a sua mulher, sentada ao fundo, olhando pela janela de forma estranha. Em seguida, ele sai do modo narrativo para o de diálogo direto e diz, iniciando com letra maiúscula, Quando parti nada de estranho acontecia com ela (…), simplesmente separando a narração do diálogo com uma vírgula. Continuando a frase, a narrativa muda para a terceira pessoa, mas como Aguilar ia acreditar nisso (…), distanciando-se, colocando o narrador por fora, para depois voltar ao personagem em diálogo direto. E assim continua, sobrepondo vozes, espaços e tempos narrativos, na luta feroz do personagem para descobrir o que aconteceu com a mulher na sua ausência, obrigando o leitor a reler várias vezes as frases para se situar. No parágrafo seguinte, surge outro personagem, um ex-amante de Agustina, nome da mulher estranha, traficante ligado a Pablo Escobar que, num diálogo intenso com ela, de quem não se ouve a voz, pois apenas se percebe do monólogo dele sinais da sua fala, outro corte profundo no tempo e espaço narrativos pois não se sabe em que momento e lugar está acontecendo. O próximo parágrafo traz a história da Agustina quando criança, no início, na terceira pessoa, em seguida, no diálogo direto com outro personagem, o seu irmão, Bichi, dentro das frases, sem qualquer separação por aspas ou travessão. Mais adiante, outra história começa a ser contada, a de um alemão, que depois vai se descobrir ter sido o avô dela, cuja vida acaba de forma trágica. São várias histórias imbricadas, separadas apenas por parágrafos, numa escrita sôfrega e de aparência caótica, ou talvez alucinada, pela sucessão de vozes, que leva o leitor, algumas vezes, a ter de parar para não se perder totalmente naquele turbilhão de imagens, sons e insensatas emoções. Talvez tenha sido a estrutura mais complexa de um romance que eu tenha lido até agora, e já estava acostumada às estruturas das narrativas de Faulkner que são muito fragmentadas, difíceis de montar o quebra-cabeça. São 277 páginas de fragmentos que você vai juntando para compor a história, que a autora consegue manter cheia de mistério e tensão, revelando aos pouquinhos os segredos dessa estranha mulher. Até quase o capítulo final não se sabe o que de fato havia acontecido para deixá-la estranha daquela forma, mantendo o leitor aprisionado na angústia desse não saber. A autora envolve dados de realidade do narcotráfico colombiano, para dar mais veracidade a sua história. No meu ponto de vista totalmente dispensável, porque o conflito psicológico do personagem já era mais do que suficiente para sustentar a trama. Delírio foi vencedor do Prêmio Alfaguara de 2004 e José Saramago que presidiu o júri de premiação disse do livro: Um dos melhores romances na memória recente. E mais: Quando o nível da escrita chega onde Restrepo o levou, ele deve ser valorizado. A escritora Laura Restrepo, da Colômbia, certamente, ganhou mais uma leitora pela qualidade e arrojo na sua escrita complexa que ela com muita destreza soube arquitetar.

O Túnel,  de Ernesto Sábato, também da coleção, é outra obra extraordinária. Narrativa na primeira pessoa, no estilo bem confessional, no primeiro parágrafo, na primeira frase, o personagem revela ser pintor e ter assassinado Maria Iribarne, mas diz, ainda, que o processo deve estar na lembrança de todos e que ele não precisa dizer mais sobre a sua pessoa. Daí em diante ele teoriza um pouco sobre o que lembrar, para voltar no segundo capítulo à historia do seu crime. A estrutura não tem a complexidade das duas anteriores, o autor inicia a narrativa de trás para frente, começa pelo fim, pelo drama já acontecido e volta para o começo, para o dia em que ele encontrou pela primeira vez Maria Iribarne. Desde o primeiro capítulo o leitor percebe que está diante de um personagem obsessivo, que vive em aguda crise existencial e na mais completa solidão. O encontro com a sua vítima parte de uma suposta identificação, ela viu em seu quadro o que ninguém conseguia ver, somente ele e ela: Existiu uma pessoa que poderia me entender. Mas foi, justamente, a pessoa que matei. E daí em diante, ele passa a persegui-la alucinadamente, segue-a pelas ruas, descobre endereço, telefona, ele não consegue deixar de pensar nela, de colocá-la em suas obras, é uma narrativa delirante, escrita numa linguagem simples, bela. O túnel é um romance psicológico que traz em seu enredo simples, questões metafísicas fundamentais do ser humano. Não tenho dúvidas, de que assim como o estrangeiro de Alberto Camus, ele se tornará um clássico da literatura. Sobre o livro, o próprio autor declarou que enquanto o escrevia, ele mesmo ficava perplexo, confuso, pois o que saía era muito diferente do que ele havia planejado. A sua idéia inicial era escrever um conto em que o protagonista da história enlouquecia por não conseguir comunicar-se, nem mesmo com aquela mulher que parecia tê-lo entendido tão bem ao olhar aquele quadro e acabou se tornando uma obra em que o ciúme e posse tomaram a direção. Não há dúvida de que o personagem continua a se sentir num túnel, túnel que ele esteve à vida toda: em todo caso, havia um só túnel, escuro e solitário: o meu, o túnel em que transcorrera a minha infância, minha juventude, toda a minha vida. Na hora em que ele está para matar a amada, ele diz: Tenho que matar você, Maria.Você me deixou sozinho. Ele a matou por ela ter lhe dado a esperança de acabar com a solidão: senti como se o último barco que podia resgatar-me de minha ilha deserta passasse ao largo sem avistar meus sinais de desamparo. Meu corpo tombou lentamente, como se tivesse chegado a hora da velhice. Velhice e solidão estão aí como sinônimos.

O livro de Areia,  de Jorge Luis Borges, traz 13 contos, dos quais eu só li, até agora, dois deles, suficientes para eu saber do que tenho pela frente. O Outro, é uma história em que um professor está recostado num banco defronte ao rio Charles, na Universidade, quando na outra ponta do banco, senta-se alguém e estabelece-se um diálogo que, três anos depois, ele encontra coragem para falar, sem receio de perder o juízo.Na verdade, trata-se de um encontro do personagem com ele próprio quando jovem, trazendo à tona o tema do duplo. O desafio de Borges, segundo ele mesmo, no epílogo, é que os dois personagens fossem suficientemente diferentes para serem dois e suficientemente parecidos para serem um. Conseguiu de forma espetacular, deixando um friozinho na barriga ao contrapor as esperanças de um jovem de menos de vinte anos, seus ideais, à realidade vivenciada por um homem quase cego, com mais de setenta anos. Perfeito, claro, conciso, denso. Está na primeira pessoa, e o narrador é o homem mais velho, naturalmente. O outro conto lido foi Ulrica, que é uma linda história de amor, também na primeira pessoa, o protagonista é um professor colombiano, celibatário, e a mulher por quem ele se apaixona, uma norueguesa, Ulrica, pela primeira e última vez .

Além da Coleção Folha, quero acrescentar às minhas mais recentes leituras, dois livros de Léon Tolstoi, O Diabo (presente da minha amiga, Ângelae A Felicidade Conjugal (presente do meu amigo, César). Ambos trazem no tema, o desejo.

No O Diabo, o protagonista dá-se conta, após a morte do pai, que as finanças da família estão em baixa, devido às dívidas deixadas por ele. Larga o trabalha e vai administrar a fazenda para tentar pagar os débitos e garantir a sua propriedade. Durante anos o rapaz luta bravamente, conseguindo aos poucos ir melhorando a situação das finanças. Livre do sufoco maior dos débitos deixados pelo pai, Evguênia começa a ficar inquieto, como ele iria encontrar refrigério para a sua libido, ali na zona rural, onde as mulheres disponíveis ele não conhecia o paradeiro? Obrigado a uma continência involuntária, começou a perceber que não agüentaria por muito tempo aquela situação, por uma questão de saúde, física e mental, e não por libertinagem. Estava tão obcecado por essa falta que em todas as conversas sempre dava um jeito de falar de mulheres, prolongando o assunto o mais que podia, erotizando com o olhar cada mulher que passava à sua frente. Certo dia, conversando com o guarda florestal que fora caçador do seu pai, o assunto mulher veio à baila e ele confessou que estava passando por uma tortura imensa e o velho se dispôs a ajudá-lo, surgindo então Stepanida, cujo marido, cocheiro, vivia na cidade: é como se ela fosse mulher de soldado. É bonita e limpa. O senhor vai gostar. Há uma nota dizendo que o serviço militar durava 25 anos na Russsia tzarista, e as esposas dos soldados eram como viúvas de marido vivo, por isso a expressão. Pois é, Evguêni gostou, gostou até demais. Na primeira vez, livrou-se rápido dela, quinze minutos foi suficiente para sentir-se leve, calmo e bem disposto. Nem reparou direito na moça, lembrava-se apenas que era asseada, jovem, bonita e simples. Rapaz alheio à libertinagem, ele até pensou em nunca mais voltar a ver a moça, pois se sentia pouco confortável com tal procedimento. Mas, o desassossego voltou, e agora, ele tinha um rosto, o rosto de Stepanida, com seus olhos negros e brilhantes, aquele cheiro de algo fresco e forte, aqueles seios altos, que arfavam sob o avental…Na segunda vez, já houve conversa, mas ainda não quis marcar novo encontro. E assim os encontros foram se amiudando, ele sempre se debatendo com um juiz forte dizendo dentro dele para aquela ser a última vez e sempre os olhos e o cheiro de Stepanida voltando a lhe perturbar e esquecer o recomendado. Depois, já não precisava mais da intermediação do guarda florestal, eles já deixavam marcado o próximo encontro. E assim foi, embora ele achasse que ela não significava nada para ele, É somente para a saúde e é necessário, às vezes o desejo de vê-la era tanto que não conseguia pensar nem fazer nada até conseguir marcar novo encontro. E então ele casou com Liza, moça romântica, educada.O narrador intruso, porém, diz que Não existem explicações para Evguêni ter escolhido Liza Ánnenskaia, assim como é impossível explicar por que um homem escolhe uma determinada mulher. Durante um bom tempo, o jovem marido esqueceu Stepanida, a esposa engravidou, os negócios continuaram a lhe preocupar e ocupar, até que um dia, ele a encontra fazendo faxina, justo em sua casa. E o seu desespero, a sua angústia voltam, ao sentir que o desejo por aquela mulher ainda o dominava. São páginas e páginas com o tormento de Evguênia, que completamente tomado pelas suas emoções diz: Ela é o diabo. É o próprio diabo. Pois ela se apossou de mim contra a minha vontade. Não vou contar o final que é o ponto mais alto da narrativa. Tolstoi, neste romance, dá-nos a dimensão do conflito de um homem atormentado pelo desejo por uma mulher, sentindo-se obrigado a defender a sua postura de homem sério, marido zeloso e fiel de uma mulher que ele também amava, embora de forma bem diferente. Muito bem escrito, na terceira pessoa, mas o narrador está tão próximo do personagem que a linha que os separa, algumas vezes, torna-se invisível.

A Felicidade Conjugal,  também traz o desejo como tema, agora sob o ponto de vista da mulher. Narrado na primeira pessoa, por María Aleksândrovna, órfã, criada juntamente com a sua irmã, por uma criada, Kátia, tendo como tutor, um amigo de seu pai Serguêi Mikháilich. A evolução do sentimento de María por seu tutor, inicia com um gostar por hábito, todos na casa gostavam dele. Depois, pela lembrança de uma frase dita pela sua mãe, na presença dela, quando tinha apenas onze anos de idade, de que gostaria de um marido assim para mim (Um amigo psicanalista me disse, certa vez, que palavras de mãe ficam marcadas como cicatrizes.). Num reencontro, após seis anos sem se avistarem, quando ele a visita, deixa, ao partir, uma sensação de que a casa se tivesse enchido de vida e luz, para, no seu retorno, numa visita inesperada, ele olhá-la de forma estranha e ao ir embora ela ficar vendo-o afastar-se pela estrada.   Aqui, tudo é descrito de forma lírica, não são mais os instintos que comandam a ação, mas os sons noturnos do jardim, do rouxinol, do assobio, da folha tremulando. O sentimento de María por Serguêi vai num crescente, em passos de balé, até ela começar a enxergar em cada uma das palavras e movimentos dele, amor, e não duvidava deste. As descrições que María faz da paisagem denota o seu estado de apaixonamento. O medo de Serguêi, por conta da diferença de idade, faz com que ele use o artifício de contação de uma história para expressar os seus receios, história na qual os personagens eram um certo senhor A, um homem velho e vivido, e certa senhora B, jovem, feliz, que ainda não tinha visto nem as pessoas nem a vida. Vários desfechos foram dados a essa história até eles se entenderem e  no final , ela declarar que tinha na alma felicidade, uma felicidade que não voltaria jamais. Ela parecia estar sendo profética, porque depois de algum tempo de casados e felizes, ela começou a sentir-se solitária, mesmo estando ao lado dele: .Amar era pouco para mim, depois que eu experimentara a felicidade de apaixonar-me por ele. Eu queria movimento, e não uma fluência tranqüila da vida. Queria inquietação, perigos e autossacrifício em prol de sentimento. Havia em mim um excesso de força, que não encontrava lugar em nossa vida sossegada.Assaltavam-me repentes de angústia, que eu procurava esconder dele, como algo ruim, e repentes de ternura desenfreada e alegria, que o assustavam. Assustou tanto que Serguêi decidiu ir morar na cidade, embora odiasse a idéia de uma vida social intensa. E a partir daí, da perfeita adaptação de María à vida em sociedade, jovem que ainda não tinha visto nem as pessoas nem a vida, consolida-se o desgaste da relação conjugal que nem mesmo o nascimento do filho conseguiu mitigar.A crise fica aguda com o aparecimento de um jovem marquês italiano, mas não vou adiantar o que aconteceu, senão perde a graça. León Tolstoi consegue escrever com tal maestria, seja sob o ponto de vista masculino, ou feminino, que é impossível não se encantar com a sua escrita. Além disso, ele aborda questões fundamentais na sua literatura, o desejo, por exemplo, do homem ou da mulher, as relações estabelecidas com base nas diferenças, sejam diferenças de visão de mundo, de ordem econômica e social ou simplesmente temporal. Virgínia Woolf que o considerava o maior entre os escritores, costumava dizer quando lia algum escritor do qual ela gostava, mas, não é um Tolstoi … Sem dúvida, é uma referência no mundo da literatura.

Reparação, de Ian McEwan, livro que trata de grave e trágico equívoco. Rapaz, filho da empregada de uma  família de certo poder aquisitivo, de quem contou sempre com a ajuda financeira para os estudos, face o bom comportamento, é acusado, julgado e preso pelo estupro de uma adolescente, sobrinha da dona da casa. A acusação partiu de uma criança, de nove anos de idade, Briony Talles, filha da patroa. Acontece que o rapaz estava enamorado de Cecília, filha do seu benfeitor e irmã da garota que o acusou, que havia presenciado cena de intimidades entre eles e estava convencida de que o rapaz era pervertido. Dois fatos a levaram a pensar assim: a cena de sua irmã obrigada a despir-se pelo rapaz, entra no lago, segundo a sua visão ; e os amassos dela com o rapaz na biblioteca da casa. Ela pretendia tornar-se escritora e sempre estava fantasiando, inventando histórias, até uma peça de teatro tentou encenar, desistindo pela dificuldade com os atores, seus primos que ora moravam em sua casa. Cecília sabia que o rapaz havia sido injustamente acusado, defendeu-o o tempo inteiro, mas não impediu de ele ser condenado e preso. Ela abandona a família e vai morar em outra cidade, jamais deixou de se comunicar com o rapaz. Chegou a guerra, a criança cresceu, Briony torna-se enfermeira, assim como Cecília, e atende nos hospitais. A história atinge o seu clímax quando Briony descobre o verdadeiro estuprador, e vai atrás da irmã para pedir perdão a ela e ao rapaz pela cruel injustiça que ela cometeu. Aqui o autor usa de recursos técnicos para falar do encontro entre Cecília e Robie, e também dos dois com Briony, levando o leitor a ficar um pouco confuso entre fantasia e realidade. Narrado na terceira pessoa, o foco da narrativa circula, ora por Briony, ora por Cecília ou, ainda, por Robie, permitindo ao leitor acompanhar o conflito pelos personagens principais do romance. Muito bem escrito. Recomento. O filme fez enorme sucesso.

Fúria Santa, a biografia de Cacilda Becker,  autoria de Luís Andrade do Prado, cuja resenha já foi publicada no meu blog (marilurde.wordpress.com) e no blog da Oficina (traco-freudiano.org/blog),  é uma biografia diferente. Guarda a força e a seriedade documental, pelo registro de uma parte importante da história da arte cênica no país, além de sua relevante qualidade literária. Ela veio para servir de referência à trajetória do teatro brasileiro, contextualizado por cenários socioeconômicos e políticos. E tudo contado com muita mestria, usando artifícios próprios de um ficcionista maduro. Desde o prólogo se percebe isso. Ao usar várias visões para contar o momento em que Cacilda Becker sente-se mal e é socorrida no teatro, entre o primeiro e o segundo ato da peça Esperando Godot, de Samuel Beckett, Luís Carlos Prado deu uma jogada de mestre, demonstrando que o seu objetivo não era registrar o fato como ele ocorreu, na triste e pretensa tarefa do historiador que se engana pensando existir uma verdade a ser contada. Tem-se a impressão de que ele quis mostrar como cada um, do lugar em que se encontrava, viu aquele momento. Lugar aqui entendido como espaço físico (no teatro) e emocional (na relação com a atriz), num resgate possível das emoções daquele dia. O livro é riquíssimo em detalhes sobre a vida de Cacilda Becker no teatro, desde 1941, até a sua última cena, em Esperando Godot.

Cacilda Becker, fúria santa ou santa fúria

FÚRIA SANTA OU A SANTA FÚRIA DE CACILDA BECKER*

Lourdes Rodrigues

Fúria Santa, a biografia de Cacilda Becker, escrita por Luís Andrade do Prado, estava numa pilha de livros do meu marido, à espera de oportunidade para ser lida, quando eu a encontrei. Retirei-a da fila humilhante e disse: esta aqui eu vou ler primeiro! Nem perguntei se poderia, talvez por receio de ouvir um não, tão encantada que eu ficara com a possibilidade de ler sobre a mulher que se tornara mito na dramaturgia brasileira. A capa, uma bela imagem da atriz quando representou Antígona, de Jean Anouilh, personagem criada por Sófocles que sempre me emocionou pela força, determinação, coragem e beleza. Não foi à toa a escolha daquela capa, com certeza.

À medida que eu ia lendo, me dava conta da qualidade da escrita, tão rara quando se trata de biografia. Muitas vezes o biógrafo, na ânsia de escarafunchar a vida da sua vítima, se descompromete por completo com o estilo, a forma ou mesmo com o português. São livros abandonados, mesmo pelo praticante de voyeurismo de celebridades, porque após o consumo, nada sobra.

Cacilda Becker – fúria santa é uma biografia diferente. Guarda a força e a seriedade documental, pelo registro de uma parte importante da história da arte cênica no país, além de sua relevante qualidade literária. Ela veio para servir de referência à trajetória do teatro brasileiro, contextualizado por cenários socioeconômicos e políticos. E tudo contado com muita mestria, usando artifícios próprios de um ficcionista maduro. Desde o prólogo se percebe isso. Ao usar várias visões para contar o momento em que Cacilda Becker sente-se mal e é socorrida no teatro, entre o primeiro e o segundo ato da peça Esperando Godot, de Samuel Beckett, Luís Carlos Prado deu uma jogada de mestre, demonstrando que o seu objetivo não era registrar o fato como ele ocorreu, na triste e pretensa tarefa do historiador que se engana pensando existir uma verdade a ser contada. Tem-se a impressão de que ele quis mostrar como cada um, do lugar em que se encontrava, viu aquele momento. Lugar aqui entendido como espaço físico (no teatro) e emocional (na relação com a atriz), num resgate possível das emoções daquele dia. As lembranças do filho, Cacá, quase quarenta anos depois (data do depoimento), ainda revelam sentimento de culpa por ter deixado a mãe almoçar sozinha naquele dia, para ir se encontrar com a namorada. E ao ouvir a mãe reclamar de dor de cabeça no teatro, veio-lhe imediato à mente: Sua mãe vai morrer, sua mãe vai morrer. A estudante que estava no teatro para assistir a peça como tarefa da escola (tratava-se de uma matinê só para estudantes), que jamais havia  visto Cacilda Becker antes e nem mais a veria depois, é a única que diz ter percebido a atriz cambalear ainda no primeiro ato. Da longa espera para segundo ato até o aviso de que ela havia passado mal e passarem com ela para uma ambulância, ela  diz: Não deu para ver bem, foi muito rápido e estávamos bagunçando. Mas naquele momento ficou todo mundo quieto e assustado. Marília Pera, jovem atriz, na época, viu tudo com o seu olhar dramático e faz relato emocionante de Cacilda Becker sendo carregada nos braços do palco para a platéia, ainda vestida com o terninho de Estragon (o seu personagem na peça), o braço caído, a mão, os dedos esbarrando pelas cadeiras. Era como se ela estivesse tentando se segurar ou se despedir daquele lugar. O relato mais detalhado fica por conta de Líbero Ripoli Filho, ator da peça, que conta ter levado a atriz nos braços para a ambulância e no caminho, percebendo que ela estava com dificuldade para respirar, atribui ao nariz de palhaço que a atriz ainda estava usando, e pede para ela o retirar, e ao entregá-lo ela diz: Guarda para mim, como se fosse voltar logo.

São sete depoimentos, inclusive, o do ex-marido e companheiro de teatro Walmor Chagas que encurta tanto a sua contação que parece ainda não acreditar no que aconteceu naquele dia. Cada um contou a sua versão, do jeito que ela está na sua lembrança após todas essas décadas. O autor usou nas quase seiscentas páginas, sempre que possível, os depoimentos das pessoas entrevistadas para contar a história da atriz e do teatro, pessoas que conviveram com ela, familiares, vizinhos, conterrâneos, amores, colegas, diretores, dramaturgos.

No último capítulo, Godot Chegou, Luís André de Prado começa com o trecho final do primeiro ato da peça que finaliza com a frase de Estragon/Cacilda: Então, vamos? (Esta frase, inclusive,  abre o capítulo dos sete depoimentos) e Vladimir/Walmor responde: Vamos, para dar continuidade à cena do primeiro capítulo quando Cacilda é levada de ambulância para o hospital, retornando ao momento trágico da atriz, usando da forma circular para contar a história.

Nos dezoito capítulos anteriores ele volta para o começo, para as origens dos Becker e Yaconis, para o caminho percorrido pela atriz desde a menina pobre, apaixonada pela dança – quem sabe sonhando um dia ser tão grande quanto Isadora Duncan, seu paradigma criador somente conhecido muitos anos depois –  e encher os palcos com a sua dança criativa,  até a grande atriz de teatro na qual ela se tornou, um mito da dramaturgia brasileira. A pesquisa do autor o levou ao tataravô de Cacilda Becker, por volta de 1780, na Alemanha, ao conde Von Becker, a linhagem nobre de ascendência da atriz pelo lado materno, cujo neto, Carlos Henrique, quase um século depois, não mais conde e sim ferreiro, o que denota o empobrecimento da família, migrou para o Brasil com a esperança de prosperidade. A ascendência paterna o autor foi buscar na Calábria e Grécia, origem dos Yaconis que migraram para o nosso país, possivelmente na mesma época dos Becker. Questões ligadas à colonização alemã e italiana e ao cenário sociopolítico e econômico dos imigrantes são trazidas com muita competência.

A arte na vida de Cacilda Becker, o autor foi garimpar na fala da atriz: Desde cedo mamãe se incumbiu de despertar em mim o gosto pela arte, porque ela era uma mulher irrealizada. A mãe costumava ligar o gramofone movido a manivela e colocar a filha em cima de uma mesa, onde lhe ensinava alguns gestos: Tenho memória de dançar com o véu de noiva de minha mãe, em cima de uma mesa; Eu era – imagine – tão pequena e a mamãe me ensinava a compor os gestos. Incentivada ou não pela mãe, a verdade é que a menina já levava jeito desde tenra idade. Durante muitos anos, ela fez da dança o seu objetivo, buscando apoio e técnicas, porém sem jamais entrar em aulas formais de balé, usando, essencialmente, a criatividade para se expressar.

O autor recompôs a longa caminhada de Cacilda Becker até chegar ao teatro, descrevendo suas tentativas de fazer carreira como bailarina. Há dois momentos grandiosos desse período, registrados pela imprensa, anunciando a grande estrela que ela viria a ser: a sua primeira apresentação, em carreira solo, no palco; e a última récita, como bailarina, no final de 1939. Da primeira, A Tribuna registra, em out/38:

Em Santos, uma jovem bailarina vae apparecer em público, officialmente, pela primeira vez. Cacilda Becker é uma linda moça. A dansa não é para Ella prenda gentil de menina rica. Dansa porque nasceu dansarina, porque tem no jovem coração occultas melodias e rythmos musicaes no corpo airoso. (…) Dansando para os seus conterrâneos, Cacilda Becker vae, é quase certo, dar-lhes o praser raro de assistir ao desabrochar de uma flor preciosa, ao fulgir primeiro de uma nova estrella.”

Da segunda, O Diário comenta, em nov/ 1939:

“Cacilda vive o que dansa. Suas mãos ganham formas subtilíssimas e seu corpo sabe descrever, em meneios e movimentos agitados, a angustia de um ser que soffre ou o requebro de uma alma em festa. No Bailado das Sombras Felizes, envolta em crepe cinza, revoluteando pelo palco com extrema elegância; na Valsa Triste, de Sybellius,parecendo uma mãe em prece deante do berço do filho enfermo;na Oração a Deus Oriental, em que apparece como provocante odalisca e, finalmente, no Samba Estilizado, que teve nella uma baiana cheinha de balangandãs.”

A atriz estava ali, no palco, desde sempre.

O autor seguindo as pegadas da atriz nos anos quarenta vai localizar a entrada de Cacilda Becker no teatro, mais precisamente no TEB – Teatro do Estudante do Brasil, pelas mãos do seu amigo e incentivador Miroel Silveira que, segundo o biógrafo, já estava certo de que a carreira de bailarina da amiga não tinha futuro. Ele se refere à dificuldade enfrentada por uma bailarina, pouco convencional, para se manter com tal profissão. Cacilda Becker era muito pobre, sabia muito bem o que era passar fome, além de ter de garantir a própria sobrevivência, cabia-lhe colaborar com a renda da família. Não, não, ela não podia se dar ao luxo de uma profissão assim. A frase de Cacilda Becker, que o biógrafo foi buscar, entretanto, demonstra o quanto ela tinha consciência de sua capacidade artística: Eu deveria abdicar e não me desperdiçar como artista; teria que trocar de arte. Até aquele momento, ela jamais havia pisado num teatro fosse para assistir uma tragédia, ou uma comédia, e ela ficou muito surpresa quando Miroel lhe disse ser o teatro o único meio pelo qual ela poderia assumir totalmente a sua vida artística.

O livro é riquíssimo em detalhes sobre a vida de Cacilda Becker no teatro, desde 1941, até a sua última cena, em Esperando Godot. Não foi um caminho fácil, ela parecia ter todas as características que um ator de teatro não poderia ter: respiração curta, voz metálica, dicção acentuada, baixo peso, lutando arduamente para se manter nos 47 kilos, numa época em que as mulheres cheiinhas eram as preferidas. No entanto, a forma como investia nos personagens, o jeito que os representava, eliminava todas as suas fraquezas, subjugando totalmente o personagem à sua interpretação. Décio de Almeida Prado, um dos mais conceituados críticos daquela época, escreve no Estadão que Cacilda Becker, na peça Entre Quatro Paredes, de Jean Paul Sartre, não tinha a voz nem o físico ideal para interpretar o papel de Inês, a lésbica, mas que havia superado com o espírito tais dificuldades, forçando vitoriosamente os limites da própria personalidade. Numa entrevista Cacilda Becker disse:

“Ate que ponto eu penetro dentro de uma personagem e ela dentro de mim, não é fácil dizer. Em poucos momentos eu e a personagem nos tornamos uma coisa só – artisticamente – e daí uma permanente insatisfação. Persigo essa fusão com a personagem, quase uma osmose, e quando ela não vem sinto-me frustrada. (…) Sou um instrumento da minha própria arte, sou o meu próprio violino.

Assim a reconheceu Carlos Drummond de Andrade em seu poema quando de sua morte: A morte emendou a gramática./ Morreram Cacilda Becker/Não era uma só. Era tantas. E o poeta enumera: Professorinha pobre de Pirassununga/Cleópatra e Antígona/Maria Stuart/Mary Tyrone… E o poema segue enumerando tantas Cacildas…

Fúria Santa é um livro para ser lido e relido por todos aqueles que amam o teatro e querem saber sobre ele na década de quarenta, cinqüenta e até quase os anos setenta. A obra recompõe as dificuldades que os atores e produtores vivenciavam nos palcos do Rio de Janeiro, celeiro do teatro brasileiro, ali ele começou e desabrochou. Todas as peças que foram montadas, o empenho dos atores, as respectivas críticas estão cuidadosamente detalhadas. Os movimentos teatrais TEB, GUT, TBC. As inovações, os experimentos, a modernização do teatro, a profissionalização dos atores, o controle pelos italianos, Zampari, Adolfo Celi, o surgimento da figura de diretor, o polonês Ziembinski, os diversos grupos que foram se formando, as paixões, os ciúmes, as peças montadas para arrecadar recursos, as peças idealizadas, enfim, toda a história do teatro brasileiro desse período contou com a participação de Cacilda Becker, de alguma forma. Mesmo tendo em conta uma geração de titãs como Franco Zapari, Flávio Rangel, Ziembinski, Adolfo Celi, Alfredo Mesquita, Paschoal Carlos Magno, Sérgio Cardoso, Bibi Ferreira, Décio de Almeida Prado, Paulo Autran, Nydia Lícia, Nelson Rodrigues, entre outros que contribuíram para ampliar, renovar e modernizar a arte teatral, Cacilda Becker consegue não só se destacar, mas tornar-se um mito. Ela começou a sua carreira numa época em que a polícia ainda cadastrava juntas as atrizes e as prostitutas. Moças de família, jovens talentosas não buscavam o teatro com receio da fama condenável que a profissão lhes daria. E quando morreu, dona do seu próprio teatro há mais de uma década, o Teatro Cacilda Becker, que lhe deu muitas alegrias e não pouco sofrimento para mantê-lo, já havia assegurado, para sempre, o seu lugar na história do teatro.

Foram muitas as batalhas da atriz dentro e fora do palco. Acusada de colonizada por encenar peças estrangeiras numa época em que a fúria nacionalista campeava no mundo artístico, movimento que se propunha a revolucionar o mundo através do palco, ela sofreu duras críticas. Quando ocupou o cargo de presidente do CET – Comissão Estadual de Teatro, órgão da Secretaria de Cultura, no dizer de Sábato Magaldi foi extraordinária em sua atuação, tinha prestígio junto às autoridades, mas teve de enfrentar um grupo de forte oposição o que a deixou muito abalada, numa fase em que ela já enfrentava o luto da sua separação de Walmor Chagas, marido, parceiro, amigo de todas as horas. Não havia sido a primeira separação, mas a dessa vez parecia definitiva. Ela estava disposta a fazer qualquer acordo para tê-lo de volta e de alguma forma ela o conseguiu, porque estavam juntos em sua última peça, naquela da qual sairia dos braços dele para nunca mais voltar: Estragon: Vamos?, Vladimir: Vamos.

Luís André do Prado, o autor, até então desconhecido para mim, é um escritor, pesquisador, jornalista que já trabalhou em vários jornais e revistas de renome. Para a biografia de Cacilda Becker, ele levou sete (7) anos entre pesquisa e elaboração. Em 2011 ele lançou outro livro, agora com o historiador João Braga e sobre a História da Moda no Brasil.

Jaboatão dos Guararapes, 20 de janeiro de 2013

* Publicado no blog de Lourdes Rodrigues: marilurde.wordpress.com

O adeus a Carlos Fuentes

Carlos Fuentes, escritor mexicano, morreu na última terça-feira – 15 de maio – de uma hemorragia digestiva, em um hospital da Cidade do México. Ele estava com 83 anos de idade, em plena atividade política e literária. Escrevia um novo livro.

Sobre a morte de Carlos Fuentes, seu amigo e companheiro do fazer literário Mario Vargas Llosa disse:”Fomos amigos todo esse tempo sem que nada, nunca, empobrecesse essa amizade. Deixa uma obra enorme que é um testemunho eloquente de todos os grandes problemas políticos e realidades culturais de nosso tempo”,

Na Oficina tivemos a oportunidade de ler uma obra desse autor: Aura, considerada a melhor prosa lírica dele. O livro não só nos encantou pelo surreal da história contada, como nos permitiu boas discussões sobre a narração na segunda pessoa e o processo de duplicação utilizados por ele. O interesse de todos para desvendamento do sujeito da fala, de quem era aquela voz que se escondia atrás daquele tu, levando a inúmeras possibilidades interpretativas, esquentou as tardes das quartas-feiras durante toda a leitura do livro e culminou na elaboração de um texto, que já foi publicado nesse blog em julho de 2011, mas estamos trazendo de volta, hoje, para a nossa homenagem particular ao grande escritor mexicano Carlos Fuentes.

AURA, DUPLO OU SEGUNDA PESSOA?

Aura, romance de Carlos Fuentes, escritor mexicano, publicado em1962. A tradução usada nesta resenha é de Olga Savary, publicação L&PM, Porto Alegre, 2001.

O ESCRITOR – Carlos Fuentes nasceu em 1928, no Panamá, de pais mexicanos. Filho de diplomata, na infância morou com a família nos Estados Unidos, Chile, Equador, Uruguai, Argentina e Brasil. Apesar do rigor de sua mãe que não permitia que se falasse outra língua em casa além do espanhol, a educação de Fuentes em Washington tornou-o bilíngüe ainda criança. Do pai, ele herdou a paixão pelos livros, verdadeira compulsividade pelas leituras, pelo cinema, artes em geral, e o interesse pelo conhecimento aprofundado da história do México, que ele passou a ver como uma história de amargas derrotas se comparada com a história dos EUA. A educação privilegiada imprimiu um cosmopolitismo precoce à sua personalidade, tanto que, aos 16 anos, ao retornar ao México para iniciar os estudos universitários, assumiu postura de rebelião, decidindo tornar-se escritor e abandonar os estudos. Confrontado com a necessidade da formalização acadêmica exigida pelo seu pai e aconselhada pelo seu amigo escritor Alfonso Reys com o argumento de que o México era un país muy formal…. Si tú no tienes .un título de abogado, si no eres el licenciado Fuentes, entonces es como una taza sin asa. No saben por donde agarrarte, tienes que tener un título, luego haz lo que quiera…  Fuentes tornou-se advogado e depois cursou Economia em Geneva, na Suiça, onde aprendeu a dominar o francês, língua inicialmente conhecida através das leituras de seu escritor preferido: Balzac. A rebeldia, todavia, não foi arrefecida, tornando-se marxista e filiando-se ao partido comunista no período universitário. De 1950 a 1952 foi membro da delegação mexicana da Organização Internacional do Trabalho, em Genebra, voltando ao México em 1954 quando se tornou assistente do Ministro de Relações Exteriores e depois Chefe do Departamento de Relações Culturais. Em 1955 fundou junto com Octavio Paz e Emmanuel Carballo, a Revista Mexicana de Literatura. Ainda trabalhou como assistente de diretor da Universidade Autônoma do México, abandonando tudo em 1959 para se dedicar à carreira de escritor.. Nos anos sessenta ele viveu na Europa, entretanto, o período em que esteve no México, marcou definitivamente a sua obra e a sua ação política expressando sentimento de compromisso com o país: Onde quer que eu fosse, o espanhol seria a língua da minha escrita e a América Latina a cultura da minha língua. Foi embaixador na França (1972/76) e chefe da Delegação na reunião do grupo dos 19 países em desenvolvimento na Conferência sobre Cooperação Econômica Internacional. Na vida acadêmica reúne títulos de catedrático das Universidades de Harvard (USA) e Cambridge (Inglaterra).

AS OBRAS – O escritor Carlos Fuentes marcou a sua vida literária pela autoria de extensa obra narrativa composta por contos, romances, ensaios, artigos, roteiros cinematográficos, além das reflexões sobre o fazer literário e a compreensão das civilizações pré-colombianas. A carreira literária foi iniciada antes mesmo do término dos estudos universitários com a publicação do livro de contos Los días enmascarados (1954). A influência de Balzac e de Cervantes em sua obra é admitida pelo próprio autor. Balzac, ele divide em duas fases, confessando-se influenciado pela fase mais realista, a que retrata os costumes, a sociedade, o cotidiano, composta pelas obras organizadas sob o título de Comédia Humana, chamada também de Waterloo ou napoleônica. De Cervantes, ele se diz herdeiro dos procedimentos literários presentesem Dom Quixote.

O sucesso das suas primeiras obras, entre elas Aura e A morte de Artemio projetou-o como uma das principais figuras literárias surgidas do boom latino-americano. Engajado politicamente chegou a afirmar que o escritor não pode ser alheio à luta pela transformação política que, em última instância, pressupõe também a transformação cultural. Carlos Fuentes organizou a sua obra literária segundo um esquema intitulado  La edad del tiempo. A idéia de rotular e encontrar algo que concatenasse toda a sua obra, segundo ele, veio de Balzac que reuniu na Comédia humana mais de 90 romances e contos que retratam a realidade da vida burguesa na França do século XIX. Como a temática do tempo sempre havia sido o eixo da sua obra ele denominou o seu esquema geral de La edade del Tiempo, desdobrando-o conforme  exposto a seguir:

                I.El mal del tiempo: Aura (1962), Cumpleaños (1969) e Una familia lejana (1980), Constancia y otras novelas para Vírgenes (1990), Instinto de Inez (2001), La hueste inquieta (em processo).

II.Tiempo de Fundaciones: Terra Nostra (1975), El naranjo o los círculos del tiempo (1992)

III.El tiempo Romántico: La Campaña (1990), La novia muerta (en proceso ) y El baile del Centenario (en proceso)

IV.El tiempo revolucionario: Gringo Viejo (1985) e Emiliano en Chimaneca (en proceso)

V.La Región más Transparente (1958)

VI.  La Muerte de Artemio Cruz (1962)

VII.  Los Años con Laura Díaz (1999)

VIII.  Dos Educaciones:  Las Buenas Conciencias (1959) e Zona Sagrada (1967)

IX. Los Días Enmascarados: Los Días Enmascarados (1954), Cantar de Ciegos  (1964), Agua Quemada (1981) e La frontera de cristal (1995)

X.El tiempo político: La Cabeza de la Hidra (1978),  La  silla del águila (2003), Los 68 (2005), El caminos de Texas (en proceso)

XI. Cambio de Piel (1967)

XII. Cristóbal Nonato (1987)

XIII.  Crónicas de nuestro tiempo: Diana o la cazadora solitaria (1994),  Aquiles, o el guerrillero y el asesino  (en proceso), Prometeo, o el precio de la libertad (en proceso).

XIV.  Ensayos en el tiempo: La nueva novela hispanoamericana (1969),Casa con dos puertas (1970), Tiempo mexicano (1995), Valente mundo nuevo  (1990), El espejo enterrado (1992), Geografia de la novela  (1993), Retratos en el tiempo (con Carlos Lemos), Los cinco soles de México (2000), En esto creo (2002).

XV.  Obras de teatro: Todos los gatos son pardos (1970), El tuerto es rey (1970), Los reinos originarios (1971), Orquidea a la luz de la luna (1982), Ceremonias del alba (1990). Guiones: Las dos Elenas (1964), El gallo  de  oro  (em colaboracão  com Gabriel Garcia Márquez ey Roberto Gabaldón) (1964), Un alma pura (baseado num conto de Cantar de ciegos) (1964), Los caimanes (em colaboracão con Juan ibáñez) (1965), Pedro Páramo (en colobaración com Manuel Barbachano Ponce  e Carlos Velo) (1970), Las  cautivas (1971), ¿No oyes ladrar los perros? (1974). Guión documental: El espejo enterrado (sobre o descobrimento e independência da América Latina) (1971).

Entre os títulos mais importantes da sua obra literária destacam-se, além dos já mencionados, La región más transparente” (1959), “Zona sagrada” (1967), “Cambio de piel” (1967), Terra nostra (1975), Cristóbal Nonato (1987), Los años con Laura Díaz, Agua quemada (1981); Gringo viejo (1985) e mais recente La silla del águila. E, ainda, peças teatrais de grande originalidade tais como  El tuerto es rey”, 1971, e “Orquídeas a la luz de la luna”, 1982.

ANÁLISE DE AURA –  Aura foi publicada em 1962, juntamente com La muerte de Artemio Cruz, e é considerada por Bella Josef ,que escreveu Carlos Fuentes: História e Identidade, como a melhor prosa lírica do autor. E o próprio autor mexicano diversas vezes manifestou seu especial carinho por essa novela.

Importante análise de Aura é encontrada na dissertação de mestrado de Camila Chaves Cardoso intitulada As imagens duplas e a narração em segunda pessoa em Aura.[1] Nesta resenha se tentará extrair resumo dos principais aspectos ali enfocados, especialmente no que se referem à intertextualidade, às possibilidades de leitura, ao duplo, ao narrador na segunda pessoa e ao papel do leitor.

A inserção de Aura entre as três primeiras narrativas do ciclo El mal del tiempo, as outras duas são Cumpleãnos (1967) e Uma família lejana  (1980) foi do próprio autor, e elas guardam em comum, além da questão devastadora do tempo, a estrutura quixotesca, vez que os fatos ali representados, a história ali contada, são menos relevante no que concerne à transfiguração da realidade, e mais privilegiada no seu complexo e intricado jogo ficcional que dispensam o conhecimento dos fatos históricos e sociais, buscando na própria organização da narrativa as respostas para seus muitos mistérios; nesse sentido, seriam ficções que se confessam ficções.

Camila Cardoso refere-se a uma análise dos romances de Fuentes, realizada por Carmem Perilli, à luz das tradições, a napoleônica e a quixotesca, que ressalta serem as duas tradições apoiadas na importância da representação, embora obedeçam a diferentes concepções das relações entre a linguagem e a realidade. Enquanto na primeira fazem parte tanto os romances do realismo social como as novelas psicológicas; no segundo o romance perde a estrutura tradicional –princípio, meio e fim – e os personagens é que organizam o mundo e dão sentido às coisas. A tradição quixotesca, fundada na Espanha por Cervantes ao escrever Dom Quixote, revolucionou os modos de ler, diz ela, fundando o romance moderno, assim como James Joyce viria mais tarde mudar o modo de escrita com a criação de Ulisses.

No que se refere às fontes de inspiração do autor para a realização de Aura,  Camila Cardoso traz algumas contribuições, entre elas, as apontadas pelo próprio Carlos Fuentes no ensaio intitulado Como escrevi um dos meus livros, apresentando fontes de ordem pessoal e de cunho literário. No campo pessoal ele reporta-se a um reencontro com uma antiga namorada e a uma ópera com a cantora lírica Maria Callas, diferentes situações que o fizeram refletir sobre o efeito devastador do tempo. No primeiro caso, devido ao impacto sofrido com a observação das mudanças físicas e de personalidade dela, e dele, porque também se reconhecera mudado após todos os anos que não se viram. E no segundo, ao assistir uma ópera com Callas em que ela torna idênticas, num só personagem, condições opostas como a juventude e a velhice, a morte e a vida, ficou completamente extasiado a refletir sobre o que vira. Sob o ponto de vista literário, muitos foram os pais poéticos apresentados por ele. Durante a escrita de Aura tivera oportunidade de conviver com  Luiz Buñuel de quem recebeu duas narrativas japonesas dos séculos XVII e XVIII nas quais casais por longo tempo separados, a despeito da velhice ou da morte reencontram-se, tamanha a força do desejo que os move. Daí o arremate que ele deu ao falar de Aura:  es una novela sobre la vida de la muerte. …Es mi novela emblemática del tiempo y del deseo; no sólo de la posibilidad de convocar el deseo, obtener el objeto del deseo y descubrir que no hay deseo inocente. Não foi por acaso que ele fez a escolha da peculiar voz narrativa, a segunda pessoa do singular, o tu que estrutura o desejo.Além de Buñuel, outras fontes bem específicas, tais como Henry James em Os papéis de Aspern (1909), Charles Dickens em  Grandes Esperanças (1861) e Alexandre Pushkin. em A Dama de Espadas  (1834). Os três romancistas usaram nas obras citadas triângulo semelhante ao que ele veio a criar depois, representados por uma senhora de idade avançada, uma bela moça e um jovem rapaz, sendo que a velha senhora em todos elas é um tipo de feiticeira, e segundo o autor, de alguma forma originadas na feiticeira medieval do francês Jules Michelet, único texto não ficcional que dialoga com .Aura. Tão escancarada assim a influência que na epigrafe contém citação daquele autor: O homem caça e luta. A mulher intriga e sonha; é a mãe da fantasia, dos deuses. Possui a segunda visão, as asas que lhe permitem voar para o infinito do desejo e da imaginação… Os deuses são como os homens: nascem e morrem sobre o peito de uma mulher… Outros empréstimos feitos à obra de Jules Michelet foram alguns nomes de personagens: Llorente, autor da Inquisiton dÉspagne, relevante fonte documental da narrativa de Jules Michelet: nome do general marido de Consuelo, em Aura; Saga, antigo nome dado às curandeiras: a coelha que vivia na cama de Consuelo era chamada por ela de Saga; Aura, brisa que acompanha Satã ou que penetra o corpo das mulheres possuídas pelo demônio: a jovem que representará Consuelo quando jovem recebeu esse nome; Felipe, nome proferido durante o sabá, missa negra das feiticeiras; o historiador contratado para fazer as memórias do general; e Consuelo, referência à família de plantas e ervas usadas pelas feiticeiras para os mais diversos fins ou a um papel específico de consolar da mulher no sociedade medieval, ou alusão à mulher que ingenuamente teria acreditado ser possível reaproximar Deus e o Diabo: nome da velha que contratou o historiador. A cor verde nas cortinas do casarão, nos olhos e nas roupas de Aura pode guardar, ainda, alguma relação com a da cor do Príncipe do mundo, que Michelet informa também ser verde. Outra relação possível, a dos rins, única dieta no casarão, com antigo encantamento em que a dama buscava reacender o amor no coração de seu amante: “Sobre seus rins, a feiticeira instala uma base, um forninho, e faz cozer ali o bolo…” E mais outros, como o sacrifício do cabrito, que poderia remeter ao sacrifício de um bode no dia de São João; e a partenogênese que aludiria à capacidade das feiticeiras de conceber sem a participação masculina, e explicaria, segundo Camila Cardoso, a incrível semelhança entre Aura e Consuelo e, principalmente, o ritual realizado pelas viúvas, que traria seus falecidos maridos de volta. Tal ritual inclui colocar seus talheres à mesa, acariciar uma roupa do falecido, vestir-se de noiva, beber vinho e deitar-se, a sua espera, procedimentos a que Consuelo parece ter obedecido.

Todos esses diálogos com a obra de Jules Michelet, e outras intertextualidades com os romances citados de Henry James, Charles Dickens e Alexandre Pushkin, segundo a autora,  não retira de Aura a sua originalidade, característica muito particular, quixotesca, própria do realismo fantástico enquanto aquelas obras se organizam segundo convenções literárias tradicionais, do realismo objetivo, nos quais as palavras representam as coisas, em que realidade da ficção é a realidade do cotidiano. Características quase ausentes nos textos com os quais dialoga, dão à obra de Carlos Fuentes autenticidade, tais como a atmosfera obscura resultante da carga simbólica, das elipses, da escuridão, do entrecruzamento do sonho com a realidade, com a magia, o encantamento. A adoção da voz narrativa na segunda pessoa muito contribuiu para criar o clima ambíguo, a alternância entre passado e futuro, também, técnicas muito particulares encontradas em Aura que fazem dela uma obra particular, criativa.

A narração em segunda pessoa e o processo de duplicação para Camila Cardoso estimulam a pesquisa para desvendamento de quem é a voz que fala, quem se esconde atrás daquele tu, levando a inúmeras possibilidades interpretativas. São algumas interpretações apontadas por ela:

a) Santiago Rojas, em Modalidad Narrativa en  Aura: Realidad y enajenación(1980),  considera Aura uma bela história de amor, sublime e macabra, em que o historiador Felipe é um falso protagonista, Consuelo, uma bruxa que enfeitiça, a mente enlouquecida que, oculta e dissimulada atrás da voz narrativa em segunda pessoa, “se dirije a la consciencia o al subconsciente del joven traductor”,e é com essa força hipnótica que comanda suas ações. Aura e Felipe seriam criações imaginárias, fantoches manipulados por Consuelo, a primeira para perpetuar a ilusão da beleza e da juventude e o outro, o sonho de amor e paixão.

b) Eduardo Thomas Dublé, em Hechicerías del discurso narrativo latinoamericano: Aura de Carlos Fuentes (1998), e Maria Aparecida Silva, em El simbolismo erótico en Aura (2005), enveredam por questões histórico-sociais. Dublé relaciona a segunda pessoa da voz narrativa com processos de feitiçaria arquitetados por Consuelo, com os objetivos macabros dela. a bruxa. Para que o historiador se identifique com o general ela faz com que ele leia a correspondência e se identifique com o general até o nível da fusão de ambos. Esses fatos remetem, segundo ele, a ambigüidade da relação dos latino-americanos com o continente europeu, vez que os latinos americanos se defrontam com a necessidade de fundar a sua própria identidade ao mesmo tempo em que se identificam com o velho mundo, assim, Consuelo, a bruxa, simbolizaria, una consciencia en conflicto consigo misma... Em Silva, a vertente apontada é a do mágico religioso. Ela argumenta que muitos dos povos antigos usavam a segunda pessoa para referir-se às forças sagradas. Assim, Felipe era vítima do feitiço da  bruxa habilmente planejado.

Camila Cardoso, entretanto, diz que a maioria dos estudiosos da obra tem ponto de vista diferente, considerando que a narração na segunda pessoa da obra de Fuentes é uma forma de  o sujeito do enunciado se confundir com o sujeito da enunciação, ou seja, por trás do “tu” descortina-se o “eu” do próprio Felipe Montero. Para a mesma concepção, existem variações:

  • Charleen Merced, La percepción del tiempo y el espacio en Aura, diz que Aura está escrita en segunda persona,  lo que sugiere un estado de mente alterado del personaje principal, Felipe, pues, suponemos que se ve fuera del cuerpo.
  • Glória Durán, La bruja de Carlos Fuentes,, acredita que é possível explicar  o que ela chamou de truque estilístico de Aura, a partir  da teoria da reencarnação: o tu seria o próprio Felipe, que, sendo a reencarnação de Llorente, relata em um futuro “inevitável” fatos que já teriam lhe ocorrido. 
  • Emilio Bejel e Elizabethann Beaudin, em Aura de Carlos Fuentes: la liberación de los espacios simultâneos, trazem similar interpretação, mas a partir de uma reflexão mais ampla. Consideram que Carlos Fuentes adotou essa voz narrativa para subverter a tradição “realista” em literatura, violando tanto a relação pronominal eu-tu como as relações espaço-tempo, desfazendo a unidade do sujeito e a cronologia linear – ambos fundamentos do “efecto de realidad del signo aceptado proposto pelo “realismo burguês. Para eles, Felipe Montero,  numa espécie de auto-enfoque, é ao mesmo tempo personagem e narrador: Felipe habla a sí mismo sobre sí mismo, se convierte en sujeto de la enunciación y a la vez que es sujeto del enunciado.. O tu permitiria a simultaneidade de pessoas que se duplicam, Felipe é ele próprio e o general, o futuro inevitável de Felipe, como o passado já sabido do general e, por fim, o “eu”, emissor da mensagem.

Assim, a análise da segunda pessoa leva a duas linhas de enfoques na crítica de Aura:  no primeiro enfoque um tipo feitiço: o sujeito enunciativo seria a própria Consuelo e a novela seria, ela mesma, um ato de feitiçaria. Estão nessa linha de pensamento Santiago Rojas, Dublé e  Silva. No segundo enfoque, o sujeito enunciativo coincide com o protagonista da trama, com Felipe, e o romance é na realidade uma extensa auto-análise dele, um desdobramento de sua consciência. Destacam-se as pesquisas de Charleen Merced, Glória Durán e de Emilio Bejel e Elizabethann Beaudin.

Outra análise, no entanto, é possível, diz Camila Cardoso, em que o narrador não assume identidade, Consuelo ou Felipe, é o “eu” camuflado na segunda pessoa – nesse sentido  ele não deixaria de ser o “senhor” da trama: “manifestación textual del poder creador y profético del lenguaje narrativo”. A  narração em segunda pessoa funcionaria como uma espécie de desvelamento dos processos ficcionais da criação literária uma vez que a novela denunciaria sua própria construção textual.  Esse narrador revela-se enquanto organizador do relato, uma espécie de maestro que rege as mínimas ações que estão sendo construídas pelos personagens.

Além das três possibilidades apontadas para leitura de Aura, a autora chama a atenção para as flexões verbais na segunda pessoa que apontam, também, um outro sujeito, aquele para quem se escreve: o leitor. A primeira palavra, ou ordem, do narrador é “lees”, diz ela, uma frase que pode ser vista como uma ordem dirigida ao leitor que, assim,  assume desde o início da trama um papel de duplo do protagonista. Dessa maneira, o leitor de Aura desempenha um papel mais ativo que o de costume, ele parece poder viver, participar da aventura do outro, “estar na pele” do outro.  O personagem Felipe também passaria por um processo similar ao ler as histórias do general, parece transformar-se no próprio herói de sua leitura, como ele, apaixona-se por Aura que, também, duplica-seem Consuelo. A narração em segunda pessoa parece deflagrar um efeito em cadeia na obra: a duplicação.

As diversas possibilidades de leituras que Aura enseja só atestam a importância estética da obra, diz Camila Cardoso ao fechar o capítulo.

Para buscar um referencial teórico que explique como se organiza esses dois processos de duplicação, recorre-se ao artigo de Freud, O estranho, sobre a questão do duplo, que ele tomou como base o conto de um grande escritor fantástico do século XIX, E.T.A Hoffmann, O Homem de Areia. Freud enfoca o sentimento de “estranhamento” para compreender sua estrutura e suas causas. Ele tenta explorar a etimologia da palavra unheimlich, o estranho, o estrangeiro, chegando à seguinte definição: “categoria do assustador que remete ao que é conhecido de velho, e há muito familiar”. Assim, verifica-se relação estreita entre a sensação de estranhamento e a de familiaridade. Freud dirige a sua atenção para uma situação específica que causa estranhamento: as “dúvidas quanto a saber se um ser aparentemente animado está realmente vivo, ou do modo inverso, se um objeto sem vida não pode ser na verdade animado”. Esse tipo de estranhamento estava presente nas histórias fantásticas de Hoffmann, porque ele deixava o leitor sempre sem saber se uma determinada figura da história seria humana ou um autômato. Em “O homem de areia”, Freud diz que a atmosfera de estranheza do conto estaria mais relacionada com o medo de Natanael perder os olhos, medo que na clínica psicanalista remeteria à castração,  do que mesmo com a dúvida se Olímpia seria ou não dotada de anima, que seria um tipo de incerteza intelectual.  Entretanto, é do estranhamento causado pela dúvida de que se estaria realmente vivo que Freud passa a analisar o tema do duplo;

Assim, temos personagens que devem ser considerados idênticos porque aparecem semelhantes,  iguais. Essa relação é acentuada por processos mentais que saltam de um para o outro desses personagens -pelo que chamaríamos de telepatia -, de modo  que  um  possui conhecimento, sentimento e experiência em comum com o outro. Ou é marcada pelo fato de que o sujeito identifica-se com outra pessoa, de tal forma que fica em dúvida sobre quem é o seu eu (self), ou substitui seu  eu  (self) por um estranho. Em outras palavras, há o retorno constante a mesma coisa – a repetição  dos  mesmos  aspetos,  ou características, ou vicissitudes, dos mesmos  crimes,  ou  até  dos mesmos nomes, através das diversas gerações que se sucedem. (Freud, 1987, p. 252)

De volta a Aura, Camila Cardoso vê efeitos similares à sistemática do duplo de Hoffmann. Um deles, diz ela, refere-se à “incerteza intelectual”, por parte do leitor, que se pergunta se a personagem Aura é dotada de anima. Por outro lado, há um estranhamento, tanto no leitor como no protagonista, provocado pelos dois processos de duplicação. A primeira duplicação ocorre com as personagens femininas Consuelo e Aura que desde o início parecem partilhar os mesmos conhecimentos, comunicando-se sem palavras, e no final, ´sugerindo dividir o mesmo corpo ou ser o mesmo sujeito.O leitor, ao iniciar a leitura, identifica em separado as duas personagens, e no final, percebe a junção. No outro processo, na segunda acepção de Freud, ocorre o inverso, porque o “eu” de Felipe se identifica com o “eu” do general Llorente. No início ele parece hesitar acerca de sua identidade e no final parece substituí-la por um “eu” estranho, no caso o “eu” do general. Segundo Camila, há um sujeito que, de alguma maneira, é substituído por outro, graças a um lento processo de identificação. Nos dois processos de duplicação existem as semelhanças físicas como procedimento, e a estratégia marcada pelo uso do espelho, das fotos. O processo de duplicação em Aura/Consuelo parece obedecer a um movimento de dentro para fora, uma vez que Consuelo, desdobrando-se em Aura, aponta a seguir para a possibilidade de que a jovem retorne, pressupondo, desse modo, um novo desdobramento. Em Felipe/Llorente, o movimento de duplicação dá-se no sentido inverso, de fora para dentro: é o “eu” de Llorente que parece invadi-lo, provocando uma hesitação e um questionamento sobre quem é o seu “eu”; e apontando para uma possível substituição completa dele pelo “eu” do falecido general. Além disso, a dimensão da memória em Felipe traz consigo a sensação de familiaridade que, para Freud, sempre acompanha a sensação de estranhamento. Quando chegamos ao final da narrativa, tem-se apenas uma alusão ao retorno de Aura, assim como da substituição de Felipe por Llorente, o que levou Camila Cardoso dizer que Rosalba Campra, em seu artigo Fantástico y sintaxis narrativa, considera Aura inserida num conjunto de obras denominadas de Fantástico Atual, cuja principal característica é a não elucidação das indeterminações geradas ao longo da trama. O leitor termina a novela com as mesmas dúvidas que vão surgindo ao longo da narrativa: É sonho? Delírio? Realidade? Aura é Consuelo? Felipe é o general?

CONCLUSÃO – Em entrevista ao programa Roda Viva Carlos Fuentes diz que dar uma segunda oportunidade ao tempo é uma tarefa fundamental do romancista. E mais, que gosta dos desafios, dos saltos mortais, aliás, ele entende a literatura como um salto mortal sobre um vazio, para ver se chega no outro lado, mas com o risco de cair no precipício e se fazer em pedacinhos. Diz,  ainda, que o trabalho do escritor exige disciplina, que ele se acorda todos os dias às cinco da manhã, toma uma ducha fria, mesmo morando numa cidade com a temperatura fria como a de Londres, e após o café senta-se para trabalhar, normalmente, às seis horas, e escreve até o meio dia. Então ele sai para andar pelo Panteão de Breton, se diverte lendo as tumbas…

A nossa análise particular de Aura é de que nesta bela prosa poética, lírica, Carlos Fuentes cumpriu o papel que ele espera de um escritor: deu ao tempo uma segunda oportunidade, na representação simbólica do triângulo, que de fato é uma dupla, Felipe, Aura-Consuelo. Se adotada a tese da reencarnação, Felipe pôde voltar ao passado e ainda reacender o desejo arrebatador que sentia por Aura que, também, em uma segunda oportunidade, volta à juventude para viver momentos ardorosos com o seu amado, enquanto Consuelo revive através dela, Aura, o seu duplo, o amor paixão dedicado ao general que ela, com habilidade de “bruxa”, fusionou ao jovem historiador Felipe pela identificação assimilada nas escritas dele, e ele, LLorente, também teve a sua segunda chance ao reencarnar no jovem que ambicionava escrever um livro.

Outra leitura possível seria que Consuelo revive a sua história, escondida atrás de Felipe, usando um narrador na segunda pessoa do singular, a quem ela ordena faça isso e faça aquilo, faça aquilo outro, idéia retirada dos passeios que Carlos deu pelas tumbas do Panteão de Breton, além disso, como bom mexicano que ele sempre foi, da influência do seu conterrâneo Juan Rulfo.em Pedro Páramo.                                

                                                 Jaboatão dos Guararapes, 23 de março de 2009-

                                                        Lourdes Rodrigues


[1] Dissertação apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), para a obtenção do título  de Mestre em Teoria e História Literária. Área de concentração: Teoria e Crítica Literária.