resenhas

Os nossos viageiros produzem resenhas com as suas impressões sobre  a leitura de um conto ou de um romance. Enquanto leitores empíricos, eles fazem as suas próprias andanças pelo texto, o que as tornam extremamente interessantes.

Aqui temos duas delas, a de Graça Lins, Professora de Literatura, viageira atenta aos silêncios e simbolismos de uma escritora como Clarice Lispector em A Paixão, Segundo G,H; e, a de Fernando Gusmão, viageiro-escritor-poeta, muito atento ao concerto musical de A Arvore, metáfora usada pela escritora Maria Luísa Bombal. 

A PAIXAO “SEGUINDO” GH

Graça Lins

Ler ou decifrar? Reler ou indignar-se?  “Tresler” ou esvaziar-se de toda Teoria da Literatura? Eram as frequentes indagações que se faziam a cada leitura compartilhada de A Paixão segundo GH, no grupo da Oficina Literária, cuja madrinha é a própria Clarice Lispector.  

Os olhos atentos e impactados dos leitores, quase sempre, sem respostas. Quem busca logicidade em Clarice se depara com o caos milimetricamente construído. Pensei e calei.

A Literatura e a Psicanálise dialogavam. A Linguística, também. E os leitores? Todos na expectativa do banquete: uma barata de longos cílios e massa branca escorrendo do ventre.

A cada leitura, novos questionamentos: “De quem é essa mão a que GH se refere?” “Por que o uso de tantos travessões, sem indicativo de fala de alguém como a norma gramatical preconiza?” “Seria uma linha pontilhada, indicando  um caminho já  percorrido?” “O livro termina com 6 travessões? Que estranho!”

Enquanto a narrativa se desenrolava, os presentes mais se confundiam e os ausentes queriam, mesmo, era participar do prazer gastronômico que Clarice anunciava e os envolvia como uma tecelã, usando fios ficcionais que atavam à imaginação as imagens que construíam e desconstruíam a cada  capítulo.

Para essa tessitura, outros leitores foram convidados: Freud, Sartre, Lacan, Kierkgaard, Camus, São Tomás de Aquino. Valei-nos!  Até passagens do Levítico.

As citações bíblicas eram um bálsamo para o mal-estar da incompreensão. A interlocução, com a figura de um possível leitor, lembrava o mesmo recurso estilístico machadiano, mas nada acrescentava ou esclarecia.

 “Segura minha mão, porque sinto que estou indo. Estou de novo indo para a mais primária vida divina…” (p.59)

 “Ah, meu amor, as coisas são muito delicadas. A gente pisa nelas com uma pata humana demais, com sentimentos demais.” (p. 154)

“Dá-me a tua mão. Porque não sei mais do que estou falando. Acho que inventei tudo, nada disso existiu! (p.96)

Terminado o banquete, ainda de guardanapo alvíssimo nas mãos, decidi ler GH do final para o começo, como se lê um mangá. Recolhendo os destroços do que ficou pelas páginas rabiscadas. Parágrafos inteiros marcados de verde, pequenas notas de rodapé, a fala dos colegas transcritas na lateral dos infindáveis capítulos. Comentários, intervenções e emoções expressas ao longo do texto. Isto sim, um real banquete.

Desse mastigar laborioso, retomei algumas metáforas que se repetiam e iluminavam a releitura: a alusão ao Minarete ( torre alta de uma mesquita, onde se anuncia as 5 chamadas do dia para a oração dos mulçumanos). Bem assim era a obra. De uma estrutura ficcional realmente muito “alta” Clarice nos falava. A barata, como o mais inexpressivo dos seres e a mão, que apenas é referida mas não realiza nenhuma ação protetora.

Assim, dessa pós leitura, fui guardando os achados nas entrelinhas do texto que a própria autora denomina de relato

“Meu desejo agora seria o de interromper tudo isto e inserir neste difícil relato…”(p. 80)

“De uma coisa eu sei: se chegar ao fim deste relato…” (p. 162)

Um relato constituído de indagações filosóficas, questionamentos sobre a estética, a religião e a moral, sentimentos confusos e contraditórios sobre o amor, o medo, a sexualidade, a insegurança, os problemas éticos, a fragilidade dos relacionamentos humanos, compondo uma busca desenfreada por uma identidade que se dizia desconhecida.

Ao final, diante da singularidade e da qualidade literária da narrativa, senti-me no alto de um minarete anunciando a outros leitores as possíveis  leituras de GH, com sua carga de universalidade e inconfundível beleza estética.

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Análise do Conto “A Árvore”, de Maria Luisa Bombal

Fernando Gusmão

Encontro Brígida, 18 anos, protagonista do conto, em um concerto de música clássica. Enquanto aguarda o início da apresentação, cumprimenta uma conhecida, que traz notícias do seu ex-marido. Começa a primeira peça do espetáculo; de Mozart.

Ela se deixa embalar pela música, nos percursos da infância e da sua limitada juventude. Mozart, fiel ao seu estilo, começa leve e agradável, falando com clareza, equilíbrio e transparência, mas, caminha para um foco intenso e sensual. “¡Qué agradable es ser ignorante! ¡No saber exactamente quién fue Mozart; desconocer sus orígenes, sus influencias, las particularidades de su técnica! Dejarse solamente llevar por la mano, como ahora”.

Ao som da música, seus devaneios me dizem de sua história: infância de bela menina,  pai viúvo cheio de filhas mais velhas, que negligenciou sua educação, sua formação, que se conforma: “Es tan tonta como linda”. Ao contrário de suas irmãs, que iam sendo pedidas em casamento uma a uma, Brígida não era pedida por ninguém. Isso faz com que ela, muito jovem, case-se com Luis, bem mais velho, amigo do pai. Uma sociedade patriarcal, decidindo o comportamento feminino apropriado, dificulta, ainda mais, a capacidade de Brígida viver a própria vida. O casamento falha em fornecer satisfação. Ela passa das restrições da casa do pai às limitações da vida com o marido. Sua relação com Luis baseia-se em uma relação de companhia, e não de amor. Luis, por sua vez, também se sente garroteado: “Eres como un collar de pájaros”. O conceito de casamento como estagnação está subjacente para o marido e para a mulher.

Mas, agora, Mozart entra num ritmo mais urgente e arrasta Brígida pela mão, fecha a porta do passado com um acorde doce e firme e a traz de volta para a sala de concertos, trajando preto, batendo palmas mecanicamente, enquanto a chama de luzes artificiais cresce lentamente.

Após alguns minutos, se faz, outra vez, um silêncio de expectativas, que começa a ser alumiado por uma nova harmonia. É Beethoven, que principia a tratar suas notas de forma suave e lírica, quase religiosa, autêntica.

“—No tienes corazón, no tienes corazón. —. Nunca estás conmigo cuando estás a mi lado. ¿Por qué te has casado conmigo?

—Porque tienes ojos de venadito assustado.

— Nunca me has contado de qué color era exactamente tu pelo cuando eras chico.

—Mañana te contaré. Tengo sueño, Brígida, estoy muy cansado. Apaga la luz. —Estoy ocupado. No puedo acompañarte… Tengo mucho que hacer, no alcanzo a llegar para el almuerzo…  Un compromiso. No. No sé. Más vale que no me esperes, Brígida.

—¡Si tuviera amigas! —suspiraba ella.

—Me gustaría ver nevar alguna vez, Luis.

—Este verano te llevaré a Europa y como allá es invierno podrás ver nevar.”

Chega o verão. Seu primeiro verão de casada. Novas ocupações não deixam que Luis cumpra sua promessa.

“—¿Qué te pasa? ¿En qué piensas, Brígida?”

—Tengo sueño…

—¿Todavía está enojada, Brígida?

… … …”

Brígida acha a arma que havia encontrado sem pensar: o silêncio!

Na sala de concertos, a música de Beethoven é, como toda música, um composto de sons e silêncios. Mas, pode, às vezes, ser colérica, plena de espírito de luta, de força de vontade e de uma enorme coragem; obstinada como o granito.

“—Bien sabes que te quiero, collar de pájaros

… … …

—Pero no puedo estar contigo a toda hora

… … …

—¿Quieres que salgamos esta noche?

 … … …

—¿No quieres? Paciencia.

… … …

—Dime, ¿llamó Roberto desde Montevideo?

… … … .

—¡Qué lindo traje! ¿Es nuevo?

 … … … .

—¿Es nuevo, Brígida? Contesta, contéstame!

… … …”

E então, para ela, o inesperado, o incrível, o absurdo: Luis se levanta da cadeira, joga violentamente o guardanapo sobre a mesa e sai da casa batendo as portas. Ela corre para o quarto de vestir.

“¡Ah, me voy, me voy esta misma noche! No volveré a pisar nunca más esta casa… Y abría con furia los armarios de su cuarto de vestir, tiraba desatinadamente la ropa al suelo”.

Algo, então, bate na janela: A árvore, um gomero, que, ao sopro do vento e da chuva golpeava com suas ramas os vidros da janela. Punhados de perolas que chovem a jorros sobre um teto de prata. Chopin!

A música de Chopin é intensamente pessoal, pela grande força espiritual, pela extrema sensibilidade, com um acento romântico cheio de melancolia e, em outras ocasiões, de uma pungente tristeza. Ao escutá-la acredita-se ouvir o andar, mais que firme, pesado, de seres que afrontam orgulhosos de valentia tudo o que a sorte possa trazer de injusto. É a mensagem da esperança, do otimismo, do espírito combativo, mesmo que permeado de dúvidas.

O que fazer no verão quando chove tanto? Ficar o dia inteiro no quarto fingindo uma doença ou uma tristeza?

Uma tarde, Luis entra timidamente. Ela senta-se muito dura. Em silêncio…

“—Brígida, ¿entonces es cierto? ¿Ya no me quieres? —En todo caso, no creo que nos convenga separarnos, Brígida. Hay que pensarlo mucho.”  E Luis foge do quarto.

Ela vai até a janela do quarto de vestir e encosta a testa no vidro gelado. Lá está o gomero recebendo serenamente a chuva que o atingia, calma e regular. O quarto, imobilizado na escuridão, em ordem e silencioso. Tudo parece parar, eterno e muito nobre. Isso era a vida. E havia certa grandeza em aceitá-la dessa maneira, medíocre, como algo definitivo, irremediável.

¡Siempre!

¡Nunca!…

E a chuva, secreta e igual, ainda continuava sussurrando em Chopin.

E, noite após noite, ela dormia ao lado do marido, sofrendo rajadas de dor. Mas, quando sua dor se condensava até machucá-la, como um assovio, quando ela era assediada por um desejo imperioso demais de acordar Luis para atingi-lo ou acariciá-lo, ia até o quarto de vestir na ponta dos pés e abria a janela. O quarto era imediatamente preenchido com ruídos discretos e presenças tranquilas, de passos misteriosos, de vibração, de sutis cliques vegetais, do doce gemido de um grilo escondido sob a casca do gomero afundado nas estrelas de uma noite quente de verão. Não sabia por que lhe era tão fácil sofrer naquele quarto. Era a melancolia e a pungente tristeza de Chopin engatando um estudo atrás do outro, engatando una melancolia atrás da outra, imperturbável.

Veio o outono. Haviam voltado a conversar. Voltara a ser sua esposa, sem entusiasmo e sem raiva. Não o queria mais. Mas, não sofria mais. Pelo contrário, uma sensação inesperada de plenitude, de placidez, tinha tomado posse dela. Ninguém ou nada poderia machucá-la mais. A verdadeira felicidade podia estar na convicção de que a felicidade havia sido irremediavelmente perdida. “Entonces empezamos a movernos por la vida sin esperanzas ni miedos, capaces de gozar por fin todos los pequeños goces, que son los más perdurables”.

Súbito, um rugido feroz, depois um clarão branco que a empurra para trás, toda tremendo.

¿Es el entreacto? No. Es el gomero, ella lo sabe. Lo habían abatido!

Haviam tirado sua privacidade, seu segredo; ela estava nua no meio da rua, nua ao lado de um marido que lhe virava as costas para dormir, que não lhe dera filhos. Ela não entendia como podia ter suportado o riso de Luis por um ano, aquela falsa risada de um homem que treinou para rir porque é necessário rir em certas ocasiões.

—Pero, Brígida, ¿por qué te vas?,  —había preguntado Luis.

—¡El árbol, Luis, el árbol! Han derribado el gomero.

Faz-se silêncio. E a realidade, finalmente, se sobrepõe ao mundo fantasioso de Brígida. Ela conclui que a árvore, como o marido, estão ambos sujeitos a viver e a morrer. Entende que nem a árvore nem o marido podem lhe fornecer uma existência estável. Nessa descoberta, ela rejeita sua condição anterior de dependência e decide que assumirá inteiramente a própria vida:

“¡Mentira! Eran mentiras su resignación y su serenidad; quería amor, sí, amor, y viajes y locuras, y amor, amor…”

De Maria Luisa Bombal fica para mim, principalmente, seu estilo, que desenha um fundo de familiaridade trágica. O ritmo compassado de sua escrita —e a nuance poética das figuras a cada instante evocadas— que anulam qualquer pieguice melodramática e varrem, aos poucos, toda e qualquer hipótese de dúvida entre anseio e sonho.

Setembro de 2018.


Percursos da Literatura Ocidental

Percursos da História da Literatura Ocidental, sob o olhar de Otto Maria Carpeaux

Lourdes Rodrigues

 

Programamos seguir os percursos da Literatura Ocidental, sob o olhar experiente e sábio de Otto Maria Carpeaux, grande historiador e crítico literário. Ele escreveu uma grande obra, republicada pela LEYA, em seis volumes. A ideia é seguir o percurso realizado pelo autor através dessa obra.

Carpeaux inicia dizendo que História da Literatura” é um conceito moderno, que os antigos não se preocuparam em organizar panoramas históricos das suas literaturas, que aos gregos e romanos jamais ocorreu a ideia de referir os acontecimentos literários de seu tempo e tempos idos,  o que não quer dizer que não fossem interessados em colecionar e interpretar fatos literários. Só na decadência das letras e da civilização surgiu o interesse puramente pragmático, da parte de professores de Retórica ou de bibliófilos, de organizar relações de livros mais úteis para o ensino, para melhorar o gosto decaído, ou então, compor dicionários de citações e florilégios de resumos, para salvar da destruição pelos bárbaros os tesouros literários do passado.

Então ele cita Marcus Fabius Quintilianus (35-95 da nossa era), professor de Língua e Retórica, conservador doloroso, romano austero de estirpe espanhola, segundo Carpeaux, que ao observar com tristeza a decadência estilística e moral dos profissionais de sua arte, decidiu escrever uma obra (Institutio oratoria) para ajudar na preparação da formação dos alunos, e no décimo livro inseriu uma apreciação sumária dos mais importantes autores gregos e latinos, menos com a preocupação de fazer um resumo bibliográfico e mais como um esboço de um biblioteca mínima para o aluno de Retórica. Ele organizou uma relação de livros-modelo, de Homero, através de Píndaro, Eurípides, Ésquilo, Sófocles, Aristófanes, Heródoto, Tucídides, Demóstenes, Platão, Xenofonte, até Aristóteles; e de Lucrécio, através de Virgílio, Horácio, Salústio e Tito Lívio, até Cícero e Sêneca.

Carpeaux diz que ele não suspeitou das consequências da sua escolha. Até para definir se vão ser conservados ou não, uma obra e seu autor, em épocas de grandes perdas e destruições, essas definições passaram a ser regidas pelas escolhas de Quintiliano. Na primeira Idade Média, os monges de São Bento escolheram entre as obras de Quintiliano os livros didáticos para os jovens estudiosos dos conventos; os humanistas usaram a relação para discutir a importância dos autores citados; na época de Luís XV, durante a Querelle des Anciens et des Modernes, os argumentos de Quíntiliano em favor dos gregos foram bastante usados pelos defensores dos modelos clássicos e os argumentos dele em favor dos romanos pelos defensores da poesia moderna.

Essa seleção continua sendo uma tábua de valores, embora  Quintiliano não tenha escrito uma história da literatura. Houve só um Quintiliano, embora muitos outros espíritos menores tenham organizado fichários, listas bibliográficas, sem jamais atingir o seu nível de qualidade e extensão.

Os eruditos barrocos preferiram as enciclopédias críticas, nas quais as biografias de eruditos célebres de todos os tempos serviam de pretexto para se lhes discutirem as opiniões filosóficas e religiosas… O Dicionário de Bayle (1697) foi um mero pretexto para destruir a credibilidade de inúmeras lendas gregas e romanas Nascia assim a crítica histórica. Na querela entre os antigos e modernos é posta em dúvida a superioridade dos gregos e romanos. Vico reconhecerá os valores de diferentes épocas. Montesquieu deduzirá da história romana certas leis gerais da evolução das nações. O tempo passa a ser visto agora não mais só como passado mas como evolução que continua. Começam-se a se compor histórias das literaturas modernas, histórias no sentido de erudição barroca, coleções imensas, enciclopédicas, obras de verdadeiro fanatismo de reunir datas e fatos.

A História Literária da França, iniciada em 1733 pelos beneditinos, ainda estava nos primeiros volumes quando os jacobinos deram fim violento aos religiosos, várias décadas depois. No século XIX a Academia das Inscrições se propôs a dar continuidade, mas traçou um plano tão vasto que não foi possível concluí-la.

Na Espanha, em 1766 dois franciscanos tentaram fazer a Historia Literária da Espanha, uma obra tão grande, que no décimo volume, publicado em 1791, vinte e cinco anos depois, os autores ainda não haviam acabado a introdução.

Enfim, o jesuíta italiano Girolano Tiboschi compilou entre 1722 e 1782 em 9 volumes, a história da literatura italiana, embora seja apenas um trabalho de levantamento bibliográfico, nada que representa a história da literatura como se entende hoje. O que faltava a Timboshi, segundo Carpeaux, era a capacidade de narrar, o senso crítico.

O primeiro grande crítico ele diz ter sido Samuel Johnson que optou pela forma biográfica (The Lives of the Poets, 1781) A ligação entre história e crítica veio do pré-romantismo, com seu forte interesse pelas tradições históricas das nações modernas e pela apreciação crítica de épocas então meio esquecidas, como a Idade Média. O precursor foi Thomas Warton: a sua History of English Poetry (…) é a primeira obra na qual a história literária é tratada como se trata a história política. Mas, o fundador da história literária autônoma foi Herder, embora não tenha deixado uma única obra definitiva, apenas inúmeros escritos. Com ele, os registros dos livros foram substituídos pelas histórias das obras e das ideias.

Após mencionar vários seguidores de Herder, Carpeaux diz que a única forma de resolver a multiplicidade de obras sínteses representativas das literaturas de vários países, seria retirar o viés nacionalista da História da Literatura (gregos, romanos, franceses, italianos, alemães, etc.), … abolir as fronteiras Nacionais para realizar a história da literatura europeia (e americana) e chegar, enfim, a uma História da Literatura Universal.

A história dessa Literatura internacional é composta de grandes períodos: Idade Média, Renascença, Barroco, Ilustração, Romantismo, Realismo, Naturalismo, Simbolismo, que, graças à análise estilística e ideológica, já têm sentido. E ele completa, a Literatura não existe no ar, ele diz, e sim no Tempo, no Tempo Histórico, que obedece ao seu próprio ritmo dialético. Ele ressalta, entretanto, que a Literatura reflete esse ritmo, mas não o acompanha. E diz que essa distinção é importante para não transformar a literatura em mero documento das situações e transições sociais, porque a repercussão imediata dos acontecimentos políticos na literatura não vai muito além da superfície. Quanto aos efeitos da situação social dos escritores sobre a sua atividade literária será preciso distinguir nitidamente entre as classes da sociedade e as “classes literárias”. Um terceiro aspecto que ele considera é a relação da literatura com a sociedade que não é de mera dependência: é uma relação complicada de dependência recíproca e interdependência dos fatores espirituais (ideológicos e estilísticos) e dos fatores materiais (estrutura social e econômica). Essa interdependência ele diz que constitui o objeto da “sociologia do saber”, cujos conceitos permitem estudar os reflexos da situação social na literatura sem abandonar o conceito da evolução autônoma da literatura.

Assim, em sua HISTÓRIA DA LITERATURA OCIDENTAL, Carpeaux diz que a literatura é estudada como expressão estilística do Espírito objetivo, autônomo, e ao mesmo tempo como reflexo das situações sociais.

Viagem Segunda pelo Riso

 

*Anita Dubeux

Esta postagem refere-se à nossa segunda viagem , a que foi realizada no dia 08 de fevereiro de 2017, após zarparmos do cais de nossa maruja Adelaide Câmara, onde fomos recebidos com muitas guirlandas e delicioso banquete.

Ancoramos no Traço Freudiano para mais um encontro de confraternização literária que iniciou com a leitura do cordel de autoria da viageira Salomé, escrito num momento muito especial de sua vida, em 2009,  e que ela dedicou ao marido. Trata-se de um belo e pungente cordel, porque fala do resgate do sorriso  que se perdeu em consequência de uma grande perda.

O RISO PEDE PASSAGEM

**Salomé Barros

Sessenta e três bem vividos
Trinta e sete para cem
Na caminhada da vida
Não sobra para ninguém
E mantendo o alto astral
Vai virar Matusalém

Com esse humor escrachado
Palhaçadas a granel
São tantas as trapalhadas
Que não cabem num cordel
Já conquistou doutorado
E até virou coronel

A manutenção do riso
Faz bem, é fundamental
Existir o ano todo
E não só no carnaval
No seu caso, sobretudo
É energia vital

Não permita que a tristeza
Invada o seu coração
Ela entra atravessada
Errada e na contra mão
Se você não der guarida
Some feito um furacão

Você escolhe na vida
De que lado quer ficar
Altos e baixos existem
Pra gente se equilibrar
Na corda bamba dançando
O riso a contagiar

Em seguida eu li dois poemas de Esman Dias, bem como uma breve biografia desse grande poeta que nos deixou em 2015. Foram eles:

 

FUSÃO

Santo Anjo do Senhor
Tyger! Tyger! burning bright
Meu zeloso guardador
In the forests of the night
Se a Ti me confiou
What immortal hand or eye
A piedade divina
A divina piedade
A mão, o olho imortal
Que deu forma e simetria
Terrível, meu Anjo, Tigre
A Ti, labareda clara
Dá-me teu fogo claro e me incendeia!
Dá-me tua espada à noite e me defende!
Meu santo Anjo do Senhor, meu Tigre!
E minha espada, espada, espada, espada!

 

ALUVIÃO 

Com as mesmas palavras
Girando ao redor do sol
Que as limpa do que não é faca.
João Cabral de Melo Neto

 

Parto in time aspre, et di dolcezza ignudo.
Petrarca

 

Falo do que não falo quando falo:
falo do meu silêncio,
bem mais claro
que as vozes incessantes dos que falam.
Falo do que não falo: do que sou:
bicho da terra — surdo — e mau cantor.
Falo do que não falo: tão pequeno
a destilar a noite o seu veneno.
Falo, não para o mundo dos sentidos:
falo somente para o inteligível.
Falo do que percebo: coisas claras
aéreas superfícies, copos d’água.
Falo na muda fala da batuta,
clara e precisa, do maestro à música.
Falo da pedra dura, da aspereza
de pedra sobre a pedra desta mesa.
Falo de mim em tudo de que falo.
Falo dos meus espelhos, quando calo,
Falo como quem vai a julgamento
sem esperar o indulto do seu tempo.
Falo com a voz alheia que me toca.
Falo e regresso — ileso — à minha toca.

 

Breve biografia do poeta:

ESMAN DIAS nasceu no Cariri – sertão da Paraíba. Ainda criança veio com os pais para Pernambuco. Morou em Olinda até a adolescência e desde então mora no Recife. Seus primeiros poemas foram publicados no Diário de Pernambuco e no Jornal do Commercio, em 1963. Em 1964, publicou “Os Retratos Marinhos”; em 1965, com Everardo Norões e Orley Mesquita, participa da coletânea “Clave”, ilustrada pelos artistas plásticos Anchises Azevedo, João Câmara, José Cláudio e Reynaldo Fonseca. Também em 1965, em parceria com Orley Mesquita, assina a coluna “Poesia e Tempo”, no Jornal do Commercio. Com Alberto da Cunha Melo colabora na realização do documentário “Simetria Terrível”, dirigido por Fernando Monteiro. Vários de seus poemas foram traduzidos para o francês e publicados na coletânea Recife/Nantes. Participa da antologia “46 Poetas Sempre”, organizada por Almir de Castro Barros. É professor de Literatura Anglo-americana no Departamento de Letras da UFPE e foi professor visitante da Universidade de Birmingham, no Alabama e na Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign.

Muito riso provocaram as tirinhas humorísticas selecionadas para o encontro: As Rebordosas, Garfild, Ferrato Pessoa.

O conto AMOR, do autor persa SAADI, poeta e contista “divino” que viveu no período de 1184 – 1291 — em tradução primorosa de Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Holanda — ensejou intensa polêmica e interpretações as mais diversas. Promete ser objeto de muitos escritos dos viageiros.

Trata-se da história de amor de uma ratinha por um gato, que vivia em uma mesquita abandonada, e  que quase havia sido dizimada todos os ratos que por ali viviam. Aparentemente a ratinha é porta-voz dos ratos sobreviventes para tentar convencer o gato a se mudar do local. Mantendo certa distância, para não tornar-se o seu alvo, a ratinha tenta conversar  e acaba se apaixonando seriamente por ele. Vamos aguardar as resenhas que advirão.

Continuando o encontro, foi lido o segundo capítulo do conto de Bergson, O RISO, abordando o tema do humor do ponto de vista psicanalítico.

O navio permanece ancorado, à espera do próximo encontro.

* Anita Dubeux é economista, poeta, ensaísta, contista. Brevemente terá um livro de poemas, Círculo de Seda, publicado pela Chiado Editora, de Lisboa.

** Salomé é psicóloga, cordelista, cronista.

 

 

 

 

 

 

 

O Duplo

OFICINA_DE CRIAÇÃO_LITERARIA. (3)Trabalhamos na Oficina a temática do duplo tão bem utilizada por Poe, Saramago, Borges, Dostoievsk e tantos outros mais. O grande mestre Poe ficou célebre com o conto William Wilson que nós lemos a propósito do tema. Este  conto é referência em todos os estudos sobre o duplo e é sobre ele que falarei aqui.

O conto traz a narrativa na primeira pessoa. O narrador, num tom confessional,  diz se chamar William Wilson, sugerindo que se trata de um pseudônimo, porque não gostaria de se comprometer revelando o próprio nome. A estrutura da narrativa é circular, começa pelo final quando o personagem aparentemente moribundo Próximo a atravessar o sombrio vale, tenta seduzir o leitor para que se penalize do seu drama ou talvez como uma forma de confissão diante da morte que se aproxima, lançando no seu coração  o que ele chama de influência benéfica de arrependimento e de paz :

Oh! Sou o mais abandonado de todos os proscritos! 0 mundo, as suas honras, as suas flores, as suas aspirações douradas, tudo acabou para mim. E, entre as minhas esperanças e o céu, paira eternamente uma nuvem espessa, lúgubre, ilimitada!

Com esse apelo, não há quem resista. Fisgado, o leitor quer saber o que aconteceu para que o personagem se sinta tão desgraçado. Então, ele se torna avaro, diz que não vai contar todas “as lembranças dos meus últimos anos de miséria e de crime irremissível  porque o que lhe aconteceu num período recente da vida extrapolou toda as dimensões da torpeza e que lhe seria quase impossível descrevê-las. E acrescenta, vou simplesmente determinar a origem desse súbito desenvolvimento de perversidade, porque perverso sempre se considerou, os pais até haviam desistido dele por conta disso, abandonando-o ao seu livre arbítrio, senhor absoluto de todas as ações, numa idade em que poucas crianças pensam ainda em sair do regaço materno. Mas o que aconteceu estava fora dos seus limites até então de perversão. Às vezes ele chega a duvidar se tudo não fora um sonho.

William Wilson começa a trazer as suas lembranças intercaladas com pedidos de desculpas por estar falando tanto de certos cenários do seu passado como da sua casa, da aldeia, do colégio onde tudo começou porque essas recordações são o seu único prazer hoje, quando está mergulhado na desgraça.  Realmente,acho que ele foi muito longe nessas descrições e eu perguntei aos viageiros se eles não achavam que esses cenários poderiam ter sido mais econômicos, porque, na minha opinião, tanta descrição distraíam um pouco o leitor da tensão que inicialmente havia sido criada.Diferente de mim, eles acharam que os cenários tão detalhados criavam a atmosfera necessária ao tom misterioso da narrativa. Penso um pouco diferente, como boa seguidora de Poe e Charles Baudelaire quando eles falam  do conto e da sua imensa vantagem sobre os outros tipos de narrativa, face à sua brevidade que acrescenta muito à intensidade do efeito. Apresentado como uma leitura, que pode ser realizada de um único fôlego, o conto prevalece sobre o romance pela imensa vantagem que a brevidade acrescenta à intensidade do efeito. Tal leitura, que pode ser realizada de um único fôlego. 

Após algumas páginas descritivas do cenário da escola onde ele estudava e exercia certa liderança entre os colegas, surge o momento onde tudo começou: alguém no grupo não lhe dá o lugar distinto e ascendente que os outros dão. É quando ele se dá conta de que aquele aluno sem ter qualquer parentesco com ele tinha o mesmo nome de batismo e de família. Aquela rebelião o incomodava, até porque ele não

podia deixar de encarar a igualdade que mantinha tão facilmente comigo, como uma prova de verdadeira superioridade, porque, pela minha parte, não era sem grandes e contínuos esforços que conseguia conservar-me à sua altura.

Embora ninguém parecesse perceber esse duelo que era travado, numa cegueira inexplicável aos olhos dele, e nem William, o seu duplo, demonstrasse qualquer ambição, mais parecendo que o seu objetivo consistia apenas em contradizê-lo, assustá-lo, atormentá-lo, mesmo assim não deixou de notar com certo espanto que o rival misturava às impertinentes contradições certos ares de afetuosidade, os mais intempestivos e os mais desagradáveis do mundo.

Este tipo de duplo que Cacilda muito bem chama de duplo perseguidor, é o que está mais presente nas narrativas literárias e representam a luta feroz que o indivíduo trava com os seus desejos mais profundos que ameaçam o ser social que ele julga ser. Angústia alucinante resultado dessa luta ferrenha entre o chamado eu-ideal e o ideal do eu. A fronteira entre realidade e fantasia parece se dissolver e esse encontro com  a própria imagem resulta na fantasia de um duplo como alguém estranho que me olha e me ameaça; Eu sou objeto de um outro..Eu vejo a mim como um estranho que vem de fora de mim.  

Alguns viageiros escreveram para expressar a sua visão do duplo. Cacilda Portela, por exemplo, fez algumas reflexões sobre o duplo de Edgard Allain Poe e de Dostoievski e apresentou-as sob o título de Notas:

39_rackham_poe_williamwilson Algumas Notas sobre William Wilson (Edgar Allan Poe)

Cacilda Portela

William Wilson substitui o próprio eu (self) por um estranho. Visão angustiante de si mesmo como outro. Resultado de um lento  processo  de mútua aproximação e reconhecimento no outro até alcançar sua identificação. Uma relação entre o ser e a consciência.

O duplo surge para William Wilson como recusa de uma angústia existencial  para que possa conviver com o benefício e a dificuldade. Transforma a vida num turbilhão de sentimentos e ações desencontradas. É o duplo como perseguidor, vivendo no pesadelo, na alucinação, nos erros e nos horrores. Metáfora da consciência que atormenta, persegue e aterroriza com sua voz sussurrante, com seus conselhos fraternais e com sua  elevação moral.

Escravo de circunstancias superiores ao controle humano, William Wilson se intimida com o risco de ver seu Ego empobrecido e tornar-se inadaptado ao mundo. Na impossibilidade de exorcizar o outro, o jeito é assimilá-lo para que deixe de ser outro. Uma decisão firme de não mais ser escravizado. Perde a luta para si mesmo.

downloadAlgumas Notas sobre O Duplo (Dostoiévski)

Cacilda Portela

“A duplicidade é o traço mais comum das pessoas… não inteiramente comuns”. É a consciência intensa… a exigência de um dever moral perante si mesma e a humanidade”. Dostoiévsky.

Golyádkin substitui o eu self por um outro Godyádkin estranho. Uma visão angustiante como o outro, que nele se reconhece na alucinação, na luta entre sonhos e realidade, ambições e humildade, desejos e fracassos.

Funcionário pobre e sem brilho externo, e com um profundo sentimento de solidão e desordenados devaneios, busca um outro “eu” poderoso para dar sentido a sua própria identidade. Como Golyádkin segundo, ele revela todos os aspectos sombrios de sua consciência, o que acaba sento fatal para o senhor Golyádkin primeiro.

Acredita, desesperado, ter inimigos cruéis que juraram arruiná-lo… Os inimigos de sempre eram o próprio senhor Golyádkin.  O duplo adversário que desafia ao combate o próprio Golyádkin é o mesmo que o sr. Golyádkin criara em seu imaginário doentio para realizar todos os seus sonhos.

Golyádkin transforma a vida num turbilhão de sentimentos desencontrados. Caminha entre o bem e o mal e é o emblema moral da consciência que o levou até a loucura.

Salomé Barros, nossa poeta cordelista, também escreveu o seu duplo com muita propriedade e esmero.

 

O QUE FOR SERÁ

Salomé Barros

Sempre fui independente
Não dependo de ninguém
Jurei, berrei de pé junto
Que jamais serei refém
Minha posição é firme
E alguém que não confirme
Não me trate com desdém

De uns tempos para cá
Tenho ficado assustado
Não mudei de opinião
Mas estou desesperado
Não sei bem como explicar
É um fato singular
Que me faz desconfiado

Faço tudo direitinho
Como manda o figurino
Jamais fui considerado
Mentiroso ou libertino
Mas com essa novidade
Aumenta a ansiedade
E me leva ao desatino

Tem um outro me instigando
Dia e noite sem parar
Já estou me sufocando
E não consigo afastar
Me chama o tempo inteiro
Parece um bisbilhoteiro
Que veio me atanazar

Pra piorar ele exige
Uma reciprocidade
Ameaçando instalar
Um clima de inimizade
Entre a cruz e a espada
Dou resposta salteada
E preservo a identidade

Foi chegando de mansinho
Assim sem querer, querendo
Aos poucos foi me cercando
A insistência crescendo
E eu anestesiado
Fui ficando abobalhado
E sem querer fui cedendo

O mistério desse encosto
É mesmo de arrepiar
Tem um raio de ação
Que chega a qualquer lugar
Seja aqui ou no Japão
Transmite a informação
Na hora, sem reclamar

E me vendo sem saída
Fiquei meio acomodado
Parece que esse outro
Está no corpo moldado
Dorme e acorda comigo
Acho que já é castigo
Será que estou viciado?

Fiz então uma pesquisa
Passando a observar
Pessoas que encontrava
Na rua, em qualquer lugar
E todas, sem exceção
Tem a mesma obsessão
Bem difícil de largar

E foi assim que o outro
Ganhou popularidade
E implantou nas pessoas
Um quê de dubiedade
Se para uns é progresso
Pra outros é retrocesso
E interfere na amizade

Também nas artes plásticas a figura do duplo é muito comum. Morreu esta semana Tunga, pernambucano, artista plástico da maior importância. Fizemos uma pequena homenagem a esse grande mestre que partiu tão cedo ainda na sua capacidade criativa. Além de lermos um pouco da sua biografia, falar de Inhotim seu espaço artístico, vimos pela internet algumas “instaurações” como ele chamava certas obras suas. Escolhemos para deixar aqui nesse blog as “Xifópagas Capilares” que trazem a problemática do duplo.

moledão xifópagas2

O Gênio do Mal

Ontem, 17 de fevereiro de 2016, recomeçamos os trabalhos da Oficina. A nossa carta de navegação estava pronta  para iniciarmos a viagem. Os viageiros presentes –  éramos dez, dois não puderam participar, um porque não havia chegado ainda de viagem (Luzia), outro (Paulo) porque iria fazer parte de um mesa de defesa de tese de mestrado – ansiosos pelas mudanças que havíamos feito nos nossos roteiros, Levei um texto sobre o Conto, extraído do Prefácio de Charles Baudelaire ao livro de Edgard Allan Poe Contos de Imaginação e Mistério, para reforçar a importância dele entre os gêneros literários e tranquilizar uma viageira que teme ser a viagem curta não tão admirável quanto os longos cruzeiros que o romance permite. A opção pelas narrativas mais curtas este ano deveu-se à necessidade de reforçar o crítico literário que existe em cada um de nós, de certa forma comprometido pelas leituras longas quando o interesse pelo que está sendo contado pelo narrador prevalece sobre o como está sendo contado, ansiosos que ficamos, como Nabokov disse, pelo e depois? E depois?

EXTRAÍDO DO PREFACIO DE CHARLES BAUDELAIRE AO LIVRO DE EDGAR ALLAN POE CONTOS DE IMAGINAÇÃO E DE MISTÉRIO

 SOBRE O CONTO

Entre os domínios literários onde a imaginação pode obter os resultados mais curiosos, pode colher tesouros, não os mais ricos e preciosos (esses pertencem à poesia), mas os mais numerosos e variados, está um particularmente querido a Poe, o conto. Ele tem sobre o romance de grandes proporções a imensa vantagem que a brevidade acrescenta à intensidade do efeito. Tal leitura, que pode ser realizada de um único fôlego, deixa no espírito uma marca muito mais poderosa que uma leitura intermitente, muitas vezes interrompida por problemas de negócios e preocupações com interesses mundanos. A unidade da impressão, a totalidade do efeito é uma vantagem imensa que pode dar a esse gênero de composição uma superioridade muito especial, no sentido de que um conto muito curto (o que é, sem dúvida, um defeito) seja ainda melhor que um conto muito extenso. O artista, se é hábil, não acomodará seus pensamentos aos incidentes; mas, tendo concebido deliberadamente, a seu bel-prazer, um efeito a produzir, inventará os incidentes, arranjará os eventos mais apropriados para conduzir ao efeito desejado. Se a primeira frase não for escrita de forma a preparar a impressão final, a obra é deficiente desde o começo. Ao longo da composição não se deve soltar uma única palavra que não seja uma intenção, que não tenda, direta ou indiretamente, a percorrer o plano traçado.

Há um ponto no qual o conto é superior até mesmo ao poema. O ritmo é necessário ao desenvolvimento da ideia de beleza, que é o maior e mais nobre objetivo do poema. Ora, os artifícios do ritmo são um obstáculo insuperável ao desenvolvimento minucioso de pensamentos e expressões que tenham por objetivo a verdade. Pois a verdade pode muitas vezes ser a meta do conto, e o raciocínio a melhor ferramenta para a construção de um conto perfeito. Eis a razão pela qual esse gênero de composição, que não é tratado com tanta elevação quanto a poesia pura, pode fornecer produtos mais variados e mais acessíveis ao gosto do leitor comum. Além disso, o contista tem à sua disposição uma enorme quantidade de tons, de nuances de linguagem – o tom reflexivo, o sarcástico, o humorístico, que repudia a poesia – e que são como dissonâncias, ultrajes à ideia de beleza pura. E é pelo mesmo motivo que o escritor que busca uma única meta de beleza em um conto trabalha em grande desvantagem, sendo privado do instrumento mais útil, o ritmo. Sei que, em todas as literaturas, foram feitos esforços, muitas vezes felizes, para criar contos puramente poéticos; o próprio Edgar Poe fez alguns muito bonitos. Mas são lutas e esforços que servem apenas para demonstrar a força dos verdadeiros recursos adapta­dos às metas correspondentes; não seria arriscado afirmar que para alguns autores, os maiores nos quais podemos pensar, essas tentações heroicas viessem de um desespero.

A saudação poética foi com Gênios do Mal, de Charles Baudelaire que tão bem já havia nos falado sobre o conto. A escolha do poema, entre tantos outros incríveis do poeta, se deu principalmente porque era assim que ele era chamado “Gênio do Mal”  devido ao seu comportamento transgressor e por envolver nas suas narrativas elementos do mal. Charles Baudelaire ficou sem pai muito cedo, aos seis anos de idade, e a mãe casou com um militar de carreira ascendente (tornou-se general, senador, embaixador)  que se incompatibilizou com o enteado de prima. Nada mais agressivo ao gênio poético e livre do garoto do que a rígida disciplina militar. Cansado das contendas, o padrasto exportou-o para a Índia na esperança de ver-se livro do rapaz. Baudelaire não iria deixá-lo sossegado assim tão fácil. Encontrou uma forma de punir o padrasto desembarcando antes de chegar ao seu destino, voltando à Paris livre do jugo doméstico,  lançando-se na boemia, drogas e todo tipo de excessos. Com a maioridade conseguiu tomar posse da herança deixada pelo pai e começou a lapidar a fortuna até sua mãe interditá-lo na justiça, provando a sua prodigalidade e impondo-lhe um tutor. Menos rico, porém tão livre quanto antes, Charles Baudelaire continuou a sua vida desregrada no mundo das artes, da literatura. Em 1857, com trinta e seis anos de idade, publica a sua obra prima Flores do Mal.  A Justiça nem sempre sensível às artes, preocupada que sempre esteve em manter a ordem e os costumes, por mais ultrapassados e medíocres que possam sugerir, condenou o poeta e a editora que o publicou a pagar multas precisamente por causa de seis (6) poemas entre os cem  (100) do livro por atentarem à moral. Baudelaire não se fez de rogado, fez novos poemas, ainda mais belos, segundo ele, e trocou-os. O livro foi liberado. Com a sua morte, dez anos depois, o livro foi publicado com os poemas originais.

Baudelaire, apesar de transgressor, tentou acomodar-se ao status quo  da sociedade parisiense candidatando-se à Academia Francesa. Não há uma opinião formada sobre as razões que o levaram a fazer isso, dizem que para agradar a mãe e ela poder soltar mais dinheiro, ou porque pretendia resgatar a estima do publico devido às sérias críticas da burguesia à sua obra. Talvez o patinho feio quisesse o seu dia de cisne, quem sabe.

Charles Baudelaire é considerado o precursor do Simbolismo, além de fundador da tradição moderna em poesia, ao lado de Walt Whitman. Escreveu poesias e ensaios e as suas obras teóricas influenciaram além da literatura, as artes plásticas do século XIX. Traduziu vários volumes da obra de Edgard Allan Poe e os prefácios que escreveu tornaram-se peças teóricas de referência para a literatura e artes plásticas. Charles Baudelaire morreu jovem ainda, aos quarenta e seis anos, de sífilis, após sofrer sérios ataques nervosos. Os seus biógrafos dizem que morreu nos braços da mãe, com quem morava após a morte do padrasto.

Segundo o poeta, Edgard Alan Poe achava que não era poeta quem não soubesse tocar o intangível. Baudelaire sabia-o muito bem, mesmo quando escreve um poema como este Gênio do Mal que revela uma dor de cotovelo bem tangível. Para Baudelaire Genus irritabile vatum! Que os poetas (vamos utilizar a palavra em seu sentido mais extenso, compreendendo todos os artistas) sejam uma raça irritável é bem sabido; mas o porquê  não me parece tão claro. Bendita irritação que o fez criar poemas que atravessam séculos.

Imagem CB

Gênio do Mal

Charles Baudelaire

Gostavas de tragar o universo inteiro,
Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro,
Para se exercitar no jogo singular,
Por dia um coração precisa devorar.
Os teus olhos, a arder, lembram as gambiarras
Das barracas de feira, e prendem como garras;
Usam com insolência os filtros infernais,
Levando a perdição às almas dos mortais.

Ó monstro surdo e cego, em maldades fecundo!
Engenho salutar, que exaure o sangue do mundo
Tu não sentes pudor? o pejo não te invade?
Nenhum espelho há que te mostre a verdade?
A grandeza do mal, com que tu folgas tanto.
Nunca, jamais, te fez recuar com espanto
Quando a Natura-mãe, com um fim ignorado,
— Ó mulher infernal, rainha do Pecado! —
Vai recorrer a ti para um génio formar?

Ó grandeza de lama! ó ignomínia sem par.

Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal”
Tradução de Delfim Guimarães  – Obtido em Wikisource

Dentro do possível, procuramos acompanhar a leitura do poema ou narrativa traduzidos para o português com a obra original. Se na ficção é importante porque os tradutores, por melhores que sejam, tendem a se tornar coautores e empolgados afastam-se do texto, na poesia onde a sonoridade, muitas vezes a rima, a subjetividade, o intangível são a sua espinha dorsal, ler a tradução é desviar-se substancialmente do autor e aproximar-se do tradutor, havendo perdas substanciais. Eu e Salete tentamos encontrar este poema em Francês e quase varamos uma noite completamente em vão. Não conhecendo suficiente a língua para uma busca mais rigorosa desisti de prosseguir by myself e não ousava insistir com Salete que já havia dedicado bom tempo para encontrá-lo. Coube à nossa viageira Adelaide Câmara a tarefa hercúlea e ela a fez com uma dedicação e determinação admirável. Apoiada pelo marido fez o périplo por quase 1000 páginas da obra de Baudelaire, lendo one by one até encontrar o poema em Francês e o remeter para mim dizendo Segue o poema que “não existe existindo” cuja tradução superparafraseada por Delfim Guimarães me fez vasculhar céus e terras virtuais.. Sim, eles chegaram a duvidar que existisse, que talvez fosse um daqueles casos em que se atribui a obra a um escritor famoso e depois se descobre que não é de sua autoria e sim de um anônimo. Com esse título Gênio do Mal  ele não existe, mas é de Baudelaire e está em Flores do Mal. Segundo Adelaide, a ligação amorosa com a judia Sarah, dita Louchette,  que lhe inspirou um poema truculento e, em certas passagens, poderosamente original (“Não tenho por amante senão…”), bem como o poema XXV (que é este chamado de Gênio do Mal, aqui)de As flores do mal .

À Adelaide, aquela que segunda a própria, nunca se imaginou”fuçadoura” de Baudelaire,  e Câmara,  os nossos agradecimentos maiores.

Eis o poema:

Tu mettrais l’univers entier dans ta ruelle,

Femme impure! Le’ennui rend ton âme cruelle.

Pour exercer tes dents à ce jeu singulier,

Il te faut chaque jour un coeur au râtelier.

Tes yeux, illuminés ainsi que des boutiques

Et des ifs flamboyants dans les fêtes publiques,

Usent insolemment d’un pouvoir emprunté,

Sans connaître jamais la loi de leur beauté.

Machine aveugle et sourde, en cruautés, féconde!

Salutaire instrument, buveur du sang du monde,

Comment n’as-tu pas honte et comment n’as-tu pas

Devant tous les miroirs vu pâlir tes appas?

La grandeur de ce mal où tu te crois savante

Ne t’a donc jamais fait reculer d’épouvante,

Quand la nature, grande en ses desseins cachés,

De toi se sert, ô femme, ô reine des péchés,

— De toi, vil animal, — pour pétrir un génie?

O fangeuse grandeur! sublime ignominie!

A tradução de Ivan Junqueira enviada por Adelaide:

Porias o universo inteiro em teu bordel,

Mulher impura! O tédio é que te torna cruel

Para teus dentes neste jogo exercitar,

A cada dia um coração tens que sangrar.

Teus olhos, cuja luz recorda a dos lampejos

E dos rútilos teixos que ardem nos festejos,

Exibem arrogantes uma vã nobreza,

Sem conhecer jamais a lei de sua beleza.

Ó monstro cego e surdo, em cruezas fecundo!

10 Salutar instrumento, vampiro do mundo,

Como não te envergonhas ou não vês sequer

Murchar no espelho teu fascínio de mulher?

A grandeza do mal de que crês saber tanto

Não te obriga jamais a vacilar de espanto

Quando a mãe natureza, em desígnios velados,

Recorre a ti, mulher, ó deusa dos pecados

— A ti, vil animal —, para um gênio forjar?

Ó lodosa grandeza! Ó desonra exemplar!

 Outro poema inspirado em Sarah, La Louchette

Sarah la louchette

Je n’ai pas pour maîtresse une lionne illustre :
La gueuse de mon âme, emprunte tout son lustre ;
Invisible aux regards de l’univers moqueur,
Sa beauté ne fleurit que dans mon triste coeur.

Pour avoir des souliers elle a vendu son âme.
Mais le bon Dieu rirait si, près de cette infâme,
Je tranchais du Tartufe et singeais la hauteur,
Moi qui vends ma pensée et qui veux être auteur.

Vice beaucoup plus grave, elle porte perruque.
Tous ses beaux cheveux noirs ont fui sa blanche nuque ;
Ce qui n’empêche pas les baisers amoureux
De pleuvoir sur son front plus pelé qu’un lépreux.

Elle louche, et l’effet de ce regard étrange
Qu’ombragent des cils noirs plus longs que ceux d’un ange,
Est tel que tous les yeux pour qui l’on s’est damné
Ne valent pas pour moi son oeil juif et cerné.

Elle n’a que vingt ans, la gorge déjà basse
Pend de chaque côté comme une calebasse,
Et pourtant, me traînant chaque nuit sur son corps,
Ainsi qu’un nouveau-né, je la tête et la mords,

Et bien qu’elle n’ait pas souvent même une obole
Pour se frotter la chair et pour s’oindre l’épaule,
Je la lèche en silence avec plus de ferveur
Que Madeleine en feu les deux pieds du Sauveur.

La pauvre créature, au plaisir essoufflée,
A de rauques hoquets la poitrine gonflée,
Et je devine au bruit de son souffle brutal
Qu’elle a souvent mordu le pain de l’hôpital.

Ses grands yeux inquiets, durant la nuit cruelle,
Croient voir deux autres yeux au fond de la ruelle,
Car, ayant trop ouvert son coeur à tous venants,
Elle a peur sans lumière et croit aux revenants.

Ce qui fait que de suif elle use plus de livres
Qu’un vieux savant couché jour et nuit sur ses livres,
Et redoute bien moins la faim et ses tourments
Que l’apparition de ses défunts amants.

Si vous la rencontrez, bizarrement parée,
Se faufilant, au coin d’une rue égarée,
Et la tête et l’oeil bas comme un pigeon blessé,
Traînant dans les ruisseaux un talon déchaussé,

Messieurs, ne crachez pas de jurons ni d’ordure
Au visage fardé de cette pauvre impure
Que déesse Famine a par un soir d’hiver,
Contrainte à relever ses jupons en plein air.

Cette bohème-là, c’est mon tout, ma richesse,
Ma perle, mon bijou, ma reine, ma duchesse,
Celle qui m’a bercé sur son giron vainqueur,
Et qui dans ses deux mains a réchauffé mon coeur.

Poesia, às Quartas-Feiras

Nesta última quarta-feira, a responsabilidade de levar o poema foi minha. A escolha eu a fiz pensando no que Paulo Tadeu havia dito sobre as traduções distanciarem um pouco (ou muito, dependendo do tradutor) do poema original. O tradutor teria que captar o sentimento do poeta e traze-lo para uma outra língua, buscando a mesma sonoridade, tarefa nem sempre de sucesso.

E nós temos grandes poetas, não ficamos a dever na literatura poética a nenhum outro país. E Manuel Bandeira é um ícone da poesia brasileira. Participou em 1922 da Semana da Arte Moderna ocasião em que se despediu para sempre da poesia lírica bem comportada.

Trouxe para o Blog os poemas lidos, inclusive, alguns vídeos com as suas interpretações. Vou-me embora para Pasárgada é um poema que já foi interpretado por muitos cantores, entre eles, Gilberto Gil, Paulo Diniz, Ana Cristina.

 

Vou-me Embora Pra Pasárgada
Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

 

Desencanto

Manuel Bandeira

Eu faço versos como quem chora
De desalento , de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto

Meu verso é sangue , volúpia ardente
Tristeza esparsa , remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota à gota do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

Eu faço versos como quem morre.
Qualquer forma de amor vale a pena!!
Qualquer forma de amor vale amar!

Há muito tempo, cerca de 30 anos,  fiz um curso de Literatura Comparada de Manuel Bandeira e do poeta francês Prevért. Guardei o livro indicado de Bandeira Estrela da Vida Inteira, poesias reunidas, 16ª edição da Editora José Olympio com um carinho especial e a ele recorria todas as vezes que sentia saudade. Quarta-feira levei-o à Oficina, tão cheio de ácaro que recorri ao xerox para ler as poesias aqui postadas, mas continuará sendo a minha referência poética maior.

Jaboatão dos Guararapes, 27 de outubro de 2015

Lourdes Rodrigues

 A LIÇÃO DO MESTRE: ARTE E VIDA


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 A LIÇÃO DO MESTRE: ARTE E VIDA

*Cacilda Portela

A novela gira em torno das disposições contrárias entre a arte e a vida. Do conflito interior de um escritor  de meia idade, cuja obra não tem mais a força dos seus primeiros livros. A Lição do Mestre cria um clima de  mistério e expectativa que organiza os fatos do enredo, que nem sempre são ações concretas, mas movimentos internos dos personagens.

Tem início em uma mansão senhorial do séc. XIX, em Londres, onde estão presentes alguns convidados, entre eles o sr. Henry St. George, sua esposa, Paul Overt e a srta. Marian. As afinidades intelectuais fazem a aproximação entre St. George, o jovem escritor e a srta.Marian.

O sr. Henry St. George, escritor de renome, passa por sentimentos de fuga e incertezas com relação a sua arte, acusada por críticos de um certo artificialismo e uma ambiguidade insondável no tratamento dos temas. Sua esposa, autoritária, administra e disciplina os negócios e a vida particular do marido. Ligada a convenções sociais, cobra do marido a realização de outras obras. Não se interessa pela perfeição na arte. O casal é amigo da jovem Marian, natural e  independente, adora a vida e é uma grande apreciadora das artes. St.George dedica carinhos excessivos à jovem com a complacência da esposa.

Na mansão, St. George conhece, pessoalmente, o jovem e promissor escritor Paul Overt, que passou grande parte de sua vida no estrangeiro, tendo voltado recentemente à Inglaterra. E o  jovem escritor conhece Marian. Juntos eles visitam galerias de arte e exposições privadas;  discutem o elevado tema da obra de arte válida e exemplar, e o escritor se apaixona por ela.

Depois de ter lido uma pequena parte da obra do jovem escritor, St. George vai até ele e afirma que o jovem é mesmo surpreendentemente bom; e que precisa realmente manter o nível como escritor. Confessa ao jovem seus sentimentos, medos e anseios e lhe apresenta sua Lição de Mestre: “…Não se transforme  no que me transformei na velhice: o exemplo de quem cultuou os deuses do mercado, dinheiro, luxo, a sociedade, a mulher, os filhos… A!h! as coisas mesquinhas que nos obrigam a fazer. Uma perdição do ponto de vista da arte. O artista nada tem a ver com o relativo, deve ter afinidade apenas com o absoluto. Não poderá fazer alguma coisa realmente boa sem sacrifício.  Fazer algo, e algo que seja divino é a única coisa em que o artista tem que pensar”. Ou desistir da ideia de perfeição. Paul responde “não; eu sou um artista – não há como evitar”.

Uma semana depois da Lição do Mestre, Paul Overt parte da Inglaterra. Antes, faz uma visita a srta. Marian para se despedir; e mais de três meses depois escreve e observa que lhe devia uma explicação por não lhe haver revelado o que pretendia fazer. A srta. Marian responde com uma carta curta, mas que veio sem tardar, e dava conhecimento da morte da sra. St. George. Tuberculosa, ela veio a falecer poucos meses depois daquele encontro na mansão. Dois anos depois, quando termina de escrever o livro, Paul Overt retorna a Londres e procura a srta. Marian. Ela e  o St George estão de casamento marcado.

Qual teria sido a real intenção da Lição do Mestre?  O objetivo de proteger o jovem romancista para construção de uma arte perfeita, absoluta, infinita; um padrão a ser seguido? A arte como algo de si mesmo que o velho mestre valoriza de forma constante e intensa. Sua real identidade. Sua face reflete a ideia e o sentimento da arte. Ou seria um plano oculto para afastar o romancista e ficar livre para casar com a  Srta. Marian? Sua face revela uma identidade mascarada, contrária aos seus traços, que apenas deixa aparecer o eu idealizado socialmente. Uma imagem do sucesso, das recompensas materiais e da credibilidade social da literatura. Valorização da identidade mascarada em relação ao eu.

Estaria o Mestre realmente livre quando deu sua Lição ao jovem romancista?  Não saberemos ao certo. Não estariam em conflito o eu e o ser social? A própria subjetividade, “experiências de vida sintetizadas: emoções, sentimentos, memória inconsciente de todo o vivido relacional”, que ele demonstra na Lição é controlada pelo social.  O sentimento e a ideia da arte perfeita são controlados por forças sociais e, em seguida, se mascaram. Não estão livres do controle social. O sentido que ele atribui à arte perfeita é formado por uma concepção individual e coletiva de difícil percepção que necessita de minuciosa análise, nem sempre possível, para ser entendida.

* Cacilda Portela é advogada, pesquisadora social, ensaísta.

Dostoievski – Passeio pelos subterrâneos

sendbinary2MEMÓRIAS DE SUBSOLO DE FIÓDOR DOSTOIEVSKI

Dostoievski  sempre foi lembrado ao fazermos a programação anual da Oficina. Chegou a sua vez, em outubro de 2013, com Memórias de Subsolo. A opção pela tradução de Boris Schnaiderman, da Editora 34, 6ª edição, deveu-se ao conhecimento e respeito que eu tenho pelo trabalho desse tradutor de obras extraordinárias de Dostoievski, Tolstoi e vários poetas russos de vanguarda. Certa vez, em entrevista, Boris Schnaiderman disse que no início da sua atividade de tradução ficava muito preso à literalidade, mas com o passar do tempo, passou a adotar forma menos mecânica, bem mais natural, por entender que a tradução é acima de tudo uma arte.

O texto que lemos é uma obra de arte literária e se conseguiu nos impressionar é porque a tradução foi realizada com muita maestria. Em seu prefácio, Bóris Schnaiderman traz  importantes opiniões sobre o livro, entre elas, o impacto que causou em Nietzsche: Um achado fortuito numa livraria: Memórias do Subsolo de Dolstoievski (…) A voz do sangue (como denominá-lo de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites. E ainda as opiniões de André Gide: o ponto culminante de toda a sua obra; de George Steiner: provavelmente o mais dostoiesvskiano dos livros e uma verdadeira suma de toda a sua obra; de Górki:  Para mim, todo Nietzsche está em Memórias do Subsolo.

Mas, antes de falar sobre Memórias do Subsolo gostaria de tentar traçar em grandes linhas o cenário do autor, a Russia do seu tempo, para entender as circunstâncias que envolveram a sua vida literária e política e  que culminaram com a escrita dessa obra.

Fiódor Dostoievski nasceu em Moscou, em novembro de 1821. Ano rico para a literatura porque, Dostoevskij_1872também, nasceram nesse ano, na França, Charles Baudelaire (abril) e Gustave Flaubert.(dezembro). O ano registrou ainda, grandes mudanças na geografia política com a redistribuição  das fronteiras  hispanofônicas a partir do reconhecimento pela Espanha da independência da Venezuela, Peru, Guatemala, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador e México. No Brasil, com a volta do Rei D. João VI para Portugal, deixando D.Pedro I como Regente, começou a se delinear com mais nitidez também o que viria ocorrer em 1822, a sua independência.

A vida de Dostoievski foi marcada por grandes perdas desde cedo. Ainda na adolescência, ficou muito clara para ele a opção pela literatura. A morte da mãe, deixando o pai, médico de  hospital público, com 7 filhos para criar mudou tudo. Esta foi a primeira guinada de cento e oitenta graus em sua vida. O pai tornou-se alcoólatra e sentindo-se incapaz de administrar a família, mandou os dois filhos mais velhos, Mikhail and Fyodor  para a academia militar de São Petersburgo, com o objetivo de garantir o futuro deles. Dostoievski jamais tivera interesse em ser militar e pelo resto de sua vida ele iria se ressentir do grande erro que havia sido cometido pelo pai ao forçá-lo a seguir essa carreira. Em várias obras, os personagens trazem esse ranço contra a academia e os militares. O personagem narrador de Memórias do Subsolo revela  hostilidade aos militares, em especial ao oficial que ele encontra numa taverna, numa sala de bilhar. Por conta de um gesto que ele considerou humilhante, passou a persegui-lo daí em diante. Vejamos a cena primeira:

            Eu estava em pé junto à mesa de bilhar, estorvava a passagem por inadvertência, e ele precisou passar; tomou-me então pelos ombros e, silenciosamente, sem qualquer aviso prévio ou explicação, tirou-me do lugar em que estava, colocou-me em outro e passou por ali, como se nem sequer me notasse.Até pancadas eu teria perdoado, mas de modo nenhum poderia perdoar que ele me mudasse de lugar e, positivamente, não me notasse. (…) Oh, se aquele oficial fosse dos que concordam em lutar num duelo!

Por outro lado, a sua conexão com São Petersburgo foi total, achou a cidade  intensa, abstrata, e, no futuro, os seus personagens também expressarão essa opinião: esta é uma cidade de gente meio louca. Raramente se encontra um lugar com tantas influências sombrias, intensas e estranhas sobre a alma humana, como em São Petersburgo. (…) É uma particular desgraça viver em Petersburgo. O personagem de Memória do Subsolo reclama: …que tenha a infelicidade de habitar Petersburgo, a cidade mais abstrata e meditativa de todo o globo terrestre. Porém, há um momento em que ele diz claramente que não deixará São Petersburgo: Mas ficarei em Petersburgo; não deixarei esta cidade! Não a deixarei porque…Eh! Mas, na realidade, me é de todo indiferente o fato de que a deixe ou não. 

Ele amou São Petersburgo. Aquela foi a cidade de sua juventude, onde despontou como escritor, conheceu o sucesso e viveu trágicas experiências, pesadas perdas. Jamais teve o seu próprio apartamento, sempre morou em locais alugados. Durante os vinte e oito anos de sua permanência em São Petersburgo mudou vinte vezes e jamais morou mais de três anos na mesma casa. Os apartamentos situavam-se sempre em encruzilhadas, bifurcações, locais típicos dos edifícios para aluguel. Os seus personagens também moravam nesse tipo de edifício, ele sempre usou na escrita imóvel similar ao que ele vivia ou vivera. Talvez a sua necessidade de mudança estivesse ligada às exigências da sua criação literária. Das trinta obras de Dostoievski, cerca de vinte tiveram como cenário narrativo São Petersburgo. Essa cidade estranha, muito particular e misteriosa no dizer de Dostoievski oferecia-lhe a ambientação adequada para que em suas novelas o fantástico emergisse na mediocridade, as idéias insanas aparecessem e os crimes fossem cometidos: All of this is so vulgar and ordinary that  I almost borders on the fantastic.[i]

Graduado pela academia militar e designado para o Corpo de Engenheiros, embora Dostoievski jamais tenha abandonado o seu sonho literário, viu-se obrigado a permanecer ali para garantir a sobrevivência. Sempre preocupado em ganhar mais algum dinheiro, iniciou o seu trabalho como tradutor, chegando a traduzir, em duas ou três semanas, Eugene Grandet de Balzac, 365 páginas. As suas traduções não eram simplesmente literais, poderiam mais serem vistas como um tipo especial de literatura, não simplesmente a de Balzac, nem a de Dostoievski, mas a soma criativa dos trabalhos de dois grandes escritores.

Dostoievski reconhecia na leitura a sua principal escola de literatura. Lia compulsivamente, apaixonadamente. A leitura exercia estranho efeito sobre ele. Costumava reler as obras que ele gostava e dizia que novas inspirações, novos insights surgiam dessas releituras, assim como as habilidades para fazer as suas próprias criações. Em várias obras, os protagonistas são leitores e o livro escolhido para eles lerem nunca foi acidental, por exemplo, Nastasia Filippovna, personagem de O Idiota lia Madame Bovary às vésperas da sua morte.

Os personagens de Dostoievski não são apenas grandes leitores, eles têm personalidade muito criativa e tentam viver todo esse potencial criativo. Mas, inicialmente, as suas escritas estavam associadas aos seus anos na academia quando ele ainda sonhava com o sublime e o belo. Desde as primeiras páginas de Memórias do Subsolo que o personagem alude ao belo e sublime: o narrador se queixa de que este “belo e sublime” (sempre dentro de aspas) apertou com força o seu crânio durante quarenta anos. O tradutor, em nota, diz que é uma alusão à obra de Kant: Observações sobre os sentimentos do belo e do sublime (1764) que havia tornado a expressão muito popular entre os críticos russos das décadas de 1830 e  1840. Ele destruiu tudo que escreveu naquela época, ao descobrir que não havia nada mais fantástica que a realidade em si mesma.O personagem de Memórias do Subsolo se refere com desprezo a essa visão filosófica kantiana:. Quanto mais consciência eu tinha do bem e de tudo que é “belo e sublime”, tanto mais me afundava em meu lodo, tanto mais capaz me tornava de imergir nele por completo.Ao começar a olhar ao seu redor,observando os semblantes das pessoas com acuidade, estranhas e maravilhosas figuras, possíveis personagens ele foi descobrindo

             Era como se eu houvesse entendido naquele minuto algo que antes só havia mexido em mim, mas não houvera compreendido; como se visse o mundo através de algo novo, completamente novo e desconhecido; apenas conhecido por algum tipo de sinais misteriosos. Eu penso que foi precisamente nesse momento que a minha existência começou.

Não foi à toa que o seu primeiro livro, o que ele iniciou a carreira literária, Gente Pobre, o protagonista não era um herói romântico, mas um pobre e comum escriturário a quem ele deu roupagem literária, subvertendo o gênero por completo e sendo recebido efusivamente pelo público e pela crítica literária da época. Trata-se de um romance epistolar em que um  funcionário público de escalão inferior e a sua vizinha, uma órfã, ambos humilhados e injustiçados pela sociedade, trocam cartas, permitindo ao leitor acompanhar as pequenas alegrias e as dores dos dois personagens, captando as suas emoções, os seus valores, os seus sonhos, tudo escrito com muita maestria.

Pouco depois da publicação desse livro, Dostoievski foi preso por pertencer a um grupo de jovens e intelectuais que se auto-denominava de fourierista, fascinado pelas idéias do socialismo utópico de Charles Fourier, de uma idade de ouro para a humanidade. Este grupo sonhava com um futuro melhor para a Rússia, mas o Czar Nicolau I assustado com a onda revolucionária que atingia a Europa e ainda sob o temor do que acontecera na Revolução Francesa mandou investigar esses jovens que se reuniam em torno do poeta Mikhail Petrashevski, mandando prende-los, entre eles, Dostoievski. No alvorecer da sua força criativa, Dostoievski, mais uma vez, foi arrancado do seu sonho literário.

Durante oito meses ele ficou em uma solitária da Fortaleza de Pedro e Paulo, em São Petersburgo. Depois, foi enviado para fazer trabalhos forçados em Omsk Prison, por mais quatro anos até ficar exilado na Sibéria por seis anos. O pior de tudo, no entanto, foi a terrível experiência que ele passou. O Czar Nicolau I decidiu punir os idealistas de forma cruel para que servisse de exemplo aos seus contemporâneos. Na madrugada de 22 dezembro de 1849, oito meses após a prisão, eles foram levados para um espetáculo público, onde a execução iria ser promulgada.O ritual da execução penal foi seguido em sua totalidade, soldados perfilados, estáticos, um padre, com um grande crucifixo de ouro nas mãos, marcha à frente dos condenados. Amarrados em estacas, os prisioneiros estão diante do pelotão de fuzilamento. O comandante, acompanhado pelo rufar dos tambores, lê a sentença em voz alta, terminando com as palavras: morte por fuzilamento. Novo rufar dos tambores, ele ergue a mão para ordenar a execução quando, no último momento, surge um mensageiro, trazendo nas mãos nova ordem do Czar: a sentença fora comutada para trabalhos forçados e de serviço no exército. O Czar Nicolau I havia decidido se divertir  às custas deles, usando até mesmo fundos públicos para financiar esta fingida execução. O grupo viveu os piores momentos de sua vida esperando o fuzilamento. Dostoievski descreve em sua novela O Idiota, nas palavras do Prince Myshkin esse momento:

                 O homem foi trazido para a plataforma com alguns outros, e a sentença de execução por fuzilamento, por crime político, foi lida. Em cerca de vinte minutos o perdão foi igualmente lido, e um tipo diferente de punição designada.; contudo, no intervalo entre as duas sentenças, vinte minutos ou no mínimo  um quarto de horas, ele havia vivido com a firme convicção que em poucos minutos ele iria subitamente morrer. Ele lembrou cada coisa com inusual claridade e disse que jamais iria esquecer o que aconteceu naqueles minutos.

Esse fato marcou profundamente Dostoievski. Estar  vivo era o que contava, mesmo diante da possibilidade de passar o resto dos seus dias na prisão, conforme ele mesmo o disse ao ser irmão em carta escrita logo após a simulação do enforcamento:

                Vida é vida em qualquer lugar, a vida está dentro de nós, e não no mundo exterior. As pessoas vão estar ao meu lado,  e ser um ser humano entre pessoas e manter-se único sempre, sejam quais forem os infortúnios que acontecem, não cair em desespero e perecer – isto é o que é a vida, esta é sua missão. Eu percebo assim. Esta ideia entrou em meu corpo e sangue.

Os biógrafos de Dostoievski, todavia,  dizem que a escrita dele está dividida em dois momentos, antes da prisão e depois dela. Dez anos depois quando ele volta para São Petersburgo e reinicia as suas atividades literárias com sofreguidão, em busca do tempo perdido, a sua escrita já não é mais a mesma, está marcada por uma década de pesadas e dolorosas experiências conforme se poderá comprovar com a leitura de Humilhados e Ofendidos e Recordação da Casa dos Mortos.Se antes da prisão Dostoievski acreditava numa idade de ouro para a humanidade, mesmo que para isso fosse necessário fazer uma revolução, após a sua volta ao mundo dos vivos ele já não acreditava mais nessa via, pelo contrário, estava completamente convencido que a violência não traria felicidade para a humanidade.Após viagem à Europa, viagem que ele havia sonhado muitos anos, ainda antes de ser preso, para ver e sentir o que estava acontecendo por lá, deixou-o completamente frustrado, desiludido. Ele chegou à conclusão de que a proposição da Revolução Francesa, Liberdade, Igualidade, Fraternidade era falsa, apenas uma frase que carecia de profundidade. As suas impressões estão no livro Notas de inverno sobre impressões do verão, livro que ele trabalhou quase simultaneamente às Memórias do Subsolo,  onde a ideia principal é a impossibilidade do ser humano reger a sua vida com base na razão.Não é à toa que o personagem de Memórias do Subsolo descrê de todas as utopias, de qualquer possibilidade de existência de um mundo harmônico ou  Palácio de Cristal, sob o argumento de  que  ele seria apenas uma pequena roda dentada dessa engrenagem.

O personagem de Memórias do Subsolo está convencido de que todo o significado da existência humana reside na afirmação da vontade irracional, e ele resiste a toda argumentação matemática da razão. Apesar de tudo, estou firmemente convencido de que não só uma dose muito grande de consciência, mas qualquer consciência, é uma doença. Insisto nisso. 

E ele continua com os seus paradoxos:

Sou homem doente…Um homem mau. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei ao certo, do que estou sofrendo.Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.)  (…) Menti a respeito de mim mesmo quando disse, ainda há pouco, que era um funcionário maldoso. Menti de raiva. (…) Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto. 

Mas ele se considera inteligente e é por conta dessa inteligência que não consegue tornar-se algo, pois somente os imbecis o conseguem. Esta é um reflexão que ele faz em cima dos seus quarenta anos de vida: Esta é a convicção do meus quarenta anos. Por outro lado, ele diz que viver além dos quarenta anos (que ele considera a mais avançada velhice) é indecente, vulgar, imoral! Quem é que vive além dos quarenta? Respondei-me sincera e honestamente. Vou dizer-vos: os imbecis e os canalhas. Vou dizer isto na cara de todos esses anciães respeitáveis e perfumados, de cabelos argênteos. O interessante é que ele se acha com propriedade para falar dessa forma, de agredir a todos os que são velhos  porque ele vai viver até os sessenta! até os setenta! até os oitenta! Em outro momento, se referindo à própria inteligência ele se declara culpado de ser tão inteligente: …tenho culpa de ser mais inteligente que todos à minha volta.(Considerei-me, continuamente, mais inteligente que todos à minha volta, e às vezes – acreditam?- tinha até vergonha disso. Pelo menos, a vida toda olhei de certo modo para o lado e nunca pude fitar as pessoas nos olhos.)

Memórias do Subsolo foi escrito em 1864, quando o escritor vivia momentos muito difíceis com a sua esposa à beira da morte, atacada de tuberculose. Ainda quando estava no exílio, Dostoievski conheceu Maria Dmitrievna, viúva, o primeiro marido havia morrido por conta do alcoolismo, deixando-a com uma criança de seis anos de idade sem condição financeira de criá-la.Nesta época, com a ajuda de amigos, ele passou a ocupar função de oficial subalterno em Semipalatinsk, na Sibéria, onde ainda se encontrava exilado. Para ele que estava recém saído da prisão, vivendo ainda sob controle no exílio, encontrar essa ainda jovem mulher, de vinte e oito anos, bonita, inteligente,  muito educada, esperta, amigável, graciosa (com todos esses elogios, ele falou sobre a jovem viúva para o irmão) deu a Dostoievski sentimento de liberdade, de felicidade e retorno à vida normal. Eles se casaram e dois anos depois foi permitido a ele deixar a Sibéria, por questões de saúde, mas foi direcionado para Tver e proibido de entrar em Moscou, São Peterburgo ou adjacências.Mas ele não se demorou muito em Tver, conseguiu finalmente autorização para voltar para São Petersburgo, exatos 10 anos depois dali ter saído, em 1859.

A vigilância sobre ele permaneceu até 1875, foram 26 anos sob controle da polícia desde a sua prisão em 1849, isto significava que toda a sua correspondência era lida, todos os seus movimentos acompanhados. Isso levou-o, sem dúvida, a criar os seus personagens com tanta ânsia de liberdade, tão ávidos por decidir eles próprios seu destino.

Memórias do Subsolo é um grande livro que deve ser lido e relido muitas vezes.

                                             Jaboatão dos Guararapes, 02 de dezembro de 2013

                                                        Lourdes Rodrigues


[i] Tudo isso é tão vulgar e comum que quase beira o fantástico. A Guidebook – The Dostoievsky Museum In Saint Petersburg. N.Ashimbaeva, V. Biron

Dia Internacional da Mulher

Na Oficina, quarta-feira, comemoramos o dia internacional da mulher com fragmentos do Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam, e um texto de Virgínia Woolf, apresentado por ela, em 21 de janeiro de 1931, para a Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres.

Por que escolhi esses dois textos para celebrar a mulher? 

images[1]No Elogio da Loucura, (L&PM, tradução de Paulo Neves), o narrador é a própria Loucura que, numa linguagem coloquial, fala dos deuses e dos homens, muito à vontade, e sem qualquer sombra de modéstia, afirma: Não, não há na terra nem alegria, nem felicidade, nem prazer que não venha de mim. Ao falar da Mulher, ela (a Loucura) diz que a mulher é sempre mulher, isto é, sempre louca, ainda que se esforce para disfarçá-lo, e não acredita que as mulheres fiquem com raiva dela por falar assim,  na realidade, ela as está elogiando, até porque, também, ela própria, é mulher. 

No Prólogo, o autor fala que a inspiração para o livro veio-lhe durante uma longa viagem a cavalo, da Itália à Inglaterra, lembrando-se dos amigos que estaria para rever, em especial de Tomás Morus, por quem tinha afeto especial,e dedicou a obra. Começou pela associação do nome de Morus à Moria, nome que os gregos dão à Loucura, e a intenção era de apenas de se distrair, não era de fazer uma obra séria. Mais de seis séculos se passaram e o livro continua  sendo publicado e admirado por todos os leitores, numa demonstração irrefutável de que se tornou um clássico da literatura.

Erasmo de Rotterdam, por conta do nome do lugar onde nasceu, na verdade, chamava-se Geraldo Elia, herdado do pai. Mais tarde, traduzindo-o do grego e do latim chegou a Desidério Erasmo, conhecido, também, como o Voltaire Latino, face às suas críticas à Igreja. Nasceu no século XV, filho da relação ilícita de Geraldo com Margarida, cuja família passou a persegui-lo, obrigando-o a se refugiar em Roma. Lá, ele soube da morte de Margarida, entrou para o convento e tornou-se padre. Descoberto o engano, abandonou tudo, foi para a Alemanha e passou a viver com a esposa e o filho.  Os seus pais morreram muito jovens e o tutor de Erasmo.internou-o num convento, onde ele, muito amargurado, dedicou-se vigorosamente aos estudos. Aos 21 anos de idade escreveu o seu primeiro livro, O Desespero do Mundo. Elogio da Loucura foi publicado em Paris, em 1509, quando ele já estava bem maduro.

Aqui estão os fragmentos sobre as mulheres, em que  a  Loucura, usando de uma narração autodiegética, na primeira pessoa, protagonista, com total saber sobre fatos e emoções dos personagens diz:  

A exemplo de Homero, que vai sucessivamente da terra aos céus e dos céus à terra, deixo, porém o Olimpo, para voltar uma vez mais entre os homens. Não, não há na terra nem alegria, nem felicidade, nem prazer que não venha de mim. Vêde, primeiramente, com que previdência a natureza, essa terna mãe do gênero humano, teve o cuidado de semear em toda parte o condimento da loucura! Pois, segundo os estóicos, ser sábio é tornar a razão como guia; ser louco é deixar-se levar ao sabor das paixões. Ora, Júpiter, para suavizar um pouco as agruras e os desgostos da vida, não deu aos homens mais paixões do que razão? A proporção de umas à outra é como a de um grão a uma dracma. E essa razão, ele a relegou a um pequeno canto da cabeça, enquanto entregou o resto do corpo às agitações contínuas das paíxões. Depois, ele ainda opôs a essa pobre razão, completamente sozinha, dois tiranos muito impetuosos e violentos: a cólera, que reina na parte superior, e portanto no coração, que é a fonte da vida, e a concupiscência, cujo império estende-se até o púbis. A conduta dos homens mostra bem, diariamente, o que pode a razão contra esses dois poderosos inimigos. Ela prescreve as leis da honestidade, grita até ficar rouca para que sejam observadas; é tudo o que pode fazer. Seus inimigos zombam dessa pretensa rainha, insultam-na e berram mais alto, até que enfim, cansada da resistência inútil, ela se entrega e consente tudo o que eles querem.

Mas como o homem, destinado aos afazeres, não tivesse mais que um pingo de razão para se conduzir, Júpiter, não sabendo o que fazer, me chamou, como de costume, para me consultar. Dei-lhe então um conselho digno de mim: “Faça uma mulher, eu disse, e a dê ao homem como companheira. É verdade que a mulher é um animal extravagante e frívolo; mas é também divertida e agradável. Vivendo com o homem, ela saberá, com suas loucuras, temperar-lhe e suavizar-lhe o humor tristonho e rabugento.”

Quando Platão parece duvidar se deve colocar a mulher na classe dos animais racionais ou na dos brutos, ele quer apenas nos indicar com isso a extrema loucura desse sexo encantador. Com efeito, se acontece de uma mulher querer passar por sábia, ela não faz senão acrescentar uma loucura à que já possuía; pois, quando se recebeu da natureza algum pendor vicioso, querer resistir-lhe ou ocultá-lo sob a máscara da virtude é aumentá-lo. Um macaco é sempre macaco, diz um provérbio grego, mesmo quando vestido de púrpura. Do mesmo modo, uma mulher é sempre uma mulher, isto é, sempre louca, ainda que se esforce por disfarçá-lo.

Não creio que as mulheres sejam tão loucas a ponto de se zangarem com o que digo aqui. Sou do sexo delas, sou a Loucura; provar que são loucas não é o maior elogio que se pode fazer delas? De fato, considerando bem as coisas, não é a essa Loucura que elas devem agradecer por serem infinitamente mais felizes que os homens? Não é dela que recebem aquelas graças, aqueles atrativos, que elas têm razão de preferir a a tudo, e que lhes servem para acorrentar os mais orgulhosos tiranos?

De onde vêm, nos homens, essa aparência repulsiva e selvagem, essa pele áspera, essa floresta de barba e esse ar de velhice que eles têm em todas as idades? Tudo isso vem do maior de todos os vívios, a prudência, As mulheres, ao contrário, têm a face lisa, a voz suave, a pele delicada, tudo nelas oferece a imagem encantadora de uma juventude contínua. Aliás, têm elas outro desejo na vida senão o de agradar os homens? Não é esse o objetivo dos enfeites, das maquiagens, dos banhos, dos penteados, dos perfumes, dos odores, enfim, de todos esses preparados cosméticos que servem para embelezar, pintar ou disfarçar o rosto, os olhos e a pele? Pois bem, não é pela loucura que elas podem atingir esse objetivo tão desejado? E, se os homens toleram tudo nas mulheres, não é unicamente em vista do prazer que delas esperam? E esse prazer, o que é senão a loucura? Estaremos convencidos dessa verdade se atentarmos a todas as futilidades que um homem diz, a todas as loucuras que ele faz com uma mulher, sempre que tem vontade de gozar de seus favores.

Sabeis agora, portanto, qual é a fonte do maior prazer da vida. Mas muita gente, e sobretudo os velhos, preferindo os favores de Baco aos do amor, acha que a soberana volúpia consiste nos prazeres da mesa. Não examinarei aqui se é possível fazer uma boa refeição sem mulheres. O certo é que não haverá nenhuma que seja triste ou insípida, se for alegrada pela loucura.

O segundo texto lido na oficina, foi o discurso que Virgínia Woolf fez na Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres, em 1931. Além de ficcionista, Virgínia Woolf foi excelente ensaísta e resenhista. Grandes autores, grandes obras foram resenhadas por ela. Na Oficina tivemos a oportunidade de ler a resenha sobre Viagem Sentimental, de Laurence Sterne, objeto de  postagem nesse blog. Além disso, foi uma militante da causa feminista, havendo muitos escritos que retratam bem essa sua posição em favor do gênero, ela era sempre convidada para falar em encontros onde se discutia a questão da mulher.

Eis o texto lido na oficina, extraído do livro publicado pela L&PM, com  tradução de Denise Bottman: Profissões para mulheres e outros artigos feministas.. Vale a pena ler o livro,, são excelentes todos os textos escritos pela autora.

 

 

 Profissões para mulheres


Virgínia Wòolf  leu esse texto para a Sociedade
Nacional de Auxílio às Mulheres em 2 1 de janeiro de 1931 . Foi publicado postumamente em A Morte da Mariposa,  1942.

 
profissoes_para_mulheres_m[1]Quando a secretária de vocês me convidou para vir aqui, ela me disse que esta Sociedade atende à colocação profissional das mulheres e sugeriu que eu falasse um pouco sobre minhas experiências profissionais. Sou mulher, é verdade; tenho emprego, é verdade; mas que experiências profissionais tive eu? Difícil dizer. Minha profissão é a literatura; e é a profissão que, tirando o palco, menos experiência oferece às mulheres — menos, quero dizer, que sejam específicas das mulheres. Pois o caminho foi aberto muitos anos atrás — por Fanny- Bumey, Aphra Behn, Harriet Maitineau, Jane Austen, George Eliot* —; muitas mulheres famosas e muitas outras desconhecidas e esquecidas vieram antes, aplainando o terreno e orientando meus passos. Então, quando comecei a escrever, eram pouquíssimos os obstáculos concretos em meu caminho. Escrever era uma atividade respeitável e inofensiva. O riscar da caneta não perturbava a paz do lar. Não se retirava nada do orçamento familiar. Dezesseis pences bastam para comprar papel para todas as peças de Shakespeare — se a gente for pensar assim. Um escritor não precisa de pianos nem de modelos, nem de Paris, Viena ou Berlim, nem de mestres e  amantes. Claro que foi por causa do preço baixo do papel que as mulheres deram certo como escritoras, antes de dar certo nas outras profissões.

Mas vamos à minha história — ela é simples. Basta que vocês imaginem uma moça num quarto, com uma caneta na mão. Só precisava mover aquela caneta da esquerda para a direita— das dez à uma. Então ela teve uma ideia que no fundo é bem simples e barata – enfiar algumas daquelas páginas dentro de um envelope, colar um selo no canto de cima e pôr o envelope na caixa vermelha da esquina. Foi assim que virei jornalista,- e meu trabalho foi recompensado no primeiro dia do mês seguinte—um dia gloriosíssimo para mim — com uma carta de um editor, um cheque de uma libra, dez xelins e seis pences. Mas, para lhes mostrar que não mereço muito ser chamada de profissional, que não conheço  muito as lutas e as dificuldades da vida de mulher profissional, devo admitir que, em vez de gastar aquele dinheiro com pão e manteiga, aluguel, meias e sapatos ou com a conta do açougueiro, saí e comprei um gato — um gato lindo, um gato persa, que logo me criou sérias brigas com os vizinhos.

Existe coisa mais fácil do que escrever artigos e comprar gatos persas com o pagamento? Mas esperem aí. Os artigos têm de ser sobre alguma coisa. O meu, se bem me lembro, era sobre um romance de um homem famoso. E, quando eu estava escrevendo aquela resenha, descobri que, se fosse resenhar livros, ia ter de combater
certo fantasma. E o fantasma era uma mulher, 
  quando a conheci melhor, dei a ela o nome da heroína de um famoso poema, “O Anjo do Lar”. Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel enquanto eu fazia as resenhas. Era ela que me incomodava, tomava meu tempo e me atormentava tanto que no fim matei essa mulher. Vocês, que são de uma geração mais jovem e mais feliz, talvez não tenham ouvido falar dela—talvez não saibam o que quero dizer com o Anjo do Lar. Vou tentar resumir. Ela era extremamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta.  Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado, era ali que ia se sentar—em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo — nem preciso dizer — ela era pura. Sua pureza era tida como
sua maior beleza — enrubescer era seu grande encanto. Naqueles dias — os últimos da rainha Vitória — toda casa tinha seu Anjo. E,  quando fui escrever, topei com ela já nas primeiras palavras. Suas asas fizeram sombra na página; ouvi o
farfalhar de suas saias no quarto. Quer dizer, na  hora em que peguei a caneta para resenhar aquele romance de um homem famoso, ela logo apareceu atrás de mim e sussurrou: “Querida, você é uma moça. Está escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja afável; seja meiga; lisonjeie; engane; use todas as artes e manhas de nosso sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem opinião própria. E principalmente seja pura” . E ela fez que ia guiar minha caneta. E agora eu conto a única ação minha em que vejo algum mérito próprio, embora na verdade o mérito seja de alguns excelentes antepassados que me deixaram um bom dinheiro—digamos, umas quinhentas libras anuais? — e assim eu não precisava só do charme para viver. Fui para cima dela e agarrei-a pela garganta. Fiz de tudo para esganá-la. Minha desculpa, se tivesse de comparecer a um tribunal, seria legítima defesa. Se eu não a matasse, ela é que me mataria. Arrancaria o coração de minha escrita. Pois, na hora em que pus a caneta no
papel, percebi que não dá para fazer nem mesmo uma resenha sem ter opinião própria, sem dizer o que a gente pensa ser verdade nas relações humanas, na moral, no sexo. E, segundo o Anjo do Lar, as mulheres não podem tratar de nenhuma dessas questões com liberdade e franqueza; se querem se dar bem, elas precisam agradar, precisam conciliar, precisam — falando sem rodeios — mentir.
Assim, toda vez que eu percebia a sombra de sua asa ou o brilho de sua auréola em cima da página, eu pegava o tinteiro e atirava nela. Demorou para morrer. Sua natureza fictícia lhe foi de grande ajuda. É muito mais difícil matar um fantasma
do que uma realidade. Quando eu achava que já tinha acabado com ela, sempre reaparecia sorrateira. No fim consegui, e me orgulho, mas a luta foi dura; levou muito tempo, que mais valia ter usado para aprender grego ou sair pelo mundo
em busca de aventuras. Mas foi uma experiência
  real; foi uma experiência inevitável para todas as escritoras daquela época. Matar o Anjo do Lar fazia parte da atrvidade de uma escritora.

Mas continuando minha história: o Anjo morreu, e o que ficou? Vocês podem dizer que o que ficou foi algo simples e comum — uma jovem num quarto com um tinteiro. Em outras palavras, agora que tinha se livrado da falsidade, a moça só tinha de ser ela mesma. Ah, mas o que é “ela mesma”? Quer dizer, o que é uma mulher? Juro
que não sei. E duvido que vocês saibam. Duvido que alguém possa saber, enquanto ela não se expressar em todas as artes e profissões abertas às capacidades humanas. E de fato esta é uma das razões pelas quais estou aqui, em respeito a vocês, que estão nos mostrando com suas experiências o que é uma mulher, que estão nos dando, com seus fracassos e sucessos, essa informação da
maior importância.

Mas retomando a história de minhas experiências profissionais. Recebi uma libra, dez xelins e seis pences por minha primeira resenha, e comprei um gato persa com esse dinheiro. E aí fiquei ambiciosa. Um gato persa é uma coisa ótima, disse eu; mas um gato persa não chega.Preciso de um carro.! E foi assim que virei romancista — pois é muito estranho que as pessoas nos dêem um carro se a gente contar uma história para elas. E é ainda mais estranho, pois a coisa mais gostosa do mundo é contar histórias. E muito mais agradável do que escrever resenhas
de romances famosos. Mas, se é para atender à secretária de vocês e lhes contar minhas experiências profissionais como romancista, preciso falar de uma experiência muito esquisita que me aconteceu como romancista. E, para entender, primeiro vocês têm de tentar imaginar o estado de espírito de um romancista. Acho que não estou revelando nenhum segredo profissional ao dizer que o maior desejo de um romancista é ser o mais inconsciente possível. Ele precisa se induzir a um
estado de letargia constante. Ele quer que a vida siga com toda a calma e regularidade. Enquanto escreve, ele quer ver os mesmos rostos, ler os mesmos livros, fazer as mesmas coisas um dia depois do outro, um mês depois do outro, para que nada venha a romper a ilusão em que vive — para que nada incomode ou perturbe os misteriosos movimentos de farejar e sentir ao redor, os saltos, as arremetidas e as súbitas descobertas daquele  espírito tão tímido e esquivo, a imaginação. Desconfio que seja o mesmo estado de espírito para homens e mulheres. Seja como for, quero que vocês me imaginem escrevendo um romance em estado de transe. Quero que vocês imaginem uma moça sentada com uma caneta na mão, passando  minutos, na verdade horas, sem molhar a pena no tinteiro. Quando penso nessa moça, a imagem que me ocorre é alguém pescando, em devaneios à beira de um lago fundo, com um caniço na mão. Ela deixava a imaginação vaguear livre por todas as pedras e fendas do mundo submerso nas profundezas de nosso ser inconsciente. Então vem a experiência, a experiência que creio ser muito mais comum com as mulheres do que com os homens que escrevem. A linha correu pelos dedos da moça. Um tranco puxou a imaginação. Ela tinha sondado as poças, as funduras, as sombras onde ficam os peixes maiores. E então bate em alguma coisa. Foi uma pancada forte. Espumarada, tumulto. A imaginação tinha colidido numa coisa dura. A moça foi despertada do sonho. E de
fato ficou na mais viva angustia e aflição. Falando sem metáforas, ela pensou numa coisa, uma coisa sobre o corpo, sobre as paixões, que para ela, como mulher, era impróprio dizer. E a razão lhe diz que os homens ficariam chocados. Foi a consciência do que diriam os homens sobre uma mulher que fala de suas paixões que a despertou do estado de inconsciência como artista. Não podia mais escrever. O transe tinha acabado. A imaginação não conseguia mais trabalhar. Isso creio que é uma experiência muito comum entre as mulheres que escrevem — ficam bloqueadas pelo extremo convencionalismo do outro sexo. Pois, embora sensatamente os homens se permitam grande liberdade em tais assuntos, duvido que percebam ou consigam controlar o extremo rigor com que condenam a mesma liberdade nas mulheres.

Então, essas foram duas experiências muito genuínas que tive. Foram duas das aventuras de minha vida profissional. A primeira — matar o Anjo do Lar — creio que resolvi.  Ele morreu. Mas a segunda, falar a verdade sobre minhas experiências do corpo, creio que não resolvi. Duvido que alguma mulher já tenha resolvido. Os obstáculos ainda são imensamente grandes — e muito difíceis de definir. De fora, existe coisa mais simples do que escrever livros? De fora, quais os obstáculos
para uma mulher, e não para um homem? Por dentro, penso eu, a questão é muito diferente; ela ainda tem muitos fantasmas a combater, muitos preconceitos a vencer. Na verdade, penso eu, ainda vai levar muito tempo até que uma mulher
possa se sentar e escrever um livro sem encontrar com um fantasma que precise matar, uma rocha que precise enfrentar- E se é assim na literatura, a profissão mais livre de todas para as mulheres, quem dirá nas novas profissões que agora vocês 
estão exercendo pela primeira vez? São perguntas que gostaria de lhes fazer,
se tivesse tempo. Na verdade, se insisti nessas minhas experiências profissionais, foi porque creio que também sejam as  de vocês, embora de outras maneiras. Mesmo quando o caminho está nominalmente aberto—quando nada impede qu
uma mulher seja médica, advogada, funcionária pública —, são muitos, imagino eu, os fantasmas e obstáculos pelo  caminho. Penso que é muito bom e importante discuti-los e defini-los, pois só assim é possível dividir o trabalho, resolver a
dificuldades. Mas, além disso, também é necessário discutir as metas e os fins pelos quais lutamos, pelos quais combatemos esses obstáculos tremendos. Não podemos achar que essas metas estão dadas; precisam ser questionadas e examinadas constantemente. Toda a questão, como eu vejo – aqui neste salão, cercada de mulheres que praticam pela primeira vez na história não sei quantas
profissões diferentes —, é de importância e interesse extraordinário. Vocês ganharam quartos próprios na casa que até agora era só dos homens. Podem, embora com muito trabalho e esforço, pagar o aluguel. Estão ganhando suas quinhentas libras por ano. Mas essa liberdade é só o começo; o quarto é de vocês, mas ainda está vazio. Precisa ser mobiliado, precisa ser decorado, precisa ser dividido- Como “vocês vão mobiliar, como voces vão decorar? Com quem vão dividi-lo e em que termos? São perguntas, penso eu, da  maior importância e interesse. Pela primera vez na história, vocês podem fazer essas perguntas; pela primeira vez, podem decidir quais serão as respostas. Bem que eu gostaria de ficar e discutir essas perguntas e respostas — mas não hoje. Meu tempo acabou, e paro por aqui.

Leituras dos Viageiros II

Leituras realizadas por viageiros da

Oficina de Criação Literária Clarice Lispector

Certa vez, Henry Miller disse que a vida de um livro era consequência direta da recomendação apaixonada que um leitor faz a outro. Com a segunda lista de comentários de nossas leituras postadas aqui neste blog (a primeira foi em maio de 2012), talvez esteja fortemente presente o desejo de perpetuarmos alguns livros que tanto prazer nos deram ao serem lidos.

A primeira a aderir ao convite de dar continuidade aos comentários sobre as nossas leituras recentes foi Ângela Cysneiros. Eis as suas leituras e comentários:

Ângela Carolina Cysneiros

 Os meninos da rua PauloOs Meninos da Rua Paulo, do escritor húngaro Ferenc Molnar, que recebi de um amigo especial com uma recomendação especial: observar um dos garotos por quem, inevitavelmente, iria me apaixonar: tiro e queda. Trata-se de romance escrito no começo do século passado, com tradução e notas de Paulo Rónai, também húngaro, retratando a vida de meninos que, a exemplo de nossos irmãos ” meninos”, brincavam nas ruas, tinham seu reduto, sua fortaleza e códigos de honra que mais lembram os herois gregos, rivalidades, ” guerra” por poder e espaço. Uma delícia de livro. Se para mim que vivi, por tabela, realidade parecida, em que a rua era um mundo a parte, no qual a realidade e a fantasia se misturavam, as amizades nasciam com pretensão de serem ” para sempre” – e tantas o foram -, imagino o que seria para eles…Uma leitura deliciosa. Existe, em Budapeste, numa calçada, uma cena, em escultura, que retrata os meninos, a coisa mais linda.

Entre os livros de áudio, chamou-me a atenção Se eu fechar os meus olhos agora, de Ednei Silvestre. Trama muito bem urdida, bem escrita, numa linguagem simples, porém elegante, sem o esperado tom jornalistico, intrigante e além de tudo, com personagens ricos sob o ponto de vista psicológico. Tudo é colocado, todas as tramas, mortes, miséria humana, sem criticas morais ou julgamentos, com incursões na vida política do Brasil da época em que os fatos se passaram. Muito convincente e verossímil. Vale muito a pena. Além do mais, o escritor é de uma simpatia e simplicidade próprias de escritor de peso. Recomendo.

Ainda no esquema dobradinha audio livro/arrumações de gavetas e armários, com o som acompanhando os movimentos, recurso dos “sem tempo”, diverti-me a valer com as aventuras de A mulher que escreveu a Biblia, engraçadíssimo, às vezes escrachado, até, mas muito interessante. A história da mulher super feia, tipo Raimunda, que casa com o rei Salomão e cuja maior virtude é saber ler e escrever. De Moacir Scliar. Imperdível.

AInda  me diverti com os contos de Tchécov, choquei-me e baixei o astral com os do angustiado Edgar Allan Poe, torci pelo injustiçado Conde de Monte Cristo em uma versão simplificada à qual assisti, por coincidência na TV, e outros contos mais.. Este recurso tem sido minha salvação na angústia da falta de tempo para dedicar-me às leituras, como gosto de fazer.

Comecei/recontinuei a ler os contos do nosso César Garcia, que, como sempre, nos surpreende. Depois coloco minhas impressões.

Ah, ganhei e comecei a ler, também, Mia Couto, cujo título encantou-me de pronto: Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. Tive a oportunidade de vê-lo no Roda VIva e achei-o, como sempre, encantador, sem estrelismos e muito consciente do papel dele como Africano e como cidadão do mundo. Homem inteligente, simples. Li somente o primeiro capítulo para me assenhorar do que se tratava, e de início, prendeu-me a bela narrativa. Estou ansiosa para continuar a leitura.

Ouvi a biografia de Paulo Coelho e deixou-me intrigada. Não consigo “qualificá-lo.” Ele é uma pessoa singular, obstinada, um louco, talvez, muito lúcido, oportunista em ambos os sentidos do termo, mas que não se pode negar ser um fenômeno. A que creditar essa verdadeira alucinação que o mundo inteiro tem por ele, não se sabe. Claro que a escrita – nunca o li, não por preconceito, mas por falta de oportunidade e interesse, claro- não pode ser considerada literatura de primeiro nivel, mas o fato é que ele tem um carisma que somente com a leitura de sua biografia pude dimensionar. A biografia é muito bem escrita, o biógrafo (escritor sério, autor de outras importantes biografias), acompanhou-o por três anos, pesquisou sua vida, lugares onde morou, seus escritos escondidos num baú lacrado cuja destinação após sua morte seria a incineração, vontade registrada em cartório, diz ser ele um homem singular. E esta a impressão que fica, ao final da leitura. Um homem que tinha uma obstinada vontade de ser escritor – famoso e respeitado – e que, se não é respeitado como intelectual, literato, conseguiu ser membro da ABL, é conhecido e reverenciado pelo mundo todo, seu nome e sua pessoa abrem caminhos seja onde for. Um fenômeno. Desceu aos infernos de um hospício, das drogas, dos porões da ditadura, do satanismo do sexo e soube sair de tudo isto aproveitando o que cada um desses infernos tinha para lhe ensinar. É casado há mais de 30 anos com a mesma mulher, leva uma vida simples, foi agraciado com castelo, carros, e sequer tem um chofer. É, de fato, não importa o que se diga dele como ser humano e como escritor, um homem singular e que, ao que parece, não guardou das más experiências ou incompreensões, mágoas.

Leituras de César Garcia

A Confissão da Leoa. de Mia Couto. O autor mais uma vez denuncia a violência dos homens contra as mulheres, mostra a importância das crenças, mitos e mistérios da sociedade antiga de Moçambique e a influência dos valores europeus. O romance é narrado em primeira pessoa por dois personagens. Tem feito sucesso entre críticos e leitores.

Diário da Queda,  Michel Laub, autor gaúcho radicado em São Paulo. Por meio de um diário, o personagem judeu registra seus traumas desde a infância e a história de seu pai e de seu avô, sobrevivente de Auschwitz. Um dos traumas vem da queda que os meninos judeus causam a um colega pobre, não judeu, por pura crueldade.

No teu Deserto,  romance de Miguel Sousa Tavares, português, narra a viagem de um jornalista e uma jovem através do deserto de Saara. Ótima leitura para as férias. (Agradeço a Diva o presente do amigo secreto.)

Últimas Palavras, pequeno livro em que Christopher Hitchens, jornalista inglês radicado nos EUA, reafirma suas ideias de ateu militante nos últimos dias antes de morrer de câncer.

O Escaravelho de Ouro, famoso conto de EdgarAllan Poe.

L’Inutile Beauté, fantástico conto de Guy de Maupassant que estou traduzindo do Francês por não ter encontrado em Português e que pretendo oferecer aos colegas da oficina.

O Inquietante,  artigo de Freud em que ele comenta o conto O Homem da Areia,  lido em nossa oficina.

A Consciência de Zeno,  de Ítalo Svevo, que vivia em Trieste, só teve sucesso depois que James Joyce, amigo do autor, expressou seu entusiasmo e o enviou para a França onde foi traduzido. Assim, o sucesso na Itália só veio depois da repercussão entre o público e os críticos franceses. O contato entre os dois autores foi bastante importante para criar relações estreitas entre o livro de Svevo e ULISSES, de Joyce.”Suas conexões com Ulisses são tão repetidas e óbvias que há até quem considere Svevo o inspirador de Leopold Bloom”… (José Nêumane, Cabra-Cega nos Espelhos, apresentação da edição Saraiva de bolso, do livro A Consciência de Zeno). Já as ousadias gráficas e a criação de palavras, tão frequentes em ULISSES, são claramente a sequência das invenções de Lawrence Sterne, irlandês como Joyce, em A VIDA E AS OPINIÕES DO CAVALHEIRO TRISTRAM SHANDY. E aqui no Brasil, essas relações aparecem entre Sterne e Machado de Assis em MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS em que o narrador morto, contando sua própria história, dirige-se com frequência ao leitor. Assim, Zeno, Shandy, Bloom e Cubas são quatro personagens que embora distantes geograficamente, teriam muito o que conversar sobre o que disseram de suas vidas esses quatro autores imortais cujas obras não podem ser ignoradas por quem gosta de literatura.

É Isto um Homem?,terrível livro do italiano PRIMO LEVI, também sobre a perversão nazista. O livro é famoso.

Finalmente, iniciei a leitura do famoso A Vida e as Opiniões de Tristram Shandy, de Lawrence Sterne, em Português, que consegui comprar na Estante Virtual.

Leituras de Lourdes Rodrigues:

A Coleção Folha Literatura Íbero Americana, da qual eu li alguns dos livros que vou comentar aqui, surpreendeu-me pela qualidade da literatura. É muito comum as coleções incluírem alguns bons e consagrados escritores – âncoras para atraírem o leitor – ao lado de outros que não se sabe a razão de estarem ali. Na Coleção Folha os autores são excelentes, a obra escolhida pode não ser a obra prima de cada um, mas figura entre as suas grandes criações, com certeza. Por enquanto, vou comentar sobre Tia Júlia e o Escrevinhador, de Mário Vargas Llosa; Delírio, de Laura Restrepo; O Túnel, de Ernesto Sábato; e, O livro de Areia, de Jorge Luís Borges.

Tia Júlia e o Escrevinhador,  de Mário Vargas Llosa, pode não ser o melhor livro do autor, mas tem um lugar de relevo no seu patrimônio literário, pela sua originalidade, pela estrutura da narrativa, pelo humor. No Prólogo, o autor dá a dimensão do tempo e esforço na escrita do romance. Ele foi iniciado em Lima, continuou a ser escrito, com muitas interrupções, em Barcelona, La Romana, Nova York e de novo em Lima, onde concluiu quatro anos depois. Não se sabe, na verdade, o tempo que levou para a sua elaboração. E ele fala que baseou o romance em fato real, num autor de radionovelas que havia conhecido quando jovem, cuja lucidez fora devorada, por algum tempo, por suas histórias melodramáticas. E diz, ainda, que acrescentou dados autobiográficos da sua primeira aventura matrimonial, para que o romance não ficasse artificial demais.

A história fusiona ficção e realidade com muito humor e originalidade. A multiplicidade de narrativas é um recurso utilizado pelo autor para contar a sua paixão pela tia Júlia, o seu desejo de se tornar escritor, a relação com Pedro Camacho, autor compulsivo de radionovelas, e as novelas do frenético radio-ator propriamente ditas. Os capítulos se alternam entre o romance do jovem pretenso escritor e as novelas do fenômeno radiofônico. São duas narrativas em paralelo, a do mundo ficcional de Varguitas, contada na primeira pessoa, e a do mundo ficcional de Pedro Camacho, todas as novelas na terceira pessoa. A mudança de voz e os estilos bem distintos entre um capítulo e outro, embora logo percebidos, não são suficientes para a identificação imediata das duas linhas narrativas. O leitor fica completamente frustrado sem saber o que ocorreu com os personagens da história de Camacho, pois os capítulos sempre se encerram no auge do conflito, cheios de perguntas que jamais serão respondidas. A deterioração do autor Pedro Camacho vai sendo observada pelas perdas de fio das meadas, mistura de enredos, morte e reaparecimento de personagens, entre outros. Este é um romance onde o humor reina com força absoluta. Há uma cena imperdível, em que o autor Varguitas vai entrevistar um mexicano, dirigente de uma revista, escritor, presidente de uma delegação de economistas, de cerca de 60 anos, que estava acompanhado da esposa, uma mulher miúda de olhos muito vivos, que usava um chapeuzinho de flores, e quando ele acompanhava o casal de volta para o hotel, a mulher começa a passar mal, abatida, abrindo e fechando os olhos, mexendo a boca de um jeito estranhíssimo e o marido lança um olhar feroz para a mulher e para ele, depois acelera os passos, abandonando-os à própria sorte. O trajeto para o hotel narrado por um Varguitas, completamente apavorado, é extremamente hilário, ele carregando a mulher nos braços pela rua, o homem correndo na frente, a chegada ao hotel, você fica imaginando a cena e não consegue parar de rir.

Li várias obras de Mário Vargas Llosa, creio até que já havia lido esta, mas não lembrava, talvez porque na época não tivesse a maturidade necessária para compreender a sua grandiosidade, e considero-a uma das suas melhores criações. O romance tem uma estrutura complexa que Mário Vargas Llosa maneja com extrema habilidade, competência e humor.

Delírio,  de Laura Restrepo, surpreendeu-me desde o primeiro parágrafo. Fiquei tão impactada com a sua leitura, que o usei como isca para os escritores da oficina criarem as suas próprias versões da história ali começada. É muito difícil escrever o primeiro parágrafo de um livro, parágrafo em que o autor ou atinge o leitor de forma mortal, e ele não tem mais como abandoná-lo, sob pena de se arrepender amargamente, ou vai entediá-lo, fazendo-o fechar o livro para nunca mais voltar a abri-lo. Gabriel Garcia Marquez, por exemplo, disse não ter a menor habilidade para fazer contos, porque a sua maior dificuldade como escritor, consistia na elaboração do primeiro parágrafo, e os contos exigiam vários começos. No início do primeiro parágrafo de Delírio, o personagem, na primeira pessoa, narra o momento em que ele entra num quarto de hotel, cuja porta foi aberta por um homem, e vê a sua mulher, sentada ao fundo, olhando pela janela de forma estranha. Em seguida, ele sai do modo narrativo para o de diálogo direto e diz, iniciando com letra maiúscula, Quando parti nada de estranho acontecia com ela (…), simplesmente separando a narração do diálogo com uma vírgula. Continuando a frase, a narrativa muda para a terceira pessoa, mas como Aguilar ia acreditar nisso (…), distanciando-se, colocando o narrador por fora, para depois voltar ao personagem em diálogo direto. E assim continua, sobrepondo vozes, espaços e tempos narrativos, na luta feroz do personagem para descobrir o que aconteceu com a mulher na sua ausência, obrigando o leitor a reler várias vezes as frases para se situar. No parágrafo seguinte, surge outro personagem, um ex-amante de Agustina, nome da mulher estranha, traficante ligado a Pablo Escobar que, num diálogo intenso com ela, de quem não se ouve a voz, pois apenas se percebe do monólogo dele sinais da sua fala, outro corte profundo no tempo e espaço narrativos pois não se sabe em que momento e lugar está acontecendo. O próximo parágrafo traz a história da Agustina quando criança, no início, na terceira pessoa, em seguida, no diálogo direto com outro personagem, o seu irmão, Bichi, dentro das frases, sem qualquer separação por aspas ou travessão. Mais adiante, outra história começa a ser contada, a de um alemão, que depois vai se descobrir ter sido o avô dela, cuja vida acaba de forma trágica. São várias histórias imbricadas, separadas apenas por parágrafos, numa escrita sôfrega e de aparência caótica, ou talvez alucinada, pela sucessão de vozes, que leva o leitor, algumas vezes, a ter de parar para não se perder totalmente naquele turbilhão de imagens, sons e insensatas emoções. Talvez tenha sido a estrutura mais complexa de um romance que eu tenha lido até agora, e já estava acostumada às estruturas das narrativas de Faulkner que são muito fragmentadas, difíceis de montar o quebra-cabeça. São 277 páginas de fragmentos que você vai juntando para compor a história, que a autora consegue manter cheia de mistério e tensão, revelando aos pouquinhos os segredos dessa estranha mulher. Até quase o capítulo final não se sabe o que de fato havia acontecido para deixá-la estranha daquela forma, mantendo o leitor aprisionado na angústia desse não saber. A autora envolve dados de realidade do narcotráfico colombiano, para dar mais veracidade a sua história. No meu ponto de vista totalmente dispensável, porque o conflito psicológico do personagem já era mais do que suficiente para sustentar a trama. Delírio foi vencedor do Prêmio Alfaguara de 2004 e José Saramago que presidiu o júri de premiação disse do livro: Um dos melhores romances na memória recente. E mais: Quando o nível da escrita chega onde Restrepo o levou, ele deve ser valorizado. A escritora Laura Restrepo, da Colômbia, certamente, ganhou mais uma leitora pela qualidade e arrojo na sua escrita complexa que ela com muita destreza soube arquitetar.

O Túnel,  de Ernesto Sábato, também da coleção, é outra obra extraordinária. Narrativa na primeira pessoa, no estilo bem confessional, no primeiro parágrafo, na primeira frase, o personagem revela ser pintor e ter assassinado Maria Iribarne, mas diz, ainda, que o processo deve estar na lembrança de todos e que ele não precisa dizer mais sobre a sua pessoa. Daí em diante ele teoriza um pouco sobre o que lembrar, para voltar no segundo capítulo à historia do seu crime. A estrutura não tem a complexidade das duas anteriores, o autor inicia a narrativa de trás para frente, começa pelo fim, pelo drama já acontecido e volta para o começo, para o dia em que ele encontrou pela primeira vez Maria Iribarne. Desde o primeiro capítulo o leitor percebe que está diante de um personagem obsessivo, que vive em aguda crise existencial e na mais completa solidão. O encontro com a sua vítima parte de uma suposta identificação, ela viu em seu quadro o que ninguém conseguia ver, somente ele e ela: Existiu uma pessoa que poderia me entender. Mas foi, justamente, a pessoa que matei. E daí em diante, ele passa a persegui-la alucinadamente, segue-a pelas ruas, descobre endereço, telefona, ele não consegue deixar de pensar nela, de colocá-la em suas obras, é uma narrativa delirante, escrita numa linguagem simples, bela. O túnel é um romance psicológico que traz em seu enredo simples, questões metafísicas fundamentais do ser humano. Não tenho dúvidas, de que assim como o estrangeiro de Alberto Camus, ele se tornará um clássico da literatura. Sobre o livro, o próprio autor declarou que enquanto o escrevia, ele mesmo ficava perplexo, confuso, pois o que saía era muito diferente do que ele havia planejado. A sua idéia inicial era escrever um conto em que o protagonista da história enlouquecia por não conseguir comunicar-se, nem mesmo com aquela mulher que parecia tê-lo entendido tão bem ao olhar aquele quadro e acabou se tornando uma obra em que o ciúme e posse tomaram a direção. Não há dúvida de que o personagem continua a se sentir num túnel, túnel que ele esteve à vida toda: em todo caso, havia um só túnel, escuro e solitário: o meu, o túnel em que transcorrera a minha infância, minha juventude, toda a minha vida. Na hora em que ele está para matar a amada, ele diz: Tenho que matar você, Maria.Você me deixou sozinho. Ele a matou por ela ter lhe dado a esperança de acabar com a solidão: senti como se o último barco que podia resgatar-me de minha ilha deserta passasse ao largo sem avistar meus sinais de desamparo. Meu corpo tombou lentamente, como se tivesse chegado a hora da velhice. Velhice e solidão estão aí como sinônimos.

O livro de Areia,  de Jorge Luis Borges, traz 13 contos, dos quais eu só li, até agora, dois deles, suficientes para eu saber do que tenho pela frente. O Outro, é uma história em que um professor está recostado num banco defronte ao rio Charles, na Universidade, quando na outra ponta do banco, senta-se alguém e estabelece-se um diálogo que, três anos depois, ele encontra coragem para falar, sem receio de perder o juízo.Na verdade, trata-se de um encontro do personagem com ele próprio quando jovem, trazendo à tona o tema do duplo. O desafio de Borges, segundo ele mesmo, no epílogo, é que os dois personagens fossem suficientemente diferentes para serem dois e suficientemente parecidos para serem um. Conseguiu de forma espetacular, deixando um friozinho na barriga ao contrapor as esperanças de um jovem de menos de vinte anos, seus ideais, à realidade vivenciada por um homem quase cego, com mais de setenta anos. Perfeito, claro, conciso, denso. Está na primeira pessoa, e o narrador é o homem mais velho, naturalmente. O outro conto lido foi Ulrica, que é uma linda história de amor, também na primeira pessoa, o protagonista é um professor colombiano, celibatário, e a mulher por quem ele se apaixona, uma norueguesa, Ulrica, pela primeira e última vez .

Além da Coleção Folha, quero acrescentar às minhas mais recentes leituras, dois livros de Léon Tolstoi, O Diabo (presente da minha amiga, Ângelae A Felicidade Conjugal (presente do meu amigo, César). Ambos trazem no tema, o desejo.

No O Diabo, o protagonista dá-se conta, após a morte do pai, que as finanças da família estão em baixa, devido às dívidas deixadas por ele. Larga o trabalha e vai administrar a fazenda para tentar pagar os débitos e garantir a sua propriedade. Durante anos o rapaz luta bravamente, conseguindo aos poucos ir melhorando a situação das finanças. Livre do sufoco maior dos débitos deixados pelo pai, Evguênia começa a ficar inquieto, como ele iria encontrar refrigério para a sua libido, ali na zona rural, onde as mulheres disponíveis ele não conhecia o paradeiro? Obrigado a uma continência involuntária, começou a perceber que não agüentaria por muito tempo aquela situação, por uma questão de saúde, física e mental, e não por libertinagem. Estava tão obcecado por essa falta que em todas as conversas sempre dava um jeito de falar de mulheres, prolongando o assunto o mais que podia, erotizando com o olhar cada mulher que passava à sua frente. Certo dia, conversando com o guarda florestal que fora caçador do seu pai, o assunto mulher veio à baila e ele confessou que estava passando por uma tortura imensa e o velho se dispôs a ajudá-lo, surgindo então Stepanida, cujo marido, cocheiro, vivia na cidade: é como se ela fosse mulher de soldado. É bonita e limpa. O senhor vai gostar. Há uma nota dizendo que o serviço militar durava 25 anos na Russsia tzarista, e as esposas dos soldados eram como viúvas de marido vivo, por isso a expressão. Pois é, Evguêni gostou, gostou até demais. Na primeira vez, livrou-se rápido dela, quinze minutos foi suficiente para sentir-se leve, calmo e bem disposto. Nem reparou direito na moça, lembrava-se apenas que era asseada, jovem, bonita e simples. Rapaz alheio à libertinagem, ele até pensou em nunca mais voltar a ver a moça, pois se sentia pouco confortável com tal procedimento. Mas, o desassossego voltou, e agora, ele tinha um rosto, o rosto de Stepanida, com seus olhos negros e brilhantes, aquele cheiro de algo fresco e forte, aqueles seios altos, que arfavam sob o avental…Na segunda vez, já houve conversa, mas ainda não quis marcar novo encontro. E assim os encontros foram se amiudando, ele sempre se debatendo com um juiz forte dizendo dentro dele para aquela ser a última vez e sempre os olhos e o cheiro de Stepanida voltando a lhe perturbar e esquecer o recomendado. Depois, já não precisava mais da intermediação do guarda florestal, eles já deixavam marcado o próximo encontro. E assim foi, embora ele achasse que ela não significava nada para ele, É somente para a saúde e é necessário, às vezes o desejo de vê-la era tanto que não conseguia pensar nem fazer nada até conseguir marcar novo encontro. E então ele casou com Liza, moça romântica, educada.O narrador intruso, porém, diz que Não existem explicações para Evguêni ter escolhido Liza Ánnenskaia, assim como é impossível explicar por que um homem escolhe uma determinada mulher. Durante um bom tempo, o jovem marido esqueceu Stepanida, a esposa engravidou, os negócios continuaram a lhe preocupar e ocupar, até que um dia, ele a encontra fazendo faxina, justo em sua casa. E o seu desespero, a sua angústia voltam, ao sentir que o desejo por aquela mulher ainda o dominava. São páginas e páginas com o tormento de Evguênia, que completamente tomado pelas suas emoções diz: Ela é o diabo. É o próprio diabo. Pois ela se apossou de mim contra a minha vontade. Não vou contar o final que é o ponto mais alto da narrativa. Tolstoi, neste romance, dá-nos a dimensão do conflito de um homem atormentado pelo desejo por uma mulher, sentindo-se obrigado a defender a sua postura de homem sério, marido zeloso e fiel de uma mulher que ele também amava, embora de forma bem diferente. Muito bem escrito, na terceira pessoa, mas o narrador está tão próximo do personagem que a linha que os separa, algumas vezes, torna-se invisível.

A Felicidade Conjugal,  também traz o desejo como tema, agora sob o ponto de vista da mulher. Narrado na primeira pessoa, por María Aleksândrovna, órfã, criada juntamente com a sua irmã, por uma criada, Kátia, tendo como tutor, um amigo de seu pai Serguêi Mikháilich. A evolução do sentimento de María por seu tutor, inicia com um gostar por hábito, todos na casa gostavam dele. Depois, pela lembrança de uma frase dita pela sua mãe, na presença dela, quando tinha apenas onze anos de idade, de que gostaria de um marido assim para mim (Um amigo psicanalista me disse, certa vez, que palavras de mãe ficam marcadas como cicatrizes.). Num reencontro, após seis anos sem se avistarem, quando ele a visita, deixa, ao partir, uma sensação de que a casa se tivesse enchido de vida e luz, para, no seu retorno, numa visita inesperada, ele olhá-la de forma estranha e ao ir embora ela ficar vendo-o afastar-se pela estrada.   Aqui, tudo é descrito de forma lírica, não são mais os instintos que comandam a ação, mas os sons noturnos do jardim, do rouxinol, do assobio, da folha tremulando. O sentimento de María por Serguêi vai num crescente, em passos de balé, até ela começar a enxergar em cada uma das palavras e movimentos dele, amor, e não duvidava deste. As descrições que María faz da paisagem denota o seu estado de apaixonamento. O medo de Serguêi, por conta da diferença de idade, faz com que ele use o artifício de contação de uma história para expressar os seus receios, história na qual os personagens eram um certo senhor A, um homem velho e vivido, e certa senhora B, jovem, feliz, que ainda não tinha visto nem as pessoas nem a vida. Vários desfechos foram dados a essa história até eles se entenderem e  no final , ela declarar que tinha na alma felicidade, uma felicidade que não voltaria jamais. Ela parecia estar sendo profética, porque depois de algum tempo de casados e felizes, ela começou a sentir-se solitária, mesmo estando ao lado dele: .Amar era pouco para mim, depois que eu experimentara a felicidade de apaixonar-me por ele. Eu queria movimento, e não uma fluência tranqüila da vida. Queria inquietação, perigos e autossacrifício em prol de sentimento. Havia em mim um excesso de força, que não encontrava lugar em nossa vida sossegada.Assaltavam-me repentes de angústia, que eu procurava esconder dele, como algo ruim, e repentes de ternura desenfreada e alegria, que o assustavam. Assustou tanto que Serguêi decidiu ir morar na cidade, embora odiasse a idéia de uma vida social intensa. E a partir daí, da perfeita adaptação de María à vida em sociedade, jovem que ainda não tinha visto nem as pessoas nem a vida, consolida-se o desgaste da relação conjugal que nem mesmo o nascimento do filho conseguiu mitigar.A crise fica aguda com o aparecimento de um jovem marquês italiano, mas não vou adiantar o que aconteceu, senão perde a graça. León Tolstoi consegue escrever com tal maestria, seja sob o ponto de vista masculino, ou feminino, que é impossível não se encantar com a sua escrita. Além disso, ele aborda questões fundamentais na sua literatura, o desejo, por exemplo, do homem ou da mulher, as relações estabelecidas com base nas diferenças, sejam diferenças de visão de mundo, de ordem econômica e social ou simplesmente temporal. Virgínia Woolf que o considerava o maior entre os escritores, costumava dizer quando lia algum escritor do qual ela gostava, mas, não é um Tolstoi … Sem dúvida, é uma referência no mundo da literatura.

Reparação, de Ian McEwan, livro que trata de grave e trágico equívoco. Rapaz, filho da empregada de uma  família de certo poder aquisitivo, de quem contou sempre com a ajuda financeira para os estudos, face o bom comportamento, é acusado, julgado e preso pelo estupro de uma adolescente, sobrinha da dona da casa. A acusação partiu de uma criança, de nove anos de idade, Briony Talles, filha da patroa. Acontece que o rapaz estava enamorado de Cecília, filha do seu benfeitor e irmã da garota que o acusou, que havia presenciado cena de intimidades entre eles e estava convencida de que o rapaz era pervertido. Dois fatos a levaram a pensar assim: a cena de sua irmã obrigada a despir-se pelo rapaz, entra no lago, segundo a sua visão ; e os amassos dela com o rapaz na biblioteca da casa. Ela pretendia tornar-se escritora e sempre estava fantasiando, inventando histórias, até uma peça de teatro tentou encenar, desistindo pela dificuldade com os atores, seus primos que ora moravam em sua casa. Cecília sabia que o rapaz havia sido injustamente acusado, defendeu-o o tempo inteiro, mas não impediu de ele ser condenado e preso. Ela abandona a família e vai morar em outra cidade, jamais deixou de se comunicar com o rapaz. Chegou a guerra, a criança cresceu, Briony torna-se enfermeira, assim como Cecília, e atende nos hospitais. A história atinge o seu clímax quando Briony descobre o verdadeiro estuprador, e vai atrás da irmã para pedir perdão a ela e ao rapaz pela cruel injustiça que ela cometeu. Aqui o autor usa de recursos técnicos para falar do encontro entre Cecília e Robie, e também dos dois com Briony, levando o leitor a ficar um pouco confuso entre fantasia e realidade. Narrado na terceira pessoa, o foco da narrativa circula, ora por Briony, ora por Cecília ou, ainda, por Robie, permitindo ao leitor acompanhar o conflito pelos personagens principais do romance. Muito bem escrito. Recomento. O filme fez enorme sucesso.

Fúria Santa, a biografia de Cacilda Becker,  autoria de Luís Andrade do Prado, cuja resenha já foi publicada no meu blog (marilurde.wordpress.com) e no blog da Oficina (traco-freudiano.org/blog),  é uma biografia diferente. Guarda a força e a seriedade documental, pelo registro de uma parte importante da história da arte cênica no país, além de sua relevante qualidade literária. Ela veio para servir de referência à trajetória do teatro brasileiro, contextualizado por cenários socioeconômicos e políticos. E tudo contado com muita mestria, usando artifícios próprios de um ficcionista maduro. Desde o prólogo se percebe isso. Ao usar várias visões para contar o momento em que Cacilda Becker sente-se mal e é socorrida no teatro, entre o primeiro e o segundo ato da peça Esperando Godot, de Samuel Beckett, Luís Carlos Prado deu uma jogada de mestre, demonstrando que o seu objetivo não era registrar o fato como ele ocorreu, na triste e pretensa tarefa do historiador que se engana pensando existir uma verdade a ser contada. Tem-se a impressão de que ele quis mostrar como cada um, do lugar em que se encontrava, viu aquele momento. Lugar aqui entendido como espaço físico (no teatro) e emocional (na relação com a atriz), num resgate possível das emoções daquele dia. O livro é riquíssimo em detalhes sobre a vida de Cacilda Becker no teatro, desde 1941, até a sua última cena, em Esperando Godot.