Viagem pelo Sentir

Viageiros e viageiras,

após breve e agradável remanso em terra firme é tempo de embarcar e içar as velas. Lancemo-nos ao mar que os ventos são favoráveis, o mar convidativo. Se a disposição dos navegantes estiver inspirada no sentir tudo de todas as maneiras, como bem diz o poeta Fernando Pessoa, teremos mais uma grande viagem para anotar em nosso diário, porque esta é a maior de todas as inspirações:

*A Melhor Maneira de Viajar é Sentir

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d’Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

*Trecho do livro Poemas, de Álvaro de Campos,
Heterónimo de Fernando Pessoa

Se as condições atmosféricas são atraentes, se os navegadores estão movidos pelo desejo de sentir, urge abrirmos a carta de navegação para 2015, cujo desenho não tem a rigidez dos icebergs, mas a flexibilidade das velas sob o humor dos ventos. Assim, se preciso for, outra rota será construída e a nau seguirá em frente em busca de novos sentimentos. Para isso, já temos outra carta em discussão, além daquela que primeiro apontaremos o leme. E parafraseando o poeta português que ora nos inspira: A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.

CARTA DE NAVEGAÇÃO

Leituras:

42691740Os Mortos – James Joyce – A primeira leitura.

Para os que ainda não leram James Joyce é um bom início. Alguns dos nossos viageiros já tiveram oportunidade de ler obras bem mais complexas do autor, tais como Ulisses (tradução de Antônio Houaiss) e Finnegans Wake (pelo menos o primeiro volume, na tradução Donaldo Schuler) aqui mesmo no Traço, em outros grupos de estudos. Eu confesso que participei dos dois grupos e adorei a leitura de Ulisses, tanto que reli várias vezes longos trechos do livro para fazer o ensaio Quem tem medo de James Joyce?ou enjoyceando os diários de Virgínia Woolf. Entretanto, não consegui sequer ler o primeiro volume de Finnegans Wake, embora goste de leituras complexas, herméticas, não me atraiu o suficiente para enfrentar a árdua tarefa que teria à frente.

Os Mortos é um conto do livro Dublinenses que conta a visita de Gabriel Conroy às tias solteironas, professoras de música, que o consideram o sobrinho mais querido. Na volta para o hotel, o personagem tem uma revelação sobre o passado da sua esposa Gretta. A sua reação a tal revelação é o elemento dramático do conto. Trata-se de um texto literariamente consagrado da obra do autor.

Os Mortos, James Joyce, Grua Livros, 1ª Ed, São Paulo, 2014, tradução Eduardo Marks de Marques

42235675A Lição do Mestre – Henry James.

Há muito desejávamos ler alguma obra de Henry James na Oficina. Agora, chegou a hora. Lição de Mestre é uma história bem estruturada, ambígua. São dois personagens fortes o velho escritor George e o seu discípulo, o jovem romancista Paul Overt. Narrada na terceira pessoa, sob o ponto de vista de Paul Overt, trata da incompatibilidade da vida literária relevante com o casamento. Segundo George, a única preocupação do artista literário deve ser com o “absoluto”, visto que nada meramente relativo interessa. Nesse sentido, as esposas podem representar uma “curva perigosa”, pois um escritor que se poupa não constitui nem sustenta uma família. Esta é a lição que ele passa para o seu discípulo que a segue, afastando-se da sua amada. Mas, o leitor ficará surpreso com o desfecho desse aconselhamento. A vida literária londrina também é passada a limpo pelo autor.

A Lição do Mestre, Henry James, Grua Livros, 1ªed. São Paulo, 2014, tradução Paulo Henriques Brito

Nadja_livre_de_pocheNadja, André Breton

Este romance, publicado em 1928, foi um marco no modo de fazer literatura, pela sua proposta radical, de certo modo, antiliterária. André Breton, seu autor, líder do movimento surrealista, movimento de vanguarda que visava, através da exploração do inconsciente, dissolver as barreiras entre arte e vida. Diz-se que é antiliterária porque ele utiliza 47 fotos num pressuposto de que elas darão ao leitor, toda a descrição necessária à compreensão da narrativa. Mas, as fotografias vão além das descrições, pois as imagens para os surrealistas possuem papel preponderante, não foi à toa que muitos pintores famosos já na época aderiram ao movimento, como é o caso de Salvador Dali.
Trata-se de uma história de amor, cheia de mistérios, incertezas. Breton usa o romance para atacar o capitalismo que, segundo ele, impede o sonho como potência subversiva e promove a alienação em massa, criando um sistema de aviltamento a que submete à maioria das pessoas.
Surpreendentemente, no início do romance o personagem se pergunta, Quem sou eu? Em seguida, pergunta a misteriosa Nadja: Quem é você? Eu sou a alma errante.
Nadja não está disponível à venda nas livrarias. Assim, vamos ter de apelar para à biblioteca virtual para consegui-lo.

 LEITURAS COMPLEMENTARES OU ALTERNATIVAS

Crime e Castigo ou Irmãos Karamazov – Dostoievski.

Ainda não definimos o que vamos ler de Dostoievski. Alguns preferem Os Irmãos Karamazov, outros, Crime e Castigo.
Teremos muito tempo para discutir e chegar à melhor opção para o momento da Oficina. Ambas são obras grandiosas,clássicos da Literatura, qualquer escolha vai resultar em ganho e perda, não temos dúvida.Alguns viageiros, já leram as duas obras, eu e Júnior, por exemplo, outros, apenas uma delas, alguns ainda não tiveram essa oportunidade. Mesmo para os que as leram essa leitura coletiva trará uma outra visão literária, sem contar que a memória já não dá conta do que foi lido tantos anos atrás.

irmãos-karamazovOs Irmãos Karamazóv – Em verdade, em verdade vos digo que, se o grão de trigo que cai na terra não morrer, fica infecundo; mas, se morrer, produz muito fruto. São João, Cap. XII, Vers. 24 e 25. Esta é a epígrafe do prefácio do livro que foi escrito pelo próprio autor. Dependendo da publicação, obra extensa com 1600 páginas, que envolve analogias sobre conceitos morais da Russia czarista do século XIX, principalmente sobre materialismo, religião e nacionalismo. A célebre frase: Se Deus não existe, tudo é permitido?, está aqui em Irmãos Karamoóv..Freud fez estudos sobre a obra que estão no seu ensaio Dostoievski e o parricídio.

crime-e-castigoCrime e Castigo é um dos maiores romances da história da Literatura, cuja característica maior é a reprodução da angústia psicológica de um personagem que desde o início já sabemos ser um assassino. A trama envolve suspense e grande tensão, de profundidade psicológica única, passado na turbulenta Rússia czarista do século XIX.

o-filho-de-mil-homens-valter-hugo1O filho de Mil Homens – Valter Hugo Mãe

O filho de mil homens narra a história do pescador Crisóstomo, “um homem que chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter tido um filho”. Com vontade imensa de ser pai, o protagonista conhece o órfão Camilo, que um dia aparece em sua traineira.

download (1)O Jovem Törless – Robert Musil.. Descreve a vida de adolescentes em um internato alemão, onde a severidade do sistema
educacional conjuga-se à brutalidade do comportamento dos alunos.
Ed. Nova Fronteira

fogo20morto

Fogo Morto – José Lins do Rego – Obra-prima de José Lins do Rego, esse romance regionalista mostra o declínio dos
engenhos de cana-de-açúcar nordestinos e traça amplo perfil das figuras decadentes que giravam em torno dessa
atividade econômica.

Escritas  O trabalho de artesão do escritor:

  • Continuidade do romance, contos e resenhas.
  • Divulgação no Blog da produção literária

Técnicas

  • Como elaborar uma resenha com análise literária
  • Estruturação do Romance
  • Foco Narrativo, tempo e espaço narrativos

 

 

Lançamento livro da Oficina

Lançamento Escrituras II - Traços da Oficina

Lançamento Escrituras II – Traços da Oficina

 Escrituras II – Traços da Oficina reúne textos dos escritores da Oficina de Criação Literária Clarice Lispector, os viageiros dos mares das palavras.

A Oficina foi criada em 2006, a partir de um grupo dedicado às leituras clariceanas, o que levou à nomeação de Clarice Lispector como estrela guia. Faz parte do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise, associação de psicanalistas, cuja finalidade é promover e desenvolver estudos sobre a Teoria Psicanalítica e as Veredas Literárias, desde a perspectiva freud-lacaniana.

A Psicanálise, em sua origem, relaciona-se com a arte em bases profundas e fundamentais. A Literatura, em particular, se tornou o pilar de sustentação das teorias psicanalíticas, desde que Freud foi buscar suporte em Shakespeare e Sófocles para as suas primeiras formulações sobre o inconsciente e o complexo de Édipo.

Sem dúvida, a Literatura é o grande olho-d’água, lugar de jorro ininterrupto dos muitos saberes. As palavras guardam mistérios. É preciso tecê-las, abrindo portas para os seus significantes. Cada palavra é uma viagem, por isso estamos sempre nos lançando ao mar e nos chamando de viageiros. No leme, o binômio: leitura/escrita. Sempre.

                                            Lourdes Rodrigues

Ética, Antígona e a Invenção da Mulher

DONALDO SHÜLER EM RECIFE PARA COLÓQUIO ÉTICA, ANTÍGONA E A INVENÇÃO DA MULHER, PROMOVIDO PELO TRAÇO FREUDIANO VEREDAS LACANIANAS ESCOLA DE PSICANÁLISE

Nos dias 24 e 25 da agosto, no Salão Metropólis do Hotel Mercure, Estrada de Israel, 203, Ilha do Leite, Donaldo Schüler falará sobre Ética, Antígona e a Invenção da Mulher no Colóquio promovido pelo Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise.

SOBRE O PALESTRANTE

Donaldo Schüler é natural de Videira, Santa Cataria (1932). Doutor em Letras e livre-Docente pela UFRGS e PUCRS, professor titular em Língua e Literatura Grega e de Filosofia em Curso de Pós-graduação. Ministra cursos no exterior (Estados Unidos, Canadá, Uruguai, Chile, Argentina).

 

 

ALGUMAS OBRAS DO PALESTRANTE

Não-Ficção

  • Teoria do Romance, Rio de Janeiro, Ática, 1989
  • Narciso Errante, Rio de Janeiro, Vozes, 1994
  • Eros: dialética e retórica, São Paulo, Edusp,1992
  • Na conquista do Brasil, São Paulo, Ateliê, 2001
  • Heráclito e seu (dis)curso,Porto Alegre, L&PM,2000
  • Origens do discurso democrático, Porto Alegre, L&PM,2002 
  • Afrontar Fronteiras,Porto Alegre, Movimento, 2012

Ficção:

  • A mulher afortunada, Porto Alegre, Movimento, 1982
  • Faustino, Porto Alegre, Mercado Aberto, 1987
  • Pedro de Malas artes, Porto Alegre, Movimento, 1992
  • O homem que não sabia jogar, Porto Alegre, Movimento, 1998

 

Tradução:

PRÊMIOS

  • Fato Literario, 2003, RBS e o BANRISUL. 
  • A Associação Paulista de Críticos Literários (APCA),  Finnegans Wake, tradução, 2003.
  • Prêmio Jabuti 2004, tradução, Finnegans Wake. 
  • Prêmio Açorianos de Literatura, categoria tradução,2004 e  categoria literatura infanto-juvenil,2005.

INSTITUIÇÃO PROMOTORA DO EVENTO 

Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise, Associação Civil, sem fins lucrativos, cuja finalidade é promover e desenvolver estudos sobre Teoria Psicanalítica e Veredas Literárias, na perspectiva freud-lacaniana.Endereço: Rua Alfredo Fernandes, 285, Casa Forte, CEP-50060-320 – Recife- PE

Site: www.traco-freudiano.org

Blog: www.traco-freudiano.org/blog

 

INSCRIÇÕES

Vagas limitadas

Profissionais: R$ 150,00 – Estudantes: R$ 75,00

Luciene: (81)3265.5705 – segunda à sexta-feira: 13 às 19:00

Lucieneoliveira1968@hotmail.com

 

ENCONTROS COM O PROFESSOR – DONALDO SCHÜLER –  GRAVAÇÕES YOUTUBE

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FLIP 2012

Encerrou a FLIP 2012. Acompanhei pela Folha de São Paulo o evento que fez uma boa cobertura. A avaliação é de que o modelo precisa ser renovado, revisto, que a FLIP de 2012 esteve mais para morna do que para quente, que não trouxe mesas polêmicas, grandes novidades, escritores que decepcionaram um pouco na sua apresentação.  O último dia, sempre o menos agitado e prestigiado, parece que esquentou  o clima com a espirituosidade reinante no debate entre Fabrício Carpinejar e a escocesa Jackie Kay que, divertidos e bons de papo,  falaram sobre como suas vidas se misturam às suas obras.. Alguns trechos desse debate:

Carpinejar: “Uma das maravilhas da minha vida foi ter nascido feio. Isso me libertou. Eu fico com pena de quem é bonito, porque ele tem muito trabalho, tem de se preservar, precisa se cuidar. O feio não tem nada a perder. Eu percebi que as pessoas ganhavam fama rindo de mim e pensei, ‘por que eu não posso rir de mim?’. E comecei a usar a autocrítica, que é uma humildade forçada.”

Mas houve um momento em que Carpinejar comoveu ao contar uma história de seus tempos de colégio, ao falar de um colega que era “filho da faxineira da escola e tinha vergonha disso”.

“A mãe dele o cumprimentava nos corredores e ele virava o rosto, aquilo me atormentava. Até que um dia uma professora passou uma redação –e professor, assim como mãe, é um gerador de traumas–, cujo tema era ‘qual a profissão dos seus pais’. E meu colega escreveu a redação mais bonita que eu já vi, em que ele dizia que a mãe dele tinha todas as chaves da escola e podia entrar em todas as salas. Ele tinha encontrado, dentro do seu desespero, algo valioso. E todo mundo quis ser faxineiro naquele dia.”

“Acho que isso é o que significa ser escritor”, disse Kay, aproveitando a história do gaúcho. “Você está sempre procurando por chaves que deem acesso a vários lugares.”

Jackie Kay é filha de uma escocesa com um nigeriano, mas foi adotada por uma família branca. Ela falou sobre a adoção e a sua busca pelos pais biológicos –ele, um especialista em árvores; ela, uma mórmon–, temas tratados em seus livros, e também sobre como sua obra é uma jornada em que tenta encontrar sua identidade como escocesa e negra. Mas ela consegue fazer graça dessa situação ao dizer que buscou e encontrou o pai dela através do Google, há 9 anos, quando ela já estava com 42 anos de idade, e que ao se encontrarem e ele saber que ela era lésbica  “Ele me perguntou se eu era o homem da relação, uma das perguntas menos paternais que eu já vi.”

Ainda no dia do encerramento, o russo radicado nos EUA Gary Shteyngart e o inglês Hanif Kureishi arrancaram risos da plateia –falaram de humor na literatura, sexo e escritores profissionais.

“Eu escrevia sobre sexo porque não fazia sexo”, disse Shteyngart, um quarentão, em tom jocoso. Kureishi, ao falar sobre ser escritor profissional, sentenciou: “Escritores, quando se encontram, só falam de dinheiro, nunca do que estão escrevendo”.

O encerramento da FLIP 2012 foi muito emocionante pela leitura do poema dedicado a Carlos Drummond de Andrade, Querido Príncipe,  lido no início da tarde pelo poeta Carlito Azevedo, autor do poema, dedicado ao grande poeta homenageado da festa e tema da mesa que ele dividiu com outro poeta Eucanaã Ferraz:

QUERIDO PRÍNCIPE

Carlito Azevedo

Querido Príncipe,

às vezes sua ausência é tão grande por aqui que me agarro a ela como uma lebre a uma serpente. Lembro de você mostrando as fotografias do júbilo e do desespero, oferecendo a rosa a Stalingrado, um suco de abacaxi ao minotauro, a carótida ao vampiro, estudando os rios que fluem contra o oceano, voltam ao fio d’água, explicam-se pelo arrependimento, trabalhando sem alegria para um mundo caduco, observando o voo da mosca. E sempre descobrindo o amor, inventando o amor, renegando o amor, conspirando: não me venham falar que, à noite, deitado na areia da praia, olhando a superfície negra salpicada de pontos luminosos, alguém era melhor do que você no comando da misteriosa navegação.

Tão existencialista isso de você olhar para baixo quando ri, e tão provocador e belo, e nobremente misterioso, sweet prince. Você, sempre acreditando que de tudo fica um pouco, até no chocalhar de chaves no bolso burocrata fica um pouco do desabar das ondas sobre os calhaus da sua região preferida no mundo, onde o deserto limita com o mar. Sempre se perguntando por que acordar com palavras o chinês deitado no campo, e quais as dez coisas que não podem faltar no sono de um chinês deitado no campo: a revolução? a súbita iluminação da mosca em pleno voo? a vertigem do miserável que nem sabe que ronda a boca de um vulcão?

Está vendo como, tão inutilmente, tão amargamente, a lebre, escama a escama, pensa que vai se agarrando à serpente, virando serpente, proferindo oráculos?

Mas não, não é um poema para lembrar de você. Aí está você, aqui estou eu. Aí estão as letras e as runas. Tantos mortos em nossas vidas. Mas seguimos adiante, encurralando sonhos com café, entre o giro da galáxia e o lixo da cozinha, e a mosca, não vamos nos esquecer da mosca. A mosca foi nosso duende. Nossa real Penélope foi fulana. Você via o inimigo maduro a cada manhã ir se formando no espelho de onde deserta a mocidade, Jean Cocteau dizia que os espelhos deveriam refletir um pouco mais antes de nos devolverem a nossa face, e meu riso, abafado, se o risse, ofertaria ao nada, e nele me sepultaria para sempre e um dia.

Anoitece e a serpente diz que a lebre nem chegou perto de alcançá-la, e apenas sonha em sua vermelha toca subtropical, ardendo em febre. A serpente não sente a pelúcia e a ferrugem das patas tateando já seu código genético, suas ondulações, o bater do seu coração. Antes isso do que confessar ao atirador de elite que você foi o homem da minha vida, príncipe. E que eu sempre tive medo de que você me esmagasse com seu amor, com seu desprezo, delta do Paraná, cataratas do Niágara, e, uma vez mais, moscas.

Príncipe, anotei todos os conselhos que você deixou na caixa de papelão da pizza, de que os camaradas comeram mais da metade. Menos aquele sobre só falar de amor sob um vento de cobre e estanho. E é que, como você, só sei falar de amor o tempo todo: amor, amor, amor, amor, no seu dialeto de desordem e precipício, sua fala tartamuda, sua música eletrônica, suas mãos erguidas que não logram nem desistem de fazer o éter tremer de sua pura vertigem vertical. Por isso também eu deitei-me à noite em chão qualquer e fiquei sentindo, sob o corpo, o ondular da bola de barro solta no ar e no alto o séquito de constelações extintas e prometi que o amor nunca mais será comum, banal, nunca mais será qualquer coisa fora da felicidade extraordinária, flor nascida no banco de trás do carro, silêncio de coquetel molotov um segundo antes de explodir contra a luz, Morro da Conceição, Morro do Livramento, Gamboa, Juramento, Tuiuti, Mangueira ou qualquer outro vendaval. Você diz que as mulheres que nunca nos olharam levaram consigo gestos de paixão, de morte e êxtase. Na madrugada da Praça XV, a menina, zureta de pedra, orgasmo de pedra, palavras de pedra, se despega, se despedra da escuridão para me oferecer um ferro de passar novo por cinco reais. Pupilas de fogo, mosca no nariz, ela me sussurra, como oratório sobre faixa mixada do Dj Enigma, que sua presença, milagre de segundo banho no mesmo rio de lama, é a única lebre. E se foi, levando gestos de agonia e limbo, pequena Electra dos muros pichados.

De todo modo, como os cidadãos de Argos, que se lamentavam de haver entregue à guerra de Troia a melhor flor de sua juventude só para receber, dez anos depois, em vez de homens feitos, cinzas numa urna desolada tão fácil de manusear, sinto que a poesia me sai cada vez mais cinza, e nem por isso diminuo a hecatombe de todos os meus momentos dedicados a ela: poesia. A ela, que também te matou, cegou João Cabral, tragou Dylan Thomas 18 uísques adentro, naufragou Rimbaud no charco abissínio, clamou por Ana Cristina do fundo do abismo, Lorca fuzilado de madrugada, assistindo ao primeiro clarão do sol surgir sobre as cabeças do pelotão, última visão do condenado, esgazeou Silvya, Sexton, Sulamita, fez um bailarino de sífilis dançar na pupila verdinegra de Baudelaire, e quantos mais. Carlos, sobreviver aos filhos, aos amigos, ao amor, tudo explica e repele explicação, ninguém morre velho o bastante ou jovem o bastante e há de haver uma região de todas as coisas, e ali nos reuniremos para tramar as felicidades mais impossíveis, sempre as mais realizáveis. O poema é o amor realizado do desejo que permaneceu desejo e isso já deixa o coração pleno de verdade, de furor e mistério. Cara, eu queria apenas dar notícias do coração pleno, do desejo extraordinário, da saudade de você. Viu o que você fez com a imaginação dos poetas cegos de Catamarca? escrevemos post-mortem. Vivemos post-mortem.

Saiba que sempre penso em você, pelo menos sempre que o meu coração cresce assim dez, vinte, trinta metros e explode.

FOLHA DE SÃO PAULO SOBRE O TEXTO: Sem escrever poesia desde a publicação de “Monodrama” (7Letras, 2009), Carlito Azevedo quebrou o jejum com este poema em prosa, escrito para ser lido hoje, durante sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty, ao lado de Eucanaã Ferraz.

Um dos escritores mais alvo de crítica pelo seu desempenho na FLIP 2012 foi Jonathan Franzen. Bastante aclamado no seu país, nos EUA, a ponto da Revista Time lhe dar a capa após o seu último romance, Liberdade, publicado pela Companhia das Letras. Conhecido por estar resgatando o romanção realista, durante o evento ele pareceu estar interpretando algum personagem ao falar com o público, fazendo gozações, caretas e cheio de pausas reflexivas e constatações autoirônicas.

Algumas tiradas do romancista trazidas pela Folha de São Paulo:

/“Acordei às seis da manhã e comecei a ficar um pouco bobo”, disse Jonathan Franzen, 52, o grande romancista americano, ao começar a responder às perguntas do público na Tenda dos Autores, na noite de ontem, na Flip.

Ao lhe perguntarem  o que havia querido  dizer no ensaio no qual falava sobre fazer uma literatura transparente, começou a falar em “raios cósmicos” e “partículas alfa”, depois, parou de repente e começou a rir sozinho.”Desculpem, vou responder”, disse. “O que busco é que ninguém repare na linguagem ao ler meus livros. Que ninguém fique analisando ‘isso é uma metáfora, isso é uma frase formulada para passar tal impressão”.

“Sinto que a palavra entretenimento não tem em português a mesma conotação que em inglês. Ela acrescenta outras coisas e se torna negativa. O romance tem esse objetivo de entreter. Vivemos num mundo cheio de distrações, então precisamos de uma literatura que atraia.” Mas também fez ressalvas à literatura que frequenta as listas de mais vendidos. “Há muitos romances sendo escritos. As pessoas fazem carreira com isso”, disse.

Para encerrar ele disse que acordou muito cedo, às 6h, para observar pássaros. “Essa é uma das regiões mais interessantes do planeta para se observar pássaros, e as pessoas nem sabem disso”.

A Jornalista da Folha de São Paulo, Josélia Aguiar, especializada na cobertura de livros saiu em defesa do escritor. Disse que as seis horas que ela levou de Paraty para São Paulo ajudaram-na a construir 12 argumentos a favor de Jonathan Franzen, aliás, argumentos que ela diz ter tirado do próprio escritor:

Por exemplo, para quem não gostou ou não entendeu o que ele disse em sua mesa na Flip , ela recomenda os 12 ensaios do volume “Como ficar sozinho”, que acabou de sair e ela conseguiu ler em sua maioria durante a viagem. Ele já  deixou tudo escrito, para que não fosse preciso vê-lo, e sim lê-lo.

Continuando ela diz:

A todas as perguntas que lhe fizeram na última sexta-feira, o romancista já respondera muito sofisticadamente, o livro é a prova material.

A começar por aquelas quatro que, brincou o mediador, ele pediu para que não lhe fizessem: 1-quais são suas influências? 2-quando você trabalha e o que você usa para escrever? 3-você controla os personagens ou eles assumem o controle? 4-sua ficção é autobiográfica? Das quatro trata o ensaio que começa na pág. 270, “Sobre ficção autobiográfica”.

A implicância com Facebook, Twitter etc –que coloca sob o conceito de tecnoconsumismo, a teleologia da techné — é bastante bem explicada em ensaios como o incrível “A dor não nos matará” e “Só liguei para dizer que te amo”, que começam nas págs 9 e 20.

“O cérebro do meu pai”, pág . 63, é talvez o ensaio mais pungente; conta os anos em que conviveu com o sofrimento do pai com o mal de Alzheimer. Tão bonito quanto esse, há ”Mais distante”, pág. 233, em que, enquanto pensa em Robinson Crusoé, do clássico inglês de Daniel Defoe, e em David Foster Wallace, o amigo que se matou, trata do sentido da própria literatura –é onde também discorre melhor sobre por que entreter é qualidade, e não um defeito, para um romance, mesmo um romance de “literatura a sério”, como diz (é uma outra definição para entreter, diferente da que adquiriu por aqui).

A antologia tem focos de leveza também. Como na divertida defesa da contista Alice Munro, canadense que é pouco conhecida mas que ele considera autora enorme: encontra-se em “De onde vem essa certeza de que você mesmo não é o mal?”, último ensaio, a partir da pág. 308.

Um trechinho: “Ela não dá aos seus livros títulos grandiosos, como Pastoral Canadense, O Psicopata Canadense, Canadá Púrpuro, Canadá, Terra de Sonhos ou Complô contra o Canadá.”

Gozação, na maior parte, com Philip Roth.

Adiante, mais sério do que engraçado: “Uma ficção melhor pode salvar o mundo? Sempre há um fiapo de esperança (coisas estranhas realmente acontecem), mas a resposta é quase certamente não. Há uma chance razoável, no entanto, de que a ficção possa salvar nossa alma.”

Pois é, leitor, Franzen, que quase passou por freak, também pode ser edificante.

.Resta-nos ler o livro Como Ficar Sozinho, do autor, e conferir.

Outra grande estrela da literatura, Ian McEwan, também deixou um sentimento de que poderia ter sido melhor. Na verdade, espera-se da fala dos escritores a mesma fluência e encantamento de suas escritas, o que muito raramente coincide. A maioria tem dificuldade de falar em público e enfrenta sério desafio nesses eventos. Aqui vamos apresentar alguns trechos da fala do escritor inglês trazidas pela Folha de São Paulo:

Manipular o leitor é o “maior prazer que temos na vida”, diz McEwan na Flip. Ao responder a uma espectadora que perguntara, por escrito, se ele tinha prazer em manipular os leitores (pois ela, a espectadora, havia sentido muita raiva ao se sentir manipulada lendo “Reparação”), McEwan disse: “Sim, esse é principal prazer que temos na vida”. Contou ter sido acusado pelo crítico James Wood de ser manipulador. “Então ele só me acusou de ser um romancista.”

Depois comparou o leitor a uma truta, numa modalidade de pescaria que basta ao pescador balançar os dedos na água, atraindo a atenção do peixe para hipnotizá-lo e em seguida capturá-lo.

Noutro “insight”, instado a fazer uma apreciação do gênero policial, McEwan disse que “talvez todos os romances sejam romances de espionagem”.

“Todos temos a noção de que não podemos revelar tudo, que há informações que não podem ser passadas adiante.”