Viagem da Nau da Literatura.

Registro da  viagem de 26 de abril de 2017  da Nau da Literatura.

*Anita Dubeux

Mantendo a tradição de partida, iniciando  com o Momento Poético,  a viageira Luzia trouxe a leitura de dois poemas de Joseph Brodsky, poeta russo, nascido em Leningrado, em 1940.

Joseph Brodsky (1940-1996)  sentia-se marginalizado por sua descendência judaica. Começou a ser conhecido como poeta aos 23 anos. Logo, logo foi denunciado por um jornal de Leningrado  e preso, sob a acusação de “parasitismo social”, já que não possuía nenhum emprego fixo além de escrever poesias. Condenado em 1964 a cinco anos de prisão com trabalhos forçados, passou 18 meses numa região remota e gelada, ao norte do país, onde rachava lenha, quebrava pedras e nas horas livres se dedicava à leitura de antologias de poesia inglesa e americana. Uma campanha realizada pelos poetas soviéticos pressionou o governo a libertá-lo antes do prazo previsto. Mesmo assim, foi  impedido de publicar seus poemas, tendo que fazê-lo clandestinamente, em livretos que circulavam de mão em mão. Em 1971 ele foi convidado pelo Governo a se retirar do país e emigrar para Israel, mas o poeta não aceitou. Saiu um ano depois, embarcado  num avião rumo a Viena. Antes de partir, ele deixou uma carta ao então líder soviético, Leonid Brejnev, em que dizia: “Embora esteja perdendo minha cidadania soviética, eu não deixo de ser um poeta russo”. Brodsky cumpriu o que dissera, mudou-se para Nova Iorque, ajudado pelo seu amigo e poeta inglês W.H. Auden, conseguiu fixar residência nos Estados Unidos, onde permaneceu até sua morte, em 1996. Embora naturalizado americano, continuou escrevendo em russo. Ele mesmo fazia a tradução de seus poemas, que eram publicados em revistas e suplementos literários dos jornais.
Em 1987, Joseph Brodsky recebeu o Prêmio Nobel de Literatura da Real Academia Sueca, empenhada em tirar das bibliotecas os grandes escritores esquecidos pelo mercado editorial e restrito ao mundo acadêmico e projetá-los mundialmente.
Depois do Nobel, a imprensa soviética começou a anunciar a publicação de alguns de seus poemas na revista literária Novy Mir. Cético quanto ao possível reconhecimento tardio de sua arte, Brodsky declarou: “Poemas, romances – essas coisas pertencem à nação, à cultura e ao povo. Elas foram roubadas do povo e agora as coisas roubadas estão sendo devolvidas a seus donos, mas não acho que os donos devam estar agradecidos em recebê-las”.  Contam que no seu famoso julgamento na Russia, o juiz perguntara: “Quem o reconheceu como poeta? Quem o enlistou no rol dos poetas?”, e ele calmamente respondera: “Ninguém. Quem me enlistou no rol da raça humana?”
Há uma tradução do Julgamento de Brodsky que será postada no final.

M.B

Querida, hoje saí de casa já muito ao fim da tarde
para respirar o ar fresco que vinha do oceano.
O sol fundia-se como um leque vermelho no teatro
e uma nuvem erguia a cauda enorme como um piano.

Há um quarto de século adoravas tâmaras e carne no braseiro,
tentavas o canto, fazias desenhos num bloco-notas,
divertias-te comigo, mas depois encontraste um engenheiro
e, a julgar pelas cartas, tomaste-te aflitivamente idiota.

Ultimamente têm-te visto em igrejas da capital e da província,
em missas de defuntos pelos nossos comuns amigos; agora
não param (as missas). E alegra-me que no mundo existam ainda
distâncias mais inconcebíveis que a que nos separa.

Não me interpretes mal: a tua voz, o teu corpo, o teu nome
já não mexem com nada cá dentro. Não que alguém os destruísse,
só que um homem, para esquecer uma vida, precisa pelo menos
de viver outra ainda. E eu há muito que gastei tudo isso.

Tu tiveste sorte: onde estarias para sempre – salvo talvez
numa fotografia – de sorriso trocista, sem uma ruga, jovem, alegre?
Pois o tempo, ao dar de caras com a memória, reconhece a invalidez
dos seus direitos. Fumo no escuro e respiro as algas podres.

Tradução de Carlos Leite. Paisagem Com Inundação (Lisboa: Edições Cotovia, 2001).

Antes de ler a segunda poesia, inspirada na mitologia grega, Luzia trouxe um resumo  do mito de Odisseu e Telêmaco, abrindo as portas para a melhor compreensão do significado desse poema.

Odisseu a Telêmaco

Caro Telêmaco,
encerrou-se a Guerra
de Tróia. Quem venceu, não lembro. Gregos,
sem dúvida: só gregos deixariam
tantos defuntos longe de seu lar.
Mesmo assim, o caminho para casa
mostrou-se demasiado longo, como
se Posseidon, enquanto ali perdíamos
nosso tempo, tivesse ampliado o espaço.

Não sei nem onde estou nem o que tenho
diante de mim, que suja ilhota é esta,
que moitas, casas, porcos a grunhir,
jardins abandonados, que rainha,
capim, raízes, pedras. Meu Telêmaco,
as ilhas todas se parecem quando
já se viaja há tanto tempo, o cérebro
confunde-se contando as ondas, o olho
chora entulhado de horizonte e a carne
das águas nos entope enfim o ouvido.
Não lembro como terminou a guerra
e quantos anos tens, tampouco lembro.

Cresce, Telêmaco meu filho, os deuses,
só eles sabem se nos reveremos.
Não és mais o garoto em frente a quem
contive touros bravos. Viveríamos
juntos os dois, não fosse Palamedes,*
que estava, talvez, certo, pois, sem mim,
podes, liberto das paixões de Édipo,
ter sonhos, meu Telêmaco, impolutos.

Tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher. Quase uma elegia (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996).

A Song – Poem by Joseph Brodsky

I wish you were here, dear,
I wish you were here.
I wish you sat on the sofa
and I sat near.
The handkerchief could be yours,
the tear could be mine, chin-bound.
Though it could be, of course,
the other way around.

I wish you were here, dear,
I wish you were here.
I wish we were in my car
and you’d shift the gear.
We’d find ourselves elsewhere,
on an unknown shore.
Or else we’d repair
to where we’ve been before.

I wish you were here, dear,
I wish you were here.
I wish I knew no astronomy
when stars appear,
when the moon skims the water
that sighs and shifts in its slumber.
I wish it were still a quarter
to dial your number.

I wish you were here, dear,
in this hemisphere,
as I sit on the porch
sipping a beer.
It’s evening, the sun is setting;
boys shout and gulls are crying.
What’s the point of forgetting
if it’s followed by dying?

Em seguida, Lourdes destacou a ausência de Adelaide e a falta que ela faz: o companheirismo, as contribuições nos debates dos assuntos tratados. Propôs, e foi unanimemente aceito, que as próximas reuniões possam ocorrer em sua casa, uma vez que ela não está em condições de saúde que possibilite deslocamento. Todos manifestaram auguro de melhora da saúde de Adelaide.

A Timoneira lembrou a tarefa sugerida na viagem anterior, de escrita de versões individuais sobre o trio de personagens do conto As Babas do Diabo, de Julio Cortázar, lido naquela ocasião.

O foco principal dessa viagem foi inegavelmente o conto de autoria de Paulo Tadeu, Livrai-nos do Mal, Amém , que ele leu em voz alta e suscitou inúmeras interpretações e sugestões por parte dos viageiros atentos. Uma trama bem urdida e que levou em consideração as recomendações básicas da escrita de contos. O autor deverá apresentar uma nova versão do texto, no próximo encontro, contemplando algumas das sugestões apresentadas, enquanto que os viageiros foram desafiados a escrever versões diferentes, do ponto de vista dos personagens, para efeito didático de escrita criativa.

Lourdes sugeriu um exercício de escrita para Tadeu: reescrever inteiramente o conto a partir da perspectiva da personagem Rute.O viageiro João Gratuliano sugeriu “Então tá, Jeeves”, de P. G. Wodehouse como exemplo de uma narrativa que mostra em vez de dizer e “Emissários do Diabo”, de Gilvan Lemos como exemplo de um romance escrito em falsa terceira pessoa.

Como sugestão de seleção da próxima leitura, surgiu a ideia da escolha de um conto ou romance que contasse com uma resenha elaborada pelo próprio autor.João já havia sugerido “O risco do Bordado” de Autran Dourado que relatou a sua gênese no livro “Uma poética do romance” ou “Doutor Fausto” de Thomas Mann e “A gênese do doutor Fausto”. Eu sugeri “O coração é um caçador solitário”, de Carson McCullers, que na verdade queria dizer “Balada do Café Triste”, que ela resenha detalhadamente no livro póstumo, “Coração Hipotecado”, dissecando cada personagem.

A viagem da semana foi encerrada com o humor das tirinhas de Mafalda.

  • Anita Dubeux é poeta, contista, resenhista, ensaísta.

 O JULGAMENTO DE BRODSKY – texto retirado do blog ESCAMANDRO- poesia tradução crítica –  Tradução do francês de Guilherme Gontijo Flores. A edição utilizada foi Brodski ou le procès d’un poète: commentaires d’Efim Etkind, préface d’Hélène Carrère D’Encausse. Traduzido do russo para o françês por Janine Lévy. Editado pela Librairie Générale Française, em 1988.

As anotações das audiências feitas por Frida Vigdorova e posteriormente editadas na forma de um diálogo é uma experiência digna de peças de Beckett. Por isso, traduzi a partir do francês uma boa parte do processo que hoje funciona como uma espécie de monumento: as perguntas do juiz Savelieva permanecerão, creio, como pérolas da percepção ocidental — não apenas soviética — sobre o ofício do poeta, enquanto as tentativas de resposta de Brodsky por vezes nos fazem lembrar personagens de Kafka, presos num universo burocrático que não parece fazer sentido, diante de um processo em que só poderá ser condenado, ainda que não compreenda muito bem. (Guilherme Gontijo Flores)

Primeira audiência no tribunal

Bairro Dzerjinsky, cidade Leningrado, rua Vosstania, 36.
Juiz Savelieva.
18 de fevereiro de 1964.

Juiz: Qual é a sua profissão?

Brodsky: Escrevo poemas. Faço traduções. Suponho…

J.: Guarde as suposições para o senhor! Porte-se de modo adequado! Não fique em cima do muro! Olhe para o tribunal! Responda de modo conveniente a uma corte! (para mim) Para imediatamente de fazer notas, ou expulsarei a senhora daqui! (Para Brodsky). O senhor tem um trabalho regular?

B.: Eu pensei que se tratasse de um trabalho regular.

J.: Responda a questão!

B.: Escrevo poemas. Pensava que seriam publicados. Suponho…

J.: Não nos interessam as suas suposições. Responda à questão: por que o senhor não trabalhava?

B.: Eu trabalhava. Escrevia poemas.

J.: Isso não nos interessa. O que queremos saber é a instituição à qual o senhor estava ligado.

B.: Eu tinha contratos com uma editora.

J.: Ganhava o suficiente para viver? Quais contratos? Para quais datas? Por quais valores? Seja mais preciso.

B.: Já não lembro exatamente. Estão todos com meu advogado.

J.: O senhor é o interrogado.

B.: Saíram em Moscou dois livros com traduções minhas (ele informa quais).

J.: Qual é a sua experiência profissional, e quanto tempo durou?

B.: Cerca de…

J.: Nada de “cerca”. Isso não é resposta.

B.: Cinco anos.

J.: Onde o senhor trabalhou?

B.: Numa usina. Com uma equipe de geólogos.

J.: Quanto tempo trabalhou na usina?

B.: Um ano.

J.: Em qual cargo?

B.: Perfurador.

J.: De modo geral, qual é a sua especialidade?

B.: Eu sou poeta. Poeta-tradutor.

J.: Quem decidiu que o senhor era poeta? Quem o classificou entre os poetas?

B.: Ninguém. (Sem qualquer desafio) E quem me classificou no gênero humano?

J.: E o senhor estudou com tal objetivo?

B.: Qual objetivo?

J.: De se tornar poeta. Não tentou fazer os estudos superiores para se preparar… para aprender…

B.: Eu não pensava que seria possível aprender isso.

J.: Como se tornar poeta, então?

B.: Penso que… (Desconcertado) … é um dom de Deus…

J.: O senhor deseja apresentar alguma demanda ao tribunal?

B.: Adoraria saber por que fui preso.

J.: Isso é uma questão, não uma demanda.

B.: Nesse caso, não tenho demanda a formular.

J.: A defesa tem questões?

Advogada: Sim. Cidadão Brodsky, o dinheiro que o senhor ganhou, por acaso foi levado à sua família?

B.: Sim.

A.: Seus pais também trabalhavam?

B.: São aposentados.

A.: Vocês vivem juntos?

B.: Sim.

A.: Portanto, a sua renda contribuía para o orçamento familiar.

J.: A senhora não está apresentando questões, está generalizando. E o ajuda a responder. Não generalize: apenas apresente questões.

A.: O senhor foi inscrito num asilo psiquiátrico?

B.: Sim.

A.: O senhor foi hospitalizado?

B.: Do fim de dezembro de 1963 até 5 de janeiro deste ano, em Moscou, no Hospital Kachtchenko.

A.: O senhor não acha que a sua enfermidade o impediu de manter por muito tempo o mesmo emprego?

B.: É possível. Certamente. Na verdade, não sei bem. Não, não sei.

A.: O senhor traduziu poemas para uma antologia de poetas cubanos?

B.: Sim.

A.: O senhor traduziu romanceros espanhóis?

B.: Sim.

A.: O senhor tinha relações com a seção de tradução da União dos Escritores?

B.: Sim.

A.: Demando ao tribunal que sejam versados no dossiê o atestado do Escritório dos Tradutores, a lista de poemas publicados, a cópia dos contratos (ela os enumera), o seguinte telegrama: “Favor acelerar assinatura contrato”. Demando que o cidadão Brodsky seja objeto de um exame médico em que seja constatado seu estado de saúde e se estabeleça se ele o impediria de ocupar um emprego regular. Ademais, demando que o cidadão Brodsky seja libertado sem demora. Considero que ele não cometeu qualquer delito e que seu encarceramento não apresenta fundamento legal. Ele tem domicílio fixo e pode, portanto, responder um mandato de comparecimento.

O tribunal se retira para deliberar. Depois, retoma seu lugar, e o juiz lê o arrazoado:

“Submeter Brodsky a um exame psiquiátrico que deverá decidir se ele sofre ou não de alguma enfermidade psíquica, e se tal enfermidade impediria que ele fosse enviado aos trabalhos forçados em regiões distantes. Uma vez que o dossiê indica que Brodsky recusa hospitalização, encarregar a seção 18 da milícia para conduzi-lo ao exame psiquiátrico.”

J.: O senhor tem alguma questão?

B.: Gostaria que levassem papel e um lápis para minha cela.

J.: Quanto a isso, dirija-se ao chefe da milícia.

B.: Eu já lhe demandei, e ele me negou. Eu peço papel e um lápis.

J.: (amansado): Pois bem. Eu concederei.

B.: Obrigado.

Quando o público evacuava a sala, nós percebemos uma multidão, sobretudo jovens, nos corredores e escadas.

J.: Quanta gente! Não imaginei que haveria tamanho agrupamento.

Alguém na multidão: Não é todo dia que se julga um poeta.

J.: Poeta ou não, para nós dá no mesmo!

Segundo a senhora Toporova, advogada de defesa, o juiz Savelieva deveria ter libertado Brodsky para que este fosse por conta própria ao exame, no dia seguinte, no hospital psiquiátrico; porém Savelieva o manteve preso, e foi sob escolta que ele foi conduzido ao hospital.

Segunda Audiência

Fontanka, sala do Clube de Construtores.
13 de março de 1964.

As conclusões do exame são as seguintes: reconhece-se a existência de traços psicopáticos de caráter, mas considera-se que o sujeito está apto para o trabalho. Que, por conseguinte, pode ser submetido a medidas administrativas.

Um letreiro acolhe quem chega: “Processo do parasita social Brodsky”. A grande sala do Clube de Construtores está repleta de gente.

[…]

J.: Quanto aos autointitulados poemas, nós concedemos [a retirada do dossiê]; mas quanto ao diário íntimo, não há qualquer motivo para removê-lo do dossiê. Cidadão Brodsky, desde 1956 o senhor mudou treze vezes de emprego. Trabalhou um ano numa usina, depois parou de trabalhar por seis meses. No verão seguinte, participou de uma excursão geológica, então passou quatro meses sem trabalhar. (Ele enumera os diversos postos e as interrupções entre cada um deles) Explique à corte porque, nesses intervalos do seu trabalho, o senhor viveu como parasita.

B.: Nesses intervalos, eu trabalhava. Ocupava-me com o que me ocupo sempre: escrevia poemas.

J.: Então o senhor escrevia os seus autointitulados poemas? Qual era a utilidade dessas constantes trocas de emprego?

B.: Eu comecei a trabalhar aos quinze. Tudo me interessava. Eu trocava porque queria conhecer o máximo possível das coisas e das pessoas.

J.: E o que o senhor fez de útil pela pátria?

B.: Escrevi poemas. É o meu trabalho. Estou convencido… creio realmente que aquilo que escrevi presta um serviço não apenas aos homens de hoje, como também às gerações por vir.

Uma voz no público: Ah, bom, vai, diz! Ele não se acha pouco!

Outra voz: Um poeta, é normal que pense assim.

J.: Então o senhor considera que os seus autointitulados poemas são úteis aos homens?

B.: Por que o senhor sempre qualifica os meus poemas como “autointitulados” poemas?

J.: Nós os chamamos de “autointiulados” poemas porque não podemos considerar de outro modo.

Sarokin (procurador geral): O senhor nos disse que estava ávido por saber. Por que não quis fazer o serviço militar?

B.: Não responderei esse tipo de questão.

J.: Responda!

B.: Eu fui dispensado. O que eu “quis” não tem pertinência alguma, simplesmente fui liberado. Não é a mesma coisa. Eu fui dispensado duas vezes. Na primeira por causa da enfermidade de meu pai, na segunda por causa da minha.

S.: É possível viver com o que o senhor ganha?

B.: É possível. Na prisão, pediam-me todo dia uma assinatura para reconhecer que eu custava quarenta kopecks à administração. Ora, eu ganhava mais de quarenta kopecks por dia.

S.: Mas era necessário se vestir, se calçar.

B.: Eu tenho uma roupa. É velha, mas tenho uma. Pra mim basta.

A.: Os especialistas apreciavam os seus poemas?

B.: Sim. Tchoukovski e Marchak me fizeram grandes elogios pelas traduções. Mais do que eu merecia.

A.: O senhor travou relações com a seção de tradutores da União dos Escritores?

B.: Sim. Participei da revista Pela primeira vez em língua russa e apresentei leituras da minhas traduções do polonês.

J.: A senhora deveria interrogá-lo sobre o que ele fez de útil, e só apresenta questões a respeito das suas leituras e traduções.

A.: Suas traduções representam precisamente um trabalho útil.

J.: Brodsky, explique à corte porque o senhor não fazia nada entre dois empregos.

B.: Eu trabalhava. Escrevia poemas.

J.: Como isso lhe impedia de trabalhar de verdade.

B.: Eu trabalhava. Escrevia poemas.

J.: Havia pessoas que trabalhavam na usina e que ao mesmo tempo escreviam poemas. O que lhe impedia de fazer o mesmo?

B.: Nem todos se parecem comigo, até mesmo na cor dos olhos ou na expressão do rosto.

J.: Não foi o senhor quem descobriu isso. Todos o sabem. Melhor seria se o senhor nos explicasse o valor da sua participação em nossa grande marcha progressiva rumo ao comunismo.

B.: Não se constrói o comunismo apenas manuseando ferramentas o trabalhando na terra. É também o trabalho intelectual que…

J.: Grandiosas frases! Diga-nos em que bases o senhor pretende construir o seu futuro profissional.

B.: Eu pensavam em escrever poemas e fazer traduções. Mas, se é contrário a uma norma qualquer, admitida em geral, eu terei um emprego e escreverei do mesmo modo os poemas.

Tiagli (jurado): Entre nós, todos trabalhamos. Como o senhor viveu tanto tempo na indolência?

B.: O senhor não reconhece meu trabalho como tal. Eu escrevia versos, para mim é um trabalho.

J.: O senhor aprendeu uma lição a partir do que se publicou a seu respeito?

B.: O artigo de Lerner era mentiroso. Foi a única lição que eu aprendi.

J.: Assim, ela não te inspirou outra coisa?

B.: Não. Eu não me considero um parasita social.

[….]

J.: Pare de tomar notas!

Eu: Eu sou jornalista, membro da União dos Escritores. Faço artigos sobre a educação da juventude. Peço-lhe permissão para tomar notas.

J.: Quem sabe as notas que a senhora vai tomar! Pare imediatamente!

Uma voz no público: Ela voltou a tomar notas!

[…]

O tribunal retoma seu lugar e o juiz lê a sentença:

“Como bem provam as frequentes mudanças de emprego, Brodsky se esquivou sistematicamente de seu dever como cidadão soviético, que deve produzir bens materiais e garantir pessoalmente sua subsistência. Em 1961 e 1962, os órgãos do MGB [trata-se da KGB da época] darem-lhe um aviso. Ele prometeu conseguir um emprego regular. Mas não fez nada disso e continuou sem trabalhar, escrevendo e apresentando leituras de poemas decadentes. Dos relatórios das comissões de trabalho com os jovens autores, conclui-se que Brodsky não é poeta. Os leitores do Vechernij Leningrad [nome de um jornal de Leningrado] o condenaram. Por conseguinte, em aplicação do decreto de 4 de maio de 1961, o tribunal estipula que Brodsky será enviado para cinco anos de trabalhos forçados em uma região distante.”

Um auxiliar da milícia (que passava diante da advogada): Então, a senhora perdeu o caso, camarada advogada?

[transcrição do processo efetuada por Frida Vigdorova.

Viagem Sétima pelo Riso

VIAGEM SÉTIMA PELO RISO

*Salete Oliveira

Aceitei o desafio de contar a viagem da última quarta-feira, 28, março, que findava sem chuvas a fechar o verão, hoje quando escrevo, cai uma chuva maravilhosa, com trovões, abril abrindo com chuvas do outono.

Dá um aconchego bom essa chuva atrasada, tal o que senti ao chegar na Oficina Literária, já começada, repleta de viageiros, ali na bica, para serem bebidos em sua essência, sem destilação: poemas de Charles Bukowski.

Engraçado como de repente uma cortina se abre e lembramos já termos ouvido suas frases em lugares diversos, até em postagem do filho, e mesmo escolhido um livro dele ao acaso em livraria de aeroporto, para ler no avião. Essas surpresas são parte da Oficina, tão deliciosas como os doces Lolita que Adelaide nos traz,
e que alegria que ela estava lá, já sentada ao lado de Lourdinha, a nos falar sobre ele ser um escritor apreciado dos jovens e movimento Underground.

Para saber tudo sobre ele existe esse site, tem uma time-line ótima, não deixem de dar uma espiada: https://bukowski.net/

Então, aqui vou dizer pouco: Charles Bukowski nasceu na Alemanha em 1920, aos três anos mudou-se com a sua família para Los Angeles, USA. Publicou mais de 45 livros de poesia e prosa, dentre os quais Misto-quente, Numa Fria, Factótum, Notas de um velho safado, Fabulário geral do delírio cotidiano e Pulp (o que comprei no aeroporto), concluído alguns meses antes de sua morte, em março de 1994, aos 73 anos.

Trazidos por Lourdinha, responsável pelo Momento Poético nesse dia, foram lidos os seguintes poemas e algumas frases de Bukowski:

Um poema de amor

 Charles Bukowski (Tradução: Jorge Wanderley)

todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.

suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.

principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.

há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.

sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar — eu estava ocupado
com coisas maiores.

mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só um
aprendiz.

sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra. sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.

essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.

O Pássaro Azul

Charles Bukovski (Tradução: Pedro Gonzaga)

 

há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei que ninguém o veja.
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.
há um pássaro azul em meu peito
que quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí,
quer acabar comigo?
(…) há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo: sei que você está aí,
então não fique triste.
depois, o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
como nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar,
mas eu não choro,
e você?

Bluebird

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the ****s and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.
then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?

então queres ser um escritor?

(Tradução: Manuel A. Domingos)

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.

As frases de Bukowski lidas na ocasião;

 

Ainda no Momento Poético, Sarmento nos trouxe a música Mulheres, de Martinho da Vila, que Um Poema de Amor” o fez lembrar, com similar tema.

Mulheres

Martinho da Vila

Já tive mulheres de todas as cores
De várias idades, de muitos amores
Com umas até certo tempo fiquei
Pra outras apenas um pouco me dei
Já tive mulheres do tipo atrevida
Do tipo acanhada, do tipo vivida
Casada carente, solteira feliz
Já tive donzela e até meretriz
Mulheres cabeça e desequilibradas
Mulheres confusas, de guerra e de paz
Mas nenhuma delas me fez tão feliz
Como você me faz
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem, mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida, a minha vontade
Você não é mentira, você é verdade
É tudo o que um dia eu sonhei pra mim
Já tive mulheres de todas as cores
De várias idades, de muitos amores
Com umas até certo tempo fiquei
Pra outras apenas um pouco me dei
Já tive mulheres do tipo atrevida
Do tipo acanhada, do tipo vivida
Casada carente, solteira feliz
Já tive donzela e até meretriz
Mulheres cabeça e desequilibradas
Mulheres confusas, de guerra e de paz
Mas nenhuma delas me fez tão feliz
Como você me faz
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem, mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida, a minha vontade
Você não é mentira, você é verdade.
É tudo o que um dia eu sonhei pra mim
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem, mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida, a minha vontade
Você não é mentira, você é verdade
É tudo o que um dia eu sonhei pra mim

Após saboreado o momento poético, Eleta leu o seu conto CARNAVAL, que os viageiros, ansiosos para entender a  história em meio a fantasias, foliões, frevos, suspiros e decepções amorosas, logo lhe cobriram de perguntas, e deram  algumas sugestões, em alvoroço de mar agitado.

Passamos à leitura de um conto de Raduan Nassar (para acalmar os ânimos e os espíritos?): Hoje de Madrugada: 

“O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali ao canto; me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que .me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranquilizá-la. De olhos sempre baixos, passei a rabiscar ao verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhos em cima do papel que eu rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.”

Registrei aqui apenas o primeiro parágrafo desse conto, que Adelaide nos tinha enviado por e-mail, e vários dentre os viageiros o leram e discutiram à época; em consenso: um soco no estômago! Relido, agora, na Oficina, ainda mais nos assombrou e doeu. É assim Raduan Nassar, não escreve à toa. Merecidamente recebeu o prêmio Camões de Literatura 2016:

https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2017/02/17/raduan-nassar-recebe-premio-camoes-com-criticas-a-temer-e-ao-stf.htm

E assim voltamos para casa, marujadamente maravilhados, querendo  ler e reler, escrever, cortar, recortar e reescrever nossos enxeridos escritos, depois de ler mestres.

*Salete Oliveira é engenheira química, poeta e contista

Do Riso ao Trágico: Um Mar de Palavras

Embarcamos para a primeira Oficina de 2017 do cais da nossa maruja Adelaide Câmara, onde fomos recebidos com muitas guirlandas.Destaque para as coxinhas e lolitas que Paula nos preparou. Quase todos viageiros estavam presentes, exceções muito sentidas de Paulo, que se recuperava de uma gripe, e de Gratuliano que viajou para dar conta de afazeres inadiáveis com a sua fazenda.

Começamos com a Saudação Poética da nossa anfitriã, Adelaide, que leu o poema de Cecília Meireles, Canção.  É um belo poema  que fala de um sonho posto num navio que o proprio sonhador usa a mãos para fazer naufragar, disposto a chorar todo choro que for preciso para que o navio chegue ao fundo do mar e então “tudo estará perfeito: praia lisa, águas ordenadas,/meus olhos secos como pedras/
e as minhas duas mãos quebradas”. Muito triste.Tão belo quanto triste, eu diria

CANÇÃO
Cecília Meireles

Pus o meu sonho num navio
E o navio em cima do mar;
-depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Adelaide leu ainda um texto muito interessante de Augusto Abelaira, Requiem pelo ponto de Exclamação. Ele começa falando da particularidade da língua portuguesa ao dispor da palavra saudade, perguntando se os outros povos ignoravam o sentimento saudade e se quem não sabe nominar pode dispor do sentimento. E por aí segue… Leitura agradável, humor fino. O texto vai para a nossa biblioteca para quem se interessar pela leitura.

Iniciamos o humor daquela tarde com François Rabelais, mais precisamente com a leitura dos capítulos III a VII de Gargântua e Pantagruel . Realismo fantástico, absoluto. Gargântua após onze meses no ventre da mãe resolve nascer justo no dia em que ela se empanturrou de dobradinha (tripas de bois engordaddos no estábulo, segundo o autor), apesar dos protestos do marido, comendo dezesseis tonéis, uma pipa e seis alqueires. Ó bela matéria fecal que devia se formar dentro dela!  Não deu outra, depois do excesso gastronômico ela começou a sentir dor, a se lamentar e a gritar, aparecendo parteiras de todos os lados que ao a apalparem encontraram aparas de pele, fétidas, que eram os fundos que se lhe escapavam. Diante dessa situação, a parteira velha experiente deu um restringente tão forte que todas as peles ficaram tão apertadas e cerradas que pelas zonas baixas não passavam mais nada.  A passagem encontrada pela criança para sair foi pelos cotilédonos da matriz, seguindo pela veia cava, trepando pelo diagragma até acima dos ombros, onde a dita veia se divide em duas, tomou caminho à esquerda e saiu pela orelha sinistra. E ao nascer, não chorou como as outras crianças,  mas exclamou em voz bem alta: “Beber, beber, beber!”

Escatologia e realismo fantástico neste obra excelente do escritor francês, que tornou-se um clássico da literatura, inovando o fazer literário do humor. O dialógo dos bêbados é perfeito.São vários homens falando ao mesmo tempo, as conversas mais desencontradas e hilárias que se possa imaginar. Muito bom. A nossa colega Roberta Aymar, na ocasião, fez uma fala com uma sintese de Rabelais, muito interessante.A nosso pedido, ela está elaborando uma biografia do autor para dividir com os marujos e neste blog.

Após Rabelais, lemos um resumo que eu fiz do primeiro capítulo de Henry Bergson sobre O Riso, autor citado em todos os estudos sobre o humor. Filosófo e diplomata francês, ele ficou conhecido por vários trabalhos publicados, entre eles,  O RisoEnsaios sobre os dados imediatos da consciência, Matéria e Memória, A evolução criadora e As duas fontes da moral e da Religião.  O Riso foi publicado em 1899. Ele teve vários seguidores, entre os quais, Gilles Deleuze.

Bergson inicia o ensaio o perguntando o que é o riso? O que há de fato na essência do risível? O que há de comum entre uma careta de palhaço, um jogo de palavras, um qüiproquó de vaudeville, uma cena de comédia fina?  Então, ele cita três observações fundamentais para entender  a questão.

A primeira delas é que a comicidade é do humano. A natureza, os objetos não apresentam comicidade sem a ação do homem, sem a expressão humana.Eles em si não são risíveis.Rimos de um chapéu; mas então não estamos gracejando com o pedaço de feltro ou de palha, mas com a forma que os homens lhe deram, com o capricho humano que lhe serviu de molde.

Os filósofos definiram o homem como um animal que sabe rir. Bergson diz que eles deveriam também ter definido o homem como um animal que faz rir, pois, se algum outro animal ou objeto inanimado consegue fazer rir, é devido a uma semelhança com o homem, à marca que o homem lhe imprime ou ao uso que o homem lhe dá.

Outro ponto ressaltado por Bergson é a insensibilidade que acompanha o riso. Para êle o cômico só produzirá comoção se cair sobre uma superfície d’alma serena e tranquila. A indiferença é o seu meio natural. O maior inimigo do riso, diz Bergson, é a emoção, o que não significa que não se possa rir de quem temos piedade ou afeição. Para que o riso possa acontecer será necessário colocar em suspensão, mesmo que por apenas alguns instantes, qualquer piedade ou sentimento de afeição.

Numa sociedade de puras inteligências provavelmente não mais se choraria, mas talvez ainda se risse; ao passo que almas invariavelmente sensíveis, harmonizadas em uníssono com a vida, nas quais qualquer acontecimento se prolongasse em ressonância sentimental, não conheceriam nem compreenderiam o riso.
Que o leitor tente, por um momento, interessar-se por tudo o que é dito e tudo o que é feito, agindo, em imaginação, com os que agem, sentindo com os que sentem, dando enfim à simpatia a mais irrestrita expressão: como num passe de mágica os objetos mais leves lhe parecerão ganhar peso, e uma coloração grave incidirá sobre todas as coisas. Que o leitor agora se afaste, assistindo à vida como espectador indiferente: muitos dramas se transformarão em comédia. Basta taparmos os ouvidos ao som da música, num salão de baile, para que os dançarinos logo nos pareçam ridículos.
(…) Portanto, para produzir efeito pleno, a comicidade exige enfim algo como uma anestesia momentânea do coração. Ela se dirige à inteligência pura.

Outro aspecto levantado por Bergson é que nosso riso é sempre o riso de um grupo. O riso precisa de eco: Não saborearíamos a comicidade se nos sentíssemos isolados. Ele cita exemplo das pessoas que em viagem ou à mesa de hospedarias ouvem histórias que parecem muito cômicas para os que estão ali, pois os fazem rir o tempo todo e com muito gosto, mas que eles não conseguem alcançar a razão para tanto riso. E ele citou o exemplo do homem que não chorava num sermão em que todos choravam profusamente e quando lhe perguntaram porque não chorava ele respondeu: “Não sou desta paróquia.” Ele diz que isso é ainda mais verdadeiro quando se refere ao riso, porque Por mais franco que o suponham, o riso esconde uma segunda intenção de entendimento, eu diria quase de cumplicidade, com outros ridentes, reais ou imaginários.

Enfim, Bergson diz, para compreender o riso é preciso colocá-lo em seu meio natural, que é a sociedade; é preciso, sobretudo, determinar sua função útil, que é uma função social. O riso deve ter uma significação social.

Foi uma bela tarde em que não faltaram as anedotas, as tirinhas e charges, e ainda as gostosas coxinhas e lolitas feitas por Paula, muito bem registrados por Adriana Câmara.

Lourdes Rodrigues

Momentos Poéticos – Wislawa Szymborska

frase-en_el_lenguaje_de_la_poesia_donde_se_pesa_cada_palabra_nad-wislawa_szymborskaWislawa Szymborska, nasceu em 1923, na cidade de Kórnik, na Polônia. A família saiu de lá no mesmo ano, passando a morar na Cracóvia, grande centro cultural da Polônia. A sua vida literária inicia-se durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto segue com sua educação nos anos subterrâneos da resistência cultural polonesa contra a ocupação nazista. Com o fim da guerra, passa a estudar sociologia, além de língua e literatura polonesas, na Universidade de Cracóvia.

O primeiro livro foi proibido pela censura do regime comunista por não se enquadrar nos regulamentos da literatura socialista. Tenta adequar-se às regras para poder publicar, mas rompe definitivamente na década de 50 com a ideologia político-estética socialista. Nega os dois primeiros livros e “reinicia” sua obra com o volume Wołanie do Yeti (Chamando Yeti), de 1957. Em 1962, chama a atenção da comunidade poética polonesa com o pequeno volume Sól (Sal). A sua obra de mais de 10 volumes de poemas, o último publicado em 2009, com o título Tutaj (Aqui). Wislawa Szymborska era uma discreta poeta polonesa até tornar-se mundialmente conhecida em 1996, ao vencer o Prêmio Nobel de Literatura. Hoje os seus livros são traduzidos para mais de 42 línguas.

Considerada uma das últimas representantes do Alto Modernismo, destacou-se sempre pelo humor, às vezes autodepreciativo, sendo a ironia a sua ferramenta favorita. Szymborska é um belíssimo exemplo do “verso livre” que depende de um talento poético invulgar em seus mais sutis artifícios. Aclamada como a Mozart da poesia, ela viveu até quase os novena anos.

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POEMAS – (Tradução

AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS

Quando eu falo a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando eu falo a palavra Silêncio,
o destruo.
Quando eu falo a palavra Nada,
crio algo que nenhum não-ser comporta

POR UM ACASO

Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em consequência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.

 
A ALEGRIA DE ESCREVER

Para onde corre este cervo escrito na floresta que escrevi?
É para beber da água escrita,
que desenha seu focinho?
Por que ele ergue a cabeça, escutou algo?
Apoiado nas quatro patas emprestadas da verdade
ele apura as orelhas sob meus dedos.
Silêncio – essa palavra ressoa na textura do papel
e afasta os galhos
que brotam da palavra floresta.
Sobre a folha em branco há letras espreitando
que podem tomar o mau caminho
formando frases ameaçadoras
das quais nada escapa.
Em cada gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho na mira,
prontos a descer pela caneta íngreme,
cercar o cervo e apontar as armas.
Eles esquecem que aqui não há vida de verdade.
No preto-e-branco vigem outras leis.
Um piscar de olhos durará o tempo que eu quiser
e poderá ser dividido em pequenas eternidades,
cada uma com chumbo suspenso em pleno vôo.
Aqui nada acontecerá sem meu aval.
Contra minha vontade, nem uma folha cairá
e nem uma grama se dobrará sob o casco do cervo.
Então existe um mundo
onde eu possa impor o destino?
Um tempo que eu teço com uma corrente de sinais?
Uma existência que, a meu comando, não terá fim?
A alegria de escrever.
O poder de preservar.
Vingança de uma mão mortal.

 
ENCONTRO INESPERADO

Nós nos tratamos com extrema cortesia,
dizemos: quanto tempo, que bom revê-lo.
Nossos tigres bebem leite.
Nossos falcões preferem o chão.
Nossos tubarões se afogam no mar.
Nossos lobos bocejam diante da jaula aberta.
Nossas cobras perderam seu lampejo,
nossos macacos, sua graça; nossos pavões, suas plumas.
Faz tempo que os morcegos deixaram nossos cabelos.
Caímos em silêncio no meio da conversa,
e não há sorriso que nos salve.
Nossos humanos
não sabem falar uns com os outros.

A CORTESIA DOS CEGOS

O poeta lê seus versos para os cegos.
Não esperava que fosse tão difícil.
Sua voz fraqueja.
Suas mãos tremem.
Ele sente que cada frase
está submetida à prova da escuridão.
Ele tem que se virar sozinho,
sem cores e luzes.
Uma aventura perigosa
para as estrelas da poesia,
para as manhãs, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua,
para o peixe tão cintilante sob a água
e o falcão tão alto e quieto no céu.
Ele lê-pois já não pode parar –
sobre o menino de casaco amarelo num campo verde,
telhados vermelhos que se contam no vale,
números irrequietos na camisa dos jogadores
e a desconhecida, nua, na fresta da porta.
Ele gostaria de omitir – embora seja impossível –
todos os santos no teto da catedral,
a mão que acena do trem em partida,
a lente do microscópio, o anel e seu brilho,
as telas de cinema, os espelhos, os álbuns de
fotografia.
Mas é enorme a cortesia dos cegos,
admirável a sua compreensão, a sua grandeza.
Eles escutam, sorriem e aplaudem.
Um deles até se aproxima
com o livro de cabeça para baixo
pedindo um autógrafo invisível.

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Discurso de Wislawa Szymborska ao receber o Prêmio Nobel

Dizem que a primeira frase de um discurso é sempre a mais difícil. Bem, ela já ficou para trás. Mas tenho a sensação de que as frases ainda por vir – a terceira, a sexta, a décima e assim por diante, até a última linha – serão igualmente difíceis, pois tenho de falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto – quase nada, de fato. E sempre que falei me veio a furtiva suspeita de que não sou muito boa nisso. Portanto, minha palestra será bem curta. A imperfeição é mais fácil de tolerar em doses pequenas.

Os poetas contemporâneos são céticos e desconfiados até, ou talvez sobretudo, de si mesmos. Só com relutância confessam publicamente ser poetas, como se tivessem um pouco de vergonha. Mas em nossos tempos estrepitosos é mais fácil reconhecer nossos erros, ao menos se estiverem atraentemente embalados, do que reconhecer os próprios méritos, pois estes se mantêm ocultos mais no fundo, e nós mesmos nunca acreditamos muito neles… Quando preenchem fichas ou batem papo com estranhos – ou seja, quando não podem deixar de revelar sua profissão -, os poetas preferem usar o termo genérico “escritor” ou substituir “poeta” pelo nome de qualquer outro trabalho que façam, além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um toque de incredulidade e alarme quando descobrem que estão tratando com um poeta. Creio que os filósofos enfrentam reação semelhante. Contudo, estão numa posição melhor, pois na maioria das vezes podem ornamentar seu ofício com algum tipo de título universitário. Professor Doutor de Filosofia: isso sim soa muito mais respeitável.

Mas não existem professores de poesia. Afinal de contas, isso significaria que a poesia é uma ocupação que requer um estudo especializado, exames regulares, ensaios teóricos com bibliografia e notas de rodapé anexadas e, por fim, diplomas conferidos com pompa. E significaria, em troca, que não basta encher páginas de poemas, mesmo os mais primorosos do mundo, para tornar-se um poeta. O fator decisivo seria um pedaço de papel que traz um selo oficial. Lembremos que o orgulho da poesia russa, o futuro ganhador do Prêmio Nobel Joseph Brodsky, foi certa vez condenado ao exílio em seu próprio país justamente com base nessa ideia. Chamaram-no de “parasita” porque não possuía o certificado oficial que lhe assegurava o direito de ser poeta.

Há muitos anos, tive a honra e o prazer de encontrar com Brodsky. Notei que, de todos os poetas que eu conhecia, ele era o único que gostava de se chamar de poeta. Pronunciava a palavra sem inibição. Ao contrário: ele a falava com uma liberdade desafiadora. Isso devia ocorrer, é o que me parece, por causa da lembrança das humilhações que sofreu na juventude.

Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser publicados, lidos e compreendidos, mas fazem pouco, ou quase nada, para se situarem acima do rebanho geral e da roda-viva do dia-a-dia. No entanto, ainda não faz tanto tempo, os poetas se esforçavam para nos escandalizar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Tudo isso era só para encher os olhos do público. Sempre chegava a hora em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar – em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos – a folha de papel ainda em branco. Pois, no final, é isso o que de fato conta.

Não é por acaso que filmes biográficos sobre cientistas e artistas célebres são produzidos aos montes. Os diretores mais ambiciosos tentam reconstituir de forma convincente o processo criativo que gerou importantes descobertas científicas, ou o surgimento de uma obra-prima. E se pode retratar certos tipos de atividade científica com algum sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, máquinas complicadas em ação: tais cenas podem prender o interesse da plateia durante algum tempo. E aqueles momentos de incerteza – será que a experiência, realizada pela milésima vez com uma ínfima alteração, produzirá por fim o resultado desejado? – podem ser dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, enquanto recriam todos os estágios da evolução de um pintor famoso, desde o primeiro traço a lápis até a pincelada definitiva. A música se expande nos filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que soa nos ouvidos do músico emergem, no fim, como uma obra madura em forma sinfônica. Claro, tudo isso é ingênuo, e não explica o estranho estado mental popularmente conhecido como inspiração, mas pelo menos existe algo para se olhar e se ouvir.

Mas os poetas são os piores. Seu trabalho, inapelavelmente, nada tem de fotogênico. Alguém senta a uma mesa ou deita num sofá enquanto olha imóvel para a parede ou para o teto. De quando em quando, essa pessoa escreve sete linhas, só para riscar uma delas quinze minutos depois, em seguida mais uma hora se passa, durante a qual nada acontece… Quem aguentaria assistir a esse tipo de coisa?

Mencionei a inspiração. Poetas contemporâneos respondem de forma evasiva quando lhes perguntam o que é isso, e se existe de verdade. Não é que nunca tenham conhecido a bênção desse impulso interior. Só que não é fácil explicar a uma outra pessoa aquilo que você mesmo não compreende.

Quando ocorre de me perguntarem sobre o assunto, também me esquivo. Mas minha resposta é esta: a inspiração não é um privilégio exclusivo de poetas e artistas. Existe, existiu, existirá sempre certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. É formado por todos aqueles que conscientemente escolheram sua vocação, e fazem seu trabalho com amor e imaginação. Pode incluir médicos, professores, jardineiros – eu poderia fazer uma lista de mais de cem profissões. Seu trabalho se torna uma aventura constante, enquanto forem capazes de continuar a descobrir nele novos desafios. Dificuldades e reveses nunca sufocam a sua curiosidade. Um enxame de questões novas emerge de cada problema que eles solucionam. Seja lá o que for a inspiração, ela nasce de um contínuo “não sei”.

Não existem muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para ganhar a vida. Trabalham porque têm de trabalhar. Não escolhem este ou aquele tipo de trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas fizeram a escolha por eles. Trabalho sem amor, trabalho maçante, trabalho cujo mérito consiste no fato de que outros nem isso têm – aí está uma das mais penosas desventuras humanas. E não há sinal de que os séculos vindouros produzirão qualquer melhora em relação a este estado de coisas.

Assim, embora eu possa recusar aos poetas o monopólio da inspiração, ainda os situo num grupo seleto de favoritos da Fortuna.

Neste ponto, certas dúvidas podem surgir na minha platéia. Toda sorte de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que lutam pelo poder com um punhado de retumbantes palavras-de-ordem também gostam de seu trabalho, e também cumprem suas obrigações com um fervor inventivo. Bem, está certo: mas eles “sabem”, e o que quer que saibam é o suficiente para eles, de uma vez por todas. Não querem descobrir mais nada, uma vez que isso pode reduzir a força de seus argumentos. Mas todo conhecimento que não leva a perguntas novas se extingue depressa: não consegue manter a temperatura necessária para a conservação da vida. Em casos extremos, bem conhecidos desde a antiguidade até a história moderna, chega a representar uma ameaça letal à sociedade.

É por isso que dou tanto valor à pequena frase “não sei”. É pequena, mas voa com asas poderosas. Expande nossa vida para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como as vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo “não sei”, as maçãs do seu pequeno pomar poderiam ter caído no chão como uma chuva de granizo – no máximo, teria parado para pegá-las e devorá-las com deleite. Se a minha compatriota Marie-Curie Sklodowska nunca tivesse dito a si mesma “não sei”, na certa acabaria lecionando química em alguma faculdade particular para mocinhas de boas famílias, e terminaria seus dias cumprindo esse trabalho, de resto perfeitamente respeitável. Mas ela não parou de dizer “não sei”, e essas palavras levaram-na, não só uma vez, mas duas, a Estocolmo, onde espíritos inquietos, indagadores, são de tempos em tempos contemplados com o Prêmio Nobel.

Poetas, se autênticos, também devem repetir “não sei”. Todo poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas assim que a frase final cai no papel, o poeta começa a hesitar, a se dar conta de que essa resposta particular era puro artifício, absolutamente inadequada. Portanto, os poetas continuam a tentar e, mais cedo ou mais tarde, os resultados da sua insatisfação consigo mesmos são reunidos, e presos num clipe gigante pelos historiadores da literatura, e passam a ser chamados de suas “obras”.

Às vezes, sonho com situações que não podem virar realidade. Imagino, por exemplo, que tenho uma chance de trocar umas palavrinhas com o autor do Eclesiastes, aquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Curvo-me profundamente diante dele, pois é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois seguro a sua mão. “Não há nada de novo sob o sol – foi o que você escreveu. Mas você mesmo nasceu novo sob o sol. E o poema que criou é também novo sob o sol, uma vez que ninguém o havia escrito antes de você. E todos os seus leitores são também novos sob o sol – aqueles que viveram antes de você não puderam ler o seu poema. E esse cipreste sob o qual está sentado não cresceu desde o início dos tempos. Nasceu de um outro cipreste semelhante ao seu, mas não exatamente igual.

E, Eclesiastes, eu também gostaria de lhe perguntar que coisa nova sob o sol está agora em seus planos de trabalho. Um suplemento adicional às ideias que já expressou? Ou talvez esteja agora tentado a contradizer algumas delas? Em sua obra inicial, você fez menção à alegria – de que adianta se é fugaz? Então, será que o seu poema novo sob o sol vai falar da alegria? Já tomou notas, fez rascunhos? Duvido que você responda: ‘Já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar’. Não existe no mundo nenhum poeta que possa dizer isso, muito menos um grande poeta como você.”

O mundo – o que podemos pensar quando estamos apavorados com a sua amplidão e com a nossa própria impotência, ou quando estamos amargurados com a sua indiferença em relação ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e talvez até das plantas (pois por que estamos tão seguros de que as plantas não sentem dor?); o que podemos pensar sobre as suas vastidões penetradas pelos raios de estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, planetas já mortos? Simplesmente não sabemos; o que podemos pensar sobre este teatro imensurável para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cujo prazo de validade é risivelmente curto, delimitado como está por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos sobre este mundo – ele é assombroso.

Mas “assombroso” é um epíteto que oculta uma armadilha lógica. Ficamos assombrados, afinal de contas, por coisas que divergem de alguma norma conhecida e universalmente aceita, de um truísmo ao qual nos habituamos. Mas a questão é que não existe esse mundo óbvio. Nosso assombro existe per se e não se baseia numa comparação com outra coisa.

Claro, na fala cotidiana, em que não paramos a todo instante para ponderar cada palavra, todos usamos expressões como “o mundo comum”, “vida comum”, “o desenrolar comum dos acontecimentos”. Mas na língua da poesia, em que se pesam todas as palavras, nada é usual ou normal. Nem uma única pedra e nem uma única nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite depois dele. E sobretudo nem uma única existência, a existência de nenhuma pessoa neste mundo.

Tudo indica que os poetas terão sempre uma tarefa muito árdua à espera.

Paul Verlaine, poeta decadente ou o Príncipe dos Poetas?

Eleta Ladoski levou para a Oficina um poeta de primeira linha, Paul Verlaine. Levou-nos a tradução de Manoel Bandeira, do qual ela discordava de algumas palavras como por exemplo, a tradução de langor por consolação. Alguns colegas consideraram que langor era pouco usual na nossa língua e dificilmente ele encontraria melhor rima para coração. Na mesma ocasião, João conseguiu um áudio da leitura do poema em Francês que não reproduzimos aqui, porque encontramos vídeos com imagem e voz bem interessantes. As traduções de Manoel Bandeira são consideradas muito ricas tanto pelo respeito ao texto original como pela qualidade poética.

manuel-bandeiraChora em meu coração

Paul Verlaine (tradução de Manoel Bandeira)

Chora em meu coração

 Como chove lá fora.

 Que desconsolação

   Me aperta o coração!

xxx

 Oh a chuva no telhado

 Batendo em doce ruído!

Para as horas de enfado,

 Oh a chuva no telhado!

xxx

Chora em ti sem razão,

 Coração sem coragem.

 Se não houve traição,

Teu luto é sem razão.

.

Certo, é essa a pior dor:

 O não saber por que

  Sem ódio e sem amor

 Há em mim tamanha dor

No original 

Il pleure dans mon Coeur

Paul Verlaine

Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville ;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur ?

Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits !
Pour un coeur qui s’ennuie,
Ô le chant de la pluie !

Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s’écoeure.
Quoi ! nulle trahison ?…
Ce deuil est sans raison.

C’est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine !

 

Encontrei na tese de DOUTORADO de Aglaé Maria Araújo  Fernandes (INTERINSTITUCIONAL UFSC / UFPB / UFCG) sobre os  POEMAS TRADUZIDOS DO FRANCÊS AO PORTUGUÊS POR MANUEL BANDEIRA, a seguinte análise sobre Il pleure dans mon Coeur que registro nesse blog:

O poema de Bandeira se estrutura em quatro quadras hexassílabas, com o esquema de rimas abaa, onde a última palavra do primeiro verso se repete no final do quarto verso. O poema se serve da evocação da chuva para investigar o estado de espírito melancólico do sujeito poético. Os elementos chuva e choro são colocados em paralelo e remetem à tristeza. As duas primeiras quadras, à maneira de um ubi sunt, investigam a melancolia sem razão aparente que experimenta o sujeito poético. A terceira quadra esclarece que não há razão para a dor, enquanto a quarta quadra conclui ser justamente a ausência de causa que torna a tristeza mais doída. O original apresenta a estrutura adotada pelo tradutor.

 

Paul Marie Auguste Verlaine (1844-1896), nasceu em Metz, mas viveu quase sempre em Paris, desde os estudos secundários. Funcionário da Prefeitura, vivia mais na boemia do que trabalhando. Sua primeira aparição no mundo literário foi com Poemas Saturninos, 1866. Embora Parnasiano no início, o seu instinto poético exigia-lhe dar maior agilidade ao alexandrino e utilizar os ritmos ímpares, sugerindo vagos estados por estrofes vaporosas. Marcou a poesia francesa com o seu lirismo musical e evanescente, exercendo forte influência no desenvolvimento do simbolismo. Com Mallarmé e Baudelaire formou o grupo dos chamados poetas decadentes.
Espírito inquieto, ao se casar com Mathild Meauté pareceu ter adquirido certa paz e estabilidade, pelo menos, nos dois primeiros anos. Depois disso, abandonou a esposa e o filho e voltou à  vida boêmia, iniciando forte e turbulento romance com Arthur Rimbaud com quem percorreu vários países europeus.

A relação acabou de forma violenta, com Paul Verlaine atirando em Rimbaud várias vezes, inconformado porque este o queria abandonar. Passou dois anos preso, a esposa pediu o divórcio, o que o abalou profundamente, fazendo-o voltar-se para a Religião. Dessa fase vieram os seus livros Romances sans paroles? (1874; Romances sem palavras) e Sagesse? (1880; Sabedoria). Já em liberdade, tenta a reconciliação em vão com Rimbaud. Morou no Reino Unido até 1877, quando então volta à França. Os seus escritos poéticos revelam a influência de Rimbaud na escolha dos tema e dos ritmos. Embora bastante referido no meio intelectual, considerado verdadeiro mestre pelos jovens simbolistas que o consagraram com o título de O Príncipe dos Poetas, a sua degradação física e emocional pelas várias tentativas de reconciliação com a esposa e com Rimbaud, fizeram-no mergulhar cada vez mais no álcool, na boemia.
Paul Verlaine viveu miseravelmente de hospital em hospital e de café em café até à sua morte em 1896, em Paris.

300px-Paul_VerlaineSuas obras:

Poesias

Poèmes saturniens (1866)
Les Amies (1867)
Fêtes galantes (1869)
La Bonne chanson (1870)
Romances sans paroles (1874)
Art Poétique (1874)
Sagesse (1880)
Jadis et naguère (1884)
Amour (1888)
Parallèlement (1889)
Dédicaces (1890)
Femmes (1890)
Hombres (1891)
Bonheur (1891)
Chansons pour elle (1891)
Liturgies intimes (1892)
Élégies (1893)
Odes en son honneur (1893)
Dans les limbes (1894)
Épigrammes (1894)
Chair (1896)
Invectives (1896)
Biblio-sonnets (1913)
Œuvres oubliées (1926-1929)
Cellulairement

Prosa

Les Poètes maudits (1884)
Louise Leclercq (1886)
Les Mémoires d’un veuf (1886)
Mes hôpitaux (1891)
Mes prisons (1893)
Quinze jours en Hollande (1893)
Vingt-sept biographies de poètes et littérateurs (em Les Hommes d’aujourd’hui)
Confessions (1895)

Votos Partidos (Broken wows or Donal Og)

Na última quarta-feira, Anita Dubeaux nos trouxe um belíssimo poema Gaélico, anônimo, da Irlanda, do século VIII, traduzido para o Inglês por Lady Gregory, irlandesa. Ele recebeu o título em Inglês de Broken Wows, mais também é conhecido pelo seu título original Donal Og.

Ela o ouviu pela primeira vez no filme de John Huston, Os Vivos e Os Mortos, 1987, baseado no conto de James Joyce, Os Mortos. Durante muito tempo ela procurou o poema e somente muitos anos depois conseguiu, enfim, achá-lo, na tradução de Lady Gregory (a mesma utilizada no filme, de forma incompleta). Este foi o último filme de John Huston que ele já o fez amparado pelos assistentes, com uma máscara de oxigênio ao lado, pronta para ser utilizada, tão grave era o seu estado. O cineasta morreu antes do seu lançamento em Cannes, pouco depois de concluído. Em entrevista, ele havia dito que James Joyce havia sido o escritor que ele mais “sentira” na vida. Com o filme ele presta sua homenagem ao escritor.

A tradutora do poema, Lady Gregory, também, irlandesa, manteve a estrura gramatical do poema original, porém, com o que os críticos chamam de lírica econômica: reduziu o poema de 14 estrofes para 9. O poema em Inglês ganhou ainda mais força e beleza. A contribuição de Lady Gregory para o renascimento literário irlandês foi considerado inestimável tanto pela tradução das lendas, contos populares e baladas do gaélico original, como, e principalmente, pela forma como o fez tornando a língua disponível para qualquer pessoa não irlandêsa. Com Yeats e outros ela fundou o Teatro Literário Irlandês e o Teatro Abbey e escreveu inúmeras peças de teatro.Lady-Augusta-Gregory-001

Anita nos trouxe a tradução de Lady Gregory, a tradução para o Português, e o link para assistirmos o trecho do filme em que ele é recitado pelo personagem Sr. Grace. Foram momentos encantadores vividos na última quarta-feira que trouxemos para compartilhar nesse blog.

Broken Wows

It is late last night the dog was speaking of you;
the snipe was speaking of you in her deep marsh.
It is you are the lonely bird through the woods;
and that you may be without a mate until you find me.

You promised me, and you said a lie to me,
that you would be before me where the sheep are flocked;
I gave a whistle and three hundred cries to you,
and I found nothing there but a bleating lamb.

You promised me a thing that was hard for you,
a ship of gold under a silver mast;
twelve towns with a market in all of them,
and a fine white court by the side of the sea.

You promised me a thing that is not possible,
that you would give me gloves of the skin of a fish;
that you would give me shoes of the skin of a bird;
and a suit of the dearest silk in Ireland.

When I go by myself to the Well of Loneliness,
I sit down and I go through my trouble;
when I see the world and do not see my boy,
he that has an amber shade in his hair.

It was on that Sunday I gave my love to you;
the Sunday that is last before Easter Sunday
and myself on my knees reading the Passion;
and my two eyes giving love to you for ever.

My mother has said to me not to be talking with you today,
or tomorrow, or on the Sunday;
it was a bad time she took for telling me that;
it was shutting the door after the house was robbed.

My heart is as black as the blackness of the sloe,
or as the black coal that is on the smith’s forge;
or as the sole of a shoe left in white halls;
it was you put that darkness over my life.

You have taken the east from me, you have taken the west from me;
you have taken what is before me and what is behind me;
you have taken the moon, you have taken the sun from me;
and my fear is great that you have taken God from me!

Votos Partidos*

Era  tarde a noite passada.
O cão falava de você.
O pássaro cantava no pântano.
Falava de você.
Você é o pássaro solitário das florestas.

Que você fique sem companhia,
Até achar-me.
Você prometeu e me traiu.
Disse que estaria junto a mim
Quando os carneiros fossem arrebanhados.

Eu assobiei e gritei cem vezes.
E não achei nada lá,
A não ser uma ovelha balindo.
Você prometeu uma coisa difícil.

Um navio de ouro sob um mastro prateado.
Doze cidades e um mercado alegre em todas elas.
E uma branca e bela praça à beira-mar.
Você prometeu algo impossível.

Que me daria luvas de pele de peixe.
E sapatos de asas de ave.
E roupa da melhor seda da Irlanda.
Minha mãe disse para eu não falar com você.
Nem hoje, nem amanhã. Nem Domingo.

Foi um mau momento para dizer-me isso.
Como trancar a porta após ter a casa arrombada.
Você tirou o leste de mim.
Tirou o oeste de mim.
Tirou o que existe à minha frente.
Tirou o que há atrás.
Tirou a lua.
Tirou o sol de mim,
E meu medo é grande.
Você tirou Deus de mim.

Cena do filme Os Vivos e os Mortos, John Huston:

Cântico Negro

Ao iniciarmos as atividades da Oficina nesse segundo semestre, para o Momento Poético Adelaide Câmara nos trouxe Cântico Negro, de José Régio, que foi lido por ela. João Gratuliano tinha em seu computador o poema na voz de Maria Betânia e pudemos ouvir essa excelente recitação. No mesmo dia recebemos, ainda, dessa feita pelo what’s app um vídeo com o poema na voz de Paulo Gracindo. Estão todos aqui no blog.

*Cântico negro

José Régio

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
joseregioÉ um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista “Presença”, e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — “Poemas de Deus e do Diabo” (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

  • Retirado do site de Releituras.

 

Poesias, às Quartas Feiras

Continuamos com o nosso momento poético, toda quarta-feira, no início da Oficina. A última vez tivemos João Cabral de Melo Neto trazido por João Gratuliano.

João Cabral sempre teve espaço privilegiado na Oficina, aqui e ali o poeta e trechos de suas poesias surgiam. Teresa Sales, navegante das primeiras horas, agora em viagem particular e amorosa pelas Minas Gerais, publicou excelente livro sobre um suposto (ficcional) encontro entre dois ilustres pernambucanos: Josué de Castro e João Cabral, pela Editora Cortez, que todos devem procurar ler.

João Gratuliano trouxe vários poemas e um vídeo do autor falando sobre a sua visão de poesia. Aqui ficam registrados esses momentos.Joao-Cabral-610x350

João Cabral de Melo Neto, poeta, diplomata brasileiro, nasceu na cidade do Recife em 1920. Cidade que ele trouxe para os poemas através dos seus rios.

Primo de Manuel Bandeira, pelo lado paterno, e de Gilberto Freire, pelo lado materno, pode-se dizer que a poesia, a literatura, a sociologia faziam parte do seu DNA, elementos fundamentais na sua escrita poética..  Passou a infância em engenhos de açúcar, conhecendo de perto o funcionamento, as relações de trabalho, as condições de vida dos trabalhadores da cana de açúcar. Mas, o poeta gostava mesmo era de futebol. Com a mudança da família para o Recife ele se tornou campeão juvenil do Santa Cruz Futebol Clube em 1936, aos 15 anos de idade. O seu primeiro emprego formal, entretanto, se deu na Associação Comercial de Pernambuco; depois, no Departamento de Estatística do Estado. Por essa época já mostrava o seu interesse pela literatura, participando de encontros literários com Vicente do Rego Monteiro, entre outros.

Foi quando a família se mudou para o Rio de Janeiro, contudo, após os anos 40, que seu interesse pela literatura se consolidou: apresentado a Murilo Mendes  a Carlos Drummond de Andrade e ao círculo de intelectuais que se reunia em torno de Jorge de Lima. Em 1942 publica o primeiro livro, Pedra do Sono. Aprovado em concurso no Rio de Janeiro, continua a frequentar os intelectuais que agora se reuniam no Cafe Amarelinho e Café Vermelhinho, quando publica Os três mal-amados na Revista do Brasil.  Em 1945, publica O Engenheiro. Logo depois faz concurso para ingressar na carreira diplomática. Casa-se em fevereiro de 1946 com Stella Barbosa e em dezembro nasce Rodrigo. No ano seguinte vai para o Consulado Geral de Barcelona, como vice-cônsul. A atividade literária se intensifica com a aquisição de uma tipografia  artesanal que passa a publicar escritos de brasileiros e espanhóis. Em 1950 é transferido para Londres, ali publica O Cão sem Plumas. Dois anos depois, volta ao Brasil para responder inquérito que o acusa de subversão.Escreve o livro, O rio, em 1953,.Enquanto responde inquérito é afastado do Itamaraty, fica em disponibilidade, sem rendimentos e começa a trabalhar como jornalista. Arquivado o processo, ele volta à Recife com a família, onde é recebido com muitas homenagens. Um ano depois, é reintegrado à carreira diplomática, passando a trabalhar no departamento cultural do Itamaratiy. Nasce a sua filha Isabel e ele recebe prêmio da Academia Brasileira de Letras.

Em 1956, a Editora José Olympio publica Duas Águas com todos os seus livros anteriores e os inéditos: Morte e Vida Severina,  Paisagens como figuras e Uma faca só lamina. Transferido para Barcelona, passa a residir em Servilha para fazer pesquisas históricas no Arquivo das Índias. Volta ao Brasil, para assumir o cargo de chefe de gabinete do Ministro da Agricultura, no Governo de Jânio Quadros. Com a renúncia deste vai para Madri, depois muda-se para Sevilha. Em 1964 é removido como conselheiro para a Delegação do Brasil junto às Nações Unidos, em Genebra, onde nasce o seu quinto filho.Como conselheiro, muda-se para Berna.

Em 1966, O Teatro da Universidade Católica de São Paulo produz o auto Morte e Vida Severina, musicado por Chico Buarque, encenado em várias cidades brasileiras, depois no festival de Nancy, em Paris, depois em Lisboa, Coimbra e Porto. Em Nancy ele recebe o prêmio de Melhor Autor Vivo do Festival.. A Educação pela Pedra lhe dá o prêmio Jabuti . Em 1967 volta a Barcelona como cônsul geral. Em 1968 é eleito para a Academia Brasileira de Letras. O seu périplo por embaixadas continuou até 1990 quando se aposentou e publicou Sevilha andando. 

Atormentado por uma dor de cabeça crônica, ao saber que sofria de uma doença degenerativa incurável, inclusive que o cegaria, afastou-se da escrita, tendo a sua segunda esposa Marly passado a escrever para ele alguns textos. Quando recebeu o Prêmio Luís Camões, foi ela que escreveu  o discurso de agradecimento, Como não era admirador da música, a depressão foi se intensificando e ele acabou perdendo a vontade de falar, Não tenho muito o que dizer,,

Em 1999 o nosso grande poeta, o mais próximo que tivemos como pernambucano de um prêmio Nobel, calou-se para sempre, mas a sua obra o perpetuou e continua sendo lida, representada, cantada em todo o Brasil e grande parte do mundo..

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

O Cão Sem Plumas

 

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Uma Faca só Lâmina

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse um
vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

Alguns Toureiros

 

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida.

 

Morte e Vida Severina

 

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.

O Relógio

 

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Umas vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade.

Difícil Ser Funcionário

 

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu…

A Educação pela Pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, frequentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.

Fábula de um Arquiteto

 

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tecto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até fechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.

Num Monumento à Aspirina

 

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.

Tua Cura

Na penúltima quarta-feira, César Garcia nos trouxe a poesia de  Andréa Campos que ele havia conhecido na Livraria Jaqueira. Impressionado com a qualidade do seu trabalho,  comprou o livro Cantos de Amor Agreste,  de poemas de sua autoria e levou-o à Oficina para apresentação e leitura do poema a seguir:

TUA CURA

Andrea Campos

Eu sou aquela que
Te amou
Por entre as cortinas,
No lusco-fusco
De quando a madrugada termina,

Eu sou aquela que te alucina,
Doce sabor da loucura
Por quem teu sonho germina,
Num cio que não passa,
mulher tão pura:
Eu sou tua cura.

Eu sou aquela
Que incendiou teu espelho
Pariu o amor
Intenso e vermelho,

Eu sou aquela que veio antes,
Restou durante
E estará depois,

Eu sou a nunca esquecida,
A voz redimida
Do que somos nós dois,

Eu sou a que está no teu
Corpo que treme,
Eu sou tua febre,
No destino, o teu leme.

A que abarca o teu dia,
Embala teu sono,
E te tem rendido

Eu sou teu passado perdido
Tudo que poderia ter sido
E tens de volta,
Sirvo ao teu desejo remido,
Eu sou tua escolta.

Mas se o que se diz é volátil
Quando enaltecido,
Então emudeço, me calo
E a ti ofereço minha pele,
Meu mais profundo tecido,

O que sou, o que fui, o que serei
Não importa,
Entra, me prende, te esfrega, me beija,
Deixa acesa só a luz
Que nos corta,
Afoga em mim teu desespero…

Eu sou aquela que é tua,
Fecha a porta.

Comemoração do Dia Internacional da Mulher

A Oficina não poderia ficar indiferente às comemorações do Dia Internacional da Mulher. Pois é, na quarta-feira passada, a nossa viageira Adelaide Câmara selecionou um grupo de poetas de primeira linha que falaram poeticamente sobre esse ser chamado “mulher”.

hqdefaultMenos usa a Natureza o Amarelo

(Emily Dckinson)

Menos usa a Natureza o Amarelo
Do que qualquer outra Cor
Guarda-o todo para o Sol se pôr  ( para os Poentes)
Pródiga de Azul/
Qual Mulher, esbanja Carmesim
O Amarelo, porém, é bem guardado
Tão escasso e tão seleto
Como as Palavras do Amado.

Nature rarely uses yellow

 

Nature rarely uses yellow
Then another Hue
Saves she all of that for Sunsets
Prodigal of Blue

Spending Scarlet, like a Woman

Yellow she affords
Only scantly and selectly
Like a Lover’s Words

 

hqdefault (1)A Mulher Ó Mulher! Como és fraca e…

Florbela Espanca

A Mulher
Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

sylvia-plath-quotes-3Canção de Amor da Jovem Louca –   (Mad Girl’s Love Song)

Sylvia Plath

tradução de Maria Luíza Nogueira

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)

Limite  (Edge)

A mulher está perfeita.
Seu corpo
Morto enverga o sorriso de completude,
A ilusão de necessidade
Grega voga pelos veios da sua toga,
Seus pés
Nus parecem dizer:
Já caminhamos tanto, acabou.
Cada criança morta, enrodilhada, cobra branca,
Uma para cada pequena
Tigela de leite vazia.
Ela recolheu-as todas
Em seu corpo, como pétalas
Da rosa que se encerra, quando o jardim
Enrija e aromas sangram
Da fenda doce, funda, da flor noturna.
A lua não tem porque estar triste
Espectadora de touca
De osso; ela está acostumada.
Suas crateras trincam, fissura.

ESPELHO

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, desembaçado de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, desbotada. Há tanto tempo olho para ela
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ela falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.

Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vem e vai.
A cada  manhã seu rosto repõe  a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.

 

SofiaMelloBreynerAndersen2012

O mar nos olhos

Sophia de Mello Breyner Andresen

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma

frase-e-proprio-da-mulher-o-sorriso-que-nada-promete-e-permite-tudo-imaginar-carlos-drummond-de-andrade-95546

MULHER

Carlos Drumond de Andrade

Para entender uma mulher
é preciso mais que deitar-se com ela…
Há de se ter mais sonhos e cartas na mesa
que se possa prever nossa vã pretensão…

Para possuir uma mulher
é preciso mais do que fazê-la sentir-se em êxtase
numa cama, em uma seda, com toda viril possibilidade… Há de se conseguir
fazê-la sorrir antes do próximo encontro

Para conhecer uma mulher, mais que em seu orgasmo, tem de ser mais que
amante perfeito…
Há de se ter o jeito certo ao sair, e
fazer da saudade e das lembranças, todo sorriso…

– O potente, o amante, o homem viril, são homens bons… bons homens de
abraços e passos firmes…
bons homens pra se contar histórias… Há, porém, o homem certo, de todo
instante: O de depois!

Para conquistar uma mulher,
mais que ser este amante, há de se querer o amanhã,
e depois do amor um silêncio de cumplicidade…
e mostrar que o que se quis é menor do que o que não se deve perder.

É esperar amanhecer, e nem lembrar do relógio ou café… Há que ser mulher,
por um triz e, então, ser feliz!

Para amar uma mulher, mais que entendê-la,
mais que conhecê-la, mais que possuí-la,
é preciso honrar a obra de Deus, e merecer um sorriso escondido, e também
ser possuído e, ainda assim, também ser viril…

Para amar uma mulher, mais que tentar conquistá-la,
há de ser conquistado… todo tomado e, com um pouco de sorte, também ser
amado!”