Escarafunchando baús

Escarafunchando baús encontrei fragmentos de viagens pelos mares das palavras que, embora amarfanhados, permaneciam registros vivos, pulsantes, de grandes momentos vividos.

Uma delas foi a de 15 de abril quando Paulo Tadeu, viageiro de longas datas, nos levou a poeta portuguesa Florbela Espanca com o poema Tarde no Mar.

Tarde no Mar
Florbela Espanca

A tarde é de oiro rútilo: esbraseia
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,

Poisa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue ao seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia.
Desenha mãos sangrentas de assassino!

Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar…

E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes…

Este vídeo fala de Florbela Espanca, da sua importância para o mundo literário, dos problemas emocionais que culminaram com o seu suicídio ao 36 anos de idade, apenas.

Em seguida, como era uma semana para nós cristãos de muito siso e pouco riso, dirigimos o leme para o Uruguai e ali escolhemos um roteiro mais denso. Começamos com o conto O Outro Eu, de Mario Benedetii,  que numa narrativa breve, eu diria até brevíssima,  extremamente interessante,  trouxe mais uma vez,  à Oficina, a questão do duplo, tão intensamente analisada quando lemos Wilson, Wilson, de Edgar Alan Poe.

O Outro Eu

(A morte e outras surpresas, 1968)

Mário Benedetti

Tratava-se de um rapaz comum: usava calças da moda, lia gibis, fazia barulho enquanto comia, cutucava o nariz com o dedo, roncava durante a soneca, se chamava Armando Corrente em tudo menos em uma coisa: tinha um Outro Eu.

O Outro Eu usava certa poesia no olhar, se apaixonava pelas atrizes, mentia cautelosamente, se emocionava com o entardecer. O rapaz se preocupava muito com seu Outro Eu e o fazia se sentir incomodado diante de seus amigos. Já o Outro Eu era melancólico e, por causa disso, Armando não podia ser tão vulgar quanto desejava.
Uma tarde Armando chegou cansado do trabalho, tirou os sapatos, moveu lentamente os dedos dos pés e ligou o rádio. Estava tocando Mozart, mas o rapaz dormiu. Quando acordou, o Outro Eu chorava desconsoladamente. Em um primeiro momento, o rapaz não soube o que fazer, mas depois se refez e conscientemente insultou o Outro Eu. Este não disse nada, mas na manhã seguinte já havia se matado.

No começo, a morte do Outro Eu foi um duro golpe para o pobre Armando, mas depois ele pensou que agora sim poderia ser inteiramente vulgar. Esse pensamento o reconfortou.

Levava apenas cinco dias de luto quando saiu pelas ruas com o propósito de exibir sua nova e completa vulgaridade. De longe viu que seus amigos se aproximavam. Isso o encheu de felicidade e o fez imediatamente explodir em risadas. Entretanto, quando passaram próximo dele, seus amigos não notaram sua presença. Para piorar, o rapaz pôde escutar que comentavam: “Pobre Armando. E pensar que parecia tão forte e saudável”.

O rapaz não teve outro remédio que parar de rir e, ao mesmo tempo, sentiu na altura do peito uma aflição que se parecia muito a nostalgia. Mas ele não pôde sentir uma autêntica melancolia, porque toda a melancolia tinha sido levada pelo Outro Eu.

A viagem seguinte foi pelo quarto de Sútulin, na Rússia, que ao aplicar o conteúdo de uma bisnaguinha escura, fininha, em seu quarto, começou a vê-lo crescer, crescer, de forma incontrolável. Trata-se de um conto de Sigismund Krzyanowski, que permaneceu quase toda a sua vida sem ser reconhecido,  cuja  narrativa bem se enquadra no fantástico maravilhoso hiperbólico, segundo Todorov, em que o exagero das dimensões daquele quarto vão criando tensão, asfixiando o leitor,  apesar de  consciente de sua irrealidade. Fantástico! Alguns vídeos e filmes foram feitos baseados nesse conto.  Aqui está um deles, excelente.

Os outros fragmentos ficarão para outra postagem.

Jaboatão dos Guararapes, 23 de maior de 2017

Lourdes Rodrigues

 

 

 

Viagem Sexta pelo Riso

 

Viagem Sexta pelo Riso

*Luzia Ferrão

O viageiro Sarmento, no Momento Poético, relembrou um passado que não passou e que continua muito vivo ainda em nossas lembranças, com a poesia Operário em Construção, de Vinicius de Moraes. Certamente este poema, parafraseando o próprio poeta, será imortal enquanto dure, enquanto dure a exploração do homem pelo próprio homem, eu acrescentaria.

O operário de construção, semelhante a um pássaro sem asas, subia com as casas que lhe brotavam das mãos. Estávamos vivendo um Brasil ditatorial cruel que não permitia –aos operários/povo- reconhecer o valor do seu trabalho. Vinicius mostra esse desconhecimento ao dizer: Como podia o operário compreender porque um tijolo valia mais que um pão? Como também desconhecia que o operário faz a coisa e a coisa faz o operário. Os ditadores não conseguiram impedir que pelas mãos desse humilde operário nascesse  um mundo novo, adquirindo a dimensão da poesia que ia aos poucos sendo derramada nos corações dos outros operários. E o operário disse NÃO! Um não que custou a ele e seus companheiros bárbaros tratamentos, pau de arara, choque elétrico, morte, sem direito à família de velar o seu defunto, restando a esperança de que novos tempos viriam. Muitas águas passaram por debaixo da ponte, mas a violência não conseguiu que o operário deixasse de enxergar, de agigantar-se, vendo em tudo que fazia o que de fato acontecia: o lucro do patrão. Neste poema, Vinicius descreve o processo de tomada de consciência do operário, partindo do pressuposto marxista de alienação.

 

O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO
(Rio de Janeiro,1959)

Vinicius de Moraes

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia…
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– “Convençam-no” do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

Nem precisa ser muito ligado em literatura para gostar do diplomata, jornalista, compositor (dos bons), poeta Marcus Vinicius de Mello Moraes, ou Vinicius de Moraes, como era mais conhecido, ou  simplesmente poetinha, como o chamava Tom Jobim. Era como poeta e compositor,  através de sonetos e de canções,  que ele gostava de ser reconhecido. Carioca da gema, sessenta e seis anos vividos intensamente, casou nove vezes, era um boêmio curtindo a vida carioca com cigarro e uísque.

É difícil elencar a obra deste gênio brasileiro, por isso escolhemos citar trechos de algumas delas para ilustrar a poesis do branco mais preto do Brasil

Soneto da fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Que ele seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

Samba da benção

È melhor ser alegre que ser triste
A alegria é a melhor coisa que existe
Mas pra se fazer um samba com beleza
é preciso um bocado de tristeza
Se não, não se faz um samba não
A vida é arte do encontro
Embora exista tantos desencontros pela vida

Cantos de Ossanha

Não vou eu não sou ninguém de ir
Em conversas de esquecer a tristeza
De um amor que passou
Não eu sou vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor

Rosa de Hiroschima

A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

Onde anda você

E por falar em saudade
Onde anda você
Onde andam seus olhos que a gente não vê

Minha namorada

Mais se em vez minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mais amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer

Garota do Ipanema

Vejam que coisa mais linda
Mais cheia de graça
é ela menina
que vem e que passa
no doce balanço
A caminho do mar

Samba em preludio

Eu sem você não tenho nem porque
Porque sem você
Não sei nem chorar
Sou chama sem luz
Jardim sem luar

Sarmento continuou alimentando o grupo sedento de poesia, dessa feita com os poemas de Geir Campos, Tarefa e Alba, seguindo a mesma trilha de poesia de denúncia social, poesia comprometida politico e socialmente.


Tarefa

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis…
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.
(1957)

**Alba

Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não têm pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
de leste – o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.
(1957)

O poeta Geir Canpos é capixaba, membro do partido comunista, engajado nas lutas políticas e sociais., formado em Teatro e Doutor em Comunicação Social. Talvez por suas posições políticas  foi pouco difundido pela mídia. Poeta, livreiro, tradutor, faz parte dos poetas da chamada geração 45, destacava-se pelo rigor literário e estético.. Foi um dos fundadores da editora Hipocampo, junto com o poeta Thiago de Melo, para difundir suas obras de forma artesanal. Marcou presença também como um dos organizadores dos Cadernos do Povo Brasileiro, Violão de Rua, publicados pelo Centro Popular de Cultura da UNE.

. “A poesia de Geir Campos tem circulação, ousadia e canto. Ninguém pode equivocar-se: aproximando o ouvido, sentimo-la como um rumor de cristal errante, sentido e som da poesia verdadeira.” (Pablo Neruda)

**Alba significado: Claridade que precede ao nascer do dia

Seguindo com a Oficina, outro pilar dos trabalhos foi iniciado com a leitura dos contos escritos pelos seus participantes, os viageiros pelos mares das palavras. Três contos estavam previstos para serem lidos, sendo seus autores eu,  Salete e Eleta. A Oficina procura estimular a criatividade e o exercício da lapidação das palavras, para que  os viageiros  se tornem  artesãos da escrita. trabalhando técnicas de ensaio, contos, novelas ou outras, sobre temas acordados entre seus pares. Neste dia o tema foi o do  triangulo amoroso, com  o constrangimento da duplicação, em que uma história estaria sendo contada e outra estava ocorrendo ao mesmo tempo, tão ou mais importante do que a primeira. A ideia do constrangimento decorre da concepção Oulipiana de limitar a escrita a alguma condição anterior.

Iniciando a leitura dos contos por mim, Luzia, com  o conto Corações na Bananeira, que gerou um debate profundo sobre a construção do tema, entendimento dos personagens, linguagem poética, ortografia, gramatica, ineditismo.O tempo da oficina esgotou-se sem as demais leituras programadas e sem a conclusão da análise do meu conto. Por conta disso, algumas sugestões foram apontadas para maximizar o tempo para as análises das narrativas, entre elas,  a da leitura antecipada, cada participante traria a sua análise para que melhor fosse aproveitado esse importante momento literário.

*Luzia Ferrão, professora universitária, assistente social, contista, ensaísta.

**Alba significado: Claridade que precede ao nascer do dia

Cajueiro

castanhacoracaocajueiro060916Cajueiro

*Salete Oliveira

o tempo não para,
sem pressa, sem demora, é preciso
gastar o tempo, precioso, eu preciso,
vejo-o passar, minutos, segundos,
colho os instantes, a observar,
germinar de uma castanha,
alegria serena ao olhar,
delicadeza envoltura,
em folhas se abrirá,
ainda não hoje,
amanhã,
o coração,
desabrocha
broto, amor,
acolhe a chuva,
ilumina-se ao sol,
raízes crescem sob o chão,
flores brancas rosadas, miúdas,
desprendem seu perfume ao vento,
surpresas de cachos, profusos frutos,
suculenta carne, castanha, cajueiro.

 

*Salete Oliveira é engenheira química, poetisa, contista.

Hoje é Inverno

 

lua2 (1)Hoje é inverno

*Salete Oliveira

vi a lua se por ainda crescente
vi o horizonte cinza ao redor
não se distinguia o nascente
silêncio vestia a espera do sol

luzes tênues romperam o cinza
trinados festejaram o amanhecer
o vento rápido tal um pensamento
volteou a soprar o alvorecer

pássaros cantavam à luz nascente
acorde sol, deixe de preguiça
a lua se esconde, crescente
enquanto a aurora, se antecipa

o tempo corre em luz esmaecente
nessa primeira manhã de inverno
o vento zune, assoviando anuncia
a lua voltará cheia, ao poente.

*Salete Oliveira é engenheira química, poetisa, contista.

O Patinho Feio em Cordel

DIFERENTE

*Salomé Barros

Eu já nasci estressado
Assustado e carente
Não queria abrir os olhos
Pra não ver o ambiente
Aos poucos fui descobrindo
Que eu era diferente

Minha mãe me acolheu
Mas me disse paciente
Demorou tanto a nascer
Que o ovo ficou quente
Os outros patos nasceram
Comigo foi diferente

Meu pai nem olhou pra mim
Deixando-me reticente
Tentei aproximação
Me tornando obediente
Mesmo assim me rejeitou
Só porque sou diferente

Meus irmãos eram bonitos
Tinham fama condizente
Formavam com os amigos
Um bando muito contente
E eu vivia sozinho
Só porque sou diferente

Um pensamento me vinha
De forma intermitente
Me deixava inquieto
Anuviava a mente
Seria eu o culpado
Por ser feio e diferente?

No íntimo eu buscava
A resposta coerente
Tudo era nebuloso
Deve estar no inconsciente
Fica ainda mais difícil
Só porque sou diferente

Aí divaguei de mais
Parece que estou demente
No meu reino não existe
Nem ego, nem consciente
E muito menos divã
Pra tratar o diferente

Um dia criei coragem
Fugi dali simplesmente
Perguntava a mim mesmo
E à estrela cadente
Qual era a explicação
Por eu ser tão diferente

Depois de caminhar muito
De manhã ao sol nascente
Vi um bando lá num lago
Brincando alegremente
Me aproximei com receio
Pensando: sou diferente

Qual não foi minha surpresa
E não mais que de repente
Percebi que me olhavam
Com um jeito atraente
Até que enfim me encontrei
Aqui não sou diferente

*Psicóloga, cronista, cordelista.

Viageiros em Ação

Lembrar é relembrar

*Luzia Ferrão

Relembrar pra que? Lembro, lembro e lembro
Não queria, mas…. lembro
É um relógio que não para, acho que mesmo sem querer
dou cordas, digo que não quero, não gosto mas porque continuo?
Eu tenho a chave para desliga-lo e porque não o faço?
Era uma vez, ou seja, não era nenhuma vez,
Dançava, rodopiando a música, composta de acordes inexistentes
Explodia em centelhas de prazer, riso permanente na face,
não era sonho era a realidade do sonho
meu vira-lata querido sujava tudo, acordei e ele havia partido
o sonho do grande amigo ficou prenhe na realidade
Passei pelo lindo, assombroso, misterioso museu, sonhei e fui arrastada
Convivi com cores misturadas e puras
Não existia diferença tudo era sonho e realidade

 

* Luzia Ferrão – professora universitária, assistente social, contista, ensaísta.

 

Poesia, às Quartas-Feiras

Quarta-feira, dia 18 de novembro, Salete, viageira poeta sempre presente nesse blog, trouxe-nos o gaúcho Mário Quintana, tanto alguns poemas como dados biográficos. Quem melhor definiu esse grande mestre da literatura poética foi Manuel Bandeira:

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares…
Insólitos, singulares…
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.

São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas luares.

São para dizer em bares
Como em mansões seculares
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
Se beijam sem que repares
Que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares.
Quer no horror dos lupanares.
Cheiram sempre os teus cantares

Ao ar dos melhores ares,
Pois são simples, invulgares.
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares…
Perdão! digo quintanares.

Além de poeta, cronista, autor de literatura poética infantil Quintana foi um grande tradutor, trazendo para o português obras fundamentais da literatura como Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf, Contos e novelas, de Voltaire, vários romances de Honoré de Balzac, Somerset Maugham, Graham Greene, Guy Maupassant, Conrad, entre outros.

Apesar de seu grande valor literário, não conseguiu ser aceito na Academia Brasileira de Letras. Na sua terceira tentativa ele compôs o seguinte poema:

Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!
 
(Prosa e Verso, 1978)

Os poemas lidos na Oficina por Salete foram esses:
 

Os caminhos estão cheios de tentações

*Mário Quintana

Os caminhos estão cheios de tentações.
Os nossos pés arrastam-se na areia lúbrica…
Oh! tomemos os barcos das nuvens!
Enfunemos as velas dos ventos!
Os nossos lábios tensos incomodam-nos como estranhas mordaças.
Vamos! vamos lançar no espaço – alto, cada vez mais alto! – a rede das estrelas…
Mas vem da terra, sobe da terra, insistente, pesado,
Um cheiro quente de cabelos…
A Esfinge mia como uma gata.
E o seu grito agudo agita a insônia dos adolescentes pálidos,
O sono febril das virgens nos seus leitos.
De que nos serve agora o Cristo do Corcovado?!
Há um longo, um arquejante frêmito nas palmeiras, em torno…
A Noite negra, demoradamente,
Aperta o mundo entre os seus joelhos.

*Mario Quintana – Aprendiz de Feiticeiro, 1950

A Pálpebras Estão Descidas

Mario Quintana

As pálpebras estão descidas
E as mãos em cruz sobre o peito…
Mas quem é que pisa em vidros?
Quem estala os dedos no ar?
As pálpebras estão descidas.
Não mastigues folhas secas!
Não mastigues folhas secas,
Que te pode fazer mal…
– Quem é que canta no mar? ?
As mãos repousam no peito.
E eu quero ver se bem cedo
Pescam meu corpo em Xangai.

Encontrei no You Tube uma das últimas entrevistas de Mario Quintana que posto aqui neste blog.

Poesia, às Quartas-Feiras

Na quarta-feira, 11 de novembro, a nossa viageira Cacilda Portela nos trouxe algumas notas sobre a leitura que estamos fazendo de Os Moedeiros Falsos, de André Gide e um poema de Fernando Pessoa, Não me Importo com as Rimas.

O romance de André Gide tem nos empolgado nos últimos meses, trata-se de uma obra com mais de 400 páginas, instigante, engenhosa, de estrutura moderna, inovadora, onde a narrativa é em mise en abyme, termo francês usado, pela primeira vez, pelo próprio autor para descrever as narrativas que contêm outras narrativas dentro de si.O Mise en abyme não é um privilégio da Literatura, a técnica pode ser usada na pintura, no cinema, entre outras artes.

As notas escritas por Cacilda Portela sobre o tema de Os Moedeiros Falsos:

OS MOEDEIROS FALSOS: UM ROMANCE DE IDEIAS

*Cacilda Portela

  PARTE I – O TEMA

  •  A história de Os Moedeiros Falsos é narrada, quase sempre, através de conversas e monólogos interiores, o que evidencia uma ficção que não vive do enredo, mas da vida interior dos personagens. São as ideias que encaminham as ações e o movimento.
  • O romance não tem um tema predominante que se concretize na ação. Não há uma ideia global que sustente o planejamento e a ação. Os temas ou as histórias são relativamente simples, mas construídos por ideias particularmente elaboradas e muito engenhosas. As histórias dos personagens se interligam criando a história do romance. Ou melhor, as ideias criam os personagens e o romance.
  • Apesar de não ter um tema predominante, o romance traz com certo nível de profundidade a luta entre os fatos propostos pela realidade e a realidade ideal ou a  luta entre o que o mundo real oferece e o que é feito com a deia que se tem dele.  A rivalidade entre o mundo real e a representação que é feita dele cria o falso como impossibilidade de compreensão de si mesmo (e do outro). “E  o drama da vida consiste na maneira pela qual o mundo real se impõe a nós e a maneira pela qual tentamos impor ao mundo exterior a nossa interpretação particular”.

 

Essas notas serão ampliadas por Cacilda Portela e por outros viageiros, eu inclusive, mas o material aqui exposto já permite a discussão na Oficina sobre o tema do romance.

No momento poético ela nos trouxe uma poesia do heterônimo de Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Não me importo com as rimas, considerado o heterônimo das poesias de aparência simples, mas que envolve certa complexidade filosófica.

Não me importo com as rimas.

Alberto Caeiro

Não me importo com as rimas. Raras vezes

Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.

Penso e escrevo como as flores têm cor

Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me

Porque me falta a simplicidade divina

De ser todo só o meu exterior

Olho e comovo-me,

Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,

E a minha poesia é natural corno o levantar-se vento…

 

 

 

* Cacilda Portela é advogada, pesquisadora social, ensaísta.

 

Poesia, às Quartas-Feiras

Na última quarta-feira tivemos dois poetas: um da casa, da nossa Oficina, o que muito me orgulha, da nossa viageira Eleta Ladosky ; e Affonso Romano de Sant’anna, poeta, ensaísta consagrado.

Esta postagem se refere ao poema de Eleta Ladosky Como posso estar sozinha,  construído, segundo ela, em um momento recente, em que se sentiu em pânico com a possibilidade de ter que se hospitalizar, estando os filhos distantes, e tendo que deixar o marido sozinho com cuidadores. Diante do pânico que começava a se instalar, ela buscou refúgio dentro dela mesma e começou a construir os versos que ora aqui estão. A poesia salvou-a do hospital, com certeza, porque ela não precisou ir, recuperando-se completamente.

Os poemas de Affonso Romano serão postados depois por Salomé que os trouxe à Oficina e deles falará.

 

Como posso estar sozinha

Eleta Portela Ladosky

Como posso estar sozinha
Com tantas sombras à vagar
A tua voz criancinha
Teu jeito de caminhar

Como posso estar sozinha
Com tantos sons à gritar
Riso, pranto, melodia
Mesmo sonhos sem vingar

Como posso estar sozinha
Com tanta memória à guardar
Sol, mar, maresia
Tantas noites de luar

Tanta vida já vivida
Que teima em continuar
Presente, e sempre tão viva
Como posso estar sozinha

.

Poesia às Quartas-feiras

 

A MULHER QUE PASSA

Vinicius de Moares, Rio de Janeiro , 1938

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

O poema trazido por Mônica, nossa viageira arquiteta, amante das artes e da literatura, veio sem o nome do autor para que o descobríssemos. Não foi difícil porque à medida que ela ia lendo as imagens de A mulher que passa iam sendo associadas à Garota de Ipanema e, consequentemente, a Vinicius de Moraes, o seu coautor. A mulher que passa é de 1938, nos primórdios de sua carreira de poeta. Consta na sua biografia que em 1938 ele havia ganho uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesa na Universidade de Oxford. Diria bem mais que a convivência com os poetas ingleses havia mudado o seu estilo tonando-o “mais conciso e mais enxuto” ao invés de caudaloso e grandiloquente de até então.

Sobre Vinícius disse Manuel Bandeira:

{Vinícius de Moraes tem} o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a perícia dos parnasianos (sem refugar, como estes, as sutilezas barrocas), e, finalmente, o homem bem do seu tempo, a liberdade {…} dos modernos.

Anos mais tarde, em 1962, Vinicius de Moraes faz a letra e Tom Jobim a música de Garota de Ipanema que postamos a seguir.

Jaboatão dos Guararapes, 28 de setembro de 2015

Lourdes Rodrigues