Pomba Enamorada ou Uma História de Amor

lygia-fagundes-telles

 Pomba Enamorada ou Uma História de Amor, de Lygia Fagundes Telles, na  Antologia:  Meus Contos Preferidos, Rio de Janeiro, Editora Rocco, 2004.

Trata-se de uma história de amor não correspondido, narrado na terceira pessoa, com alguns diálogos diretos inseridos dentro da narração, sem passagem ou pontuação específica. Observa-se, algumas vezes o diálogo indireto e até o indireto livre quando a passagem do narrador para o personagem se faz de forma quase imperceptível. O enredo está contido num único e longo parágrafo.

O título do conto nos remete a um folhetim, a uma história de amor dessas que enche os altos falantes das festas de rua do interior e as rádios da cidade com pedidos de música através de pseudônimos do tipo Pomba Enamorada, Coração Apaixonado.

Mas também o enredo lembra-nos um conto de fadas. Há um baile no Clube, onde será escolhida a rainha da Primavera. Ela, que ainda não é a pomba enamorada, apenas uma humilde ajudante de cabeleireira, candidatou-se ao título, que não consegue, segundo a sua própria versão, porque o namorado da outra comprou todos os votos. Quando o rapaz a convida para dançar teve tontura, enxugou depressa as mãos molhadas de suor no corpete do vestido (fingindo que alisava alguma prega) e de pernas bambas abriu-lhe os braços e o sorriso. É o seu príncipe! Assim, como nos contos de fada, ela imaginou que seriam felizes para sempre, pois estava decidida a amá-lo por toda vida. O príncipe não era lá muito polido, declarou a sua insatisfação por ela não ter ganhado o concurso porque a rainha é uma bela bosta, com o perdão da palavra.   As únicas palavras que trocaram e que lhe deram a certeza de que ele era seu namorado, ali em seus braços, ao som da Valsa dos Miosótis. Quando o príncipe se afasta dizendo que iria fumar, já dançando o bis da valsa, e  desaparece, ela fica a procurá-lo de forma tão insistente que o diretor do clube quis saber quem era o procurado, e ela não hesita ao dizer, meu namorado. O estranhamento do diretor fez com que, em segundos, desse-lhe o nome (Antenor) e perfil do rapaz (não esquenta o rabo em nenhum emprego…) e acrescentasse maldosamente, embora com ar de distraído enquanto a apertava com força ao som de Nosoutros: É que ele saiu logo depois da valsa, todo atracado com uma escurinha de frente única…

O repertório musical escolhido pela autora para essa festa faz a ambientação do romance, primeiro com o casal dançando a Valsa do Miosótis, depois, quando já o rapaz desaparece e o diretor entra em cena, com Nosoutros.  Pode-se imaginar a cena entre as décadas de sessenta e setenta, em um clube de bairro ou de uma cidade de interior. Mergulhado no tempo e espaço da narrativa o leitor corre os olhos sobre as letras para acompanhar o romance.

Com o endereço dado pelo diretor ela vai procurá-lo na oficina e percebendo que sequer a reconhecia, disse eu sou a princesa do São Paulo Chique, lembra? Lembrou-se, e balançando a cabeça com ar incrédulo, trata de despachá-la, dizendo que qualquer hora daria uma ligada, que guardaria o número do telefone que ela lhe dava, sem sequer se dar ao trabalho de anotá-lo. Não ligou. A personagem, como boa Capricorniana, sabe que jamais irá conseguir algo fácil, que deve lutar o dobro para vencer. E vai à luta. Recorre aos santos, acende velas, faz novenas e telefona, inicialmente, apenas para ouvir a voz e desligar, depois, animada pelo vermute que Rôni lhe dera, amigo e companheiro de trabalho no salão, decide falar. Ela outra vez se apresenta como a princesa do baile e convida-o para ver um filme nacional que estava passando, pertinho da oficina que ele trabalhava. A resposta foi o silêncio, tão longo que ela pensa ter caído a linha. Rôni a socorre com outro vermute e se oferece para falar por ela. A reação de Antenor é tão violenta que Rôni, revirando os olhos associa aquela voz a voz dos mafiosos do cinema. Não, ele não quer ir ao cinema, não quer que lhe telefonem mais, o patrão está puto da vida, e diz que está comprometido e se um dia lhe desse na telha, ELE MESMO TELEFONARIA. Assim, aos berros.

E foram muitas e muitas tentativas, catorze cartas, nove românticas e as demais eróticas, estas últimas ela acabou não enviando. Todas assinadas com o pseudônimo de Pomba Enamorada que ao longo do tempo resumiu para P.E. Antenor, insensível aos apelos da pombinha, foi num crescente caprichando na rejeição grosseira. Mas ela não desiste.

Quando soube por um chofer de praça muito bonzinho, amigo de Antenor, que ele estaria se casando naquele dia, justo quando acabara de levar pratinho de doces para São Cosme e São Damião, não chorou, foi ao crediário do Mappin, comprou um licoreiro, escreveu um cartão desejando-lhe todas as felicidades do mundo, pediu ao Gilvan que levasse o presente, escreveu no papel de seda do pacote um P.E. bem grande (tinha esquecido de assinar o cartão) e quando chegou em casa bebeu soda cáustica.

Ela sai do hospital amparada pelo chofer de praça, que se torna seu marido, pouco tempo depois. Mas não desliga o GPS continua acompanhando as passadas de Antenor e enviando postais dando conta da sua vida, da sua televisão à cores, seu canário e seu cachorrinho chamado Perereca. Apesar das constantes mudanças de emprego do rapaz ela o localiza e escreve colando um amor- perfeito seco na carta. E os anos foram se passando, e as cartas da Pomba Enamorada se sucedendo, até que, no noivado da sua filha caçula foi a uma cartomante que disse que ela fosse à estação rodoviária no próximo domingo, onde veria chegar um homem que mudaria por completo sua vida, cujo nome começava por A.

No domingo, ela deixa a neta com uma comadre, veste o vestido azul-turquesa das suas bodas de prata, confere que o horóscopo do dia lhe é favorável e  vai à rodoviária.

O final do conto está aberto. Se o leitor for muito positivista vai pensar que ela irá encontrar Antenor e ele mais uma vez vai rejeitá-la com grosseria. Caso o leitor seja romântico ao extremo, fará o seu final com Antenor e Pomba Enamorada caindo nos braços um do outro. Ou ainda, se ele for cético vai deixá-la horas aguardando na rodoviária em vão, porque ninguém pode dar crédito ao que diz uma cartomante. Enfim, brincamos um pouco na Oficina com os possíveis finais do conto e os viageiros ficaram de dar continuidade, escrevendo eles mesmos o que aconteceu nesse encontro, desencontro ou qualquer que seja, porque como escritores muito criativos, eles irão dar asas  à imaginação.

Lygia Fagundes Telles é uma das maiores escritora do Brasil. Transformar uma história comum de amor não correspondido numa obra literária de tamanha beleza é preciso muito maestria. Que venha o grande prêmio literário para ela!

Jaboatão dos Guararapes, 12 de setembro de 2016

Lourdes Rodrigues

 

Votos Partidos (Broken wows or Donal Og)

Na última quarta-feira, Anita Dubeaux nos trouxe um belíssimo poema Gaélico, anônimo, da Irlanda, do século VIII, traduzido para o Inglês por Lady Gregory, irlandesa. Ele recebeu o título em Inglês de Broken Wows, mais também é conhecido pelo seu título original Donal Og.

Ela o ouviu pela primeira vez no filme de John Huston, Os Vivos e Os Mortos, 1987, baseado no conto de James Joyce, Os Mortos. Durante muito tempo ela procurou o poema e somente muitos anos depois conseguiu, enfim, achá-lo, na tradução de Lady Gregory (a mesma utilizada no filme, de forma incompleta). Este foi o último filme de John Huston que ele já o fez amparado pelos assistentes, com uma máscara de oxigênio ao lado, pronta para ser utilizada, tão grave era o seu estado. O cineasta morreu antes do seu lançamento em Cannes, pouco depois de concluído. Em entrevista, ele havia dito que James Joyce havia sido o escritor que ele mais “sentira” na vida. Com o filme ele presta sua homenagem ao escritor.

A tradutora do poema, Lady Gregory, também, irlandesa, manteve a estrura gramatical do poema original, porém, com o que os críticos chamam de lírica econômica: reduziu o poema de 14 estrofes para 9. O poema em Inglês ganhou ainda mais força e beleza. A contribuição de Lady Gregory para o renascimento literário irlandês foi considerado inestimável tanto pela tradução das lendas, contos populares e baladas do gaélico original, como, e principalmente, pela forma como o fez tornando a língua disponível para qualquer pessoa não irlandêsa. Com Yeats e outros ela fundou o Teatro Literário Irlandês e o Teatro Abbey e escreveu inúmeras peças de teatro.Lady-Augusta-Gregory-001

Anita nos trouxe a tradução de Lady Gregory, a tradução para o Português, e o link para assistirmos o trecho do filme em que ele é recitado pelo personagem Sr. Grace. Foram momentos encantadores vividos na última quarta-feira que trouxemos para compartilhar nesse blog.

Broken Wows

It is late last night the dog was speaking of you;
the snipe was speaking of you in her deep marsh.
It is you are the lonely bird through the woods;
and that you may be without a mate until you find me.

You promised me, and you said a lie to me,
that you would be before me where the sheep are flocked;
I gave a whistle and three hundred cries to you,
and I found nothing there but a bleating lamb.

You promised me a thing that was hard for you,
a ship of gold under a silver mast;
twelve towns with a market in all of them,
and a fine white court by the side of the sea.

You promised me a thing that is not possible,
that you would give me gloves of the skin of a fish;
that you would give me shoes of the skin of a bird;
and a suit of the dearest silk in Ireland.

When I go by myself to the Well of Loneliness,
I sit down and I go through my trouble;
when I see the world and do not see my boy,
he that has an amber shade in his hair.

It was on that Sunday I gave my love to you;
the Sunday that is last before Easter Sunday
and myself on my knees reading the Passion;
and my two eyes giving love to you for ever.

My mother has said to me not to be talking with you today,
or tomorrow, or on the Sunday;
it was a bad time she took for telling me that;
it was shutting the door after the house was robbed.

My heart is as black as the blackness of the sloe,
or as the black coal that is on the smith’s forge;
or as the sole of a shoe left in white halls;
it was you put that darkness over my life.

You have taken the east from me, you have taken the west from me;
you have taken what is before me and what is behind me;
you have taken the moon, you have taken the sun from me;
and my fear is great that you have taken God from me!

Votos Partidos*

Era  tarde a noite passada.
O cão falava de você.
O pássaro cantava no pântano.
Falava de você.
Você é o pássaro solitário das florestas.

Que você fique sem companhia,
Até achar-me.
Você prometeu e me traiu.
Disse que estaria junto a mim
Quando os carneiros fossem arrebanhados.

Eu assobiei e gritei cem vezes.
E não achei nada lá,
A não ser uma ovelha balindo.
Você prometeu uma coisa difícil.

Um navio de ouro sob um mastro prateado.
Doze cidades e um mercado alegre em todas elas.
E uma branca e bela praça à beira-mar.
Você prometeu algo impossível.

Que me daria luvas de pele de peixe.
E sapatos de asas de ave.
E roupa da melhor seda da Irlanda.
Minha mãe disse para eu não falar com você.
Nem hoje, nem amanhã. Nem Domingo.

Foi um mau momento para dizer-me isso.
Como trancar a porta após ter a casa arrombada.
Você tirou o leste de mim.
Tirou o oeste de mim.
Tirou o que existe à minha frente.
Tirou o que há atrás.
Tirou a lua.
Tirou o sol de mim,
E meu medo é grande.
Você tirou Deus de mim.

Cena do filme Os Vivos e os Mortos, John Huston:

XX Jornada de Estudos do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise

Pandora_ John William Waterhouse. Pandora, 1896, óleo sobre tela, 152 cm × 91 cm, coleção particular (2)

XX Jornada de Estudos do Traço Freudiano
Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise
Nobile Beach Hotel – 03 e 04 de junho de 2016

O TRAÇO FREUDIANO VEREDAS LACANIANAS ESCOLA DE PSICANÁLISE tem a honra de convidar aos seus membros, às instituições psicanalíticas e a todos os interessados pela Psicanálise a participar da sua XX Jornada de Estudos que ocorrerá nos dias 03 e 04 de junho de 2016 no Nobile Beach Class Executive.

As inscrições para participação na Jornada e/ou apresentação de trabalhos já estão abertas através do e-mail da Secretaria do Traço Freudiano ou na sua sede institucional. No caso de inscrição para apresentação de trabalhos, o prazo encerrar-se-á no dia 20 de maio – prazo máximo para o envio do título do trabalho.

As inscrições serão limitadas ao número de vagas nos horários disponibilizados para a realização do evento e encerradas, imediatamente, logo que preenchidos tais horários.

A Comissão Organizadora.

Luciane Batista
Marcelo Veloso
Roberta Aymar

Logomarca5 (1)

Soneto da Separação

Na penúltima quarta-feira a leitura do poema foi feita por Eleta Ladosky que nos levou Vinicius de Moraes com o Soneto da Separação. Desde que esse momento poético na Oficina foi criado, Vinicius já foi levado algumas vezes o que denota claramente como os oficineiros gostam do poetinha.

Soneto de separação

Vinicius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Eleta fez uma análise do poema tão lírico, chamando a atenção para a beleza das metáforas criadas pelo poeta para expressar a dor de uma separação amorosa. A gravação que Ellis e Tom Jobim fizeram do poema em 1974, deixa bem evidente o drama do casal de amantes que se separa.

O Patinho feio

O patinho feio

*Luzia Ferrão

O mundo é belo! Resplandece em cores, sons e sombras também necessárias! Faz parte neste ideário mundo esperar, uma espera planejada, limitada pelo conhecimento e pela experiência, do acaso falsamente certo. A fragilidade da certeza se antepõe ao conhecimento, impacientando o tempo da espera. Se existe fato, quase sempre, recorrente, quando o “inesperado faz uma surpresa” na forma ou no conteúdo, ou nos dois, é uma “graça” alcançada, medida pela quantidade. Se cinco são perfeitos, valeu a pena o empreendimento, o sexto é excludente. Viva! Deixemos como resto, o resto que receberá uma parte do legado, na forma de aprendizado, proteção, carinho como cumprimento da obrigação imposta, como dever inquestionável, mas, se possível, afastado.

No modelo de beleza, o feio é o destoante, é o mal que deve ser perseguido e afastado, talvez extinto. Impedi-lo de se reproduzir é uma tarefa nossa preservando a natureza de tudo que é bom e belo. Guiem-se pelos sons, pelas cores, pelos cheiros que elevam a natureza de todas as coisas. A grandeza do mundo se faz através deste compartilhamento: “Louvando o que bem merece, deixando o ruim de lado.” A louvação não é questionável, é agregadora, é segurança “na saúde e na doença”. Venceu a peste! “O mundo é assim” não matem, deixem que O MUNDO se encarregue do diferente. Está vendo aquele mais belo que você? Respeite, siga o exemplo, bajule e O MUNDO reservará um lugar de destaque para você. Mas, provavelmente, palavra horrível, se quer continuar feio, sem os requisitos que possam transformá-lo de insignificante pinto em belo cisne, missão quase impossível, supere o medo, a resignação, a angústia de ser um pobre coitado rejeitado sem espaço NO MUNDO ou escolha morrer. Talvez por generosidade, ou outro sentimento, existem grupos que acreditam e colaboram com o MUNDO DOS FEIOS.

O final feliz como forma absoluta só existe nos contos, nas fabulas, olhe ao redor: hoje é verão, inverno ou primavera? Escolha em que parte DO MUNDO quer viver.

  • * Luzia Ferrão – professora universitária, assistente social, contista, ensaísta.

O Gênio do Mal

Ontem, 17 de fevereiro de 2016, recomeçamos os trabalhos da Oficina. A nossa carta de navegação estava pronta  para iniciarmos a viagem. Os viageiros presentes –  éramos dez, dois não puderam participar, um porque não havia chegado ainda de viagem (Luzia), outro (Paulo) porque iria fazer parte de um mesa de defesa de tese de mestrado – ansiosos pelas mudanças que havíamos feito nos nossos roteiros, Levei um texto sobre o Conto, extraído do Prefácio de Charles Baudelaire ao livro de Edgard Allan Poe Contos de Imaginação e Mistério, para reforçar a importância dele entre os gêneros literários e tranquilizar uma viageira que teme ser a viagem curta não tão admirável quanto os longos cruzeiros que o romance permite. A opção pelas narrativas mais curtas este ano deveu-se à necessidade de reforçar o crítico literário que existe em cada um de nós, de certa forma comprometido pelas leituras longas quando o interesse pelo que está sendo contado pelo narrador prevalece sobre o como está sendo contado, ansiosos que ficamos, como Nabokov disse, pelo e depois? E depois?

EXTRAÍDO DO PREFACIO DE CHARLES BAUDELAIRE AO LIVRO DE EDGAR ALLAN POE CONTOS DE IMAGINAÇÃO E DE MISTÉRIO

 SOBRE O CONTO

Entre os domínios literários onde a imaginação pode obter os resultados mais curiosos, pode colher tesouros, não os mais ricos e preciosos (esses pertencem à poesia), mas os mais numerosos e variados, está um particularmente querido a Poe, o conto. Ele tem sobre o romance de grandes proporções a imensa vantagem que a brevidade acrescenta à intensidade do efeito. Tal leitura, que pode ser realizada de um único fôlego, deixa no espírito uma marca muito mais poderosa que uma leitura intermitente, muitas vezes interrompida por problemas de negócios e preocupações com interesses mundanos. A unidade da impressão, a totalidade do efeito é uma vantagem imensa que pode dar a esse gênero de composição uma superioridade muito especial, no sentido de que um conto muito curto (o que é, sem dúvida, um defeito) seja ainda melhor que um conto muito extenso. O artista, se é hábil, não acomodará seus pensamentos aos incidentes; mas, tendo concebido deliberadamente, a seu bel-prazer, um efeito a produzir, inventará os incidentes, arranjará os eventos mais apropriados para conduzir ao efeito desejado. Se a primeira frase não for escrita de forma a preparar a impressão final, a obra é deficiente desde o começo. Ao longo da composição não se deve soltar uma única palavra que não seja uma intenção, que não tenda, direta ou indiretamente, a percorrer o plano traçado.

Há um ponto no qual o conto é superior até mesmo ao poema. O ritmo é necessário ao desenvolvimento da ideia de beleza, que é o maior e mais nobre objetivo do poema. Ora, os artifícios do ritmo são um obstáculo insuperável ao desenvolvimento minucioso de pensamentos e expressões que tenham por objetivo a verdade. Pois a verdade pode muitas vezes ser a meta do conto, e o raciocínio a melhor ferramenta para a construção de um conto perfeito. Eis a razão pela qual esse gênero de composição, que não é tratado com tanta elevação quanto a poesia pura, pode fornecer produtos mais variados e mais acessíveis ao gosto do leitor comum. Além disso, o contista tem à sua disposição uma enorme quantidade de tons, de nuances de linguagem – o tom reflexivo, o sarcástico, o humorístico, que repudia a poesia – e que são como dissonâncias, ultrajes à ideia de beleza pura. E é pelo mesmo motivo que o escritor que busca uma única meta de beleza em um conto trabalha em grande desvantagem, sendo privado do instrumento mais útil, o ritmo. Sei que, em todas as literaturas, foram feitos esforços, muitas vezes felizes, para criar contos puramente poéticos; o próprio Edgar Poe fez alguns muito bonitos. Mas são lutas e esforços que servem apenas para demonstrar a força dos verdadeiros recursos adapta­dos às metas correspondentes; não seria arriscado afirmar que para alguns autores, os maiores nos quais podemos pensar, essas tentações heroicas viessem de um desespero.

A saudação poética foi com Gênios do Mal, de Charles Baudelaire que tão bem já havia nos falado sobre o conto. A escolha do poema, entre tantos outros incríveis do poeta, se deu principalmente porque era assim que ele era chamado “Gênio do Mal”  devido ao seu comportamento transgressor e por envolver nas suas narrativas elementos do mal. Charles Baudelaire ficou sem pai muito cedo, aos seis anos de idade, e a mãe casou com um militar de carreira ascendente (tornou-se general, senador, embaixador)  que se incompatibilizou com o enteado de prima. Nada mais agressivo ao gênio poético e livre do garoto do que a rígida disciplina militar. Cansado das contendas, o padrasto exportou-o para a Índia na esperança de ver-se livro do rapaz. Baudelaire não iria deixá-lo sossegado assim tão fácil. Encontrou uma forma de punir o padrasto desembarcando antes de chegar ao seu destino, voltando à Paris livre do jugo doméstico,  lançando-se na boemia, drogas e todo tipo de excessos. Com a maioridade conseguiu tomar posse da herança deixada pelo pai e começou a lapidar a fortuna até sua mãe interditá-lo na justiça, provando a sua prodigalidade e impondo-lhe um tutor. Menos rico, porém tão livre quanto antes, Charles Baudelaire continuou a sua vida desregrada no mundo das artes, da literatura. Em 1857, com trinta e seis anos de idade, publica a sua obra prima Flores do Mal.  A Justiça nem sempre sensível às artes, preocupada que sempre esteve em manter a ordem e os costumes, por mais ultrapassados e medíocres que possam sugerir, condenou o poeta e a editora que o publicou a pagar multas precisamente por causa de seis (6) poemas entre os cem  (100) do livro por atentarem à moral. Baudelaire não se fez de rogado, fez novos poemas, ainda mais belos, segundo ele, e trocou-os. O livro foi liberado. Com a sua morte, dez anos depois, o livro foi publicado com os poemas originais.

Baudelaire, apesar de transgressor, tentou acomodar-se ao status quo  da sociedade parisiense candidatando-se à Academia Francesa. Não há uma opinião formada sobre as razões que o levaram a fazer isso, dizem que para agradar a mãe e ela poder soltar mais dinheiro, ou porque pretendia resgatar a estima do publico devido às sérias críticas da burguesia à sua obra. Talvez o patinho feio quisesse o seu dia de cisne, quem sabe.

Charles Baudelaire é considerado o precursor do Simbolismo, além de fundador da tradição moderna em poesia, ao lado de Walt Whitman. Escreveu poesias e ensaios e as suas obras teóricas influenciaram além da literatura, as artes plásticas do século XIX. Traduziu vários volumes da obra de Edgard Allan Poe e os prefácios que escreveu tornaram-se peças teóricas de referência para a literatura e artes plásticas. Charles Baudelaire morreu jovem ainda, aos quarenta e seis anos, de sífilis, após sofrer sérios ataques nervosos. Os seus biógrafos dizem que morreu nos braços da mãe, com quem morava após a morte do padrasto.

Segundo o poeta, Edgard Alan Poe achava que não era poeta quem não soubesse tocar o intangível. Baudelaire sabia-o muito bem, mesmo quando escreve um poema como este Gênio do Mal que revela uma dor de cotovelo bem tangível. Para Baudelaire Genus irritabile vatum! Que os poetas (vamos utilizar a palavra em seu sentido mais extenso, compreendendo todos os artistas) sejam uma raça irritável é bem sabido; mas o porquê  não me parece tão claro. Bendita irritação que o fez criar poemas que atravessam séculos.

Imagem CB

Gênio do Mal

Charles Baudelaire

Gostavas de tragar o universo inteiro,
Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro,
Para se exercitar no jogo singular,
Por dia um coração precisa devorar.
Os teus olhos, a arder, lembram as gambiarras
Das barracas de feira, e prendem como garras;
Usam com insolência os filtros infernais,
Levando a perdição às almas dos mortais.

Ó monstro surdo e cego, em maldades fecundo!
Engenho salutar, que exaure o sangue do mundo
Tu não sentes pudor? o pejo não te invade?
Nenhum espelho há que te mostre a verdade?
A grandeza do mal, com que tu folgas tanto.
Nunca, jamais, te fez recuar com espanto
Quando a Natura-mãe, com um fim ignorado,
— Ó mulher infernal, rainha do Pecado! —
Vai recorrer a ti para um génio formar?

Ó grandeza de lama! ó ignomínia sem par.

Charles Baudelaire, in “As Flores do Mal”
Tradução de Delfim Guimarães  – Obtido em Wikisource

Dentro do possível, procuramos acompanhar a leitura do poema ou narrativa traduzidos para o português com a obra original. Se na ficção é importante porque os tradutores, por melhores que sejam, tendem a se tornar coautores e empolgados afastam-se do texto, na poesia onde a sonoridade, muitas vezes a rima, a subjetividade, o intangível são a sua espinha dorsal, ler a tradução é desviar-se substancialmente do autor e aproximar-se do tradutor, havendo perdas substanciais. Eu e Salete tentamos encontrar este poema em Francês e quase varamos uma noite completamente em vão. Não conhecendo suficiente a língua para uma busca mais rigorosa desisti de prosseguir by myself e não ousava insistir com Salete que já havia dedicado bom tempo para encontrá-lo. Coube à nossa viageira Adelaide Câmara a tarefa hercúlea e ela a fez com uma dedicação e determinação admirável. Apoiada pelo marido fez o périplo por quase 1000 páginas da obra de Baudelaire, lendo one by one até encontrar o poema em Francês e o remeter para mim dizendo Segue o poema que “não existe existindo” cuja tradução superparafraseada por Delfim Guimarães me fez vasculhar céus e terras virtuais.. Sim, eles chegaram a duvidar que existisse, que talvez fosse um daqueles casos em que se atribui a obra a um escritor famoso e depois se descobre que não é de sua autoria e sim de um anônimo. Com esse título Gênio do Mal  ele não existe, mas é de Baudelaire e está em Flores do Mal. Segundo Adelaide, a ligação amorosa com a judia Sarah, dita Louchette,  que lhe inspirou um poema truculento e, em certas passagens, poderosamente original (“Não tenho por amante senão…”), bem como o poema XXV (que é este chamado de Gênio do Mal, aqui)de As flores do mal .

À Adelaide, aquela que segunda a própria, nunca se imaginou”fuçadoura” de Baudelaire,  e Câmara,  os nossos agradecimentos maiores.

Eis o poema:

Tu mettrais l’univers entier dans ta ruelle,

Femme impure! Le’ennui rend ton âme cruelle.

Pour exercer tes dents à ce jeu singulier,

Il te faut chaque jour un coeur au râtelier.

Tes yeux, illuminés ainsi que des boutiques

Et des ifs flamboyants dans les fêtes publiques,

Usent insolemment d’un pouvoir emprunté,

Sans connaître jamais la loi de leur beauté.

Machine aveugle et sourde, en cruautés, féconde!

Salutaire instrument, buveur du sang du monde,

Comment n’as-tu pas honte et comment n’as-tu pas

Devant tous les miroirs vu pâlir tes appas?

La grandeur de ce mal où tu te crois savante

Ne t’a donc jamais fait reculer d’épouvante,

Quand la nature, grande en ses desseins cachés,

De toi se sert, ô femme, ô reine des péchés,

— De toi, vil animal, — pour pétrir un génie?

O fangeuse grandeur! sublime ignominie!

A tradução de Ivan Junqueira enviada por Adelaide:

 

Porias o universo inteiro em teu bordel,

Mulher impura! O tédio é que te torna cruel

Para teus dentes neste jogo exercitar,

A cada dia um coração tens que sangrar.

Teus olhos, cuja luz recorda a dos lampejos

E dos rútilos teixos que ardem nos festejos,

Exibem arrogantes uma vã nobreza,

Sem conhecer jamais a lei de sua beleza.

Ó monstro cego e surdo, em cruezas fecundo!

10 Salutar instrumento, vampiro do mundo,

Como não te envergonhas ou não vês sequer

Murchar no espelho teu fascínio de mulher?

A grandeza do mal de que crês saber tanto

Não te obriga jamais a vacilar de espanto

Quando a mãe natureza, em desígnios velados,

Recorre a ti, mulher, ó deusa dos pecados

— A ti, vil animal —, para um gênio forjar?

Ó lodosa grandeza! Ó desonra exemplar!

 Outro poema inspirado em Sarah, La Louchette

Sarah la louchette

Je n’ai pas pour maîtresse une lionne illustre :
La gueuse de mon âme, emprunte tout son lustre ;
Invisible aux regards de l’univers moqueur,
Sa beauté ne fleurit que dans mon triste coeur.

Pour avoir des souliers elle a vendu son âme.
Mais le bon Dieu rirait si, près de cette infâme,
Je tranchais du Tartufe et singeais la hauteur,
Moi qui vends ma pensée et qui veux être auteur.

Vice beaucoup plus grave, elle porte perruque.
Tous ses beaux cheveux noirs ont fui sa blanche nuque ;
Ce qui n’empêche pas les baisers amoureux
De pleuvoir sur son front plus pelé qu’un lépreux.

Elle louche, et l’effet de ce regard étrange
Qu’ombragent des cils noirs plus longs que ceux d’un ange,
Est tel que tous les yeux pour qui l’on s’est damné
Ne valent pas pour moi son oeil juif et cerné.

Elle n’a que vingt ans, la gorge déjà basse
Pend de chaque côté comme une calebasse,
Et pourtant, me traînant chaque nuit sur son corps,
Ainsi qu’un nouveau-né, je la tête et la mords,

Et bien qu’elle n’ait pas souvent même une obole
Pour se frotter la chair et pour s’oindre l’épaule,
Je la lèche en silence avec plus de ferveur
Que Madeleine en feu les deux pieds du Sauveur.

La pauvre créature, au plaisir essoufflée,
A de rauques hoquets la poitrine gonflée,
Et je devine au bruit de son souffle brutal
Qu’elle a souvent mordu le pain de l’hôpital.

Ses grands yeux inquiets, durant la nuit cruelle,
Croient voir deux autres yeux au fond de la ruelle,
Car, ayant trop ouvert son coeur à tous venants,
Elle a peur sans lumière et croit aux revenants.

Ce qui fait que de suif elle use plus de livres
Qu’un vieux savant couché jour et nuit sur ses livres,
Et redoute bien moins la faim et ses tourments
Que l’apparition de ses défunts amants.

Si vous la rencontrez, bizarrement parée,
Se faufilant, au coin d’une rue égarée,
Et la tête et l’oeil bas comme un pigeon blessé,
Traînant dans les ruisseaux un talon déchaussé,

Messieurs, ne crachez pas de jurons ni d’ordure
Au visage fardé de cette pauvre impure
Que déesse Famine a par un soir d’hiver,
Contrainte à relever ses jupons en plein air.

Cette bohème-là, c’est mon tout, ma richesse,
Ma perle, mon bijou, ma reine, ma duchesse,
Celle qui m’a bercé sur son giron vainqueur,
Et qui dans ses deux mains a réchauffé mon coeur.

Viageiros em Ação

Fui procurar e encontrei, nada

*Luzia Ferrão

Os pedaços não são tão misturados como pensam, basta sair um pouquinho
Que o pedaço morre…. Ou porque morreu mesmo?
A quietude do nada, não é nada, nada, nada e não chega a lugar algum, mas nada, nada
e continua nada, nadando, o nada do nada é contentar-se com o nada.
As palavras são tão repetidas porque copiadas e tão pobrezinhas que não dizem nada
Discuto muito sobre certeza/incerteza o que já prova que minha incerteza é certeza de nada
A facilidade do nada é cruel, insiste em ser nada, nada em dejetos vangloriando-se de que nada
No desespero do nada, uma fada má ou boa(?) lhe retira e perfuma com um diferente odor de nada. Miserável! Já estava quase chegando ao fundo do nada.
Não fale nada do nada me aconselha o bom velhinho, nada é todo seu……se dividir vai murchar o seu nada
“Quase” enlouqueço(?) quando quis sair do nada, desesperada consegui voltar ao nada
Voltar ao nada não é nada, é tudo, é aprendizado do nada conquistado com muita dor
Como pode o nada doer mais do que nada? Nada me aparta do meu nada.
O ir e vir do nada, do qual nada identifico, mostra que nada, nada mais é do que sou …
Um nada….que nada e nada vai fazer parar

Fortaleza 03/11/2015

* Luzia Ferrão – professora universitária, assistente social, contista, ensaísta.

Viageiros em ação

Sobrescrever

*Salete Oliveira

Não me perguntes porque escrevo,
São pensamentos que saem de mim
a ganhar a rua,
voam levados pela brisa a olhar a cidade do alto,
Com olhos curiosos de descobrir novidades,
Com olfato a xeretar memórias adormecidas em sonhos
Folhas soltas cadernos amarelados.
Mas um poço fundo ainda inexplorado há,
Vejo meu reflexo na sua água
Onde o frio desperta as lembranças.
Não tenho medo de poços profundos,
Há areia ao fundo e cordas amarradas a baldes, convívio com gias, elas lá, eu cá; os sapos, que fiquem nas lagoas com pés sujos.
Sempre podemos cantar
fazer um coro em lugar de boa acústica,
Seremos sereias de poços a tecer fantasias de habitarmos amplos mares explorados por Ulisses?

** Maria Salete Oliveira – engenheira química, poeta, cronista, ficcionista