A Morte de Madrugada Não Desvendada

A Morte de Madrugada não Desvendada

*Salete Oliveira

A nossa comandante Lourdes Rodrigues telefona à hora do almoço, fala com cada um de nós já no Traço, Everaldo Júnior, Luzia e eu. Levem o barco hoje à tarde, pede; dá-nos tarefas a cumprir: Júnior, assuma o comando, Salete faça o momento poético, Luzia leia seu conto; se sobrar tempo, adiantem a leitura de Por Favor, Cuide da Mamãe. Ficamos a comer a sobremesa, salada de frutas com leite condensado, a ouvir Sarmento que chega cedo, brindando-nos com suas canções, ainda no cais.

E então, começamos a nossa viagem.

O Momento Poético veio de uma forma singular, através de um meme sobre o fuzilamento de Federico García Lorca, por ocasião do aniversário de sua morte em 19 de agosto, o que provocou um paralelo entre a ditadura espanhola e o momento atual em nosso país; as discussões sobre a impossibilidade da foto ter sido realizada; as motivações e condições irreveladas de sua morte, da qual nunca se teve testemunhos. Everaldo Júnior trouxe além do meme, o poema de Vinícius de Moraes sobre a morte de Federico Garcia Lorca de tal forma tocante, que nos faz acreditar ter sido ele testemunha ocular da tragédia. Veio, também,  um Réquiem escrito por Vinícius. Assim veio Lorca para nós, já em sua hora derradeira. A leveza do almoço e sobremesa nos deu força para ler, ouvir, chorar com os testemunhos de Vinícius. Lourdinha nos prometeu trazer Lorca em toda sua pujança de paixão e vida em um próximo momento.

Federico García Lorca, nascido em Granada,  foi um dos maiores poetas espanhóis do século XX, além de um grande dramaturgo que levou para as suas peças a cultura do seu povo, fazendo um teatro itinerante, popular e de vanguarda, que permanecem até hoje como fonte de inspiração para outros escritores e criadores cênicos.

O meme que circula na Internet tem sido criticado pela sua inverdade. Federico Garcia Lorca foi arrastado de sua casa, morto de madrugada e enterrado numa vala comum, sem que jamais tenha sido encontrado o seu corpo. Questiona-se ainda a cena, como uma representação cinematográfica, cujo ator distancia-se muito de Lorca na aparência, no gestual.  De qualquer forma, é considerada válida para não ser esquecido esse terrível momento histórico em que o fascismo tomava conta da Espanha, ceifando milhões de vidas, entre elas a do grande poeta e dramaturgo Federico Lorca.

A família de Garcia Lorca não aprovou a busca do corpo para exumação, não se esclarecendo as circunstâncias de sua morte. A família concorda que fique junto de milhares de outros que foram mortos e enterrados em vala comum, considerada um lugar de reverência.

A morte de madrugada

Muerto cayó Federico.
Antonio Machado

Uma certa madrugada
Eu por um caminho andava
Não sei bem se estava bêbado
Ou se tinha a morte n’alma
Não sei também se o caminho
Me perdia ou encaminhava
Só sei que a sede queimava-me
A boca desidratada.
Era uma terra estrangeira
Que me recordava algo
Com sua argila cor de sangue
E seu ar desesperado.
Lembro que havia uma estrela
Morrendo no céu vazio
De uma outra coisa me lembro:
… Un horizonte de perros
Ladra muy lejos del río…

De repente reconheço:
Eram campos de Granada!
Estava em terras de Espanha
Em sua terra ensangüentada
Por que estranha providência
Não sei… não sabia nada…
Só sei da nuvem de pó
Caminhando sobre a estrada
E um duro passo de marcha
Que em meu sentido avançava.

Como uma mancha de sangue
Abria-se a madrugada
Enquanto a estrela morria
Numa tremura de lágrima
Sobre as colinas vermelhas
Os galhos também choravam
Aumentando a fria angústia
Que de mim transverberava.

Era um grupo de soldados
Que pela estrada marchava
Trazendo fuzis ao ombro
E impiedade na cara
Entre eles andava um moço
De face morena e cálida
Cabelos soltos ao vento
Camisa desabotoada.
Diante de um velho muro
O tenente gritou: Alto!
E à frente conduz o moço
De fisionomia pálida.
Sem ser visto me aproximo
Daquela cena macabra
Ao tempo em que o pelotão
Se dispunha horizontal.

Súbito um raio de sol
Ao moço ilumina a face
E eu à boca levo as mãos
Para evitar que gritasse.
Era ele, era Federico
O poeta meu muito amado
A um muro de pedra seca
Colado, como um fantasma.
Chamei-o: Garcia Lorca!
Mas já não ouvia nada
O horror da morte imatura
Sobre a expressão estampada…
Mas que me via, me via
Porque em seus olhos havia
Uma luz mal-disfarçada.
Com o peito de dor rompido
Me quedei, paralisado
Enquanto os soldados miram
A cabeça delicada.

Assim vi a Federico
Entre dois canos de arma
A fitar-me estranhamente
Como querendo falar-me.
Hoje sei que teve medo
Diante do inesperado
E foi maior seu martírio
Do que a tortura da carne.
Hoje sei que teve medo
Mas sei que não foi covarde
Pela curiosa maneira
Com que de longe me olhava
Como quem me diz: a morte
É sempre desagradável
Mas antes morrer ciente
Do que viver enganado.

Atiraram-lhe na cara
Os vendilhões de sua pátria
Nos seus olhos andaluzes
Em sua boca de palavras.
Muerto cayó Federico
Sobre a terra de Granada
La tierra del inocente
No la tierra del culpable.
Nos olhos que tinha abertos
Numa infinita mirada
Em meio a flores de sangue
A expressão se conservava
Como a segredar-me: – A morte
É simples, de madrugada…

 Vinicius de Moraes, em “Poemas esparsos”. [organização Eucanaã Ferraz]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

MORTE DE UM PÁSSARO
(Réquiem para Federico Garcia Lorca)

 

Ele estava pálido e suas mãos tremiam. Sim, ele estava com medo porque era tudo tão inesperado. Quis falar, e seus lábios frios mal puderam articular as palavras de pasmo que lhe causava a vista de todos aqueles homens preparados para matá-lo. Havia estrelas infantis a balbuciar preces matinais no céu deliqüescente. Seu olhar elevou-se até elas e ele, menos que nunca, compreendeu a razão de ser de tudo aquilo. Ele era um pássaro, nascera para cantar. Aquela madrugada que raiava para presenciar sua morte, não tinha sido ela sempre a sua grande amiga? Não ficara ela tantas vezes a escutar suas canções de silêncio? Por que o haviam arrancado a seu sono povoado de aves brancas e feito marchar em meio a outros homens de barba rude e olhar escuro?

Pensou em fugir, em correr doidamente para a aurora, em bater asas inexistentes até voar. Escaparia assim à fria sanha daqueles caçadores maus que o confundiam com o milhafre, ele cuja única missão era cantar a beleza das coisas naturais e o amor dos homens; ele, um pássaro inocente, em cuja voz havia ritmos de dança.

Mas permaneceu em sua atonia, sem acreditar bem que aquilo tudo estivesse acontecendo. Era, por certo, um mal-entendido. Dentro em pouco chegaria a ordem para soltá-lo, e aqueles mesmos homens que o miravam com ruim catadura chegariam até ele rindo risos francos e, de braços dados, iriam todos beber manzanilla numa tasca qualquer, e cantariam canções de cante-hondo até que a noite viesse recolher seus corpos bêbados em sua negra, maternal mantilha.

As ordens, no entanto, foram rápidas. O grupo foi levado, a coronhadas e empurrões, até a vala comum aberta, e os nodosos pescoços penderam no desalento final. Lábios partiram-se em adeuses, murmurando marias e consuelos. Só sua cabeça movia-se para todos os lados, num movimento de busca e negação, como a do pássaro frágil na mão do armadilheiro impiedoso. O sangue cantava-lhe aos ouvidos, o sangue que fora a seiva mais viva de sua poesia, o sangue que tinha visto e que não quisera ver, o sangue de sua Espanha louca e lúcida, o sangue das paixões desencadeadas, o sangue de Ignácio Sánchez Mejías, o sangue das bodas de sangre, o sangue dos homens que morrem para que nasça um mundo sem violência. Por um segundo passou-lhe a visão de seus amigos distantes. Alberti, Neruda, Manolo Ortiz, Bergamín, Delia, María Rosa – e a minha própria visão, a do poeta brasileiro que teria sido como um irmão seu e que dele viria a receber o legado de todos esses amigos exemplares, e que com ele teria passado noites a tocar guitarra, a se trocarem canções pungentes.

Sim, teve medo. E quem, em seu lugar, não o teria? Ele não nascera para morrer assim, para morrer antes de sua própria morte. Nascera para a vida e suas dádivas mais ardentes, num mundo de poesia e música, configurado na face da mulher, na face do amigo e na face do povo. Se tivesse tido tempo de correr pela campina, seu corpo de poeta-pássaro ter-se-ia certamente libertado das contingências físicas e alçado vôo para os espaços além; pois tal era sua ânsia de viver para poder cantar, cada vez mais longe e cada vez melhor, o amor, o grande amor que era nele sentimento de permanência e sensação de eternidade.

Mas foram apenas outros pássaros, seus irmãos, que voaram assustados dentro da luz da antemanhã, quando os tiros do pelotão de morte soaram no silêncio da madrugada.

– Vinicius de Moraes, em “Poemas esparsos”. [organização Eucanaã Ferraz]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Face of Garcia Lorca in the Form of a Fruit Dish with Three Figs, 1938 – by Salvador Daly

Esta imagem da tela de Salvador Dali, o poema e o réquiem de Vinicius de Moraes foram retirados de: http://www.revistaprosaversoearte.com/garcia-lorca-e-os-poetas-brasileiros/. Há outros poemas dedicados a Garcia Lorca por poetas brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Hilda Hilst, Manuel Bandeira:

Em seguida ao Momento Poético,  Luzia leu um conto surpreendente, Pobre Moça Rica, que nos conta a história de uma moça pobre que esconde sua falta de atrativos e riquezas atrás de uma máscara de amor incondicional e beatitude frente à vida e suas adversas condições, convivendo com grupo de pessoas, seu oposto de beleza e posses materiais. Com surpreendente e abrupto desfecho deixou o grupo atônito e cheio de perguntas, mas… se o próprio narrador assim também o estava, afinal a conhecia tão pouco, como responder às nossas perguntas de leitores ávidos para nos imiscuirmos na vida da Pobre Moça Rica. Júnior sugeriu que o relêssemos em casa voltando a ser relido em uma próxima ocasião na Oficina.

Continuamos a leitura do Livro “Por favor, cuide da mamãe”, na viagem da escritora sul coreana Kyung-sook Shin. Em sua forma detalhada e intimista, a narradora continua a nos surpreender com seus sentimentos, relacionamento com a família, a mãe em especial e os preparativos culinários que pormenoriza.

  • Salete Oliveira é engenheira química, poeta, contista, resenhista.

 

Augusto dos Anjos: Cantor da Poesia de tudo que é morto

Augusto dos Anjos já esteve em nosso Momento Poético antes, certamente voltará outras vezes. Dessa feita foi levado por nossa poetisa Anita Dubeux, que selecionou, com apuro, alguns poemas do autor para dividir com o grupo. Considerado um dos poetas mais críticos de sua época e um dos mais importantes representantes do pré-modernismo, apesar de sua poesia conter raízes do simbolismo, no gosto pela morte,pela angústia, melancolia e no uso de metáforas. O autor parece querer desafiar os parnasianos, utilizando palavras não-poéticas como verme, cuspe, vômito, entre outras. A obra só possuiu grande vendagem após a morte do poeta.  Declarou-se Cantor da poesia de tudo que é morto. E como o faz bem!

Nasceu no engenho Pau d’Arco, na Paraíba, no dia 22 de abril de 1884, filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e de Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos.
No ano de 1900, ingressa no Liceu Paraibano e produz seu primeiro soneto.
Durante a vida publicou vários poemas em jornais e periódicos e em 1912 editou o seu único livro EU, que causou espanto nos críticos da época, diante de um vocabulário grotesco e sua obsessão pela morte: podridão da carne, cadáveres fétidos e vermes famintos.

Possuía uma retórica delirante, criativa, por vezes absurda, como neste trecho do poema Psicologia de um Vencido:

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro da escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Augusto dos Anjos estudou na Faculdade de Direito do Recife entre 1903 e 1907 e após sua formatura retornou a João Pessoa, onde passou a lecionar Literatura Brasileira, em aulas particulares.

Faleceu em Leopoldina, Minas Gerais, no dia 12 de novembro de 1914.

Poemas memoráveis desse poeta paraibano, hoje universal:

O martírio do artista

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!…
É como o paralítico que, à míngua
Da própria voz, e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!

Vencedor

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E á rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pude domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta

Poema Negro está entre os mais lidos e elogiados poemas de Augusto dos Anjos.

 

Após a leitura dos poemas de Augusto dos Anjos, continuamos a viagem, agora com a releitura do conto de  Raduan Nassar, Hoje de Madrugada, elaborada por João Gratuliano que deu o título bastante criativo de As Madrugadas de Ontem, assim mesmo, no plural.  Uma boa releitura sempre irá depender da leitura particular que o leitor fez da obra, mediada pela sua visão de mundo, sensibilidade para captar silêncios, não-ditos, de viajar com as palavras, de abrir suas valises e escarafunchá-las em busca de novos sentidos, cheiros,  cores, musicalidade. João Gratuliano faz isso muito bem. As Madrugadas de Ontem, longe de reproduzir o texto original, é uma criação, trazendo o novo sem perder o elo com a fonte que serviu de inspiração. Disposto sempre a aceitar desafio, Gratuliano aceitou a proposta do grupo e refez o texto apresentado na Oficina, com a participação de todos, especialmente de Everaldo Júnior que foi quem liderou o processo,  dessa vez escondendo o gênero do personagem que só foi revelado no final. Valeu como exercício de desbloqueio criativo.

Sobre a Programação para o Segundo Semestre discutimos um pouco e ficou acordado que iniciaríamos com a autora sul coreana Kyung Sook Shin, Por Favor, Cuide da Mamãe, que já dispomos em meio digital, o que facilitará bastante para  a leitura na próxima quarta-feira. Trata-se de um livro com muitos recursos técnicos literários instigantes, inovadores,  trama bem articulada e extremamente interessante que fisga você nas primeiras páginas.

Lourdes Rodrigues

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Mais fragmentos de viagens do báu

 

Adelaide, nossa viageira sempre presente mesmo quando ausente,  havia enviado para o grupo um poema de Jaci Bezerra, poeta nordestino, alagoano, radicado em Pernambuco, que foi lido no Oficina. Sarmento, que também é das Alagoas, falou-nos do poeta com quem conviveu um pouco, e com a família mais ainda.

Lançado por César Leal no Suplemento Literário do Diário de Pernambuco em 1966, Jaci Bezerra publicou vários livros, assim como participou de alguns importantes movimentos literários, entre eles, A Geração 65, marco irreversível na história da cultura brasileira, segundo César Leal. Além de poeta, Jaci Bezerra é dramaturgo, entre as peças de sua autoria O Galo  e Auto da Renovação. Poeta, contista, dramaturgo, cronista, editor e animador cultural, fundou, em 1979, com alguns companheiros,  a Edições Pirata, do Recife, responsável pela publicação de mais de duas centenas de títulos de escritores brasileiros de várias gerações e tendências.

 

 

 

 

 

 

 

São alguns dos livros que publicou: Romances, Lavradouro, Livro de Olinda, Linha D’Água, Comarca da Memória, entre outros.

 

LINHA D’ÁGUA
Jaci Bezerra

Em Alagoas me achei, achando o mar,
desde então o conservo em mim, aberto,

porém nunca aprendi a soletrar
a insone cadência dos seus metros.

Talvez porque o mar, nervoso e inquieto,
no pacífico silêncio onde Deus viça,

não escreve nem repete o mesmo verso
no seu caderno de águas movediças.

Achando o mar me fiz cúmplice da beleza,
mas ao me consumir em suas chamas

soube que a alma é uma onda de incerteza
presa na cela da nossa areia humana.

Aprendi com o mar a ser constante
e a aceitar, sem pudor, as coisas frágeis:

A fazer da inconstância dos instantes
lembranças o mais possível perduráveis.

Entregue ao mar, pago ao mar o meu tributo,
e ao escutá-lo na minha humana cela,

sinto que o mar, fremindo longe e oculto,
me conta coisas que a ninguém revela.
Linha d’água,2007.

 

CANÇÃO

 

Vou plantar na varanda a minha mágoa,

e espero, assim, que a vida a mim esqueça.

Fluídico e sereno como as águas

deixem, vocês, que eu me desapareça.

Vou partir depois disso, prontos tenho

o passaporte e a blusa de emigrante.

Deixem vocês, eu parto como venho

para ser outra vez o que fui antes,

As lágrimas ardendo são estrelas

cintilando no fundo de outro poço.

Vocês não se debrucem para vê-las

que, nelas, acharão só meus destroços

(a canção que inventei de ouvido, inteira,

e as rosas florescendo nos meus ossos).

Não procurem saber dos meus intentos,

peço como um favor, ninguém me ouça,

pois rosário já vem tangendo os ventos

e apaziguando a minha carne moça,

vem molhada de luz, vem sem lamentos,

trazendo um lírio em suas mãos de louça.

Já é chegada a hora da partida,

No meu bolso soluça o coração,

por isso, não liguem muito à vida

que para olhar e ver, trago na mão.

Nem olhem, se ainda me veem, para a ferida

que expõe, aberta, a minha solidão.

Parto rendido e entregue aos meus afetos,

e amigos que não tenho, não terei.

Matei as sempre-vivas do deserto

recusando as canções que não criei.

E descobri, sentindo o amor tão perto,

que nada sou do sonho que inventei.

Depois dos poemas de Jaci Bezerra foi lido um conto incrível de Cortázar levado por mim, por sugestão de Luzia. Sempre estamos velejando pelos mares do escritor argentino por eles nos instigarem a ver além do seu conteúdo formal, por nos permitirem enveredar pela  magia e fantasia, pelo fantástico e mistério. São passagens que nos conduzem a veredas densas, de complexa travessia. As Babas do Diabo permitiu-nos muita discussão, numa bela esgrima entre o que cada um levou de seu nessa viagem, fazendo o seu próprio percurso e o que a narrativa oferecia concretamente. Certamente novas releituras serão feitas, assim como resenhas, resumos, análises.

Jaboatão dos Guararapes, maio de 2017

Lourdes Rodrigues

 

Pomba Enamorada ou Uma História de Amor

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 Pomba Enamorada ou Uma História de Amor, de Lygia Fagundes Telles, na  Antologia:  Meus Contos Preferidos, Rio de Janeiro, Editora Rocco, 2004.

Trata-se de uma história de amor não correspondido, narrado na terceira pessoa, com alguns diálogos diretos inseridos dentro da narração, sem passagem ou pontuação específica. Observa-se, algumas vezes o diálogo indireto e até o indireto livre quando a passagem do narrador para o personagem se faz de forma quase imperceptível. O enredo está contido num único e longo parágrafo.

O título do conto nos remete a um folhetim, a uma história de amor dessas que enche os altos falantes das festas de rua do interior e as rádios da cidade com pedidos de música através de pseudônimos do tipo Pomba Enamorada, Coração Apaixonado.

Mas também o enredo lembra-nos um conto de fadas. Há um baile no Clube, onde será escolhida a rainha da Primavera. Ela, que ainda não é a pomba enamorada, apenas uma humilde ajudante de cabeleireira, candidatou-se ao título, que não consegue, segundo a sua própria versão, porque o namorado da outra comprou todos os votos. Quando o rapaz a convida para dançar teve tontura, enxugou depressa as mãos molhadas de suor no corpete do vestido (fingindo que alisava alguma prega) e de pernas bambas abriu-lhe os braços e o sorriso. É o seu príncipe! Assim, como nos contos de fada, ela imaginou que seriam felizes para sempre, pois estava decidida a amá-lo por toda vida. O príncipe não era lá muito polido, declarou a sua insatisfação por ela não ter ganhado o concurso porque a rainha é uma bela bosta, com o perdão da palavra.   As únicas palavras que trocaram e que lhe deram a certeza de que ele era seu namorado, ali em seus braços, ao som da Valsa dos Miosótis. Quando o príncipe se afasta dizendo que iria fumar, já dançando o bis da valsa, e  desaparece, ela fica a procurá-lo de forma tão insistente que o diretor do clube quis saber quem era o procurado, e ela não hesita ao dizer, meu namorado. O estranhamento do diretor fez com que, em segundos, desse-lhe o nome (Antenor) e perfil do rapaz (não esquenta o rabo em nenhum emprego…) e acrescentasse maldosamente, embora com ar de distraído enquanto a apertava com força ao som de Nosoutros: É que ele saiu logo depois da valsa, todo atracado com uma escurinha de frente única…

O repertório musical escolhido pela autora para essa festa faz a ambientação do romance, primeiro com o casal dançando a Valsa do Miosótis, depois, quando já o rapaz desaparece e o diretor entra em cena, com Nosoutros.  Pode-se imaginar a cena entre as décadas de sessenta e setenta, em um clube de bairro ou de uma cidade de interior. Mergulhado no tempo e espaço da narrativa o leitor corre os olhos sobre as letras para acompanhar o romance.

Com o endereço dado pelo diretor ela vai procurá-lo na oficina e percebendo que sequer a reconhecia, disse eu sou a princesa do São Paulo Chique, lembra? Lembrou-se, e balançando a cabeça com ar incrédulo, trata de despachá-la, dizendo que qualquer hora daria uma ligada, que guardaria o número do telefone que ela lhe dava, sem sequer se dar ao trabalho de anotá-lo. Não ligou. A personagem, como boa Capricorniana, sabe que jamais irá conseguir algo fácil, que deve lutar o dobro para vencer. E vai à luta. Recorre aos santos, acende velas, faz novenas e telefona, inicialmente, apenas para ouvir a voz e desligar, depois, animada pelo vermute que Rôni lhe dera, amigo e companheiro de trabalho no salão, decide falar. Ela outra vez se apresenta como a princesa do baile e convida-o para ver um filme nacional que estava passando, pertinho da oficina que ele trabalhava. A resposta foi o silêncio, tão longo que ela pensa ter caído a linha. Rôni a socorre com outro vermute e se oferece para falar por ela. A reação de Antenor é tão violenta que Rôni, revirando os olhos associa aquela voz a voz dos mafiosos do cinema. Não, ele não quer ir ao cinema, não quer que lhe telefonem mais, o patrão está puto da vida, e diz que está comprometido e se um dia lhe desse na telha, ELE MESMO TELEFONARIA. Assim, aos berros.

E foram muitas e muitas tentativas, catorze cartas, nove românticas e as demais eróticas, estas últimas ela acabou não enviando. Todas assinadas com o pseudônimo de Pomba Enamorada que ao longo do tempo resumiu para P.E. Antenor, insensível aos apelos da pombinha, foi num crescente caprichando na rejeição grosseira. Mas ela não desiste.

Quando soube por um chofer de praça muito bonzinho, amigo de Antenor, que ele estaria se casando naquele dia, justo quando acabara de levar pratinho de doces para São Cosme e São Damião, não chorou, foi ao crediário do Mappin, comprou um licoreiro, escreveu um cartão desejando-lhe todas as felicidades do mundo, pediu ao Gilvan que levasse o presente, escreveu no papel de seda do pacote um P.E. bem grande (tinha esquecido de assinar o cartão) e quando chegou em casa bebeu soda cáustica.

Ela sai do hospital amparada pelo chofer de praça, que se torna seu marido, pouco tempo depois. Mas não desliga o GPS continua acompanhando as passadas de Antenor e enviando postais dando conta da sua vida, da sua televisão à cores, seu canário e seu cachorrinho chamado Perereca. Apesar das constantes mudanças de emprego do rapaz ela o localiza e escreve colando um amor- perfeito seco na carta. E os anos foram se passando, e as cartas da Pomba Enamorada se sucedendo, até que, no noivado da sua filha caçula foi a uma cartomante que disse que ela fosse à estação rodoviária no próximo domingo, onde veria chegar um homem que mudaria por completo sua vida, cujo nome começava por A.

No domingo, ela deixa a neta com uma comadre, veste o vestido azul-turquesa das suas bodas de prata, confere que o horóscopo do dia lhe é favorável e  vai à rodoviária.

O final do conto está aberto. Se o leitor for muito positivista vai pensar que ela irá encontrar Antenor e ele mais uma vez vai rejeitá-la com grosseria. Caso o leitor seja romântico ao extremo, fará o seu final com Antenor e Pomba Enamorada caindo nos braços um do outro. Ou ainda, se ele for cético vai deixá-la horas aguardando na rodoviária em vão, porque ninguém pode dar crédito ao que diz uma cartomante. Enfim, brincamos um pouco na Oficina com os possíveis finais do conto e os viageiros ficaram de dar continuidade, escrevendo eles mesmos o que aconteceu nesse encontro, desencontro ou qualquer que seja, porque como escritores muito criativos, eles irão dar asas  à imaginação.

Lygia Fagundes Telles é uma das maiores escritora do Brasil. Transformar uma história comum de amor não correspondido numa obra literária de tamanha beleza é preciso muito maestria. Que venha o grande prêmio literário para ela!

Jaboatão dos Guararapes, 12 de setembro de 2016

Lourdes Rodrigues

 

Votos Partidos (Broken wows or Donal Og)

Na última quarta-feira, Anita Dubeaux nos trouxe um belíssimo poema Gaélico, anônimo, da Irlanda, do século VIII, traduzido para o Inglês por Lady Gregory, irlandesa. Ele recebeu o título em Inglês de Broken Wows, mais também é conhecido pelo seu título original Donal Og.

Ela o ouviu pela primeira vez no filme de John Huston, Os Vivos e Os Mortos, 1987, baseado no conto de James Joyce, Os Mortos. Durante muito tempo ela procurou o poema e somente muitos anos depois conseguiu, enfim, achá-lo, na tradução de Lady Gregory (a mesma utilizada no filme, de forma incompleta). Este foi o último filme de John Huston que ele já o fez amparado pelos assistentes, com uma máscara de oxigênio ao lado, pronta para ser utilizada, tão grave era o seu estado. O cineasta morreu antes do seu lançamento em Cannes, pouco depois de concluído. Em entrevista, ele havia dito que James Joyce havia sido o escritor que ele mais “sentira” na vida. Com o filme ele presta sua homenagem ao escritor.

A tradutora do poema, Lady Gregory, também, irlandesa, manteve a estrura gramatical do poema original, porém, com o que os críticos chamam de lírica econômica: reduziu o poema de 14 estrofes para 9. O poema em Inglês ganhou ainda mais força e beleza. A contribuição de Lady Gregory para o renascimento literário irlandês foi considerado inestimável tanto pela tradução das lendas, contos populares e baladas do gaélico original, como, e principalmente, pela forma como o fez tornando a língua disponível para qualquer pessoa não irlandêsa. Com Yeats e outros ela fundou o Teatro Literário Irlandês e o Teatro Abbey e escreveu inúmeras peças de teatro.Lady-Augusta-Gregory-001

Anita nos trouxe a tradução de Lady Gregory, a tradução para o Português, e o link para assistirmos o trecho do filme em que ele é recitado pelo personagem Sr. Grace. Foram momentos encantadores vividos na última quarta-feira que trouxemos para compartilhar nesse blog.

Broken Wows

It is late last night the dog was speaking of you;
the snipe was speaking of you in her deep marsh.
It is you are the lonely bird through the woods;
and that you may be without a mate until you find me.

You promised me, and you said a lie to me,
that you would be before me where the sheep are flocked;
I gave a whistle and three hundred cries to you,
and I found nothing there but a bleating lamb.

You promised me a thing that was hard for you,
a ship of gold under a silver mast;
twelve towns with a market in all of them,
and a fine white court by the side of the sea.

You promised me a thing that is not possible,
that you would give me gloves of the skin of a fish;
that you would give me shoes of the skin of a bird;
and a suit of the dearest silk in Ireland.

When I go by myself to the Well of Loneliness,
I sit down and I go through my trouble;
when I see the world and do not see my boy,
he that has an amber shade in his hair.

It was on that Sunday I gave my love to you;
the Sunday that is last before Easter Sunday
and myself on my knees reading the Passion;
and my two eyes giving love to you for ever.

My mother has said to me not to be talking with you today,
or tomorrow, or on the Sunday;
it was a bad time she took for telling me that;
it was shutting the door after the house was robbed.

My heart is as black as the blackness of the sloe,
or as the black coal that is on the smith’s forge;
or as the sole of a shoe left in white halls;
it was you put that darkness over my life.

You have taken the east from me, you have taken the west from me;
you have taken what is before me and what is behind me;
you have taken the moon, you have taken the sun from me;
and my fear is great that you have taken God from me!

Votos Partidos*

Era  tarde a noite passada.
O cão falava de você.
O pássaro cantava no pântano.
Falava de você.
Você é o pássaro solitário das florestas.

Que você fique sem companhia,
Até achar-me.
Você prometeu e me traiu.
Disse que estaria junto a mim
Quando os carneiros fossem arrebanhados.

Eu assobiei e gritei cem vezes.
E não achei nada lá,
A não ser uma ovelha balindo.
Você prometeu uma coisa difícil.

Um navio de ouro sob um mastro prateado.
Doze cidades e um mercado alegre em todas elas.
E uma branca e bela praça à beira-mar.
Você prometeu algo impossível.

Que me daria luvas de pele de peixe.
E sapatos de asas de ave.
E roupa da melhor seda da Irlanda.
Minha mãe disse para eu não falar com você.
Nem hoje, nem amanhã. Nem Domingo.

Foi um mau momento para dizer-me isso.
Como trancar a porta após ter a casa arrombada.
Você tirou o leste de mim.
Tirou o oeste de mim.
Tirou o que existe à minha frente.
Tirou o que há atrás.
Tirou a lua.
Tirou o sol de mim,
E meu medo é grande.
Você tirou Deus de mim.

Cena do filme Os Vivos e os Mortos, John Huston:

XX Jornada de Estudos do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise

Pandora_ John William Waterhouse. Pandora, 1896, óleo sobre tela, 152 cm × 91 cm, coleção particular (2)

XX Jornada de Estudos do Traço Freudiano
Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise
Nobile Beach Hotel – 03 e 04 de junho de 2016

O TRAÇO FREUDIANO VEREDAS LACANIANAS ESCOLA DE PSICANÁLISE tem a honra de convidar aos seus membros, às instituições psicanalíticas e a todos os interessados pela Psicanálise a participar da sua XX Jornada de Estudos que ocorrerá nos dias 03 e 04 de junho de 2016 no Nobile Beach Class Executive.

As inscrições para participação na Jornada e/ou apresentação de trabalhos já estão abertas através do e-mail da Secretaria do Traço Freudiano ou na sua sede institucional. No caso de inscrição para apresentação de trabalhos, o prazo encerrar-se-á no dia 20 de maio – prazo máximo para o envio do título do trabalho.

As inscrições serão limitadas ao número de vagas nos horários disponibilizados para a realização do evento e encerradas, imediatamente, logo que preenchidos tais horários.

A Comissão Organizadora.

Luciane Batista
Marcelo Veloso
Roberta Aymar

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Soneto da Separação

Na penúltima quarta-feira a leitura do poema foi feita por Eleta Ladosky que nos levou Vinicius de Moraes com o Soneto da Separação. Desde que esse momento poético na Oficina foi criado, Vinicius já foi levado algumas vezes o que denota claramente como os oficineiros gostam do poetinha.

Soneto de separação

Vinicius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Eleta fez uma análise do poema tão lírico, chamando a atenção para a beleza das metáforas criadas pelo poeta para expressar a dor de uma separação amorosa. A gravação que Ellis e Tom Jobim fizeram do poema em 1974, deixa bem evidente o drama do casal de amantes que se separa.

O Patinho feio

O patinho feio

*Luzia Ferrão

O mundo é belo! Resplandece em cores, sons e sombras também necessárias! Faz parte neste ideário mundo esperar, uma espera planejada, limitada pelo conhecimento e pela experiência, do acaso falsamente certo. A fragilidade da certeza se antepõe ao conhecimento, impacientando o tempo da espera. Se existe fato, quase sempre, recorrente, quando o “inesperado faz uma surpresa” na forma ou no conteúdo, ou nos dois, é uma “graça” alcançada, medida pela quantidade. Se cinco são perfeitos, valeu a pena o empreendimento, o sexto é excludente. Viva! Deixemos como resto, o resto que receberá uma parte do legado, na forma de aprendizado, proteção, carinho como cumprimento da obrigação imposta, como dever inquestionável, mas, se possível, afastado.

No modelo de beleza, o feio é o destoante, é o mal que deve ser perseguido e afastado, talvez extinto. Impedi-lo de se reproduzir é uma tarefa nossa preservando a natureza de tudo que é bom e belo. Guiem-se pelos sons, pelas cores, pelos cheiros que elevam a natureza de todas as coisas. A grandeza do mundo se faz através deste compartilhamento: “Louvando o que bem merece, deixando o ruim de lado.” A louvação não é questionável, é agregadora, é segurança “na saúde e na doença”. Venceu a peste! “O mundo é assim” não matem, deixem que O MUNDO se encarregue do diferente. Está vendo aquele mais belo que você? Respeite, siga o exemplo, bajule e O MUNDO reservará um lugar de destaque para você. Mas, provavelmente, palavra horrível, se quer continuar feio, sem os requisitos que possam transformá-lo de insignificante pinto em belo cisne, missão quase impossível, supere o medo, a resignação, a angústia de ser um pobre coitado rejeitado sem espaço NO MUNDO ou escolha morrer. Talvez por generosidade, ou outro sentimento, existem grupos que acreditam e colaboram com o MUNDO DOS FEIOS.

O final feliz como forma absoluta só existe nos contos, nas fabulas, olhe ao redor: hoje é verão, inverno ou primavera? Escolha em que parte DO MUNDO quer viver.

  • * Luzia Ferrão – professora universitária, assistente social, contista, ensaísta.