Viageiro em ação

Dividindo o tempo entre a Psicanálise e a Literatura, escrevo alguns contos que às vezes me confunde em que momento estou. O ato de escrever, em muitas ocasiões, parece-me com aquele instante do despertar, que ainda confusos não sabemos se foi sonho ou um acontecimento da realidade. A voz narrativa nos conduz a aventuras inesperadas. A escrita desses pequenos contos foi assim, escrevia e reescrevia sem parar, até que um dia consegui afastar-me deles e enviá-los à Oficina. Depois atendo à tentação de nova aproximação. Que novela!
Everaldo Soares Júnior
João pessoa, maio de 2019

MEMORAÇÃO

Everaldo Soares Júnior

Pensando bem, se é possível pensar assim, foi a tempo de se perder nas lembranças. Não sei o que aconteceu, aconteceu, o instante se fez, nada de nada, nem pressa ou demora, mais nada. E o mesmo se repetiu.

Alguma franja avermelhada no horizonte do céu com a terra sinalizava que era o anoitecer, hora de descansar o peso do corpo na linha comprida da terra. Abri o saco, passei a mão por dentro catando um resto de comida para enganar o ronco do estômago.

Estirado no chão, olhei para cima. Tudo estrelado, nuvens passando, escuro nenhum, a lua começando a aparecer majestosa.

No meio do moído de dores, um pensamento me subiu à cabeça: o que aconteceu, aconteceu, havia mesmo de parar aqui. Não esqueço, vi a cara de espanto dela escorada na cama, o barulho que ouvira foi da banda da janela batendo e logo a zoada do pulo no chão do terreiro. Ligeiro, com a pistola na mão, passei pela porta de trás da casa, nem precisou fazer mira, puxei o gatilho, escutei três estampidos e a pólvora sombreou a minha mão direita.
Peguei o saco, enchi com o que pude e saí desatinado pelos matos afora.

Agora não necessito de volta, aconteceu, aconteceu, um fiapo de tempo sem sentido mudou o rumo da vida. Fazer o quê?

O que insistia era a lembrança do verde de folhas novas dos seus olhos, o cheiro de jasmim, a respiração ofegante no meu pescoço, a pele macia, arrepiada e o coração batendo apressado. Beleza, seu corpo amparado nos meus braços.

Vai passar, o que aconteceu, já aconteceu, arrependimento de nada adianta, melhor que fique cada um no seu lugar.

Acontece

Everaldo Soares Júnior

Há momentos que não consigo me dominar. Não tinha nada que me alterar daquele jeito. Ela ficou calada e baixou a cabeça, logo vi a besteira do meu descontrole. Saiu de casa e por azar meu, encontrou-se com aquele Nilson no portão, muito intrometido. Demoraram mais de meia hora conversando.
Cara, você tem que maneirar mais. Ela ficou sentida.
Sei, Nilson, mas depois resolvo. Agora vamos terminar esse trabalho chato.
Concordo, já não é sem tempo.
Queria dormir cedo, a amiga insônia chegou e veio com seu parceiro, o coração apressado. Vou telefonar.
Quero conversar, tem coisas em mim que, por mais cuidado que tenha, não controlo.
Agora não, amanhã, às quatro horas no Café da Praça.
Certo, até amanhã à tarde.
Mais calmo, vou dormir, ajeitei os travesseiros. Na mesa cabeceira apalpei a caixa de balas da pistola que trouxe para casa.

Moço, por favor, traga-me uma água com gás e um café simples.
Pensei em já encontrá-la aqui. O coração acelerou antes da hora.
Lembrei do cardiologista, depois de me auscultar e ler meus exames, ele falou: os resultados estão ainda na faixa da normalidade, mas vamos cuidar dessa arritmia.
E a pressão arterial?
Procure relaxar, que a máxima está 160, mas acontece que a mínima não passa de 90 e isso é o que nos interessa no momento, vou medicá-lo.
Procuro argumentos para justificar esse destempero e eu mesmo não me convenço. As brigas dos velhos ainda ressoam no meu destempero. As chateações do trabalho, o trânsito infernal, o cansaço, minha solidão maior que a dos outros, desamparo amoroso. Que nada, tudo besteira para justificar a atrapalhação que faço. No início é um calor no corpo todo, logo, logo, vem a raiva que espanta e afasta qualquer pensamento. O arrependimento não adianta nada. Volta tudo de novo.

Está demorando muito, será que vem? Ainda não consegui acabar o amor todo de seu coração. Assim espero.
Moço, mais um café.
Acho que enchi o saco com o desmedido, ficou triste e foi embora, pronto terminou.
Será? Também não fui só ruim assim. Uma vez vi na televisão um documentário sobre a visita de Vinicius ao amigo João Cabral de Melo Neto, em Sevílha. Grande festa organizada pela filha do João. O Poetinha pegou o violão e começou a cantar uma bossa nova que falava do amor e do coração. Distingui uma voz rouca e baixinha lá no fundo da sala que dizia, essa é a única víscera que ele sabe cantar? Puxa, chamou o coração de víscera. E muita gente deu risada.
Alô, sim sou eu, mas agora não, estou aguardando uma pessoa me ligar, amanhã conversamos sobre a reforma desse escritório, desculpe.
Está atrasada, ontem ficou com lábios cerrados, pálida e a testa franzida, olhos sem expressão, foi embora sem despedida. Também a repetição se tornou tão frequente. Via o seu rosto cada vez mais triste, muito diferente do dia que a conheci. Foi na festa do Nilson. Aproximei-me da mesa do aniversariante e logo a notei, parecia uma rosa sorrindo. Parei, tomado de simpatia, irradiava atenções, falava com as pessoas, ficou dançando solta numa roda animada.
Fiquei bem perto da animação e fui descoberto pelo seu olhar. Estendendo nossas mãos chegamos próximos e começamos a dançar juntos.
O telefone dela está fora da área ou encontra-se desligado. Não vem e nem quer falar comigo.
Pareço aquele personagem, Juan Pablo, de Ernesto Sábato, do livro O Túnel. Tudo tinha de ser como ele dizia. Usava as palavras da moça para argumentar contra ela. Humilhada, concordava e ele ainda ficava satisfeito. Não, assim é demais, também sofri, a disritmia é a prova disso. Tivemos momentos encantadores, inesquecíveis, olhávamo-nos nos olhos, seu corpo macio junto ao meu, abraçados assim, o tempo desaparecia. Espere, são quase seis horas, estou aqui há mais de duas. Podia ter me casado com ela, agora teria filhos, casa, quem sabe se eu não estaria melhor dessa mortificação.
Alô Rosa, estou lhe ouvindo bem.
Ernesto, estou no hospital, acompanhando meu pai.
O que foi que ele teve?
Uma arritmia e a pressão arterial subiu muito, está na U T I.
Bom, se a mínima não ultrapassou 90 mm de Hg, pode ser medicado e logo vai melhorar. Qual é o hospital?
Acontece que a mínima ultrapassou os 90, eu vim com Nilson, não se preocupe.
O coração disparou.
Está bem, depois a gente se vê
Garçom, traga-me aquele conhaque espanhol, pode ser duplo e a conta.
Bebeu sorvendo de gole em gole.
Levantou-se devagar, saiu com passos largos até a calçada.
A avenida era um corredor. A passagem de pedestre era no final da quadra mais adiante. Parado, resolveu atravessar ali mesmo. Com passos largos começou a travessia movimentada e perigosa. Nos primeiros metros foi mais rápido que os carros, depois um automóvel de luxo parou em cima dele, cantando os pneus. O motorista gritou bravo, mas ele não deu ouvidos. Continuou andando depressa até o estacionamento
O carro estava limpo, foi lavado e lubrificado. Abriu a porta, sentou-se. Encontrou no porta-luvas a pistola. Ligou o som na música que gostava, respirou pausadamente, com a mão direita levou a arma até a cabeça, do lado direito, acima da orelha. Continuava respirando devagar. Sabia que tinha que apertar ligeiro o gatilho.

João pessoa 5 de maio de 2019.

Guarda-roupa

Fernando Gusmão

A Cruz dos Sete Andares

No verão, ao anoitecer, quando o calor é menos intenso, agradava-me fazer longas caminhadas pelas fraldas da Borborema, na companhia do meu tio Lucas. Não havia rocha, ruína, olho d’água ou vale solitário que ele não soubesse de alguma história estrambótica para contar. Narrativas envolvendo viageiros e tesouros, pois nunca houve alguém tão afeito para esbanjar conteúdos de cofres escondidos e de tesouros perdidos como tio Lucas, tio-avô, irmão do pai do meu pai. No fim da vida, ficou conhecido em Campina Grande pelo nome de Guarda-Roupa por andar sempre vestido com muitas roupas.

— O que é aquela cruz sobre uma pilha de pedras, em direção à estreiteza da ravina, meu tio?

— Ah! Não é nada, apenas um tropeiro, meu conhecido, que foi assassinado, há alguns anos.

— Se entendo, meu tio, havia assaltantes assassinos quase na entrada de Campina?

Essa conversa aconteceu no dia em que tínhamos partido para uma daquelas longas caminhadas e subíamos um caminho rampeado, tio Lucas mais comunicativo que de costume, quando vimos uma enorme cruz meio arruinada, ao pé de umbuzeiros e gameleiras.

— Esta é a Cruz dos Sete Andares!

E mostrou as pedras ao pé do lenho, a marca meio apagada, que parecia o INRI, mas que, apurando a vista, vi que era algo como 51RN, gravada a fogo e desbotada. Falou em tom baixo que ali morava uma assombração desde o tempo em que os mouros tomaram o Cariri, vindos dos lados de Sevilha e Granada. Esse fantasma, murmurou, aparecia na forma de um cavalo sem cabeça, mas com orelhas, botando fogo pelas fuças, perseguido por seis cães, que latiam e lançavam uivos terríveis.

— Você já o viu? – Perguntei.

— Não, graças a Deus, não! Mas, meu avô, amigo do alfaiate, conheceu muitas pessoas lá em Patos que toparam com ele. Antigamente aparecia com mais frequência do que agora, sob uma ou outra forma. Todos em Cajazeiras e Patos já ouviram falar do Orelhudo e as avós assustavam as crianças chamando por ele quando os meninos faziam o malfeito. Diziam os mais velhos que era a alma sofrida de um cruel rei mouro, que matou seus seis filhos e os enterrou por aqui.

Abstenho-me de contar os detalhes surpreendentes, na maioria das vezes, simples e pueris, que me deu tio Lucas sobre este respeitável fantasma e sobre a Cruz que ele dissera ser cópia da que existiu em Granada, à porta onde Boabdil, também conhecido como al-Zugabi (“O desafortunado”), veio a entregar sua cidade aos Reis Católicos.

Andando, cursávamos agora uma área bem arborizada, ouvindo dois ou três nambus lançarem ao ar trinados pouco harmoniosos. No meio do arvoredo, algumas cisternas estilo mourisco e uma porta cortada no coração da rocha, mas obstruída naquele momento. Ali havia alguns açudes que, contou meu tio, eram os favoritos dele e de seus companheiros de infância, mesmo eles sabendo da história do hediondo Zanatas, que costumava sair pela porta da rocha para levar para o Hades banhistas incautos, que por ali se atreviam a tomar banho.

Maravilhosos arvoredos, semelhantes aos do Generalife, ficavam para trás enquanto continuávamos nosso pisar, descendo por uma trilha solitária e chegando ao campo sem fim, triste e melancólico, desnudo de árvores e pontilhado pela caatinga. Tudo o que se via era estéril e quase impossível de se conceber que, a uma curta distância de onde estávamos, existissem pomares floridos. Esse é o clima da Borborema: selvagem e duro, mas onde a seca e o jardim convivem, dizia tio Lucas, feito o amor e o desamor: sempre atrelados um ao outro.

Tropeiros

Na Caatinga, tio Lucas ficava sempre mais animado. Aproveitei para saber um pouco mais sobre o assassinado. Ele, como que desconversou, começando a falar do tempo em que ganhava a vida como tropeiro, tangendo burros de carga entre Cajazeiras, Patos e Campina Grande. Andávamos e ele falava dos bons tempos em que se percorria o sertão a casco de burro. Eu, calado, esperava. Talvez saísse alguma coisa sobre o homicídio.

— Ganhava-se com as coisas naturais do sertão e o convívio com sua boa gente. Aquela nossa maneira de viajar, levando mercadorias em costas de animais, era testemunha de muita hospitalidade. Havia, quase sempre, confiança entre os viajantes e os senhores das terras e, à noite, cada um podia dirigir-se ao castelo mais próximo, certo de bom acolhimento. Dormia-se a bom dormir, após a caminhada diária de cinco a seis léguas, no passo miúdo das mulas seleiras, depois da ceia muito rica, onde nunca faltava carne de sol assada, farofa e queijo de coalho.

Tocando aqui e ali com a bengala de ébano moçambicano, finamente trabalhada, que sempre portava, aduzia:

— Mas também tinha espíritos-de-porco, como bem avisava Pedro Malasarte. Lembro de uma certa vez em que levava uma tropa no rumo de Floresta Nova, junto com um amarelinho, que havia tomado como sócio nessa expedição, cearense, por nome Raimundo Nonato, que me fora apresentado por um amigo cigano. Caía a noite e pedimos guarida em um castelo à beira da estrada, de muitas janelas e, também, de muitas seteiras, com um grande aprisco ao lado. Fomos atendidos. O capataz nos ajudou com os burros na estrebaria, mostrou onde dormir e nos levou para jantar. Na rica mesa, além de nós, um caixeiro-viajante e mais três tropeiros, dos quais um eu conhecia de vista. Foi aí que apareceu toda a maldade do barão e da sua consorte: pois, quando estávamos de colher na mão, prontos para nos deliciar com tantas iguarias, eis que se ergue o barão, que estava à cabeceira com a mulher, muito bem vestida, com uma mantilha de cetim aleonado forrada de tela de prata, e recita em tom peremptório:

— Estou feito e satisfeito, eu e minha mulher! E, assim, há de fazer, quem vergonha tiver!

Olhamos uns para os outros. Todos sertanejos fortes e de muita vergonha. E quando estávamos nos levantando, dispostos a ir dormir com fome, mas a dignidade preservada, o cearense amarelinho, baixinho, que só tinha cabeça, Raimundo Nonato, ainda sentado e de prato cheio, formando como que um cálculo, respondeu alto e esganiçado:

— Nem deixo o prato, nem arreio a colher! Como o que aqui está e mais o que vier!

O barão embasbacado, puxou a baronesa pelo braço e, balançando, como se tivesse tomado todas, desapareceu da sala. Comemos muito bem, do bom e do melhor. Dali, nunca esqueci um excelente rubacão de arroz-vermelho e um divino licor de jabuticaba, de Bananeiras, do Brejo paraibano. Enquanto ceávamos, um jovem copeiro nos explicou que o seu senhor era useiro e vezeiro nesse artifício. Quando os hóspedes saiam da sala para ir dormir com fome, ele voltava com a baronesa e se esbaldavam sozinhos na janta. Soube, tempos depois, que o barão de Floresta Nova tinha ficado, de tal modo, impressionado com o amarelinho, que lhe tinha dado a filha mais nova Isabelle em casamento, com um dote de cinquenta e uma cabras leiteiras.

Acordava-se, na maioria das vezes, tiritando de frio, naquele deleitoso Cariri, de planuras e serrotas elevadas pelos 600 metros sobre o nível do mar, esperando-se, ainda, na rede ancorada ao espeque da alpendrada, que o arrieiro aprontasse a fumegante chaleira de café. Enquanto isso, a burralhada da tropa mastigava o rijo milho sertanejo, que enchia os embornais.

Era, dizia meu tio, como viajavam senhoras, homens e senhoritas, figurões do comércio e da política, monsenhores, poetas e estudantes.

— Seu pai, eu me lembro, veio criança de Patos para Campina desse jeito. No lombo de uma mula, dentro de um caçoá equilibrado por uma saca de farinha de mandioca. Engana-se, porém, quem pensar que as noites naqueles ermos corriam silenciosas. Vozes mil de corujas, bacuraus, tetéus, caborés, mães-da-lua acompanhavam-nos pela estrada, quando à noite viajávamos à suave luz do luar, ou quando, cansados, dormíamos.

O caminho estreito, que agora trilhávamos, chamava-se, falou Tio Lucas, Barranco Tisnado, porque no passado ali havia sido escondida uma sacola de couro de cabra com mais de 50 moedas de ouro e prata e um estranho monograma de letras e números, que tinha sido queimada em uma disputa com cangaceiros. Sobre essa sacola quem mais sabia eram os ciganos, que viviam nas cavernas das encostas da Borborema. Para meu tio, homens de bem, incapazes de fazer o mal a quem quer que seja. Muito menos a um tropeiro.

— Mas, um dos que viu o almocreve ser chacinado, morreu no mesmo dia, 28 de julho de 1938, em Poço Redondo, no sertão de Sergipe. Eu estava lá.

Zoraya

Aguardei mais. Ele, pensativo, fechou-se. Continuamos o caminho em silêncio, até o topo do penhasco, deixando para trás a Cadeira do Diabo, para onde teria fugido o infeliz Boabdil, enfeitiçado por Isabelle de Solis cristã, que havia sido feita prisioneira e depois converteu-se ao Islã com o nome de Zoraya, quando lhe fez uma declaração, que meu tio sabia de cor e recitou enquanto andávamos:

Zoraya!

Quando te vi, me apaixonei, padeci de coisa patente, senti o que nunca pensei, n’alma, no corpo, na mente. Pareceu uma mundrunga, talvez mesmo, bruxaria. Sortilégio, feito macumba, bagata, bozó, feitiçaria. De pai-de-santo, despacho; da parte de bruxa, mandraca.

Na certa, mandinga sacaca, coisa-feita de yara-macho. Trabalho sob’encomenda, braba e velha traquinice, com fungu de preta-renda; mais mocó que mandraquice.

Ei de fugir desse bruxedo, do mundo paranormal, com força libidinal perder do malfeito o medo, tomar energia primal (antes engano que ledo) e, com o milagre do sal, lavar do caborje o azedo, destruir a preta mandê, em Alhandra não mais ir, de fantasmas passar a rir: pra pensar só em você!

Chegamos, finalmente, àquela parte mais alta da serra. Ao cair da noite, o sol dourava os pontos mais elevados da paisagem. Aqui e ali podia ser visto um ou outro vivente tangendo burramas cansadas, acelerando a caminhada para chegar às portas da cidade antes do anoitecer.

De repente, o grave som de um sino (ou teria sido um longínquo trovão?), veio através dos campos e vales, proclamando a hora da Oração. O toque foi glorificado pelas arribaçãs nos galhos mais altos das algarobas. Tio Lucas, ao pé da colina, tirou o chapéu enfeitado de espelhos e ficou por um momento imóvel, rezando contrito a oração vespertina, prestando homenagem e agradecendo a Deus pelas misericórdias do dia. Parecia que alguma santidade, momentaneamente entre nós, irmanava-se ao espetáculo do sol afundando esplendidamente no horizonte, numa majestosa solenidade. Na ocasião, o efeito foi mais surpreendente por conta do aspecto selvagem e solitário do local. Estávamos em um planalto nu e agreste, com ruínas que falavam de antigas gentes. Enquanto andava por entre os entulhos, meu Tio apontou com sua bengala um buraco circular que parecia penetrar no coração do morro. Era, sem dúvida, uma cisterna profunda, aberta pelos incansáveis ​​mouros para tirar e preservar seu elemento de maior valor com a mais possível pureza. Tio Lucas saiu do seu mutismo e me segredou que, na verdade, o buraco era a entrada oculta para as cavernas subterrâneas da Serra, onde Boabdil e sua corte se esconderam dos espanhóis e dos mouros.

O crepúsculo neste clima é de curta duração e nos avisou que era hora de deixarmos esse rincão maravilhoso. Quando descemos as encostas já não se via muita coisa. Sobrava só o chilrear dos nossos próprios passos. As sombras do vale se tornaram mais densas, até que, de repente, tudo escureceu ao nosso redor. No céu, um vago brilho da luz do dia; os altos da Borborema, como que cobertos de neve, brilhavam no azul do firmamento, e parecia que estavam bem perto de nós, dada a extrema pureza do ar.

— Quão perto a Serra está! Parece que pode ser tocada com a mão e, no entanto, fica a léguas daqui!

Enquanto meu tio falava, uma estrela apareceu no céu. Tão pura, grande, brilhante e bonita, que o fez exclamar num transporte de alegria: “ó que linda estrela! Tão clara e limpa! Pode haver outra mais brilhante?”

Notei várias vezes essa sensibilidade do sertanejo para com os encantos das coisas naturais. O fulgor de uma estrela, a beleza e a fragrância de uma flor, a corrente cristalina de uma fonte, inspiravam uma espécie de alegria poética; e então, frases mais que bonitas falavam, numa linguagem magnífica, seus transportes de alegria.

— Mas que luzes são essas, Tio Lucas, que vejo coruscar por todo arredor? Pareceriam estrelas se não fossem vermelhas e não brilhassem nas saias da Borborema!

— Aquelas, meu filho, são as fogueiras que iluminavam os caminhos de Granada. Os almocreves, com suas mulas, iam até a Serra todas as tardes e se revezavam, alguns descansando, aquecendo-se nas fogueiras; outros enchiam os matulões de neve. Depois, desciam e chegavam aos portões de Patos, antes do amanhecer. A Borborema, meu filho, é uma montanha de gelo colocada no meio da terra para que a Paraíba sempre fique fresca durante o verão.

Procissões

Estava completamente escuro e voltamos atravessando a garganta, onde restava a cruz do tropeiro assassinado. À distância, lusco-fuscos se moviam. Mais perto, deu para perceber que eram tochas carregadas por um cortejo de estranhas figuras vestidas de preto. Parecia uma procissão horrivelmente sombria na crueza e solidão do lugar. Tio Lucas se aproximou de mim e disse, em voz baixa, que aquilo era um enterro: estavam carregando o cadáver do tropeiro assassinado para o Santo Amaro. É hoje! Meu coração começou a bater mais forte. Um mistério está para ser revelado, pensei. À medida que a procissão lentamente passava, os reflexos tristes das tochas iluminavam as feições sombrias e as vestes funestas dos acompanhantes e das carpideiras. O efeito era tenebroso; mas, foi ainda mais arrepiador quando o rosto do cadáver —de olhos abertos— foi banhado em luz, pois, segundo o costume espanhol, estava descoberto e via a cara do seu assassino. Permaneci por muito tempo apático, apalermado, seguindo com os olhos o préstito subindo pela Serra, tal qual outra comitiva de demônios levara um dia o corpo de um pecador para ser enterrado na cratera do Stromboli.

— Ah, meu filho! Exclamou tio Lucas. —Eu poderia lhe falar de uma procissão parecida que vi nessas serras, mas você iria rir de mim, pois dizem que é só mais uma das histórias que seu avô Bráulio herdou do alfaiate.

— Não, meu tio, conte, porque não há nada que mais me interesse do que suas histórias admiráveis (Era agora!).

— Bem, meu filho, você sabe que, há muitos anos, no tempo dos Reis a das Rainhas, havia em Patos um velho lorde da Pedra do Reino chamado Pedro Sánchez Pérez-Castejón, conhecido por todos como Mestre Pedro. Pois bem, certa vez retornava ele de Patos para a Rainha da Borborema, já era noite, quando terminou por adormecer na sela, balançando a cabeça para lá e para cá, deixando a mula seguir sozinha, pelas beiradas de precipícios, subindo encostas e descendo escarpadas ravinas. Depois de algum tempo, Mestre Pedro acordou, olhou para trás e ficou surpreso e espantado… E, de fato, havia motivo para isso! Porque, ao belo luar, que brilhava como o dia, viu perfeitamente Patos lá embaixo, com seus edifícios brancos como uma xícara de prata à luz da estrela da noite. Mas, por Deus, meu filho, não se parecia em nada com a cidade que ele havia deixado algumas horas antes! Em vez da igreja, com a sua cúpula e torre, o convento com suas escadarias, tudo encimado com a Santa Cruz, o que ele divisava eram mesquitas, minaretes e cúpulas adornadas por crescentes brilhantes, como são vistos nas bandeiras bérberes. Enquanto estava abestado, olhando para aquela impossível cidade, um extraordinário cortejo subiu a Serra. Eram soldados de infantaria e cavalaria, armados à moda mourisca. Mestre Pedro tentou sair do caminho, mas sua mula velha empancou e se recusou a dar um passo. Parado, tremendo, ele viu a comitiva fantástica passando por eles. Entre os guerreiros, alguns aparentemente tocando trombetas, e outros, tambores e címbalos. Nenhum som era ouvido, todos marchavam sem fazer o menor estalido, rostos pálidos como o de Abaddon. À frente, entre dois mouros negros a cavalo, o Grande Inquisidor de Granada em uma enorme mula branca como a neve. Mestre Pedro sabia que o Cardeal era famoso por seu ódio aos mouros e a todos os tipos de infiéis, judeus, hereges e cangaceiros, que perseguia a sangue e a fogo. Na presença da autoridade católica, sentiu-se seguro. Fazendo o sinal da cruz, pediu sua bênção. Em resposta, sentiu um chicote golpeando-lhe a cabeça. Ele e sua mula caíram no fundo de uma loca, rolando algumas vezes de ponta-cabeça e outras tantas de pé. Enquanto rodopiava, passou pela mente do Mestre que havia voltado ao sertão de Sergipe: era noite, chovia muito. Ele e os compartes em barracas. Viu quando se levantarem pela manhã para rezar o ofício e preparar o café. Mas, quando deram por conta, já era tarde. O ataque durou cerca de vinte minutos e poucos conseguiram escapar ao cerco e à morte. Dos trinta e quatro presentes, onze acabaram ali mesmo. Outros foram presos. Ele e mais três conseguiram escapar. No sonho, os volantes, eufóricos com o sucesso da empreitada, tomaram conta dos bens do bando e mutilaram os mortos. Levantou-se no fundo da ravina e ainda deu para ver, no fim do desfile, em uma leva de acorrentados, Colchete e Macela, Quinta-Feira, Mergulhão, Luís Pedro, Elétrico, Enedina, Moeda, Alecrim e Raimundo Nonato.

— Então, tio Lucas, isto aqui está mais para uma espécie de limbo mourisco? No meio dessas serras, para onde o Padre Inquisidor foi levado?

— Não, pelo amor de Deus, meu filho! Eu não sei nada sobre isso. Eu só conto o que ouvi do seu bisavô, marido de Zoraya.

*Fernando Gusmão é engenheiro, administrador de empresas, poeta, contista, cronista, ensaísta.

Uma Quarta-Feira muito especial

As quartas-feiras – dia do nosso encontro na Oficina de Criação Literária Clarice Lispector – são, sempre, muito especiais. Leituras de obras de autores clássicos, aqueles que ocupam trono no panteão dos deuses da literatura, ou de autores mais atuais, porém, de reconhecido lugar no mundo literário, nos levam a intensas viagens pelos mundos das palavras. Também, as produções dos próprios viageiros – participantes da Oficina – encantam essas tardes, tanto pela tessitura dos escritos como pela criatividade deles.

Os trabalhos são começados, sempre, com alguns poemas. Sentíamos que a chegada à Oficina, o encontro com os companheiros de muitas viagens deixavam-nos muito excitados, necessitando de algo muito forte que nos fizesse mergulhar dentro de nós mesmos para acalmarmo-nos e prepararmo-nos para os trabalhos. Por isso, surgiu o Momento Poético. Mas, de um mero recurso para trazer-nos a calmaria necessária à viagem que iríamos empreender, esse momento cresceu, ganhando espaço maior, conquistando-nos de tal forma que hoje, temos dificuldade de cumprir a programação para a tarde, tão enlevados que ficamos com a leitura dos poemas e as falas sobre os poetas que são trazidos.

Aqui está uma quarta-feira muito especial, na qual os escritores da casa fizeram e comandaram a festa.

O cenário do semi-árido nordestino, da estiagem prolongada, da dura e cruel seca do sertão esteve presente no poema de Lília Gondim, Ciclica Estiagem e na prosa poética de Elizabeth

CÍCLICA ESTIAGEM

Lília Gondim

Triste gente de semiárida vida,

deixando pra trás casebres,

 os seus minguados pertences;

promessas, feitas p’ros céus,             

já  muitas vezes cumpridas.





Vagam, em fila, impotentes,

procurando o que foi rio,

outrora tão caudaloso.

Hoje, o que sobra é um fio

de água turva, empoçada,

alento mais que insalubre

pr’os que conseguem chegar,

sendo bicho ou mesmo homem.





É trágica a estiagem !





Outros já partiram antes,

desde que a roça secou.

Reza nenhuma ajudou!

Todo o gado, esfomeado,

murchou e se abandonou

pela terra ressecada,

em largas fendas rachada.





Dos filhos, irmãos, avós,

Só restaram mesmo as ossadas.





É tétrica a estiagem !

É só fome, sede, morte…





Vão-se em busca de outro norte,

de terras sempre orvalhadas,

quiçá, vida de mais sorte!





E a chuva os trará de volta,

Esquecem a desesperança.





Pelos sítios, nas noites invernais,

cantarão outras novenas,

farão novas louvações

e puxarão “incelênças”

lembrando dos que ficaram

nessa  árdua caminhada.





Trabalharão confiantes

na força da sua enxada

e no seu amor ao rio,

novamente tão crescido,

burburinhando  entre as pedras.





No fundo calam a certeza

de que muitas outras vezes,

como o fizeram seus pais

 e, antes, os seus avós,

trilharão a atroz jornada.





Partirão,

sempre que o sol,

teimoso, abrasante,

inclemente e tórrido,

desafiando os seus santos,

expulsar da terra a chuva.

Triste gente de semiárida vida…

Desesperança

Maria Elizabeth Freire


As chamas balançam amareladas e tímidas no pequeno fogareiro de barro. Uma panela de alumínio, machucada e sem tampa, tenta cozinhar a última porção de feijão. 

Lá fora o sol nasce insistente, afoito. Não se cansa de aquecer a terra dura e sofrida de onde nada brota. Até o roçado de palma murchou.

Os ossos de Mimosa estão espalhados pelo terreiro. Nem para os urubus servem mais. Não tiveram coragem de abatê-la enquanto ainda possuía alguma carne. Mimosa, não. Por tantos anos seu leite aplacou a fome e a sede dos meninos.

Katyelle Caroline com seus passos lentos e miúdos segue procurando Mimi. Desde ontem, o gatinho sumiu. Dimerson Janailson está sentado com Baleia ao seu lado. Gente e bicho sem forças para brincar.

No barreiro atrás de casa, lama. Só lama, que seca mais a cada dia.

Na cisterna, que algum governo construiu, os derradeiros litros d’agua são regrados com cuidado e medo.

Debruçada na janela, a mulher passa a mão pelo ventre saliente. Espia, com olhos melancólicos, os outros filhos lá fora. O homem continua deitado na rede. Balança para lá e para cá embalado pela desesperança.

A vida no sertão é para os fortes, já disse Euclides da Cunha. No entanto, hoje, até os fortes estão enfraquecendo. Os vizinhos foram embora para São Paulo há muito tempo, deixando a terra abandonada. Eles ficaram. O homem já trabalhou diversas vezes no Sul, sempre como servente na construção civil. Nunca quis levar a família para aquelas bandas. Sempre voltou. Às vezes, com algum dinheiro, outras, sem um tostão. Com dinheiro ou sem dinheiro, jamais aceitou sair do seu lugar neste mundo. A mulher bem que tentou convencê-lo a largar tudo e tentar a vida em outro canto. Inútil. Este sítio é nosso desde meu bisavô, mulher. A família fica onde eu quero, dissera várias vezes. Ela limitava-se a balançar a cabeça em sinal de desencantamento.

No chão de terra batida, Jamerson Clayton, nariz escorrendo, barrigão de vermes, engatinha choramingando. Vai em direção à mãe. Ela sai da janela e pega o bebê no colo. Dá-lhe um ralo mingau de farinha. O menino se cala alimentado pelo carinho da mãe. Adormece. A mulher suspira.

De repente, Mimi volta. A menina para. O bebê acorda. Uma Asa Branca passa cantando. O menino levanta-se. Baleia abana o rabo longo e fino. O homem sai da rede. A mulher mexe a panela no fogo. Vão todos para fora de casa. Olham para cima, admirando aquele céu lindo e cinzento. Um clarão risca no horizonte. Ao longe se ouve um estrondo bonito, forte. As crianças gritam, a do ventre se mexe. A mulher acaricia a barriga e quase sorri. O homem olha o céu mais uma vez e volta para rede.
 

Outros poemas

Lília Gondim


SÓ MARIA


Já tinha sido A Maria:
Maria Amada, Maria Tudo...
Essa certeza,
bem lá no fundo de Maria Coração,
calava um sentimento
de Maria Importante,
Maria Querida, Maria Amiga,
Maria Desejada, Maria Companheira,
Maria Mulher.
 
Surpreendeu-se um dia,
com a indefinição do artigo
que precedia seu nome.
 
Por não ser mais A Maria,
Tornou-se UMA Maria:
Maria Indeterminada, Maria Indefinida,
Maria Sem Direção.
Maria Solta, perdida,
Maria Desesperada,
pensou ser Maria Morte.
Mas sendo Maria Amor,
queria, Maria, a vida:
Maria Contradição!
 
Dos pensamentos contrários,
gerou-se Maria Luta:
se não era A Maria,
também não Uma Maria!
Bastava ser SÓ Maria:
nem ser diferenciada
nem ser Maria Qualquer.
 
Seria apenas Maria,
Maria, toda Maria,
Maria feita de sonho,
Maria feita de amor.
 
Maria, ganhando a vida,
Maria mudando o mundo
junto a milhões de Marias,
lutando no dia a dia.
E descobriu-se por fim
uma Maria Maior!
 
 --------------------------------------------------
 


SEXTA FEIRA

A sexta vai ser bem dura,
começando, logo cedo,
no birô da Prefeitura.
No almoço,
engolir às pressas
qualquer comida pedida,
dessas chamadas de “expressas”.
 
Em seguida o pior...
Sair voando daqui,
dar aula em Tejipió.
Lá, na expressão corporal,
alongamento anti estresse,
a turma bem relaxada
e eu própria muito cansada
da minha vida apressada.
 
De lá direto pro CAC:
ensaio extra marcado!
No meio das partituras
dos sons de vários matizes
quase que somos felizes;
bemóis, sustenidos, pautas,
afinações e deslizes.
 
Mas pra compensar o dia,
só posso esperar,
mais tarde,
nossa verdadeira arte,
a de quem muito se ama:
um concerto de verdade,
belíssimo,
em nossa cama!
 
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Adelaide Câmara é uma viageira que insiste em dizer que não escreve ficção, apesar de todas as evidências provarem o contrário. A verdade é que escreve muito bem, com um estilo muito particular. No conto ora apresentado, O Dinheiro, o Amor, um Juiz, esse estilo está bem presente, onde a sagacidade, a ironia fina se unem a um registro cruel de uma realidade social perversa.

O Dinheiro, o Amor, um Juiz

Maria Adelaide Câmara

Trabalhava numa mercearia. Jovem ainda, um pouco gasta. Sonhava em manter-se, ajudar nas despesas da casa e ainda custear algum estudo.

O patrão, homem de seus trinta e poucos, barriguinha incipiente, agitava-se entre as amabilidades com os clientes e o caixa. Contratara-a para ajudar nas vendas e no atendimento. Queixava-se da coluna. Procurava alguém que pudesse substituí-lo em momentos de repouso forçado, muito raros, dissera. Ela era trabalhadeira, muito despachada. Assim, as crises do patrão podiam ser cada vez mais frequentes. O salário pingava quinzenalmente, no princípio com regularidade. Um desafogo!

Além dela, havia o encarregado de carga, descarga e estoque e um auxiliar para mandados e faxina, um meninote. Certo dia, o rapazote, surpreendido a sono solto, fora para o olho da rua.

 O patrão pediu à funcionária um ligeiro acréscimo de funções a que corresponderia remuneração extra, só enquanto procurava um substituto.

O tempo foi passando, o salário atrasando e o extra, dopado e adormecido na esteira das vendas enfraquecidas, atrelado à melhoria da situação nacional. Ela pau-para-toda-obra, ele nem pau nem obra.

Cansou-se. Para tanto trabalho haveria de ter um juiz. Achou-o. Ganhou a causa. Dez mil reais arbitrados como a ela devidos.

Uma semana depois, apresentam-se novamente ao juiz a empregada e seu patrão. Ela desistia da ação, haviam feito um acordo.

Macaco velho nas mutretas humanas, o juiz dispensa o patrão e interroga a moça. Depois de rodeamentos, considerando o togado um homem muito justo, conta-lhe que o patrão lhe propusera casamento.  Enfadado, o juiz quer saber por que se fiava nisso. E ela, como em todos os tempos, dá as razões do coração. O juiz manda chamar o noivo e determina-lhe depositar judicialmente um mil reais para a prometida, durante 10 meses, daquele momento até o casório.

Despedem-se e retornam a seus anteriores: o juiz às querelas alheias, a empregada a seu patrão, ambos aos secos e molhados.

Três meses depois, aparece ao juiz a empregada capionga e cabisbaixa. O casamento estava desmanchado.

Narciso está sempre presente nas nossas discussões, afinal a interface da Literatura com a Psicanálise e a Mitologia são frequentemente referidas nas nossas leituras, assim como nas escritas. Ricardo levou, nesse dia, contos sobre o Espelho que confirmam o que já se sabe dele, a grande maestria com as palavras, dessa vez, primando pela teoria do iceberg em que o que está aparente, na superfície do texto, é uma pequena parte do que está encoberto, do não dito.

ESPELHO

Ricardo Braga

Microconto

No espelho de si, narcísico não se enxerga

Mesoconto

Quarenta anos completos

Olha-se diante do espelho:

Bebê risonho, garota de perninhas grossas, peitinhos surpresa, peitos tesudos, executiva impetuosa, peitos minando leite, filhos queridos, filhos sugadores

Não dá mais, Jorge

Exaspero, desespero

Separação

Olha-se atentamente através espelho:

Rugas anunciadas, olheiras marcantes, lábios carecendo batom, olhos marejados de saudade

Interrogação… na fumaça do cigarro

Olha-se para além do espelho:

Corpo de velha

Amigos escassos

Ideias dissonantes

Solidão

Nega-se a continuar, abandona o espelho, corre à procura da mãe

Reconhece a escuta sem pressa, a fala não imposta, o criativo ócio de quem tem tempo para pensar.

Abraça-a como se fosse a si mesma, amanhã.

Um rei chamado Beethoven

Graça Lins trouxe para a Oficina a história de Beethoven, o cão de um morador de rua que vive nas cercanias da ponte da Torre, chamando a atenção de todos que passam por ali. Em cima de um carrinho de compras, muito bem acolchoado, Beethoven, que tem direito ao sobrenome de seu dono, está sempre coroado como se fora um rei, do reino da fantasia do seu dono. Tanto se falou dele que tornou-se personagem de vários escritos dos viageiros, numa demonstração de que a ficção nasce de fatos cotidianos, de observações do mundo real.

Amigos Inseparáveis

Ana Amâncio

Jurandir tinha família e sua vida era igual a de muitas pessoas. Ele tinha um emprego, não gostava muito do que fazia, mas não tinha disposição de jogar tudo para o alto pois os familiares dependiam dele.

Seus sonhos sempre ficando para depois e assim o tempo foi passando. Uma viagem de férias com toda a família, entretanto, não poderia ter dado mais errada, e um acidente foi fatal para todos, apenas, Jurandir, sofreu pequenos arranhões.

Sua vida, após o acidente, tornou-se insuportável. Ficou tão desorientado que andava sem destino e sem hora para voltar para casa. Algumas vezes ficava dias vagando sem comer, sem dormir, só pensando no que havia acontecido e que ele não pôde fazer nada para salvar sua família. E se perguntava: Por que tinha sobrevivido?  Não tinha resposta. Achava que era um castigo. Seu sofrimento era grande.

Após muitos dias caminhando, já não sabia mais onde morava, quantos dias estava fora de casa, muito desorientado e muito sofrido adormeceu numa calçada.  Aos primeiros raios do sol acordou com lambidas na cara. Arregalou os olhos e ainda sonolento vislumbrou um cão que só  fazia lamber a sua cara. Ele enxotou o animal, gritou com ele, mas de nada adiantou. Tentou voltar a dormir, mas o cachorro não deixou, queria brincar. Trouxe um pedaço  de pau e colocou junto dele. Jurandir não queria brincar, estava triste. O cão saiu correndo e trouxe uma bolinha velha, murcha e colocou junto das mãos dele, sem sucesso. Ele não desistiu até conquistá-lo e começarem a brincar juntos e se tornarem companheiros inseparáveis.

Ter um companheiro inseparável e muito leal faz toda diferença na vida de uma pessoa, ainda mais se sua casa for as ruas de uma cidade.

Muito Prazer, Jurandir

Maria Elizabeth Freire

 Eu sou Jurandir, figura conhecida entre os que moram ou passam por Casa Amarela. Sei que vocês têm curiosidade de saber como vim parar aqui com meu cachorro de nome imponente.

Nasci numa família de classe média. Tenho o segundo grau completo.  Levei uma vida normal, como dizem alguns, por muitos anos. Foi então que conheci Maria. Uma moça de olhar tristonho que me conquistou com o balanço dos seus quadris e aquele sorriso de Mona Lisa.

Casamos. Morávamos numa casa pequena, confortável e bem equipada.  Pensávamos em ter filhos, ao menos dois. Eu trabalhava num banco e Maria tomava conta da casa. Nunca quis trabalhar fora. Eu entendia. Minha mulher tocava piano desde menina. Mesmo com a casa sem muito espaço, conseguimos um cantinho para acomodar o instrumento. Ela passava horas tocando. Esquecia do mundo. Às vezes queimava o feijão, esquecia a roupa no varal, mas eu nunca me importei. Sua alegria quando me via chegar era tocante.

O tempo foi passando e nada de Maria engravidar. Começou a sentir-se só. Foi deixando de tocar piano. Fiquei preocupado. Seu olhar foi ficando dia a dia mais distante. Aconselharam-me, então, a comprar um cachorro para fazer companhia à minha mulher.

Quando cheguei em casa com aquela criaturinha frágil, necessitando de tantos cuidados, Maria nem ligou. Eu não sabia o que fazer. Deixei o cãozinho do lado de fora e fui deitar. Estava cansado e decepcionado comigo mesmo.

Maria ficou na sala, deitada no sofá, com aquele olhar vazio.

De madrugada, passei o braço procurando por ela e percebi que estava dormindo sozinho. Fui para a sala e vi uma cena que até hoje me enche o coração de alegria. Maria, sentada no batente da porta do quintal, embalando o cachorrinho cantarolando a Nona Sinfonia de Beethoven.

Ele estava chorando com frio e fome. Tive pena, ela disse. Dei uma mamadeira de leite e enrolei o bichinho neste lençol. Ele olhou pra mim com uns olhos tão meigos que não resisti e coloquei o danadinho nos meus braços. Cantarolei minha peça de piano predileta e ele adormeceu.

Demos a ele o nome de Beethoven. Passou a ser fiel companheiro de minha mulher. Vez por outra ela tocava alguma música no seu piano. Tudo ia bem, ao menos assim eu acreditava.

Então, num dia chuvoso, chego em casa e encontro Beethoven embaixo da mesa da cozinha, acabrunhado, triste.

Procuro por Maria. Entro na sala e noto algo estranho. O piano! Cadê o piano? Que diabos era aquilo? Gritei por Maria e não houve resposta. Corri pela casa toda à sua procura. Nada.

Voltei para a cozinha, o cão continuava no mesmo lugar, ainda mais triste. Apoiei-me na mesa e então vi um papel embaixo de um vaso. Um bilhete.

Tremi ao pegar o pedaço de papel. Li e reli mil vezes sem acreditar. Maria havia saído da minha vida sem explicação. O bilhete dizia: Vou te amar para sempre. Cuide de Beethoven. E um beijo de batom vermelho terminava a mensagem.

Daquele dia em diante, gastei tudo que tinha procurando Maria. Encontrei o velho piano numa escola de música. O proprietário me informou que uma moça bonita o havia vendido havia seis anos. Não tivera mais notícias dela. Chamou-lhe a atenção seus olhos lindos e melancólicos.

Perdi o interesse por tudo. Passei a viver assim na rua, sempre na esperança de ver Maria passar. Minha única alegria desde então tem sido Beethoven. Ele amou Maria tanto quanto eu.

QUATRO SENTIDOS

Quatro Sentidos

Graça Lins

          Meu dono insiste em dizer que minto quando eu digo que não escuto bem as buzinas. Mesmo a mais estridente de uma camionete, cheia de bananas, que passa diariamente. Observo o movimento frenético da rua, imagino ruídos que não escuto. Vejo as crianças indo à escola. Não ouço bem o que dizem, nem mesmo a fala do meu dono. O seu carinho em minhas orelhas é o bastante.

         Sinto os cheiros que se misturam, vindos da lanchonete. O aroma do café quentinho e do queijo frito que escorre do pão e penetram nas minhas narinas sem pedir licença.

        Minha casa? Um velho carrinho de supermercado, aconchegante e seguro.  Também serve para transportar meus sonhos . É nele que me aninho entre almofadões encardidos, doados pelos vizinhos.  E  é de lá que avisto a vida que não vivo.

       Um dia, meu dono me levou para conhecer o Museu que fica bem em frente ao Posto de combustível onde passamos boa parte do dia. Foi um passeio mais que curto porque “reguei” a estátua do jardim e o vigilante nos pôs para fora de imediato. Sei que queria me oferecer um dia diferente de todos os outros em que ficamos, no semáforo, pedindo dinheiro aos passantes.

       Ele me falou que vou ganhar uma companheira igual a mim, da minha cor e que tem olhos serenos e observadores como os meus. Só uma coisa irá diferir. Não terá coroa de Rainha, pois a minha de Rei ganhei no carnaval passado quando vi o maracatu desfilar.  Estava quieto, embaixo da marquise, mas meu dono me deixou ver de perto toda aquela realeza. Bombos enormes, uma grande sombrinha, um colorido indescritível e com certeza tocavam uma música contagiante que fazia todos dançarem de uma forma muito engraçada. Eu queria cantar também. Mas só uivava.

         Por não ouvir bem, aguço os outros sentidos. Foi aí que, um dia, vi meu dono envolver o pé com uma gaze e botar uma tintura de cheiro esquisito numa ferida que nunca existiu. Nesse dia, andou mancando e todas as vezes que o semáforo ficava vermelho as pessoas paravam seus carros e davam bem mais dinheiro. Tinham dó dele e nem me davam atenção. Acho que a esperteza valeu a pena. Com o que arrecadou, comprou comida para 3 dias.

        Fiquei farto com tamanho banquete e depois, durante a sesta, sonhei com um compositor famoso que, assim como eu, não ouvia bem.  Decerto é em sua homenagem meu nome de batismo: BEETHOVEN, ou seja, RÔMULO BEETHOVEN SOARES DE MELO.

Cada qual tem uma vida

                                      Fátima Pinheiro

Coroa de rei me veste, transito num carro acolchoado, mas minha vida não é a que parece, é vida de cão, acreditem.

Feliz me encontro de ter um amigo fiel, Jurandir, embora os outros pensem que é ele que me tem.  

Todas as manhãs, estendendo-se às tardes, passeamos por uma rua de destaque em nossa cidade. Não sou peça de museu, embora muitas pessoas me olhem com admiração, apenas desfilo em frente a um deles.

Eu, de olhar atento, aprecio o vai e vem dos carros sentindo o sol e a brisa me acarinhar.

A noite chega e o meu dono diz, Beethoven, hora de nos recolhermos. Um transeunte curioso avisa, Beethoven é nome de músico. Lato respondendo: Me deixa quieto, qualquer semelhança é mera coincidência.

                                                                     


C’est La Vie…

Salete Oliveira

Eu me coçava, as pulgas pulavam, rodava tentando alcançar o rabo, que agonia, as costelas ferindo o couro dos costados, um carro dobrou entrando na avenida, cantou pneus, dei um pulo ganindo, raspou na minha pata o pneu, me arrastando caí no gramado, ele dormia no seu papelão, coberto com andrajos, abriu um olho devagar, depois o outro, nos olhamos por um longo tempo, gani baixinho, as pulgas voltando a me picar, ele começou a se coçar, também, gritou: cachorro pulguento, ah não! Junto de mim só se for limpo e cheiroso! Sentou-se e me puxou, os carrapatos estalavam entre suas unhas, as pulgas corriam sobre o couro querendo fugir, assim raiou o sol, ele atravessou a rua e me deixou lá sobre o cobertor, voltou com sabão escova de metal e talco, ligou a mangueira após amarrar meu pescoço com camiseta velha e me segurar firme com a mão esquerda, banho gelado às seis da madrugada? Tremi e mijei ali sem tempo de levantar a pata, sem poste sem tronco, transido de frio, depois veio só alívio, a escova raspando meu couro, ele cortando os tufos embaraçados. Cortou também minhas unhas e passou um creme melado na pata dolorida, ardeu, mas aguentei, um cuidado desses fazia tempos que eu  não tinha… Era hora de sair a furar sacos de lixo das lanchonetes ao redor, já tinha a minha favorita ali perto, comia os guardanapos melados de molhos com restos de carne, queijos e pão, escapei e corri pela calçada, ele foi atrás, encontrei uma fatia de pizza, trinquei nos dentes e levei pra ele, arregalou os olhos e entendeu, olhou com olhar agradecido e comeu. Saímos a andar juntos, descemos a ponte para o outro lado do rio onde pessoas caminhavam toda manhã, sentados nos bancos velhos e babás, carrinhos de bebês cheirosos, espirrei perto deles, uma babá me enxotou, um velho disse, faça isso não, cachorros são muito mais sensíveis que nós… Encontrei amigos por lá, cachorros e também gatos, e ele me acompanhando, subi, à sua frente, pela outra ponte,  a tempo de ver estudantes em sua algazarra, entrando em faculdade e colégios, dessa vez caminhei por ruas secundárias, o guinchar dos pneus ainda feria meus ouvidos. Perto das doze horas voltamos àquela esquina, ele começou a fazer piruetas frente aos carros no sinal fechado. Depois, parou e colocou duas tigelas com comida e água fresca para mim e me deu um edredom, deitei, barriga cheia, sem coceiras,dormi a tarde inteira, acordei com ele coçando minha barriga, tá  pensando que é rei, acorde ?! Dia seguinte chegou com carrinho vermelho e coroa que algum folião perdera na volta de algum bloco de carnaval, colocou o edredom dentro do carrinho e a coroa na minha cabeça, enfeitou o carrinho  com fitas e bolas de Natal e tiras de panos coloridos e disse, pronto, essa é sua carruagem, seu reinado é essa esquina, te batizo com o nome de príncipe, guarde bem esse nome que é seu. Bem, os óculos escuros fui eu quem achei no supermercado em frente, alguém perdeu. Ele não quis, colocou em mim no final da tarde, nunca mais sofri com lusco-fusco até que ele sentou em cima, dia desses, mas ouvi uma professora simpática dizer que vai me arranjar outro! Vidinha mais ou menos para um cachorro vira-latas, não é, não? Estou treinando o ganido, quem sabe chego a cantar melhor que o Rossi, meu ídolo!?

A Crônica como uma Forma de Literatura – características do gênero

Fernando Gusmão

Introdução

As considerações que se seguem resultam —inclusive e principalmente— da leitura que fiz do capítulo VI, do livro “A criação literária – Prosa Volume II”, de Massaud Moisés. Este meu texto, é claro, não esgota o assunto. No que se segue, excertos da obra em referência estão colocados entre aspas duplas.

De início, muito me chamou a atenção o fato de existir uma discussão séria na crítica literária sobre o gênero crônica: seria a crônica, enquanto gênero literário, de uma importância secundária?

Essa opinião me pareceu ser esposada por Moisés. Na obra citada ele, entre outros, faz o seguinte registro: “o fato da crônica estar voltada para o cotidiano fugaz e endereçar-se ao público de jornal e revistas é, sem dúvida, uma limitação do gênero”. E mais, “fruto do improviso, da resposta imediata ao acontecimento que fere a rotina do escritor, e lhe suscita reminiscências caladas no fundo da memória, a crônica, por conseguinte, não pressupõe o estatuto de livro”. Outro ensaísta, Luiz Costa Lima, é mais peremptório quando diz que ‘a crônica é reconhecidamente um gênero menor’.

Por outro lado, vendo a crônica sob o viés do igualmente afamado literata Afrânio Coutinho notamos que este percebe o assunto de forma diferente quando afirma que é enganoso supor que o livro é que dá qualificação definitiva a qualquer escrito. Acrescenta: ‘e a crônica que não haja pago excessivo tributo à frivolidade ou não seja uma simples reportagem, estará sempre a salvo, como obra de pensamento ou de arte, embora não saia nunca das folhas de um periódico. Mais poéticas ou mais bem-humoradas, mais sensíveis ou mais debochadas, a vasta gama de possibilidades da crônica indica sua complexidade, seus limites imprecisos e as largas opções de desenvolvimento. Qualquer forma literária só será considerada gênero literário quando apresentar qualidade literária, libertando-se de sua condição circunstancial pelo estilo e pela individualidade do autor’.

História

Do ponto de vista histórico, o vocábulo crônica “designava, “no início da era cristã, uma lista ou relação de acontecimentos ordenados segundo a marcha do tempo (Kronos), isto é, em sequência cronológica. Situada no espaço entre os anais e a história, limitava-se a registrar os eventos, sem aprofundar-lhes as causas ou tentar interpretá-los”. A partir da renascença, o termo continuou a ser utilizado no sentido histórico ao longo do século XVI como, por exemplo, nas Chronicles of England, Scotland, and Ireland (1577), de Raphael Holinshed, ou nas “chronicle plays”, peças de teatro calcadas em assuntos verídicos, como não poucas de Shakespeare. “Na acepção moderna a crônica entrou a ser empregada no século XIX quando, liberto de sua conotação histórica, o vocábulo passou a revestir sentido estritamente literário”.

A crônica está hoje, “afastada do sentido de história, do sentido de documentário”. Na maioria dos casos, é “uma prosa poemática, humor lírico, ou fantasia”. Interessante também notar que a crônica, tal qual se desenvolveu no Brasil, “parece não ter similar noutras literaturas, salvo por influência de nossos escritores, como no caso da moderna literatura portuguesa”.

Da maior importância é o fato de que a crônica” brasileira surgiu e se desenvolveu de forma, como que, simbiótica ao jornalismo nacional, notadamente do jornalismo carioca. Ou seja, a crônica brasileira nasceu para ser publicada em jornais e semanários. A crônica” oscila, assim, entre a reportagem e a literatura, entre o relato impessoal, frio e descolorido de um acontecimento trivial, “e a recriação do cotidiano por meio da fantasia”.

O Cronista

“O cronista pretende ser não o repórter, mas o poeta ou o ficcionista do cotidiano ao desentranhar do acontecido sua porção inerente de fantasia. Aliás, como procede todo autor de ficção mas, com a diferença de que “o cronista reage de imediato ao acontecimento, sem deixar que o tempo lhe filtre as impurezas ou lhe confira as dimensões de mito, horizonte ambicionado por todo ficcionista de lei”.

“Mais do que um poema, a crônica” perde quando lida em série; “reclama a degustação autônoma”, uma a uma, como se o imprevisto fizesse parte de sua natureza, e um imprevisto colhido na efemeridade do jornal, não na permanência do livro. É preciso, pois, que ocorra o encontro feliz entre o motivo da crônica” e algo da sensibilidade do cronista “à espera do chamado para vir a superfície, ocasião em que se estabelece a fortuita afinidade entre o acontecimento e o mundo íntimo do escritor”.

A crônica” somente ganhou “a consideração dos críticos e historiadores da literatura no instante em que, ultrapassando as barreiras do seu veículo original, o jornal, conheceu a forma de livro”.

Tipos de “crônicas”

Quando o caráter literário assume a primazia, a crônica” deriva para o conto ou a poesia, conforme se acentue o aspecto narrativo ou o contemplativo.

“Existem dois tipos fundamentais de crônica”: a “crônica”-poema e a “crônica”-conto”.

O cronista tece a sua malha de considerações em torno de um acontecimento “visando não a persuadir ou a fazer prosélitos, mas simplesmente a pensar em voz alta uma filosofia de vida apoiada no efêmero cotidiano”.

Não há dois cronistas iguais, nem duas “crônicas” idênticas, “seja porque a mutação permanente do cotidiano determina a mobilidade do texto, seja porque a crônica” registra a variação do emocional do escritor”. A clave emocional da crônica” vai, desde a trágica, até a cômica, passando pela humorística, pessimista, depressiva, otimista, entre outras.

Crônica e Poesia

Enquanto poesia, a crônica” explora a temática do “eu”. Ou seja, resulta do “eu” ser o assunto e o narrador a um só tempo, “precisamente como todo ato poético”.

A crônica” se insere no âmbito da prosa poética, visto que “denuncia a simbiose entre os dois gêneros”.  A crônica” é o espaço livre do cronista, “que o usa para escrever poemas em prosa, poesias, contar estórias, fantasias, fazer ensaios”.

Crônica” e Conto

A crônica”, quando voltada para o horizonte do conto, “prima pela ênfase posta no não-eu”, no acontecimento, que provocou a atenção do “eu”, do escritor”. Quando se aproxima do conto, sem dele se metamorfosear, mantendo intactas suas características de base, “a crônica corre o risco de constituir-se na mera literalização de acontecimentos verídicos”: estes, funcionando como o estopim, que deflagra o comentário, estabelecem uma aliança entre o “eu” e o “não-eu”. “Não dispensando o acontecimento, plano do “não eu”, nem o lirismo, plano do “eu”, a crônica pode ser conceituada como a poetização do cotidiano”.

A crônica” é, por índole e definição, “o relato de acontecimentos diários e, portanto, deles depender para erguer-se como tal”. Dado o caráter ambíguo da crônica”, podemos tirar a seguinte inferência: “o meio termo entre acontecimentos e lirismo” parece ser o lugar ideal da crônica.

Características da crônica”

A crônica” tem duas características específicas.

A primeira, pela sua relevância, é a subjetividade. “Na crônica, o foco narrativo situa-se, invariavelmente na primeira pessoa do singular. E, mesmo quando o “não-eu” avulta, por encerrar um acontecimento de monta, o “eu” está presente de forma direta ou na transmissão do acontecimento segundo sua visão pessoal”. É a sua visão das coisas que importa ao cronista e ao leitor; “a veracidade positiva dos acontecimentos cede lugar à veracidade emotiva com que os cronistas divisam o mundo”.

A segunda é a brevidade: “No geral, a crônica” é um texto curto, de meia coluna de jornal ou de página de revista”. Somente por extensão, como “em algumas crônicas de Eneida, o texto se estende por várias laudas”. Imposta pela circunstância de a crônica” ser publicada em jornal ou revista, a brevidade reflete, e, a um só tempo, determina suas as marcas”.

A crônica” seria um monodiálogo. Simultaneamente, monólogo e diálogo.

Linguagem

Para casar com o estilo marcado pela oralidade, nada mais próprio que os temas do cotidiano sejam tratados na “crônica com “um grão de análise, de filosofismo, o suficiente para temperar um prato de suave digestão”.

Requisitos essenciais da “crônica”

Ambiguidade, brevidade, subjetividade, diálogo, estilo entre oral e literário, temas do cotidiano, ausência de transcendência, efemeridade.

“A crônica, fugaz, como a existência do jornal e da revista, mal resiste ao livro: quando um escritor se decide a perpetuar os textos que espalhou no dia-a-dia jornalístico, inevitavelmente seleciona aqueles que sua autocrítica e a alheia lhe sugerem como os aptos a enfrentar o desafio do tempo”.

Expressão literária que faz do cotidiano o seu prato diário, que existe na razão direta da sucessão de acontecimentos, a crônica”, para Fernando Sabino, “busca o cotidiano de cada um, visando o circunstancial, o pitoresco”.

Conclusão

Os textos literários – romances, crônicas, contos, poesias – que se notabilizaram pela qualidade, tiveram seu valor ora pelo conteúdo, ora pelo estilo, e muitas vezes por ambos. O mesmo se dá com a crônica, na medida em que o autor —independentemente do veículo—souber sobrelevar a circunstância ou fazer brilhar um estilo próprio.   

A Flor Lilás e Outros Contos

Lourdes Rodrigues

Ricardo Braga, autor de A Flor Lilás  e Outros Contos, é biólogo, com mestrado e doutorado em Ecologia e Engenharia Hidráulica e Saneamento, mas sobretudo, escritor, bom escritor, tendo recebido, inclusive, muito merecidamente, o III Prêmio Conto CEPE Nacional de Literatura 2017 com esse livro.

Gabriel García Márquez  disse, certa vez, em uma entrevista, que considerava a arte de escrever contos mais difícil do que a de romances, porque o mais difícil para ele era começar e  num livro de contos são vários começos que ele teria de enfrentar.

Ricardo Braga não parece pensar assim. Se eu tivesse que eleger um dos contos desse livro, como o melhor deles, teria dificuldade.  São dez contos, dez histórias tecidas com muita maestria, onde personagens e espaços narrativos dialogam com muita beleza e propriedade.

O conto de abertura, Miudão, traz um personagem que vive numa pequena cidade do interior e  que igual a tantos outros meninos da idade dele gosta de falar muito e contar histórias.  Mas, Miúdo, assim chamado quando pequeno,  não se limitava a contar as histórias que ouvia, ele também as criava com uma convicção que lhes dava ares de verdade.  Essa capacidade de criar faz de Miúdo uma pessoa ouvida, porque ele tem algo a mais para dizer que extrapola os limites do fato acontecido, dando realce e poder às suas histórias. E cada vez mais pessoas o ouvem, levando-o ao rádio onde o seu alcance vai extrapolar as fronteiras de Mororó. Na intimidade dos lares, nos campos, nas ruas a sua voz era ouvida, seus conselhos eram escutados e Miudão, que já era um homem, ganha importância no  cotidiano daquelas pessoas. O desenrolar vai num crescente e culmina de forma poética e surpreendente, num misto de ingenuidade e de sabedoria  popular.

Também  Amaro, outro grande personagem que junto com a sua enxada e  pá carrega violenta crítica social,  dramática radiografia da miséria, do abandono, da solidão. Esse conto é um soco no estômago. A solidão de Amaro devido o abandono do pai, a desistência da vida pela mãe que não poupou sequer o filho que carregava no ventre, deixam-no tão só que nem podia chorar, porque o choro era uma forma de comunicação e ele já não teria com quem se comunicar. E ao cavar a sepultura da mãe e do recém-nascido no próprio quarto, é  como se ele preferisse a companhia dos mortos, a ficar sozinho. E segue a vida, tapando buraco na estrada com a sua enxada e pá, para os carros passarem, em troca de biscoito, de trocados, até um dia subir na boleia de um caminhão e partir dali para bater pernas no mundo, tornando-se caminhoneiro. Um dia Amaro volta aquela casa e encontra uma surpresa …

A construção dos personagens é magistral, assim como a atmosfera criada em torno desses personagens. Ora estão no corte da cana, dançando sob o som da zabumba, ou fugindo da polícia como Zé, em Palmares;  ou pisando em flores ao caminhar pela praia feito Antônio, flores que trazem lembranças de Maria, como em A Flor de Lilás; ou ainda, embriagado à porta de casa em busca da identidade perdida, como Gustavo, em Acorda, Gustavo; ou vivendo a angústia da demissão, às vésperas da aposentadoria, como André, Na Companhia das Sombras; ou impactado com a descoberta de não ser filho do seu pai, como em O Pai que não conheço.

Narrativas na terceira pessoa em que o narrador cede passagem, muitas vezes, ao personagem, dando mais intensidade ao relato. Personagens, em sua maioria,  homens, apenas dois personagens femininos  em Amores Perdidos, Eva, que ao perder Davi, por quem era apaixonada vive anos de luto e de rememorações, até que inicia viagem com destino a Manaus em busca do tempo perdido vivido ao lado do seu amado Davi; e, uma habilidosa cuidadora que devolve o gosto pela vida ao ancião que ela acompanha, em A Cuidadora .

Os contos vão criando um clima de ansiedade no leitor, fazendo-o acompanhar a trama passo a passo, até atingir o seu clímax, sempre, invariavelmente, surpreendente. Segundo o próprio Ricardo Braga:


Este livro teve uma peculiaridade, que talvez o próximo não tenha. Toda a escrita foi feita por associação de ideias e imagens, e o roteiro de cada história não foi definido antes, muito menos o seu final. Por isso os contos saíram de dentro de mim, como um vulcão sai da Terra, com calor e dor. Persegui os personagens para saber para onde iam e não tive a pretensão de orientá-los para um final feliz ou para o desastre. O magma do vulcão dilacera a floresta ou um povoado, mas a fertilidade da terra vulcânica refaz florestas e alimenta povoados inteiros.

Ricardo Braga é um escritor para ser lido, sempre, com muita atenção e grande prazer, pela qualidade literária dos seus contos, mesmo trazendo a dureza da vida.

Psicanálise e Literatura

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Psicanálise e Literatura

*Fernando Gusmão

Sabemos que Sigmund Freud, enquanto criava a Psicanálise, mostrava-se para o mundo como um escritor de invejável qualidade. Já em 1930, Walter Muschg, o primeiro crítico a estudar a prosa freudiana, na abertura do ensaio “Freud como escritor”, comentava: “… Ele exprime a rara unidade entre conteúdo e forma que sentimos como algo espontâneo”.

Como escritor, Freud, no seu robusto artigo “Escritores Criativos e Devaneio” (1908/1996), coloca questões que muito nos interessam: O que os escritores fazem, ao elaborar suas criações literárias? De onde eles extraem seus conteúdos? Como suas criações afetam seus leitores?

Tirei desse artigo passagens que dizem respeito a essas indagações:

Sempre sentimos uma intensa curiosidade em saber de que fontes esse estranho ser, o escritor criativo, retira seu material, e como consegue impressionar-nos com o mesmo e despertar-nos emoções das quais talvez nem nos julgássemos capazes. Nosso interesse intensifica-se ainda mais pelo fato de que, ao ser interrogado, o escritor não nos oferece uma explicação, ou pelo menos nenhuma explicação satisfatória.

Os escritores, o que, de fato, eles fazem?

Para responder a essa pergunta, comecemos por compreender que a ocupação favorita e mais intensa da criança é o brinquedo ou os jogos. Acaso não poderíamos dizer que ao brincar toda criança se comporta como um escritor criativo, pois cria um mundo próprio, ou melhor, reajusta os elementos de seu mundo de uma nova forma que lhe agrade? Seria errado supor que a criança não leva esse mundo a sério; ao contrário, leva muito a sério a sua brincadeira e despende na mesma muita emoção. Vale notar que a antítese de brincar não é o que é sério, mas o que é real. Ela distingue perfeitamente seu mundo de brinquedo da realidade e gosta de ligar seus objetos e situações imaginados às coisas visíveis e tangíveis do mundo real. Essa conexão é tudo o que diferencia o ‘brincar’ infantil do ‘fantasiar’.

Ao crescer, as pessoas param de brincar e parecem renunciar ao prazer que obtinham nesse brincar. Contudo, quem compreende a mente humana sabe que nada é tão difícil para o homem quanto abdicar de um prazer que já experimentou. Na realidade, nunca renunciamos a nada; apenas trocamos uma coisa por outra. O que parece ser uma renúncia é, na verdade, a formação de um substituto ou sub-rogado. Acredito que a maioria das pessoas construa fantasias em algum período de suas vidas. Este é um fato a que, por muito tempo, não se deu atenção, e cuja importância não foi, assim, suficientemente considerada. Em vez de brincar, agora fantasiamos. Construímos castelos no ar e criamos o que chamamos de devaneios.

As fantasias das pessoas são menos fáceis de observar do que o brincar das crianças. A criança, mesmo que não brinque em frente dos adultos, não lhes oculta seu brinquedo. O adulto, ao contrário, envergonha-se de suas fantasias, escondendo-as das outras pessoas. Acalenta suas fantasias como seu bem mais íntimo, e em geral preferiria confessar suas faltas do que confiar a outro suas fantasias.

Vamos agora examinar algumas características do fantasiar. Podemos partir da tese de que a pessoa feliz nunca fantasia, somente a insatisfeita. As forças motivadoras das fantasias são os desejos insatisfeitos, e toda fantasia é a realização de um desejo, uma correção da realidade insatisfatória. Ademais, os desejos motivadores variam de acordo com o sexo, o caráter e as circunstâncias da pessoa que fantasia.

No que diz respeito à relação entre a fantasia e o tempo é como se ela flutuasse entre três tempos – os três momentos abrangidos pela nossa ideação. O trabalho mental vincula-se a uma impressão atual, a alguma ocasião motivadora no presente que foi capaz de despertar um dos desejos principais do sujeito. Dali, retrocede à lembrança de uma experiência anterior (geralmente da infância) na qual esse desejo foi realizado, criando uma situação referente ao futuro que representa a realização do desejo. O que se cria então é um devaneio ou fantasia, que encerra traços de sua origem a partir da ocasião que o provocou e a partir da lembrança. Dessa forma o passado, o presente e o futuro são entrelaçados pelo fio do desejo que os une.

Não posso ignorar a relação entre as fantasias e os sonhos. Nossos sonhos noturnos nada mais são do que fantasias dessa espécie, como podemos demonstrar pela interpretação de sonhos. A linguagem, com sua inigualável sabedoria, há muito lançou luz sobre a natureza básica dos sonhos, denominando de ‘devaneios’ as etéreas criações da fantasia.

Deixemos agora as fantasias e passemos ao escritor criativo. Acaso é realmente válido comparar o escritor imaginativo ao ‘sonhador em plena luz do dia’, e suas criações com os devaneios? Para que nossa comparação do escritor imaginativo com o homem que devaneia —e da criação poética com o devaneio— tenha algum valor é necessário, acima de tudo, que se revele frutuosa, de uma forma ou de outra.

O escritor suaviza o caráter de seus devaneios egoístas por meio de alterações e disfarces, e nos suborna com o prazer puramente formal, isto é, estético, que nos oferece na apresentação de suas fantasias. Em minha opinião, todo prazer estético que o escritor criativo nos proporciona é da mesma natureza desse prazer preliminar, e a verdadeira satisfação que usufruímos de uma obra literária procede de uma libertação de tensões em nossas mentes.

Assim, podemos considerar as criações literárias como uma realidade convencional, libertadora, que promove fuga da penosa e austera realidade concreta. São criações imaginárias, é verdade, mas despertam emoções reais antes vistas como impróprias a um adulto.

As criações literárias são uma das principais vias de acesso aos conteúdos inconscientes. Proporcionam prazeres psíquicos elevadíssimos aos seus criadores, ao passo que aos seus leitores trazem, igualmente, prazeres psíquicos que, mesmo se parciais, não são menos importantes.

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Texto produzido a partir da leitura de

FREUD, Sigmund. Escritores Criativos e Devaneio (1908/1996). In: FREUD, Sigmund. “Gradiva” de Jensen e outros trabalhos (1906-08/1996). Edição standard brasileira das obras psicológicas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: IMAGO. Disponível em 26/10/2018 em:

http://www.portalentretextos.com.br/noticias/escritores-criativos-e-devaneio-1908-1907,2137.html >

  • Fernando Gusmão, engenheiro, poeta, cronista, ensaísta, contista.

resenhas

Os nossos viageiros produzem resenhas com as suas impressões sobre  a leitura de um conto ou de um romance. Enquanto leitores empíricos, eles fazem as suas próprias andanças pelo texto, o que as tornam extremamente interessantes.

Aqui temos duas delas, a de Graça Lins, Professora de Literatura, viageira atenta aos silêncios e simbolismos de uma escritora como Clarice Lispector em A Paixão, Segundo G,H; e, a de Fernando Gusmão, viageiro-escritor-poeta, muito atento ao concerto musical de A Arvore, metáfora usada pela escritora Maria Luísa Bombal. 

A PAIXAO “SEGUINDO” GH

Graça Lins

Ler ou decifrar? Reler ou indignar-se?  “Tresler” ou esvaziar-se de toda Teoria da Literatura? Eram as frequentes indagações que se faziam a cada leitura compartilhada de A Paixão segundo GH, no grupo da Oficina Literária, cuja madrinha é a própria Clarice Lispector.  

Os olhos atentos e impactados dos leitores, quase sempre, sem respostas. Quem busca logicidade em Clarice se depara com o caos milimetricamente construído. Pensei e calei.

A Literatura e a Psicanálise dialogavam. A Linguística, também. E os leitores? Todos na expectativa do banquete: uma barata de longos cílios e massa branca escorrendo do ventre.

A cada leitura, novos questionamentos: “De quem é essa mão a que GH se refere?” “Por que o uso de tantos travessões, sem indicativo de fala de alguém como a norma gramatical preconiza?” “Seria uma linha pontilhada, indicando  um caminho já  percorrido?” “O livro termina com 6 travessões? Que estranho!”

Enquanto a narrativa se desenrolava, os presentes mais se confundiam e os ausentes queriam, mesmo, era participar do prazer gastronômico que Clarice anunciava e os envolvia como uma tecelã, usando fios ficcionais que atavam à imaginação as imagens que construíam e desconstruíam a cada  capítulo.

Para essa tessitura, outros leitores foram convidados: Freud, Sartre, Lacan, Kierkgaard, Camus, São Tomás de Aquino. Valei-nos!  Até passagens do Levítico.

As citações bíblicas eram um bálsamo para o mal-estar da incompreensão. A interlocução, com a figura de um possível leitor, lembrava o mesmo recurso estilístico machadiano, mas nada acrescentava ou esclarecia.

 “Segura minha mão, porque sinto que estou indo. Estou de novo indo para a mais primária vida divina…” (p.59)

 “Ah, meu amor, as coisas são muito delicadas. A gente pisa nelas com uma pata humana demais, com sentimentos demais.” (p. 154)

“Dá-me a tua mão. Porque não sei mais do que estou falando. Acho que inventei tudo, nada disso existiu! (p.96)

Terminado o banquete, ainda de guardanapo alvíssimo nas mãos, decidi ler GH do final para o começo, como se lê um mangá. Recolhendo os destroços do que ficou pelas páginas rabiscadas. Parágrafos inteiros marcados de verde, pequenas notas de rodapé, a fala dos colegas transcritas na lateral dos infindáveis capítulos. Comentários, intervenções e emoções expressas ao longo do texto. Isto sim, um real banquete.

Desse mastigar laborioso, retomei algumas metáforas que se repetiam e iluminavam a releitura: a alusão ao Minarete ( torre alta de uma mesquita, onde se anuncia as 5 chamadas do dia para a oração dos mulçumanos). Bem assim era a obra. De uma estrutura ficcional realmente muito “alta” Clarice nos falava. A barata, como o mais inexpressivo dos seres e a mão, que apenas é referida mas não realiza nenhuma ação protetora.

Assim, dessa pós leitura, fui guardando os achados nas entrelinhas do texto que a própria autora denomina de relato

“Meu desejo agora seria o de interromper tudo isto e inserir neste difícil relato…”(p. 80)

“De uma coisa eu sei: se chegar ao fim deste relato…” (p. 162)

Um relato constituído de indagações filosóficas, questionamentos sobre a estética, a religião e a moral, sentimentos confusos e contraditórios sobre o amor, o medo, a sexualidade, a insegurança, os problemas éticos, a fragilidade dos relacionamentos humanos, compondo uma busca desenfreada por uma identidade que se dizia desconhecida.

Ao final, diante da singularidade e da qualidade literária da narrativa, senti-me no alto de um minarete anunciando a outros leitores as possíveis  leituras de GH, com sua carga de universalidade e inconfundível beleza estética.

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Análise do Conto “A Árvore”, de Maria Luisa Bombal

Fernando Gusmão

Encontro Brígida, 18 anos, protagonista do conto, em um concerto de música clássica. Enquanto aguarda o início da apresentação, cumprimenta uma conhecida, que traz notícias do seu ex-marido. Começa a primeira peça do espetáculo; de Mozart.

Ela se deixa embalar pela música, nos percursos da infância e da sua limitada juventude. Mozart, fiel ao seu estilo, começa leve e agradável, falando com clareza, equilíbrio e transparência, mas, caminha para um foco intenso e sensual. “¡Qué agradable es ser ignorante! ¡No saber exactamente quién fue Mozart; desconocer sus orígenes, sus influencias, las particularidades de su técnica! Dejarse solamente llevar por la mano, como ahora”.

Ao som da música, seus devaneios me dizem de sua história: infância de bela menina,  pai viúvo cheio de filhas mais velhas, que negligenciou sua educação, sua formação, que se conforma: “Es tan tonta como linda”. Ao contrário de suas irmãs, que iam sendo pedidas em casamento uma a uma, Brígida não era pedida por ninguém. Isso faz com que ela, muito jovem, case-se com Luis, bem mais velho, amigo do pai. Uma sociedade patriarcal, decidindo o comportamento feminino apropriado, dificulta, ainda mais, a capacidade de Brígida viver a própria vida. O casamento falha em fornecer satisfação. Ela passa das restrições da casa do pai às limitações da vida com o marido. Sua relação com Luis baseia-se em uma relação de companhia, e não de amor. Luis, por sua vez, também se sente garroteado: “Eres como un collar de pájaros”. O conceito de casamento como estagnação está subjacente para o marido e para a mulher.

Mas, agora, Mozart entra num ritmo mais urgente e arrasta Brígida pela mão, fecha a porta do passado com um acorde doce e firme e a traz de volta para a sala de concertos, trajando preto, batendo palmas mecanicamente, enquanto a chama de luzes artificiais cresce lentamente.

Após alguns minutos, se faz, outra vez, um silêncio de expectativas, que começa a ser alumiado por uma nova harmonia. É Beethoven, que principia a tratar suas notas de forma suave e lírica, quase religiosa, autêntica.

“—No tienes corazón, no tienes corazón. —. Nunca estás conmigo cuando estás a mi lado. ¿Por qué te has casado conmigo?

—Porque tienes ojos de venadito assustado.

— Nunca me has contado de qué color era exactamente tu pelo cuando eras chico.

—Mañana te contaré. Tengo sueño, Brígida, estoy muy cansado. Apaga la luz. —Estoy ocupado. No puedo acompañarte… Tengo mucho que hacer, no alcanzo a llegar para el almuerzo…  Un compromiso. No. No sé. Más vale que no me esperes, Brígida.

—¡Si tuviera amigas! —suspiraba ella.

—Me gustaría ver nevar alguna vez, Luis.

—Este verano te llevaré a Europa y como allá es invierno podrás ver nevar.”

Chega o verão. Seu primeiro verão de casada. Novas ocupações não deixam que Luis cumpra sua promessa.

“—¿Qué te pasa? ¿En qué piensas, Brígida?”

—Tengo sueño…

—¿Todavía está enojada, Brígida?

… … …”

Brígida acha a arma que havia encontrado sem pensar: o silêncio!

Na sala de concertos, a música de Beethoven é, como toda música, um composto de sons e silêncios. Mas, pode, às vezes, ser colérica, plena de espírito de luta, de força de vontade e de uma enorme coragem; obstinada como o granito.

“—Bien sabes que te quiero, collar de pájaros

… … …

—Pero no puedo estar contigo a toda hora

… … …

—¿Quieres que salgamos esta noche?

 … … …

—¿No quieres? Paciencia.

… … …

—Dime, ¿llamó Roberto desde Montevideo?

… … … .

—¡Qué lindo traje! ¿Es nuevo?

 … … … .

—¿Es nuevo, Brígida? Contesta, contéstame!

… … …”

E então, para ela, o inesperado, o incrível, o absurdo: Luis se levanta da cadeira, joga violentamente o guardanapo sobre a mesa e sai da casa batendo as portas. Ela corre para o quarto de vestir.

“¡Ah, me voy, me voy esta misma noche! No volveré a pisar nunca más esta casa… Y abría con furia los armarios de su cuarto de vestir, tiraba desatinadamente la ropa al suelo”.

Algo, então, bate na janela: A árvore, um gomero, que, ao sopro do vento e da chuva golpeava com suas ramas os vidros da janela. Punhados de perolas que chovem a jorros sobre um teto de prata. Chopin!

A música de Chopin é intensamente pessoal, pela grande força espiritual, pela extrema sensibilidade, com um acento romântico cheio de melancolia e, em outras ocasiões, de uma pungente tristeza. Ao escutá-la acredita-se ouvir o andar, mais que firme, pesado, de seres que afrontam orgulhosos de valentia tudo o que a sorte possa trazer de injusto. É a mensagem da esperança, do otimismo, do espírito combativo, mesmo que permeado de dúvidas.

O que fazer no verão quando chove tanto? Ficar o dia inteiro no quarto fingindo uma doença ou uma tristeza?

Uma tarde, Luis entra timidamente. Ela senta-se muito dura. Em silêncio…

“—Brígida, ¿entonces es cierto? ¿Ya no me quieres? —En todo caso, no creo que nos convenga separarnos, Brígida. Hay que pensarlo mucho.”  E Luis foge do quarto.

Ela vai até a janela do quarto de vestir e encosta a testa no vidro gelado. Lá está o gomero recebendo serenamente a chuva que o atingia, calma e regular. O quarto, imobilizado na escuridão, em ordem e silencioso. Tudo parece parar, eterno e muito nobre. Isso era a vida. E havia certa grandeza em aceitá-la dessa maneira, medíocre, como algo definitivo, irremediável.

¡Siempre!

¡Nunca!…

E a chuva, secreta e igual, ainda continuava sussurrando em Chopin.

E, noite após noite, ela dormia ao lado do marido, sofrendo rajadas de dor. Mas, quando sua dor se condensava até machucá-la, como um assovio, quando ela era assediada por um desejo imperioso demais de acordar Luis para atingi-lo ou acariciá-lo, ia até o quarto de vestir na ponta dos pés e abria a janela. O quarto era imediatamente preenchido com ruídos discretos e presenças tranquilas, de passos misteriosos, de vibração, de sutis cliques vegetais, do doce gemido de um grilo escondido sob a casca do gomero afundado nas estrelas de uma noite quente de verão. Não sabia por que lhe era tão fácil sofrer naquele quarto. Era a melancolia e a pungente tristeza de Chopin engatando um estudo atrás do outro, engatando una melancolia atrás da outra, imperturbável.

Veio o outono. Haviam voltado a conversar. Voltara a ser sua esposa, sem entusiasmo e sem raiva. Não o queria mais. Mas, não sofria mais. Pelo contrário, uma sensação inesperada de plenitude, de placidez, tinha tomado posse dela. Ninguém ou nada poderia machucá-la mais. A verdadeira felicidade podia estar na convicção de que a felicidade havia sido irremediavelmente perdida. “Entonces empezamos a movernos por la vida sin esperanzas ni miedos, capaces de gozar por fin todos los pequeños goces, que son los más perdurables”.

Súbito, um rugido feroz, depois um clarão branco que a empurra para trás, toda tremendo.

¿Es el entreacto? No. Es el gomero, ella lo sabe. Lo habían abatido!

Haviam tirado sua privacidade, seu segredo; ela estava nua no meio da rua, nua ao lado de um marido que lhe virava as costas para dormir, que não lhe dera filhos. Ela não entendia como podia ter suportado o riso de Luis por um ano, aquela falsa risada de um homem que treinou para rir porque é necessário rir em certas ocasiões.

—Pero, Brígida, ¿por qué te vas?,  —había preguntado Luis.

—¡El árbol, Luis, el árbol! Han derribado el gomero.

Faz-se silêncio. E a realidade, finalmente, se sobrepõe ao mundo fantasioso de Brígida. Ela conclui que a árvore, como o marido, estão ambos sujeitos a viver e a morrer. Entende que nem a árvore nem o marido podem lhe fornecer uma existência estável. Nessa descoberta, ela rejeita sua condição anterior de dependência e decide que assumirá inteiramente a própria vida:

“¡Mentira! Eran mentiras su resignación y su serenidad; quería amor, sí, amor, y viajes y locuras, y amor, amor…”

De Maria Luisa Bombal fica para mim, principalmente, seu estilo, que desenha um fundo de familiaridade trágica. O ritmo compassado de sua escrita —e a nuance poética das figuras a cada instante evocadas— que anulam qualquer pieguice melodramática e varrem, aos poucos, toda e qualquer hipótese de dúvida entre anseio e sonho.

Setembro de 2018.