Psicanálise e Literatura

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Psicanálise e Literatura

*Fernando Gusmão

Sabemos que Sigmund Freud, enquanto criava a Psicanálise, mostrava-se para o mundo como um escritor de invejável qualidade. Já em 1930, Walter Muschg, o primeiro crítico a estudar a prosa freudiana, na abertura do ensaio “Freud como escritor”, comentava: “… Ele exprime a rara unidade entre conteúdo e forma que sentimos como algo espontâneo”.

Como escritor, Freud, no seu robusto artigo “Escritores Criativos e Devaneio” (1908/1996), coloca questões que muito nos interessam: O que os escritores fazem, ao elaborar suas criações literárias? De onde eles extraem seus conteúdos? Como suas criações afetam seus leitores?

Tirei desse artigo passagens que dizem respeito a essas indagações:

Sempre sentimos uma intensa curiosidade em saber de que fontes esse estranho ser, o escritor criativo, retira seu material, e como consegue impressionar-nos com o mesmo e despertar-nos emoções das quais talvez nem nos julgássemos capazes. Nosso interesse intensifica-se ainda mais pelo fato de que, ao ser interrogado, o escritor não nos oferece uma explicação, ou pelo menos nenhuma explicação satisfatória.

Os escritores, o que, de fato, eles fazem?

Para responder a essa pergunta, comecemos por compreender que a ocupação favorita e mais intensa da criança é o brinquedo ou os jogos. Acaso não poderíamos dizer que ao brincar toda criança se comporta como um escritor criativo, pois cria um mundo próprio, ou melhor, reajusta os elementos de seu mundo de uma nova forma que lhe agrade? Seria errado supor que a criança não leva esse mundo a sério; ao contrário, leva muito a sério a sua brincadeira e despende na mesma muita emoção. Vale notar que a antítese de brincar não é o que é sério, mas o que é real. Ela distingue perfeitamente seu mundo de brinquedo da realidade e gosta de ligar seus objetos e situações imaginados às coisas visíveis e tangíveis do mundo real. Essa conexão é tudo o que diferencia o ‘brincar’ infantil do ‘fantasiar’.

Ao crescer, as pessoas param de brincar e parecem renunciar ao prazer que obtinham nesse brincar. Contudo, quem compreende a mente humana sabe que nada é tão difícil para o homem quanto abdicar de um prazer que já experimentou. Na realidade, nunca renunciamos a nada; apenas trocamos uma coisa por outra. O que parece ser uma renúncia é, na verdade, a formação de um substituto ou sub-rogado. Acredito que a maioria das pessoas construa fantasias em algum período de suas vidas. Este é um fato a que, por muito tempo, não se deu atenção, e cuja importância não foi, assim, suficientemente considerada. Em vez de brincar, agora fantasiamos. Construímos castelos no ar e criamos o que chamamos de devaneios.

As fantasias das pessoas são menos fáceis de observar do que o brincar das crianças. A criança, mesmo que não brinque em frente dos adultos, não lhes oculta seu brinquedo. O adulto, ao contrário, envergonha-se de suas fantasias, escondendo-as das outras pessoas. Acalenta suas fantasias como seu bem mais íntimo, e em geral preferiria confessar suas faltas do que confiar a outro suas fantasias.

Vamos agora examinar algumas características do fantasiar. Podemos partir da tese de que a pessoa feliz nunca fantasia, somente a insatisfeita. As forças motivadoras das fantasias são os desejos insatisfeitos, e toda fantasia é a realização de um desejo, uma correção da realidade insatisfatória. Ademais, os desejos motivadores variam de acordo com o sexo, o caráter e as circunstâncias da pessoa que fantasia.

No que diz respeito à relação entre a fantasia e o tempo é como se ela flutuasse entre três tempos – os três momentos abrangidos pela nossa ideação. O trabalho mental vincula-se a uma impressão atual, a alguma ocasião motivadora no presente que foi capaz de despertar um dos desejos principais do sujeito. Dali, retrocede à lembrança de uma experiência anterior (geralmente da infância) na qual esse desejo foi realizado, criando uma situação referente ao futuro que representa a realização do desejo. O que se cria então é um devaneio ou fantasia, que encerra traços de sua origem a partir da ocasião que o provocou e a partir da lembrança. Dessa forma o passado, o presente e o futuro são entrelaçados pelo fio do desejo que os une.

Não posso ignorar a relação entre as fantasias e os sonhos. Nossos sonhos noturnos nada mais são do que fantasias dessa espécie, como podemos demonstrar pela interpretação de sonhos. A linguagem, com sua inigualável sabedoria, há muito lançou luz sobre a natureza básica dos sonhos, denominando de ‘devaneios’ as etéreas criações da fantasia.

Deixemos agora as fantasias e passemos ao escritor criativo. Acaso é realmente válido comparar o escritor imaginativo ao ‘sonhador em plena luz do dia’, e suas criações com os devaneios? Para que nossa comparação do escritor imaginativo com o homem que devaneia —e da criação poética com o devaneio— tenha algum valor é necessário, acima de tudo, que se revele frutuosa, de uma forma ou de outra.

O escritor suaviza o caráter de seus devaneios egoístas por meio de alterações e disfarces, e nos suborna com o prazer puramente formal, isto é, estético, que nos oferece na apresentação de suas fantasias. Em minha opinião, todo prazer estético que o escritor criativo nos proporciona é da mesma natureza desse prazer preliminar, e a verdadeira satisfação que usufruímos de uma obra literária procede de uma libertação de tensões em nossas mentes.

Assim, podemos considerar as criações literárias como uma realidade convencional, libertadora, que promove fuga da penosa e austera realidade concreta. São criações imaginárias, é verdade, mas despertam emoções reais antes vistas como impróprias a um adulto.

As criações literárias são uma das principais vias de acesso aos conteúdos inconscientes. Proporcionam prazeres psíquicos elevadíssimos aos seus criadores, ao passo que aos seus leitores trazem, igualmente, prazeres psíquicos que, mesmo se parciais, não são menos importantes.

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Texto produzido a partir da leitura de

FREUD, Sigmund. Escritores Criativos e Devaneio (1908/1996). In: FREUD, Sigmund. “Gradiva” de Jensen e outros trabalhos (1906-08/1996). Edição standard brasileira das obras psicológicas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: IMAGO. Disponível em 26/10/2018 em:

http://www.portalentretextos.com.br/noticias/escritores-criativos-e-devaneio-1908-1907,2137.html >

  • Fernando Gusmão, engenheiro, poeta, cronista, ensaísta, contista.

resenhas

Os nossos viageiros produzem resenhas com as suas impressões sobre  a leitura de um conto ou de um romance. Enquanto leitores empíricos, eles fazem as suas próprias andanças pelo texto, o que as tornam extremamente interessantes.

Aqui temos duas delas, a de Graça Lins, Professora de Literatura, viageira atenta aos silêncios e simbolismos de uma escritora como Clarice Lispector em A Paixão, Segundo G,H; e, a de Fernando Gusmão, viageiro-escritor-poeta, muito atento ao concerto musical de A Arvore, metáfora usada pela escritora Maria Luísa Bombal. 

A PAIXAO “SEGUINDO” GH

Graça Lins

Ler ou decifrar? Reler ou indignar-se?  “Tresler” ou esvaziar-se de toda Teoria da Literatura? Eram as frequentes indagações que se faziam a cada leitura compartilhada de A Paixão segundo GH, no grupo da Oficina Literária, cuja madrinha é a própria Clarice Lispector.  

Os olhos atentos e impactados dos leitores, quase sempre, sem respostas. Quem busca logicidade em Clarice se depara com o caos milimetricamente construído. Pensei e calei.

A Literatura e a Psicanálise dialogavam. A Linguística, também. E os leitores? Todos na expectativa do banquete: uma barata de longos cílios e massa branca escorrendo do ventre.

A cada leitura, novos questionamentos: “De quem é essa mão a que GH se refere?” “Por que o uso de tantos travessões, sem indicativo de fala de alguém como a norma gramatical preconiza?” “Seria uma linha pontilhada, indicando  um caminho já  percorrido?” “O livro termina com 6 travessões? Que estranho!”

Enquanto a narrativa se desenrolava, os presentes mais se confundiam e os ausentes queriam, mesmo, era participar do prazer gastronômico que Clarice anunciava e os envolvia como uma tecelã, usando fios ficcionais que atavam à imaginação as imagens que construíam e desconstruíam a cada  capítulo.

Para essa tessitura, outros leitores foram convidados: Freud, Sartre, Lacan, Kierkgaard, Camus, São Tomás de Aquino. Valei-nos!  Até passagens do Levítico.

As citações bíblicas eram um bálsamo para o mal-estar da incompreensão. A interlocução, com a figura de um possível leitor, lembrava o mesmo recurso estilístico machadiano, mas nada acrescentava ou esclarecia.

 “Segura minha mão, porque sinto que estou indo. Estou de novo indo para a mais primária vida divina…” (p.59)

 “Ah, meu amor, as coisas são muito delicadas. A gente pisa nelas com uma pata humana demais, com sentimentos demais.” (p. 154)

“Dá-me a tua mão. Porque não sei mais do que estou falando. Acho que inventei tudo, nada disso existiu! (p.96)

Terminado o banquete, ainda de guardanapo alvíssimo nas mãos, decidi ler GH do final para o começo, como se lê um mangá. Recolhendo os destroços do que ficou pelas páginas rabiscadas. Parágrafos inteiros marcados de verde, pequenas notas de rodapé, a fala dos colegas transcritas na lateral dos infindáveis capítulos. Comentários, intervenções e emoções expressas ao longo do texto. Isto sim, um real banquete.

Desse mastigar laborioso, retomei algumas metáforas que se repetiam e iluminavam a releitura: a alusão ao Minarete ( torre alta de uma mesquita, onde se anuncia as 5 chamadas do dia para a oração dos mulçumanos). Bem assim era a obra. De uma estrutura ficcional realmente muito “alta” Clarice nos falava. A barata, como o mais inexpressivo dos seres e a mão, que apenas é referida mas não realiza nenhuma ação protetora.

Assim, dessa pós leitura, fui guardando os achados nas entrelinhas do texto que a própria autora denomina de relato

“Meu desejo agora seria o de interromper tudo isto e inserir neste difícil relato…”(p. 80)

“De uma coisa eu sei: se chegar ao fim deste relato…” (p. 162)

Um relato constituído de indagações filosóficas, questionamentos sobre a estética, a religião e a moral, sentimentos confusos e contraditórios sobre o amor, o medo, a sexualidade, a insegurança, os problemas éticos, a fragilidade dos relacionamentos humanos, compondo uma busca desenfreada por uma identidade que se dizia desconhecida.

Ao final, diante da singularidade e da qualidade literária da narrativa, senti-me no alto de um minarete anunciando a outros leitores as possíveis  leituras de GH, com sua carga de universalidade e inconfundível beleza estética.

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Análise do Conto “A Árvore”, de Maria Luisa Bombal

Fernando Gusmão

Encontro Brígida, 18 anos, protagonista do conto, em um concerto de música clássica. Enquanto aguarda o início da apresentação, cumprimenta uma conhecida, que traz notícias do seu ex-marido. Começa a primeira peça do espetáculo; de Mozart.

Ela se deixa embalar pela música, nos percursos da infância e da sua limitada juventude. Mozart, fiel ao seu estilo, começa leve e agradável, falando com clareza, equilíbrio e transparência, mas, caminha para um foco intenso e sensual. “¡Qué agradable es ser ignorante! ¡No saber exactamente quién fue Mozart; desconocer sus orígenes, sus influencias, las particularidades de su técnica! Dejarse solamente llevar por la mano, como ahora”.

Ao som da música, seus devaneios me dizem de sua história: infância de bela menina,  pai viúvo cheio de filhas mais velhas, que negligenciou sua educação, sua formação, que se conforma: “Es tan tonta como linda”. Ao contrário de suas irmãs, que iam sendo pedidas em casamento uma a uma, Brígida não era pedida por ninguém. Isso faz com que ela, muito jovem, case-se com Luis, bem mais velho, amigo do pai. Uma sociedade patriarcal, decidindo o comportamento feminino apropriado, dificulta, ainda mais, a capacidade de Brígida viver a própria vida. O casamento falha em fornecer satisfação. Ela passa das restrições da casa do pai às limitações da vida com o marido. Sua relação com Luis baseia-se em uma relação de companhia, e não de amor. Luis, por sua vez, também se sente garroteado: “Eres como un collar de pájaros”. O conceito de casamento como estagnação está subjacente para o marido e para a mulher.

Mas, agora, Mozart entra num ritmo mais urgente e arrasta Brígida pela mão, fecha a porta do passado com um acorde doce e firme e a traz de volta para a sala de concertos, trajando preto, batendo palmas mecanicamente, enquanto a chama de luzes artificiais cresce lentamente.

Após alguns minutos, se faz, outra vez, um silêncio de expectativas, que começa a ser alumiado por uma nova harmonia. É Beethoven, que principia a tratar suas notas de forma suave e lírica, quase religiosa, autêntica.

“—No tienes corazón, no tienes corazón. —. Nunca estás conmigo cuando estás a mi lado. ¿Por qué te has casado conmigo?

—Porque tienes ojos de venadito assustado.

— Nunca me has contado de qué color era exactamente tu pelo cuando eras chico.

—Mañana te contaré. Tengo sueño, Brígida, estoy muy cansado. Apaga la luz. —Estoy ocupado. No puedo acompañarte… Tengo mucho que hacer, no alcanzo a llegar para el almuerzo…  Un compromiso. No. No sé. Más vale que no me esperes, Brígida.

—¡Si tuviera amigas! —suspiraba ella.

—Me gustaría ver nevar alguna vez, Luis.

—Este verano te llevaré a Europa y como allá es invierno podrás ver nevar.”

Chega o verão. Seu primeiro verão de casada. Novas ocupações não deixam que Luis cumpra sua promessa.

“—¿Qué te pasa? ¿En qué piensas, Brígida?”

—Tengo sueño…

—¿Todavía está enojada, Brígida?

… … …”

Brígida acha a arma que havia encontrado sem pensar: o silêncio!

Na sala de concertos, a música de Beethoven é, como toda música, um composto de sons e silêncios. Mas, pode, às vezes, ser colérica, plena de espírito de luta, de força de vontade e de uma enorme coragem; obstinada como o granito.

“—Bien sabes que te quiero, collar de pájaros

… … …

—Pero no puedo estar contigo a toda hora

… … …

—¿Quieres que salgamos esta noche?

 … … …

—¿No quieres? Paciencia.

… … …

—Dime, ¿llamó Roberto desde Montevideo?

… … … .

—¡Qué lindo traje! ¿Es nuevo?

 … … … .

—¿Es nuevo, Brígida? Contesta, contéstame!

… … …”

E então, para ela, o inesperado, o incrível, o absurdo: Luis se levanta da cadeira, joga violentamente o guardanapo sobre a mesa e sai da casa batendo as portas. Ela corre para o quarto de vestir.

“¡Ah, me voy, me voy esta misma noche! No volveré a pisar nunca más esta casa… Y abría con furia los armarios de su cuarto de vestir, tiraba desatinadamente la ropa al suelo”.

Algo, então, bate na janela: A árvore, um gomero, que, ao sopro do vento e da chuva golpeava com suas ramas os vidros da janela. Punhados de perolas que chovem a jorros sobre um teto de prata. Chopin!

A música de Chopin é intensamente pessoal, pela grande força espiritual, pela extrema sensibilidade, com um acento romântico cheio de melancolia e, em outras ocasiões, de uma pungente tristeza. Ao escutá-la acredita-se ouvir o andar, mais que firme, pesado, de seres que afrontam orgulhosos de valentia tudo o que a sorte possa trazer de injusto. É a mensagem da esperança, do otimismo, do espírito combativo, mesmo que permeado de dúvidas.

O que fazer no verão quando chove tanto? Ficar o dia inteiro no quarto fingindo uma doença ou uma tristeza?

Uma tarde, Luis entra timidamente. Ela senta-se muito dura. Em silêncio…

“—Brígida, ¿entonces es cierto? ¿Ya no me quieres? —En todo caso, no creo que nos convenga separarnos, Brígida. Hay que pensarlo mucho.”  E Luis foge do quarto.

Ela vai até a janela do quarto de vestir e encosta a testa no vidro gelado. Lá está o gomero recebendo serenamente a chuva que o atingia, calma e regular. O quarto, imobilizado na escuridão, em ordem e silencioso. Tudo parece parar, eterno e muito nobre. Isso era a vida. E havia certa grandeza em aceitá-la dessa maneira, medíocre, como algo definitivo, irremediável.

¡Siempre!

¡Nunca!…

E a chuva, secreta e igual, ainda continuava sussurrando em Chopin.

E, noite após noite, ela dormia ao lado do marido, sofrendo rajadas de dor. Mas, quando sua dor se condensava até machucá-la, como um assovio, quando ela era assediada por um desejo imperioso demais de acordar Luis para atingi-lo ou acariciá-lo, ia até o quarto de vestir na ponta dos pés e abria a janela. O quarto era imediatamente preenchido com ruídos discretos e presenças tranquilas, de passos misteriosos, de vibração, de sutis cliques vegetais, do doce gemido de um grilo escondido sob a casca do gomero afundado nas estrelas de uma noite quente de verão. Não sabia por que lhe era tão fácil sofrer naquele quarto. Era a melancolia e a pungente tristeza de Chopin engatando um estudo atrás do outro, engatando una melancolia atrás da outra, imperturbável.

Veio o outono. Haviam voltado a conversar. Voltara a ser sua esposa, sem entusiasmo e sem raiva. Não o queria mais. Mas, não sofria mais. Pelo contrário, uma sensação inesperada de plenitude, de placidez, tinha tomado posse dela. Ninguém ou nada poderia machucá-la mais. A verdadeira felicidade podia estar na convicção de que a felicidade havia sido irremediavelmente perdida. “Entonces empezamos a movernos por la vida sin esperanzas ni miedos, capaces de gozar por fin todos los pequeños goces, que son los más perdurables”.

Súbito, um rugido feroz, depois um clarão branco que a empurra para trás, toda tremendo.

¿Es el entreacto? No. Es el gomero, ella lo sabe. Lo habían abatido!

Haviam tirado sua privacidade, seu segredo; ela estava nua no meio da rua, nua ao lado de um marido que lhe virava as costas para dormir, que não lhe dera filhos. Ela não entendia como podia ter suportado o riso de Luis por um ano, aquela falsa risada de um homem que treinou para rir porque é necessário rir em certas ocasiões.

—Pero, Brígida, ¿por qué te vas?,  —había preguntado Luis.

—¡El árbol, Luis, el árbol! Han derribado el gomero.

Faz-se silêncio. E a realidade, finalmente, se sobrepõe ao mundo fantasioso de Brígida. Ela conclui que a árvore, como o marido, estão ambos sujeitos a viver e a morrer. Entende que nem a árvore nem o marido podem lhe fornecer uma existência estável. Nessa descoberta, ela rejeita sua condição anterior de dependência e decide que assumirá inteiramente a própria vida:

“¡Mentira! Eran mentiras su resignación y su serenidad; quería amor, sí, amor, y viajes y locuras, y amor, amor…”

De Maria Luisa Bombal fica para mim, principalmente, seu estilo, que desenha um fundo de familiaridade trágica. O ritmo compassado de sua escrita —e a nuance poética das figuras a cada instante evocadas— que anulam qualquer pieguice melodramática e varrem, aos poucos, toda e qualquer hipótese de dúvida entre anseio e sonho.

Setembro de 2018.


A Morte de Madrugada Não Desvendada

A Morte de Madrugada não Desvendada

*Salete Oliveira

A nossa comandante Lourdes Rodrigues telefona à hora do almoço, fala com cada um de nós já no Traço, Everaldo Júnior, Luzia e eu. Levem o barco hoje à tarde, pede; dá-nos tarefas a cumprir: Júnior, assuma o comando, Salete faça o momento poético, Luzia leia seu conto; se sobrar tempo, adiantem a leitura de Por Favor, Cuide da Mamãe. Ficamos a comer a sobremesa, salada de frutas com leite condensado, a ouvir Sarmento que chega cedo, brindando-nos com suas canções, ainda no cais.

E então, começamos a nossa viagem.

O Momento Poético veio de uma forma singular, através de um meme sobre o fuzilamento de Federico García Lorca, por ocasião do aniversário de sua morte em 19 de agosto, o que provocou um paralelo entre a ditadura espanhola e o momento atual em nosso país; as discussões sobre a impossibilidade da foto ter sido realizada; as motivações e condições irreveladas de sua morte, da qual nunca se teve testemunhos. Everaldo Júnior trouxe além do meme, o poema de Vinícius de Moraes sobre a morte de Federico Garcia Lorca de tal forma tocante, que nos faz acreditar ter sido ele testemunha ocular da tragédia. Veio, também,  um Réquiem escrito por Vinícius. Assim veio Lorca para nós, já em sua hora derradeira. A leveza do almoço e sobremesa nos deram força para ler, ouvir, chorar com os testemunhos de Vinícius.  Lourdinha nos prometeu trazer Lorca em toda sua pujança de paixão e vida em um próximo momento.

Federico García Lorca, nascido em Granada,  foi um dos maiores poetas espanhóis do século XX, além de um grande dramaturgo que levou para as suas peças a cultura do seu povo, fazendo um teatro itinerante, popular e de vanguarda, que permanecem até hoje como fonte de inspiração para outros escritores e criadores cênicos.

O meme que circula na Internet tem sido criticado pela sua inverdade. Federico Garcia Lorca foi arrastado de sua casa, morto de madrugada e enterrado numa vala comum, sem que jamais tenha sido encontrado o seu corpo. Questiona-se ainda a cena, como uma representação cinematográfica, cujo ator distancia-se muito de Lorca na aparência, no gestual.  De qualquer forma, é considerada válida para não ser esquecido esse terrível momento histórico em que o fascismo tomava conta da Espanha, ceifando milhões de vidas, entre elas a do grande poeta e dramaturgo Federico Lorca.

A família de Garcia Lorca não aprovou a busca do corpo para exumação, não se esclarecendo as circunstâncias de sua morte. A família concorda que fique junto de milhares de outros que foram mortos e enterrados em vala comum, considerada um lugar de reverência.

A morte de madrugada

Muerto cayó Federico.
Antonio Machado

Uma certa madrugada
Eu por um caminho andava
Não sei bem se estava bêbado
Ou se tinha a morte n’alma
Não sei também se o caminho
Me perdia ou encaminhava
Só sei que a sede queimava-me
A boca desidratada.
Era uma terra estrangeira
Que me recordava algo
Com sua argila cor de sangue
E seu ar desesperado.
Lembro que havia uma estrela
Morrendo no céu vazio
De uma outra coisa me lembro:
… Un horizonte de perros
Ladra muy lejos del río…

De repente reconheço:
Eram campos de Granada!
Estava em terras de Espanha
Em sua terra ensangüentada
Por que estranha providência
Não sei… não sabia nada…
Só sei da nuvem de pó
Caminhando sobre a estrada
E um duro passo de marcha
Que em meu sentido avançava.

Como uma mancha de sangue
Abria-se a madrugada
Enquanto a estrela morria
Numa tremura de lágrima
Sobre as colinas vermelhas
Os galhos também choravam
Aumentando a fria angústia
Que de mim transverberava.

Era um grupo de soldados
Que pela estrada marchava
Trazendo fuzis ao ombro
E impiedade na cara
Entre eles andava um moço
De face morena e cálida
Cabelos soltos ao vento
Camisa desabotoada.
Diante de um velho muro
O tenente gritou: Alto!
E à frente conduz o moço
De fisionomia pálida.
Sem ser visto me aproximo
Daquela cena macabra
Ao tempo em que o pelotão
Se dispunha horizontal.

Súbito um raio de sol
Ao moço ilumina a face
E eu à boca levo as mãos
Para evitar que gritasse.
Era ele, era Federico
O poeta meu muito amado
A um muro de pedra seca
Colado, como um fantasma.
Chamei-o: Garcia Lorca!
Mas já não ouvia nada
O horror da morte imatura
Sobre a expressão estampada…
Mas que me via, me via
Porque em seus olhos havia
Uma luz mal-disfarçada.
Com o peito de dor rompido
Me quedei, paralisado
Enquanto os soldados miram
A cabeça delicada.

Assim vi a Federico
Entre dois canos de arma
A fitar-me estranhamente
Como querendo falar-me.
Hoje sei que teve medo
Diante do inesperado
E foi maior seu martírio
Do que a tortura da carne.
Hoje sei que teve medo
Mas sei que não foi covarde
Pela curiosa maneira
Com que de longe me olhava
Como quem me diz: a morte
É sempre desagradável
Mas antes morrer ciente
Do que viver enganado.

Atiraram-lhe na cara
Os vendilhões de sua pátria
Nos seus olhos andaluzes
Em sua boca de palavras.
Muerto cayó Federico
Sobre a terra de Granada
La tierra del inocente
No la tierra del culpable.
Nos olhos que tinha abertos
Numa infinita mirada
Em meio a flores de sangue
A expressão se conservava
Como a segredar-me: – A morte
É simples, de madrugada…

 Vinicius de Moraes, em “Poemas esparsos”. [organização Eucanaã Ferraz]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

MORTE DE UM PÁSSARO
(Réquiem para Federico Garcia Lorca)

Ele estava pálido e suas mãos tremiam. Sim, ele estava com medo porque era tudo tão inesperado. Quis falar, e seus lábios frios mal puderam articular as palavras de pasmo que lhe causava a vista de todos aqueles homens preparados para matá-lo. Havia estrelas infantis a balbuciar preces matinais no céu deliqüescente. Seu olhar elevou-se até elas e ele, menos que nunca, compreendeu a razão de ser de tudo aquilo. Ele era um pássaro, nascera para cantar. Aquela madrugada que raiava para presenciar sua morte, não tinha sido ela sempre a sua grande amiga? Não ficara ela tantas vezes a escutar suas canções de silêncio? Por que o haviam arrancado a seu sono povoado de aves brancas e feito marchar em meio a outros homens de barba rude e olhar escuro?

Pensou em fugir, em correr doidamente para a aurora, em bater asas inexistentes até voar. Escaparia assim à fria sanha daqueles caçadores maus que o confundiam com o milhafre, ele cuja única missão era cantar a beleza das coisas naturais e o amor dos homens; ele, um pássaro inocente, em cuja voz havia ritmos de dança.

Mas permaneceu em sua atonia, sem acreditar bem que aquilo tudo estivesse acontecendo. Era, por certo, um mal-entendido. Dentro em pouco chegaria a ordem para soltá-lo, e aqueles mesmos homens que o miravam com ruim catadura chegariam até ele rindo risos francos e, de braços dados, iriam todos beber manzanilla numa tasca qualquer, e cantariam canções de cante-hondo até que a noite viesse recolher seus corpos bêbados em sua negra, maternal mantilha.

As ordens, no entanto, foram rápidas. O grupo foi levado, a coronhadas e empurrões, até a vala comum aberta, e os nodosos pescoços penderam no desalento final. Lábios partiram-se em adeuses, murmurando marias e consuelos. Só sua cabeça movia-se para todos os lados, num movimento de busca e negação, como a do pássaro frágil na mão do armadilheiro impiedoso. O sangue cantava-lhe aos ouvidos, o sangue que fora a seiva mais viva de sua poesia, o sangue que tinha visto e que não quisera ver, o sangue de sua Espanha louca e lúcida, o sangue das paixões desencadeadas, o sangue de Ignácio Sánchez Mejías, o sangue das bodas de sangre, o sangue dos homens que morrem para que nasça um mundo sem violência. Por um segundo passou-lhe a visão de seus amigos distantes. Alberti, Neruda, Manolo Ortiz, Bergamín, Delia, María Rosa – e a minha própria visão, a do poeta brasileiro que teria sido como um irmão seu e que dele viria a receber o legado de todos esses amigos exemplares, e que com ele teria passado noites a tocar guitarra, a se trocarem canções pungentes.

Sim, teve medo. E quem, em seu lugar, não o teria? Ele não nascera para morrer assim, para morrer antes de sua própria morte. Nascera para a vida e suas dádivas mais ardentes, num mundo de poesia e música, configurado na face da mulher, na face do amigo e na face do povo. Se tivesse tido tempo de correr pela campina, seu corpo de poeta-pássaro ter-se-ia certamente libertado das contingências físicas e alçado vôo para os espaços além; pois tal era sua ânsia de viver para poder cantar, cada vez mais longe e cada vez melhor, o amor, o grande amor que era nele sentimento de permanência e sensação de eternidade.

Mas foram apenas outros pássaros, seus irmãos, que voaram assustados dentro da luz da antemanhã, quando os tiros do pelotão de morte soaram no silêncio da madrugada.

– Vinicius de Moraes, em “Poemas esparsos”. [organização Eucanaã Ferraz]. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Face of Garcia Lorca in the Form of a Fruit Dish with Three Figs, 1938 – by Salvador Daly

Esta imagem da tela de Salvador Dali, o poema e o réquiem de Vinicius de Moraes foram retirados de: http://www.revistaprosaversoearte.com/garcia-lorca-e-os-poetas-brasileiros/. Há outros poemas dedicados a Garcia Lorca por poetas brasileiros como Carlos Drummond de Andrade, Hilda Hilst, Manuel Bandeira.

Em seguida ao Momento Poético,  Luzia leu um conto surpreendente, Pobre Moça Rica, que nos conta a história de uma moça pobre que esconde sua falta de atrativos e riquezas atrás de uma máscara de amor incondicional e beatitude frente à vida e suas adversas condições, convivendo com grupo de pessoas, seu oposto de beleza e posses materiais. Com surpreendente e abrupto desfecho deixou o grupo atônito e cheio de perguntas, mas… se o próprio narrador assim também o estava, afinal a conhecia tão pouco, como responder às nossas perguntas de leitores ávidos para nos imiscuirmos na vida da Pobre Moça Rica. Júnior sugeriu que o relêssemos em casa voltando a ser relido em uma próxima ocasião na Oficina.

Continuamos a leitura do Livro “Por favor, cuide da mamãe”, na viagem da escritora sul coreana Kyung-sook Shin. Em sua forma detalhada e intimista, a narradora continua a nos surpreender com seus sentimentos, relacionamento com a família, a mãe em especial e os preparativos culinários que pormenoriza.

  • Salete Oliveira é engenheira química, poeta, contista, resenhista.

Augusto dos Anjos: Cantor da Poesia de tudo que é morto

Augusto dos Anjos já esteve em nosso Momento Poético antes, certamente voltará outras vezes. Dessa feita foi levado por nossa poetisa Anita Dubeux, que selecionou, com apuro, alguns poemas do autor para dividir com o grupo. Considerado um dos poetas mais críticos de sua época e um dos mais importantes representantes do pré-modernismo, apesar de sua poesia conter raízes do simbolismo, no gosto pela morte,pela angústia, melancolia e no uso de metáforas. O autor parece querer desafiar os parnasianos, utilizando palavras não-poéticas como verme, cuspe, vômito, entre outras. A obra só possuiu grande vendagem após a morte do poeta.  Declarou-se Cantor da poesia de tudo que é morto. E como o faz bem!

Nasceu no engenho Pau d’Arco, na Paraíba, no dia 22 de abril de 1884, filho de Alexandre Rodrigues dos Anjos e de Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos.
No ano de 1900, ingressa no Liceu Paraibano e produz seu primeiro soneto.
Durante a vida publicou vários poemas em jornais e periódicos e em 1912 editou o seu único livro EU, que causou espanto nos críticos da época, diante de um vocabulário grotesco e sua obsessão pela morte: podridão da carne, cadáveres fétidos e vermes famintos.

Possuía uma retórica delirante, criativa, por vezes absurda, como neste trecho do poema Psicologia de um Vencido:

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro da escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Augusto dos Anjos estudou na Faculdade de Direito do Recife entre 1903 e 1907 e após sua formatura retornou a João Pessoa, onde passou a lecionar Literatura Brasileira, em aulas particulares.

Faleceu em Leopoldina, Minas Gerais, no dia 12 de novembro de 1914.

Poemas memoráveis desse poeta paraibano, hoje universal:

O martírio do artista

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!…
É como o paralítico que, à míngua
Da própria voz, e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem à boca uma palavra!

Vencedor

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E á rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem…
E não pude domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta

Poema Negro está entre os mais lidos e elogiados poemas de Augusto dos Anjos.

 

Após a leitura dos poemas de Augusto dos Anjos, continuamos a viagem, agora com a releitura do conto de  Raduan Nassar, Hoje de Madrugada, elaborada por João Gratuliano que deu o título bastante criativo de As Madrugadas de Ontem, assim mesmo, no plural.  Uma boa releitura sempre irá depender da leitura particular que o leitor fez da obra, mediada pela sua visão de mundo, sensibilidade para captar silêncios, não-ditos, de viajar com as palavras, de abrir suas valises e escarafunchá-las em busca de novos sentidos, cheiros,  cores, musicalidade. João Gratuliano faz isso muito bem. As Madrugadas de Ontem, longe de reproduzir o texto original, é uma criação, trazendo o novo sem perder o elo com a fonte que serviu de inspiração. Disposto sempre a aceitar desafio, Gratuliano aceitou a proposta do grupo e refez o texto apresentado na Oficina, com a participação de todos, especialmente de Everaldo Júnior que foi quem liderou o processo,  dessa vez escondendo o gênero do personagem que só foi revelado no final. Valeu como exercício de desbloqueio criativo.

Sobre a Programação para o Segundo Semestre discutimos um pouco e ficou acordado que iniciaríamos com a autora sul coreana Kyung Sook Shin, Por Favor, Cuide da Mamãe, que já dispomos em meio digital, o que facilitará bastante para  a leitura na próxima quarta-feira. Trata-se de um livro com muitos recursos técnicos literários instigantes, inovadores,  trama bem articulada e extremamente interessante que fisga você nas primeiras páginas.

Lourdes Rodrigues

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Mais fragmentos de viagens do báu

 

Adelaide, nossa viageira sempre presente mesmo quando ausente,  havia enviado para o grupo um poema de Jaci Bezerra, poeta nordestino, alagoano, radicado em Pernambuco, que foi lido no Oficina. Sarmento, que também é das Alagoas, falou-nos do poeta com quem conviveu um pouco, e com a família mais ainda.

Lançado por César Leal no Suplemento Literário do Diário de Pernambuco em 1966, Jaci Bezerra publicou vários livros, assim como participou de alguns importantes movimentos literários, entre eles, A Geração 65, marco irreversível na história da cultura brasileira, segundo César Leal. Além de poeta, Jaci Bezerra é dramaturgo, entre as peças de sua autoria O Galo  e Auto da Renovação. Poeta, contista, dramaturgo, cronista, editor e animador cultural, fundou, em 1979, com alguns companheiros,  a Edições Pirata, do Recife, responsável pela publicação de mais de duas centenas de títulos de escritores brasileiros de várias gerações e tendências.

 

 

 

 

 

 

 

São alguns dos livros que publicou: Romances, Lavradouro, Livro de Olinda, Linha D’Água, Comarca da Memória, entre outros.

 

LINHA D’ÁGUA
Jaci Bezerra

Em Alagoas me achei, achando o mar,
desde então o conservo em mim, aberto,

porém nunca aprendi a soletrar
a insone cadência dos seus metros.

Talvez porque o mar, nervoso e inquieto,
no pacífico silêncio onde Deus viça,

não escreve nem repete o mesmo verso
no seu caderno de águas movediças.

Achando o mar me fiz cúmplice da beleza,
mas ao me consumir em suas chamas

soube que a alma é uma onda de incerteza
presa na cela da nossa areia humana.

Aprendi com o mar a ser constante
e a aceitar, sem pudor, as coisas frágeis:

A fazer da inconstância dos instantes
lembranças o mais possível perduráveis.

Entregue ao mar, pago ao mar o meu tributo,
e ao escutá-lo na minha humana cela,

sinto que o mar, fremindo longe e oculto,
me conta coisas que a ninguém revela.
Linha d’água,2007.

 

CANÇÃO

 

Vou plantar na varanda a minha mágoa,

e espero, assim, que a vida a mim esqueça.

Fluídico e sereno como as águas

deixem, vocês, que eu me desapareça.

Vou partir depois disso, prontos tenho

o passaporte e a blusa de emigrante.

Deixem vocês, eu parto como venho

para ser outra vez o que fui antes,

As lágrimas ardendo são estrelas

cintilando no fundo de outro poço.

Vocês não se debrucem para vê-las

que, nelas, acharão só meus destroços

(a canção que inventei de ouvido, inteira,

e as rosas florescendo nos meus ossos).

Não procurem saber dos meus intentos,

peço como um favor, ninguém me ouça,

pois rosário já vem tangendo os ventos

e apaziguando a minha carne moça,

vem molhada de luz, vem sem lamentos,

trazendo um lírio em suas mãos de louça.

Já é chegada a hora da partida,

No meu bolso soluça o coração,

por isso, não liguem muito à vida

que para olhar e ver, trago na mão.

Nem olhem, se ainda me veem, para a ferida

que expõe, aberta, a minha solidão.

Parto rendido e entregue aos meus afetos,

e amigos que não tenho, não terei.

Matei as sempre-vivas do deserto

recusando as canções que não criei.

E descobri, sentindo o amor tão perto,

que nada sou do sonho que inventei.

Depois dos poemas de Jaci Bezerra foi lido um conto incrível de Cortázar levado por mim, por sugestão de Luzia. Sempre estamos velejando pelos mares do escritor argentino por eles nos instigarem a ver além do seu conteúdo formal, por nos permitirem enveredar pela  magia e fantasia, pelo fantástico e mistério. São passagens que nos conduzem a veredas densas, de complexa travessia. As Babas do Diabo permitiu-nos muita discussão, numa bela esgrima entre o que cada um levou de seu nessa viagem, fazendo o seu próprio percurso e o que a narrativa oferecia concretamente. Certamente novas releituras serão feitas, assim como resenhas, resumos, análises.

Jaboatão dos Guararapes, maio de 2017

Lourdes Rodrigues

 

Pomba Enamorada ou Uma História de Amor

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 Pomba Enamorada ou Uma História de Amor, de Lygia Fagundes Telles, na  Antologia:  Meus Contos Preferidos, Rio de Janeiro, Editora Rocco, 2004.

Trata-se de uma história de amor não correspondido, narrado na terceira pessoa, com alguns diálogos diretos inseridos dentro da narração, sem passagem ou pontuação específica. Observa-se, algumas vezes o diálogo indireto e até o indireto livre quando a passagem do narrador para o personagem se faz de forma quase imperceptível. O enredo está contido num único e longo parágrafo.

O título do conto nos remete a um folhetim, a uma história de amor dessas que enche os altos falantes das festas de rua do interior e as rádios da cidade com pedidos de música através de pseudônimos do tipo Pomba Enamorada, Coração Apaixonado.

Mas também o enredo lembra-nos um conto de fadas. Há um baile no Clube, onde será escolhida a rainha da Primavera. Ela, que ainda não é a pomba enamorada, apenas uma humilde ajudante de cabeleireira, candidatou-se ao título, que não consegue, segundo a sua própria versão, porque o namorado da outra comprou todos os votos. Quando o rapaz a convida para dançar teve tontura, enxugou depressa as mãos molhadas de suor no corpete do vestido (fingindo que alisava alguma prega) e de pernas bambas abriu-lhe os braços e o sorriso. É o seu príncipe! Assim, como nos contos de fada, ela imaginou que seriam felizes para sempre, pois estava decidida a amá-lo por toda vida. O príncipe não era lá muito polido, declarou a sua insatisfação por ela não ter ganhado o concurso porque a rainha é uma bela bosta, com o perdão da palavra.   As únicas palavras que trocaram e que lhe deram a certeza de que ele era seu namorado, ali em seus braços, ao som da Valsa dos Miosótis. Quando o príncipe se afasta dizendo que iria fumar, já dançando o bis da valsa, e  desaparece, ela fica a procurá-lo de forma tão insistente que o diretor do clube quis saber quem era o procurado, e ela não hesita ao dizer, meu namorado. O estranhamento do diretor fez com que, em segundos, desse-lhe o nome (Antenor) e perfil do rapaz (não esquenta o rabo em nenhum emprego…) e acrescentasse maldosamente, embora com ar de distraído enquanto a apertava com força ao som de Nosoutros: É que ele saiu logo depois da valsa, todo atracado com uma escurinha de frente única…

O repertório musical escolhido pela autora para essa festa faz a ambientação do romance, primeiro com o casal dançando a Valsa do Miosótis, depois, quando já o rapaz desaparece e o diretor entra em cena, com Nosoutros.  Pode-se imaginar a cena entre as décadas de sessenta e setenta, em um clube de bairro ou de uma cidade de interior. Mergulhado no tempo e espaço da narrativa o leitor corre os olhos sobre as letras para acompanhar o romance.

Com o endereço dado pelo diretor ela vai procurá-lo na oficina e percebendo que sequer a reconhecia, disse eu sou a princesa do São Paulo Chique, lembra? Lembrou-se, e balançando a cabeça com ar incrédulo, trata de despachá-la, dizendo que qualquer hora daria uma ligada, que guardaria o número do telefone que ela lhe dava, sem sequer se dar ao trabalho de anotá-lo. Não ligou. A personagem, como boa Capricorniana, sabe que jamais irá conseguir algo fácil, que deve lutar o dobro para vencer. E vai à luta. Recorre aos santos, acende velas, faz novenas e telefona, inicialmente, apenas para ouvir a voz e desligar, depois, animada pelo vermute que Rôni lhe dera, amigo e companheiro de trabalho no salão, decide falar. Ela outra vez se apresenta como a princesa do baile e convida-o para ver um filme nacional que estava passando, pertinho da oficina que ele trabalhava. A resposta foi o silêncio, tão longo que ela pensa ter caído a linha. Rôni a socorre com outro vermute e se oferece para falar por ela. A reação de Antenor é tão violenta que Rôni, revirando os olhos associa aquela voz a voz dos mafiosos do cinema. Não, ele não quer ir ao cinema, não quer que lhe telefonem mais, o patrão está puto da vida, e diz que está comprometido e se um dia lhe desse na telha, ELE MESMO TELEFONARIA. Assim, aos berros.

E foram muitas e muitas tentativas, catorze cartas, nove românticas e as demais eróticas, estas últimas ela acabou não enviando. Todas assinadas com o pseudônimo de Pomba Enamorada que ao longo do tempo resumiu para P.E. Antenor, insensível aos apelos da pombinha, foi num crescente caprichando na rejeição grosseira. Mas ela não desiste.

Quando soube por um chofer de praça muito bonzinho, amigo de Antenor, que ele estaria se casando naquele dia, justo quando acabara de levar pratinho de doces para São Cosme e São Damião, não chorou, foi ao crediário do Mappin, comprou um licoreiro, escreveu um cartão desejando-lhe todas as felicidades do mundo, pediu ao Gilvan que levasse o presente, escreveu no papel de seda do pacote um P.E. bem grande (tinha esquecido de assinar o cartão) e quando chegou em casa bebeu soda cáustica.

Ela sai do hospital amparada pelo chofer de praça, que se torna seu marido, pouco tempo depois. Mas não desliga o GPS continua acompanhando as passadas de Antenor e enviando postais dando conta da sua vida, da sua televisão à cores, seu canário e seu cachorrinho chamado Perereca. Apesar das constantes mudanças de emprego do rapaz ela o localiza e escreve colando um amor- perfeito seco na carta. E os anos foram se passando, e as cartas da Pomba Enamorada se sucedendo, até que, no noivado da sua filha caçula foi a uma cartomante que disse que ela fosse à estação rodoviária no próximo domingo, onde veria chegar um homem que mudaria por completo sua vida, cujo nome começava por A.

No domingo, ela deixa a neta com uma comadre, veste o vestido azul-turquesa das suas bodas de prata, confere que o horóscopo do dia lhe é favorável e  vai à rodoviária.

O final do conto está aberto. Se o leitor for muito positivista vai pensar que ela irá encontrar Antenor e ele mais uma vez vai rejeitá-la com grosseria. Caso o leitor seja romântico ao extremo, fará o seu final com Antenor e Pomba Enamorada caindo nos braços um do outro. Ou ainda, se ele for cético vai deixá-la horas aguardando na rodoviária em vão, porque ninguém pode dar crédito ao que diz uma cartomante. Enfim, brincamos um pouco na Oficina com os possíveis finais do conto e os viageiros ficaram de dar continuidade, escrevendo eles mesmos o que aconteceu nesse encontro, desencontro ou qualquer que seja, porque como escritores muito criativos, eles irão dar asas  à imaginação.

Lygia Fagundes Telles é uma das maiores escritora do Brasil. Transformar uma história comum de amor não correspondido numa obra literária de tamanha beleza é preciso muito maestria. Que venha o grande prêmio literário para ela!

Jaboatão dos Guararapes, 12 de setembro de 2016

Lourdes Rodrigues