Clariceando

LISPECTOR, CLARICE – VIAGEM A PETRÓPOLIS, em Os Melhores Contos da América Latina – Org. Flávio Moreira da Costa – Agir, 2008

Viagem a Petrópolis é um conto de Clarice Lispector, narrado na terceira pessoa, que conta a história de uma velha que nasceu e viveu quase toda a sua vida no Maranhão e encontra-se morando no Rio de Janeiro, de caridade, numa casa em Botafogo, com pessoas que não são da sua família e que, cansadas da sua presença resolvem levá-la para Petrópolis, onde pretendem deixá-la na casa de outro membro da família, sem consultá-lo.

A função do narrador neste conto parece ser — sob a aparente solidariedade com a personagem a quem chama de velhinha sequinha– perturbar o leitor, apresentando ora de forma irônica ora de forma sutil, o tratamento cruel dispensado a uma pessoa idosa, com sérios problemas mentais ou emocionais, pouco vai se saber do personagem, apenas pequenos fragmentos de sua vida são apresentados.  Na primeira frase ele dá o tom da narrativa: Era uma velhinha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo. O doce e obstinada faz um contraponto doloroso com o não parecia compreender que estava só no mundo. E assim ele vai de forma irônica apresentando o personagem, descrevendo a sua decrepitude:a baba, o vestido preto e opaco velho documento de sua vida, com uma nódoa amarelada de um ovo que ela comera há duas semanas… Mas quando lhe perguntam o nome diz: Mocinha. As pessoas sorriem, diz o narrador, e o leitor, também, claro, ele não poderia ficar indiferente a tamanho contraste. Mesmo quando ela diz o seu nome verdadeiro, Margarida ainda parece engraçado porque ele, também, sugere juventude. Apelido e nome não devem ter sido escolhidos por acaso, o que deixa muito evidente a maestria de Clarice. Há, inclusive, na lenda inglesa, uma fada que alimenta um príncipe, fazendo comida com essa flor para que ele nunca crescesse e nem perdesse a inocência infantil. Talvez Clarice tenha querido mostrar que Mocinha/Margarida nunca perdeu a inocência infantil, pois está sempre sorrindo, apesar de tudo.

E o narrador prossegue na apresentação ao mencionar que ela antes era alta, clara, que tivera pai, mãe, marido, filhos e concluir o inventário dizendo que só restara ela com os olhos sujos e expectantes quase cobertos por um tênue veludo branco.

O tom satírico da narrativa está presente desde o título: Viagem a Petrópolis.  Não se trata de um passeio turístico, mas de uma viagem para se livrar da velha, pregando uma peça no irmão e na cunhada alemã. Na sátira a ampliação dos defeitos tem por finalidade ridicularizar o personagem.  E os termos velhinha e sequinha longe de sugerir carinho sugerem humor, assim como a descrição do seu vestido choca o leitor pela crueza da decrepitude do velho que não consegue mais cuidar da própria higiene. Da mesma forma, quando diz que lhe davam pouca esmola porque ela era pequena e não precisava comer muito. Quando lhe davam cama para dormir davam-na estreita e dura porque Margarida fora aos poucos perdendo volume. Ela também não agradecia muito: sorria e balançava a cabeça. Tudo em perfeita harmonia com o propósito de satirizar o personagem, diminuindo um pouco a crueldade da situação. Se essa história fosse contada sem a ironia, poderia correr o risco de ficar piegas ou dramática demais. Clarice recorre à ironia para trazer um problema da maior relevância: o tratamento do velho em nossa sociedade, com o agravante desse velho ser nordestino e se encontrar no Rio de Janeiro.

O narrador, embora onisciente , pois consegue saber o que está na mente do personagem, vê fragmentos de suas lembranças, também admite não saber como ele foi parar no quarto dos fundos daquela casa em Botafogo, deixando um pouco de mistério sobre a sua vida. A única informação que ele dá e de uma forma extremamente sarcástica é de que viera há pouco do Maranhão trazida por uma senhora muito boa que pretendia interná-la num asilo, mas depois não pudera ser: a senhora viajara para Minas e dera algum dinheiro para Mocinha se arrumar no Rio.Realmente, uma senhora muito generosa.

A família de Botafogo achava graça em Mocinha, mas esquecia-se dela a maior parte do tempo, diz o narrador de forma irônica, colocando um dos grandes problemas que enfrentam os velhos na nossa sociedade que é a sua invisibilidade. Afinal, estão todos muito ocupados. A moça para quem Mocinha não era invisível, sentia um mal-estar irritado, a velha enervava-a sem motivo. O que mais a irritava era o sorriso permanente. Como um velho decrépito poderia sorrir? E o espanto não parava por aí. Achavam hilário alguém vivendo da caridade poder passear.

A excitação de Mocinha na noite anterior à viagem, diante da possibilidade de ir passear, desenferrujando o coração todo seco e descompassado, leva-a ao delírio, a ficar falando em voz alta, aos fragmentos de suas lembranças. Aqui o narrador usa do diálogo indireto livre, ora deixa o personagem falar se soubesse que a filha morreria de parto, é claro que não precisaria gritar, ora na sua onisciência penetra na mente de Mocinha e ver o marido dela em mangas de camisa e novamente passa a voz da narrativa para o personagem Mas não era possível, estava certa de que ele ia à repartição com o uniforme de contínuo… Tudo com muita habilidade, competência. No caminho da viagem à Petrópolis o narrador solta o personagem, misturando a sua voz e a dele, para participarmos da  excitação de Mocinha quando vê um gato!, letras, deixando sutilmente a suspeita de que ele não sabia ler.:

Os diálogos diretos do personagem são quase inexistentes: quando se apresenta e dar o nome, Mocinha, Margarida; quando responde ao lhe perguntarem por onde andou, passeando; quando se dá conta da cama dura na noite que antecede a viagem,Que cama dura; e ao se despedir de Arnaldo, Obrigada, Deus lhe ajude.É um personagem silencioso, mas o narrador fala por ambos, já que não se omite de dar o seu ponto de vista de forma irônica, às vezes cruel: Comeu como um rato, arranhando até o sangue os lugares da boca onde só havia gengiva. Poderíamos até ousar dizer que o narrador desse conto é um personagem e que ele conta essa triste história com humor para não deixar transparecer a sua emoção diante da forma insensível como é tratada uma velha, inofensiva, sorridente, sem família, distante da  terra onde  nasceu e viveu o tempo inteiro, com escassa consciência da realidade. Ou quem sabe o tom jocoso tenha por objetivo, como foi dito no início, dar um soco no estômago do leitor e acordá-lo para o problema do velho em nossa sociedade? Ou, simplesmente, o narrador é um personagem insensível, bom representante de uma sociedade que exclui os incapazes economicamente, os nascidos nas regiões mais pobres ou despossuídos de condições mentais e emocionais para se defenderem.

Na verdade, o narrador é um personagem criado pelo autor para contar uma história. É a forma como ele conta essa história que o tornará mais ou menos visível para o leitor. Em Viagem a Petrópolis pode-se dizer tudo desse narrador menos que ele é neutro, pois a sua presença é inquestionável e a sua parcialidade é gritante desde a primeira frase. A ironia usada para falar do personagem incomoda, mas soa agradável quando ele se refere aos personagens coadjuvantes. O maior estranhamento, contudo, se dá quando ele anuncia de forma quase casual, beirando ao leviano que Mocinha morreu: Então, como estava cansada, a velha encostou a cabeça no tronco da árvore e morreu. Morreu?!!! Assim, sem nenhuma preparação do leitor, ficamos a perguntar. Assim, assim mesmo, e não poderia ser diferente sob pena de comprometer a qualidade do texto. Passado o choque inicial, podemos apreciar a perfeição desse final, totalmente coerente com o estilo adotado pelo narrador desde o início para contar essa história: irônico, parcial, satírico. Fechamento apoteótico.

Viagem a Petrópolis é um conto que tem muito o que dizer. Ele merece ser lido e relido várias vezes para se tentar garimpar as riquezas submersas que escapam à nossa percepção num primeiro momento. Um verdadeiro iceberg, aliás, como tudo que Clarice Lispector fez: o que está visível, aparente, é apenas uma pequena parte do que está ali.

Jaboatão dos Guararapes, 12 de fevereiro de 2012

                                      Lourdes Rodrigues

Viagem a Petrópolis

Clarice Lispector

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Era uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo. Os olhos lacrimejavam sempre, as mãos repousavam sobre o vestido preto e opaco, velho documento de sua vida. No tecido já endurecido encontravam-se pequenas crostas de pão coladas pela baba que lhe ressurgia agora em lembrança do berço. Lá estava uma nódoa amarelada, de um ovo que comera há duas semanas. E as marcas dos lugares onde dormia. Achava sempre onde dormir, casa de um, casa de outro. Quando lhe perguntavam o nome, dizia com a voz purificada pela fraqueza e por longuíssimos anos de boa educação:
— Mocinha.
As pessoas sorriam. Contente pelo interesse despertado, explicava:
— Nome, nome mesmo, é Margarida.
O corpo era pequeno, escuro, embora ela tivesse sido alta e clara. Tivera pai, mãe, marido, dois filhos. Todos aos poucos tinham morrido. Só ela restara com os olhos sujos e expectantes quase cobertos por um tênue veludo branco. Quando lhe davam alguma esmola davam-lhe pouca, pois ela era pequena e realmente não precisava comer muito. Quando lhe davam cama para dormir davam-na estreita e dura porque Margarida fora aos poucos perdendo volume. Ela também não agradecia muito: sorria e balançava a cabeça.
Dormia agora, não se sabia mais por que motivo, no quarto dos fundos de uma casa grande, numa rua larga cheia de árvores, em Botafogo. A família achava graça em Mocinha mas esquecia-se dela a maior parte do tempo. É que também se tratava de uma velha misteriosa. Levantava-se de madrugada, arrumava sua cama de anão e disparava lépida como se a casa estivesse pegando fogo. Ninguém sabia por onde andava. Um dia uma das moças da casa perguntou-lhe o que andava fazendo. Respondeu com um sorriso gentil:
— Passeando.
Acharam graça que uma velha, vivendo de caridade, andasse a passear. Mas era verdade. Mocinha nascera no Maranhão, onde sempre vivera. Viera para o Rio não há muito, com uma senhora muito boa que pretendia interná-la num asilo, mas depois não pudera ser: a senhora viajara para Minas e dera algum dinheiro para Mocinha se arrumar no Rio. E a velha passeava para ficar conhecendo a cidade. Bastava aliás uma pessoa sentar-se num banco de uma praça e já via o Rio de Janeiro.
Sua vida corria assim sem atropelos, quando a família da casa de Botafogo um dia surpreendeu-se de tê-la em casa há tanto tempo, e achou que assim também era demais. De algum modo tinham razão. Todos Iá eram muito ocupados, de vez em quando surgiam casamentos, festas, noivados, visitas. E quando passavam atarefados pela velha, ficavam surpreendidos como se fossem interrompidos, abordados com uma pancadinha no ombro: “olha!”. Sobretudo uma das moças da casa sentia um mal-estar irritado, a velha enervava-a sem motivo. Sobretudo o sorriso permanente, embora a moça compreendesse tratar-se de um ricto inofensivo. Talvez por falta de tempo, ninguém falou no assunto. Mas logo que alguém cogitou de mandá-la morar em Petrópolis, na casa da cunhada alemã, houve uma adesão mais animada do que uma velha poderia provocar.
Quando, pois, o filho da casa foi com a namorada e as duas irmãs passar um fim-de-semana em Petrópolis, levou a velha no carro.
Por que Mocinha não dormiu na noite anterior? À idéia de uma viagem, no corpo endurecido o coração se desenferrujava todo seco e descompassado, como se ela tivesse engolido uma pílula grande sem água. Em certos momentos nem podia respirar. Passou a noite falando, às vezes alto. A excitação do passeio prometido e a mudança de vida, de repente aclaravam-lhe algumas idéias. Lembrou-se de coisas que dias antes juraria nunca terem existido. A começar pelo filho atropelado, morto debaixo de um bonde no Maranhão — se ele tivesse vivido no tráfego do Rio de Janeiro, aí mesmo é que morria atropelado. Lembrou-se dos cabelos do filho, das roupas dele. Lembrou-se da xícara que Maria Rosa quebrara e de como ela gritara com Maria Rosa. Se soubesse que a filha morreria de parto, é claro que não precisaria gritar. E lembrou-se do marido. Só relembrava o marido em mangas de camisa. Mas não era possível, estava certa de que ele ia à repartição com o uniforme de contínuo, ia a festas de paletó, sem falar que não poderia ter ido ao enterro do filho e da filha em mangas de camisa. A procura do paletó do marido ainda mais cansou a velha que se virava com leveza na cama. De repente descobriu que a cama era dura.
— Que cama dura, disse bem alto no meio da noite.
É que se sensibilizara toda. Partes do corpo de que não tinha consciência há longo tempo reclamavam agora a sua atenção. E de súbito — mas que fome furiosa! Alucinada, levantou-se, desamarrou a pequena trouxa, tirou um pedaço de pão com manteiga ressecada que guardava secretamente há dois dias. Comeu o pão como um rato, arranhando até o sangue os lugares da boca onde só havia gengiva. E com a comida, cada vez mais se reanimava. Conseguiu, embora fugazmente, ter a visão do marido se despedindo para ir ao trabalho. Só depois que a lembrança se desvaneceu, viu que esquecera de observar se ele estava ou não em mangas de camisa. Deitou-se de novo, coçando-se toda ardente. Passou o resto da noite nesse jogo de ver por um instante e depois não conseguir ver mais. De madrugada adormeceu.
E pela primeira vez foi preciso acordá-la. Ainda no escuro, a moça veio chamá-la, de lenço amarrado na cabeça e já de maleta na mão. Inesperadamente Mocinha pediu uns instantes para pentear os cabelos. As mãos trêmulas seguravam o pente quebrado. Ela se penteava, ela se penteava. Nunca fora mulher de ir passear sem antes pentear bem os cabelos.
Quando enfim se aproximou do automóvel, o rapaz e as moças se surpreenderam com seu ar alegre e com os passos rápidos. “Tem mais saúde do que eu!”, brincou o rapaz. À moça da casa ocorreu: “E eu que até tinha pena dela”.
Mocinha sentou-se junto da janela do carro, um pouco apertada pelas duas irmãs acomodadas no mesmo banco. Nada dizia, sorria. Mas quando o automóvel deu a primeira arrancada, jogando-a para trás, sentiu dor no peito. Não era só por alegria, era um dilaceramento. O rapaz virou-se para trás:
— Não vá enjoar, vovó!
As moças riram, principalmente a que se sentara na frente, a que de vez em quando encostava a cabeça no ombro do rapaz. Por cortesia, a velha quis responder, mas não pôde. Quis sorrir, não conseguiu. Olhou para todos, com olhos lacrimejantes, o que os outros já sabiam que não significava chorar. Qualquer coisa em seu rosto amorteceu um pouco a alegria da moça da casa e deu-lhe um ar obstinado.
A viagem foi muito bonita.
As moças estavam contentes, Mocinha agora já recomeçara a sorrir. E, embora o coração batesse muito, tudo estava melhor. Passaram por um cemitério, passaram por um armazém, árvore, duas mulheres, um soldado, gato! letras — tudo engolido pela velocidade.
Quando Mocinha acordou não sabia mais aonde estava. A estrada já havia amanhecido totalmente: era estreita e perigosa. A boca da velha ardia, os pés e as mãos distanciavam-se gelados do resto do corpo. As moças falavam, a da frente apoiara a cabeça no ombro do rapaz. Os embrulhos despencavam a todo instante.
Então a cabeça de Mocinha começou a trabalhar. O marido apareceu-lhe de paletó — achei, achei! o paletó estava pendurado o tempo todo no cabide. Lembrou-se do nome da amiga de
Maria Rosa, daquela que morava defronte: Elvira, e a mãe de Elvira até era aleijada. As lembranças quase lhe arrancavam uma exclamação. Então ela movia os lábios devagar e dizia baixo algumas palavras.
As moças falavam:
— Ah, obrigada, um presente desses eu rejeito!
Foi quando Mocinha começou finalmente a não entender. Que fazia ela no carro? como conhecera seu marido e aonde? como é que a mãe de Maria Rosa e Rafael, a própria mãe deles, estava no automóvel com aquela gente? Logo depois acostumou-se de novo.
O rapaz disse para as irmãs:
— Acho melhor não pararmos defronte, para evitar histórias. Ela salta do carro, a gente ensina aonde é, ela vai sozinha e dá o recado de que é para ficar.
Uma das moças da casa perturbou-se: receava que o irmão, com uma incompreensão típica de homem, falasse demais diante da namorada. Eles não visitavam mais o irmão de Petrópolis, e muito menos a cunhada.
— É sim, interrompeu-o a tempo antes que ele falasse demais. Olha, Mocinha, você entra por aquele beco e não há como errar: na casa de tijolo vermelho, você pergunta por Arnaldo, meu irmão, ouviu? Arnaldo. Diz que lá em casa você não podia mais ficar, diz que na casa de Arnaldo tem lugar e que você até pode vigiar um pouco o garoto, viu…
Mocinha desceu do automóvel, e durante um tempo ainda ficou de pé mas pairando entontecida sobre rodas. O vento fresco soprava-lhe a saia comprida por entre as pernas.
Arnaldo não estava. Mocinha entrou na saleta onde a dona da casa, com um pano contra pó amarrado na cabeça, tomava café. Um menino louro — decerto aquele que Mocinha deveria vigiar— estava sentado diante de um prato de tomates e cebolas e comia sonolento, enquanto as pernas brancas e sardentas balançavam-se sob a mesa. A alemã encheu-lhe o prato de mingau de aveia, empurrou-lhe na mesa pão torrado com manteiga. As moscas zuniam. Mocinha estava fraca. Se bebesse um pouco de café quente talvez passasse o frio no corpo.
A mulher alemã examinava-a de vez em quando em silêncio: não acreditara na história da recomendação da cunhada, embora “de Iá” tudo fosse de se esperar. Mas talvez a velha tivesse ouvido de alguém o endereço, até num bonde, por acaso, isso às vezes acontecia, bastava abrir um jornal e ver que acontecia. É que aquela história não estava nada bem contada, e a velha tinha um ar sabido, nem sequer escondia o sorriso. O melhor seria não deixá-la sozinha na saleta, com o armário cheio de louça nova.
— Preciso antes tomar café, disse-lhe. Depois que meu marido chegar, veremos o que se pode fazer.
Mocinha não entendeu muito bem, pois ela falava como gringa. Mas entendeu que era para continuar sentada. O cheiro de café dava-lhe vontade, e uma vertigem que escurecia a sala toda. Os lábios ardiam secos e o coração batia todo independente. Café, café, olhava ela sorrindo e lacrimejando. A seus pés o cachorro mordia a própria pata, rosnando. A empregada, também meio gringa, alta, de pescoço muito fino e seios grandes, a empregada trouxe um prato de queijo branco e mole. Sem uma palavra, a mãe esmagou bastante queijo no pão torrado e empurrou-o para o lado do filho. O menino comeu tudo e, com a barriga grande, agarrou um palito e levantou-se:
Mãe, cem cruzeiros.
Não. Para quê?
Chocolate.
Não. Amanhã é que é domingo.
Uma pequena luz iluminou Mocinha: domingo? que fazia naquela casa em vésperas de domingo? Nunca saberia dizer. Mas bem que gostaria de tomar conta daquele menino. Sempre gostara de criança loura: todo menino louro se parecia com o Menino Jesus. O que fazia naquela casa? Mandavam-na à toa de um lado para outro, mas ela contaria tudo, iam ver. Sorriu encabulada: não contaria era nada, pois o que queria mesmo era café.
A dona da casa gritou para dentro, e a empregada indiferente trouxe um prato fundo, cheio de papa escura. Gringos comiam muito de manhã, isso Mocinha vira mesmo no Maranhão. A dona da casa, com seu ar sem brincadeiras porque gringo em Petrópolis era tão sério como no Maranhão, a dona da casa tirou uma colherada de queijo branco, triturou-o com o garfo e misturou-o à papa. Para dizer verdade, porcaria mesmo de gringo. Pôs-se então a comer, absorta, com o mesmo ar de fastio que os gringos do Maranhão têm. Mocinha olhava. O cachorro rosnava às pulgas.
Afinal Arnaldo apareceu em pleno sol, a cristaleira brilhando. Ele não era louro. Falou em voz baixa com a mulher, e depois de demorada confabulação, informou firme e curioso para Mocinha:
— Não pode ser não, aqui não tem lugar não.
E como a velha não protestasse e continuasse a sorrir, ele falou mais alto:
— Não tem lugar não, ouviu?
Mas Mocinha continuava sentada. Arnaldo ensaiou um gesto. Olhou para as duas mulheres na sala e vagamente sentiu o cômico do contraste. A esposa esticada e vermelha. E mais adiante a velha murcha e escura, com uma sucessão de peles secas penduradas nos ombros. Diante do sorriso malicioso da velha, ele se impacientou:
— E agora estou muito ocupado! Eu lhe dou dinheiro e você toma o trem para o Rio, ouviu? volta para a casa de minha mãe, chega lá e diz: casa de Arnaldo não é asilo, viu? aqui não tem lugar. Diz assim: casa de Arnaldo não é asilo não, viu!
Mocinha pegou no dinheiro e dirigiu-se à porta. Quando Arnaldo já ia se sentar para comer, Mocinha reapareceu:
— Obrigada, Deus lhe ajude.
Na rua, de novo pensou em Maria Rosa, Rafael, o marido. Não sentia a menor saudade. Mas lembrava-se. Dirigiu-se para a estrada, afastando-se cada vez mais da estação. Sorriu como se pregasse uma peça a alguém: em vez de voltar logo, ia antes passear um pouco. Um homem passou. Então uma coisa muito curiosa, e sem nenhum interesse, foi iluminada: quando ela era ainda uma mulher, os homens. Não conseguia ter uma imagem precisa das figuras dos homens, mas viu a si própria com blusas claras e cabelos compridos. A sede voltou-lhe, queimando a garganta. O sol ardia, faiscava em cada seixo branco. A estrada de Petrópolis é muito bonita.
No chafariz de pedra negra e molhada, em plena estrada, uma preta descalça enchia uma lata de água.
Mocinha ficou parada, espreitando. Viu depois a preta reunir as mãos em concha e beber.
Quando a estrada ficou de novo vazia, Mocinha adiantou-se como se saísse de um esconderijo e aproximou-se sorrateira do chafariz. Os fios de água escorreram geladíssimos por dentro das mangas até os cotovelos, pequenas gotas brilharam suspensas nos cabelos.
Saciada, espantada, continuou a passear com os olhos mais abertos, em atenção às voltas violentas que a água pesada dava no estômago, acordando pequenos reflexos pelo resto do corpo como luzes.
A estrada subia muito. A estrada era mais bonita que o Rio de Janeiro, e subia muito. Mocinha sentou-se numa pedra que havia junto de uma árvore, para poder apreciar. O céu estava altíssimo, sem nenhuma nuvem. E tinha muito passarinho que voava do abismo para a estrada. A estrada branca de sol se estendia sobre um abismo verde. Então, como estava cansada, a velha encostou a cabeça no tronco da árvore e morreu.

 

 

 

 

HORA DE CLARICE

No dia 10 de dezembro de 2011, na Livraria da Jaqueira, sob a coordenação de Flávia Suassuna e André Rangel aconteceu o primeiro encontro, em Recife,  Hora de Clarice, para comemoração do aniversário da escritora. O evento constou da apresentação de documentário e entrevistas, leituras de contos, crônicas, textos os mais variados, histórias infantis, palestras de psicanalistas e da escritora Fátima Quintas

.Convidada por Flávia Suassuna, esta Oficina participou com a leitura por Lourdes Rodrigues de PEDAÇOS ESCOLHIDOS DE CLARICE, composto por trechos retirados do livro CORRESPONDENCIAS CLARICE LISPECTOR, da Rocco; e de uma crônica sobre o ato de escrever de A Descoberta do Mundo.

 Eis o texto apresentado:

PEDAÇOS ESCOLHIDOS DE CLARICE

… eu sou + do que uma mulher.Eu sei que você não o crê Mas eu também não o acreditava, julgando o que tenho feito até hoje. É que eu não sou senão um estado potencial, sentindo que há em mim água fresca, mas sem descobrir onde é a sua fonte. (13/07/41 – Para  Lúcio Cardoso)

 É preciso sempre desconfiar quando assumo esse sorridente ar infeliz.(…) Juro, faço o possível para mergulhar bem fundo dentro de mim e retirar belas coisas simples.(02/01/42 – Para Amauri Gurgel )

 Estou há + de uma semana aqui. Tomei banho numa cascata, já montei “Faísca” e fui mordida por um batalhão de mosquitos. Andei pelos morros fazendo horríveis reflexões sobre a vida e a morte. Mas ainda, não chorei, contrariando os seus prognósticos. Quando estou “quase”, olho-me no espelho com tanta dureza e com tanta noção de presente, passado, espaço e tempo, que me envergonho.(10/01/42 – P/Lúcio Cardoso)

 Quanto ao meu trabalho, ando horrivelmente desfibrada: tudo o que tenho escrito é bagaço; sem gosto, me imitando, ou tomando um tom fácil que não me interessa nem agrada. Também ainda não conseguimos 2 quartos e isso faz de mim uma cadeira. Procuro não me desesperar, ou melhor, nem posso porque estou vagando numa quietude chata. (16/02/44 – Belém – hotel – P/Tânia)

 Fiquei assustada com o que você diz – que é possível que meu livro (Perto do coração selvagem) seja o meu mais importante. Tenho vontade de rasgá-lo e ficar livre de novo: é horrível a gente já estar completa. (1944 – Lucio Cardoso – Belem)

 Antes de começar a escrever eu tinha a impressão de que ia lhe contar como eu tenho escrito, como eu tenho duvidado, como eu acho horrível o que eu tenho escrito e como às vezes me parece sufocante de bom o que tenho escrito, e dois dias depois aquilo não vale nada, como eu tenho aprendido a ser paciente, como é ruim ser paciente, como eu tenho medo de ser uma “escritora” bem instalada, como eu tenho medo de usar as minhas próprias palavras, de me explorar… Eu pensava em dizer tudo isso, estava num impulso de sinceridade e confissão que muitas vezes tenho em relação a você. Mas não sei, talvez porque você nunca tenha sentido em relação a mim esse mesmo impulso, eu fico de repente apenas com as palavras que eu queria dizer, mas sem gostar delas. (1944 – Lúcio, ainda)

 Um dia desses pensei com tristeza de como é genial a tortura da mediocridade… Sinto tanto, tanto ser tão fraca. Gostaria de tal, de tal formal poder trabalhar sem parar. Mas não consigo, as coisas me vêm esparsas – e além disso eu de tal modo desconfio de mim, com medo de escrever facilmente com a ponta dos dedos, que nada faço. (Lucio )

 Estou tentando escrever qualquer  coisa que me parece tão difícil para mim  mesma que eu me contenho para não me desesperar. É alguma coisa que nunca será gostada por ninguém, mas não posso fazer nada.(Lucio)

 Às três horas da tarde sou a mulher mais exigente do mundo. Fico às vezes reduzida ao essencial, quer dizer, só o meu coração bate. Quando passa, vêm seis da tarde, também indescritíveis, em que eu fico cega.Se o telefone toca eu dou um pulo e se me “convidam” eu pareço criança ou cachorrinho, saio correndo e enquanto corro digo: estou perdendo minha tarde.(Fernando Sabino – 1946 – Berna)

 Continuo a trabalhar mas como num pesadelo. Seria tão bom que você lesse um pouco o que faço e dissesse se estou doida ou não. Ou então não lesse, mas me explicasse várias coisas. Às vezes continuar a escrever tem para mim o ar de uma teimosia, digamos ao menos de uma teimosia mais ou menos vital, mas não muda. Cada vez mais parece que me afasto do bom senso, e entro por caminhos que assustariam outros personagens, mas não os meus, tão loucos eles são. (Berna 23/6/47 -Lúcio)

 Tomo menos Milk-shake e levo uma vida diária vazia e agitada. Passo o tempo todo pensando – não raciocinando, não meditando – mas pensando, pensando sem parar. E aprendendo, não sei o quê, mas aprendendo. E com a alma mais sossegada (não estou totalmente certa).

 Mas eu sou uma chata que parece viver com medo de dizer as coisas claramente.

 … não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

14-09-68 – ESCREVER

Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva.

Não estou me referindo muito a escrever para jornal. Mas escrever aquilo que eventualmente pode se transformar num conto ou num romance. É uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação.

Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o ultimo fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.

Que pena que só sei escrever quando espontaneamente a “coisa” vem. Fico assim à mercê do tempo. E, entre um verdadeiro escrever e outro, podem-se passar anos.

Lembro-me agora com saudade da dor de escrever livros.

Por enquanto

Clarice Lispector

Como ele não tinha nada o que fazer, foi fazer pipi. E depois ficou a
zero mesmo.

Viver tem dessas coisas: de vez em quando se fica a zero. E tudo isso
é por enquanto. Enquanto se vive.

Hoje me telefonou uma moça chorando, dizendo que seu pai morrera. É
assim: sem mais nem menos.

Um dos meus filhos está fora do Brasil, o outro veio almoçar comigo. A
carne estava tão dura que mal se podia mastigar. Mas bebemos um vinho
rosé gelado. E conversamos. Eu tinha pedido para ele não sucumbir à
imposição do comércio que explora o dia das mães. Ele fez o que pedi:
não me deu nada. Ou melhor me deu tudo: a sua presença.

Trabalhei o dia inteiro. Sozinha no mundo e no espaço. E quando
telefono, o telefone chama e ninguém atende. Ou dizem: está dormindo.

A questão é saber aguentar. Pois a coisa é assim mesmo. Às vezes não
se tem nada a fazer e então se faz pipi.

Mas se Deus nos fez assim, que assim sejamos. De mãos abanando. Sem assunto.

Sexta-feira de noite fui a uma festa, eu nem sabia que era o
aniversário do meu amigo, sua mulher não me dissera. Tinha muita
gente. Notei que muitas pessoas se sentiam pouco à vontade.

Que faço? telefono a mim mesma? Vai dar um triste sinal de ocupado, eu
sei, uma vez já liguei distraída para o meu próprio número. Como
acordo quem está dormindo? como chamo quem eu quero chamar? o que
fazer? Nada: porque é domingo e até Deus descansou. Mas eu trabalhei
sozinha o dia inteiro.

Mas agora quem estava dormindo já acordou e vem me ver às oito horas.
São seis e cinco.

Estamos no chamado “veranico de maio”: grande calor. Meus dedos doem
de tanto eu bater à maquina. Com a ponta dos dedos não se brinca. É
pela ponta dos dedos que se recebem os fluidos.

Eu devia ter me oferecido para ir ao enterro do pai da moça? A morte
seria hoje demais para mim. Já sei o que vou fazer: vou comer. Depois
eu volto. Fui à cozinha, a cozinheira por acaso não está de folga e
vai esquentar comida para mim. Minha cozinheira é enorme de gorda:
pensa noventa quilos. Noventa quilos de insegurança, noventa quilos de
medo. Tenho vontade de beijar seu rosto preto e liso mas ela não
entenderia. Voltei à maquina enquanto ela esquentava a comida.
Descobri que estou morrendo de fome. Mal posso esperar que ela me
chame.

Ah, já sei o que vou fazer: vou mudar de roupa. Depois eu como, e
depois volto à máquina. Até já.

Já comi. Estava ótimo. Tomei um pouco de rosé. Agora vou tomar um
café. E refrigerar a sala: no Brasil ar-refrigerado não é um luxo, é
uma necessidade. Sobretudo para pessoa que, como eu, sofre demais com
o calor. São seis e meia. Liguei meu rádio de pilha. Para a Ministério
de Educação. Mas que música triste! não é preciso ser triste para ser
bem-educado. Vou convidar Chico Buarque, Tom Jobim e Caetano Veloso e
que cada um traga a sua viola. Quero alegria, a melancolia me mata aos
poucos.

Quando a gente começa a se perguntar: para quê? então as coisas não
vão bem. E eu estou me perguntando para quê. Mas bem sei que é apenas
“por enquanto”. São vinte para as sete. E para que é que são vinte
para as sete?

Nesse intervalo dei um telefonema e, para meu gáudio, já são dez para
as sete. Nunca na vida eu disse essa coisa de “para meu gáudio”. É
muito esquisito. De vez em quando eu fico meio machadiana. Por falar
em Machado de Assis, estou com saudade dele. Parece mentira mas não
tenho nenhum livro dele em minha estante. José de Alencar, eu nem
lembro se li alguma vez.

Estou com saudade. Saudade de meus filhos, sim, carne de minha carne.
Carne fraca eu não li todos os livros. La chair est triste.

Mas a gente fuma e melhora logo. São cinco para as sete. Se me
descuido, morro. É muito fácil. É uma questão do relógio parar. Faltam
três minutos para as sete. Ligo ou não ligo a televisão? Mas é que é
tão chato ver televisão sozinha.

Mas finalmente resolvi e vou ligar a televisão. A gente morre às vezes.

 

3 ideias sobre “Clariceando

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