CONTO DE CÉSAR GARCIA

JULIÃO E SEUS HÓSPEDES

C.G. 29.7.2011

Dois homens chamados Julião. Um era professor em colégio masculino religioso tido como o melhor, onde estudavam os filhos dos ricos e dos remediados que queriam a todo custo dar uma boa educação à prole. De origem espanhola, branco, magro, alto e famoso no colégio por sua autoridade dentro e fora da sala de aula, o homem aterrorizava os alunos mais tímidos com gritos, ameaças e castigos físicos. Enciclopédico, ensinava todas as disciplinas do programa e tinha o hábito de cuspir no lenço que guardava no bolso da batina. Tinha lá seus alunos preferidos a quem dava tratamento privilegiado. As más línguas espalhavam histórias nunca comprovadas. Pois foi na classe deste Padre Julião que um aluno certo dia revelou que o pai tinha o mesmo nome, o que foi motivo de piadas e brincadeiras. Coisa de pouca importância se aquele não fosse o ano em que ocorreria a maior e mais escandalosa tragédia da história da cidade. O outro Julião, homem rico e feio, era casado com Eugênia, bela mulher de trinta anos ou pouco mais. Quem queria agradá-la dizia que se parecia com Ingrid Bergman, atriz então no auge da fama. Dispondo de empregada para todas as tarefas domésticas, D. Eugênia ocupava seu tempo com salão de beleza, encontros com amigas, curso de pintura e demoradas visitas à mãe e às tias. Fazia esses percursos em seu automóvel dirigido por Manuel, motorista de confiança com cinco anos no emprego, selecionado por ela própria, rapaz de boa aparência e leitor de romances durante as horas de espera. O filho estudava em colégio religioso por decisão do marido, pois D. Eugênia não gostava de igreja, de religião nem de padres – único traço de personalidade que não combinava com seu prestígio social, segundo a opinião das amigas. Quando a questionavam sobre o assunto, dizia que as religiões causavam mais mal do que bem e tinha sua própria forma de comunicar-se com Deus. Não era, contudo, uma forma eficiente. Do contrário, teria obtido de Deus a informação de que os sogros chegariam sem avisar para matar saudades, com a intenção de ficar alguns dias. Julião avisara que almoçaria na cidade com dois empresários amigos. Assim, D. Eugênia disse à cozinheira que seriam quatro à mesa: ela, o filho e os sogros. A estes, após o almoço, disse-lhes que fizessem a sesta na suíte do casal, pois o quarto de hóspedes não estava ainda arrumado. Permitiu que a empregada saísse mais cedo para acudir uma filha que dera à luz um bebê – e foi, com Manuel, levar o menino ao colégio. Todos esses eventos do cotidiano teriam pouca ou nenhuma importância se não estivessem inscritos numa sucessão de fatos que só o destino pode explicar. É que durante o almoço, os amigos de Julião acharam que algo não corria bem. Durante a conversa, tiveram que repetir as frases para que Julião entendesse o que diziam, parecendo distraído ou preocupado. Indagaram se estava bem e só ouviram a desculpa de que havia despedido um empregado há três dias e que recebera ameaças, o que só em parte era verdade. Não recebera ameaças. De fato, não estava nada bem porque lhe tinha chegado às mãos, na empresa, uma carta anônima dizendo que D. Eugênia o traía com o motorista na sua própria casa. Lera uma só vez a folha escrita em letras de imprensa e a rasgara em pequenos pedaços antes de jogá-la à lixeira. Atribuiu a maldade ao sujeito demitido, mas, na verdade, o veneno estava inoculado. Pensou na beleza da mulher, na sua antipatia pela religião, nos modos gentis do motorista, e em casos semelhantes que conhecia. Quase cancelara o almoço, mas achou que seria pior e também não devia tomar atitude precipitada, sem um mínimo de investigação. Mesmo assim, ao sair do restaurante, percebeu que não tinha condições de trabalhar e resolveu ir direto a casa. Dirigiu lentamente, pensando como deveria agir: de modo racional, civilizado, ou com violência, no caso de ficar provada a denúncia. Parou em frente à residência, deixou o carro na rua e entrou em silêncio com a cabeça confusa. Ao abrir a porta da suíte, viu na penumbra do quarto iluminado apenas pelas cores de um vitral acima da janela fechada, o casal deitado em sua cama. Sacou o revólver e começou a atirar. No segundo tiro, os corpos já não se mexiam, mas continuou atirando até acabarem-se as balas.

As famílias dos dois lados não conseguiram abafar os acontecimentos e os jornais estamparam fotos e títulos em grandes letras: EMPRESÁRIO MATA OS PAIS. No colégio, a repercussão foi terrível. O menino não queria voltar às aulas e os colegas tentavam obter notícia pelo telefone. Julião, o professor, proibiu que os garotos falassem no assunto, mas, no recreio, eles riam e inventavam várias histórias a partir da coincidência dos nomes: que Julião era chifrudo, assassino, qual Julião? Que o menino era filho do motorista e coisas piores. A agitação chegou a ponto de forçar o diretor a dar uma semana de férias à turma da quarta série, na esperança de caírem no esquecimento a tragédia e as infames brincadeiras – e aconselhou D. Eugênia a transferir o menino para outro colégio.

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