De volta ao começo

Outra vez,de volta à terra firme, de volta ao começo, ao  fundo do fim, de volta ao começo como diz a música de Roupa Nova. Puído, amarelecido, amarrotado  o tecido do roteiro encontrado no camarim de Navegação na hora do embarque traz as marcas do uso intenso e dos traços dos mares navegados. Plano ambicioso, bem à altura dos seus viageiros.

Antes de lançarmo-nos ao mar, havíamos recebido a benção e os bons augúrios da nossa madrinha Clarice Lispector, com a leitura do conto Viagem a Petrópolis. Sinal de alerta para lembrarmos da implacável linha do tempo quando em  busca de outros horizontes, marujos crestados pelo  sol em mares estranhos que já somos. Narrado na terceira pessoa, Viagem a Petrópolis conta a história de uma velhinha simpática que nasceu e viveu quase toda a sua vida no Maranhão e encontra-se morando no Rio de Janeiro, de caridade, numa casa em Botafogo, com pessoas que não são da sua família e que, cansadas da sua presença, resolvem levá-la para Petrópolis, onde pretendem deixá-la na casa de outro membro da família, sem sequer consultá-lo. É um conto que fala de solidão, desamparo, abandono, derrelição, como dizia Hilda Hilst, do sentir-se só no mundo, da vaziez da alma. Comovente no dizer e no não dito, merecendo muitas releituras para se tentar garimpar as riquezas submersas que escaparam à nossa percepção num primeiro momento. Um verdadeiro iceberg, aliás, como tudo que Clarice Lispector fez: o que está visível é apenas uma pequena parte do que está ali. O conto e a análise literária  foram  publicados nesse Blog, em Clariceando.

Devidamente abençoados e alertas, iniciamos  viagem  seguindo roteiro para aportamento em águas francesas: Calais. Depois, Paris. Paris é uma festa!, dois séculos antes de Hemingway dizer essa frase, o escritor  Laurence Sterne, enfermo, parecia buscar em Viagem Sentimental, alegria para os seus pulmões doentes ao visitar aquela cidade enquanto ainda lhe era possível faze-lo, embora tivesse a intenção de chegar à Itália, se Tânatos não tivesse tido outros planos para ele.

Viagem Sentimental

Seguindo Sterne na sua Viagem Sentimental , constatamos felizes que a  expectativa de encontrar algo diferente de um roteiro de viagem havia se realizado. O tão referenciado estilo, razão maior da nossa escolha,  revelou a maestria do autor com as  palavras, mas,  sobretudo, a sua profunda compreensão da dimensão do humano.  As extravagâncias sintáticas, tão inovadoras, eram apenas uma parte de sua extraordinária engenhosidade, ainda mais se lembrarmos da sua origem, educação e formação religiosa. Afinal, Sterne era um pároco.

Na categoria de viajantes curiosos, acompanhamos Sterne em suas fantasias viageiras … e num Désobligeant. Leitura instigante que nos obrigou a ler e reler várias vezes o mesmo parágrafo para tentar esclarecer melhor o que estava sendo dito. Próximo ao encerramento da leitura, começamos a fazer a tradução da análise literária que  Virgínia Woolf havia feito sobre a Viagem Sentimental – a tradução encontra-se no Blog. Naquela análise, a escritora questiona se Sterne teria controle sobre o que estaria escrevendo e afirma que essa seria uma resposta que  nós leitores dificimente conseguiríamos ter. Vejamos um pequeno trecho da análise:

 Os solavancos, as sentenças desconectadas são tão rápidas e pareciam sob tão pouco controle como as frases que caem dos lábios de um brilhante orador. A própria pontuação é aquela da fala, não da escrita e traz  com ela o som e as  associações da voz falante. A ordem das ideias, a subtaneidade e impropriedade delas, é mais fiel à  vida do que à literatura. Há uma intimidade nessa conversa que permite que as coisas escapem sem censura, e que teriam sido de gosto duvidoso se faladas em público. Sob a influência desse estilo extraordinário o livro se torna semitransparente. As cerimônias costumeiras e convenções que mantêm o leitor e o escritor numa distância cordial desaparecem. Estamos tão perto da vida quanto podemos.

Se Laurence Sterne fosse retirado do livro, diz Virgínia Woolf, pouco ou nada restaria dele, pois  nada acrescenta em termos de informação, ou jamais serviria como um roteiro turístico, porque sequer se preocupa em dizer algo sobre a arte ou a arquitetura da catedral ou fala do sofrimento ou bem-estar da população rural. A sua viagem pela França seguiu o roteiro de sua própria mente e as suas principais aventuras não foram com bandidos ou precipícios, mas com as emoções do seu próprio coração.

Esta mudança radical de abordagem já representava uma ousada inovação. Para Sterne uma garota com uma bolsa de cetim verde era mais importante do que a Catedral de Notre Dame, ansioso que ele estava para captar a essencia das coisas, assim como deveria fazer um viajante sentimental. Enquadrados como viajantes curiosos, na sua classificação, aprendemos que os encontros e desencontros que ocorrem numa viagem dizem mais do lugar do que séculos de tradição arquitetônica.

Ainda em Paris, mas bem longe de uma Viagem Sentimental, encontramos Véra, de Villiers de Lisle-Adam,a quem dedicamos tempo suficiente para surgir a pergunta:  existe fronteira separando o fantástico, a loucura, o estranhamento? De olhos nessa trilha visitamos ETA Hoffmann, O Homem de Areia,  celeiro onde Freud extraiu elementos  para a sua teoria sobre o estranho familiar.Obra fantástica, complexa, tanto em termos literários, a incrível qualidade da escrita, dos recursos técnicos utilizados, do relato especular.  quanto no que se refere aos distúrbios de personalidade, a ambivalência, o estranhamento, a insanidade. Fisgados pelo tema, consultamos, ainda, Erasmo de Roterdã,  Elogio da Loucura, num parágrafo imenso sobre os escritores, mas extraímos, apenas, o trecho em que  a loucura, falando na primeira pessoa, de forma presunçosa, fala da dívida que o escritor tem com ela, não todos os escritores, mas aquele  que escreve sob os seus auspícios, pois  deixa fluir  tudo o que lhe passa pela cabeça, imprime todos os sonhos  de sua imaginação exaltada.Os surrealistas bem que se encaixariam nessa classificação, pois acreditavam que  mentes alteradas liberavam do inconsciente o jorro furioso da criatividade.

Antes de atracarmos em outro grande porto, e ainda com a cabeça cheia de perguntas sem respostas, fizemos  outros pequenos percursos, pequenos em tamanho, mas de grande beleza e importância. Participamos de um velório na casa de Os irmãos Dagobé e de um pequeno percurso de avião em As margens da Alegria com Guimarães Rosa. Assistimos ao duelo entre um negro cantor e um personagem de poema épico argentino, em O Fim,  e ao encontro de difícil diálogo entre um homem maduro e outro  jovem, cujo inevitável destino do jovem era ser o velho no futuro longínquo, os dois ao mesmo tempo muito parecidos e diferentes demais,  em O Outro, ambos de Jorge Luiz Borges. E a disputa entre um casal jovem em Os Sexos, de Dorothy Parker,  todos trazendo profundas revelações sobre as emoções humanas. Mas foi em Nero, de Miguel Torga, que a nossa sensibilidade foi mais atingida com o relato de um cão sobre as suas relações com as pessoas, outros animais e os mistérios da vida e da morte.Resenha sobre Nero, um pequeno glossário com as palavras desconhecidas  e  texto extraordinário de um grande leitor de Torga, Ramires, também estão no blog. Espaço foi reservado, também, para um grande clássico da nossa literatura: A teoria do Medalhão, de Machado de Assis; e um conto de Jean Paul Sartre: O Muro. Sendo o ano de homenagens a Nelson Rodrigues, tempo especial foi dedicado às suas peças: Delicado, A dama da lotação e Os noivos. 

Animados ainda pelas peças de Nelson Rodrigues, rumamos à Argentina para conhecer praias menos sóbrias do que as hoffmanneanas e Borgeanas e encontramos as delícias do tango rasgado de Alfredo Le Pera e Carlos Gardel (Deliciosas criaturas perfumadas,/quiero el beso de sus boquitas pintadas…)  no romance folhetim de Manuel Puig: Boquinhas Pintadas.Que viagem pela alma feminina dos anos cinquenta na província de Coronel Vallejos! Três mulheres circulam todo o livro: Nélida, Mabel e Raba, amigas/inimigas/rivais, tão próximas e tão distintas, heroínas de uma trama que envolve inveja, fofoca, mal-caratice, sexualidade, boa fé, tudo expresso de forma  particular, seja através de cartas, conversas ou  boletins de ocorrência policial.  Se Sterne foi um transgressor da sintaxe, Manuel Puig foi além.  Conhecido como um escritor experimental, nesse livro ele reúne recursos kitsch como fotonovelas, músicas de tango, tudo numa verdadeira polifonia feminina expressa ainda em cartas, anúncios, diários, diálogos, monólogos interiores. Os recursos técnicos são vastos. O autor confessou que buscava criar uma nova forma de literatura popular baseada no velho folhetim. O resultado foi uma leitura fascinante pelos recônditos da alma feminina.

Antes de voltarmos para casa, o timoneiro decidiu fazer manobra arriscada, fora da rota programada, para descobrir os mistérios da Caixa Preta de Jennifer Egan. Os viageiros ficaram tensos com a travessia, quase em clima de amotinação pelo tempo perdido em águas turvas, pouco interessantes. A embarcação arroteou, cortou ondas imensas em mar bravio e navegou a todo pano para atravessar a tempestade e sair para mares mais calmos. Na opinião do timoneiro, valeu a pena, apesar dos riscos, viagem que poderá ser refeita por algum dos viageiros que mesmo em face das tormentas tenha vislumbrado algo interessante naquela paisagem.

Mas, o  melhor da viagem ainda é voltar para casa, principalmente depois da turbulência enfrentada. Essa Terra do escritor baiano Antonio Torres, premiado aqui e na França, permitiu-nos navegar em mares mansos, trouxe-nos o cheiro da cozinha da nossa casa,  ao falar das paisagens e do povo que tanto conhecemos, do sertão do nordeste. Nélo, impulsionado pelos técnicos da Ancar saiu de Junco em direção a São Paulo para voltar muitos anos depois, sifilítico, miserável e se suicidar. O filho querido que havia partido, motivo de orgulho da família e do próprio lugar, retorna para morrer. Muitas histórias de Nelo vamos saber através da narração de Totonhim, o seu irmão. Na verdade, não vai ser possível concluir essa viagem ainda em 2012, sob pena da pressa comprometer a leitura e apreensão da beleza. Foi o terceiro romance escrito por Antonio Torres, o que o consagrou definitivamente como um dos melhores escritores brasileiros contemporâneos.Apesar do estilo regionalista, Essa Terra não se encerra nessa visão. A escrita fragmentada cheia de idas e vindas, como diz Ítalo Moriconi, remete ao grande mestre William Faulkner, a quem Torres prestou tributo já na epígrafe do seu primeiro livro, orgulhoso do seu pai referência.Melhor padrinho, impossível. Os viajantes bem o conhecem desde O Som e a Fúria e Enquanto Agonizo. Será o primeiro porto de 2013 que iremos atracar, com certeza.

Tão importantes quanto as viagens que fizemos por portos estrangeiros foram as que fizemos com as escritas dos nossos viageiros, algumas estimuladas por faíscas criativas, contrangimentos,  outras bem livres e espontâneas. O tema da velhice trazido por Clarice Lispector com Viagem à Petrópolis, levou Teresa Sales a escrever um excelente conto O velho, que empolgou e trouxe muita discussão e lembranças. Mais adiante,  ainda empolgados com  o fator tempo, voltou-se à juventude e Paulo Tadeu iniciou um triálogo com Desencontros de brotos, usando o foco narrativo de três jovens rapazes conta a história de um baile conhecido como encontro de brotos; Edwiges C.C.Rocha, conta uma história do mesmo baile, dessa vez usando o foco narrativo da mãe das moças Nos tempos em que se chamavam brotos;  e por fimTeresa, conta Os bailes da vida, na ótica dos mesmos rapazes muitos anos depois. Todos os contos estimularam as recordações dos próprios viageiros na juventude, ocasionando  muitos risos.

 Estimulados pelo primeiro parágrafo retirado do livro da Laura Restrepo, Delírio, lançado pelo timoneiro como faísca criativa, vários contos foram escritos. O parágrafo era mais ou menos o que segue: Soube  que tinha acontecido algo irreparável no momento em que um homem me abriu a porta daquele quarto de hotel e vi minha mulher sentada ao fundo, olhando pela janela de um modo muito estranho. Foi na minha volta de uma viagem curta, de negócios, só quatro dias. No conto de César Garcia, o marido leva a mulher para a casa e tenta todos os recursos médicos para fazer com que a mulher volte ao normal, até que ele resolve apelar para a homeopatia e então… O final é surpreendente, pega o leitor completamente desarmado. Muito criativo e inteligente. Na versão de Everaldo Júnior, o conto segue cheio de mistério, levando o leitor a ficar cada vez mais interessado em juntar as pedrinhas para construir a história. Não há traição, mas um drama muito pesado que o leitor termina sem saber se realmente aconteceu ou se é fruto da imaginação daquela mulher de olhar fixo por aquela janela. Muito bem constrúido, diálogos tensos, dramáticos. Paulo Tadeu é o nosso nelson rodrigues pela extrema riqueza na construção dos dramas familiares. O marido traz de volta a mulher para a casa, também tenta todos os recursos para salvá-la daquele mutismo, até que um dia … Todos gargalharam, não havia como deixar de escancarar a risada com o final que ele deu ao seu conto. Outros contos escritos por Paulo Tadeu já revelavam esse lado cômico-trágico e a compreensão rodrigueana dos laços de família. Em outro conto escrito por ele, um homem, taxista, sentia-se muito feliz com a sua família, filho prestes a se formar doutor, filha generosa, séria, compenetrada, mulher zelosa, enfim um lar perfeito, tanto que o títtulo do conto é Lar Doce Lar. Um dia, ele descobre no carro um pacote deixado por um cliente e leva para casa e aí começa o desmoronamento do castelo de areia que ele havia construído. Econômico nas palavras, rico no conteúdo, o conto encantou a todos. Mais um conto de Paulo lido na oficina Covardias, traz para reflexão o medo do ser humano, o medo de enfrentar situações que ele pensa não ser capaz de dar conta. Esse conto traz muita tensão para o leitor que só consegue respirar no final dele. Muito bom.

As produções dos viageiros são muito esperadas e motivo de grandes festejos quando chegam. O blog recebeu boas colaborações dos viageiros, ora sob a forma de resenha literária, às vezes com as poesias, notícias, críticas de filme, entre outras. Que em 2013, tanto as produções de contos como as contribuições ao blog venham cada vez mais e mais e mais…

De volta para casa, juntamos os retalhos da carta de navegação para resgatar o brilho do sol na menina dos olhos ao relembrar a viagem maravilhosa de 2012 e assim poder dividir lembranças com todos os velejadores.

                                     Ribeira dos Arrecifes, 22 de dezembro de 2012

                                                        Lourdes Rodrigues

 

 

 

 

 

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