ESCALA 01

ALGUMAS VEREDAS DA POESIA

Lourdes Rodrigues

Primeiro, antes de entrarmos pelas suas veredas, seria importante definir o que é Poesia; se poema e poesia são a mesma coisa; que tipos de poesia existem. São essas perguntas que sempre vêm à cabeça quando falamos sobre o assunto. 

  1. POESIA VERSUS POEMA

Poesia é tudo que expressa sentimento, que comove, que encanta, que contém beleza, assim, ela pode estar presente em todas as artes, seja literatura, música, pintura ou escultura. Assim, é uma manifestação artística que não se limita ao fazer literário, às palavras. Embora seja uma arte baseada na linguagem, ela ultrapassa esses limites; e seu significado é tão amplo que é difícil de definir, porque é menos determinado: a poesia expressa um certo estado da mente, diz Wladyslaw Tatarkiewez em seu trabalho acadêmico sobre O Conceito da Poesia.

Poema é a forma de expressão da poesia no universo literário, através de composições em versos, estrofes e, por vezes, rima. É a retratação pelo poeta do seu eu lírico em forma de palavras sonoras.

  • CLASSIFICAÇÃO DA POESIA

São três as modalidades de poesias: a poesia lírica; a poesia épica; e a poesia dramática.


Na poesia lírica a subjetividade impera, ali o poeta expressa o seu eu mais profundo, a sua visão de mundo, seus anseios, seus sentimentos. Primando pela estética refinada, a métrica, o verso e a rima os poetas dos textos líricos apresentam em linguagem elaborada e de forma estruturada seus poemas.

Na poesia épica há o predomínio da objetividade, dos fatos, das circunstâncias que o poeta deseja narrar. Normalmente são de grande extensão e linguagem apurada. Os temas são, em geral, as guerras, os atos heroicos, as grandes viagens com rigor formal e estético.

Na poesia dramática há uma combinação das duas primeiras, na medida em que a subjetividade e a objetividade convivem harmonicamente.  Apesar de ser uma narrativa épica, ao invés dos narradores nesse tipo de poesia estão presentes os personagens das ações, em sua essência e emoção, dando-lhe um aspecto lírico.

Exemplo:

Morte e vida Severina

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,

não tenho outro de pia.

Como há muitos Severinos,

que é santo de romaria,

deram então de me chamar

Severino de Maria;

como há muitos Severinos

com mães chamadas Maria,

fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.

Mas isso ainda diz pouco:

há muitos na freguesia,

por causa de um coronel

   que se chamou acarias

e que foi o mais antigo

senhor desta sesmaria

3.0O FAZER POÉTICO

3.1 – O Lado de fora da Poesia

Do lado de fora da poesia está a sua aparência, o seu exterior, o seu aspecto formal, aquele que segue a Norma Culta. Com ele damos conta dos seguintes aspectos:  quantidade de estrofes, de versos, esquema das rimas de cada estrofe, métrica, a métrica predominante.

Os versos estão distribuídos por linhas, cada linha corresponde a um verso; um conjunto de versos separado de outro conjunto de versos por uma linha branca é chamado de estrofe.

A quantidade de versos é uma escolha do poeta. Assim como, a quantidade de estrofes. Alguns tipos de poemas apresentam uma estrutura fixa, tanto em termos de versos como de estrofe.

Há uma classificação do poema, inclusive, segundo a quantidade de versos por estrofe:

  • Estrofe com um verso: monóstico;
  • Estrofe com dois versos: dístico;
  • Estrofe com três versos: terceto;
  • Estrofe com quatro versos: quarteto ou quadra;
  • Estrofe com cinco versos: quintilha;
  • Estrofe com seis versos: sextilha;
  • Estrofe com sete versos: septilha;
  • Estrofe com oito versos: oitava;
  • Estrofe com nove versos: nona;
  • Estrofe com dez versos: décima;
  • Estrofe com mais de dez versos: estrofe irregular.
  • – Poemas com estrutura fixa
  • Soneto: Formado por duas quadras e dois tercetos. Ou seja, duas estrofes de quatro versos e duas de três versos. Ao todo são 14 versos. A sua criação é atribuída a Francesco Petrarca, embora haja registro de sua existência antes mesmo de Petrarca. William Shakespeare não usava esse formato para os seus poemas. Ele usava 3 quartetos e um dístico. Há ainda, o Soneto Monostrófico que tem apenas uma estrofe de 14 versos.
Soneto de fidelidade
Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

  • Balada: Formada por três oitavas (ou décimas) e uma quadra (ou quintilha), ou de uma quintilha (cinco versos) no lugar do quarteto, geralmente todos de versos octossílabos (oito sílabas poéticas). A última estrofe, a menor, é chamada de oferenda ou ofertório.
Baladas Românticas – Verde…
Olavo Bilac
Como era verde este caminho!
Que calmo o céu! que verde o mar!
E, entre festões, de ninho em ninho,
A Primavera a gorjear!…
Inda me exalta, como um vinho,
Esta fatal recordação!
Secou a flor, ficou o espinho…
Como me pesa a solidão!

Órfão de amor e de carinho,
Órfão da luz do teu olhar,
– Verde também, verde-marinho,
Que eu nunca mais hei de olvidar!
Sob a camisa, alva de linho,
Te palpitava o coração…
Ai! coração! peno e definho,
Longe de ti, na solidão!

Oh! tu, mais branca do que o arminho,
Mais pálida do que o luar!
– Da sepultura me avizinho,
Sempre que volto a este lugar…
E digo a cada passarinho:
“Não cantes mais! que essa canção
Vem me lembrar que estou sozinho,
No exílio desta solidão!”

No teu jardim, que desalinho!
Que falta faz a tua mão!
Como inda é verde este caminho…
Mas como o afeia a solidão!
  • Sextina: Formada por seis sextilhas e um terceto. Ou seja, a sextina é formada por seis estrofes de seis versos cada um (sextilha) e uma estrofe de três versos (terceto).

A sextina de Luís Camões

Foge-me, pouco a pouco, a curta vida,
Se por acaso é verdade que inda vivo;
Vai-se-me o breve tempo de entre os olhos;
Choro pelo passado; e, enquanto falo,
Se me passam os dias passo a passo.
Vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.

  • Que maneira tão áspera de pena!
    Pois nunca uma hora viu tão longa vida
    Em que posso do mal mover-se um passo.
    Que mais me monta ser morto que vivo?
    Pera que choro, enfim? Pera que falo,
    Se lograr-me não pude de meus olhos?
  • Ó fermosos gentis e claros olhos,
    Cuja ausência me move a tanta pena
    Quanta se não compreende enquanto falo!
    Se, no fim de tão longa e curta vida,
    De vós me inda inflamasse o raio vivo,
    Por bem teria tudo quanto passo.
  • Mas bem sei que primeiro o extremo passo
    Me há-de vir a cerrar os tristes olhos,
    Que amor me mostre aqueles por que vivo.
    Testemunhas serão a tinta e pena
    Que escreverão de tão molesta vida
    O menos que passei, e o mais que falo.
  • Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!
    Que se de um pensamento noutro passo,
    Vejo tão triste género de vida
    Que, se lhe não valerem tanto os olhos,
    Não posso imaginar qual seja a pena
    Que traslade esta pena com que vivo.
  • Na alma tenho contínuo um fogo vivo,
    Que, se não respirasse no que falo,
    Estaria já feita cinza a pena;
    Mas, sobre a maior dor que sofro e passo
    Me temperam as lágrimas dos olhos;
    Com que, fugindo, não se acaba a vida.
  • Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
    Vejo sem olhos, e sem língua falo;
    E juntamente passo glória e pena.
  • Luís de Camões, Lírica Completa, edição de Maria de Lurdes Saraiva, INCM, Lisboa, 1980.
  •  
  • Rondó: Existe o rondó francês e o português. O rondó francês é formado por uma quintilha, um terceto e outra quintilha. No rondó português o número de estrofes é variado, embora o usual sejam oito quadras ou quatro oitavas. Uma quadra é repetida ao fim de oitavas ou do duas quadras.
  • Rondó dos Cavalinhos
    Manuel Bandeira

    Os cavalinhos correndo, 
    E nós, cavalões, comendo…
    Tua beleza, Esmeralda, 
    Acabou me enlouquecendo.

    Os cavalinhos correndo, 
    E nós, cavalões, comendo…
    O sol tão claro lá fora
    E em minhalma — anoitecendo!


    Os cavalinhos correndo,
    E nós, cavalões, comendo…
    Alfonso Reys partindo,
    E tanta gente ficando…

    Os cavalinhos correndo, 
    E nós, cavalões, comendo…
    A Itália falando grosso,
    A Europa se avacalhando…

    Os cavalinhos correndo, 
    E nós, cavalões, comendo…
    O Brasil politicando,
    Nossa! A poesia morrendo…
    O sol tão claro lá fora,
    O sol tão claro, Esmeralda,
    E em minhalma — anoitecendo!
  • Rondel: Formado por duas quadras e uma quintilha, nesta ordem.  Os dois primeiros versos da primeira quadra serão os dois últimos versos do segundo quarteto. O último verso da quintilha, e do poema, será sempre o primeiro verso do primeiro quarteto.

Oh Céus !
(Ângela Bretas)

Oh céus! Onde estás? – Exclamo aos mares e ventos.
Sem resposta, sem volta, sem entender permaneço…
Esqueci de rasgar do calendário os momentos.
E indagando eu vago, eu rogo. Incerta, padeço.

Onde errei? Não encontro respostas, de ti não esqueço.
Como fui mergulhar nestes rasos tormentos?
Oh céus! Onde estás? – Exclamo aos mares e ventos.
Sem resposta, sem volta, sem entender permaneço…

Será que pequei, que magoei, que feri: Julgamentos?
Quem és tu que me assombra. Ao recordar-te emudeço…
O que faço, o que digo? – Não sei, me perdi em lamentos…
Não temas, não fujas, não negue! – Será que não te mereço?
Oh céus! Onde estás? – Exclamo aos mares e ventos.

  • Haicai: Formado por um terceto.

O tradicional haicai japonês tem uma forma fixa composta de três versos (terceto) formados por 17 sílabas poéticas, ou seja:

  • Primeiro verso: apresenta 5 sílabas poéticas (pentassílabo)
  • Segundo verso: apresenta 7 sílabas poéticas (heptassílabo)
  • Terceiro verso: apresenta 5 sílabas poéticas (pentassílabo)

O haicai tem se modificado, alguns escritores não seguem esse padrão de sílabas, adotando uma silabação livre, em geral usando dois versos mais curtos e um mais longo.

Do poeta japonês Matsuo Bashô (1644-1694):

O sol de inverno:
a cavalo congela
a minha sombra.

  • No primeiro verso, cinco sílabas poéticas: O/sol/de in/ver/no;
  • No segundo, sete sílabas poéticas: a/ ca/va/lo/ con/ge/la;
  • No terceiro, cinco sílabas: a/ mi/nha /som/bra.

Fora do padrão japonês. Ex.     Paulo Leminsky

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3.3 – EscansãoA divisão das sílabas na poesia

É chamada de escansão a divisão em sílabas métricas de um verso. Escandir um verso para encontrar a sua métrica constitui boa parte do fazer do poeta. A essa tarefa ele dedica grande parte do seu tempo.

A divisão em sílabas não é igual ao que se aprendeu na escola ao estudar gramática. Algumas regras são consideradas:

  • Classificação de versos quanto ao número de sílabas

Alguns exemplos:

3.4 – Rima e Esquema Rimáticos

            A rima é a repetição dos sons (fonemas) idênticos ou semelhantes, entre dois versos ou mais, e que confere musicalidade ao poema. Normalmente na sílaba final das palavras.

As rimas podem ser classificadas tanto quanto à fonética, como ao valor, à acentuação, e à posição no verso ou estrofe. O esquema rimático resulta da posição das rimas nos versos e nas estrofes.

Classificação de rimas:

a) – Segundo a fonética:

  • rima perfeita ou consoante;
  • rima imperfeita;
  • rima toante ou assonante;
  • e rima aliterante.

Rima perfeita ou consoante: Em que há correspondência total de sons, havendo repetição tanto dos sons vocálicos como dos sons consonantais.

                          falado/cantado;

presente/ausente;

  • particularidade/dificuldade.

Rima imperfeita: Em que apenas há correspondência parcial de sons. Pode ser toante ou aliterante.

Rima toante (ou assonante): Em que há apenas a repetição dos sons vocálicos.

  • boca/moça;
  • pálida/lágrima;
  • plátano/cálamo.
  •  

Rima aliterante: Em que há apenas a repetição dos sons consonantais.

  • fez/faz;
  • lata/luto;
  • medo/moda.
  •  

b) – Conforme o valor:

  • rima pobre;
  • rima rica;
  • e rima rara ou preciosa.

A rima rica é aquela em que o autor utiliza palavras de diferente categoria gramatical; a rima pobre, aquela em que são usadas palavras da mesma categoria.

  • Exemplo de rima pobre:
  • De repente do riso fez-se o pranto
    Silencioso e branco como a bruma
    E das bocas unidas fez-se a espuma
    E das mãos espalmadas fez-se o espanto
    […]

  • As palavras “pranto/espanto” e “bruma/espuma” pertencem à classe dos substantivos.

Exemplo de rima rica:

A escolha das palavras se dá de forma variada, usando vocábulos de classes gramaticais distintas, como numa das criações de Olavo Bilac, intitulada A um poeta:

A um poeta

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço: e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica, mas sóbria, como um templo grego

Notamos que, bem ao estilo parnasiano, Bilac demonstra seu hábil manejo em combinar “rua/sua” = substantivo com verbo; “construa/nua” = verbo com adjetivo; “emprego/grego” = substantivo e adjetivo.

A rima é preciosa ou rara em tais circunstâncias:

 Quando as palavras que rimam possuem terminações incomuns, pouco utilizadas, como combinações entre verbos e pronomes. Exemplos: estrelas/vê-las; mandala/dá-la; parabéns/vinténs; profícuo/conspícuo.

Monólogo de uma sombra

(…)

Toma conta do corpo que apodrece…

E até os membros da família engulham,

Vendo as larvas malignas que se embrulham

No cadáver malsão, fazendo um s.

(…)

c)– De acordo com a acentuação:

  • rima aguda ou masculina;
  • rima grave ou feminina;
  • e rima esdrúxula.

Rima aguda ou masculina é aquela que ocorre entre palavras oxítonas tipo céu/chapéu; cantor/pintor; coração/animação.

Rima grave (ou feminina) é aquela que ocorre entre palavras paroxítonas tipo cedo/medo; agora/embora; metade/amizade.

Rima esdrúxula ocorre entre palavras proparoxítonas:

 célula/cédula; armário/salário; propósito/leucócito.

  • –  Quanto à posição no verso:

rima externa;

e rima interna ou coroada.

Rima externa: Que ocorre no fim do verso.

“E em louvor hei de espalhar meu canto
 E rir meu riso e derramar meu pranto
 (Vinícius de Moraes)

Rima interna ou coroada: Que ocorre no interior do verso.

“A bela bola do Raul
 Bola amarela” 
 (Cecília Meireles)

  • –  Quanto à posição na estrofe:
  • rimas alternadas ou cruzadas;
  • rimas emparelhadas ou paralelas;
  • rimas interpoladas ou intercaladas;
  • rimas encadeadas;
  • rimas mistas ou misturadas
  • e versos brancos ou soltos.

Rimas alternadas (ou cruzadas) quando se combinam de forma alternada, seguindo o esquema ABAB.

“O meu amor não tem
 importância nenhuma.
 Não tem o peso nem
 de uma rosa de espuma!”
 (Cecília Meireles)

Rimas emparelhadas (ou paralelas), combinação de duas em duas, seguindo o esquema AABB.

“Vagueio campos noturnos
 Muros soturnos
 Paredes de solidão
 Sufocam minha canção.
 (Ferreira Gullar)

Rimas interpoladas (ou intercaladas combinam-se numa ordem oposta, seguindo o esquema ABBA.

“De tudo, ao meu amor serei atento
 Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
 Que mesmo em face do maior encanto
 Dele se encante mais meu pensamento.”
 (Vinícius de Moraes)

Rimas encadeadas: Quando as palavras que rimam se situam no fim de um verso e no início ou meio do outro.

“Salve Bandeira do Brasil querida
 Toda tecida de esperança e luz
 Pálio sagrado sobre o qual palpita
 A alma bendita do país da Cruz”
 (Francisco de Aquino Correia)

Rimas mistas (ou misturadas): Quando apresentam outras combinações e posições na estrofe, sem esquemas fixos.

“Vou-me embora pra Pasárgada
 Vou-me embora pra Pasárgada
 Aqui eu não sou feliz
 Lá a existência é uma aventura
 De tal modo inconsequente
 Que Joana a Louca de Espanha
 Rainha e falsa demente
 Vem a ser contraparente 
 Da nora que nunca tive.
 (Manuel Bandeira)

Versos brancos (ou soltos) não rimam com nenhum outro verso.

“Uma palavra caída
 das montanhas dos instantes
 desmancha todos os mares
 e une as terras mais distantes…”
 (Cecília Meireles)

A inexistência da rima e muitas vezes da metro não significa, em absoluto, ausência de sonoridade; a sonoridade é um requisito essencial da poesia, o texto que não seja significativamente dotado de prazer sonoro se exclui ipso facto da poética.

O CORDEL – ONTEM E HOJE

Salomé Barros

 Histórico

Em sua origem mais remota, a literatura de cordel teve início no período medieval (século V a XV) com os chamados trovadores e menestréis. Cantavam acompanhados por instrumento musical, anunciando as notícias da época. Sendo analfabetos, tinham que decorar as informações, aliando a inteligência à capacidade artística inerente ao ser humano. Esta forma oral de declamação, constitui a raiz de nossos atuais cantadores de viola e repentistas.

Com o passar do tempo, os cantadores começaram a se alfabetizar. Em paralelo começaram a surgir pequenas tipografias permitindo a impressão rústica de folhas soltas que eram penduradas em barbantes (cordões) para serem vendidas.

Nossos atuais folhetos tem vinculação com essas folhas volantes ou soltas que começaram a surgir a partir do século XVII.

Países com Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, tinham também seus folhetos, característicos de cada região.

Em Portugal, no ano de 1789, D. João v promulga lei permitindo o comércio da chamada “Literatura de Cego”: folhas soltas, cuja venda era privilégio dos cegos.

No Brasil, a literatura de cordel chegou através dos colonizadores, também como “folhas soltas” ou mesmo manuscritos.

Foi no Nordeste que surgiu e se fixou como uma das peculiaridades da cultura regional. Aos poucos se espalhou por outras regiões tendo em vista as imigrações ocorridas na época.

Antigamente, com a inexistência de meios de comunicação, o cordel fazia o papel de transmitir notícias nas feiras do interior ou mesmo nos mercados das capitais.

Era utilizado também para alfabetização nas escolas. Um poeta paraibano, Antonio Américo de Medeiros, escreveu:

                             O cordel naquele tempo

                             Ensinava o povo a ler

 Uma revista,  um jornal                              Era difícil de ver                              O povo lendo cordéis                              Era o livro de aprender

]

O poeta e xiligravurista – José Francisco Borges, escreveu na contra-capa de seu livro para crianças – História de Jesus e o Menino do Galo: “Espero que todas as crianças que lerem esta história saibam que ela foi escrita e ilustrada por um poeta que não estudou além de dez meses e a pequena leitura que aprendeu foi completada lendo livrinhos de literatura de cordel”.

LITERATURA POPULAR E ERUDITA

Desde sua origem, o cordel tem resistido a altos e baixos.

Para alguns não se trata de literatura, porque consideram “arte menor”, vinda de camadas baixas da população iletrada. Era olhada como irmã pobre da literatura erudita.

Os dicionários traziam a definição de literatura de cordel de forma pejorativa, do tipo:

–  conjunto de folhetos de somenos valor literário

–  textos desprovidos de valor literário

–  baixa literatura

–  literatura de segunda classe, inferior, pouco elaborada, marginal

Em 1982 um grupo de poetas fizeram uma campanha contra determinado dicionário que classificava a literatura de cordel como “textos desprovidos de valor literário”. Ganharam a causa e conseguiram retirar toda a edição do mercado.

POESIA X CORDEL

Poesia em geral pode ser rimada ou não. A poesia de cordel possui métrica bem definida e obedece aos preceitos da rima.

Metrificação é a contagem das sílabas poéticas, que difere das sílabas gramaticais.

Verso é cada linha que forma a estrofe.

É mais comum que o verso tenha sete sílabas poéticas. Quando tem dez, chama-se decassílabo.

O número de versos de cada estrofe também varia:

–  QUADRA – quatro versos (pouco usada atualmente)

–  SEXTILHA – seis versos (forma mais usada)

–  SEPTÍLHA ou SETÍLHA – sete versos

– OITAVA – oito versos

– DÉCIMA – dez versos                                           

–  REDONDÍLHA – dez versos e dez sílabas

O cordel faz parte do grupo “poesia narrativa” que se propõe a contar histórias, romances, biografias, ideias, “causos”.

Escrever cordel exige sentimento e técnica. Segundo Braulio Tavares em seu livro: Contando Histórias em Verso – “Na poesia, como na música, a técnica existe para mostrar ao artista uma variedade maior de formas para que ele exprima seu sentimento”

A literatura de cordel é um gênero poético que possui regras próprias a serem seguidas. As principais são: métrica e rima.

Com essa estrutura pode-se escrever pequenos folhetos ou romances longos tendo como exemplo os escritores Ariano Suassuna, Wilson Freire e tantos outros.

A métrica corresponde a contagem de sílabas poéticas que é diferente das sílabas gramaticais. Fazendo paralelo com a música, a métrica é o ritmo ou a percussão. A rima é a sonoridade, aquilo que agrada aos ouvidos.

Várias músicas, principalmente nordestinas, seguem a métrica do cordel.

Exemplos: Último Pau de Arara de Luiz Gonzaga 

                                 A vida aqui só é ruim

                                 Quando não chove no chão

                                 Mas se chover dá de tudo

                                 Fartura tem de montão

                                 Tomara que chova logo

                                 Tomara meu Deus tomara

                                 Só deixo meu Cariri

                                 No último pau de arara

Observa-se que se trata de uma oitava com versos de 7 sílabas poéticas.

Outro exemplo é a famosa música de Geraldo Vandré: Disparada

                                   Prepare o seu coração

                                   Pras coisas que eu vou contar

                                   Eu venho lá do sertão

                                   E posso não lhe agradar

                                   Aprendi a dizer não

                                   Ver a morte sem chorar

                                   E a morte, o destino, tudo

                                   A morte o destino tudo

                                   Estava fora de lugar

                                   Eu vivo pra consertar

Trata-se de um decassílabo com versos de 7 sílabas poéticas.

No verso a última sílaba poética corresponde a sua última sílaba tônica.

Estrofe é o conjunto de versos. Na maioria dos cordéis as estrofes são formadas por 4 a 10 versos. O tipo mais comum é com seis versos que se chama sextilha. Em segundo lugar vem a septilha ou setilha com 7 versos.

Os versos de cada estrofe devem ter o mesmo número de sílabas. Assim se o primeiro verso tem 7 sílabas – que é o mais usado – todos os outros também devem ter esse número. Na sextilha a rima recai sobre o segundo, quarto e sexto verso.

Temos ainda outras modalidades de cordel como a cantoria, a peleja o galope a beira mar, os repentistas e tantos outros.

Em 2018 o Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)  reconheceu o cordel como Patrimônio Cultural do Brasil.

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