Essa Terra, Antonio Torres

RESENHA  – Antônio Torres, Essa Terra, São Paulo, Editora Ática, 1997 (12ª. Edição), publicada www.revistasera.info

A dimensão continental do Brasil, as diferenças regionais e as rodovias para transporte de mercadorias, possibilitando também a mobilidade de pessoas, foram fatores decisivos para o fenômeno das migrações internas em nosso país. São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, o Centro-Oeste, a Amazônia… aonde as estradas cortavam as matas e cidades, iam atrás os migrantes em busca de melhores oportunidades de vida ou para se juntar aos familiares.

A demografia, a sociologia e a economia são fartas em estudos na área das migrações internas brasileiras. Eu própria entrei nessa seara tanto na dissertação de mestrado (Cassacos e Corumbas, Ática, 1977) como na tese de doutorado (Agreste, Agrestes, Paz e Terra, 1982) e no meu livro mais recente (Cortez, a saga de um sonhador, Cortez, 2010). Nos Estados Unidos, país também de dimensões continentais, além dos estudos científicos, o tema originou um Vinhas da Ira, o magnífico romance de John Steinbeck. Faltava um romance brasileiro sobre essa saga. Guardadas as proporções, esse romance surgiu com Essa Terra, de Antônio Torres, publicado originalmente em 1976 com tiragem inicial de 30 mil exemplares e, daí em diante, com uma edição atrás da outra.

O que explica o sucesso do livro, para além da temática (o êxodo mais característico das migrações brasileiras – do Nordeste para São Paulo), é a qualidade literária do romance.

A saga da migração para São Paulo é contada através do personagem Nelo, filho primogênito de uma família camponesa de Junco, pequeno município do Sertão baiano onde, não por acaso, nasceu Antônio Torres. Essa saga, que ocupou em teses, livros e artigos acadêmicos, centenas de volumes de tabelas, gráficos e escritos, aqui, pela magia da obra de arte, em apenas 100 páginas, torna-se atemporal para narrar um drama pessoal e familiar que salta de Junco para a universalidade do gênero humano.

O valor da obra literária é quando capta e transmite um instante de humanidade. “Era meio-dia e eu sabia que era meio-dia simplesmente porque ia pisando numa sombra do tamanho do meu chapéu. (…) A alpercata esmaga minha sombra, enquanto avanço num tempo parado e calado, como se não existisse mais vento no mundo. (…) – Nelo – gritei da calçada. – Vem me ensinar como se flutua em cima de um tronco de mulungu. (…) Nossa sombra ao meio-dia, nossa árvore de todo dia. (…) – Menino, venha mais para peeeeeeeerto – agora a sua voz ia encurtando o caminho, trazendo a distância para cá, para junto dela, para dentro do seu coração. (…) É na venda que todos nós nos abençoamos, como se estivéssemos num convento sagrado, o quarto dos santos de todos os velórios de todos os dias. E Deus que nos livre das palavras: cada suspiro já é uma doce e cariciosa aragem, embargada, bafejada, recendendo a dendê, fumo de corda, creolina e cachaça. (…) Nelo continua engravatado na corda, sob o olhar mudo do patriarca. Mamãe dizia que foi ele quem deu o nó na gravata, no dia em que seu pai tirou esse retrato.”

Através da bem elaborada construção do personagem Nelo, desenvolve-se o drama pessoal e familiar da saga migratória. Em um lugar perdido nesse imenso Brasil, onde, finalmente, com a volta trágica do filho pródigo, “tinha uma noite com assunto”. O mote da tragédia se anuncia já no primeiro capítulo da primeira e mais longa parte do livro, “Essa Terra me chama”.

Pela narração em primeira pessoa de Totonhim, irmão de Nelo, vai se compondo a vida do lugar e de seus personagens típicos: o doido Alcino; Zé da Botica; o sargento-delegado, Pedro Infante, o dono da Venda. O narrador muda no correr do livro, como no capítulo 10 dessa primeira parte, quando Nelo assume a narração para dar força a uma cena quase teatral ou cinematográfica, em que se mistura a violência policial da metrópole paulistana contra pobres, negros, migrantes nordestinos (pejorativamente, baianos), com reminiscências  de seu passado rural. Mais tarde Ronaldo Brito usaria recurso literário muito semelhante em seu conto “Retrato em Branco e Preto”.

Fluxos de consciência e muitos diálogos são recursos de escrita que dão especial sabor e expectativa ao leitor. As mudanças de narrador às vezes são imperceptíveis, mas uma releitura mostra como são harmoniosas na narrativa. Toda segunda parte do livro, “Essa Terra me enxota”, é narrada em terceira pessoa, para se construir o personagem do pai, na sua expulsão da terra pela expansão do capitalismo no campo (palavras agora da socióloga), que, nesse romance de Antônio Torres é o drama que foi o cenário de “Vinhas da Ira” na Califórnia.

Totonhim retoma sua narração na terceira parte do livro, “Essa Terra me enlouquece”, quando a personagem mãe, ao confundir Totonhim com Nélio, na sua loucura pela impossibilidade de aceitar a morte do filho, retrata seu desespero na perdição de cada uma das muitas filhas, sua brabeza de animal para protegê-las.

Dois momentos memoráveis do livro: o encantamento e a ilusão com o migrante que venceu na vida versus a decepção com o que aconteceu, expresso pelo velho que nunca saiu do local, com a frase lacônica “custa a crer” (capítulo 4 da primeira parte); e a alucinação de Alcino no seu encontro com o morto na noite do enforcamento, quando tudo aconteceu nas conversas da venda  (capítulo 3 da terceira parte).

Preferi escrever essa resenha antes de ler os outros dois livros de Antônio Torres que formam a trilogia sobre a saga migratória Nordeste-S.Paulo (O cachorro e o lobo, 1997 e Pelo fundo da agulha, 2007). Melhor não arriscar. Sei lá… Depois que li do mesmo autor Meu querido canibal, tão aquém de Essa Terra, os dois outros livros podem ficar também aquém e repetir o que têm sido as continuidades nos grandes sucessos de cinema.***

Teresa SalesTeresa Sales, participa, também, da nossa Oficina, que neste momento está lendo Essa Terra, de Antonio Torres.
Este texto é de responsabilidade do autor.

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