Finalmente

Finalmente

*Everaldo Soares Júnior

Duas horas da madrugada, quando cansado não adormeço, ela não! dorme profundamente, ressona alto.Queria ser assim, mas as preocupações! Que faço com essas insistências tão irritantes?
Fecho o livro, não adianta. O percurso é o mesmo, banheiro, depois, a cozinha. Bebo água, gelada é melhor, vou relaxar.
Tsisis, tsisis, tsisis…
Cigarra tocando a essa hora, só faltava essa! Estranho, já são quase três, mas só ela continua roncando.
Quem é?
Abra, preciso falar com você.
Mas quem é?
Não se faça de inocente, você sabe muito bem.
Se identifique e diga o que quer?
Vou fazer um escândalo, não duvide.
Espere.
Assim é melhor.
Finalmente, eu o encontrei, fujão!
O que é isso?
Vai começar com as juras mentirosas? Não acredito mais, tudo mentira cavilosa e temos muito que acertar. E vamos logo ao assunto, no momento que lhe disse que estava grávida de um filho seu, ouvi belas enganações amorosas, depois sumiu, escafedeu-se. Sou tola até certo limite, agora o encontrei. Uso a lei e acabo com sua pose de conquistador de meia tigela.
Calma, há um equívoco nisso tudo.
Equivocada fui eu. Vamos logo, acenda a luz.
Epaminondas, está falando sozinho?
Ah! O seu nome é esse?
Sou Epaminondas Paraíso, não conheço a senhora.
Então vai ver mesmo quem é a mulher de verdade.
Que gritaria, estava dormindo, acenda as luzes da sala Nondas.
A visitante trapalhona era loura, alta, nem feia e nem bonita. Começou a chorar, o soluço cortava sua voz
Meu Deus que vergonha!!! Tudo por causa daquele safado
Tome um pouco d’água, lhe fará bem. Nondas, traga logo uma água com açúcar.
Obrigada, senhora, não sei o que falar.
Vou abrir a janela, está abafado.
Tenho quase quarenta anos e me apaixonei profundamente, sinto ódio e cada vez fico mais presa aquele safado, perdi até o bom senso. Ele era amoroso, disponível comigo, mas ultimamente estava diferente, arredio, às vezes grosseiro. Não aguentei, vinha o ciúme, a raiva e o medo de perdê-lo. Estou grávida. Loucura mesmo. Perdi minha mãe cedo, meu pai fez outra família, fui criada pela minha avó e pela minha tia. Já viu a complicação.
Calma, agora tem o filho para você cuidar
Desculpem-me, vou embora, chamo um táxi conhecido. Essa rua é a Hernesto Veras?
Não, aqui é a Hermenegildo de Maria.
Quero dormir, vou tomar um calmante fitoterápico.
Se quiser, volte para conversar.
Obrigada, apesar do meu vexame, foi bom conhecê-los.
Ainda está chovendo.
Está passando, o carro não demora, o motorista já dirigiu outras vezes para mim.
Ouviram a zoada do táxi partindo. Na casa voltou o silêncio.
Nondas, feche a janela, vamos dormir.
Eufrazina, faça-me um chá de camomila. Jamais a doce de coco faria uma desfeita assim comigo. Finalmente, preciso relaxar.
Nondas, seu calmante sou eu.

  • Médico, Psicanalista, ensaísta, contista.

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