FLIP 2012

Encerrou a FLIP 2012. Acompanhei pela Folha de São Paulo o evento que fez uma boa cobertura. A avaliação é de que o modelo precisa ser renovado, revisto, que a FLIP de 2012 esteve mais para morna do que para quente, que não trouxe mesas polêmicas, grandes novidades, escritores que decepcionaram um pouco na sua apresentação.  O último dia, sempre o menos agitado e prestigiado, parece que esquentou  o clima com a espirituosidade reinante no debate entre Fabrício Carpinejar e a escocesa Jackie Kay que, divertidos e bons de papo,  falaram sobre como suas vidas se misturam às suas obras.. Alguns trechos desse debate:

Carpinejar: “Uma das maravilhas da minha vida foi ter nascido feio. Isso me libertou. Eu fico com pena de quem é bonito, porque ele tem muito trabalho, tem de se preservar, precisa se cuidar. O feio não tem nada a perder. Eu percebi que as pessoas ganhavam fama rindo de mim e pensei, ‘por que eu não posso rir de mim?’. E comecei a usar a autocrítica, que é uma humildade forçada.”

Mas houve um momento em que Carpinejar comoveu ao contar uma história de seus tempos de colégio, ao falar de um colega que era “filho da faxineira da escola e tinha vergonha disso”.

“A mãe dele o cumprimentava nos corredores e ele virava o rosto, aquilo me atormentava. Até que um dia uma professora passou uma redação –e professor, assim como mãe, é um gerador de traumas–, cujo tema era ‘qual a profissão dos seus pais’. E meu colega escreveu a redação mais bonita que eu já vi, em que ele dizia que a mãe dele tinha todas as chaves da escola e podia entrar em todas as salas. Ele tinha encontrado, dentro do seu desespero, algo valioso. E todo mundo quis ser faxineiro naquele dia.”

“Acho que isso é o que significa ser escritor”, disse Kay, aproveitando a história do gaúcho. “Você está sempre procurando por chaves que deem acesso a vários lugares.”

Jackie Kay é filha de uma escocesa com um nigeriano, mas foi adotada por uma família branca. Ela falou sobre a adoção e a sua busca pelos pais biológicos –ele, um especialista em árvores; ela, uma mórmon–, temas tratados em seus livros, e também sobre como sua obra é uma jornada em que tenta encontrar sua identidade como escocesa e negra. Mas ela consegue fazer graça dessa situação ao dizer que buscou e encontrou o pai dela através do Google, há 9 anos, quando ela já estava com 42 anos de idade, e que ao se encontrarem e ele saber que ela era lésbica  “Ele me perguntou se eu era o homem da relação, uma das perguntas menos paternais que eu já vi.”

Ainda no dia do encerramento, o russo radicado nos EUA Gary Shteyngart e o inglês Hanif Kureishi arrancaram risos da plateia –falaram de humor na literatura, sexo e escritores profissionais.

“Eu escrevia sobre sexo porque não fazia sexo”, disse Shteyngart, um quarentão, em tom jocoso. Kureishi, ao falar sobre ser escritor profissional, sentenciou: “Escritores, quando se encontram, só falam de dinheiro, nunca do que estão escrevendo”.

O encerramento da FLIP 2012 foi muito emocionante pela leitura do poema dedicado a Carlos Drummond de Andrade, Querido Príncipe,  lido no início da tarde pelo poeta Carlito Azevedo, autor do poema, dedicado ao grande poeta homenageado da festa e tema da mesa que ele dividiu com outro poeta Eucanaã Ferraz:

QUERIDO PRÍNCIPE

Carlito Azevedo

Querido Príncipe,

às vezes sua ausência é tão grande por aqui que me agarro a ela como uma lebre a uma serpente. Lembro de você mostrando as fotografias do júbilo e do desespero, oferecendo a rosa a Stalingrado, um suco de abacaxi ao minotauro, a carótida ao vampiro, estudando os rios que fluem contra o oceano, voltam ao fio d’água, explicam-se pelo arrependimento, trabalhando sem alegria para um mundo caduco, observando o voo da mosca. E sempre descobrindo o amor, inventando o amor, renegando o amor, conspirando: não me venham falar que, à noite, deitado na areia da praia, olhando a superfície negra salpicada de pontos luminosos, alguém era melhor do que você no comando da misteriosa navegação.

Tão existencialista isso de você olhar para baixo quando ri, e tão provocador e belo, e nobremente misterioso, sweet prince. Você, sempre acreditando que de tudo fica um pouco, até no chocalhar de chaves no bolso burocrata fica um pouco do desabar das ondas sobre os calhaus da sua região preferida no mundo, onde o deserto limita com o mar. Sempre se perguntando por que acordar com palavras o chinês deitado no campo, e quais as dez coisas que não podem faltar no sono de um chinês deitado no campo: a revolução? a súbita iluminação da mosca em pleno voo? a vertigem do miserável que nem sabe que ronda a boca de um vulcão?

Está vendo como, tão inutilmente, tão amargamente, a lebre, escama a escama, pensa que vai se agarrando à serpente, virando serpente, proferindo oráculos?

Mas não, não é um poema para lembrar de você. Aí está você, aqui estou eu. Aí estão as letras e as runas. Tantos mortos em nossas vidas. Mas seguimos adiante, encurralando sonhos com café, entre o giro da galáxia e o lixo da cozinha, e a mosca, não vamos nos esquecer da mosca. A mosca foi nosso duende. Nossa real Penélope foi fulana. Você via o inimigo maduro a cada manhã ir se formando no espelho de onde deserta a mocidade, Jean Cocteau dizia que os espelhos deveriam refletir um pouco mais antes de nos devolverem a nossa face, e meu riso, abafado, se o risse, ofertaria ao nada, e nele me sepultaria para sempre e um dia.

Anoitece e a serpente diz que a lebre nem chegou perto de alcançá-la, e apenas sonha em sua vermelha toca subtropical, ardendo em febre. A serpente não sente a pelúcia e a ferrugem das patas tateando já seu código genético, suas ondulações, o bater do seu coração. Antes isso do que confessar ao atirador de elite que você foi o homem da minha vida, príncipe. E que eu sempre tive medo de que você me esmagasse com seu amor, com seu desprezo, delta do Paraná, cataratas do Niágara, e, uma vez mais, moscas.

Príncipe, anotei todos os conselhos que você deixou na caixa de papelão da pizza, de que os camaradas comeram mais da metade. Menos aquele sobre só falar de amor sob um vento de cobre e estanho. E é que, como você, só sei falar de amor o tempo todo: amor, amor, amor, amor, no seu dialeto de desordem e precipício, sua fala tartamuda, sua música eletrônica, suas mãos erguidas que não logram nem desistem de fazer o éter tremer de sua pura vertigem vertical. Por isso também eu deitei-me à noite em chão qualquer e fiquei sentindo, sob o corpo, o ondular da bola de barro solta no ar e no alto o séquito de constelações extintas e prometi que o amor nunca mais será comum, banal, nunca mais será qualquer coisa fora da felicidade extraordinária, flor nascida no banco de trás do carro, silêncio de coquetel molotov um segundo antes de explodir contra a luz, Morro da Conceição, Morro do Livramento, Gamboa, Juramento, Tuiuti, Mangueira ou qualquer outro vendaval. Você diz que as mulheres que nunca nos olharam levaram consigo gestos de paixão, de morte e êxtase. Na madrugada da Praça XV, a menina, zureta de pedra, orgasmo de pedra, palavras de pedra, se despega, se despedra da escuridão para me oferecer um ferro de passar novo por cinco reais. Pupilas de fogo, mosca no nariz, ela me sussurra, como oratório sobre faixa mixada do Dj Enigma, que sua presença, milagre de segundo banho no mesmo rio de lama, é a única lebre. E se foi, levando gestos de agonia e limbo, pequena Electra dos muros pichados.

De todo modo, como os cidadãos de Argos, que se lamentavam de haver entregue à guerra de Troia a melhor flor de sua juventude só para receber, dez anos depois, em vez de homens feitos, cinzas numa urna desolada tão fácil de manusear, sinto que a poesia me sai cada vez mais cinza, e nem por isso diminuo a hecatombe de todos os meus momentos dedicados a ela: poesia. A ela, que também te matou, cegou João Cabral, tragou Dylan Thomas 18 uísques adentro, naufragou Rimbaud no charco abissínio, clamou por Ana Cristina do fundo do abismo, Lorca fuzilado de madrugada, assistindo ao primeiro clarão do sol surgir sobre as cabeças do pelotão, última visão do condenado, esgazeou Silvya, Sexton, Sulamita, fez um bailarino de sífilis dançar na pupila verdinegra de Baudelaire, e quantos mais. Carlos, sobreviver aos filhos, aos amigos, ao amor, tudo explica e repele explicação, ninguém morre velho o bastante ou jovem o bastante e há de haver uma região de todas as coisas, e ali nos reuniremos para tramar as felicidades mais impossíveis, sempre as mais realizáveis. O poema é o amor realizado do desejo que permaneceu desejo e isso já deixa o coração pleno de verdade, de furor e mistério. Cara, eu queria apenas dar notícias do coração pleno, do desejo extraordinário, da saudade de você. Viu o que você fez com a imaginação dos poetas cegos de Catamarca? escrevemos post-mortem. Vivemos post-mortem.

Saiba que sempre penso em você, pelo menos sempre que o meu coração cresce assim dez, vinte, trinta metros e explode.

FOLHA DE SÃO PAULO SOBRE O TEXTO: Sem escrever poesia desde a publicação de “Monodrama” (7Letras, 2009), Carlito Azevedo quebrou o jejum com este poema em prosa, escrito para ser lido hoje, durante sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty, ao lado de Eucanaã Ferraz.

Um dos escritores mais alvo de crítica pelo seu desempenho na FLIP 2012 foi Jonathan Franzen. Bastante aclamado no seu país, nos EUA, a ponto da Revista Time lhe dar a capa após o seu último romance, Liberdade, publicado pela Companhia das Letras. Conhecido por estar resgatando o romanção realista, durante o evento ele pareceu estar interpretando algum personagem ao falar com o público, fazendo gozações, caretas e cheio de pausas reflexivas e constatações autoirônicas.

Algumas tiradas do romancista trazidas pela Folha de São Paulo:

/“Acordei às seis da manhã e comecei a ficar um pouco bobo”, disse Jonathan Franzen, 52, o grande romancista americano, ao começar a responder às perguntas do público na Tenda dos Autores, na noite de ontem, na Flip.

Ao lhe perguntarem  o que havia querido  dizer no ensaio no qual falava sobre fazer uma literatura transparente, começou a falar em “raios cósmicos” e “partículas alfa”, depois, parou de repente e começou a rir sozinho.”Desculpem, vou responder”, disse. “O que busco é que ninguém repare na linguagem ao ler meus livros. Que ninguém fique analisando ‘isso é uma metáfora, isso é uma frase formulada para passar tal impressão”.

“Sinto que a palavra entretenimento não tem em português a mesma conotação que em inglês. Ela acrescenta outras coisas e se torna negativa. O romance tem esse objetivo de entreter. Vivemos num mundo cheio de distrações, então precisamos de uma literatura que atraia.” Mas também fez ressalvas à literatura que frequenta as listas de mais vendidos. “Há muitos romances sendo escritos. As pessoas fazem carreira com isso”, disse.

Para encerrar ele disse que acordou muito cedo, às 6h, para observar pássaros. “Essa é uma das regiões mais interessantes do planeta para se observar pássaros, e as pessoas nem sabem disso”.

A Jornalista da Folha de São Paulo, Josélia Aguiar, especializada na cobertura de livros saiu em defesa do escritor. Disse que as seis horas que ela levou de Paraty para São Paulo ajudaram-na a construir 12 argumentos a favor de Jonathan Franzen, aliás, argumentos que ela diz ter tirado do próprio escritor:

Por exemplo, para quem não gostou ou não entendeu o que ele disse em sua mesa na Flip , ela recomenda os 12 ensaios do volume “Como ficar sozinho”, que acabou de sair e ela conseguiu ler em sua maioria durante a viagem. Ele já  deixou tudo escrito, para que não fosse preciso vê-lo, e sim lê-lo.

Continuando ela diz:

A todas as perguntas que lhe fizeram na última sexta-feira, o romancista já respondera muito sofisticadamente, o livro é a prova material.

A começar por aquelas quatro que, brincou o mediador, ele pediu para que não lhe fizessem: 1-quais são suas influências? 2-quando você trabalha e o que você usa para escrever? 3-você controla os personagens ou eles assumem o controle? 4-sua ficção é autobiográfica? Das quatro trata o ensaio que começa na pág. 270, “Sobre ficção autobiográfica”.

A implicância com Facebook, Twitter etc –que coloca sob o conceito de tecnoconsumismo, a teleologia da techné — é bastante bem explicada em ensaios como o incrível “A dor não nos matará” e “Só liguei para dizer que te amo”, que começam nas págs 9 e 20.

“O cérebro do meu pai”, pág . 63, é talvez o ensaio mais pungente; conta os anos em que conviveu com o sofrimento do pai com o mal de Alzheimer. Tão bonito quanto esse, há ”Mais distante”, pág. 233, em que, enquanto pensa em Robinson Crusoé, do clássico inglês de Daniel Defoe, e em David Foster Wallace, o amigo que se matou, trata do sentido da própria literatura –é onde também discorre melhor sobre por que entreter é qualidade, e não um defeito, para um romance, mesmo um romance de “literatura a sério”, como diz (é uma outra definição para entreter, diferente da que adquiriu por aqui).

A antologia tem focos de leveza também. Como na divertida defesa da contista Alice Munro, canadense que é pouco conhecida mas que ele considera autora enorme: encontra-se em “De onde vem essa certeza de que você mesmo não é o mal?”, último ensaio, a partir da pág. 308.

Um trechinho: “Ela não dá aos seus livros títulos grandiosos, como Pastoral Canadense, O Psicopata Canadense, Canadá Púrpuro, Canadá, Terra de Sonhos ou Complô contra o Canadá.”

Gozação, na maior parte, com Philip Roth.

Adiante, mais sério do que engraçado: “Uma ficção melhor pode salvar o mundo? Sempre há um fiapo de esperança (coisas estranhas realmente acontecem), mas a resposta é quase certamente não. Há uma chance razoável, no entanto, de que a ficção possa salvar nossa alma.”

Pois é, leitor, Franzen, que quase passou por freak, também pode ser edificante.

.Resta-nos ler o livro Como Ficar Sozinho, do autor, e conferir.

Outra grande estrela da literatura, Ian McEwan, também deixou um sentimento de que poderia ter sido melhor. Na verdade, espera-se da fala dos escritores a mesma fluência e encantamento de suas escritas, o que muito raramente coincide. A maioria tem dificuldade de falar em público e enfrenta sério desafio nesses eventos. Aqui vamos apresentar alguns trechos da fala do escritor inglês trazidas pela Folha de São Paulo:

Manipular o leitor é o “maior prazer que temos na vida”, diz McEwan na Flip. Ao responder a uma espectadora que perguntara, por escrito, se ele tinha prazer em manipular os leitores (pois ela, a espectadora, havia sentido muita raiva ao se sentir manipulada lendo “Reparação”), McEwan disse: “Sim, esse é principal prazer que temos na vida”. Contou ter sido acusado pelo crítico James Wood de ser manipulador. “Então ele só me acusou de ser um romancista.”

Depois comparou o leitor a uma truta, numa modalidade de pescaria que basta ao pescador balançar os dedos na água, atraindo a atenção do peixe para hipnotizá-lo e em seguida capturá-lo.

Noutro “insight”, instado a fazer uma apreciação do gênero policial, McEwan disse que “talvez todos os romances sejam romances de espionagem”.

“Todos temos a noção de que não podemos revelar tudo, que há informações que não podem ser passadas adiante.”

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