Leitura de Poesia às Quartas-feiras

Conforme eu havia dito anteriormente, a Oficina é um lugar para se discutir as diversas formas literárias. Apesar disso, sempre ficamos restritos aos romances e contos, jamais nos arriscávamos pela poesia. Certa vez, a bem da verdade, ousamos ler  Inferno, a primeira parte de a Divina Comédia, de Dante Alighieri. E mais não fizemos. Há pouco, Paulo Tadeu, marujo experiente das viagens pelos mares das palavras, cobrou esse silêncio na Oficina sobre a poesia. Então, nos demos conta da falta que ela estava fazendo e decidimos rapidinho que iniciaríamos as nossas atividades, toda quarta-feira, com um poema escolhido por um dos navegantes. Autran Dourado dizia que Todos os dias, antes de começar a escrever, lia um poema de qualquer grande poeta da minha língua. Em geral Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Murilo Mendes e João Cabral de Melo Neto que são os meus poetas preferidos… Parafraseando Autran Dourado, todas as quartas-feiras, antes de começarmos os trabalhos do dia leremos uma poesia. Os poetas serão escolhidos livremente pelos oficineiros.

 No mesmo dia, recebi por email do nosso marujo mais antigo, Everaldo Júnior, um poema de Charles Baudelaire: Embriaga-te. Tivemos dificuldade de ouvi-lo na Oficina por conta do som, então encontrei-o em outra versão e leitura no YouTube:

A oficineira encarregada de trazer o poema da quarta-feira, dia 29, Salete Oliveira que sempre está presenteando o blog com os seus poemas – sim, porque neste blog a poesia sempre teve espaço, não apenas dos navegantes, mas de outros poetas velhos conhecidos dos que amam a poesia – trouxe um soneto de Carlos Pena Filho: Primeiro Poema No Vazio:

CARLOS PENA FILHOPrimeiro poema no vazio – Carlos Pena Filho

                                            Buscava tudo o que havia
                                             de nunca mais encontrar
                                              em sua face macia
                                               em seu leve caminhar,
                                               nas rotas claras do dia
                                              nos verdes sulcos do mar
                                                e de tudo quanto havia
                                                de nunca mais encontrar
                                              restou a forma vazia
                                               suspensa no seu olhar
                                                e a tênue melancolia
                                                de quem não se soube achar
                                                 nas rotas claras do dia
                                                 nos verdes sulcos do mar

Trata-se de um belo Soneto de Carlos Pena Filho, do tipo Soneto Monostrófico pois apresenta os catorze versos em uma única estrofe. No seu Livro Geral, somente dois poemas são Monostróficos, este aqui apresentado e o Segundo Poema no Vazio que não é um soneto. Os demais sonetos são no modelo  tradicional, dois quartetos e dois tercetos.

Luiz Carlos Monteiro, em sua tese de mestrado Musa Fragmentada: A Poética de Carlos Pena Filho,  diz que o poeta ao propor uma trégua pela suspensão momentânea da busca empreendida, enfoca a angústia num tom que se aproxima ao desespero negativista e ao pessimismo radical, pondo a nu a dimensão dos objetivos não alcançados.

Acho  essa visão um pouco forte, eu ficaria com a opinião do poeta quando diz que restou a forma vazia/suspensa no seu olhar/e a tênue melancolia/ de quem não se soube achar… O sentimento de tristeza é visível, de desespero, não.

Carlos Pena Filho também compôs música com Capiba, como Rosa Amarela aqui apresentada na voz belíssima de Maysa:

 

Aproveito a oportunidade para lembrar que nesse blog existem bons poemas postados.

 Jaboatão dos Guararapes, julho de 2015

   Lourdes Rodrigues

 

 

 

 

 

 

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