Marido

imagesMARIDO faz parte de uma coletânea de contos que recebeu o título Marido e outros contos, da autora portuguesa Lídia Jorge, nascida em Algarve. O livro foi editado pelas Publicações Dom Quixote, em 1997. No Brasil foi lançado em Ouro Preto, no Fórum das Letras, em outubro de 2014, com o título de Antologia de Contos.
Lídia Jorge é considerada uma das grandes vozes da Literatura Portuguesa Contemporânea. Desde 1980, quando publicou o seu primeiro livro, O Dia dos Prodígios, pelas mãos do escritor Vergílio Ferreira, tornou-se importante acontecimento no meio literário, lançando até o momento, mais de vinte obras. Está no prefácio da primeira edição de O Vale da Paixão:

O seu primeiro romance, O Dia dos Prodígios(1980), foi um importante acontecimento literário, iniciando uma nova fase, de grande qualidade, na literatura portuguesa recente. O Cais das merendas(1982) e Notícia da Cidade Silvestre(1984) foram ambos distinguidos com o Prémio Literário do Município de Lisboa, seguindo-se A Costa dos Murmúrios(1988), A Última Dona(1992), O Jardim sem Limites(1995) – distinguido com o Prémio Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa, A Maçon (Teatro, 1996) e Marido e Outros Contos(Contos, 1997). As obras de Lídia Jorge encontram-se traduzidas em diversas línguas. (JORGE, 1998)

O Vale da Paixão, publicado em 1998, recebeu os prêmios Dom Dinis, Bordalo, Ficção do Pen Clube, Máxima de Literatura e o Jean Monet de Literatura Europeia – Escritor Europeu do Ano. O meu primeiro contato com a literatura de Lídia Jorge foi através desse livro, que eu comprei em Lisboa, que me deixou tão impressionada, que repassei para a Oficina o meu sentimento e os viageiros começaram a entrar em campo e a descobrir outras obras da autora na internet. Frutos dessas pesquisas surgiram Marido e outros Contos e Combateremos as sombras, este último premiado com o Charles Bisset, da Associação Psiquiátrica Francesa.

A leitura de Marido foi tão impactante na Oficina que ao encerrá-la, nos primeiros segundos, todos ficaram mudos, o silêncio era total. Depois de quebrado por mim, todos queriam falar ao mesmo tempo, cada um com a sua própria leitura do conto, querendo ser ouvido. A duras penas conseguimos acalmar as excitações e ouvir algumas opiniões. O tempo da Oficina foi esgotado, mas a discussão ainda continuou por bom tempo.

Esta resenha é uma tentativa de colocar a minha leitura particular do conto. Gostaria que os outros viageiros também o fizessem, para que as variadas interpretações ficassem registradas. É muito rica a leitura coletiva, são várias visões de mundo que se interconectam em acordos e desacordos.

· Marido

O conto começa com a primeira frase da Salve Rainha, em Latim, acrescida no seu final da palavra vem, rezada pela personagem principal, a porteira, assim referida o tempo todo pelo narrador. O leitor só saberá do seu nome quando, em flashback, o narrador trouxer lembranças do marido chegando em casa, embriagado, aos brados, chamando-a: Lúcia! Ó Lúcia!

O parágrafo é uma oração, através da qual a porteira, em desespero, clama pela vinda de Regina, daí o acréscimo da palavra vem à Salve Rainha, para abafar a vida, a roupa, a sala, o fogão, a espera com teu doce bafo. Mais do que esse abafo, ela pede amparo para a vela, o fósforo, para concentrar, proteger da aragem a chama da vela até a chegada dele. Há uma angústia imensa nessa espera que ela não pode suportar sozinha, sem Regina. Daí o seu desespero pela presença da Rainha Mãe. Outra preocupação da porteira, que no final das contas é a mesma, porque ela usa o verbo abafar e a repetição tem uma função específica na frase, de confirmar, reforçar o que já fora dito antes, é com o silêncio. Ela pede a Regina por silêncio, que abafe o som, proteja-o da ira dos inquilinos até ele tocar. Lá no final vamos entender o porquê da preocupação em abafar o som apenas até a chegada do marido.

Mas ela teme que o marido veja Regina, então, pede-lhe para se esconder, ficar de cócoras, e intercalando palavras da Salve Rainha em Latim, suplica a Regina para que não me deslargues, não desesperes, não desconfines. Ansiosa, questiona, Por que esperas. Abre as asas e protege já, protege de seguida, protege contínuo, sem intervalo, sem desfalecimento. E novamente intercala palavras em Latim, encerrando o parágrafo com o final da Ave Maria, em Português, agora e na hora da nossa morte, Amén. Fecho em Latim.

Neste primeiro parágrafo, o personagem, num fluxo de consciência, revela grande angústia nas suas orações, advindas da espera do marido que voltará para casa embriagado. Segundo Robert Humphrey, em O Fluxo de Consciência, esse recurso literário é usado quando se quer dar ênfase aos níveis de consciência que antecedem a fala, para revelar antes de tudo, o estado psíquico do personagem. A narrativa é entrecortada de pedaços de orações em Latim e Português com súplicas e pedidos de socorro, na primeira pessoa, isso fica bem evidente, principalmente, quando ela diz minha Regina, para que não me deslargues, não desesperes, não me desconfines. Assim, trata-se de um narrador autodiegético, que conhece bem os fatos que lhe estão perturbando, porque é de si que ele está falando, do seu medo que vai se avolumando com aquela espera. É um personagem aterrorizado diante da proximidade da chegada do marido embriagado, que apela à proteção da Mãe Rainha e que teme que Regina não a ampare.

No segundo parágrafo entra um narrador onisciente que parece saber do íntimo do personagem e fala dele na terceira pessoa. Com tais características, a rigor, pode-se dizer que ele não é personagem, tratando-se de um narrador heterodiegético. Entretanto, embora onisciente e falando na terceira pessoa, ele não é um narrador neutro, segundo a tipologia de Norman Friedman. Para tanto, ele precisava não emitir qualquer instrução ou comentário ou opinião sobre o comportamento dos personagens. Aqui, ele parece ser um narrador intruso, porque aqui e acolá, se mete na história, opina, ajuíza, advoga, toma partido. Tenta interferir junto à Rainha pedindo que Ela proteja a porteira, não só a ela, mas ao marido, também. E como conhecedor de tudo que acontece na vida deles, dirige a sua câmara para o marido, mudando de foco narrativo e traz para o narratário (possivelmente, Regina, aliás, Regina parece ser o narratário de ambos, porque é o da porteira, também) a sua rotina entediante, pedindo proteção para ele, por entender que está em perigo com o tipo de trabalho que realiza: Claro que está em perigo (por que claro, quem o estava questionando?Regina?) E opina: ele faz bem em não continuar depois das cinco, por causa do perigo. E diz o que ele deveria fazer: vir para casa, trabalhar na gaiola dos pombos (aqui se percebe a intertextualidade com A Praça do Diamante, de Mercè Rodoreda, imediatamente, a nossa viageira Adelaide lembrou) e fala dos perigos que ele corre não vindo para casa, passando em sítios que a porteira nem nomeia. Ora, mas ele não é onisciente? Ele só sabe o que a porteira diz? Ela não nomeia, mas ele deveria saber. O narrador, apenas, insiste em falar dos perigos da passagem por aqueles sítios e da rigidez corporal que o vinho erecto provoca no marido da porteira.

Na segunda página, num longo parágrafo, a mediação entre narrador e personagem fica tênue quando é trazida a cena do marido chegando embriagado, desde o momento que ele toca (porteiro eletrônico?) lá embaixo no prédio, abre o elevador com dificuldade e por aÍ vai. Nesse trecho, ele assume o papel de anjo da guarda de Lúcia e implora: Rex e Regina, venham e salvem a porteira, salvem-na da madrugada, salvem-na acocorada no trono do pombal, com a cabeça sob os panos, no alto do seu mundo… Mais adiante, ele se distancia e retoma a sua postura de narrador, trazendo o final dessa cena que é apenas uma rememoração (em termos de tempo narrativo).

Daí em diante, o narrador usa o olhar da porteira, o seu ponto de vista para trazer a sua condição social naquele prédio. Aqui o privado e o público são vistos sob o olhar dela. Todos os personagens são apresentados pelas suas funções, o advogado, representante da lei, o médico, da saúde, a assistente social dos direitos da mulher como ser completo. Todos combinados contra ela, mais precisamente, contra o seu homem, assim pensa a porteira, porque pretendem afastá-la dele, oferecendo os seus préstimos para tanto. Aqui, a voz de cada um deles representa um ponto de vista, numa polifonia de vozes que ameaçam a porteira. E tão alterada se sente ao relembrar essa pressão, o tapete de negrume e de solidão que eles lhe estendem, que recomeça a orar em Latim e a falar do sacramento do casamento e de como a vida seria triste sem marido.

Outra vez, num sugestivo discurso indireto livre, não há marcas que indiquem a separação da fala do narrador da fala do personagem, Lúcia passa a falar das suas dependências daquele marido, que iria perder muitas coisas só por causa de quinze minutos de sobressalto!

A ironia do narrador está presente em algumas partes do conto, quando ao elencar as sujeições da porteira ao marido às pequenas e inexpressivas coisas, apontadas por ela mesma através de pensamentos, ele complementa Que papel imprescindível, que pessoa necessária na vida da porteira. Presente, ainda, a ironia, quando ela diz que …fora da bebida nunca tinha querido bater nem matar, como tantos há . Só por causa de quinze minutos de sobressalto dentro dos quais ela poderia apanhar ou até morrer? Bobagem. E o dinheiro que ficava sempre com ela, menos aquele que marido gastava na bebida, como ele não chegava a vir… ela não podia amealhar. Mais ironia quando diz que ele não ligava que ela se entregasse à devoção: Pouco se ralava que ela fosse ou viesse. Uma liberdade com ares de bastante indiferença.

A dolorosa rememoração da pressão dos moradores, após muito sofrimento e súplicas a Rex e Regina para abafar o medo, a angústia e solidão naquela varanda escura à espera de marido, leva Lúcia a tomar a decisão de enfrentar o marido, salvar seu casamento, vencer os vizinhos, proteger o seu homem, o sacramento que ainda é mais importante para ela. E conclui: Não a demoveram. Afinal, o que o marido queria não era incendiar-lhe o cabelo, mas apenas acender a vela. Tomada de coragem, como se de repente sentisse uma força sobre-humana vir de dentro dela, sem precisar do auxílio da própria Regina, decide não fugir e enfrentar a chegada do marido. Ela mesma estará junto da porta, e ele não precisará de chamar porque a verá antes de qualquer outro objecto da casa. Ele há de enxergá-la mal entre. Com jeito, ela há-de acalmá-lo, em silêncio…

Penso que essa decisão já estava tomada muito antes. No primeiro parágrafo, ela pede para Regina abafar todo som até ele chegar à porta dela, devido à sua preocupação com os condôminos, para que não ouvissem qualquer ruído quando ele chegasse, para que não tentassem separá-la dele, dali em diante, ela cuidaria. Para isso, ela estava disposta a descalçá-lo, ampará-lo na queda, calá-lo, embalá-lo, retê-lo junto de si com voz baixa, massajar-lhe as pernas, esfregar-lhe as mãos. Essa decisão deixara-a tão leve, tão em paz que ela nem sentiu o tempo passar. E então ele chega.

.A narrativa da chegada é dividida entre o narrador descrevendo a cena e a porteira chamando Marido? Marido? Marido? Essa repetição tem a força da confirmação do seu desejo. Sim, Marido, eternamente Marido, Amém. À medida que a tensão vai aumentando, tem-se a impressão de que o narrador já não mais media a cena, que ele desapareceu assustado com o que vai acontecer. Lúcia está sozinha, como sempre temeu estar, onde estão Rex e Regina, ela não mais pergunta, decidida a ir em frente com a sua decisão. Não parece temerosa quando diz Vejam como ele se vira, como o seu cabelo curto de homem lhe cai pela testa, como é bonito o lábio roxo do marido, sem som, só bafo. E ela continua a mostrar, quem sabe para os condôminos, os vizinhos do prédio que pretendem separá-la de seu homem: Vejam como ele procura o casaco… como procura nos bolsos… Como acende o isqueiro… E ela se propõe a ficar muda para que jamais alguém se atreva a insinuar uma vingança forçada, uma separação desventurosa, um desquite profano… Mesmo que ele lhe aproxime o isqueiro da cara e lho passe pelo cabelo. Ela se afastará do isqueiro.

A cena final é a apoteose do seu ato de coragem, na realidade, de sua entrega à fúria da última doce madrugada, segundo Maria Madalena Gonçalves que escreveu sobre A Arte de Escrever em Lídia Jorge:

A cena final deste conto é constituída pela projeção do que Lúcia imagina vir a acontecer no momento em que o marido entra em casa e a encontra imediatamente à porta. Esse momento é para ela o começo de uma nova vida, de uma ‘doce mudança’ (p. 21). É neste ponto da narrativa – quando o desejo se põe a funcionar como realidade – que a personagem sai da crise e resolve, ainda que ficticiamente, as suas contradições. Na verdade, a resolução é da pura ordem do fantasma, quer dizer, de um desejo que não é preenchido, justamente por, sendo da ordem do fantasma, o não poder ser. Efectivamente, Lúcia morre às mãos do marido e da vela acesa por este sem ter conseguido operar a mudança que imaginava. Não consegue porque morre, mas a sua morte – homicídio ou suicídio – pode ser lida como um desafio simbólico à mudança e, nesse sentido, não como um fim mas como a continuidade da vida, uma espécie de reverso dela, seu complemento e até seu apogeu. Nesta perspectiva é possível falar em mudança e, mesmo, em ‘doce mudança’ (‘doce’ porque é feita na continuidade) já que a morte às mãos do marido prova que não há separação entre o real (a total dependência e sujeição de Lúcia ao poder conjugal) e o que é da ordem dos desejos da personagem (manter a todo o custo a sua unidade identitária no seio da conjugalidade). Assim, numa perspectiva simbólica, a morte terá dado a Lúcia a ‘doce mudança’ por que tanto ansiava. (GONÇALVES, 2000, p. 124-125)

Em termos plásticos é uma cena bonita, pela leveza como é descrita, intercalada por trechos da Salve Rainha, e o seu rolar silencioso, como ela queria, como se estivesse em câmara lenta, de andar em andar até simbolicamente parar no quinto andar, o andar do advogado e ali crepitar, estalar, sem fazer barulho. Assim, Regina quer, o narrador diz. E as asas de Regina estão sobre ela no quinto andar. E transformado em personagem, o narrador implora a Regina:

Abre as asas, advocata, levanta vôo, leva a porteira, condu-la na maca, ergue-lhe a vista, Regina, separa-a definitivamente da cama, do balde e do fogão. Separa-a dos dez andares que o prédio tem, separa agora, et nunc, et sempre, et séculos, das janelas abertas, cheias das silhuetas dos inquilinos lilases e brancos pela fúria da última madrugada. Levem-na, Regina e Rex, com vossas quatro mãos, vossos quatro pés, deste lacrimarum Valle, eia ergo, ad nos converte. Levem-na sem ruído, sem sirene, sem apito, sem camisa, sem cabelo, sem pele, post hoc exilium, ostende.

Marido é um conto cuja leitura leva a muitas reflexões e interpretações. A preocupação nessa resenha foi tentar entender as figuras literárias do narrador e personagem que nem sempre estiveram claras.

Jaboatão dos Guararapes, 09 de agosto de 2016.
Lourdes Rodrigues

2 ideias sobre “Marido

  1. Relendo sua cronica voltei a sentir a força sufocante, imposta por diferentes tipos de poder, que moldam a vida do nascer ao morrer. Lucia estava coerente quando lhe foi apresentado ocasiões , de prováveis mudanças, e, ela as repele alicerçada em seus conhecimentos e experiencias :O que era aguentar maus tratos por 15 minutos se comparada a segurança das condições de sobrevivência dispensadas pelo seu marido? Parece estar implícito; Conheço realidades muito piores que a minha! Dispenso as ajudas externas, entrego a Regina e Rex todo meu viver/sofrer , só eles podem me garantir mudanças ou uma doce partida, levada em seus braços.

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