Memórias do Subsolo

RES-SENTIMENTOS

*Cacilda Portela

sendbinary2Depois de ler pela primeira vez Memórias do Subsolo, pensei em escrever sobre o personagem-narrador que tanto parece se divertir quando discute suas teses com o leitor. Este texto é resultado dessa leitura, que fiz na Oficina de Criação Literária Clarice Lispector, e escrevo para leitores iniciantes em Dostoievski. Não tenho a intenção de compreendê-lo bem. Deixo esta missão para os críticos literários especialistas no autor, mas não me foi possível deixar de registrar algumas impressões sobre o livro.

Em Memórias do subsolo o personagem e narrador leva ao leitor sua profunda angústia existencial.  O sofrimento tem relação com as suas ideias e a forma com que reflete sobre sentimentos e ações. Na primeira parte são ideias sobre consciência hipertrofiada e inércia, razão e vontade que expõem ao leitor o comportamento estranho de um homem que fez opção pelo subsolo, e como ele próprio o diz, de um homem atingido pelo desenvolvimento social e pela civilização europeia.Também as suas ideias frente ao racionalismo ocidental, à mentalidade positivista e à sociedade russa do fim do século XIX são determinantes para explicar seu comportamento. Na segunda parte, o personagem narra episódios com um oficial, colegas da escola e com a prostituta Lisa, materializando, de certa forma, as ideias apresentadas na primeira parte. São revelações de um homem com sentimentos e atitudes contraditórios, que vão da raiva ou profundo rancor, passando pelas fases de ofensa, vingança, culpa, arrependimento, prazer (do sofrimento), devassidão e devaneio. Acreditamos que na origem do subsolo encontra-se um rancor intenso e uma profunda carência de si mesmo.

O homem do subsolo começa dizendo que é um homem doente e mau. E que não conseguiu se tornar sequer um inseto. Leva uma existência excêntrica e autodestrutiva. A explicação é dada pela consciência hipertrofiada e pela inércia. Acredita que uma dose muito grande, mas qualquer consciência é uma doença, uma doença autêntica, completa. Consciente de que as leis da natureza são a causa do seu sofrimento, nosso homem do subsolo prefere uma consciência sub-humana. Acredita e não se conforma que sua condição seja determinada pelas leis da natureza, pelas combinações lógicas inevitáveis das ciências naturais, e da matemática. São sentimentos exagerados, desproporcionais, desarmoniosos e tão contraditórios que, por vezes, levam a sintomas de náusea, desfalecimento, insônia e convulsões. Não vê outra saída senão imobilizar-se voluptuosamente em inércia.

Defende uma vontade própria, sua, livre, um capricho,’ sua própria imaginação, ainda mesmo quando excitada até à loucura.Clama pelo direito à individualidade, aos desejos, ao risco, ao acaso, ao fracasso e ao sofrimento.A razão é só razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem, enquanto o ato de querer, de desejar, constitui a manifestação de toda a vida humana.O homem, muitas vezes, deseja, intencionalmente, absurdos, ato vis ou a realização dos seus sonhos mais estranhos, mais fantásticos, para demonstrar do que é capaz a natureza humana.  Irrita-se com a possibilidade de que seus interesses, a matemática e as leis da natureza possam coincidir com a própria vontade. A vontade conserva o principal, o que nos é mais caro, isto é, a nossa personalidade e a nossa individualidade. A vontade tem muita força é o que impulsiona o homem a transformar ideias em ações.

Nosso homem do subsolo finaliza a primeira parte dizendo que o melhor é a inércia consciente. Logo em seguida afirma que não é o subsolo, mas algo absolutamente diverso, pelo qual anseia, mas que, de modo algum  há de encontrar. Afinal! São quarenta anos de subsolo.

O episódio com o oficial, os amigos de escola e com a prostituta Lisa revelam um homem com sentimentos e atitudes contraditórios, que  passam pelas fases de raiva e profundo rancor, vingança, devassidão e arrependimento, e devaneio. Seus sentimentos são complexos, instáveis, confusos, se combatem com vigor, se misturam e levam nosso homem às condições de amargura e desgraça.

Passaremos a descrever as fases mencionadas, procurando destacar o pensamento avaliativo, o acontecimento desencadeador (sentimentos e sintomas) e o comportamento do homem do subsolo em cada fase.

Sua raiva é muito grande e se transforma, quase sempre, em um rancor profundo, que só aumenta e se fortalece com o passar do tempo. É frequente demais, intensa demais, muitas vezes imaginária e duradoura. É uma raiva dirigida para dentro de si mesmo e incapaz de uma ação efetiva, como a incapacidade de lidar com experiências dolorosas (infância difícil, vida escolar e condição social de pobreza). Por ser homem de consciência hipertrofiada, incapaz de agir de modo espontâneo, já que está condenado a desdobrar a série infinita dos motivos e causas... de todo agir, procura substituir a raiva pelo sofrimento da culpa.

No episódio com o oficial, sente-se ofendido, diminuído, desvalorizado. De modo algum perdoava que o oficial o tivesse feito mudar de lugar e, positivamente, ele não o tivesse notado.  Não esquece a ofensa e acrescenta sempre novos pormenores, e a imaginação ainda faz surgir mais outros. Nada vai esquecer, tudo vai examinar e há ainda de inventar fatos inverossímeis, com o pretexto de que também poderia ter acontecido.

No dia seguinte à ofensa, continuou com o que ele chamou de minha devassidãozinha, ainda com maior timidez, de modo ainda mais opresso e triste, como se tivesse lágrimas nos olhos, mas assim mesmo prossegui. Quando encontrava o oficial na rua o olhava com raiva. A raiva até se fortalecia e se expandia com o passar do tempo. Muitas vezes, a raiva o sufocava. Escreveu uma transposição acusatória e uma carta linda e atraente, implorando ao oficial que se desculpasse perante ele. Esperava que o oficial, depois de ler a carta, fosse se atirar ao seu pescoço e oferecer a sua amizade. E como seria bom! Viveríamos tão bem como amigos! Tão bem! Ele me defenderia com a imponência da sua posição; eu o tornaria mais nobre com a minha cultura…

Passou a frequentar mais a Avenida Niévski, onde o oficial costumava caminhar; sempre um suplício, uma humilhação insuportável, porque tinha de se desviar. Era uma mosca, cedendo sem parar diante de todos, humilhada e ofendida, dizia ele, atormentado pelo fato de que não pudesse tratar o oficial de igual para igual.

Quando escreveu a carta para o oficial, nosso homem fez uma viagem no tempo, repassando fatos ocorridos e vislumbrando possíveis experiências boas no futuro Dessa forma, buscava se tranquilizar, na medida em que liberava o sentimento de vingança que carregava em si tanto sofrimento. Por fim, depois de dois anos atuando pouco a pouco, com eficiência, conseguiu agradável vingança dando um encontrão com o oficial na rua que fingiu não ter visto nada; mas apenas fingiu, estou certo, completou ele.

Chegando ao fim a fase de devassidão, começaram náuseas terríveis, seguidas de arrependimento, que era repelido por demais nauseante. Apaziguava o arrependimento refugiando-se em devaneios, que vinham com particular doçura e intensidade, com lágrimas, maldições e êxtases:

… eu, por exemplo, triunfo sobre todos; todos, naturalmente,
ficam reduzidos a nada e são forçados a reconhecer voluntariamente
as minhas qualidades, e eu perdoo a todos…Apaixono-me, sendo poeta
famoso e gentil homem da Câmara Real. Todos choram e me beijam
e eu vou descalço e faminto pregar as novas ideias…

Necessita do confronto com o oficial, os colegas de escola porque se considera de uma classe social inferior. Ele pertence à paisanada, e o oficial e os colegas deviam desprezá-lo pelo fracasso na carreira de funcionário e pelo fato de ter decaído muito, de andar mal trajado…  E, também, porque o oficial e os colegas representam, para o homem do subsolo, o homem normal, direto, de ação, como o sonhou a mãe natureza, enquanto ele é a antítese do homem normal, ou seja, um  homem de consciência hipertrofiada que quase sempre está ofendido.

Casualmente, encontra antigos colegas de escola, que se preparavam para um jantar de despedida de um deles.  Nosso homem se convida para o jantar. Não encontra receptividade no convite. Mas, imagina que a sua atitude venceria a todos, que o olhariam com respeito.

Na noite anterior ao jantar com os colegas, teve abomináveis pesadelos, por conta das lembranças dos anos patibulares na escola.  A febre fazia com que tremesse. Imaginava desesperado, que seria recebido altiva e friamente, com desprezo embotado, de modo vaidoso e insolente. Pensa que o melhor seria não ir. Mais ainda: no mais intenso paroxismo da febre do medo, sonhava sobrepujá-los, vencê-los, arrastá-los, obrigá-los a amar-me; bem, ainda que fosse pela ‘elevação das idéias e pelo meu indiscutível espírito.
Decidiu que não deveria ser o primeiro a chegar, senão julgariam que me alegrara muito pelo convite, mas já na véspera sabia que seria assim. Os colegas só chegaram uma hora depois. Os criados informaram-no que o almoço havia sido marcado para seis horas e não cinco, conforme combinado. Desdenharam de me avisar, pensou ofendido. Mais tarde, quando todos já haviam chegado e a conversa já corria solta, quando perguntado pelo seu trabalho e sua manutenção(salário),explodiu de raiva, humilhação e vergonha. Ele se sentiu abandonado, esmagado, desprezado, destruído. Pensou em sair, mas ficou.  Os colegas se transferiram para um divã, e o homem do subsolo ficou andando da mesa até a lareira, bem em frente a eles, durante três horas, pensando que era impossível rebaixar-se de modo mais desonesto e deliberado.

Quando o grupo ia saindo, ele atormentado, febril, os cabelos molhados de suor, e achando que precisava  terminar tudo, nem que tivesse de me apunhalar!, então pede perdão a todos, a todos, eu ofendi a todos.Sente-se abandonado, esmagado, destruído. Só encontra, como resultado de suas ações, o sofrimento.

Na saída, abandonado, chamou um cocheiro e foi ao encontro dos colegas que iriam para outro lugar dar continuidade à noite. Agitado, pensava:Ou eles todos vão implorar a minha amizade, de joelhos, abraçando as minhas pernas…ou...

Quando se dirigia à casa noturna, sentia-se arrasado, destruído, coberto de escarros, embriagado e cheio de confusão na cabeça. Durante o percurso ia ruminando sua vingança com os colegas de escola, que incluía bofetões, puxões de cabelo, duelo, perda do emprego, deportação para a Sibéria, em residência forçada, etc. E pensava alto: Não! É preciso resgatar tudo isto! – Mas ou eu hei de resgatar ou, nesta mesma noite, morrerei fulminado. Foi atrás dos colegas para a vingança.Ao chegar à taberna sente os joelhos enfraquecendo terrivelmente. Algo parece pairar sobre ele, tocar-lhe, infundir-lhe intranquilidade. A angústia e a bílis ferviam novamente e buscavam saída … Não havia sinal deles.

Eu caminhava pela sala, sem dar atenção a nada, e, ao que parece, falava comigo mesmo. Era como se eu tivesse sido salvo da morte e alegremente pressentisse, com todo o meu ser, o seguinte: eu daria mesmo uma bofetada, sem dúvida, sem dúvida! Mas, agora, eles não estavam ali e… tudo desaparecera, tudo se modificara!… Eu olhava em torno. Não podia ainda compreender. Maquinalmente, lancei um olhar para a moça que entrara.

Depois de duas horas em modorra, abriu os olhos e viu Lisa. Pensou: Estou justamente satisfeito de lhe parecer repugnante; isto me agrada… (…) Algo me mordeu e aproximei-me muito dela… O olhar era frio, indiferente, taciturno, muito estranho, dava uma sensação penosa. Logo surgiu a ideia absurda, repugnante como uma aranha, da devassidão… Iniciou um diálogo com Lisa. Ele aborrecido e angustiado ( lembrança do jantar com os colegas) e ela parecia dizer deixe-me, está me aborrecendo. Em determinado momento,sente-se espicaçado, ferido, rancoroso. Através de uma atuação, que engana e distrai, com doses maiores ou menores de pretensão, como um recurso para distrair dos próprios pensamentos, sentimentos, disposições ou objetivos, começa sua atuação sobre Lisa.

No inicio, começa a narrar para Lisa o enterro (de uma prostituta) que vira quando se dirigia a taverna. Os fatos que narra e o seu tom coloquial têm a  intenção de exercer certo poder sobre ela. Lisa já estremecia e apresentava raiva. De súbito algo apareceu, ainda sem objetivo claro.  Sua narrativa é perversa, mas nela há o cuidado de não subir o tom. Enquanto humilha Lisa, procura ganhar sua confiança. Tem consciência que esta sendo mau, mas continua. Conta para Lisa a historia de uma família feliz ( o pai, a mãe e o filhinho), enquanto pensa é com estes quadradinhos, justamente com estes quadradinhos, que é preciso atuar sobre você’!... e um mau sentimento se apossou de mim. Espere um pouco, pensou. Pinta um quadro triste de como sera a vida futura de Lisa. Torna-se patético, um espasmo está a ponto de apertar-me a garganta, e… de repente, soergui-me assustado… o coração batia. Pressentia, desde muito, que lhe transtornara a alma inteira e lhe rompera o coração, e, quanto mais eu me convencia disto, tanto mais queria atingir o objetivo o mais depressa e o mais intensamente possível.

No primeiro momento com Lisa, quis apagar o seu sofrimento, impondo a ela o sofrimento da humilhação e utilizando o embuste como sentimento, para depois dominá-la. Tinha consciência de que estava sendo amoral, mas não desejava parar o jogo. Descarregou sobre ela todo rancor, que trazia do jantar com os colegas. Em algum momento, sentiu vergonha, sentiu-se culpado, perverso. Na saída, pede perdão e dá o seu endereço. Precisa humilhar Lisa para alimentar a sua raiva. Sofre, mas não sabe viver de outra forma.Seu comportamento foi uma forma de descarregar em Lisa todo o fracasso, humilhação e sofrimento do jantar com os colegas. Sua atuação foi representada propositadamente para alcançar os seus objetivos. Segue uma linha sobre a qual atua sobre Lisa. O que, Lisa? Por que, Lisa? Como, Lisa? O que procura, deseja, durante o curso da atuação. A ação é intencional. É intencional, tem propósito e é esse propósito que conduz os sentimentos e as ações do nosso homem.

Quando deixa Lisa, pede perdão e dá o seu endereço, mas já esta pensando tu tens razão em ser um canalha… sentir que, embora seja ruim, não pode ser de outro modo….sobretudo quando já se tem uma consciência muito forte do inevitável da própria condição.Fica atormentado pelo pensamento de que Lisa pode ir à sua casa. Três dias depois, começou o devaneio:

estou salvando Lisa, justamente pelo fato de que ela vem a minha casa e eu lhe falo… Faço-a progredir, cuido da sua instrução… Mas agora, agora você é minha, é a minha obra, pura, bela, a minha linda esposa’’. Finalmente, toda envergonhada, bela, trêmula, aos soluços, atira-se aos meus pés e me diz que sou o seu salvador e que ela me ama acima de tudo no mundo….

Lisa vai à sua casa buscar ajuda e é  recebida com rancor. O estado de espírito do homem do subsolo é de desânimo, abatimento e humilhação, depois de uma briga séria com seu criado.  Sente que Lisa haveria de pagar caro por tudo aquilo. Depois das palavras corriqueiras, na situação que se encontravam os dois, ele falou não me envergonho da minha pobreza… Pelo contrário, orgulho-me dela. Sou pobre, mas nobre de caráter… É possível ser pobre e ter nobreza. Balbuciei. Lisa o olhava inquieta.Em mais um dos seus costumeiros acessos de raiva, exclamou, referindo-se ao criado: vou matá-lo!, vou matá-lo! E depois, dirigindo-se a Lisa: você não sabe, Lisa, o que este carrasco é para mim. É o meu carrasco… ele… E, se desfez, em lágrimas. Sente vergonha em meios aos soluços, mas não podia contê-los. Água, quero água; está ali balbuciava, a voz fraca… Por assim dizer representava para salvar a decência, embora a crise fosse verdadeira. Lisa estava perplexa e assustada. Depois de alguns minutos, veio a pergunta; Lisa, você me despreza? Disse ele, olhando-a fixamente, tremendo de impaciência sem saber o que ela pensava. Estava enraivecido contra ele mesmo, mas, naturalmente, ela é que devia sofrer as consequências. Depois de um silêncio de cinco minutos, Lisa falou: eu quero… sair de lá… de uma vez. Nosso homem pergunta, enraivecido, porque ela veio à sua casa. E ele mesmo responde, você veio porque queria ouvir  palavras piedosas como as que lhe falei no cabaré. Diz a Lisa que fora humilhado no jantar com os colegas e queria humilhar também. Esmagada, Lisa o ouvia dizer que precisava de poder, conseguir as suas lágrimas, a sua humilhação, a sua histeria.

De repente, ofendida e esmagada, mas percebendo o meu desespero, deixou-se cair junto a mim e pareceu petrificar-se naquele abraço. Sentiu-se envergonhado e pensou que ela era a heroína e ele era a criatura humilhada e esmagada, de quatro dias antes. Logo, surge o sentimento de domínio e de posse: uma fase de devassidão. Como a odiava e como estava atraído por ela. Pouco tempo depois, ele andava pelo quarto e observava Lisa que chorava. Sente que a ofendeu para sempre; e que ela agora sabe o que é uma vingança, uma outra humilhação e que ele é incapaz de amá-la.

Lisa dá adeus e sai. Ele a chama várias vezes, mas sem convicção. E se pergunta: para quê ?

* Cacilda Portela é advogada, pesquisadora social, ensaísta.

3 ideias sobre “Memórias do Subsolo

  1. Parabéns Cacilda o subsolo existe, provavelmente sempre existira, traze-lo a tona foi a grande tarefa do autor. “A razão é só razão”; razão pela qual é insuficiente para explicar um sofrimento tão profundo que , ultrapassa os limites deste elemento humano.

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