Caderno

 

César Garcia

            Entre as pequenas histórias vividas por Fernando, no verão de 2011, na praia de Porto de Galinhas, em Pernambuco, esta mereceu atenção especial de seus pais. A família viera de São Paulo e estava alojada em uma pousada gozando as delícias do sol, do mar e da gastronomia local. Filho único, Fernando nunca estava sozinho graças à facilidade com que fazia amizades, mas, no décimo dia de férias, uma terça-feira, chegou cedo à praia e, não encontrando nenhum amigo, decidiu correr alguns quilômetros para aproveitar o tempo. Em um trecho deserto da praia avistou um caderno na areia que, pela figura da capa, pareceu-lhe pertencer a uma mulher. A ideia acrescentou curiosidade ao impulso natural de apanhar o inesperado objeto. Contrariando seu plano de voltar para encontrar os amigos, parou e sentiu-se preso à leitura das primeiras linhas. Sentou-se e leu o texto até o fim e, em seguida, voltou a casa e contou aos pais o que lhe acontecera. Lidas e relidas as folhas, os três resolveram encarar o desafio de encontrar a proprietária do caderno mesmo sem contar com a informação mais importante: seu nome. A única pista era a estranha reflexão registrada, transcrita abaixo, que revelava realmente tratar-se de uma jovem.

                   EU EXISTO                                                       

 Será verdade que eu não existo? Vejo o mar à minha frente, umas jangadas, uma onda atrás da outra, ouço o barulho da arrebentação. Às minhas costas, os coqueiros altos, verdes, o vento agitando as pás desses moinhos contra o céu azul que nem consigo ver bem por causa do sol que me ofusca. Essa areia sob meus pés, esse cheiro de sargaço, vontade de comer peixe frito com cerveja. Estou só agora, porque quero. Quando desejo, procuro minha turma e converso, ouço suas vozes, sei das notícias, combino  encontro para a noite. Como é que eu não existo? Meus amigos vão dizer: sai dessa, cara, tu existe, sim, isso é coisa de maluco, vai ficar encucada com uma parada dessas? Aí eu vou dizer que existir não é só poder falar, ver, abraçar, pode querer dizer outra coisa mais abstrata que eu ainda não sei explicar. Eu preciso entender porque se for verdade sou capaz de enlouquecer. Serei apenas uma ilusão, uma personagem fictícia? Quem me criou, eu mesma? Se eu me criei quer dizer que eu existo e aí volta tudo à estaca zero. Como uma pessoa pode pensar que não existe? Se pensa, existe, já dizia o filósofo. A questão talvez seja outra, esses caras nunca falam claramente, por exemplo: se uma mulher parir uma menina numa ilha deserta, morrer no parto, as ondas levarem o cadáver e a menina sobreviver – o que é terrivelmente improvável mas é só para raciocinar – a menina não vai existir para os outros porque os outros estão longe dali. Ela não vai saber quem é nem o que é porque isso a gente aprende vendo os outros e falando com eles. Mas é uma exceção muito doida que eu inventei. Eu vivo no meio da minha turma de amigas, não vou sozinha nem ao banheiro. É verdade que, às vezes, mesmo estando com elas eu me sinto sozinha, com a sensação de que não vou poder contar com o grupo para discutir algum assunto. Acho que os homens são mais solidários e nós, solitárias. Mas daí dizer que eu não existo é outra coisa. E elas, existem? Se eu perguntar, cada uma vai dizer que existe e perguntar se eu bebi. Elas existem, sim, cada uma com um nome, uma cabeça, um corpo, um jeito de ser. E eles também, da mesma forma, embora com suas manias de torcer por um time de futebol, pensar em sexo o tempo todo e querer mandar em nós, mulheres. Eles nos tratam como se fôssemos crianças; querem nos ensinar o tempo todo, a dirigir o carro, a dançar, a usar o computador, a TV, o tablet, o ifone… Sei não, eu preciso de um homem para ter filhos, me apoiar, fazer o que eu não tenho força para fazer, matar baratas, mas não quero ser mandada por ele. Quero que ele me console quando eu chorar, que ele me defenda quando me agredirem e nunca se interesse por outra mulher. Já entendi porque é que os homens traem mais do que nós. É porque o que nos excita é a conversa deles, é o que eles dizem, e eles não andam o tempo todo falando aos nossos ouvidos enquanto o que os excita é ver o nosso rosto, nossos seios, nossa cintura, nossa bunda, nossas coxas, enfim, nosso corpo, e tudo isso eles estão vendo o tempo todo, coberto ou não. Então, nós somos assediadas apenas quando eles nos dão uma cantada, dizem algum galanteio que às vezes é de bom gosto e outras é grosseiro, e eles são assediados o tempo todo porque basta nos ver de biquine ou mesmo de roupa justa, shorts, minissaia, decotes, animam-se, o organismo começa a reagir e partem para cima de nós. Há algo de hipócrita em nosso comportamento. Fazemos de conta que não estamos desejando nada, apenas andar na moda, não é verdade. Sabemos que a excitação deles se dá pela visão, não precisamos dizer nada para impressioná-los, basta mostrar algum pedaço do nosso corpo. Veja só aonde cheguei. Se for assim, as muçulmanas têm razão com suas burcas, Deus me livre, que contradição. Aqui, andamos seminuas e os homens se controlam, não nos atacam a toda hora; nos países islâmicos, as mulheres têm que andar cobertas para não sofrerem agressões. As mesquitas estão cheias de homens loucos por sexo, rezando com medo do Inferno. Com toda a nossa devassidão, somos menos hipócritas do que eles lá no Oriente. Acho o Islamismo pior do que o Cristianismo, este pelo menos ninguém leva a sério, cada um interpreta como quer já que as igrejas são totalmente desmoralizadas. Mas, enfim, a mulher existe ou não? O homem existe, a mulher, não. É isso? Quando digo “o homem” estou designando todos os homens; quando digo “a mulher” não posso estar me referindo a todas as mulheres senão a uma só. Por quê? Sabe o que eles dizem? Que o homem tem como ser representado – por seu pênis. A mulher, não, porque não tem nada onde o homem tem o pênis. Quem tem com que se representar, existe; quem não tem, não existe, pronto, voilà. Só não sei dizer por que é que dois peitos bem na frente do nosso corpo não servem para nos representar se são até chamados de “comissão de frente”. E eles, os homens, não têm nada no tórax. Gosto da expressão “peito de homem” para designar uma coisa que não serve para nada, por exemplo, trema, letras duplas como em Mello, Motta; o cargo de primeira dama; o parlamento numa ditadura e assim por diante. Então, se Lacan fosse mulher, teria dito “o homem não existe, porque não tem seios, não tem representação”. Será que iam dar crédito a isso? Acho difícil, muito difícil. Iam dizer que Lacan era maluca, que eles não tinham peitos, mas tinham pênis. Eu, por mim, faria um acordo: vocês existem, porque têm pênis; e nós também, porque temos seios. Isto seria mais sensato do que dizer: o homem existe; a mulher, não. E ainda completam: a mulher só existe uma a uma, na sua solidão, cada uma tem que se inventar. Isso lembra a Simone de Beauvoir: “não se nasce mulher”… Será que ela era trans? Por aquela foto em que ela aparece nua, mesmo de costas, não parece não. E naquele tempo não havia essa cirurgia nem silicone. Aquela ali nasceu mulher, é o que eu penso, voilà. Mas enfim, chega, já peguei meu bronze, pode ser que outra hora eu encontre alguém que dê uma luz para clarear essas ideias, saber se eu existo ou não.

                 Durante o resto das férias, boa parte de cada dia foi dedicada a visitar outras pousadas, consultas à polícia, indagações a todos os grupos de jovens, passeios a praias vizinhas em que o caderno era mostrado, tudo, tudo foi feito numa busca inútil, sem o acréscimo de nenhuma pista, nenhum sinal. Fernando e os pais, lamentando o fracasso de seus esforços, fizeram as malas e regressaram a São Paulo com a justa dúvida sobre a existência da dona do caderno levado como lembrança de um verão.

 

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