O espelho

Na última quarta-feira iniciamos a leitura de O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica, de Jacques Lacan, no grupo de Arte e Psicanálise que funciona no Traço sob a coordenação do psicanalista Everaldo Soares Júnior.

Durante a leitura, como é frequente ocorrer,fomos buscar amparo na Literatura para melhor entendimento da parte teórica. A nossa colega Adelaide lembrou-se de um poema de Sylvia Plath e Everaldo Júnior de um poema Borges. Sonua Sarmento enviou um poema de Cecília Meirelles. Ei-los:

MIRROR

     SYLVIA PLATH

I am silver and  exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful —
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching  my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish

     (23 October 1961)

ESPELHO

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, desembaçado de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, desbotada. Há tanto tempo olho para ela
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ela falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.

Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vem e vai.
A cada  manhã seu rosto repõe  a escuridão.
Ela afogou uma  menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.

   .  

 

OS ESPELHOS
Jorge Luís Borges

Eu que senti o horror dos espelhos Não só perante o vidro impenetrável Onde acaba e começa, inabitável, Um impossível espaço de reflexos
Mas ante a água especular que imita O outro azul em seu profundo céu Que sulca o ilusório vôo, ao léu,
Da ave inversa ou que um tremor agita
E ante a superfície silenciosa
Do ébano sutil cujo fulgor
Repete como um sonho o alvor
De um vago mármore ou uma vaga rosa,
Hoje, ao fim de tantos e perplexos Anos errando sob a vária lua, Pergunto-me que acaso da fortuna Fez com que eu temesse os espelhos.
Espelhos de metal, emascarado Espelho de caoba que na bruma De seu rubro crepúsculo esfuma Esse rosto que olha e é olhado,
Infinitos os vejo, elementais Executores de um antigo pacto, Multiplicar o mundo como o ato Generativo, insones e fatais.
Prolongam este inútil mundo torto
Na vertigem de seus emaranhados; São às vezes de tarde embaçados
Pelo alento de alguém que não está morto.

 
O vidro nos espreita. Se entre as quatro Paredes do quarto existe um espelho,
Já não estou sozinho. Há outro. Há o reflexo Que arma na aurora um sigiloso teatro.
Tudo acontece e na memória é perda Dentro dos gabinetes cristalinos Onde, como fantásticos rabinos, Lemos livros da direita à esquerda.
Cláudio, rei de uma tarde, rei sonhado, Não sentiu que era um sonho até o dia Em que um ator mimou sua felonia Com arte silenciosa, em um tablado.
Que haja sonhos é estranho, que haja espelhos, Que o usual e gasto repertório
De cada dia inclua o ilusório
Orbe profundo que urdem os reflexos.
O empenho de Deus (eu penso) assombra, Com essa inapreensível arquitetura
Que edifica a luz com a brunidura
Do cristal e, com o sonho, a sombra.
Deus inventou as noites que se armam De sonhos e as formas do espelho Para que o homem sinta que é reflexo E vaidade. Por isso nos alarmam.

 

Retrato

“Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?”

Cecília Meireles

2 ideias sobre “O espelho

  1. Pingback: Mirror by Sylvia Plath « Views from Apipucos

  2. Que poema maravilhoso de Plath! A palavra “preconceptions” não pode ter o sentido comum de “preconceito” em português, que seria “prejudice”. O espelho, então, é neutro, objetivo, reflete aquilo que lhe está apresentado: o peixe terrível.

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