O Vermelho e o Negro

O Vermelho e o Negro

*Luzia Ferrão

Que nossa visão está assentada em nossas experiências, na herança genética e no mundo que nos rodeia, todo mundo sabe, mas sempre que nos deparamos com o novo, aflora  o sentimento de que ainda existe universos paralelos e desconhecidos aos nossos.

Participando de um  exercício de leitura do livro O Vermelho e o Preto, de Stendhal, na Oficina de Criação Literária Clarice Lispector, achei incrível os relatos dos colegas que recorriam, nas suas interpretações, às formas de leitura para explicar o conteúdo. Quem estava narrando era o próprio autor ou ele estava utilizando o recurso de um narrador? Este tipo de duvida não é comum ao simples leitor. O grupo caracteriza-se por pessoas que se dedicam ao  estudo profundo do pensamento literário através de  alguns dos seus maiores e melhores  representantes.

O interessante, muito interessante desta experiência foi que, à medida que  o texto ia  escoando, ficava claro que algumas de minhas referências não estavam presentes nas do  grupo ( ainda bem!). As referencias acadêmicas, via de regra, são construídas com um foco determinado pelo saber que está sendo  estudado. Nesta perspectiva, no estudo  voltado para a análise de textos literários, parece que o movimento privilegia  a obra do autor; o entendimento se faz a partir dos diferentes modelos, existentes na literatura mundial, e a contribuição singular por ele construída. Em outras palavras; a análise literária é uma aventura através dos  diferentes estilos , apresentados pelos diferentes autores, com vista ao reconhecimento do valor e das grandezas de suas obras.

O texto começa falando de uma pequena vila no interior da França, que atravès do uso do motor movido a água, inicia um processo de desenvolvimento econômico. Esta é a historia dos primórdios da revolução industrial, que vai estabelecer um novo tipo de poder. O poder centralizado nos feudos, arrodeados de muros, simbolo dos limites do Senhor Feudal vai dar vez às cidades, cujo poder, como diz Foucault, é invisível. Os muros, em Stendhal, ainda existem, porém são proporcionais a uma provável ruptura: baixos, perigosos ( as crianças podem brincar em cima deles, mas, segundo a guardiã da família, correm o risco de cair).

O chefe politico e os proprietários dos meios de produção, bem ao gosto de Marx,- são os donos do poder (minha tradução), embora ainda invisível, cinzento; cinza é uma cor indefinida.

Ao longo da história o poder vai  assumindo diferentes configurações. Stendhal, provavelmente sofre os impactos da época  e a   retrata conforme sua visão de mundo.

A invisibilidade do poder neste autor, é provavelmente um golpe de mestre, considerando que a existência  do mercado como “o locus do poder moderno”  vai  carecer de alguns séculos para se tornar representação.

Outro ponto super interessante diz respeito à divisão do trabalho intelectual e braçal. O homem  só  criou o mundo da cultura muitos e muitos séculos depois do seu surgimento na terra, na verdade, o crucial para os nossos parentes era pegar, matar e comer para sobreviver. Nesta perspectiva, o que havia para ser mais valorizado? A força braçal e a coragem. Alguns homens, destaque para os gregos, aprimoraram formas de pensar, que embora presente em todos os homens, dispunham de condições diferenciadas. A liderança , um dos principais fatores para a organização dos homens em geral, parece ter sido um destes elementos necessários para impulsionar o pensar humano.Ora,tenho casa, comida e roupa lavada posso me dar ao luxo de me deliciar “vendo e ouvindo estrelas”!Pobre do meu irmão morto de cansado, muitas vezes indo dormir com fome,pensa e sonha com um bife de dinossauro! Quanta diferença!

Stendhal  trabalha esta dicotomia de forma tão clara a ponto de destinar ao intelectual, cacete! Julien Sorel que o diga. É a conduta do chefe de família para com aqueles considerados inúteis, que não prestavam para nada!

Traiçoeiramente, a história vai  privilegiar este tipo, que inicialmente em O Vermelho e o Negro, obra ora analisada, vai servir muito mais para entreter crianças bagunceiras a troco de um salário, mais casa comida e vestuário.

No desenvolvimento da historia, Stendhal vai aprofundando estes e outros conceitos e, vivificando personagens e realidade

  • Luzia Ferrão – professora universitária, amante da literatura, iniciou na Oficina em 2014.

6 ideias sobre “O Vermelho e o Negro

  1. Obrigada Cristiane, acredito que precisamos investigar, conhecer e denunciar
    as desigualdades que sempre marcaram as sociedades humanas. Falar do passado e situar no presente , por exemplo a fome, é uma forma de contribuir para tentar desmascarar discursos e praticas mentirosas e manipuladoras.
    Stendhal faz este processo com maestria.

  2. Belo texto Luzia! O poder ainda que velado, é sempre uma manifestação do que é o homem em seus valores e essência. É com poder nas mãos que se revelam estas características e como elas poderão ser sedimentadas ou transformadas.
    Muito bom também foi sua percepção de “poder pensar” quando se tem comida e teto. Aos que usam mais os músculos do que os neurônios fica o desafio de transcender esta condição e buscar, ainda que minimamente, o a porta de saída deste cenário, o conhecimento.

    • Muito bom, um dos melhores eu diria, o olhar dirigido para o enfoque social da época do romance. Texto enxuto, claro, sem se deixar levar pela armadilha de revelar conhecimento, você vai dissecando o que se esconde nas entrelinhas da narrativa, feito cirurgião experiente que
      leva o bisturi por entre os meandros do cérebro, sem lesionar os tecidos. Lamento que não haja se estendido mais esse pequeno ensaio, senti que a narrativa parou meio que abruptamente ou foi a minha vontade de ler que ficou insatisfeita? Parabéns, amiga.

      • Obrigada Edna
        Gostei do comentário, acredito que você entrou em sintonia com o que desejava expressar. Quanto a “parada abrupta” outras analises estão “no prego”. O livro é muito rico e muitas coisas já forem analisadas , neste dois séculos, por isso não vale a pena repetir. Busco o impossível: o inusitado.
        Um abraço
        Luzia Ferraõ

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