Segunda-feira, dia de poesia

Poesias para  Adelaide, amiga querida, que diz ser segunda-feira  o dia de poesia.                     

A BONITA RUIVA

(Guillaume Apollinaire)

 
Eis-me aqui diante de todos um homem cheio de sentido
Conhecendo da vida e da morte o que um vivo pode conhecer
Tendo provado as mágoas e as alegrias do amor
Algumas vezes tendo sabido impor suas idéias
Conhecendo diversas línguas
Tendo viajado um pouco
Visto a guerra na Artilharia e na Infantaria
Ferido na cabeça trepanado sob clorofórmio
Tendo perdido seus melhores amigos na pavorosa luta
Sei do antigo e do novo tanto quanto um homem só poderia saber.

E sem preocupar-me no dia de hoje com esta guerra
Entre nós e para nós meus amigos
Julgo essa longa querela entre tradição e a invenção
Entre a Ordem e a Aventura.

Você cuja boca foi feita à imagem da boca de Deus
Boca que é a própria ordem
Seja indulgente ao comparar-nos
Aos que foram a perfeição da ordem
Nós que por toda parte buscamos a aventura
Não somos inimigos
Queremos obter vastos e estranhos domínios
Onde o mistério se oferece a quem deseja colhê-lo
Aí existem chamas novas e cores jamais vistas
Mil fantasmas imponderáveis
Aos quais é preciso dar realidade
Queremos explorar a bondade enorme país onde tudo se cala
Existe ainda o tempo que se pode expulsar ou trazer de volta
Piedade para nós que sempre combatemos nas fronteiras
Do ilimitado e do futuro
Piedade para os nossos erros piedade para os nossos pecados
Eis de volta o verão a estação violenta
E a minha juventude está morta como a primavera
Ó sol eis o tempo da Razão ardente.

E espero
Para segui-la sempre a forma nobre e doce
Que ela assume a fim de que eu a ame exclusivamente
E tem a aparência encantadora
De uma ruiva adorável.

Seus cabelos são de ouro dir-se-ia
Um bonito relâmpago que pendurasse
Ou a pavana destas chamas
Na rosa-chá que se fana.

Mas riam riam de mim
Homens de todos os lugares gente daqui sobretudo
Porque há tantas coisas que não ouso dizer-lhes
Tantas coisa que vocês não me deixariam dizer
Piedade de mim.

O POVO CONTINUARÁ

(Carl Sandburg)

                        O povo continuará
Aprendendo ou fazendo loucuras o povo continuará.
Será logrado, vendido e revendido
e voltará à mãe-terra para nutrir suas raízes.
O povo é tão bizarro ao progredir e regredir,
que não podemos rir de sua capacidade de topar a parada.
O mamute descansa entre os seus dramas ciclônicos.

O povo tantas vezes indolente, cansado, enigmático,
é um vasto amontoado de indivíduos a falar:
“Vou ganhando a vida.
Faço o que é preciso pra ir levando
e isso me come o tempo todo.
Se eu tivesse mais tempo
podia fazer mais pra mim mesmo
e talvez pros outros.
Podia ler e estudar,
discutir as coisas,
descobrir certas coisas.
Mas isso toma tempo.
Ah, se eu tivesse tempo!”

O povo tem duas caras, uma trágica, a outra cômica:
herói e desordeiro: espectro e gorila,
geme com sua boca torta de gárgula:
“Eles me compram e me vendem… não passo dum jogo…
um dia eu me solto…”

Depois de haver ultrapassado
as margens da necessidade animal,
a linha feroz da mera subsistência,
o homem chegou afinal
aos ritos mais profundos de seus ossos,
às luzes mais leves que os ossos,
chegou ao tempo de repensar as coisas,
à dança, à canção, ao conto,
chegou às horas doadas ao devaneio,
depois de ter ultrapassado a linha.

Entre as numeráveis limitações dos cinco sentidos
e os anseios infindos do homem pelo eterno,
o povo se agarra ao chato imperativo
de trabalhar e comer, enquanto faz um gesto,
quando se apresenta a ocasião
para as luzes além da prisão dos cinco sentidos,
para dádivas mais duradouras que a fome
ou a morte.
Esse gesto mantém-se vivo.
Proxenetas e mentirosos o violaram e enxovalharam.
Mas continua vivo esse gesto
estendido às luzes e às dádivas.

O povo conhece o sol do mar
e a força dos ventos
que chicoteiam as esquinas da terra.
O povo vê a terra
como a cova do descanso e o berço da esperança.
Quem mais fala em nome da Família Humana?
O povo anda afinado
com as costelações da lei universal.
O povo é policromia,
espectro e prisma,
apresado num monólito que se move,
um órgão a soar temas cambiantes,
clavilux de poemas coloridos
nos quais o mar oferece névoa
e a névoa se dissipa em chuva
e o poente do Labrador se reduz
a um noturno de estrelas limpas,
sereno, acima do jorro em chuveiro
das luzes boreais.

O céu das usinas de aço está vivo.
O fogo irrompe em branco ziguezague
detonado dum crepúsculo metálico.
O homem está vindo atrasado.
O homem contudo vencerá.
Irmão pode ainda marchar ao lado de irmão:
esta velha bigorna se ri de muito martelo partido.
Há homens que não se vendem.
Quem nasce no fogo, vive bem no fogo.
Estrelas não fazem barulho.
Ninguém pode segurar o vento.
O tempo tudo ensina.
Quem vai viver sem esperança?

Na escuridão, com um grande fardo de aflições,
o povo marcha.
Na noite, com uma pazada de estrelas no alto,
para sempre o povo marcha.

“Pra onde? Mais o quê ainda?”

 

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