Os céus estão escuros, mas as estrelas permanecerão.

Tudo passa – sofrimento, dor, sangue, fome, peste. A espada também passará, mas as estrelas ainda permanecerão quando as sombras de nossa presença e nossos feitos se tiverem desvanecido da Terra. Não há homem que não saiba disso. Por que então não voltamos nossos olhos para as estrelas? Por que?

            *MIKHAIL BULGAKOV, O exercito branco

Navegantes,

é chegada a hora de aportarmos após mais uma longa viagem pelo vasto e misterioso mundo das letras.

Longa e difícil travessia…

Cheguei a temer que não chegaríamos ao seu término, tantos mares revoltos, tantas tempestades. Manteve-nos na rota o fato de não sermos apenas marujos de navegação de cabotagem. A audácia da navegação por mares estrangeiros deu-nos a couraça para seguir em frente sem largar o leme, movidos pela certeza de que as estrelas continuavam lá encobertas pelas sombras da noite que atravessávamos, e se fechássemos ouvidos para os cantos das sereias e erguêssemos olhos para os céus, os nossos marujos-estrelas Júnior e Adelaide certamente continuariam ali para nos iluminar.Como foi difícil essa jornada sem vocês, minhas estrelas guias!

Outros viageiros atracaram para dar à luz vida nova, como a nossa viageira Diva Helena, ou para ajudar a sua cria a fazer isso, feito Luzia. Não guerreamos para ter Diva de volta, o seu Páris a merece bem mais do que nós, mas guardamos o seu lugar com muito carinho, para quando ele lhe permitir voltar. Luzia está chegando ao fim da sua linda missão, outras viagens quem sabe já contaremos com ela. A maruja Teresa partiu num foguete para curtir novo amor nas serras das Minas Gerais, e cá ficamos a tocar as nossas cítaras para alegrar Eros e assim ele manter para sempre a sua felicidade. A navegante Monica está voltada para parir seu filho-livro e nós reverenciamos muito esse momento, enquanto aguardamos seu retorno.

Alguns viageiros não fizeram boa viagem pela saúde abalada, o coração triste e nós ficamos mal por isso, mas concentraremos sempre as nossas energias, os nossos pensamentos para eles, para que voltem aos seus melhores dias com a força do motor de popa do nosso amor.Salve, Teresinha! Salve, César!

Alguns partiram silenciosamente, quem sabe cansados do cheiro de maresia, quem sabe ansiosos pelo cheiro de casa, mesmo respeitando tais decisões, guardamos a esperança de um dia eles voltarem à nossa embarcação.

Apesar do peso esmagador das ausências, seguimos em frente porque os marujos que ficaram são muito bons navegantes, salve Salete, Salomé, Eleta, Paulo Tadeu, Cacilda, Teresinha,Cesar e eu, não arrefecemos o amor e a vibração pela viagem.
E foi uma longa e profícua jornada.

42691740A carta de navegação amarrotada tantas vezes pelo seu traçado incerto levou-nos à Irlanda com Os Mortos, de James Joyce. O cenário da narrativa é uma ceia de Natal, o personagem principal, Gabriel Conroy deixa transparecer em todos os seus diálogos e fluxos de pensamentos grande desencanto com a sociedade, total estranhamento diante das pessoas e dele próprio. O conflito maior da trama acontece quando ele e a esposa já se encontram no hotel e Gabriel vê fracassada a sua expectativa de uma noite de amor, diante da revelação de Gretta de que a música que ela ouvira no final da festa trouxera-lhe lembranças de um jovem que amou na adolescência e que morrera por sua causa ao se deixar ficar ao relento numa noite de chuva porque ela iria partir no outro dia e ele já não queria mais viver sem ela. Uma semana depois da sua partida, chega a notícia de que ele morrera. Gabriel atordoado com a força dessa revelação e com a dureza do desencontro para uma noite tão esperada, dirige-se à janela em silêncio. A magia da neve caindo intensamente, as rememorações de momentos excitantes do casal o haviam feito antecipar noite luxuriante, sequer a luz das velas ele permitira que o empregado do hotel trouxesse, deixando apenas as luzes dos lampiões da rua quebrarem a escuridão da madrugada. Todo o seu desejo ardente se fora com a presença da lembrança daquele jovem morto.

Mais tarde, enquanto a esposa dorme, ele continua a refletir, e as lágrimas começam a se acumular mais densamente em seus olhos e ele pensa estar vendo a silhueta do jovem embaixo de uma árvore, numa das cenas mais belas do conto:

Outras silhuetas estavam próximas. Sua alma havia se aproximado daquela região por onde vagam os vastos anfitriões dos mortos. (…) A neve caía, também, sobre todas as partes do cemitério solitário na montanha onde Michel Furey estava enterrado. Ela espalhava-se densamente sobre as cruzes tortas e os túmulos, as pontas do pequeno portão, os espinhos estéreis, A alma de Gabriel desmaiou devagar enquanto ele ouvia a neve caindo levemente sobre todo o universo e levemente caindo, como a descida ao seu fim derradeiro, sobre todos os vivos e os mortos.

Os Mortos, embora faça parte da coletânea de contos do livro Dublinenses, é um conto que devido a sua grandeza tem sido publicado de forma isolada por grandes editoras. Assistimos na Oficina o filme baseado na obra do cineasta John Huston, Os Vivos e os Mortos, uma espécie de homenagem a James Joyce feita por ele que era profundo admirador seu.

42235675Também fizemos a leitura de outra obra da língua inglesa, agora do norte americano naturalizado inglês, Henry James., A Lição do Mestre. Paul Over, escritor iniciante, cultiva profunda admiração por Henry St. George, escritor renomado, cujas obras recentes vêm revelando perda de qualidade literária. O triângulo se forma com Marian, jovem apaixonada por Literatura, que fala com muito entusiasmo do livro de Paul Over a St. James que, embora casado, parece estar apaixonado pela jovem, que parece estar começando a se envolver com Paul Over, tudo muito sugerido, nada muito explícito. St. James convida Paul Over à sua casa e após elogiar profundamente a sua escrita, vaticina futuro brilhante para ele na literatura desde que se dedique inteiramente à sua arte. Eis um trecho da excelente resenha postada no blog por Cacilda Portela, viageira e resenhista de primeira linha; que dá a dimensão da lição do mestre:

Depois de ter lido uma pequena parte da obra do jovem escritor, St. George vai até ele e afirma que o jovem é mesmo surpreendentemente bom; e que precisa realmente manter o nível como escritor. Confessa ao jovem seus sentimentos, medos e anseios e lhe apresenta sua Lição de Mestre: “…Não se transforme  no que me transformei na velhice: o exemplo de quem cultuou os deuses do mercado, dinheiro, luxo, a sociedade, a mulher, os filhos… A!h! as coisas mesquinhas que nos obrigam a fazer. Uma perdição do ponto de vista da arte. O artista nada tem a ver com o relativo, deve ter afinidade apenas com o absoluto. Não poderá fazer alguma coisa realmente boa sem sacrifício.  Fazer algo, e algo que seja divino é a única coisa em que o artista tem que pensar”. Ou desistir da ideia de perfeição. Paul responde “não; eu sou um artista – não há como evitar”.

Paul Over após ouvir o seu pai-poético não titubeia, determinado pela arte, assume a solidão e parte da Inglaterra, deixando Marian sem muitas explicações. Meses depois, toma conhecimento da morte da esposa de St. George, a quem conhecera no mesmo dia em que fora apresentado a Marian. Quando volta, toma conhecimento de que St. George e Marian estavam de casamento marcado. Ele começa a se dar conta de que foi alvo de um golpe de mestre do seu pai-poético..

Montaigne-Os-ensaiosEntre essas duas obras foram lidos Os Ensaios de Montaigne, motivados pelo interesse de conhecer o mestre desse modelo de escrita. Muito bons ensaios foram lidos, entre eles, A força de Imaginação, Solidão e Sobre os Canibais. A publicação da Penguin com tradução e notas de Rosa Freire D’Aguiar está muito boa e se baseia na edição póstuma de 1595, a mesma que serviu de base para a Gallimard publicar em 2007. Além de divertidos pela forma como Montaigne apresenta as suas teses “muito pessoais”, são textos reflexivos que permitem viajar pelo mundo das ideias e ideais com muito prazer. O mais importante, contudo, foi a desmistificação do ensaio enquanto modelo acadêmico. O ensaio de Montaigne não tem compromisso com a verdade, a cientificidade, o saber intelectual ou a historicidade. Para ele é apenas a oportunidade de expressar seus pensamento sobre o assunto que lhe interessa e estimula.

download (1)A terceira obra que foi lida este ano, Os Moedeiros Falsos, de André Gide, datada dos anos 20, época da efervescência nas artes, na literatura, na cultura em geral traz muitas inovações tanto em termos de técnicas como de forma. Mais uma vez eu recorro a Cacilda Portela que a resenhou para dizer que o romance traz o contraponto entre o mundo real e a representação que é feita dele, cria o falso como impossibilidade de compreensão de si mesmo e do outro. “E o drama da vida consiste na maneira pela qual o mundo real se impõe a nós e a maneira pela qual tentamos impor ao mundo exterior a nossa interpretação particular”.
Parece um romance experimental onde o novo e o velho convivem harmoniosamente. Fazendo uso de recursos modernistas, o mise–en-abyme, termo utilizado pela primeira vez por André Gide para explicar a narrativa dentro da narrativa (narrativas encaixadas). O leitor se perde algumas vezes, não sabe qual dos romances está lendo, se o de Édouard ou se a narrativa que o envolve, duas histórias totalmente ligadas entre si, uma contendo a outra. São cartas, diários, ensaios, monólogos e diálogos diretos e indiretos que tornam a leitura senão excitante porque os personagens não criam cenas fortes, à exceção da cena da morte de Bóris, mas certamente rica em termos do aprendizado do fazer literário. Verdadeiro caleidoscópio ou quebra cabeça com uma quantidade enorme de personagens que dão voltas às nossas cabeças para construirmos suas árvores genealógicas, tarefa que nos foi facilitada por Adelaide que as encontrou na web e foram redesenhadas por Mônica.

O narrador de Os Moedeiros Falsos ora posa de onisciente, invadindo os pensamentos e sentimentos mais profundos dos personagens, ora é apenas um observador inocente, dizendo não saber sequer se o personagem jantou ou não. Esse primeiro narrador, sempre na terceira pessoa, quebra o pacto de confiança com o leitor, porque não lhe dá certeza de nada. O segundo, ora na primeira pessoa do singular, ora na primeira pessoa do plural tenta criar um relação com o leitor baseada na cumplicidade, como se ambos estivessem vendo aquela história juntos pela primeira vez e está tão surpreso quanto ele com o desenrolar da história. Ele não posa de senhor sabe tudo, pelo contrário, declara muito ousadamente que sequer sabe se o personagem jantou ou não aquela noite, entre muitas outras dúvidas. Aqui e ali ele toma partido, aparece, se compromete com algumas críticas, cria cumplicidades ao fazer afirmações usando com desenvoltura o nós.

André Gide escreveu um diário para ajudá-lo na escrita de Os Moedeiros, para ir amarrando e desamarrando as linhas e a tal ponto foi importante essa escrita que ele chegou a considerar que estava mais interessado no diário, nas ideias que ali apresentava para o romance do que mesmo em escrever a sua obra. E confessou que se debatia muito contra a tentação de colocar tudo que sabia em Os Moedeiros, daí os ensaios existentes na obra que muitas vezes chegávamos a dizer, aqui André Gide está exibindo os seus pontos de vista:

…seria uma loucura , sem dúvida, agrupar num só romance tudo o que a vida me ensina e me apresenta. Por mais denso que eu pretenda esse livro, não posso incluir tudo nele. E é no entanto esse desejo que ainda me embaraça.

Para conter o desejo de colocar tudo no romance, André Gide usou o diário para tentar identificar os elementos de tonalidades demasiados diferentes, discrepantes. Mesmo assim, como bem diz Cacilda Portela, o romance não tem um tema predominante que se concretize na ação, permitindo variações, desvio ensaístico que ele não quis ou não conseguiu evitar. Outro fator importante que se observou em Os Moedeiros Falsos é a relação estreita entre a ficção e a biografia do autor.São muito evidentes os traços biográficos. Em seu diário, André Gide diz que criaria um personagem que diria tudo que ele gostaria de dizer. No caso, o escritor Édouard.

Os Moedeiros Falsos é um livro grandioso não apenas pelo tamanho, mais de quatrocentos páginas, também pelas suas qualidades técnicas e literárias. Valeu a pena a jornada.

Além das leituras incríveis que foram feitas, trabalhamos também técnicas literárias relativas ao ensaio e à estrutura actancial das narrativas. Esta última foi fundamental para o desenvolvimento da outra pilastra da Oficina: a nossa escrita.

O nosso projeto de escrita desse ano foi ambicioso, mas não impossível. Decidimos elaborar um romance coletivo Se não conseguimos terminá-lo, não era o nosso propósito, quase encerramos a primeira parte. Desenvolvemos um roteiro baseado em três momentos fundamentais da narrativa,: Introdução ou Momento 1, Desenvolvimento ou Momento 2, Conclusão ou Momento 3, com as suas respectivas estruturas actanciais bem definidas. A discussão ajudou-nos a definir tempo narrativo diferentes, cenários rural e urbano e todos os actantes envolvidos no conflito como protagonistas ou auxiliares. Para que os estilos fossem respeitados adotamos modelo similar ao de William Faulkner em Enquanto Agonizo, em que cada capítulo é dedicado a um personagem, permitindo as mudanças de estilos sem dissonância do seu todo.

O primeiro Momento do romance está praticamente concluído. Ele foi desenvolvido por três oficineiros: Paulo Tadeu, Salete Oliveira e eu. A minha parte é a única ainda incompleta, mas ela estará sendo fechada logo, logo. No inicio da elaboração do personagem Jeremias, a nossa viageira Teresa ainda estava conosco e havia participado, mesmo com a sua total permissão para recriar o personagem Paulo Tadeu manteve alguns traços fundamentais do seu perfil.

Deu-me prazer imenso vê a qualidade da escrita realizada pelos meus parceiros, a riqueza dos detalhes contribuindo fundamentalmente para dar verossimilhança à história que estava sendo contada. Os fluxos de consciência, as características dos personagens, os cenários, os flashs backs , os tempos narrativos se alternando entre passado e presente foram escritos com o rigor próprio dos artesãos das palavras experientes e sensíveis.

O Momento 2 e o Momento 3 serão desenvolvidos no próximo ano por Luzia, Salomé, Paulo Tadeu, Eleta, Cacilda que já estão pensando em seus roteiros. Participantes do Momento 1 voltarão com os seus personagens, como Salete e eu,.

Em 2015 criamos o Momento Poético que inicia as oficinas a cada semana e o Carrossel de Livros para a nossa feira de troca de livros.

O Momento Poético aconteceu por uma sugestão de Paulo Tadeu, marujo experiente pelos mares das palavras, mas carente de poesia igual a todos nós. Tão importante foi a criação desse momento que ele passou a ocupar tanto tempo dos nossos trabalhos da Oficina que tivemos de interromper agora nos últimos dias sob pena de não concluirmos a nossa leitura de Os Moedeiros Falsos, de André Gide.

Vários poetas tiveram as suas poesias lidas: Charles Baudelaire, Luís Camões, Sylvia Plath, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoa, Sophia Brayner, Murilo Mendes Campos ,Carlos Pena Filho, Vinicius de Moraes, Mario Quintana, Cecília Meireles, Affonso Romano de Sant’Anna, Paulo Leminsky, Calderon de La Barca, Manoel de Barros, Daniel Lima. Alguns voltaram mais vezes, como Fernanco Pessoa, Vinícius de Moraes e Carlos Pena Filho.

Estão no blog todos os poemas lidos nas quartas-feiras, além de dados biográficos dos poetas, vídeos com entrevistas e poemas. Como eles o enriqueceram! Este ano o blog foi revitalizado não apenas com os poemas ali postados, mas com a produção de poemas e ensaios dos nossos escritores: Eleta Ladoski, Salete Oliveira, Luzia Ferrão, Cacilda Portela, Salomé. Agradecimento especial a Adelaide que trouxe e leu muitos poesias para nós, além de endereços eletrônicos de poemas primorosos, como o do vídeo com poema lido por Sylvia Plath.

O Carrossel de Livros foi outra criação do final de 2015 que surgiu da leitura de um poema de Paulo Leminsky. Ao ler a sua biografia, descobri que ele havia traduzido Pergunte ao Pó, de John Fante e o título me interessou. Paulo Tadeu que era um leitor antigo de John Fante mo emprestou e eu gostei tanto que quis ler outro livro do autor: O Vinho da Juventude, de contos, muito interessante. Surgiu-me a ideia de iniciar na Oficina essa troca de livros, vez que os viageiros e viageiras têm boas bibliotecas. O nome Carrossel de Livros foi dado por Salete, a nossa oficineira- poeta, muito apropriado. Graças ao Carrossel de Livros conheci autores que há muito desejava conhecer e outros que sequer imaginara ler um dia. No primeiro caso Joyce Carol Oates e Roberto Bolaño; no segundo, Ivo Ándrítich e Modiano. Apesar do curto espaço de tempo, quase trinta livros já passaram pelo carrossel, demonstrando que a nossa iniciativa bem criativa e oportuna, diante da escassez do dinheiro, mais do que isso, tirou das bibliotecas livros importantes que estavam ameaçados pelo mofo e esquecimento. Agora eles circulam alegremente pelo carrossel e saem para passear e alegrar as nossas vidas.

É tempo de aportar, como eu disse no início. O balanço final traz de volta as emoções da viagem! Feliz Natal a todos. Que em 2016 os céus estejam limpos e os mares mansos, são os meus maiores desejos.

Jaboatão dos Guararapes, 15 de dezembro de 2015
Lourdes Rodrigues

  • Epígrafe retirada do livro O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia da Depressão, de Andrew Solomon.,

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