Os Moedeiros Falsos: Um Romance de Ideias

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**Cacilda Portela

O Tema

A história dos Moedeiros Falsos é narrada, quase sempre, através de conversas e monólogos interiores, o que evidencia uma ficção que não vive do enredo, mas da vida interior dos personagens. São as ideias que encaminham as ações e o movimento.

O romance não tem um tema predominante que se concretize na ação. Não há uma ideia global que sustente o planejamento e a ação. Os temas ou as histórias são relativamente simples, mas construídos por ideias particularmente elaboradas e muito engenhosas. As histórias dos personagens se interligam criando a história do romance. Ou melhor, as ideias criam os personagens e o romance.

O romance tem um tema profundo. A luta entre os fatos propostos pela realidade e a realidade ideal ou a luta entre o que o mundo real oferece e o que é feito com a ideia que se tem dele. A oposição entre o mundo real e a representação que é feita dele cria o falso como impossibilidade de compreensão de si mesmo e do outro. “E o drama da vida consiste na maneira pela qual o mundo real se impõe a nós e a maneira pela qual tentamos impor ao mundo exterior a nossa interpretação particular”.

A crítica religiosa perpassa todo o romance. Deus e a figura do demônio estão muito presentes, principalmente nos personagens Vincent e La Perouse.

O falso

O romance se ocupa com a própria essência do ser. O trágico moral. Vincent, Armand, Passavant, Strovilhou e Ghéridamisol comprometem a própria essência do ser. Não terão salvação. Enquanto Edouard, Bernard, Olivier, Laura, Pauline, Azais e La Pérouse pagam apenas o que todos pagam como seres sociais. Por uma auto traição necessária ou um self social.

O pastor Azais cria falsas razões para se persuadir de que não tem tempo para si e para a família. A sua fé o torna cego diante do mundo e falso diante de si mesmo. Na devoção perde o sentido da realidade e substitui a compreensão religiosa pela angústia. Faz uma dissociação entre a religião e as responsabilidades com a família.
Armand e Vincent representam papeis necessários para tornar suas vidas verdadeiras. Experimentam um sentimento de irrealidade e de uma vida sem sentido algum, o que produz uma grande desesperança. O vazio e a não individualidade aparecem também nas suas estruturas morais.
Armand se acredita sem salvação. Encontra-se na fronteira entre o ser e o não ser. Alcançou o ponto-limite, além do qual nada é. Perde sua essência quando aceita o convite para trabalhar como redator-chefe da revista que Passavant dirige. Vicent abandona a amante grávida, entrega seu irmão Olivier ao cúmplice Passavant e sucumbe ao delírio após matar a companheira Lilian na África, onde se fixa sem intenção de retornar à família. Proteção contra agonias impensáveis. E vitorias do demônio que trabalhou e conseguiu realizar seus feitos.

Para Passavant, Strouvilhou e Ghéridanisol o falso é um ato consciente para obter dinheiro e prestígio social. Falsos, cínicos e contrários à verdade, conseguem adulterar todos os elementos que tiram a possibilidade de compreensão de si mesmo e dos outros. A moral que suprime os fracos. Não será mais possível salvá-los.

A Conciliação

Georges, levado por Ghéridanisol, aceita participar de uma “brincadeira” mortal que tem como vítima o pequeno Boris. Fingiu uma súbita afeição por Boris para conseguir sua confiança e participação na trama. Boris sabia que estava perdido e se oferece para morrer tão grande era o seu desespero. Depois do crime a admiração de Georges por Ghéridanisol cedeu ao horror. Quando voltou à noite, para a casa dos pais, atirou-se nos braços de sua mãe, e Pauline agradeceu a Deus por lhe devolver seu filho.

Boris suspeitou que trapaceavam, mas calou-se. Sabia que estava perdido. Para se defender, não teria feito o menor gesto, e até mesmo, se a sorte houvesse designado um dos outros, teria se oferecido para substituí-lo, tão grande era seu desespero. Fazia da sua perdição seu prazer. Boris não poderia viver sem sonho ou ilusão. Se lhe fossem tirados sucumbiria.

Depois da morte de Boris La Pérouse deixou de ouvir o ruído que o atormentava tanto. E que não estava revelado para os seus ouvidos… O ruído como fonte de transmissão e recepção de uma mensagem. Mensagem de paz que La Pérouse só conseguiu escutar depois da morte de Boris. Harmonias… Uma busca pela conciliação. Boris ressurge da morte e Georges deve ser salvo.

*A  primeira parte desta resenha, relativa ao tema,  já havia sido publicada anteriormente neste blog.

** Cacilda Portela é advogada, pesquisadora social, ensaísta.

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