Os Mortos, James Joyce

42691740NOTAS SOBRE A NOVELA OS MORTOS DE JAMES JOYCE

*Cacilda Portela

A Oficina de Literatura Clarice Lispector está lendo e analisando a novela Os Mortos, de James Joyce. Na impossibilidade de acompanhar até o fim os trabalhos, terminei a leitura sozinha, e aventurei fazer algumas anotações sobre a novela, observando alguns princípios gerais da análise literária. Desde já me coloco à disposição dos leitores para sanar alguma interpretação duvidosa ou precária.

Tema – o assunto, argumento ou proposição central da narrativa é a Morte. A ideia predominante da novela que se concretiza na ação. A ideia global que sustenta o planejamento e a ação. Diferencia-se do motivo pelo grau de abstração.

Motivo ou enredo – relativo ao movimento, se refere à ação ou enredo, e tem o poder de encaminhar a ação porque aciona sua dinâmica. A ceia de Natal, o discurso de Gabriel, o vinho e a dança, as brincadeiras quando os convidados se despedem no hall, a caminhada ao longo do rio sob a neve, a canção que Gretta escuta transtornada no final da festa são fragmentações do todo narrativo, que emergem do desenvolvimento da narrativa para os episódios finais: a revelação de Gretta e as consequências para Gabriel.

Forças-motrizes – constituem a permanência de certos padrões de comportamento diante da realidade, certos valores, certas soluções para os problemas humanos, certas ideias fixas, certos moldes mentais. Gabriel vai elaborando essas forças que implicam em sua visão do mundo.

O medo de falhar é um padrão do comportamento de Gabriel Comroy, e indica necessidade de fuga da situação. Teme falhar com os convidados se o seu discurso, logo mais, na ceia de Natal, não for bem entendido. Pensa: todo o discurso era um erro, do princípio ao fim. Falhara com Lily quando lhe ofereceu uma moeda porque ela guardara sua capa de chuva. Falhara também com a Srta. Ivors. Acusado por ela de escrever resenhas para o jornal Daily Express e de ser um bretão ocidental, fica estarrecido e reticente, só conseguindo responder que não via nada de política em escrever resenhas, enquanto queria dizer que a literatura está acima da política. Quando indagado pela esposa sobre a conversa com a Srta. Ivors, Gabriel responde que ela apenas queria que ele fosse viajar nas férias para o oeste da Irlanda. Pouco ouvia o que a esposa falava. Os dedos trêmulos batiam no vídeo da janela. Pensa como deve ser muito agradável caminhar sozinho ao longo do rio. Muito mais agradável do que estar ali na mesa do jantar!

Um Gabriel inseguro e deslocado com relação à sociedade, às pessoas e a si próprio, olhando a neve pela janela, voltou a pensar no seu discurso e na citação que faria dirigida para a Srta. Ivors:

Senhoras e senhores, a geração que agora está em declínio entre nós teve suas falhas, mas, de minha parte, creio que ela teve certas qualidades de hospitalidade, de humor, de humanidade, de que a nova e muito séria geração educada, que cresce entre nós, me parece carecer.

É a resposta de Gabriel que ele gostaria de ter dado para a Srta. Yvors, que deixa a festa sorrindo e não parecia estar chateada. Gabriel olhou para o nada escada abaixo.

Pensou nos tópicos do seu discurso e repetia para si mesmo a frase que escrevera em sua resenha: É como se estivéssemos ouvindo uma música atormentada por pensamentos. Aqui, o autor da novela traz para o leitor a ideia de que a frase é dirigida para Gabriel, e que significa algo que está sendo preparado ou montado para o tema da novela, e que, revelado, significa a tomada de conhecimento da razão de ser da vida de Gabriel. Será por acaso que, logo em seguida, tia Jane, ao piano, executa a canção Vestida para o Matrimônio?

Quando começa o discurso, Gabriel lembra que a Srta. Yvors havia ido embora. Cheio de confiança em si mesmo começa dizendo:

… vivemos em uma era cética e atormentada pelo pensamento de jovens que poderão desprezar valores de humanidade, de hospitalidade, de humor de um gracioso estado de espírito que pertenciam a dias passados. (…) e se nós nos remoermos demais nessas memórias jamais encontraremos forças para seguir bravamente com nosso trabalho entre os vivos. Nós temos, todos nós, deveres vivos e afetos vivos com esses valores”. (54)

Os convidados estavam saindo. Gabriel vê sua esposa escutando uma canção, e sente-se atraído por ela. Observava a esposa que não se envolveu na conversa. Ela parecia tão frágil que ele teve vontade de defendê-la de algo e, então, ficar a sós com ela. Sentia-se orgulhoso, alegre, carinhoso, valoroso. Ela perguntou pelo nome da canção que estava tocando. A Garota de Aughrin foi a resposta. Neste ponto, a ação se encaminha para algo novo, fundamental, para o desfecho da novela.

Gretta revela para Gabriel a paixão de adolescência pelo garoto Michel Furey. Ele morreu aos dezessete anos porque, mesmo muito doente, fora despedir-se dela que voltava de férias para a casa dos pais. Ele costumava cantar a música A Garota de Aughrin. Eu consigo vê-lo claramente, ela diz para Gabriel. Não é terrível, morrer tão jovem assim? Gabriel sente-se humilhado pela evocação daquela figura do mundo dos mortos. Uma consciência vergonhosa de si mesmo o avassalou. Gretta diz acreditar que Michel morreu por causa dela. Quase não lhe doía mais pensar no pobre papel que ele, seu marido, havia tido na vida dela.

Epifania – Seção da obra literária que apresenta, simbolicamente, um momento de revelação. O texto costuma ser denso e profundo. Um terror vago se apoderou de Gabriel como se um ser intangível e vingativo estivesse vindo contra ele em seu mundo vago. Era chegada a hora de iniciar sua viagem para o oeste da Irlanda. Pensou ver a silhueta de Michel Furey apoiada em uma árvore na neve. O mundo real, em que os mortos tinham vivido, desagregava-se. A neve cobria todo o universo como se fosse uma manifestação divina. Como se lhes descesse para a hora final, sob todos os vivos e os mortos. Surge então uma súbita sensação de entendimento ou de compreensão da essência das coisas. Um pensamento único e inspirador. Passado e futuro não importam mais. Gabriel Conroy toma consciência da finitude humana.

Cosmovisão – Visão filosófica singular de ver o mundo. Crenças sobre a forma como as coisas são e deveriam ser. Gabriel apresenta na ceia de Natal, e de forma mais incisiva, suas ideias sobre o valor e o destino da pessoa humana. Os episódios remetem para o conhecimento de toda a obra, e se encaminham para uma visão do mundo. Um Gabriel moralista, temeroso, desencantado, que sucumbe pela revelação da esposa. Há de chorar para sempre porque nada mais tem razão de ser. Essa crença, de base filosófica, explica sua amargura, que procura na morte apagar uma existência linear e sem grande sentido. Tem na morte um sono sem sonhos.

Conteúdo da Obra- Novela de ideias, pela retratação filosófica e atemporal. Vale salientar que a novela Os Mortos não está estreitamente relacionada ao ambiente histórico. E que nenhuma obra se desliga totalmente do seu ambiente externo.

* Cacilda Portela é advogada, pesquisadora social, ensaísta.

 

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