Pacto

 PACTO

César Garcia

Éramos doze quando firmamos o pacto. Antigas amizades forjadas em época de crenças políticas. Prisões, demissões, separações, viagens e a volta para reconstruir. Conseguimos. Filhos criados, netos, aposentadoria. Cada vez mais frequentes as conversas sobre a morte, motivadas pelos enterros de parentes e  amigos. Natural. Quando tínhamos sete anos, o assunto era a primeira comunhão. Agora,  era sobre a indesejável. Como retardá-la e como evitar que fosse precedida de martírio, eis a questão. Quanto à primeira parte – retardá-la – fizemos o que todo mundo faz: cuidado com as coronárias, com a próstata, com as mamas, com o útero, nada de cigarro, gordura animal, açúcar, exposição ao Sol. Sim às caminhadas, às fibras, aos vegetais. Uma biopsia aqui, outra ali, tirou isso, tirou aquilo – uma conversa animada, no aniversário de sessenta anos do mais jovem. O mais velho pediu a palavra:

–          Agora, falando sério: proponho completar nosso pacto. Mais dia, menos dia, vai o primeiro, ou a primeira – sem sofrimento, conforme combinamos. O objetivo do meu plano é permitir que de alguma forma continuemos juntos, mesmo mortos.

–          Se é serio, pode falar – disse eu.

–          É sério. O primeiro que bater as botas será cremado. Suas cinzas serão diluídas numa grande sopa a ser consumida pelos onze restantes. E assim por diante. É isto. Alguma pergunta?

–          Quem comerá as cinzas do último?- Insisti.

–          Para esta pergunta, ainda não tenho resposta. Aliás, é problema dele. O que fará não importa a nenhum de nós. Só queremos estar juntos enquanto pelo menos um estiver vivo. Depois, não interessa. Mesmo assim, se ele for enterrado em um cemitério, alguns átomos de cada um de nós estarão ali na sua cova por alguns milhares de anos, talvez.

–          E a sopa, prestará? – perguntou Cuca, que gostava de receitas.

–          Acredito que nas primeiras, a diluição será perfeita. Gosto normal. Nas últimas, talvez seja necessário dividir o tal tempero em três ou quatro jantares, ou mais, na última. Todos topam?

Ninguém disse não. Estava ampliado nosso acordo.

Em alguns casos, foi difícil cumprir a segunda parte – evitar o martírio. A escolha do executor era feita por sorteio e nem sempre recaiu sobre quem tinha condições de pôr em prática as medidas necessárias. Então, um dos dois médicos do grupo ajudava. Overdose no soro, torneira do oxigênio fechada, éter sulfúrico…, são os que eu me lembro. Tudo certo. Nenhum arrependimento ou reclamação de família. Outros tiveram o sofrimento evitado pela própria Natureza, com infartos fulminantes. Nenhum sofreu os horrores de uma doença prolongada.

Quando o primeiro partiu, não houve problema. Havia deixado por escrito seu desejo de ter o cadáver cremado. Os poucos parentes que ainda tinha não se opuseram à sopa; apenas não quiseram participar nem teriam sido aceitos. Entregaram as cinzas com cara de quem diz façam bom proveito. Cuca, Geni e Lola, encarregadas da cozinha, decidiram fazer  sopa de cabeça de peixe. Gosto ativo e tempero reforçado para evitar qualquer comentário desagradável. Cada um lembrou passagens da vida em que o morto tinha mostrado bons sentimentos, ou um talento especial. Cantamos músicas que ele apreciava e revimos fotos em que aparecia. Foi mais uma noite agradável no nosso Abaçá. Assim chamávamos o espaço comum do Condomínio, onde tudo era comemorado. Era uma área coberta, em frente à piscina, de onde podíamos avistar bairros distantes. À noite, havia uma brisa perfumada pelo jasmim em volta, e viam-se as luzes de edifícios de apartamentos. Em noites de Lua, costumávamos fazer reuniões com música, poesia e comentários de livros. Sentimos falta do companheiro. Era sempre lembrado quando alguém cantava o samba em que o Nelson Cavaquinho diz “feliz aquele que sabe sofrer” porque um dia ele chamou atenção para este verso, dizendo: – É uma contradição sábia e poética.

Seria enfadonho relembrar sopa por sopa. Basta, creio eu, confirmar que o pacto foi cumprido. Nenhum sofreu e todos foram cremados e consumidos. Menos eu, obviamente. Este é o problema com o qual agora me defronto. Quando, há muito tempo, o assunto foi discutido, não me preocupei, pois achava que não seria o último a morrer. Enganei-me. Já se foram todos e, assim, fui obrigado a dividir a última cinza em seis sopas para torná-las tragáveis. Agora carrego meus onze amigos com tudo que tinham de bom e de ruim. Às vezes não me reconheço, preocupando-me demais com dinheiro, faltando a compromissos, falando mal da empregada. Há dias em que não me lembro de nada, perco o humor facilmente. Em outros, quero que os vizinhos me obedeçam, ou me comporto de modo estranho, comprando bobagens desnecessárias. Sempre detestei organização. Agora, de repente, ao despertar, arrumo a cama, tomo banho, estendo a toalha, guardo os comprovantes de pagamentos em ordem cronológica, ponho as cédulas na carteira de acordo com o valor, nunca fiz isto. Ultimamente, tenho chorado no cinema e peguei uma mania de ouvir o mesmo disco dias e dias. Jamais gostei de esoterismos – hoje acordei com desejo de consultar uma cartomante. Não sei mais quem sou. Não confio mais em mim, pois não sei como vou comportar-me amanhã. Se alguém me pedir esmola, direi não tenho ou darei dez reais? Estarei disposto a trabalhar o dia inteiro ou vou preferir ler romance e dormir?

Não tenho mais amigos. Ando acompanhado de um cão que, por sinal, anda me estranhando. A aproximação de pessoas mais jovens é impossível. Não entendo o que dizem, o que cantam, o que pensam. Pensam? Vejo-os diariamente, dão-me bom-dia, são meus vizinhos, mas estão muito distante. Se alguma doença cruel me agarrar, quem vai abreviar meu sofrimento? Não faltará quem queira prolongar minha vida – eu diria meu calvário. Terei que me arranjar sozinho. O pacto, tão bom para os outros, não me servirá. Seria, quem sabe, mais prudente apressar a visita indesejável e dizer: pode vir, estou pronto.

Ainda me lembro perfeitamente: duas caixas de Gardenal no liquidificador com leite e uma fruta; outro me disse que aplicou dez mililitros de éter sulfúrico na veia de um Dobermann. Sei que há meios melhores, mas ninguém vai facilitar. Fingirei dores intensas até que me prescrevam alguma codeína em gotas. Seja lá o que for, porei tudo em meio litro de soro preso a um prego na parede. Mangueira, baterflai, garrote e agulha, isso é fácil. Veias superficiais, saltadas, no braço esquerdo, fácil, fácil. Só falta querer.

Vou esperar a chegada do querer escrevendo algumas linhas sobre o jardim da minha casa. Lembro-me das primeiras mudas. Com esterco de curral e muita água, cresceram em pouco tempo e cobriram-se de flores. Uma delas espalhou sementes por toda parte, queria invadir tudo. Tive que controlar sua fúria reprodutiva para garantir espaço para as outras. Das que não tinham sementes, brotavam filhotes ao redor, formando touceiras. Às vezes, cresciam demais e me obrigavam a arrancar os pés mais fracos. De uma me recordo bem que pegava facilmente; qualquer pequeno galho tornava-se um novo pé. Dava trabalho. Se eu não cuidasse, em duas semanas os canteiros se enchiam de plantas espontâneas, mato, ervas daninhas, como se diz. Nem todas gostavam de sol intenso. Eram viçosas na sombra. Já outras, quanto mais luz, mais flores ofereciam. Era uma festa para as abelhas, borboletas e beija-flores. Um dos meus amigos via função em tudo. Gostava de lembrar que os insetos são muito importantes para a fecundação das flores. Eu lhe disse: boa parte dessas plantas têm flores estéreis; mesmo assim, oferecem néctar e pólen que atraem esses visitantes. Ele acrescentou, pois é: elas têm a função de alimentá-los. Não quis prolongar a querela, mas pensei nas raízes daquelas plantas. Permitem a extração de água e minerais, indispensáveis à vida. Entre elas, minhocas, pequenos insetos, bactérias, outra festa.

Bom, preciso fazer algumas compras. Que era mesmo que eu ia comprar? Soro, baterflai, garoteeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

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