Viagem Segunda pelo Riso

 

*Anita Dubeux

Esta postagem refere-se à nossa segunda viagem , a que foi realizada no dia 08 de fevereiro de 2017, após zarparmos do cais de nossa maruja Adelaide Câmara, onde fomos recebidos com muitas guirlandas e delicioso banquete.

Ancoramos no Traço Freudiano para mais um encontro de confraternização literária que iniciou com a leitura do cordel de autoria da viageira Salomé, escrito num momento muito especial de sua vida, em 2009,  e que ela dedicou ao marido. Trata-se de um belo e pungente cordel, porque fala do resgate do sorriso  que se perdeu em consequência de uma grande perda.

O RISO PEDE PASSAGEM

**Salomé Barros

Sessenta e três bem vividos
Trinta e sete para cem
Na caminhada da vida
Não sobra para ninguém
E mantendo o alto astral
Vai virar Matusalém

Com esse humor escrachado
Palhaçadas a granel
São tantas as trapalhadas
Que não cabem num cordel
Já conquistou doutorado
E até virou coronel

A manutenção do riso
Faz bem, é fundamental
Existir o ano todo
E não só no carnaval
No seu caso, sobretudo
É energia vital

Não permita que a tristeza
Invada o seu coração
Ela entra atravessada
Errada e na contra mão
Se você não der guarida
Some feito um furacão

Você escolhe na vida
De que lado quer ficar
Altos e baixos existem
Pra gente se equilibrar
Na corda bamba dançando
O riso a contagiar

Em seguida eu li dois poemas de Esman Dias, bem como uma breve biografia desse grande poeta que nos deixou em 2015. Foram eles:

 

FUSÃO

Santo Anjo do Senhor
Tyger! Tyger! burning bright
Meu zeloso guardador
In the forests of the night
Se a Ti me confiou
What immortal hand or eye
A piedade divina
A divina piedade
A mão, o olho imortal
Que deu forma e simetria
Terrível, meu Anjo, Tigre
A Ti, labareda clara
Dá-me teu fogo claro e me incendeia!
Dá-me tua espada à noite e me defende!
Meu santo Anjo do Senhor, meu Tigre!
E minha espada, espada, espada, espada!

 

ALUVIÃO 

Com as mesmas palavras
Girando ao redor do sol
Que as limpa do que não é faca.
João Cabral de Melo Neto

 

Parto in time aspre, et di dolcezza ignudo.
Petrarca

 

Falo do que não falo quando falo:
falo do meu silêncio,
bem mais claro
que as vozes incessantes dos que falam.
Falo do que não falo: do que sou:
bicho da terra — surdo — e mau cantor.
Falo do que não falo: tão pequeno
a destilar a noite o seu veneno.
Falo, não para o mundo dos sentidos:
falo somente para o inteligível.
Falo do que percebo: coisas claras
aéreas superfícies, copos d’água.
Falo na muda fala da batuta,
clara e precisa, do maestro à música.
Falo da pedra dura, da aspereza
de pedra sobre a pedra desta mesa.
Falo de mim em tudo de que falo.
Falo dos meus espelhos, quando calo,
Falo como quem vai a julgamento
sem esperar o indulto do seu tempo.
Falo com a voz alheia que me toca.
Falo e regresso — ileso — à minha toca.

 

Breve biografia do poeta:

ESMAN DIAS nasceu no Cariri – sertão da Paraíba. Ainda criança veio com os pais para Pernambuco. Morou em Olinda até a adolescência e desde então mora no Recife. Seus primeiros poemas foram publicados no Diário de Pernambuco e no Jornal do Commercio, em 1963. Em 1964, publicou “Os Retratos Marinhos”; em 1965, com Everardo Norões e Orley Mesquita, participa da coletânea “Clave”, ilustrada pelos artistas plásticos Anchises Azevedo, João Câmara, José Cláudio e Reynaldo Fonseca. Também em 1965, em parceria com Orley Mesquita, assina a coluna “Poesia e Tempo”, no Jornal do Commercio. Com Alberto da Cunha Melo colabora na realização do documentário “Simetria Terrível”, dirigido por Fernando Monteiro. Vários de seus poemas foram traduzidos para o francês e publicados na coletânea Recife/Nantes. Participa da antologia “46 Poetas Sempre”, organizada por Almir de Castro Barros. É professor de Literatura Anglo-americana no Departamento de Letras da UFPE e foi professor visitante da Universidade de Birmingham, no Alabama e na Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign.

Muito riso provocaram as tirinhas humorísticas selecionadas para o encontro: As Rebordosas, Garfild, Ferrato Pessoa.

O conto AMOR, do autor persa SAADI, poeta e contista “divino” que viveu no período de 1184 – 1291 — em tradução primorosa de Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Holanda — ensejou intensa polêmica e interpretações as mais diversas. Promete ser objeto de muitos escritos dos viageiros.

Trata-se da história de amor de uma ratinha por um gato, que vivia em uma mesquita abandonada, e  que quase havia sido dizimada todos os ratos que por ali viviam. Aparentemente a ratinha é porta-voz dos ratos sobreviventes para tentar convencer o gato a se mudar do local. Mantendo certa distância, para não tornar-se o seu alvo, a ratinha tenta conversar  e acaba se apaixonando seriamente por ele. Vamos aguardar as resenhas que advirão.

Continuando o encontro, foi lido o segundo capítulo do conto de Bergson, O RISO, abordando o tema do humor do ponto de vista psicanalítico.

O navio permanece ancorado, à espera do próximo encontro.

* Anita Dubeux é economista, poeta, ensaísta, contista. Brevemente terá um livro de poemas, Círculo de Seda, publicado pela Chiado Editora, de Lisboa.

** Salomé é psicóloga, cordelista, cronista.

 

 

 

 

 

 

 

Do Riso ao Trágico: Um Mar de Palavras

Embarcamos para a primeira Oficina de 2017 do cais da nossa maruja Adelaide Câmara, onde fomos recebidos com muitas guirlandas.Destaque para as coxinhas e lolitas que Paula nos preparou. Quase todos viageiros estavam presentes, exceções muito sentidas de Paulo, que se recuperava de uma gripe, e de Gratuliano que viajou para dar conta de afazeres inadiáveis com a sua fazenda.

Começamos com a Saudação Poética da nossa anfitriã, Adelaide, que leu o poema de Cecília Meireles, Canção.  É um belo poema  que fala de um sonho posto num navio que o proprio sonhador usa a mãos para fazer naufragar, disposto a chorar todo choro que for preciso para que o navio chegue ao fundo do mar e então “tudo estará perfeito: praia lisa, águas ordenadas,/meus olhos secos como pedras/
e as minhas duas mãos quebradas”. Muito triste.Tão belo quanto triste, eu diria

CANÇÃO
Cecília Meireles

Pus o meu sonho num navio
E o navio em cima do mar;
-depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Adelaide leu ainda um texto muito interessante de Augusto Abelaira, Requiem pelo ponto de Exclamação. Ele começa falando da particularidade da língua portuguesa ao dispor da palavra saudade, perguntando se os outros povos ignoravam o sentimento saudade e se quem não sabe nominar pode dispor do sentimento. E por aí segue… Leitura agradável, humor fino. O texto vai para a nossa biblioteca para quem se interessar pela leitura.

Iniciamos o humor daquela tarde com François Rabelais, mais precisamente com a leitura dos capítulos III a VII de Gargântua e Pantagruel . Realismo fantástico, absoluto. Gargântua após onze meses no ventre da mãe resolve nascer justo no dia em que ela se empanturrou de dobradinha (tripas de bois engordaddos no estábulo, segundo o autor), apesar dos protestos do marido, comendo dezesseis tonéis, uma pipa e seis alqueires. Ó bela matéria fecal que devia se formar dentro dela!  Não deu outra, depois do excesso gastronômico ela começou a sentir dor, a se lamentar e a gritar, aparecendo parteiras de todos os lados que ao a apalparem encontraram aparas de pele, fétidas, que eram os fundos que se lhe escapavam. Diante dessa situação, a parteira velha experiente deu um restringente tão forte que todas as peles ficaram tão apertadas e cerradas que pelas zonas baixas não passavam mais nada.  A passagem encontrada pela criança para sair foi pelos cotilédonos da matriz, seguindo pela veia cava, trepando pelo diagragma até acima dos ombros, onde a dita veia se divide em duas, tomou caminho à esquerda e saiu pela orelha sinistra. E ao nascer, não chorou como as outras crianças,  mas exclamou em voz bem alta: “Beber, beber, beber!”

Escatologia e realismo fantástico neste obra excelente do escritor francês, que tornou-se um clássico da literatura, inovando o fazer literário do humor. O dialógo dos bêbados é perfeito.São vários homens falando ao mesmo tempo, as conversas mais desencontradas e hilárias que se possa imaginar. Muito bom. A nossa colega Roberta Aymar, na ocasião, fez uma fala com uma sintese de Rabelais, muito interessante.A nosso pedido, ela está elaborando uma biografia do autor para dividir com os marujos e neste blog.

Após Rabelais, lemos um resumo que eu fiz do primeiro capítulo de Henry Bergson sobre O Riso, autor citado em todos os estudos sobre o humor. Filosófo e diplomata francês, ele ficou conhecido por vários trabalhos publicados, entre eles,  O RisoEnsaios sobre os dados imediatos da consciência, Matéria e Memória, A evolução criadora e As duas fontes da moral e da Religião.  O Riso foi publicado em 1899. Ele teve vários seguidores, entre os quais, Gilles Deleuze.

Bergson inicia o ensaio o perguntando o que é o riso? O que há de fato na essência do risível? O que há de comum entre uma careta de palhaço, um jogo de palavras, um qüiproquó de vaudeville, uma cena de comédia fina?  Então, ele cita três observações fundamentais para entender  a questão.

A primeira delas é que a comicidade é do humano. A natureza, os objetos não apresentam comicidade sem a ação do homem, sem a expressão humana.Eles em si não são risíveis.Rimos de um chapéu; mas então não estamos gracejando com o pedaço de feltro ou de palha, mas com a forma que os homens lhe deram, com o capricho humano que lhe serviu de molde.

Os filósofos definiram o homem como um animal que sabe rir. Bergson diz que eles deveriam também ter definido o homem como um animal que faz rir, pois, se algum outro animal ou objeto inanimado consegue fazer rir, é devido a uma semelhança com o homem, à marca que o homem lhe imprime ou ao uso que o homem lhe dá.

Outro ponto ressaltado por Bergson é a insensibilidade que acompanha o riso. Para êle o cômico só produzirá comoção se cair sobre uma superfície d’alma serena e tranquila. A indiferença é o seu meio natural. O maior inimigo do riso, diz Bergson, é a emoção, o que não significa que não se possa rir de quem temos piedade ou afeição. Para que o riso possa acontecer será necessário colocar em suspensão, mesmo que por apenas alguns instantes, qualquer piedade ou sentimento de afeição.

Numa sociedade de puras inteligências provavelmente não mais se choraria, mas talvez ainda se risse; ao passo que almas invariavelmente sensíveis, harmonizadas em uníssono com a vida, nas quais qualquer acontecimento se prolongasse em ressonância sentimental, não conheceriam nem compreenderiam o riso.
Que o leitor tente, por um momento, interessar-se por tudo o que é dito e tudo o que é feito, agindo, em imaginação, com os que agem, sentindo com os que sentem, dando enfim à simpatia a mais irrestrita expressão: como num passe de mágica os objetos mais leves lhe parecerão ganhar peso, e uma coloração grave incidirá sobre todas as coisas. Que o leitor agora se afaste, assistindo à vida como espectador indiferente: muitos dramas se transformarão em comédia. Basta taparmos os ouvidos ao som da música, num salão de baile, para que os dançarinos logo nos pareçam ridículos.
(…) Portanto, para produzir efeito pleno, a comicidade exige enfim algo como uma anestesia momentânea do coração. Ela se dirige à inteligência pura.

Outro aspecto levantado por Bergson é que nosso riso é sempre o riso de um grupo. O riso precisa de eco: Não saborearíamos a comicidade se nos sentíssemos isolados. Ele cita exemplo das pessoas que em viagem ou à mesa de hospedarias ouvem histórias que parecem muito cômicas para os que estão ali, pois os fazem rir o tempo todo e com muito gosto, mas que eles não conseguem alcançar a razão para tanto riso. E ele citou o exemplo do homem que não chorava num sermão em que todos choravam profusamente e quando lhe perguntaram porque não chorava ele respondeu: “Não sou desta paróquia.” Ele diz que isso é ainda mais verdadeiro quando se refere ao riso, porque Por mais franco que o suponham, o riso esconde uma segunda intenção de entendimento, eu diria quase de cumplicidade, com outros ridentes, reais ou imaginários.

Enfim, Bergson diz, para compreender o riso é preciso colocá-lo em seu meio natural, que é a sociedade; é preciso, sobretudo, determinar sua função útil, que é uma função social. O riso deve ter uma significação social.

Foi uma bela tarde em que não faltaram as anedotas, as tirinhas e charges, e ainda as gostosas coxinhas e lolitas feitas por Paula, muito bem registrados por Adriana Câmara.

Lourdes Rodrigues

Programação 2017 – 1º trimestre


​Viageiros e viageiras,

o cheiro da maresia já nos convida ao mar, vamos içar as velas e partir? Marujos, estiquem as canelas, encham os seus baús que é hora de embarcar.

Excepcionalmente, o cais de embarque será o da nossa querida maruja Adelaide Câmara, que inaugurará a nossa viagem, quebrando o champagne da partida. É importante que todos os que forem embarcar na quarta-feira avisem para que ela nos receba com todas as guirlandas necessárias.

Na Carta de Navegação está escrito Do Riso ao Trágico: um mar de Palavras. Sim, serão muitas mil milhas a navegar para dar conta dessa Carta de Marear, com a licença poética de nossa viageira Roberta Aymar. As aliterações estão aí para acordar  nossos poetas que rangerão os dentes ao lê-las.

Bom, para darmos conta de tal roteiro precisamos conhecer um pouco mais da hidrografia do Riso. Afinal, o que vamos encontrar? O grande timoneiro Ariano Suassuna disse: No meu entender o ser humano tem duas saídas para enfrentar o trágico da existência: O sonho e o riso. E o bruxo do Cosme Velho foi ainda mais enigmático ao referir-se a ele : Há pessoas que não sabem, ou não se lembram, de raspar a casca do riso para ver o que há dentro.

É importante que todos conheçam o plano traçado e que façam as suas propostas de correções de rumo antes ou durante a viagem. Ei-lo:

Ementa:

Saudação Poética – O Momento Poético iniciado em 2016 tornou-se essencial para a nossa viagem pelos mares das palavras. Além de estimular a criação poética particular dos poetas embarcados, encantou os viageiros de tal forma que todos eles levaram seus poetas preferidos para apresentá-los aos companheiros.

Carrossel Literário – O compartilhamento de livros embora tenha perdido um pouco de espaço para a saudação poética em 2016, continua importante para a transferência literária entre os participantes, tanto pela identificação de interesses como pela ampliação do conhecimento de autores ainda não conhecidos.

Escrita Criativa – O estímulo à criatividade em 2016 resultou na publicação de Escrituras III. Novos estímulos serão oferecidos em 2017 como faíscas para incendiar a criatividade dos marujos, desde o conto infantil a desafios e jogos de releituras e recriações.

Leitura Crítica – A opção pelos textos curtos (contos) tornou intensa a movimentação literária em 2016, culminando com a produção de muitas resenhas e algumas releituras. Assim, vamos intensificar este ano a leitura de contos.

Leitura Informativa –  Ensaios sobre o riso, a comédia, a farsa, técnicas literárias.

HQs ou Charges – A inovação das tirinhas de quadrinhos e charges para a nossa viagem, além de buscar o riso, contribuirá para a construção de Personagem, para a análise da crítica social e política.

Composição do Romance Coletivo – Iniciado em 2015, não caminhou em 2016. Os marujos deverão bater o martelo se devem continuar ou parar.

Objetivo geral:

Buscar o riso na Literatura, como expressão maior de uma sociedade, desde os gregos, romanos, até os tempos atuais, tentando apreender sua complexidade, grandiosidade, abrangência e, principalmente, sua interface com a dor, a tristeza, a tragédia.

Objetivos específicos:

• Contatar o seu eu mais profundo pela leitura de poemas na Saudação Poética;
• Compartilhar obras literárias relevantes no Carrossel Literário;
• Desenvolver o fazer literário diferente, fugindo do convencional, da mesmice, dando asas céleres ao absurdo e inimaginável com a Escrita Criativa;
• Realizar a Leitura Crítica  de textos literários, preferencialmente formas breves, desconstruindo a hegemonia da história aparente pela identificação da história contada em paralelo;
• Estimular a realização de resenhas e resumos dos textos lidos, a partir da leitura crítica particular e dos instrumentos de análise literária;
• Compartilhar tirinhas em quadrinho e charges para análise de personagem, identificação de objetivo, natureza;
• Participar como crítico ou autor da construção coletiva do Romance Coletivo iniciado em 2015;
• Alimentar o blog da Oficina com a produção dos participantes;
• Desenvolver projeto de publicação da Oficina.

PÚBLICO ALVO:

Interessados em desbloquear a escrita, viajar pelo riso através da Literatura, do mistério e deslizamento das palavras formando novos sentidos; escritores e críticos literários movidos pelo desejo de escrever e ler.

METODOLOGIA:

• Leitura de poema no início dos trabalhos de três das quatro quartas-feiras;
• Exercícios de escrita para estimular a criatividade. Iniciaremos com a provocação com texto infantil. Os textos produzidos serão lidos e comentados.
• Leitura crítica de contos que desafiem a percepção crítica e as emoções dos participantes, de acordo com o tema trabalhado. Iniciaremos com um Conto Infantil e um Conto Sobre o Riso. As resenhas elaboradas serão lidas e comentadas.
• Apresentação de tirinhas de quadrinho ou charges.

RECURSOS DIDÁTICOS :

Trabalhos em grupo e individual de escrita, utilizando papel e caneta, computador ou tablet. Leituras de poemas e contos no notebook, tablet, celular ou impressos.

PERIODICIDADE:
Toda quarta-feira de 14h:00min às 16h:00min.

LOCAL E CONTATOS:

Excepcionalmente, na casa da nossa querida maruja Adelaide, que ainda se recupera de alguns problemas de saúde.
Depois, no Traço: Rua Alfredo Fernandes, 285, Casa Forte, CEP-50060-320 –  Recife- PE –Fone: 3265-5705 (Luciene)

www.traco-freudiano.org/blog ou oficinaclaricelispector@googlegroups.com.br

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Bibliografia inicial:

O riso, Henri Bergson
Gargantua e Pantagruel, François Rabelais
Batracomiomáquia, Homero
Amor, Saadi
O Misantropo, Menandro
O Humor Judaico, Abrasha Rotemberg
Humor (temas abordados na Palestra do J. Maestro)
Alice Através do Espelho, Lewis Carol

Aguardo vocês  com ansiedade no ancoradouro.

Lourdes Rodrigues

 

Escrituras III – Manuscritos de Viagem

A Paixão pelas Palavras
Lourdes Rodrigues

Mais de uma década ao mar. Viagens longas, viagens curtas, sempre de olho no Traço-Porto-Seguro para fugir das arrebentações, das tormentas. Poder voltar sempre foi o que nos deu coragem de içar velas e enfrentar as ondas numa nova viagem.

Escrituras I e II mapearam as rotas dos oito primeiros anos, suas aventuras, suas emoções. Escrituras III – Manuscritos de Viagem representa as milhas náuticas percorridas em 2016. E a celebração pelo retorno das nossas estrelas guias que durante dois anos não navegaram; pela chegada dos novos viageiros, recebidos com guirlandas de flores em volta do pescoço pelos navegantes; e pelos marujos que se mantiveram firmes e indiferentes aos cantos das sereias, de olhos voltados para as águas turbulentas até o final da travessia.

Escrituras III – Manuscritos de Viagem registra o resgate da alegria dos primeiros tempos, de novos impulsos criadores, da exacerbação do sentir tudo de todas as maneiras, como dizia Fernando Pessoa, na poesia de seu heterônimo Álvaro Campos.

Os nossos viageiros são seres muito especiais que navegam pelos mares das palavras e das artes plásticas. Todas as imagens são de Anita Dubeux e de Paulo Tadeu, da capa às cortinas separadoras dos textos. Quase todos fazem poesia, líricas, com rimas, sem rimas, de cordel, prosa poética: Anita Dubeux, Eleta Ladosky, João Gratuliano, Luzia Ferrão, Salomé Barros, Salete Oliveira. E nossas tardes se enchem de encanto! Adelaide Câmara garimpa pérolas poéticas, com a poesia na alma, de olhos e ouvidos atentos para que não lhe escape um grande poema, embora teime em dizer que prefere a prosa ao verso, como modo de arte. Todos são ficcionistas, a prosa é a praia deles e escrevem com muito apuro.

Everaldo Soares, marujo dos primeiros tempos, nosso Ismael, transita com desenvoltura pelos mares das palavras não ditas, em face do seu perfil de psicanalista, com escuta especialmente arguta. Escreveu o conto O Feio, da releitura do Patinho Feio, trazendo à tona mal-estar imprevisível, interior, daquele que se sente diferente, quer pela feiura ou seus desconcertos, mas que mantém posição e não procura assemelhar-se ou desassemelhar-se com sua tribo. O seu patinho, apesar dos percalços vividos, não arreda pé de não cantar. Na temática do duplo, defendeu a ideia de que o duplo tem a ver com a constituição do eu e do outro, usando para isso o Estádio do Espelho de Lacan. O duplo é um outro perseguidor, geralmente do mesmo sexo, paranóico e destrutivo, que fracassa onde as pessoas comuns são vitoriosas, segundo Freud. Everaldo diz que a constituição do eu é erótica e mortífera, e a morte é fundamental para criação de símbolos: a palavra mata a coisa. Para ele, assim como para nós, a subjetividade é essencial ao trabalho da ficção. Por isso, a Psicanálise e a Literatura andam sempre juntas.

Cacilda Portela é resenhista, ensaísta, aqui e ali mergulha na escrita de um conto. O melhor crítico literário é João Gratuliano, nada escapa ao seu olhar. É o nosso Harold Bloom. Teresa Sales voltou, para a nossa alegria, a escrever suas prosas, contos e crônicas. Roberta Aymar, viageira de alguns portos, sempre a trazer contribuições inestimáveis.

Traçar cartas náuticas com esses viageiros tão destemidos e criativos nas artes e na literatura é saber que vamos mergulhar em mares profundos e fazer grandes e intensas viagens em que o riso, a alegria será sempre a bandeira hasteada. Mesmo quando o tema é difícil, o riso escapa para quebrar a tensão.

A Carta de Navegação 2016 põe em evidência a complexidade do ser humano, a partir de coordenadas fornecidas pela poesia, pela criatividade dos viageiros e pelos mergulhos entre linhas e silêncios dos escritos de autores selecionados pela sua alta conta na Literatura. Os escritores, como bem disse Freud, são seres que conhecem uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar.

No eixo Poesia, criou-se o Momento Poético, ocasião em que líamos os poetas preferidos ou as nossas próprias criações. Mais que um batismo para iniciação de cada percurso da viagem, tornou-se o instante em que cada viageiro pode mergulhar no mais profundo de seu ser e fazer a sua travessia muito particular. Grandes poetas por ali passaram. Começamos por Charles Baudelaire, lendo Gênio do Mal, tradução de Delfim Guimarães, que Adelaide Câmara descobriu, após exaustivas pesquisas, não existir na obra do poeta com esse título, embora inserido em As Flores do Mal sob o número XXV. Dentro do possível, procuramos acompanhar a leitura do poema traduzido para o português com a obra no original, permitindo-nos descobrir divergências, infidelidades e refletir sobre a definição de poesia de Robert Frost: That which is lost in translation.  Se na ficção é importante ver o original, porque os tradutores, por melhores que sejam, tendem a se tornar coautores ao se empolgarem e se afastarem muito do texto, na poesia, em que a sonoridade, às vezes a rima, a subjetividade, as metáforas, o intangível são a sua espinha dorsal, ler a tradução pode significar desvio e perdas substanciais. Entretanto, o tradutor e nós leitores não descobrimos sentidos, apenas nós os construímos.

Sonetos de William Shakespeare, Camões, poemas de Emily Dickinson, Lautréamont, Paul Valéry, Wislawa Szymborska, Sylvia Plath, Li Po, William Butler Yeats, Elizabeth Barrett Browning , Elizabeth Bishop, Benjamim A.S.M. M’Bakassy , Mia Couto, Cesare Pavese, Calderon de La Barca, Paul Verlaine, Edgar Allan Poe, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Florbela Espanca foram lidos com variadas doses de emoção pelos viageiros. Da Irlanda foi trazida uma poesia do Século VIII, Donal OG (no original, em Gaélico), Broken Wows (tradução inglesa), Votos Partidos (Português), com tradução belíssima de Lady Gregory que muitos já conheciam do filme Os Vivos e os Mortos, baseado no conto de James Joyce, Os Mortos. Muitas leituras vieram acompanhadas de vídeos, com excelentes interpretações, como foi o caso de Vincent Price, em O Corvo, de Edgar Allan Poe. As leituras de poemas pelo próprio poeta a exemplo de Sylvia Plath, Paul Verlaine, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, assim como a interpretação de Maria Betânia de poemas de Sophia Breyner e de José Régio encantaram-nos. Para comemorarmos o Dia Internacional da Mulher, a nossa viageira Adelaide presenteou-nos com poesias de Emily Dickinson, Florbela Espanca, Sylvia Plath, Sophia de Melo Breyner e o poema Mulher de Carlos Drummond de Andrade.

Para entender uma mulher é preciso mais que deitar-se com ela… Há de se ter mais sonhos e cartas na mesa que se possa prever nossa vã pretensão…

Poetas brasileiros, além de Carlos Drummond, que estiveram presentes uma e mais vezes no nosso recital poético: Ferreira Gullar, Mário Quintana, Manuel Bandeira, José Régio (Cântico Negro, lindo!), Carlos Pena Filho, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Manoel de Barros, Augusto dos Anjos, Vinicius de Moraes, Affonso Romano de Sant’Anna, Daniel Lima, Paulo Leminsky, Andrea Campos, Augusto dos Anjos. A viageira Luzia Ferrão nos trouxe o poeta das ruas, mais precisamente, dos semáforos, Lenemar Santos, natural de Gameleira, que vende seus livrinhos, feitos de forma artesanal, em Piedade.

Os nossos poetas também nos prestigiaram com suas criações. Anita Dubeux, Eleta Ladosky, João Gratuliano, Luzia Ferrão, Salete Oliveira e Salomé Barros trouxeram seus poemas para leitura na nossa nau, cada uma com um estilo muito próprio, dividindo conosco suas percepções poéticas. Salete ilustrou os seus com imagens bem sugestivas.

Quando trabalhávamos o tema erotismo, poemas antigos surgiram: Salomão (Cânticos dos Cânticos), Ovídio (A Poética do Sexo), Bocage, (Sonetos), Juan de La cruz (Eros Místico) e Apuleyo (Metamorfose).

Enfim, a poesia presente no início de cada milha náutica navegada em 2016 – bem ao estilo de Autran Dourado que dizia ler um poema todos os dias, antes de começar a escrever – preparou-nos o espírito para grandes viagens na criatividade e nas leituras que se sucederam.

Os primeiros desafios criativos foram a releitura de O Patinho Feio, de Christian Andersen; as escolhas difíceis, no limite do absurdo e do insuportável, A Escolha de Sofia, por exemplo, em que uma mãe se vê obrigada a escolher entre um filho e outro e a traição a uma amiga por ter se apaixonado pelo marido desta. Os marujos correram da parada da Escolha de Sofia, apenas Luzia Ferrão resolveu enfrentá-la e construiu texto muito interessante, Trindade, em que o personagem faz sua escolha. Salete Oliveira enfrentou o desafio da quebra de ética e escreveu Vizinhos. Apenas a faísca criativa de O Patinho Feio atingiu quase todos os viageiros e eles fizeram suas releituras a partir de narradores e personagens diferentes, pontos de vista, tempo e espaços narrativos diversos. Interessante exercício literário.

No eixo das leituras, a opção pelas viagens curtas deveu-se à certeza de que elas têm sobre os grandes percursos a vantagem da intensidade de efeito. Edgar Allan Poe decidido a falar sobre o seu processo criativo em A Filosofia da Composição, texto que lemos para dar suporte à nossa decisão, diz que:

Se alguma obra literária é longa demais para ser lida de uma assentada, devemos resignar-nos a dispensar o efeito imensamente importante que se deriva da unidade de impressão, pois, se requerem duas assentadas, os negócios do mundo interferem e tudo o que se pareça com totalidade é imediatamente destruído.

Além do efeito, a narrativa curta permite-nos o retorno a ela, seguidas vezes, para apreensão das entrelinhas que escapuliram às primeiras vistas, para preenchimento de silêncios carregados de vozes que passaram quase despercebidas, deixando no ar suspeitas de murmúrios a serem identificados. São tantos os olhares que se debruçam sobre ela que cada qual vai fazer uma leitura e julgá-la do seu lugar, com sua visão de mundo, com as suas percepções muito particulares.

A segunda opção foi que a nossa viagem seria temática, procuraríamos seguir roteiro que nos permitisse dar conta das pegadas desse ser complexo que é o homem.

O primeiro tema escolhido foi O Duplo. Temática instigante e intrigante da qual muito se fala e pouco se entende. Na visão mitológica o rastro atravessa milhares de anos, presente em muitas civilizações do passado. Talvez a mais antiga versão seja a de Doppelganger, palavra germânica que significa “duplo frequentador” e refere-se a um fantasma ou aparição que lançou sombras e é uma réplica ou duplo de uma pessoa viva. Considerado um mau presságio, indício de azar ou sinal de morte. Em termos de Psicanálise, o mais próximo que se chega para explicar é o Unheimliche de Freud, uma instância onde algo pode ser familiar e ao mesmo tempo estranho, e essa ausência de certeza traz profundo desconforto. O Duplo traz à superfície questões ligadas à identificação, ao narcisismo e ao medo da morte. Na verdade à própria essência do ser humano.Na Literatura, desde sempre esteve presente. Entre os gregos, com Narciso apaixonando-se pelo seu reflexo na água; no Egito, com Ka, espírito duplo, tangível. Nos tempos mais recentes, inúmeros autores trabalharam o tema em seus livros, entre eles Dostoievski, Borges, Edgar Allan Poe, Carlos Fuentes, Robert Stevenson entre muitos outros.
William Wilson, de Poe, é uma referência para qualquer estudo literário sobre O Duplo, por isso, a nossa escolha recaiu sobre ele. Em Escrituras III, o tema foi contemplado sob a forma de cordel, resenhas e contos.

Seguindo a mesma trilha, veio a Loucura como tema, conscientes da importância, seriedade e beleza dele, pois o que seria de nós sem ela, diz Fernando Pessoa: Sem a loucura que é o homem/Mais que a besta sadia/Cadáver adiado que procria? Graham Greene, diferente de Fernando Pessoa, contrapõe aclamando as artes plásticas, a música, a literatura como forma de fazer sinthoma para salvar o homem da loucura.

Às vezes cogito como é que todos os que não escrevem, não compõem ou não pintam conseguem escapar da loucura, da melancolia, do pânico inerente à condição humana.

Foram nossas leituras a fábula de Jean de La Fontaine, O Amor e a Loucura, a pequena novela ou conto de Gogol, Diário de um Louco, os contos O Sistema do Doutor Alcatrão e do Professor Pena, O Coração Delator, ambos de Edgar Allan Poe e mais adiante o excelente e terrível conto de Nabokov, Signos e Símbolos. Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã não foi concluído, o que lamentamos pela excelente qualidade da obra.

Os viageiros não escreveram seus textos, quem sabe cautelosos com os riscos que o tema representa para aquele que resolve enfrentá-lo, verdadeiro campo minado. Quando ainda decidíamos que caminho seguir, Humor ou Loucura, apesar das dúvidas, venceu a última, para receio de alguns.

O Erotismo veio a seguir e provocou gargalhadas estrondosas durante o seu percurso, pela forma bela e irreverente como foi tratado por alguns clássicos da literatura e, também, pelos rubores e desconcertos dos viageiros em algumas passagens mais licenciosas. Tempos inesquecíveis dessa viagem, afastando temores e fantasmas deixados pelos temas anteriores.

Começamos com o Banquete (O amor e o Belo) de Platão, no trecho em que Aristófanes, dirigindo-se a Erixímaco, explica o poder do Amor, expondo a natureza humana e suas vicissitudes. E vai desenvolvendo a sua tese, dizendo que antes existiam três gêneros da humanidade, o homem, a mulher e um terceiro, andrógino aos dois. E por aí segue… Depois dele lemos A Metamorfose, de Lúcio Apuleio; A Poética do Sexo, de Ovídio; Cânticos dos Cânticos, de Salomão (atribuído, não questionamos a propriedade); Eros Místico, de Juan de La Cruz; Sonetos, do irreverente Bocage; De como Panurgo se apaixonou por uma grande dama de Paris, de Rabelais; A Sedução Criativa, de Giácomo Casanova e o Canto V, do Inferno, de Dante, onde estão aqueles que cometeram o pecado da Incontinência Sexual.

Depois veio o Marquês de Sade, impossível não considerá-lo, logo ele, representante maior do erotismo e da obscenidade. Do autor foram lidas duas obras,   O Marido que recebeu a Lição, texto levíssimo e bem humorado; De Monges e Virgens, de sua obra bem conhecida Justine, um texto em que a perversão está bem explícita. Finalmente, Bataille, em O Olho do Gato.
Em termos de erotismo na Literatura brasileira, embora existam grandiosas contribuições, escolhemos exatamente dois autores que não são conhecidos por essa temática: Clarice Lispector, nossa madrinha, em A Via Crucis do Corpo; e Carlos Drummond de Andrade, em A moça Mostrava a Coxa. A bem da verdade, após a sua morte, descobriu-se que ele era um mestre na literatura erótica. Vejamos o trecho a seguir do autor:

Assim o amor ganha o impacto dos fonemas certos
No momento certo, entre uivos e gritos litúrgicos,
Quando a língua é falo, e verbo a vulva,
E as aberturas do corpo, abismos lexicais onde se restaura
A face intemporal de Eros,
Na exaltação de erecta divindade
Em seus templos cavernames de desde o começo das eras
Quando cinza e vergonha ainda não haviam corroído a
inocência de viver.

O Erotismo é um campo vasto, apenas tocamos ao de leve por importantes literaturas dele, o caminho foi aberto para quem quiser segui-lo e, quem sabe, até mergulhar mais profundamente nas suas águas.

Da escritora portuguesa, Lídia Jorge, lemos o conto Marido que muito bem representa a servidão humana levada às últimas consequências. É uma narrativa tão forte que ao concluir a sua leitura todos ficaram mudos, olhando uns para os outros sem palavras. Quando o silêncio foi quebrado, todos quiseram falar ao mesmo tempo e por para fora o engasgo que os havia deixado sem fala. A autora, ao abordar um tema tão difícil e ao mesmo tempo tão presente em todas as épocas, utiliza, com maestria, a forma literária mais lírica e bela que se possa imaginar. Escrituras III – Manuscrito de Viagem apresenta duas resenhas sobre esse conto e dois textos ficcionais.

De Lígia Fagundes Telles, que bem deveria ter recebido o Nobel este ano, lemos a Pomba Enamorada ou Uma História de Amor, conto apaixonante e que se insere na temática da obsessividade. Enredo simples, contado com perícia/perfeição literária, muito rico em possibilidades de releituras, com outros pontos de vista e de finalização.O desfecho fica em aberto para o leitor continuar. Jovem candidata a rainha de um baile encontra rapaz e se enamora dele. Daí em diante ela não lhe dá trégua, criando inúmeras possibilidades de encontro, sendo sempre rejeitada por ele. Trata-se de um autêntico caso de obsessão amorosa, em que a pessoa observa no outro um ideal de amor, de relacionamento que só existe para ela. Duas resenhas e duas outras versões da história, além de outro final, estão neste livro.

Menina a Caminho, de Raduan Nassar, foi outra obra prima literária que mobilizou os navegantes a fazerem suas resenhas, cada qual com um olhar diferente do olhar do outro, conforme pode se observar nos escritos dos viajeiros.Uma menina magricela anda pelas ruas, sem pressa, e testemunha várias cenas que a fazem transitar entre o mundo infantil e o mundo adulto.

A última leitura que fizemos foi de O Búfalo, de Clarice Lispector, conto que levou a muitas interpretações, mas não houve tempo para a produção de resenha.
E mais contos e poemas participam desse livro como resultado de novas viagens realizadas pelos navegantes desgarrados de cartas de navegação, ao sabor do vento e do cheiro das águas.

Outro eixo importante da Carta de Navegação 2016 foi a criação do Carrossel Literário, espaço para compartilhamento das obras favoritas dos viageiros, que culminou num processo de transferência entre os seus participantes, pela identificação de interesses e paixões literárias. Importantes e desconhecidos autores, por alguns viageiros, desfilaram no carrossel e foram lidos com avidez e interesse.

Do Romance Coletivo foi concluída a primeira parte de três. Não houve fôlego para dar conta das duas restantes, devendo voltar à programação do próximo ano.

Escrituras III – Manuscritos de Viagem é um livro de contos, resenhas e poesias, formas de expressão literária que nós marujos encontramos para expressar o nosso sentir diante do mundo de fantasias que surgiram de nossas leituras dos textos aqui mencionados. Aos seus leitores, desejamos que também se lancem ao mar e façam suas próprias viagens.

Jaboatão dos Guararapes, 25 de novembro de 2016

Lançamento Escrituras III – Manuscritos de Viagem

 

ESCALA DE VIAGEM
Salomé Barros

Uma festa arretada
Aconteceu de repente
Tinha vinho, tira gosto
E meio mundo de gente
Um clima de alto astral
Enfeitando o ambiente

Estava nascendo alí
O fruto de um trabalho
Produção interativa
Feito jogo de baralho
E tudo sincronizado
Sem cometer ato falho

O centro das atenções
Era privilegiado
Colocado na entrada
Para ser admirado
Estava tão atraente
Que foi muito cobiçado

Afinal ali estavam
“Manuscritos de viagem”
No período de um ano
Foi arrumada a bagagem
O grupo fez uma escala
Uma nova aterrissagem

A viagem não termina
Outras escalas virão
O caminho é infinito
Não existe previsão
E fazer investimento
É a grande opção

 A Festa do Lançamento

Anita Dubeux

A Oficina de Criação Literária Clarice Lispector, da Escola de Psicanálise Traço Freudiano Veredas Lacanianas, coordenada por Lourdes Rodrigues, lançou seu terceiro livro reunindo a produção dos participantes/viageiros durante o ano de 2016. O evento foi realizado na noite de 16 de dezembro, no acolhedor espaço cultural e gastronômico de Eugênia Menezes, o CANTO DI CUMÊ, em Casa Forte. Editado por Tarcísio Pereira, traz na capa e nas cortinas separadoras dos capítulos ilustrações dos viageiros Anita Dubeux e Paulo Tadeu.

ESCRITURAS III reúne os trabalhos literários dos escritores Anita Dubeux, Cacilda Portela, César Garcia, Eleta Ladosky, Everaldo Soares Júnior, João Gratuliano, Lourdes Rodrigues, Luzia Ferrão, Salete Oliveira, Salomé Barros e Teresinha Ponce de Leon.

O livro está divido em oito partes, contendo as contribuições dos participantes da Oficina resultantes do trato dos temas abordados em 2016.  A Criação literária, contos que ressaltam a paixão pelas palavras, o prazer de escrever; O Duplo contempla os escritos que abordam a figura da dualidade interpessoal, abordada na literatura e amplamente tratada durante a Oficina, com a leitura de autores que escreveram sobre esse tema com maestria, a exemplo de Dostoievski, Edgar Allan Poe e Fernando Pessoa; Servidão tema de difícil abordagem literária, onde se destacou a leitura e interpretação do conto Marido, da escritora portuguesa Lídia Jorge; Violência e Iniciação outro tema de árida abordagem, onde se destacou a leitura do magistral conto de Raduan Nassar, Menina a Caminho, suscitando os trabalhos interpretativos de cinco escritores. Erotismo amplamente lido e comentado. Obsessão, talvez o tema mais instigante, concentrado no conto de Lygia Fagundes Telles, Pomba Enamorada ou uma História de Amor. O livro traz ainda contos reunidos sob o título Outras Viagens, tratando de temas diversos e os Poemas dos Viageiros, com contribuições de três poetas integrantes da Oficina.

 

Momentos Poéticos – Wislawa Szymborska

frase-en_el_lenguaje_de_la_poesia_donde_se_pesa_cada_palabra_nad-wislawa_szymborskaWislawa Szymborska, nasceu em 1923, na cidade de Kórnik, na Polônia. A família saiu de lá no mesmo ano, passando a morar na Cracóvia, grande centro cultural da Polônia. A sua vida literária inicia-se durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto segue com sua educação nos anos subterrâneos da resistência cultural polonesa contra a ocupação nazista. Com o fim da guerra, passa a estudar sociologia, além de língua e literatura polonesas, na Universidade de Cracóvia.

O primeiro livro foi proibido pela censura do regime comunista por não se enquadrar nos regulamentos da literatura socialista. Tenta adequar-se às regras para poder publicar, mas rompe definitivamente na década de 50 com a ideologia político-estética socialista. Nega os dois primeiros livros e “reinicia” sua obra com o volume Wołanie do Yeti (Chamando Yeti), de 1957. Em 1962, chama a atenção da comunidade poética polonesa com o pequeno volume Sól (Sal). A sua obra de mais de 10 volumes de poemas, o último publicado em 2009, com o título Tutaj (Aqui). Wislawa Szymborska era uma discreta poeta polonesa até tornar-se mundialmente conhecida em 1996, ao vencer o Prêmio Nobel de Literatura. Hoje os seus livros são traduzidos para mais de 42 línguas.

Considerada uma das últimas representantes do Alto Modernismo, destacou-se sempre pelo humor, às vezes autodepreciativo, sendo a ironia a sua ferramenta favorita. Szymborska é um belíssimo exemplo do “verso livre” que depende de um talento poético invulgar em seus mais sutis artifícios. Aclamada como a Mozart da poesia, ela viveu até quase os novena anos.

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POEMAS – (Tradução

AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS

Quando eu falo a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando eu falo a palavra Silêncio,
o destruo.
Quando eu falo a palavra Nada,
crio algo que nenhum não-ser comporta

POR UM ACASO

Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em consequência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.

 
A ALEGRIA DE ESCREVER

Para onde corre este cervo escrito na floresta que escrevi?
É para beber da água escrita,
que desenha seu focinho?
Por que ele ergue a cabeça, escutou algo?
Apoiado nas quatro patas emprestadas da verdade
ele apura as orelhas sob meus dedos.
Silêncio – essa palavra ressoa na textura do papel
e afasta os galhos
que brotam da palavra floresta.
Sobre a folha em branco há letras espreitando
que podem tomar o mau caminho
formando frases ameaçadoras
das quais nada escapa.
Em cada gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho na mira,
prontos a descer pela caneta íngreme,
cercar o cervo e apontar as armas.
Eles esquecem que aqui não há vida de verdade.
No preto-e-branco vigem outras leis.
Um piscar de olhos durará o tempo que eu quiser
e poderá ser dividido em pequenas eternidades,
cada uma com chumbo suspenso em pleno vôo.
Aqui nada acontecerá sem meu aval.
Contra minha vontade, nem uma folha cairá
e nem uma grama se dobrará sob o casco do cervo.
Então existe um mundo
onde eu possa impor o destino?
Um tempo que eu teço com uma corrente de sinais?
Uma existência que, a meu comando, não terá fim?
A alegria de escrever.
O poder de preservar.
Vingança de uma mão mortal.

 
ENCONTRO INESPERADO

Nós nos tratamos com extrema cortesia,
dizemos: quanto tempo, que bom revê-lo.
Nossos tigres bebem leite.
Nossos falcões preferem o chão.
Nossos tubarões se afogam no mar.
Nossos lobos bocejam diante da jaula aberta.
Nossas cobras perderam seu lampejo,
nossos macacos, sua graça; nossos pavões, suas plumas.
Faz tempo que os morcegos deixaram nossos cabelos.
Caímos em silêncio no meio da conversa,
e não há sorriso que nos salve.
Nossos humanos
não sabem falar uns com os outros.

A CORTESIA DOS CEGOS

O poeta lê seus versos para os cegos.
Não esperava que fosse tão difícil.
Sua voz fraqueja.
Suas mãos tremem.
Ele sente que cada frase
está submetida à prova da escuridão.
Ele tem que se virar sozinho,
sem cores e luzes.
Uma aventura perigosa
para as estrelas da poesia,
para as manhãs, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua,
para o peixe tão cintilante sob a água
e o falcão tão alto e quieto no céu.
Ele lê-pois já não pode parar –
sobre o menino de casaco amarelo num campo verde,
telhados vermelhos que se contam no vale,
números irrequietos na camisa dos jogadores
e a desconhecida, nua, na fresta da porta.
Ele gostaria de omitir – embora seja impossível –
todos os santos no teto da catedral,
a mão que acena do trem em partida,
a lente do microscópio, o anel e seu brilho,
as telas de cinema, os espelhos, os álbuns de
fotografia.
Mas é enorme a cortesia dos cegos,
admirável a sua compreensão, a sua grandeza.
Eles escutam, sorriem e aplaudem.
Um deles até se aproxima
com o livro de cabeça para baixo
pedindo um autógrafo invisível.

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Discurso de Wislawa Szymborska ao receber o Prêmio Nobel

Dizem que a primeira frase de um discurso é sempre a mais difícil. Bem, ela já ficou para trás. Mas tenho a sensação de que as frases ainda por vir – a terceira, a sexta, a décima e assim por diante, até a última linha – serão igualmente difíceis, pois tenho de falar sobre poesia. Falei muito pouco sobre o assunto – quase nada, de fato. E sempre que falei me veio a furtiva suspeita de que não sou muito boa nisso. Portanto, minha palestra será bem curta. A imperfeição é mais fácil de tolerar em doses pequenas.

Os poetas contemporâneos são céticos e desconfiados até, ou talvez sobretudo, de si mesmos. Só com relutância confessam publicamente ser poetas, como se tivessem um pouco de vergonha. Mas em nossos tempos estrepitosos é mais fácil reconhecer nossos erros, ao menos se estiverem atraentemente embalados, do que reconhecer os próprios méritos, pois estes se mantêm ocultos mais no fundo, e nós mesmos nunca acreditamos muito neles… Quando preenchem fichas ou batem papo com estranhos – ou seja, quando não podem deixar de revelar sua profissão -, os poetas preferem usar o termo genérico “escritor” ou substituir “poeta” pelo nome de qualquer outro trabalho que façam, além de escrever. Burocratas e passageiros de ônibus reagem com um toque de incredulidade e alarme quando descobrem que estão tratando com um poeta. Creio que os filósofos enfrentam reação semelhante. Contudo, estão numa posição melhor, pois na maioria das vezes podem ornamentar seu ofício com algum tipo de título universitário. Professor Doutor de Filosofia: isso sim soa muito mais respeitável.

Mas não existem professores de poesia. Afinal de contas, isso significaria que a poesia é uma ocupação que requer um estudo especializado, exames regulares, ensaios teóricos com bibliografia e notas de rodapé anexadas e, por fim, diplomas conferidos com pompa. E significaria, em troca, que não basta encher páginas de poemas, mesmo os mais primorosos do mundo, para tornar-se um poeta. O fator decisivo seria um pedaço de papel que traz um selo oficial. Lembremos que o orgulho da poesia russa, o futuro ganhador do Prêmio Nobel Joseph Brodsky, foi certa vez condenado ao exílio em seu próprio país justamente com base nessa ideia. Chamaram-no de “parasita” porque não possuía o certificado oficial que lhe assegurava o direito de ser poeta.

Há muitos anos, tive a honra e o prazer de encontrar com Brodsky. Notei que, de todos os poetas que eu conhecia, ele era o único que gostava de se chamar de poeta. Pronunciava a palavra sem inibição. Ao contrário: ele a falava com uma liberdade desafiadora. Isso devia ocorrer, é o que me parece, por causa da lembrança das humilhações que sofreu na juventude.

Em países mais afortunados, onde a dignidade humana não é agredida tão facilmente, os poetas almejam ser publicados, lidos e compreendidos, mas fazem pouco, ou quase nada, para se situarem acima do rebanho geral e da roda-viva do dia-a-dia. No entanto, ainda não faz tanto tempo, os poetas se esforçavam para nos escandalizar com suas roupas extravagantes e seu comportamento excêntrico. Tudo isso era só para encher os olhos do público. Sempre chegava a hora em que os poetas tinham de fechar a porta atrás de si, despir suas capas, seus penduricalhos e outras parafernálias poéticas e enfrentar – em silêncio, com paciência, à espera de si mesmos – a folha de papel ainda em branco. Pois, no final, é isso o que de fato conta.

Não é por acaso que filmes biográficos sobre cientistas e artistas célebres são produzidos aos montes. Os diretores mais ambiciosos tentam reconstituir de forma convincente o processo criativo que gerou importantes descobertas científicas, ou o surgimento de uma obra-prima. E se pode retratar certos tipos de atividade científica com algum sucesso. Laboratórios, instrumentos diversos, máquinas complicadas em ação: tais cenas podem prender o interesse da plateia durante algum tempo. E aqueles momentos de incerteza – será que a experiência, realizada pela milésima vez com uma ínfima alteração, produzirá por fim o resultado desejado? – podem ser dramáticos. Filmes sobre pintores podem ser espetaculares, enquanto recriam todos os estágios da evolução de um pintor famoso, desde o primeiro traço a lápis até a pincelada definitiva. A música se expande nos filmes sobre compositores: os primeiros compassos da melodia que soa nos ouvidos do músico emergem, no fim, como uma obra madura em forma sinfônica. Claro, tudo isso é ingênuo, e não explica o estranho estado mental popularmente conhecido como inspiração, mas pelo menos existe algo para se olhar e se ouvir.

Mas os poetas são os piores. Seu trabalho, inapelavelmente, nada tem de fotogênico. Alguém senta a uma mesa ou deita num sofá enquanto olha imóvel para a parede ou para o teto. De quando em quando, essa pessoa escreve sete linhas, só para riscar uma delas quinze minutos depois, em seguida mais uma hora se passa, durante a qual nada acontece… Quem aguentaria assistir a esse tipo de coisa?

Mencionei a inspiração. Poetas contemporâneos respondem de forma evasiva quando lhes perguntam o que é isso, e se existe de verdade. Não é que nunca tenham conhecido a bênção desse impulso interior. Só que não é fácil explicar a uma outra pessoa aquilo que você mesmo não compreende.

Quando ocorre de me perguntarem sobre o assunto, também me esquivo. Mas minha resposta é esta: a inspiração não é um privilégio exclusivo de poetas e artistas. Existe, existiu, existirá sempre certo grupo de pessoas a quem a inspiração visita. É formado por todos aqueles que conscientemente escolheram sua vocação, e fazem seu trabalho com amor e imaginação. Pode incluir médicos, professores, jardineiros – eu poderia fazer uma lista de mais de cem profissões. Seu trabalho se torna uma aventura constante, enquanto forem capazes de continuar a descobrir nele novos desafios. Dificuldades e reveses nunca sufocam a sua curiosidade. Um enxame de questões novas emerge de cada problema que eles solucionam. Seja lá o que for a inspiração, ela nasce de um contínuo “não sei”.

Não existem muitas pessoas assim. A maioria dos habitantes da Terra trabalha para ganhar a vida. Trabalham porque têm de trabalhar. Não escolhem este ou aquele tipo de trabalho por paixão; as circunstâncias de suas vidas fizeram a escolha por eles. Trabalho sem amor, trabalho maçante, trabalho cujo mérito consiste no fato de que outros nem isso têm – aí está uma das mais penosas desventuras humanas. E não há sinal de que os séculos vindouros produzirão qualquer melhora em relação a este estado de coisas.

Assim, embora eu possa recusar aos poetas o monopólio da inspiração, ainda os situo num grupo seleto de favoritos da Fortuna.

Neste ponto, certas dúvidas podem surgir na minha platéia. Toda sorte de torturadores, ditadores, fanáticos e demagogos que lutam pelo poder com um punhado de retumbantes palavras-de-ordem também gostam de seu trabalho, e também cumprem suas obrigações com um fervor inventivo. Bem, está certo: mas eles “sabem”, e o que quer que saibam é o suficiente para eles, de uma vez por todas. Não querem descobrir mais nada, uma vez que isso pode reduzir a força de seus argumentos. Mas todo conhecimento que não leva a perguntas novas se extingue depressa: não consegue manter a temperatura necessária para a conservação da vida. Em casos extremos, bem conhecidos desde a antiguidade até a história moderna, chega a representar uma ameaça letal à sociedade.

É por isso que dou tanto valor à pequena frase “não sei”. É pequena, mas voa com asas poderosas. Expande nossa vida para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como as vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa. Se Isaac Newton nunca tivesse dito a si mesmo “não sei”, as maçãs do seu pequeno pomar poderiam ter caído no chão como uma chuva de granizo – no máximo, teria parado para pegá-las e devorá-las com deleite. Se a minha compatriota Marie-Curie Sklodowska nunca tivesse dito a si mesma “não sei”, na certa acabaria lecionando química em alguma faculdade particular para mocinhas de boas famílias, e terminaria seus dias cumprindo esse trabalho, de resto perfeitamente respeitável. Mas ela não parou de dizer “não sei”, e essas palavras levaram-na, não só uma vez, mas duas, a Estocolmo, onde espíritos inquietos, indagadores, são de tempos em tempos contemplados com o Prêmio Nobel.

Poetas, se autênticos, também devem repetir “não sei”. Todo poema assinala um esforço para responder a essa afirmação, mas assim que a frase final cai no papel, o poeta começa a hesitar, a se dar conta de que essa resposta particular era puro artifício, absolutamente inadequada. Portanto, os poetas continuam a tentar e, mais cedo ou mais tarde, os resultados da sua insatisfação consigo mesmos são reunidos, e presos num clipe gigante pelos historiadores da literatura, e passam a ser chamados de suas “obras”.

Às vezes, sonho com situações que não podem virar realidade. Imagino, por exemplo, que tenho uma chance de trocar umas palavrinhas com o autor do Eclesiastes, aquele comovente lamento sobre a vaidade de todos os esforços humanos. Curvo-me profundamente diante dele, pois é um dos maiores poetas, pelo menos para mim. Depois seguro a sua mão. “Não há nada de novo sob o sol – foi o que você escreveu. Mas você mesmo nasceu novo sob o sol. E o poema que criou é também novo sob o sol, uma vez que ninguém o havia escrito antes de você. E todos os seus leitores são também novos sob o sol – aqueles que viveram antes de você não puderam ler o seu poema. E esse cipreste sob o qual está sentado não cresceu desde o início dos tempos. Nasceu de um outro cipreste semelhante ao seu, mas não exatamente igual.

E, Eclesiastes, eu também gostaria de lhe perguntar que coisa nova sob o sol está agora em seus planos de trabalho. Um suplemento adicional às ideias que já expressou? Ou talvez esteja agora tentado a contradizer algumas delas? Em sua obra inicial, você fez menção à alegria – de que adianta se é fugaz? Então, será que o seu poema novo sob o sol vai falar da alegria? Já tomou notas, fez rascunhos? Duvido que você responda: ‘Já escrevi tudo, não tenho mais nada a acrescentar’. Não existe no mundo nenhum poeta que possa dizer isso, muito menos um grande poeta como você.”

O mundo – o que podemos pensar quando estamos apavorados com a sua amplidão e com a nossa própria impotência, ou quando estamos amargurados com a sua indiferença em relação ao sofrimento individual, das pessoas, dos animais e talvez até das plantas (pois por que estamos tão seguros de que as plantas não sentem dor?); o que podemos pensar sobre as suas vastidões penetradas pelos raios de estrelas rodeadas por planetas que apenas começamos a descobrir, planetas já mortos? Simplesmente não sabemos; o que podemos pensar sobre este teatro imensurável para o qual temos ingressos reservados, mas ingressos cujo prazo de validade é risivelmente curto, delimitado como está por duas datas arbitrárias; o que quer que pensemos sobre este mundo – ele é assombroso.

Mas “assombroso” é um epíteto que oculta uma armadilha lógica. Ficamos assombrados, afinal de contas, por coisas que divergem de alguma norma conhecida e universalmente aceita, de um truísmo ao qual nos habituamos. Mas a questão é que não existe esse mundo óbvio. Nosso assombro existe per se e não se baseia numa comparação com outra coisa.

Claro, na fala cotidiana, em que não paramos a todo instante para ponderar cada palavra, todos usamos expressões como “o mundo comum”, “vida comum”, “o desenrolar comum dos acontecimentos”. Mas na língua da poesia, em que se pesam todas as palavras, nada é usual ou normal. Nem uma única pedra e nem uma única nuvem acima dela. Nem um único dia e nem uma única noite depois dele. E sobretudo nem uma única existência, a existência de nenhuma pessoa neste mundo.

Tudo indica que os poetas terão sempre uma tarefa muito árdua à espera.

Cajueiro

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*Salete Oliveira

o tempo não para,
sem pressa, sem demora, é preciso
gastar o tempo, precioso, eu preciso,
vejo-o passar, minutos, segundos,
colho os instantes, a observar,
germinar de uma castanha,
alegria serena ao olhar,
delicadeza envoltura,
em folhas se abrirá,
ainda não hoje,
amanhã,
o coração,
desabrocha
broto, amor,
acolhe a chuva,
ilumina-se ao sol,
raízes crescem sob o chão,
flores brancas rosadas, miúdas,
desprendem seu perfume ao vento,
surpresas de cachos, profusos frutos,
suculenta carne, castanha, cajueiro.

 

*Salete Oliveira é engenheira química, poetisa, contista.

Pomba Enamorada ou Uma História de Amor

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 Pomba Enamorada ou Uma História de Amor, de Lygia Fagundes Telles, na  Antologia:  Meus Contos Preferidos, Rio de Janeiro, Editora Rocco, 2004.

Trata-se de uma história de amor não correspondido, narrado na terceira pessoa, com alguns diálogos diretos inseridos dentro da narração, sem passagem ou pontuação específica. Observa-se, algumas vezes o diálogo indireto e até o indireto livre quando a passagem do narrador para o personagem se faz de forma quase imperceptível. O enredo está contido num único e longo parágrafo.

O título do conto nos remete a um folhetim, a uma história de amor dessas que enche os altos falantes das festas de rua do interior e as rádios da cidade com pedidos de música através de pseudônimos do tipo Pomba Enamorada, Coração Apaixonado.

Mas também o enredo lembra-nos um conto de fadas. Há um baile no Clube, onde será escolhida a rainha da Primavera. Ela, que ainda não é a pomba enamorada, apenas uma humilde ajudante de cabeleireira, candidatou-se ao título, que não consegue, segundo a sua própria versão, porque o namorado da outra comprou todos os votos. Quando o rapaz a convida para dançar teve tontura, enxugou depressa as mãos molhadas de suor no corpete do vestido (fingindo que alisava alguma prega) e de pernas bambas abriu-lhe os braços e o sorriso. É o seu príncipe! Assim, como nos contos de fada, ela imaginou que seriam felizes para sempre, pois estava decidida a amá-lo por toda vida. O príncipe não era lá muito polido, declarou a sua insatisfação por ela não ter ganhado o concurso porque a rainha é uma bela bosta, com o perdão da palavra.   As únicas palavras que trocaram e que lhe deram a certeza de que ele era seu namorado, ali em seus braços, ao som da Valsa dos Miosótis. Quando o príncipe se afasta dizendo que iria fumar, já dançando o bis da valsa, e  desaparece, ela fica a procurá-lo de forma tão insistente que o diretor do clube quis saber quem era o procurado, e ela não hesita ao dizer, meu namorado. O estranhamento do diretor fez com que, em segundos, desse-lhe o nome (Antenor) e perfil do rapaz (não esquenta o rabo em nenhum emprego…) e acrescentasse maldosamente, embora com ar de distraído enquanto a apertava com força ao som de Nosoutros: É que ele saiu logo depois da valsa, todo atracado com uma escurinha de frente única…

O repertório musical escolhido pela autora para essa festa faz a ambientação do romance, primeiro com o casal dançando a Valsa do Miosótis, depois, quando já o rapaz desaparece e o diretor entra em cena, com Nosoutros.  Pode-se imaginar a cena entre as décadas de sessenta e setenta, em um clube de bairro ou de uma cidade de interior. Mergulhado no tempo e espaço da narrativa o leitor corre os olhos sobre as letras para acompanhar o romance.

Com o endereço dado pelo diretor ela vai procurá-lo na oficina e percebendo que sequer a reconhecia, disse eu sou a princesa do São Paulo Chique, lembra? Lembrou-se, e balançando a cabeça com ar incrédulo, trata de despachá-la, dizendo que qualquer hora daria uma ligada, que guardaria o número do telefone que ela lhe dava, sem sequer se dar ao trabalho de anotá-lo. Não ligou. A personagem, como boa Capricorniana, sabe que jamais irá conseguir algo fácil, que deve lutar o dobro para vencer. E vai à luta. Recorre aos santos, acende velas, faz novenas e telefona, inicialmente, apenas para ouvir a voz e desligar, depois, animada pelo vermute que Rôni lhe dera, amigo e companheiro de trabalho no salão, decide falar. Ela outra vez se apresenta como a princesa do baile e convida-o para ver um filme nacional que estava passando, pertinho da oficina que ele trabalhava. A resposta foi o silêncio, tão longo que ela pensa ter caído a linha. Rôni a socorre com outro vermute e se oferece para falar por ela. A reação de Antenor é tão violenta que Rôni, revirando os olhos associa aquela voz a voz dos mafiosos do cinema. Não, ele não quer ir ao cinema, não quer que lhe telefonem mais, o patrão está puto da vida, e diz que está comprometido e se um dia lhe desse na telha, ELE MESMO TELEFONARIA. Assim, aos berros.

E foram muitas e muitas tentativas, catorze cartas, nove românticas e as demais eróticas, estas últimas ela acabou não enviando. Todas assinadas com o pseudônimo de Pomba Enamorada que ao longo do tempo resumiu para P.E. Antenor, insensível aos apelos da pombinha, foi num crescente caprichando na rejeição grosseira. Mas ela não desiste.

Quando soube por um chofer de praça muito bonzinho, amigo de Antenor, que ele estaria se casando naquele dia, justo quando acabara de levar pratinho de doces para São Cosme e São Damião, não chorou, foi ao crediário do Mappin, comprou um licoreiro, escreveu um cartão desejando-lhe todas as felicidades do mundo, pediu ao Gilvan que levasse o presente, escreveu no papel de seda do pacote um P.E. bem grande (tinha esquecido de assinar o cartão) e quando chegou em casa bebeu soda cáustica.

Ela sai do hospital amparada pelo chofer de praça, que se torna seu marido, pouco tempo depois. Mas não desliga o GPS continua acompanhando as passadas de Antenor e enviando postais dando conta da sua vida, da sua televisão à cores, seu canário e seu cachorrinho chamado Perereca. Apesar das constantes mudanças de emprego do rapaz ela o localiza e escreve colando um amor- perfeito seco na carta. E os anos foram se passando, e as cartas da Pomba Enamorada se sucedendo, até que, no noivado da sua filha caçula foi a uma cartomante que disse que ela fosse à estação rodoviária no próximo domingo, onde veria chegar um homem que mudaria por completo sua vida, cujo nome começava por A.

No domingo, ela deixa a neta com uma comadre, veste o vestido azul-turquesa das suas bodas de prata, confere que o horóscopo do dia lhe é favorável e  vai à rodoviária.

O final do conto está aberto. Se o leitor for muito positivista vai pensar que ela irá encontrar Antenor e ele mais uma vez vai rejeitá-la com grosseria. Caso o leitor seja romântico ao extremo, fará o seu final com Antenor e Pomba Enamorada caindo nos braços um do outro. Ou ainda, se ele for cético vai deixá-la horas aguardando na rodoviária em vão, porque ninguém pode dar crédito ao que diz uma cartomante. Enfim, brincamos um pouco na Oficina com os possíveis finais do conto e os viageiros ficaram de dar continuidade, escrevendo eles mesmos o que aconteceu nesse encontro, desencontro ou qualquer que seja, porque como escritores muito criativos, eles irão dar asas  à imaginação.

Lygia Fagundes Telles é uma das maiores escritora do Brasil. Transformar uma história comum de amor não correspondido numa obra literária de tamanha beleza é preciso muito maestria. Que venha o grande prêmio literário para ela!

Jaboatão dos Guararapes, 12 de setembro de 2016

Lourdes Rodrigues