Poesia, às Quartas-Feiras

Quarta-feira, dia 18 de novembro, Salete, viageira poeta sempre presente nesse blog, trouxe-nos o gaúcho Mário Quintana, tanto alguns poemas como dados biográficos. Quem melhor definiu esse grande mestre da literatura poética foi Manuel Bandeira:

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Quinta-essência de cantares…
Insólitos, singulares…
Cantares? Não! Quintanares!

Quer livres, quer regulares,
Abrem sempre os teus cantares
Como flor de quintanares.

São cantigas sem esgares.
Onde as lágrimas são mares
De amor, os teus quintanares.

São feitos esses cantares
De um tudo-nada: ao falares,
Luzem estrelas luares.

São para dizer em bares
Como em mansões seculares
Quintana, os teus quintanares.

Sim, em bares, onde os pares
Se beijam sem que repares
Que são casais exemplares.

E quer no pudor dos lares.
Quer no horror dos lupanares.
Cheiram sempre os teus cantares

Ao ar dos melhores ares,
Pois são simples, invulgares.
Quintana, os teus quintanares.

Por isso peço não pares,
Quintana, nos teus cantares…
Perdão! digo quintanares.

Além de poeta, cronista, autor de literatura poética infantil Quintana foi um grande tradutor, trazendo para o português obras fundamentais da literatura como Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf, Contos e novelas, de Voltaire, vários romances de Honoré de Balzac, Somerset Maugham, Graham Greene, Guy Maupassant, Conrad, entre outros.

Apesar de seu grande valor literário, não conseguiu ser aceito na Academia Brasileira de Letras. Na sua terceira tentativa ele compôs o seguinte poema:

Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!
 
(Prosa e Verso, 1978)

Os poemas lidos na Oficina por Salete foram esses:
 

Os caminhos estão cheios de tentações

*Mário Quintana

Os caminhos estão cheios de tentações.
Os nossos pés arrastam-se na areia lúbrica…
Oh! tomemos os barcos das nuvens!
Enfunemos as velas dos ventos!
Os nossos lábios tensos incomodam-nos como estranhas mordaças.
Vamos! vamos lançar no espaço – alto, cada vez mais alto! – a rede das estrelas…
Mas vem da terra, sobe da terra, insistente, pesado,
Um cheiro quente de cabelos…
A Esfinge mia como uma gata.
E o seu grito agudo agita a insônia dos adolescentes pálidos,
O sono febril das virgens nos seus leitos.
De que nos serve agora o Cristo do Corcovado?!
Há um longo, um arquejante frêmito nas palmeiras, em torno…
A Noite negra, demoradamente,
Aperta o mundo entre os seus joelhos.

*Mario Quintana – Aprendiz de Feiticeiro, 1950

A Pálpebras Estão Descidas

Mario Quintana

As pálpebras estão descidas
E as mãos em cruz sobre o peito…
Mas quem é que pisa em vidros?
Quem estala os dedos no ar?
As pálpebras estão descidas.
Não mastigues folhas secas!
Não mastigues folhas secas,
Que te pode fazer mal…
– Quem é que canta no mar? ?
As mãos repousam no peito.
E eu quero ver se bem cedo
Pescam meu corpo em Xangai.

Encontrei no You Tube uma das últimas entrevistas de Mario Quintana que posto aqui neste blog.

Uma ideia sobre “Poesia, às Quartas-Feiras

  1. muito bom ver o vídeo, não o tinha visto,
    pra mim ele continua vivo, como um passarinho
    que visita a varanda a cada manhã, e come as pimentas maduras
    grata!

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