Poesia às Quartas-Feiras

Nessa última  quarta-feira tivemos Sylvia Plath e Calderon de La Barca, duas escolhas excelentes.

A poesia de Sylvia Plath foi trazido pela nossa querida viageira Adelaide Câmara que já havia feito um ensaio sobre a poetisa americana intitulado  Quando Escolher é Dizer “Sylvia Plath: ‘A escritura fica: sozinha percorre o mundo'”para apresentação numa das Jornadas do Traço. Esse ensaio está na Revista Veredas nº9. 

Ela nos trouxe Espelho (em inglês e versão para o português não identificada a autoria)  Palavras (tradução de Ana Maria César). Adelaide, inclusive,  fez restrição à tradução de replaces por repõe no poema (…seu rosto repõe a escuridão.) preferindo, em seu lugar, substitui.

ESPELHO

Sylvia Plath

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, desembaçado de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, desbotada. Há tanto tempo olho para ela
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ela falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.

Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vem e vai.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.

23 de outubro de 1961

 

MIRROR

Sylvia Plath

I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful —
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.
(23 October 1961)

Por orientação de Adelaide encontrei alguns vídeos no Youtube com o poema e escolhi esse filme de E Irving, principalmente, por causa da  voz de M..Wagner que para mim traduziu bem o sentimento que perpassa cada verso.

O segundo poema lido Palavras:

PALAVRAS

Sylvia Plath

Golpes
De machado que fazem soar a madeira,
e os ecos!
Ecos partem
Do centro como cavalos.

A seiva
Jorra como lágrimas, como a
água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e rola,
Crânio branco
Comido por ervas daninhas.
Anos depois as encontro
Na estrada —

Palavras secas e sem rumo,
Infatigável bater de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço estrelas fixas
Governam uma vida.

(Tradução: Ana Cristina César)

 

Levei para os oficineiros alguns trechos de Os diários de Sylvia Plath – 1950-1962, editados por Karen V. Kukil, tradução de Celso Nogueira, que foi publicado pela Editora Globo. Não por acaso, evidente, selecionei algumas notas de Sylvia Plath sobre as suas sessões com RB, como assim denomina no diário a sua analista. Na verdade, não sei se era análise no sentido formal o que ela fazia, mas pela sua disposição para as sessões fica claro que a sua intenção era essa:

Se eu vou pagar  pelo tempo e cérebro dela, como se estivesse fazendo supervisão da vida e das emoções e o que fazer de ambas, então vou trabalhar para danar, questionar, revirar a lama e o lixo e me obrigar a tirar o máximo proveito disso.

Desde quarta-feira sinto-me “uma nova pessoa”. Como se tomasse um gole de conhaque, cheirasse cocaína e isso me pegou de jeito, estou viva e presente. Melhor do que tratamento de choque: “Eu lhe dou permissão para odiar sua mãe”.

Esta suposta permissão para odiar a mãe, libertando-a do Pássaro do Pânico em seu coração, foi fundamental para instalar as bases do processo de transferência com a sua analista que passou a ser vista como aquela a quem ela poderia:  confiar qualquer coisa, sem que fique arrepiada ou ralhe comigo ou pare de me escutar, o que é um sucedâneo agradável para o amor.

O ódio pela mãe tem raízes bem edipianas, conforme ela mesma o diz em suas notas: Quanto a mim, jamais conheci o amor de um pai, o amor de um homem sólido, com laços de sangue, após a idade de oito anos, Minha mãe matou o único (o grifo é meu) homem que me amaria incondicionalmente pela vida afora:apareceu certa manhã com lágrimas generosas nos olhos e contou que ele se fora para sempre. Eu a odeio por isso.

Falando desse ódio e se perguntando como manifestá-lo ela diz:

Nas emoções mais profundas penso nela como um inimigo: alguém que “matou” meu pai, meu primeiro aliado masculino no mundo. Ela é uma assassina da masculinidade. Deito-me na cama quando penso que minha mente ficará vazia para sempre e penso no regozijo que seria matá-la, estrangular sua garganta magra cheia de veias que nunca pôde ser grande o bastante para me proteger do mundo. Mas eu era boa demais para matar. Tentei me matar: para deixar de ser um constrangimento para as pessoas que amo e para me livrar do inferno do vácuo mental. Muito bem: Faça a ti o que faria aos outros. Eu seria capaz de matá-la, por isso me matei.

A primeira tentativa de suicídio de Sylvia Plath foi em 1953, vitimada por uma depressão profunda. A família internou-a para tratamento psiquiátrico. Quando se recuperou, retornou os estudos no Smith College e a vida literária, recebendo vários  prêmios. Em 1956, casa com Ted Hughes, também poeta, após três meses de namoro. Em 1963, dez anos após a primeira tentativa de suicídio, numa manhã gelada,  Sylvia,  veda cuidadosamente o quarto dos filhos, e deixa um copo de leite ao lado de cada cabeceira, liga a torneira do gás de cozinha, inspira o ar e morre asfixiada por não suportar mais a profunda depressão que a assolou após se separar do marido que estava envolvido com outra mulher.

Encontrei no Youtube um vídeo com Sylvia Plath fazendo a leitura do seu poema Papai, Daddy que postamos aqui. Segundo Jairo Pereira, a poesia de Sylvia Plath é confessional e Papai é um aula de exorcismo poético.

 

 

*PAPAI

Sylvia Plath

Você não serve, você não serve,
Não serve mais, sapato negro
Em que eu vivi como um pé
Por trinta anos, branca e pobre,
Mal me atrevendo a um espirro sequer.

Eu tive de matar você, papai.
Você morreu antes que eu pudesse –
Peso de mármore, saco repleto de Deus,
Estátua medonha com um dedão gris
Do tamanho de uma foca de Frisco*

E uma cabeça onde o estranho Atlântico
Derrama o verde-vagem sobre o azul
Nas águas da magnífica Nauset.
Eu rezava para recuperá-lo
Ach, du.

Na língua alemã, na vila polonesa
Aterradas pelo rolo-compressor
Das guerras, guerras, guerras.
Mas o nome do lugar é comum.
Diz meu amigo polaco
Que há uma ou duas dúzias.
Assim nunca soube onde você
Fincou seus pés, suas raízes,
Com você nunca pude falar.
A língua presa no maxilar.

Arapuca de arame farpado.
Ich, ich, ich, ich,
Mal conseguia dizer.
Em todo alemão vi você.
E a linguagem obscena

Uma locomotiva, uma locomotiva
Em vapores me leva como Judia.
Uma Judia para Dachau, Auschwtiz, Belsen.
Passei a falar como uma Judia.
Acho que bem posso ser Judia.

A neve do Tirol, a cerveja clara de Viena
Não são lá muito puras ou genuínas
Com minha ancestral cigana, minha estranha sina
E meu baralho de tarô, meu baralho de tarô
Eu devo ser um pouco Judia.
Você sempre me meteu medo,
Com sua Luftwaffe, seu papo furado.
E o seu bigode asseado
O olho ariano, bem azulado.
Homem-panzer, homem-panzer, oh Você –

Não Deus, mas uma suástica.
Tão negra que nem céu vara.
Toda mulher adora um Fascista,
A bota na cara, o bruto
Coração de um bruto da sua laia.

Você está de pé na lousa, papai,
Na imagem que levo comigo,
Em vez do pé, o queixo fendido,
Mas não menos diabo por isso, oh não
Não menos que o homem que em dois

Partiu meu belo e rubro coração.
Eu tinha dez anos quando o enterraram.
Aos vinte, eu tentei morrer
E voltar, voltar pra você.
Achei que mesmo os ossos serviram.

Mas me puxaram saco afora,
Juntaram meus pedaços com cola.
E aí eu soube o que fazer.
Eu fiz um modelo de você,
Homem de negro, Meinkampf no jeito

À tortura e ao torniquete afeito.
E eu disse aceito, aceito
Então, papai, finalmente acabei.
Arranquei o telefone negro da raiz,
As vozes já não rastejam até aqui.

Se matei um homem, matei dois –
O vampiro que me disse ser você
E sugou meu sangue por um ano afora,
Sete anos, se quiser saber
Papai pode voltar a se deitar agora.

Há uma estaca em seu coração negro
E os homens da vila jamais gostaram de você.
Estão espezinhando, dançando sobre você.
Eles sempre souberam que era você.
Papai, papai, seu canalha, acabei.

 

* Extraído do texto Sylvia Plath: quatro “poemas-porrada”, publicado nos Cadernos de Literatura em Tradução, n. 7.

 

Também foi lido um trecho da peça de Calderón de La Barca que o nosso querido viageiro Everaldo Júnior nos enviou por email. Com essa peça o autor inaugura de forma estrondeante o barroco no teatro espanhol. Trata-se de uma tragédia em que, similar a Édipo o Rei, há um presságio de que o filho do rei que está para nascer irá cometer muitas atrocidades. Acontece, que a mãe morre ao lhe dar a luz e o pai, rei da Polonia,  o prende em uma torre para que nunca possa ameaçar a sua vida e o seu reino. Quando ele já está adulto o pai arrependido manda soltá-lo para ver o que acontece. Para isso ele manda narcotizar o filho para quando ele acordar já estar no palácio, vestido como um príncipe. E tentariam faze-lo entender que tudo não passou de um sonho.O trecho que ora postamos se refere ao momento em que Segismundo, após viver as honrarias e pompas no palácio de seu pai, o rei Basílio, começa a fazer os desmandos que haviam sido vaticinados e o rei manda outra vez narcotizá-lo e devolver à torre onde sempre havia sido mantido prisioneiro. Quando ele acorda, desespera-se por, esse retorno à desgraçada condição de prisioneiro . O seu carcereiro então o convence de que tudo que ele viveu não passou de um sonho e acrescenta que, mesmo em sonhos, ele deveria ter praticado boas ações.

*VIDA É SONHO

Pedro Calderón de La Barca

É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.
* Trecho extraído do www.deleituras.com/cronicas/avidaeumsonho.htm

Jaboatão dos Guararapes, 20 de setembro de 2015

Lourdes Rodrigues

2 ideias sobre “Poesia às Quartas-Feiras

  1. Lourdinha, grata pelos poemas no original e pelas informações. Muito bom ouvir a própria autora declamando e sonoridade dos poemas. Grata pelo grupo!

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