Poesia às Quartas-feiras

 

A MULHER QUE PASSA

Vinicius de Moares, Rio de Janeiro , 1938

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

O poema trazido por Mônica, nossa viageira arquiteta, amante das artes e da literatura, veio sem o nome do autor para que o descobríssemos. Não foi difícil porque à medida que ela ia lendo as imagens de A mulher que passa iam sendo associadas à Garota de Ipanema e, consequentemente, a Vinicius de Moraes, o seu coautor. A mulher que passa é de 1938, nos primórdios de sua carreira de poeta. Consta na sua biografia que em 1938 ele havia ganho uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesa na Universidade de Oxford. Diria bem mais que a convivência com os poetas ingleses havia mudado o seu estilo tonando-o “mais conciso e mais enxuto” ao invés de caudaloso e grandiloquente de até então.

Sobre Vinícius disse Manuel Bandeira:

{Vinícius de Moraes tem} o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a perícia dos parnasianos (sem refugar, como estes, as sutilezas barrocas), e, finalmente, o homem bem do seu tempo, a liberdade {…} dos modernos.

Anos mais tarde, em 1962, Vinicius de Moraes faz a letra e Tom Jobim a música de Garota de Ipanema que postamos a seguir.

Jaboatão dos Guararapes, 28 de setembro de 2015

Lourdes Rodrigues

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dois × 2 =