Poesia, às Quartas-Feiras

Salomé iria trazer seus poemas preferidos na última quarta-feira, mas não pôde ir à Oficina, por motivo de força maior, e adiou para a próxima semana. Mais uma vez a nossa viageira Adelaide nos socorreu e retirou do seu iPad  duas poetas de primeira grandeza: Sophia Breyner, portuguesa, e a brasileira Cecília Meireles.

De Sophia Breyner foram lidos dois poemas que remetem à beleza, pureza e solidão da criação poética:SofiaMelloBreynerAndersen2012

A bela e pura

A bela e pura palavra Poesia
Tanto pelos caminhos se arrastou
Que alta noite a encontrei perdida
Num bordel onde um morto a assassinou.

A escrita

No Palácio Mocenigo onde viveu sozinho
Lord Byron usava as grandes salas
Para ver a solidão espelho por espelho
E a beleza das portas quando ninguém
Passava

Escutava os rumores marinhos do silêncio
E o eco perdido de passos num corredor
Longínquo
Amava o liso brilhar do chão polido
E os tetos altos onde se enrolam as sombras
E embora se sentasse numa só cadeira
Gostava de olhar vazias as cadeiras

Sem dúvida ninguém precisa de tanto espaço vital
Mas a escrita exige solidões e desertos
E coisas que se veem como quem vê outra coisa

Podemos imaginá-lo sentado à sua mesa
Imaginar o alto pescoço espesso
A camisa aberta e branca
O branco do papel as aranhas da escrita
E a luz da vela – como em certos quadros –
Tornando tudo atento

 

Encontrei outras poesias de Sophia Breyner na internet, um deles na voz de Maria Betânia que aproveito a oportunidade para compartilhar aqui.

 

 

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Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919/2004), descendente de dinamarquês pelo lado paterno, foi uma das mais importantes poetisas portuguesas, a primeira mulher portuguesa a receber o Prêmio Camões. O seu corpo está no Panteão Nacional desde 2014, onde estão grandes navegadores como Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, e famosos da literatura como Camões, Almeda Garrett, entre outros.assuncao_esteves_e_cavaco_trasladaçao_Sophia_Panteao_MARIO_CRUZ_LUSA448442b6_664x373

Filha de Maria Amélia e João Henrique Andresen, este bisneto de Jan Heinrich, dinamarquês que chegou ao Porto e nunca mais abandonou a cidade, tendo o seu filho João Henrique comprado a Quinta do Campo Alegre, onde hoje é o Jardim Botânico do Porto. A casa sempre foi tema poético para Sophia que, certa vez, declarou sobre essa quinta e a sua infância: foi um território fabuloso com uma grande e rica família servida por uma criadagem numerosa. A sua mãe era filha do conde de Mafra, médico e amigo do rei D. Carlos, aquele que foi assassinado junto com o seu filho nos estertores da monarquia.Este assassinato foi descrito no livro do filho de Sophia Breyner, Miguel de Souza Tavares, Rio das Flores.  Maria Amélia era neta do conde Henrique de Burnay, um dos homens mais ricos daquela época. Tornou-se ativista política em prol da liberdade e da monarquia, denunciando sempre o regime ditatorial de Salazar. A sua Cantata da Paz ficou célebre como canção de resistência à injustiça social, às atrocidades:

Cantata de paz

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

DÁfrica e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.

Ela foi casada com o jornalista, político e advogado Francisco de Souza Tavares e foi mãe de cinco filhos, entre eles, o jornalista e escritor de renome Miguel de Souza Tavares, autor de vários livros, a exemplo do já citado Rio das Flores e de Equador, muito bons tanto sob220491 o ponto de vista literário, como pelo registro dos fatos histórico de Portugal e parcialmente do Brasil e da escravidão num país africano.

 

Ela foi muito premiada pela sua obra poética, recebendo grandes prêmios, entre eles o de Camões.Sophia Breyner faleceu aos 84 anos. Por decisão unânime da Assembléia da República o seu corpo se encontra no Panteão. Estão lá no  Oceanário de Lisboa, nas zonas de descanso da exposição,  os seus poemas sobre o mar para que os visitantes absorvam a força da sua escrita enquanto estão imersos numa visão de fundo do mar. Sophia Mello Breyner Parque Poetas

 

 

 

Além de Sophia Breyner, Adelaide Câmara nos trouxe Cecília Meireles com o poema tão belo quanto forte porque traz o tema da Morte:Tu tens um Medo

ceciliaTu Tens um Medo

Cecília Meireles

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo…
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos…
Enganados…
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor…
… E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

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