Poesias, às Quartas Feiras

Continuamos com o nosso momento poético, toda quarta-feira, no início da Oficina. A última vez tivemos João Cabral de Melo Neto trazido por João Gratuliano.

João Cabral sempre teve espaço privilegiado na Oficina, aqui e ali o poeta e trechos de suas poesias surgiam. Teresa Sales, navegante das primeiras horas, agora em viagem particular e amorosa pelas Minas Gerais, publicou excelente livro sobre um suposto (ficcional) encontro entre dois ilustres pernambucanos: Josué de Castro e João Cabral, pela Editora Cortez, que todos devem procurar ler.

João Gratuliano trouxe vários poemas e um vídeo do autor falando sobre a sua visão de poesia. Aqui ficam registrados esses momentos.Joao-Cabral-610x350

João Cabral de Melo Neto, poeta, diplomata brasileiro, nasceu na cidade do Recife em 1920. Cidade que ele trouxe para os poemas através dos seus rios.

Primo de Manuel Bandeira, pelo lado paterno, e de Gilberto Freire, pelo lado materno, pode-se dizer que a poesia, a literatura, a sociologia faziam parte do seu DNA, elementos fundamentais na sua escrita poética..  Passou a infância em engenhos de açúcar, conhecendo de perto o funcionamento, as relações de trabalho, as condições de vida dos trabalhadores da cana de açúcar. Mas, o poeta gostava mesmo era de futebol. Com a mudança da família para o Recife ele se tornou campeão juvenil do Santa Cruz Futebol Clube em 1936, aos 15 anos de idade. O seu primeiro emprego formal, entretanto, se deu na Associação Comercial de Pernambuco; depois, no Departamento de Estatística do Estado. Por essa época já mostrava o seu interesse pela literatura, participando de encontros literários com Vicente do Rego Monteiro, entre outros.

Foi quando a família se mudou para o Rio de Janeiro, contudo, após os anos 40, que seu interesse pela literatura se consolidou: apresentado a Murilo Mendes  a Carlos Drummond de Andrade e ao círculo de intelectuais que se reunia em torno de Jorge de Lima. Em 1942 publica o primeiro livro, Pedra do Sono. Aprovado em concurso no Rio de Janeiro, continua a frequentar os intelectuais que agora se reuniam no Cafe Amarelinho e Café Vermelhinho, quando publica Os três mal-amados na Revista do Brasil.  Em 1945, publica O Engenheiro. Logo depois faz concurso para ingressar na carreira diplomática. Casa-se em fevereiro de 1946 com Stella Barbosa e em dezembro nasce Rodrigo. No ano seguinte vai para o Consulado Geral de Barcelona, como vice-cônsul. A atividade literária se intensifica com a aquisição de uma tipografia  artesanal que passa a publicar escritos de brasileiros e espanhóis. Em 1950 é transferido para Londres, ali publica O Cão sem Plumas. Dois anos depois, volta ao Brasil para responder inquérito que o acusa de subversão.Escreve o livro, O rio, em 1953,.Enquanto responde inquérito é afastado do Itamaraty, fica em disponibilidade, sem rendimentos e começa a trabalhar como jornalista. Arquivado o processo, ele volta à Recife com a família, onde é recebido com muitas homenagens. Um ano depois, é reintegrado à carreira diplomática, passando a trabalhar no departamento cultural do Itamaratiy. Nasce a sua filha Isabel e ele recebe prêmio da Academia Brasileira de Letras.

Em 1956, a Editora José Olympio publica Duas Águas com todos os seus livros anteriores e os inéditos: Morte e Vida Severina,  Paisagens como figuras e Uma faca só lamina. Transferido para Barcelona, passa a residir em Servilha para fazer pesquisas históricas no Arquivo das Índias. Volta ao Brasil, para assumir o cargo de chefe de gabinete do Ministro da Agricultura, no Governo de Jânio Quadros. Com a renúncia deste vai para Madri, depois muda-se para Sevilha. Em 1964 é removido como conselheiro para a Delegação do Brasil junto às Nações Unidos, em Genebra, onde nasce o seu quinto filho.Como conselheiro, muda-se para Berna.

Em 1966, O Teatro da Universidade Católica de São Paulo produz o auto Morte e Vida Severina, musicado por Chico Buarque, encenado em várias cidades brasileiras, depois no festival de Nancy, em Paris, depois em Lisboa, Coimbra e Porto. Em Nancy ele recebe o prêmio de Melhor Autor Vivo do Festival.. A Educação pela Pedra lhe dá o prêmio Jabuti . Em 1967 volta a Barcelona como cônsul geral. Em 1968 é eleito para a Academia Brasileira de Letras. O seu périplo por embaixadas continuou até 1990 quando se aposentou e publicou Sevilha andando. 

Atormentado por uma dor de cabeça crônica, ao saber que sofria de uma doença degenerativa incurável, inclusive que o cegaria, afastou-se da escrita, tendo a sua segunda esposa Marly passado a escrever para ele alguns textos. Quando recebeu o Prêmio Luís Camões, foi ela que escreveu  o discurso de agradecimento, Como não era admirador da música, a depressão foi se intensificando e ele acabou perdendo a vontade de falar, Não tenho muito o que dizer,,

Em 1999 o nosso grande poeta, o mais próximo que tivemos como pernambucano de um prêmio Nobel, calou-se para sempre, mas a sua obra o perpetuou e continua sendo lida, representada, cantada em todo o Brasil e grande parte do mundo..

Tecendo a Manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

O Cão Sem Plumas

 

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Uma Faca só Lâmina

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse um
vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

Alguns Toureiros

 

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida.

 

Morte e Vida Severina

 

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.

O Relógio

 

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Umas vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade.

Difícil Ser Funcionário

 

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu…

A Educação pela Pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, frequentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.

Fábula de um Arquiteto

 

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tecto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até fechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.

Num Monumento à Aspirina

 

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.

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