Sábado de Zé Pereira

sapatos

Sábado de Zé Pereira

* Maria Salete Oliveira

Porque hoje é sábado…

Sábado esperado,
aguardado ansiosamente não só pelos foliões… também pelas sapatilhas.

As pequenas nódoas e esfarrapados leves ganhaste no Lily,
Nem sabes que caminhos irás enfrentar mas teu destino será cumprido,
Foliar por aí, passear por aí, descobrir a quentura do asfalto, o sabor das águas limpas e sujas, restos de frutas, farrapos, lixo, esgotos, até mesmo cocô de cachorro.
Vais aprender como se dança um frevo, maracatu, caboclinhos, samba,
distinguir o frevo canção do de rua, das marchinhas,
com certeza jamais esquecerás Vassourinhas ou o Hino do Ceroulas,
o frêmito dos pés no calcar das danças,
a leveza de estar no ar ou no chão,
pés em pontas para ver o bloco passar, os shows.
Reconherás os inchaços, o cansaço,
experimentarás o gosto de cerveja, derramada nos encontros ao subir ladeiras, entre abraços e beijos,
Ah! Tens bom gosto… queres ir ver o show de Paulinho da Viola no Pátio de São Pedro?
Então terás que renunciar a Olinda no sábado de Zé Pereira.
Aguentarias ficar em casa hoje,
ouvindo à distância os sons do carnaval,
vendo o Galo na TV?
Os pés já disseram que sim, hoje vão sair.
E tu, que me dizes?
Sim, a vida é cheia de escolhas.
O que se experienciar?

* Maria Salete Oliveira, engenheira química, poeta, cronista, ficcionista.

Salete é uma viageira de pouco tempo na oficina, cerca de um (01) ano, mas uma maruja de primeira linha, destemida, sonhadora, apaixonada, movida pelo sentir tão indispensável a uma aventura como essa que nos propomos. Os seus escritos, os seus poemas, os monólogos tão intimistas estão sempre a nos tocar pela beleza, densidade, sensibilidade. Neste poema ela nos fala do carnaval com uma bela viagem pelo sentir das suas sapatilhas e nos comove com as palavras e a imagem que nos envia. Mesmo quando o carnaval ainda estava por chegar ela já escrevia, dirigindo-se ao folião indeciso:

Ao folião indeciso

Maria Salete Oliveira

Janeiro corre ligeiro,
Já está vindo fevereiro,
Vem quase pareado o danado,
calor pegando fogo,
Ao povo prometendo o frevar, pelas ladeiras de Olinda, ruas do Recife,
Com As Virgens, Eu Acho é Pouco, Ceroulas, Blocos Líricos, Eu quero é Mais!
E o Lili, e O Piano,
Que nem sei se saem mais?
Sei que tem O Nada que a cada ano enche mais e de vazio não tem nada,
O Pisando na Jaca onde a gente se encontra, rememora, comemora…

Costuram-se fantasias, pregam-se adereços,
Madrugada a dentro na preparação,
Já já é mais um começo, carnaval em meio de mês,
Quando nem se pensou já chegou,
Se brincar já passou,
Esse ano não tem mais,
Não perca dessa vez.

Pegue sua coragem, pendure sua preguiça, desarme a rede,
Guarde os livros bem guardados, pelo menos um só dia,
Vá ver O Homem da Meia Noite, A Mulher do Dia,
Suba as ladeiras, entre embaixo do dragão,
Ande no chão esquentado, esfrie no chão molhado de sujo, suor, cerveja,
Tome um banho de chuva ao levantar do sol,
Vá dormir embalado pelo sono da folia,
Reveja os amigos, dê prova que está vivo,
Diga até para o ano!
Eu Acho é Pouco, Eu quero é Mais!

Salete sempre me lembra a música de Gonzaguinha, O Que é, O que é? especialmente quando ele diz:

Eu fico com a pureza das respostas das crianças:
É a vida! É bonita e é bonita!
Viver e não ter a vergonha de ser feliz,
Cantar,
A beleza de ser um eterno aprendiz.

Jaboatão dos Guararapes, madrugada do domingo, após o sábado de  Zé Pereira.

                                          Lourdes Rodrigues

Máscaras & velhos carnavais

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 *Maria Salete Oliveira

Uma foi guardiã à porta de casa, no sábado de Zé Pereira, anunciando o carnaval, 
Outra acordada muito cedo, 
tomou caldo no Pinto do Galo da Madrugada,
ouviu versos junto à estátua
de 
Ascenso Ferreira, sua companheira brincou de Colombina, juntou-se à endiabrada, enfrentaram dragões.

Uma se extasiou olhando o galo…

Outras choraram de emoção nas ladeiras de Olinda,
ao som da orquestra do Ceroulas, irreverência da Mangueira,
do fogo do Eu Acho é Pouco, 
em Recife fazendo reverências ao Batutas de São José e Blocos Líricos, maracatus e caboclinhos…

Uma viu o amor passar, se prender num olhar,
sobre a cabeça recolhida
assistiu ao primeiro beijo,
aspirou a doçura dos volteios de confetes e serpentinas, assistiu ao frevo rasgado do Vassourinhas,  ao amanhecer descansou no chão.

 *Maria Salete Oliveira –  engenheira química, poeta, ficcionista, cronista