Escrituras III – Manuscritos de Viagem

A Paixão pelas Palavras
Lourdes Rodrigues

Mais de uma década ao mar. Viagens longas, viagens curtas, sempre de olho no Traço-Porto-Seguro para fugir das arrebentações, das tormentas. Poder voltar sempre foi o que nos deu coragem de içar velas e enfrentar as ondas numa nova viagem.

Escrituras I e II mapearam as rotas dos oito primeiros anos, suas aventuras, suas emoções. Escrituras III – Manuscritos de Viagem representa as milhas náuticas percorridas em 2016. E a celebração pelo retorno das nossas estrelas guias que durante dois anos não navegaram; pela chegada dos novos viageiros, recebidos com guirlandas de flores em volta do pescoço pelos navegantes; e pelos marujos que se mantiveram firmes e indiferentes aos cantos das sereias, de olhos voltados para as águas turbulentas até o final da travessia.

Escrituras III – Manuscritos de Viagem registra o resgate da alegria dos primeiros tempos, de novos impulsos criadores, da exacerbação do sentir tudo de todas as maneiras, como dizia Fernando Pessoa, na poesia de seu heterônimo Álvaro Campos.

Os nossos viageiros são seres muito especiais que navegam pelos mares das palavras e das artes plásticas. Todas as imagens são de Anita Dubeux e de Paulo Tadeu, da capa às cortinas separadoras dos textos. Quase todos fazem poesia, líricas, com rimas, sem rimas, de cordel, prosa poética: Anita Dubeux, Eleta Ladosky, João Gratuliano, Luzia Ferrão, Salomé Barros, Salete Oliveira. E nossas tardes se enchem de encanto! Adelaide Câmara garimpa pérolas poéticas, com a poesia na alma, de olhos e ouvidos atentos para que não lhe escape um grande poema, embora teime em dizer que prefere a prosa ao verso, como modo de arte. Todos são ficcionistas, a prosa é a praia deles e escrevem com muito apuro.

Everaldo Soares, marujo dos primeiros tempos, nosso Ismael, transita com desenvoltura pelos mares das palavras não ditas, em face do seu perfil de psicanalista, com escuta especialmente arguta. Escreveu o conto O Feio, da releitura do Patinho Feio, trazendo à tona mal-estar imprevisível, interior, daquele que se sente diferente, quer pela feiura ou seus desconcertos, mas que mantém posição e não procura assemelhar-se ou desassemelhar-se com sua tribo. O seu patinho, apesar dos percalços vividos, não arreda pé de não cantar. Na temática do duplo, defendeu a ideia de que o duplo tem a ver com a constituição do eu e do outro, usando para isso o Estádio do Espelho de Lacan. O duplo é um outro perseguidor, geralmente do mesmo sexo, paranóico e destrutivo, que fracassa onde as pessoas comuns são vitoriosas, segundo Freud. Everaldo diz que a constituição do eu é erótica e mortífera, e a morte é fundamental para criação de símbolos: a palavra mata a coisa. Para ele, assim como para nós, a subjetividade é essencial ao trabalho da ficção. Por isso, a Psicanálise e a Literatura andam sempre juntas.

Cacilda Portela é resenhista, ensaísta, aqui e ali mergulha na escrita de um conto. O melhor crítico literário é João Gratuliano, nada escapa ao seu olhar. É o nosso Harold Bloom. Teresa Sales voltou, para a nossa alegria, a escrever suas prosas, contos e crônicas. Roberta Aymar, viageira de alguns portos, sempre a trazer contribuições inestimáveis.

Traçar cartas náuticas com esses viageiros tão destemidos e criativos nas artes e na literatura é saber que vamos mergulhar em mares profundos e fazer grandes e intensas viagens em que o riso, a alegria será sempre a bandeira hasteada. Mesmo quando o tema é difícil, o riso escapa para quebrar a tensão.

A Carta de Navegação 2016 põe em evidência a complexidade do ser humano, a partir de coordenadas fornecidas pela poesia, pela criatividade dos viageiros e pelos mergulhos entre linhas e silêncios dos escritos de autores selecionados pela sua alta conta na Literatura. Os escritores, como bem disse Freud, são seres que conhecem uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra com as quais a nossa filosofia ainda não nos deixou sonhar.

No eixo Poesia, criou-se o Momento Poético, ocasião em que líamos os poetas preferidos ou as nossas próprias criações. Mais que um batismo para iniciação de cada percurso da viagem, tornou-se o instante em que cada viageiro pode mergulhar no mais profundo de seu ser e fazer a sua travessia muito particular. Grandes poetas por ali passaram. Começamos por Charles Baudelaire, lendo Gênio do Mal, tradução de Delfim Guimarães, que Adelaide Câmara descobriu, após exaustivas pesquisas, não existir na obra do poeta com esse título, embora inserido em As Flores do Mal sob o número XXV. Dentro do possível, procuramos acompanhar a leitura do poema traduzido para o português com a obra no original, permitindo-nos descobrir divergências, infidelidades e refletir sobre a definição de poesia de Robert Frost: That which is lost in translation.  Se na ficção é importante ver o original, porque os tradutores, por melhores que sejam, tendem a se tornar coautores ao se empolgarem e se afastarem muito do texto, na poesia, em que a sonoridade, às vezes a rima, a subjetividade, as metáforas, o intangível são a sua espinha dorsal, ler a tradução pode significar desvio e perdas substanciais. Entretanto, o tradutor e nós leitores não descobrimos sentidos, apenas nós os construímos.

Sonetos de William Shakespeare, Camões, poemas de Emily Dickinson, Lautréamont, Paul Valéry, Wislawa Szymborska, Sylvia Plath, Li Po, William Butler Yeats, Elizabeth Barrett Browning , Elizabeth Bishop, Benjamim A.S.M. M’Bakassy , Mia Couto, Cesare Pavese, Calderon de La Barca, Paul Verlaine, Edgar Allan Poe, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Florbela Espanca foram lidos com variadas doses de emoção pelos viageiros. Da Irlanda foi trazida uma poesia do Século VIII, Donal OG (no original, em Gaélico), Broken Wows (tradução inglesa), Votos Partidos (Português), com tradução belíssima de Lady Gregory que muitos já conheciam do filme Os Vivos e os Mortos, baseado no conto de James Joyce, Os Mortos. Muitas leituras vieram acompanhadas de vídeos, com excelentes interpretações, como foi o caso de Vincent Price, em O Corvo, de Edgar Allan Poe. As leituras de poemas pelo próprio poeta a exemplo de Sylvia Plath, Paul Verlaine, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, assim como a interpretação de Maria Betânia de poemas de Sophia Breyner e de José Régio encantaram-nos. Para comemorarmos o Dia Internacional da Mulher, a nossa viageira Adelaide presenteou-nos com poesias de Emily Dickinson, Florbela Espanca, Sylvia Plath, Sophia de Melo Breyner e o poema Mulher de Carlos Drummond de Andrade.

Para entender uma mulher é preciso mais que deitar-se com ela… Há de se ter mais sonhos e cartas na mesa que se possa prever nossa vã pretensão…

Poetas brasileiros, além de Carlos Drummond, que estiveram presentes uma e mais vezes no nosso recital poético: Ferreira Gullar, Mário Quintana, Manuel Bandeira, José Régio (Cântico Negro, lindo!), Carlos Pena Filho, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Manoel de Barros, Augusto dos Anjos, Vinicius de Moraes, Affonso Romano de Sant’Anna, Daniel Lima, Paulo Leminsky, Andrea Campos, Augusto dos Anjos. A viageira Luzia Ferrão nos trouxe o poeta das ruas, mais precisamente, dos semáforos, Lenemar Santos, natural de Gameleira, que vende seus livrinhos, feitos de forma artesanal, em Piedade.

Os nossos poetas também nos prestigiaram com suas criações. Anita Dubeux, Eleta Ladosky, João Gratuliano, Luzia Ferrão, Salete Oliveira e Salomé Barros trouxeram seus poemas para leitura na nossa nau, cada uma com um estilo muito próprio, dividindo conosco suas percepções poéticas. Salete ilustrou os seus com imagens bem sugestivas.

Quando trabalhávamos o tema erotismo, poemas antigos surgiram: Salomão (Cânticos dos Cânticos), Ovídio (A Poética do Sexo), Bocage, (Sonetos), Juan de La cruz (Eros Místico) e Apuleyo (Metamorfose).

Enfim, a poesia presente no início de cada milha náutica navegada em 2016 – bem ao estilo de Autran Dourado que dizia ler um poema todos os dias, antes de começar a escrever – preparou-nos o espírito para grandes viagens na criatividade e nas leituras que se sucederam.

Os primeiros desafios criativos foram a releitura de O Patinho Feio, de Christian Andersen; as escolhas difíceis, no limite do absurdo e do insuportável, A Escolha de Sofia, por exemplo, em que uma mãe se vê obrigada a escolher entre um filho e outro e a traição a uma amiga por ter se apaixonado pelo marido desta. Os marujos correram da parada da Escolha de Sofia, apenas Luzia Ferrão resolveu enfrentá-la e construiu texto muito interessante, Trindade, em que o personagem faz sua escolha. Salete Oliveira enfrentou o desafio da quebra de ética e escreveu Vizinhos. Apenas a faísca criativa de O Patinho Feio atingiu quase todos os viageiros e eles fizeram suas releituras a partir de narradores e personagens diferentes, pontos de vista, tempo e espaços narrativos diversos. Interessante exercício literário.

No eixo das leituras, a opção pelas viagens curtas deveu-se à certeza de que elas têm sobre os grandes percursos a vantagem da intensidade de efeito. Edgar Allan Poe decidido a falar sobre o seu processo criativo em A Filosofia da Composição, texto que lemos para dar suporte à nossa decisão, diz que:

Se alguma obra literária é longa demais para ser lida de uma assentada, devemos resignar-nos a dispensar o efeito imensamente importante que se deriva da unidade de impressão, pois, se requerem duas assentadas, os negócios do mundo interferem e tudo o que se pareça com totalidade é imediatamente destruído.

Além do efeito, a narrativa curta permite-nos o retorno a ela, seguidas vezes, para apreensão das entrelinhas que escapuliram às primeiras vistas, para preenchimento de silêncios carregados de vozes que passaram quase despercebidas, deixando no ar suspeitas de murmúrios a serem identificados. São tantos os olhares que se debruçam sobre ela que cada qual vai fazer uma leitura e julgá-la do seu lugar, com sua visão de mundo, com as suas percepções muito particulares.

A segunda opção foi que a nossa viagem seria temática, procuraríamos seguir roteiro que nos permitisse dar conta das pegadas desse ser complexo que é o homem.

O primeiro tema escolhido foi O Duplo. Temática instigante e intrigante da qual muito se fala e pouco se entende. Na visão mitológica o rastro atravessa milhares de anos, presente em muitas civilizações do passado. Talvez a mais antiga versão seja a de Doppelganger, palavra germânica que significa “duplo frequentador” e refere-se a um fantasma ou aparição que lançou sombras e é uma réplica ou duplo de uma pessoa viva. Considerado um mau presságio, indício de azar ou sinal de morte. Em termos de Psicanálise, o mais próximo que se chega para explicar é o Unheimliche de Freud, uma instância onde algo pode ser familiar e ao mesmo tempo estranho, e essa ausência de certeza traz profundo desconforto. O Duplo traz à superfície questões ligadas à identificação, ao narcisismo e ao medo da morte. Na verdade à própria essência do ser humano.Na Literatura, desde sempre esteve presente. Entre os gregos, com Narciso apaixonando-se pelo seu reflexo na água; no Egito, com Ka, espírito duplo, tangível. Nos tempos mais recentes, inúmeros autores trabalharam o tema em seus livros, entre eles Dostoievski, Borges, Edgar Allan Poe, Carlos Fuentes, Robert Stevenson entre muitos outros.
William Wilson, de Poe, é uma referência para qualquer estudo literário sobre O Duplo, por isso, a nossa escolha recaiu sobre ele. Em Escrituras III, o tema foi contemplado sob a forma de cordel, resenhas e contos.

Seguindo a mesma trilha, veio a Loucura como tema, conscientes da importância, seriedade e beleza dele, pois o que seria de nós sem ela, diz Fernando Pessoa: Sem a loucura que é o homem/Mais que a besta sadia/Cadáver adiado que procria? Graham Greene, diferente de Fernando Pessoa, contrapõe aclamando as artes plásticas, a música, a literatura como forma de fazer sinthoma para salvar o homem da loucura.

Às vezes cogito como é que todos os que não escrevem, não compõem ou não pintam conseguem escapar da loucura, da melancolia, do pânico inerente à condição humana.

Foram nossas leituras a fábula de Jean de La Fontaine, O Amor e a Loucura, a pequena novela ou conto de Gogol, Diário de um Louco, os contos O Sistema do Doutor Alcatrão e do Professor Pena, O Coração Delator, ambos de Edgar Allan Poe e mais adiante o excelente e terrível conto de Nabokov, Signos e Símbolos. Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã não foi concluído, o que lamentamos pela excelente qualidade da obra.

Os viageiros não escreveram seus textos, quem sabe cautelosos com os riscos que o tema representa para aquele que resolve enfrentá-lo, verdadeiro campo minado. Quando ainda decidíamos que caminho seguir, Humor ou Loucura, apesar das dúvidas, venceu a última, para receio de alguns.

O Erotismo veio a seguir e provocou gargalhadas estrondosas durante o seu percurso, pela forma bela e irreverente como foi tratado por alguns clássicos da literatura e, também, pelos rubores e desconcertos dos viageiros em algumas passagens mais licenciosas. Tempos inesquecíveis dessa viagem, afastando temores e fantasmas deixados pelos temas anteriores.

Começamos com o Banquete (O amor e o Belo) de Platão, no trecho em que Aristófanes, dirigindo-se a Erixímaco, explica o poder do Amor, expondo a natureza humana e suas vicissitudes. E vai desenvolvendo a sua tese, dizendo que antes existiam três gêneros da humanidade, o homem, a mulher e um terceiro, andrógino aos dois. E por aí segue… Depois dele lemos A Metamorfose, de Lúcio Apuleio; A Poética do Sexo, de Ovídio; Cânticos dos Cânticos, de Salomão (atribuído, não questionamos a propriedade); Eros Místico, de Juan de La Cruz; Sonetos, do irreverente Bocage; De como Panurgo se apaixonou por uma grande dama de Paris, de Rabelais; A Sedução Criativa, de Giácomo Casanova e o Canto V, do Inferno, de Dante, onde estão aqueles que cometeram o pecado da Incontinência Sexual.

Depois veio o Marquês de Sade, impossível não considerá-lo, logo ele, representante maior do erotismo e da obscenidade. Do autor foram lidas duas obras,   O Marido que recebeu a Lição, texto levíssimo e bem humorado; De Monges e Virgens, de sua obra bem conhecida Justine, um texto em que a perversão está bem explícita. Finalmente, Bataille, em O Olho do Gato.
Em termos de erotismo na Literatura brasileira, embora existam grandiosas contribuições, escolhemos exatamente dois autores que não são conhecidos por essa temática: Clarice Lispector, nossa madrinha, em A Via Crucis do Corpo; e Carlos Drummond de Andrade, em A moça Mostrava a Coxa. A bem da verdade, após a sua morte, descobriu-se que ele era um mestre na literatura erótica. Vejamos o trecho a seguir do autor:

Assim o amor ganha o impacto dos fonemas certos
No momento certo, entre uivos e gritos litúrgicos,
Quando a língua é falo, e verbo a vulva,
E as aberturas do corpo, abismos lexicais onde se restaura
A face intemporal de Eros,
Na exaltação de erecta divindade
Em seus templos cavernames de desde o começo das eras
Quando cinza e vergonha ainda não haviam corroído a
inocência de viver.

O Erotismo é um campo vasto, apenas tocamos ao de leve por importantes literaturas dele, o caminho foi aberto para quem quiser segui-lo e, quem sabe, até mergulhar mais profundamente nas suas águas.

Da escritora portuguesa, Lídia Jorge, lemos o conto Marido que muito bem representa a servidão humana levada às últimas consequências. É uma narrativa tão forte que ao concluir a sua leitura todos ficaram mudos, olhando uns para os outros sem palavras. Quando o silêncio foi quebrado, todos quiseram falar ao mesmo tempo e por para fora o engasgo que os havia deixado sem fala. A autora, ao abordar um tema tão difícil e ao mesmo tempo tão presente em todas as épocas, utiliza, com maestria, a forma literária mais lírica e bela que se possa imaginar. Escrituras III – Manuscrito de Viagem apresenta duas resenhas sobre esse conto e dois textos ficcionais.

De Lígia Fagundes Telles, que bem deveria ter recebido o Nobel este ano, lemos a Pomba Enamorada ou Uma História de Amor, conto apaixonante e que se insere na temática da obsessividade. Enredo simples, contado com perícia/perfeição literária, muito rico em possibilidades de releituras, com outros pontos de vista e de finalização.O desfecho fica em aberto para o leitor continuar. Jovem candidata a rainha de um baile encontra rapaz e se enamora dele. Daí em diante ela não lhe dá trégua, criando inúmeras possibilidades de encontro, sendo sempre rejeitada por ele. Trata-se de um autêntico caso de obsessão amorosa, em que a pessoa observa no outro um ideal de amor, de relacionamento que só existe para ela. Duas resenhas e duas outras versões da história, além de outro final, estão neste livro.

Menina a Caminho, de Raduan Nassar, foi outra obra prima literária que mobilizou os navegantes a fazerem suas resenhas, cada qual com um olhar diferente do olhar do outro, conforme pode se observar nos escritos dos viajeiros.Uma menina magricela anda pelas ruas, sem pressa, e testemunha várias cenas que a fazem transitar entre o mundo infantil e o mundo adulto.

A última leitura que fizemos foi de O Búfalo, de Clarice Lispector, conto que levou a muitas interpretações, mas não houve tempo para a produção de resenha.
E mais contos e poemas participam desse livro como resultado de novas viagens realizadas pelos navegantes desgarrados de cartas de navegação, ao sabor do vento e do cheiro das águas.

Outro eixo importante da Carta de Navegação 2016 foi a criação do Carrossel Literário, espaço para compartilhamento das obras favoritas dos viageiros, que culminou num processo de transferência entre os seus participantes, pela identificação de interesses e paixões literárias. Importantes e desconhecidos autores, por alguns viageiros, desfilaram no carrossel e foram lidos com avidez e interesse.

Do Romance Coletivo foi concluída a primeira parte de três. Não houve fôlego para dar conta das duas restantes, devendo voltar à programação do próximo ano.

Escrituras III – Manuscritos de Viagem é um livro de contos, resenhas e poesias, formas de expressão literária que nós marujos encontramos para expressar o nosso sentir diante do mundo de fantasias que surgiram de nossas leituras dos textos aqui mencionados. Aos seus leitores, desejamos que também se lancem ao mar e façam suas próprias viagens.

Jaboatão dos Guararapes, 25 de novembro de 2016

Marido

imagesMARIDO faz parte de uma coletânea de contos que recebeu o título Marido e outros contos, da autora portuguesa Lídia Jorge, nascida em Algarve. O livro foi editado pelas Publicações Dom Quixote, em 1997. No Brasil foi lançado em Ouro Preto, no Fórum das Letras, em outubro de 2014, com o título de Antologia de Contos.
Lídia Jorge é considerada uma das grandes vozes da Literatura Portuguesa Contemporânea. Desde 1980, quando publicou o seu primeiro livro, O Dia dos Prodígios, pelas mãos do escritor Vergílio Ferreira, tornou-se importante acontecimento no meio literário, lançando até o momento, mais de vinte obras. Está no prefácio da primeira edição de O Vale da Paixão:

O seu primeiro romance, O Dia dos Prodígios(1980), foi um importante acontecimento literário, iniciando uma nova fase, de grande qualidade, na literatura portuguesa recente. O Cais das merendas(1982) e Notícia da Cidade Silvestre(1984) foram ambos distinguidos com o Prémio Literário do Município de Lisboa, seguindo-se A Costa dos Murmúrios(1988), A Última Dona(1992), O Jardim sem Limites(1995) – distinguido com o Prémio Bordalo de Literatura da Casa da Imprensa, A Maçon (Teatro, 1996) e Marido e Outros Contos(Contos, 1997). As obras de Lídia Jorge encontram-se traduzidas em diversas línguas. (JORGE, 1998)

O Vale da Paixão, publicado em 1998, recebeu os prêmios Dom Dinis, Bordalo, Ficção do Pen Clube, Máxima de Literatura e o Jean Monet de Literatura Europeia – Escritor Europeu do Ano. O meu primeiro contato com a literatura de Lídia Jorge foi através desse livro, que eu comprei em Lisboa, que me deixou tão impressionada, que repassei para a Oficina o meu sentimento e os viageiros começaram a entrar em campo e a descobrir outras obras da autora na internet. Frutos dessas pesquisas surgiram Marido e outros Contos e Combateremos as sombras, este último premiado com o Charles Bisset, da Associação Psiquiátrica Francesa.

A leitura de Marido foi tão impactante na Oficina que ao encerrá-la, nos primeiros segundos, todos ficaram mudos, o silêncio era total. Depois de quebrado por mim, todos queriam falar ao mesmo tempo, cada um com a sua própria leitura do conto, querendo ser ouvido. A duras penas conseguimos acalmar as excitações e ouvir algumas opiniões. O tempo da Oficina foi esgotado, mas a discussão ainda continuou por bom tempo.

Esta resenha é uma tentativa de colocar a minha leitura particular do conto. Gostaria que os outros viageiros também o fizessem, para que as variadas interpretações ficassem registradas. É muito rica a leitura coletiva, são várias visões de mundo que se interconectam em acordos e desacordos.

· Marido

O conto começa com a primeira frase da Salve Rainha, em Latim, acrescida no seu final da palavra vem, rezada pela personagem principal, a porteira, assim referida o tempo todo pelo narrador. O leitor só saberá do seu nome quando, em flashback, o narrador trouxer lembranças do marido chegando em casa, embriagado, aos brados, chamando-a: Lúcia! Ó Lúcia!

O parágrafo é uma oração, através da qual a porteira, em desespero, clama pela vinda de Regina, daí o acréscimo da palavra vem à Salve Rainha, para abafar a vida, a roupa, a sala, o fogão, a espera com teu doce bafo. Mais do que esse abafo, ela pede amparo para a vela, o fósforo, para concentrar, proteger da aragem a chama da vela até a chegada dele. Há uma angústia imensa nessa espera que ela não pode suportar sozinha, sem Regina. Daí o seu desespero pela presença da Rainha Mãe. Outra preocupação da porteira, que no final das contas é a mesma, porque ela usa o verbo abafar e a repetição tem uma função específica na frase, de confirmar, reforçar o que já fora dito antes, é com o silêncio. Ela pede a Regina por silêncio, que abafe o som, proteja-o da ira dos inquilinos até ele tocar. Lá no final vamos entender o porquê da preocupação em abafar o som apenas até a chegada do marido.

Mas ela teme que o marido veja Regina, então, pede-lhe para se esconder, ficar de cócoras, e intercalando palavras da Salve Rainha em Latim, suplica a Regina para que não me deslargues, não desesperes, não desconfines. Ansiosa, questiona, Por que esperas. Abre as asas e protege já, protege de seguida, protege contínuo, sem intervalo, sem desfalecimento. E novamente intercala palavras em Latim, encerrando o parágrafo com o final da Ave Maria, em Português, agora e na hora da nossa morte, Amén. Fecho em Latim.

Neste primeiro parágrafo, o personagem, num fluxo de consciência, revela grande angústia nas suas orações, advindas da espera do marido que voltará para casa embriagado. Segundo Robert Humphrey, em O Fluxo de Consciência, esse recurso literário é usado quando se quer dar ênfase aos níveis de consciência que antecedem a fala, para revelar antes de tudo, o estado psíquico do personagem. A narrativa é entrecortada de pedaços de orações em Latim e Português com súplicas e pedidos de socorro, na primeira pessoa, isso fica bem evidente, principalmente, quando ela diz minha Regina, para que não me deslargues, não desesperes, não me desconfines. Assim, trata-se de um narrador autodiegético, que conhece bem os fatos que lhe estão perturbando, porque é de si que ele está falando, do seu medo que vai se avolumando com aquela espera. É um personagem aterrorizado diante da proximidade da chegada do marido embriagado, que apela à proteção da Mãe Rainha e que teme que Regina não a ampare.

No segundo parágrafo entra um narrador onisciente que parece saber do íntimo do personagem e fala dele na terceira pessoa. Com tais características, a rigor, pode-se dizer que ele não é personagem, tratando-se de um narrador heterodiegético. Entretanto, embora onisciente e falando na terceira pessoa, ele não é um narrador neutro, segundo a tipologia de Norman Friedman. Para tanto, ele precisava não emitir qualquer instrução ou comentário ou opinião sobre o comportamento dos personagens. Aqui, ele parece ser um narrador intruso, porque aqui e acolá, se mete na história, opina, ajuíza, advoga, toma partido. Tenta interferir junto à Rainha pedindo que Ela proteja a porteira, não só a ela, mas ao marido, também. E como conhecedor de tudo que acontece na vida deles, dirige a sua câmara para o marido, mudando de foco narrativo e traz para o narratário (possivelmente, Regina, aliás, Regina parece ser o narratário de ambos, porque é o da porteira, também) a sua rotina entediante, pedindo proteção para ele, por entender que está em perigo com o tipo de trabalho que realiza: Claro que está em perigo (por que claro, quem o estava questionando?Regina?) E opina: ele faz bem em não continuar depois das cinco, por causa do perigo. E diz o que ele deveria fazer: vir para casa, trabalhar na gaiola dos pombos (aqui se percebe a intertextualidade com A Praça do Diamante, de Mercè Rodoreda, imediatamente, a nossa viageira Adelaide lembrou) e fala dos perigos que ele corre não vindo para casa, passando em sítios que a porteira nem nomeia. Ora, mas ele não é onisciente? Ele só sabe o que a porteira diz? Ela não nomeia, mas ele deveria saber. O narrador, apenas, insiste em falar dos perigos da passagem por aqueles sítios e da rigidez corporal que o vinho erecto provoca no marido da porteira.

Na segunda página, num longo parágrafo, a mediação entre narrador e personagem fica tênue quando é trazida a cena do marido chegando embriagado, desde o momento que ele toca (porteiro eletrônico?) lá embaixo no prédio, abre o elevador com dificuldade e por aÍ vai. Nesse trecho, ele assume o papel de anjo da guarda de Lúcia e implora: Rex e Regina, venham e salvem a porteira, salvem-na da madrugada, salvem-na acocorada no trono do pombal, com a cabeça sob os panos, no alto do seu mundo… Mais adiante, ele se distancia e retoma a sua postura de narrador, trazendo o final dessa cena que é apenas uma rememoração (em termos de tempo narrativo).

Daí em diante, o narrador usa o olhar da porteira, o seu ponto de vista para trazer a sua condição social naquele prédio. Aqui o privado e o público são vistos sob o olhar dela. Todos os personagens são apresentados pelas suas funções, o advogado, representante da lei, o médico, da saúde, a assistente social dos direitos da mulher como ser completo. Todos combinados contra ela, mais precisamente, contra o seu homem, assim pensa a porteira, porque pretendem afastá-la dele, oferecendo os seus préstimos para tanto. Aqui, a voz de cada um deles representa um ponto de vista, numa polifonia de vozes que ameaçam a porteira. E tão alterada se sente ao relembrar essa pressão, o tapete de negrume e de solidão que eles lhe estendem, que recomeça a orar em Latim e a falar do sacramento do casamento e de como a vida seria triste sem marido.

Outra vez, num sugestivo discurso indireto livre, não há marcas que indiquem a separação da fala do narrador da fala do personagem, Lúcia passa a falar das suas dependências daquele marido, que iria perder muitas coisas só por causa de quinze minutos de sobressalto!

A ironia do narrador está presente em algumas partes do conto, quando ao elencar as sujeições da porteira ao marido às pequenas e inexpressivas coisas, apontadas por ela mesma através de pensamentos, ele complementa Que papel imprescindível, que pessoa necessária na vida da porteira. Presente, ainda, a ironia, quando ela diz que …fora da bebida nunca tinha querido bater nem matar, como tantos há . Só por causa de quinze minutos de sobressalto dentro dos quais ela poderia apanhar ou até morrer? Bobagem. E o dinheiro que ficava sempre com ela, menos aquele que marido gastava na bebida, como ele não chegava a vir… ela não podia amealhar. Mais ironia quando diz que ele não ligava que ela se entregasse à devoção: Pouco se ralava que ela fosse ou viesse. Uma liberdade com ares de bastante indiferença.

A dolorosa rememoração da pressão dos moradores, após muito sofrimento e súplicas a Rex e Regina para abafar o medo, a angústia e solidão naquela varanda escura à espera de marido, leva Lúcia a tomar a decisão de enfrentar o marido, salvar seu casamento, vencer os vizinhos, proteger o seu homem, o sacramento que ainda é mais importante para ela. E conclui: Não a demoveram. Afinal, o que o marido queria não era incendiar-lhe o cabelo, mas apenas acender a vela. Tomada de coragem, como se de repente sentisse uma força sobre-humana vir de dentro dela, sem precisar do auxílio da própria Regina, decide não fugir e enfrentar a chegada do marido. Ela mesma estará junto da porta, e ele não precisará de chamar porque a verá antes de qualquer outro objecto da casa. Ele há de enxergá-la mal entre. Com jeito, ela há-de acalmá-lo, em silêncio…

Penso que essa decisão já estava tomada muito antes. No primeiro parágrafo, ela pede para Regina abafar todo som até ele chegar à porta dela, devido à sua preocupação com os condôminos, para que não ouvissem qualquer ruído quando ele chegasse, para que não tentassem separá-la dele, dali em diante, ela cuidaria. Para isso, ela estava disposta a descalçá-lo, ampará-lo na queda, calá-lo, embalá-lo, retê-lo junto de si com voz baixa, massajar-lhe as pernas, esfregar-lhe as mãos. Essa decisão deixara-a tão leve, tão em paz que ela nem sentiu o tempo passar. E então ele chega.

.A narrativa da chegada é dividida entre o narrador descrevendo a cena e a porteira chamando Marido? Marido? Marido? Essa repetição tem a força da confirmação do seu desejo. Sim, Marido, eternamente Marido, Amém. À medida que a tensão vai aumentando, tem-se a impressão de que o narrador já não mais media a cena, que ele desapareceu assustado com o que vai acontecer. Lúcia está sozinha, como sempre temeu estar, onde estão Rex e Regina, ela não mais pergunta, decidida a ir em frente com a sua decisão. Não parece temerosa quando diz Vejam como ele se vira, como o seu cabelo curto de homem lhe cai pela testa, como é bonito o lábio roxo do marido, sem som, só bafo. E ela continua a mostrar, quem sabe para os condôminos, os vizinhos do prédio que pretendem separá-la de seu homem: Vejam como ele procura o casaco… como procura nos bolsos… Como acende o isqueiro… E ela se propõe a ficar muda para que jamais alguém se atreva a insinuar uma vingança forçada, uma separação desventurosa, um desquite profano… Mesmo que ele lhe aproxime o isqueiro da cara e lho passe pelo cabelo. Ela se afastará do isqueiro.

A cena final é a apoteose do seu ato de coragem, na realidade, de sua entrega à fúria da última doce madrugada, segundo Maria Madalena Gonçalves que escreveu sobre A Arte de Escrever em Lídia Jorge:

A cena final deste conto é constituída pela projeção do que Lúcia imagina vir a acontecer no momento em que o marido entra em casa e a encontra imediatamente à porta. Esse momento é para ela o começo de uma nova vida, de uma ‘doce mudança’ (p. 21). É neste ponto da narrativa – quando o desejo se põe a funcionar como realidade – que a personagem sai da crise e resolve, ainda que ficticiamente, as suas contradições. Na verdade, a resolução é da pura ordem do fantasma, quer dizer, de um desejo que não é preenchido, justamente por, sendo da ordem do fantasma, o não poder ser. Efectivamente, Lúcia morre às mãos do marido e da vela acesa por este sem ter conseguido operar a mudança que imaginava. Não consegue porque morre, mas a sua morte – homicídio ou suicídio – pode ser lida como um desafio simbólico à mudança e, nesse sentido, não como um fim mas como a continuidade da vida, uma espécie de reverso dela, seu complemento e até seu apogeu. Nesta perspectiva é possível falar em mudança e, mesmo, em ‘doce mudança’ (‘doce’ porque é feita na continuidade) já que a morte às mãos do marido prova que não há separação entre o real (a total dependência e sujeição de Lúcia ao poder conjugal) e o que é da ordem dos desejos da personagem (manter a todo o custo a sua unidade identitária no seio da conjugalidade). Assim, numa perspectiva simbólica, a morte terá dado a Lúcia a ‘doce mudança’ por que tanto ansiava. (GONÇALVES, 2000, p. 124-125)

Em termos plásticos é uma cena bonita, pela leveza como é descrita, intercalada por trechos da Salve Rainha, e o seu rolar silencioso, como ela queria, como se estivesse em câmara lenta, de andar em andar até simbolicamente parar no quinto andar, o andar do advogado e ali crepitar, estalar, sem fazer barulho. Assim, Regina quer, o narrador diz. E as asas de Regina estão sobre ela no quinto andar. E transformado em personagem, o narrador implora a Regina:

Abre as asas, advocata, levanta vôo, leva a porteira, condu-la na maca, ergue-lhe a vista, Regina, separa-a definitivamente da cama, do balde e do fogão. Separa-a dos dez andares que o prédio tem, separa agora, et nunc, et sempre, et séculos, das janelas abertas, cheias das silhuetas dos inquilinos lilases e brancos pela fúria da última madrugada. Levem-na, Regina e Rex, com vossas quatro mãos, vossos quatro pés, deste lacrimarum Valle, eia ergo, ad nos converte. Levem-na sem ruído, sem sirene, sem apito, sem camisa, sem cabelo, sem pele, post hoc exilium, ostende.

Marido é um conto cuja leitura leva a muitas reflexões e interpretações. A preocupação nessa resenha foi tentar entender as figuras literárias do narrador e personagem que nem sempre estiveram claras.

Jaboatão dos Guararapes, 09 de agosto de 2016.
Lourdes Rodrigues