O Vermelho e o Negro – A França de Stendhal

StehdhalA França de Stendhal

* Luzia Ferrão e **Lourdes Rodrigues

 

É impossível dar conta da história. Pessoas interagem no tempo e no espaço, construindo e desconstruindo fatos, acontecimentos e narrativas. Efeitos do processo coletivo travado entre os homens e a realidade, singularizados apenas pelos nomes. Mas Stendhal consegue em O Vermelho e o Negro, obra de ficção, dar conta dos últimos cinquenta anos da história da França quando escreveu esse livro em 1830.
No primeiro capítulo já encontramos os primórdios da revolução industrial. Ao situar o cenário da sua narrativa em uma das mais belas cidadezinhas do Franco-Condado, Verriéres, criada ficcionalmente, o narrador ao falar da sua geografia, diz:

Uma torrente, que se precipita da montanha, atravessa Verrières antes de se lançar no Doubs e põe em movimento um grande número de serrarias, uma indústria muito simples que proporciona certo bem-estar à maior parte dos habitantes, mais camponeses do que burgueses. Contudo, não foram as serrarias que fizeram a cidadezinha enriquecer. É à fábrica de tecidos estampados, conhecidos como Mulhouse, que se deve a tranquila situação geral de Verriéres que, após a queda de Napoleão, fez reconstruir as fachadas de quase todas suas casas.
Basta entrar em Verriéres para que se fique atordoado pelo barulho de uma máquina ruidosa e de aparência horrível. Vinte martelos pesados, recaindo com um ruído que faz tremer o chão, são erguidos por uma roda movida pela água da torrente. Cada um desses martelos produz, por dia, não sei quantos milhares de pregos.

No contexto da Revolução Industrial, (1760 a 1820/1840), acontecimento considerado divisor de água na história humana, surge um novo modo de pensar e de agir. O fazer humano, seu trabalho, a condição que o distingue dos outros seres e principal instrumento de transformação, desloca-se da esfera do indivíduo e passa a ser produto de máquinas que, embora suas origens e criações sejam devidas a algumas poucas cabeças, dependem de muitos homens para serem operadas. O modo de produção não se baseia mais no trabalho servil dos tempos feudais. O desenvolvimento das forças produtivas promoveu o rompimento das relações sociais daquela época e novas relações surgiram no cenário: capital e trabalho agora se encontram no mercado.

O Vermelho e o Negro fotografa a sociedade francesa durante essa transição, referindo-se, constantemente, aos burgueses, aos liberais, à luta de classes. Há passagens no livro em que Julien Sorel negocia a sua força de trabalho, no caso, trabalho intelectual, devido à sua inaptidão para trabalhar na cadeia produtiva. O autor de forma irônica revela como a sociedade está imbuída da lógica capitalista, do lucro, do maior ganho. O personagem que ele criou encara seus patrões como opressores, para ele, ricos e pobres estão em permanente luta de classe. Julien Sorel carrega forte revolta contra os ricos, os poderosos: Gente rica é assim mesmo! (…) O ódio extremo que animava Julien contra os ricos ia explodir. (…) Quando está sendo julgado pelo crime de ter atirado, com premeditação, na Madame Rénal faz um discurso de caráter essencialmente ideológico:

Ainda, porém, que eu fosse menos culpado, vejo homens que, sem se deterem no que minha juventude possa merecer de piedade, irão querer punir em mim, e desencorajar para sempre, esses moços que, nascidos em uma classe inferior e de certa forma oprimidos pela pobreza, tiveram a felicidade de dispor de uma boa educação, e a audácia de introduzir-se naquilo que o orgulho das pessoas ricas chama de sociedade. Este é o meu crime, senhores, e será punido com severidade ainda mais que, na verdade, não sou julgado por meus semelhantes. Não vejo no banco dos jurados nenhum camponês enriquecido, mas unicamente burgueses indignados.

O livro retrata ainda a aristocracia marcada pelos efeitos da efervescência do clima de terror revolucionário dos anos de 1789 a 1799, data da Revolução Francesa, cujo principal legado para a humanidade foi sintetizar no ideário guia dos revolucionários valores norteadores das sociedades democráticas: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. –
O autor, apoiado no tripé Estado, Religião e Cultura conecta fatos e detalhes do passado recente que estão nas origens da nova sociedade, fatos transformadores das relações econômicas, políticas e sociais. Entretanto, o romance ao incorporar o momento histórico do seu autor não se atém, totalmente, à realidade dos fatos. O processo de criação do romancista está muito mais comprometido com a sua visão de mundo, seus anseios, suas paixões do que mesmo com a realidade.

Através dos discursos, dos símbolos e de tantos outros objetos próprios da cultura o romancista vai tornar inteligível e ao mesmo tempo agradável e bela a leitura deste romance histórico e psicológico. A começar pelo título controverso: O Vermelho e o Negro. Alguns dizem que representa o vermelho da França revolucionária, do sangue derramado; e o preto, do período de terror, chamado de trevas. Outros creditam às duas cores à divisão do personagem entre o uniforme vermelho do exército francês e a batina preta da Igreja. Stendhal não esclareceu e as especulações correm livres.

A passagem do ancien regime para uma nova sociedade se fez através de acontecimentos aterradores e sanguinários. A história do herói deste romance é, neste sentido, uma história revolucionária, captada através das rememorações das guerras napoleônicas, e do endeusamento de Napoleão, muito amado e odiado, pelas críticas aos valores conservadores da monarquia e da igreja e pelo fortalecimento da burguesia, em outras palavras.

A consciência crítica particular de Stendhal, revelada através do personagem Julien Sorel representa, num certo sentido, a consciência histórica da época. Escrito durante o período da Restauração, antes da Revolução de 1830, o romance traz a fermentação política que vivia a França, em especial, Paris, cenário de todos os movimentos sociais. O país era rico, mais o seu povo, principalmente o camponês era pobre. As crises econômicas, originadas por diversos fatores, geravam novos impostos para manter os padrões da monarquia, em detrimento das outras classes sociais.

O Iluminismo foi o movimento que buscou, através da razão, retirar o poder do divino, (representado na França pela Igreja Católica) e da monarquia, deslocando-o para as ideias, tornando o saber, a base do crescimento humano e cientifico, inspirou a Revolução Francesa e as guerras que se seguiram.

Os iluministas brilhavam nos salões de Paris, intelectuais burgueses que representavam o afastamento das trevas, principalmente da escuridão produzida pelas crenças religiosas, sobretudo as da igreja católica, secularmente contrária ao progresso de uma forma geral. O livre pensar era proibido pela igreja, isso ficou bem claro no livro Em nome da Rosa, de Umberto Eco. Ter coragem para fazer uso da tua própria razão! Este é o lema do iluminismo, afirmava Kant um dos filósofos deste movimento.

O personagem Julien Sorel sabe que a história não nasce espontaneamente, existem causas, relações que transformam o saber e o pensar dos homens, representadas na fala, na escrita, nas artes. No romance, o filosofo Voltaire é citado, respaldando a existência de novos pensamentos filosóficos, descobertas científicas, de ciências em erupção como a sociologia e a psicologia, compondo um novo cenário mundial. O estudo da alma humana presente no romance de Stendhal são representações dessas noções cientificas que começavam a serem desenhadas utilizando este novo olhar. Os sentimentos humanos e a racionalidade do personagem são constantemente evidenciados; o amor e a missão de vencer sua condição de filho de serralheiro são sustentados por um conhecimento e reconhecidamente erudito. Julien é aparentemente servil devido a sua condição social e econômica, mas é consciente do seu saber e faz questão de exibi-lo nos salões, fazendo críticas à realidade que o rodeia, encantando Mathilde com a sua ousadia. O acesso permitido pelo saber constitui a chave para penetrar nas engrenagens do poder e neste sentido ele o utiliza muito bem. Parece que nada escapa ao personagem; que usa linguagem crítica, ácida sobre a Igreja, os nobres, a burguesia. Ora num discurso direto, ora através de um narrador que usa o diálogo indireto livre os nobres, os padres, especialmente, os jesuítas, os burgueses, os políticos, os liberais são apresentados nos seus baixos patamares morais: mesquinhos, cruéis, mentirosos, falsos, gananciosos, avarentos, repulsivos, ciumentos, invejosos. Afora Chelán, o abade Pirard e o Marquês de La Mole ninguém escapa às suas críticas. O novo modo de produção trouxe novas formas de trabalho, novas relações sociais, e principalmente, outra forma de ver o mundo.

Em termos literários pode-se dizer também que o autor revolucionou, ao trazer para personagem principal o anti-herói, o arrivista Julien Sorel. As inovações não param por aí, ele inova também quando traz duas heroínas: Madame de Rènal e Mathilde. Dividido em duas partes, o romance na primeira traz o conflito da relação de Julien Sorel com a Senhora Rènal, mulher casada, mais velha, mãe das duas crianças das quais ele é o preceptor. Na segunda parte, o conflito gerado pelo envolvimento com a filha do seu nobre patrão, muito jovem, bonita, impulsiva, rodeada de pretendentes aristocratas.

O Vermelho e o Negro traz a modernidade no fazer literário ao privilegiar a cena em detrimento do sumário narrativo tão comum naquela época. A história ora é contada por um narrador onisciente intruso que emite opiniões sobre as pessoas, o cenário, a política, ora é entregue aos personagens invadindo os seus pensamentos, desejos e sentimentos, numa demonstração de onisciência múltipla e seletiva. O foco narrativo desliza de Julien Sorel para Madame Rènal, ou ainda para o marido dela, o Senhor de Rènal que, através de monólogos diretos ou de discursos indiretos livres assumem a narrativa, num predomínio absoluto da cena. A mudança de perspectiva ocorre, às vezes, dentro do mesmo parágrafo, para dois ou mais personagens. A impressão que se tem é de uma câmara deslocando-se de um personagem para outro. Personagens e narrador transitam tão juntos, quase sempre, que se confundem, não sendo possível identificar com clareza, a fala de um e de outro. O narrador invade a mente do personagem para falar dos seus sentimentos mais profundos, nada lhe escapa nem a mais torpe vilania deixa de ser revelada. Trata-se de um narrador que se imiscui de tal forma na narrativa que às vezes se transforma em personagem, colocando-se totalmente dentro da cena, falando de si próprio. Há várias passagens assim, uma delas, na qual ele está falando do paredão que o prefeito de Verriéres construiu, onde se descortina uma bela visão do Doubs ele diz:

Quantas vezes, rememorando os bailes de Paris abandonados na véspera, e com o peito apoiado contra aqueles blocos de pedra de um belo cinza caindo para o azul, meus olhares não mergulharam no vale do Doubs!

Mais adiante, diz ainda, De minha parte, apenas uma coisa tenho a censurar na ALAMEDA DA FIDELIDADE; lê-se esse nome oficial em quinze ou vinte locais. Em outra passagem diz: …mesmo eu sendo um liberal e ele conservador, louvo-o por essa medida.

A ironia usada durante a narração é outra das suas facetas. Sem dúvida, Stendhal pretendia explodir com as convenções que até então regiam a literatura. E conseguiu. Ao usar um fato da crônica policial para fazer o seu romance, ele demonstrou que os acontecimentos mais extraordinários são os mais comuns. É do dia-a-dia, de fatos extraídos da vida como ela é, como bem dizia Nelson Rodrigues, que se podem criar grandes obras, depende da ousadia do seu criador. E isso não lhe faltou.

A vida pessoal de Stendhal e a sua obra literária se entrelaçam de forma escancarada. Dele diz Dóris Lessing, conforme se pode ler na tradução feita por Adelaide Câmara e já postado nesse blog: Seu trabalho está cheio de pais monstruosos e figuras de autoridade. Ninguém fiou mais grato do que ele quando finalmente cresceu e foi capaz de deixar o lar.

Na análise que Otto Maria Carpeaux faz de Stendhal na História da Literatura Ocidental, ele diz que:

Stendhal é muito mais moderno do que Balzac, romancista da burguesia em ascensão. Veio diretamente do romance gótico e parece, por isso, mais romântico do que Balzac; na verdade é, no gênero burguês do romance, um sobrevivente de época pré-burguesa. Stendhal é o único clássico do gênero moderno romance. (…).

O Vermelho e o Negro é ainda quase pioneiro no gênero de romance psicológico, antes dele, apenas Choderlos de Laclos, autor de Ligações Perigosas. Depois, veio Dostoievski com Crime e Castigo. Apesar do cenário histórico, a viagem mais longa que o romance traz é pela alma humana. Personagens controversos, movidos pelo desejo, por motivações interiores trazem elementos ricos e reveladores do ser humano. Merecem um capítulo à parte de estudos.

                                                             Jaboatão dos Guararapes, agosto de 2014.

* Luzia Ferrão – professora universitária, assistente social, contista, ensaísta, começou a participar da Oficina em 2014..

 **  Lourdes Rodrigues – economista, contista, ensaísta, coordenadora da Oficina de Criação Literária Clarice Lispector desde 2006.

O Teatro de Sófocles e Antígona

Nos dias 24 e 25 de agosto de 2016, realizou-se no Hotel Mércure, o Colóquio Ética, Antígona e a Invenção da Mulher promovido pelo Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise, tendo como palestrante o escritor, tradutor, filósofo e doutor em letras, Donaldo Schuler. A participação da platéia com perguntas,  reflexões,  enriqueceu muito o debate que enveredou não só pela mitologia, pela tragédia, mas, também, pela psicanálise, filosofia, ética. Questões fundamentais foram debatidas: limites do público e do privado, ética versus moral, ethos, daimon, a mulher na Grécia Antiga, o silêncio da mulher e a sua construção, desejo e subjetividade para os gregos, e muitas outras questões.

O Colóquio confirmou a relevância e atualidade da tragédia de Antígona, pela presença de tantas pessoas atraídas pela peça, dispostas não só a ouvirem o que Donaldo Schüler traria de novo sobre ela, mas a discutir as suas próprias reflexões e elaborações construídas ao longo do tempo.

Há alguns anos pensei em criar um blog. Ao pensar numa frase para o meu perfil, lembrei de Antígona quando disse para Creonte: Eu não nasci para odiar, mas para amar. Havia lido a peça de Sófocles e ficara impressionada com a força daquela mulher que nascera para amar. Enfrentar um tirano sabendo que a desobediência significaria a morte, pois ela mesma reconhecera diante dele esse saber: Sei que vou morrer.Como poderia ignorá-lo? , senhora de si, completamente senhora da sua própria lei, como diz o Corifeu: Gloriosa e acompanhada de louvor te encaminhas ao recinto dos mortos, sem feridas de enfermidades molestas, sem golpes de espada voraz, senhora de tua própria lei, viva, só tu entre os mortais baixarás ao Hades.

Antígona não reconhecia a lei do Estado que determinava deixar insepulto o corpo de Polinice, o seu irmão muito amado, Quem é ele para separar-me dos meus?, indaga referindo-se a Creonte), (…) Não foi, com certeza, Zeus que as proclamou,/ nem a justiça com trono entre os deuses dos mortos/ as estabeleceu para os homens./ Nem eu supunha que tuas ordens/ tivessem o poder de superar /as leis-não escritas, perenes, dos deuses,/ visto que és mortal.  Quando Creonte pergunta se ela não se envergonha por ir de encontro a todos que reconhecem em Polinice o traidor, aquele que invadiu Tebas para tomar o poder do seu irmão Eteócles, Antígona não argumenta, como ela bem o poderia ter feito, que ele lutou para tentar recuperar o que era seu por direito, uma vez que a alternância de poder havia sido pactuada pelos dois irmãos e  Eteócles decidiu não cumpri-la obrigando Polinice a tentar à força o que deveria ter sido na paz. Não, ela não está preocupada com esse tipo de  justiça. E acredita que os outros aprovariam a sua atitude se o medo não lhes travasse a língua, que estão todos intimidados e mordem a lingua para não falarem o que pensam daquele edito e conclui: Não há nada de vergonhoso em honrar os do mesmo sangue.

A postura irredutvel de Antígona – tão bem expressa pelo Corifeu: Nela se revela uma estirpe inflexível,/de um pai inflexível/ filha. Não sabe ceder aos golpes do mal.-  deixa Creonte, o tirano, em total desatino, e a sua fala revela o quanto ela o ameaçou: Muito bem, se precisas amar os mortos,/incorporate a eles,/ama-os. Mas, em minha vida, não permitirei/ que uma mulher governe. E mais adiante ele complementa: Agora, entretanto, homem não serei eu,/homem será ela,/ se permanecer impune tamanho atrevimento.

Donaldo Schuler disse no Colóquio realizado pelo Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise que, Antígona, ao ocupar o espaço publico para propor a Ismene o sepultamento do irmão, espaço reservado para os homens, inventou a mulher.O espaço público grego pertencia ao homem, o espaço privado à mulher. Mas foi no espaço publico que Antígona fez a sua ação. Para esse mesmo sentido Werner Jaeger, em a Paidéia, parece convergir quando ao analisar o teatro de Sófocles diz que É especialmente significativo que seja a primeira vez que a mulher aparece como representante do humano, ao lado do homem, com idêntica dignidade. As numerosas figuras femininas de Sófocles, como Antígona, Electra, Dejanira, Tecmesa, Jocasta, para não falar de outras secundárias, como Clitemnestra, Ismena e Crisótemis, iluminam com o maior fulgor a elevação e a amplitude da humanidade de Sófocles. A descoberta da mulher é a consequência necessária da descoberta do homem como objeto próprio da tragédia.

Das 120 peças que a tradição antiga atribui a autoria a Sófocles, apenas 7 delas sobreviveram até os nossos dias, destacando-se Antígona que, junto com ElectraÉdipo, Rei, é uma das mais representadas no teatro moderno.Otto Maria Carpeaux em História da Literatura Ocidental diz que a descoberta do fundo eternamente humano no mito grego, pela psicanálise, forneceu explicação satisfatória do efeito permanente do teatro da Antiguidade. Sobretudo Sófocles e Eurípides são forças das mais vivas do teatro moderno, influências permanentes.

Falando de Sófocles, Otto Maria Carpeaux diz que ele era um artista da palavra, dono de extraordinário lirismo musical, sobretudo nos coros.Mas foi também artista da cena, sábio calculador dos efeitos, mestre incomparável da arquitettura dramática, da exposição analítica dos enredos. Apesar disso, o que destacou Sófocles dos seus concorrentes na dramaturgia da época, especialmente de Ésquilo, de Eurípides um pouco menos, o que mais contribuiu para a imortalidade da sua obra foi a sua maestria na construção dos personagens: O espectador moderno reconhece-se nos personagens de Sófocles, primeiro grande mestre da dramaturgia de caracteres, diz Carpeaux. Os seus personagens são figuras ideais. Werner Jaeger falando sobre Sófocles diz que ele, ao seguir a tendencia formadora da sua épocas, dirige-se ao próprio Homem e proclama as suas normas na representação das suas figuras humanas. (…) É a elas que se liga Sófocles, cujas figuras capitais encarnam um poderoso elemento de idealidade.  (…) Os homens de Sófocles (aqui Werger fala de homens no sentido geral, homens e mulheres) nascem de um sentimento da beleza que tem a fonte numa animação dos personagens até então desconhecida. Nele se manifesta o novo ideal da arete, que pela primeira vez e de modo consciente faz da psyche o ponto de partida de toda a educação humana.´

Antígona diante do conflito trágico de obedecer a lei do Estado ou a lei não-escrita, a lei Natural, deixa de ser um personagem meramente sentimental para se tornar um ser trágico: o conflito lhe revela a força do seu imperativo de consciência que lhe impôs a resistência – e assim Antígone se tornou o símbolo permanente de todas as Resistências.

Assim, tantos séculos depois, Antígona ainda é capaz de atrair as pessoas para ouvir falar dela, do seu destino trágico, da força de uma mulher que não transige sequer diante da Morte, que com o seu gesto derruba a barreira entre o público e o privado e recria o Homem, reinventa a Mulher. Antígona, ao não cumprir a lei escrita para seguir uma lei não-escrita, afronta com altivez o tirano que a condena à morte e  torna-se símbolo de todas as resistências, o ideal Humano que atravessa os tempos.