Colono ou Pedra Branca

Ao iniciarmos a leitura de Édipo em Colono, de Sófocles, coincidentemente, havia lido há pouco sobre Pedra Branca ou Colono no livro Os dez amigos de Freud, de Sérgio Paulo Rouanet. Ali ele faz a análise das escolhas literárias de Freud. No capítulo que ele se refere a Anatole France, e à prioridade que Freud dera dentre as obras do autor, ao romance SobrePedra Branca, ele diz que talvez isso tenha ocorrido porque o livro havia sido lançado pouco tempo antes de Freud fazer a lista. Mas ele acrescenta que a escolha poderia ter sido, também, pelas muitas possibilidades analíticas que o romance permite, o que era bastante comum nas obras daquele autor.

O termo “pedra branca” para os gregos da Grécia antiga é muito  rico em simbolismo psicanalítico, segundo Rouanet. Pedra Branca era um acidente geográfico, cabo situado ao sul da ilha de Lêucade, onde havia um templo de Apolo. A sua história mítica está ligada ao amor e à sexualidade, à polaridade amor-morte, Eros-Tanatos.Por amor, as pessoas se jogavam no mar, do alto do rochedo. Segundo Menandro, Safo teria se suicidado nesse lugar, por amor a Phaon. Contudo, de acordo com uma tradição mais tardia, a primeira a jogar-se do Cabo Lêucade, por amor, teria sido Afrodite, em pessoa, desesperada com a morte de Adônis.  Sexo, na Pedra Branca, também estava ligado à embriaguez, essa morte provisória. Num drama satírico de Eurípedes, O Ciclope, Sileno diz que daria tudo para beber um copo de bom vinho, mergulhando, da Pedra Branca, num estado de embriaguês, no qual “é permitido fazer aquela coisa ficar dura, agarrar um seio e tocar com as duas mãos a vulva”.

Colona (ou Colono) está na geografia mítica da Grécia, na descrição de Sófocles, como “branca” . Em Édipo em Colono Sófocles diz que o “herói foi engolido pelo mundo subterrâneo perto da rocha de Thorikós, na cidade ‘branca’ de Colona.” Thorikós, diz Rouanet, deriva do substantivo sêmen, que por sua vez é construído a partir do aoristo do verbo saltar. “Saltar e ejacular, isto é, produzir um líquido ‘branco’ que ‘salta’ de um ‘cabo’, pertencem assim ao mesmo universo etimológico e simbólico,”

Rouanet diz ainda que Freud poderia seguir uma outra trilha associativa, vendo na pedra branca não somente um símbolo sexual ou o cenário da junção entre ao amor e a morte, mas uma fronteira entre a consciência e a inconsciência, pois em todos os nossos exemplos a pedra branca assinala a passagem do estado consciente para um estado de perda de consciência: perda definitiva, no caso da morte, ou temporária, no caso da embriaguês e do sono.

Colono, saindo da análise de Rouanet, foi o local para onde retornou Sófocles quando estava muito velho, próximo à morte. Ali ele escolheu para levar Édipo, depois de muitos anos de andança, para finalmente fazer o seu mergulho definitivo, saindo para sempre da vida onde ele conheceu os sofrimentos mais abomináveis que um ser humano poderia suportar: matar o próprio pai e casar com a mãe.

 

Jaboatão dos Guararapes, 21 de maio de 2013

Lourdes Rodrigues

Édipo Rei

ALGUMAS VARIANTES DO MITO DE ÉDIPO

Dando continuidade à nossa programação Rumo ao Teatro, estamos fazendo a leitura  da peça Édipo Rei, de Sófocles, privilegiando a tradução de Mário da Gama Kury, em A Trilogia Tebana, embora outras traduções, também, estejam sendo utilizadas por alguns dos participantes. Paralelamente à leitura da peça, resenhas de outras leituras relacionadas com o tema da tragédia grega estão sendo discutidas na Oficina, objetivando melhor compreensão do mito.

Nesse texto são enfocadas as variantes do mito de Édipo.

ÉDIPO (Oidípus)– Segundo versão do mito, ele era assim chamado porque tivera “os pés furados e atados” o que provocara a tumefação dos mesmos, derivando-se, pois, o antropônimo do verbo (oideîn)”inchar” e de (pus, podós), pé, donde “o de pés inchados”, conforme etimologiza Sófocles no diálogo entre o Mensageiro e Édipo.

Assim está no Dicionário Mítico-Etimológico de Junito Brandão. Do mesmo autor, no livro de Mitologia Grega, V.III, consta que “Os pés inchados ou furados”, até Sófocles, não haviam sido mencionados como sinal de identificação de Édipo. E cita Homero, na Odisseia, Canto XI quando em dez versos, hexametros, Odisseu relata ter visto Epicasta (Jocasta) no Hades e relata o mito de Édipo (270/279), sem se referir à caracterização etimológica ou à sua deformidade:

Vi,depois dela (de Mégara), a mãe de Édipo, a bela rainha Epicasta.

A quem o filho, assassino do pai, por esposa tomara.

Nesse atrocíssimo crime a mãe dele insciente foi cúmplice.

Em breve os deuses, porém, aos mortais o ocorrido contaram.

Ele, trabalhos bastantes em Tebas sofreu primorosa,

Quando dominava os Cadmeios, pelos desígnios dos deuses.

Ela, tomada de dor indizível, em trave elevada

Corda sinistra passou e desceu para o de Hades palácio

De solidíssimas portas. Ao filho legou sofrimentos

Inumeráveis, que Erínias maternas a ponto executam.

Na Ilíada, no canto XXIII, verso 680, Homero refere-se “aos jogos fúnebres realizados em Tebas em memória do herói,” o que mostra que ele sobreviveu a Jocasta (Epicasta), e que permaneceu naquela cidade. Não chegaram até nós os poemas épicos do “ciclo tebano”, dia Junito Brandão, cabendo-nos as versões constantes em Sófocles, em suas três (3) peças (Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona); em Ésquilo, na peça Os sete contra Tebas ; e em Eurípides, nas Fenícias. Outros autores gregos revelaram ecos da tradição tebana: Píndaro, Heródoto, Apolodoro, Pausânia.

Outra parte do mito não justificada refere-se, ainda, aos pés furados. Qual a razão? Há uma versão que diz terem os pais de Édipo o mutilado para que ele não fosse recolhido e educado por ninguém, porque na época histórica, pessoas às quais não se podia atribuir qualquer intenção filantrópica recolhiam entre os meninos abandonados os que lhe pareciam perfeitos e robustos, e entre as meninas as que prometiam ser belas. (MITOLOGIA GREGA, 243).

Junito Brandão considera absurdo o sinal dos pés inchados ou perfurados de Édipo, como fator de reconhecimento, de identificação, porque Jocasta estava casada com ele há tantos anos e nunca teria se dado conta dessa particularidade dele. De qualquer forma, ele acredita que “quando um grande artista ou dramaturgo como Sófocles repete um episódio simultaneamente absurdo e supérfluo como este, é que o fato lhe deve ter sido imposto por uma mitopéia anterior”.

Assim, para o Mito Édipo existem muitas versões, não apenas aquela que Sófocles imortalizou em sua tragédia Édipo Rei. Jocasta, por exemplo, surgiu com Sófocles. Segundo as variantes que são os pulmões do mito, ela não foi a primeira esposa de Laio. Antes ele casara com Euricléia, filha de Ecfas, e dela nascera Édipo. Dessa forma, ele não casara com a mãe, e sim com a madrasta. Em Homero não consta que Édipo furou os olhos, nem que ele teve todos aqueles filhos com Jocasta, menos ainda que Antígona o tivesse levado para o bosque das Eumênides, em Atenas. Vimos em Homero que continuou a reinar após a morte da mãe/esposa.

Junito Brandão fala de algo muito interessante. Ele diz que na Grécia, o elo entre mito e literatura era muito forte, que a literatura sempre buscou no mito a sua matéria-prima, às vezes até de forma obrigatória. O poeta ao plasmar elementos míticos, não se limitava ao aspecto religioso, mas se deixava levar principalmente pelos ditames estéticos. Os riscos de reduzir um mito à uma obra literária são o de desprezar a documentação mitológica, porque a obra de arte necessariamente contemplará apenas a uma de suas variantes, deixando de lado as demais. E dependendo da força e do prestígio do poeta junto ao público, e da beleza da sua versão, ela se sobrepõe, na consciência pública, às demais variantes do mito, passando a ser o próprio mito.

Segundo Junito Brandão foi o que aconteceu com o mito de Édipo após a bela tragédia de Sófocles, Édipo Rei. A autoridade olímpica de Sófocles, o mito por ele poetizado passou a ser a cartilha por onde se reza e se psicanalisa!. Ao dizer isto ele ressalva que não está querendo condenar a obra de arte, pelo contrário, reconhece que ao passar pela ourivesaria das musas sofocleanas, o mito do filho de Laio tornou-se mais uma pedra preciosa que se engastou no anel urobórico do mitologema de Édipo. Apesar disso, ele não se baseará apenas nessa versão para expor o mito, pois seria reduzir o mitologema a uma única variante, por sinal vestida a rigor pela arte incomparável de Sófocles, incluirá as demais, mesmo que menos poéticas, talvez por isso mesmo tão ou mais importantes.

Assim, Laio, rei de Tebas, após a morte da primeira esposa, une-se a Epicasta. Em Sófocles, vamos encontrá-lo casado com Jocasta. A partir desse momento, o mito de Laio e Jocasta confunde-se com o de Édipo, que está condenado antes mesmo de nascer, ao menos nas tradições anteriores a Sófocles, a matar o pai e desposar a própria mãe.

LABDÁCIDAS

Os labdácidas, descendentes de Lábdaco, reinaram em Tebas, ininterruptamente, até a morte de Laio. Para se chegar até aos labdácidas, Junito sugere recuar um pouco no tempo para entender o que se passou.

Tudo começou com o rapto de Europa por Zeus. Agenor, rei da Fenícia, mandou os três filhos (Fênix, Cílix e Cadmo) à procura da irmã, com a ordem de não regressarem sem Europa. Depois de algum tempo, percebendo que aquela busca não iria render frutos, e impedidos de voltarem para casa pelo próprio pai, eles decidiram fundar colônias para se estabelecerem.

Cadmo fixou-se na Trácia, com sua mãe Telefassa. Após a morte desta, ele foi consultar o oráculo e este lhe ordenou a iniciar viagem. Quando ele encontrasse uma vaca marcada nos flancos com um disco branco, em configuração de lua, seguisse a vaca até ela cair de cansaço, aí seria o local para a fundação de uma cidade.Quando ele atravessava a região da Fócida, encontrou a citada vaca e seguiu- a- por toda a Beócia e, quando o animal se deitou de fadiga, ele compreendeu que ali se cumpria o oráculo. Ao buscar água numa fonte para as abluções, os companheiros de Agenor encontraram um dragão que os matou, sendo morto por ele, e a conselho de Atená, semeou os dentes do monstro dos quais nasceram gigantes ameaçadores aos quais foi dado o nome de Spartói, os Semeados. Cadmo, assustado, atirou pedras entre eles e os gigantes começaram a brigar entre si acusando um ao outro pelas pedras, e acabaram se matando. Apenas cinco sobreviveram: Equíon (que mais tarde se casou com Agave, filha de Cadmo), Udeu, Ctônio, Hiperenor e Peloro, os quais, junto com Cadmo, diz Junito, formaram o núcleo ancestral da aristocracia tebana.

O Dragão, todavia, símbolo do próprio deus Ares, com a sua morte provocada por Cadmo, fez este expiar o seu crime: durante oito anos ele serviu como escravo ao deus. Terminado o rito iniciático, Zeus lhe deu com esposa Harmonia, filha do mesmo Ares, nascendo do enlace Ino, Agave, Sêmele e Polidoro. Bem idosos, Cadmo e Harmonia abandonaram Tebas de forma misteriosa, sendo o trono ocupado por Polidoro. Do casamento deste como Nicteis nasceu Lábdaco, pai de Laio e avô de Édipo.

Quando Lábdaco morreu, Polidoro tinha apenas 01 ano de idade, sendo o trono ocupado interinamente por Nicteu que se suicidou, ficando o trono para o seu irmão Lico.

Quando Lábdaco cresceu e assumiu o trono, o seu reinado foi marcado por guerra sangrenta contra o rei de Atenas, Pandíon I. Consoante uma tradição conservada por Apolodoro, Lábdaco foi despedaçado pelas Bacantes, por se ter também oposto à introdução do culto de Dioniso em Tebas.

Com a morte violenta de Lábdaco, Laio também não pode assumir as rédeas do governo e, mais uma vez, Lico tornou-se regente, mas dessa feita, por pouco tempo, porque foi assassinado por seus sobrinhos Anfião e Zeto. Com a morte violenta do tio, Laio fugiu de Tebas e foi pedir asilo na corte de Pélops, o amaldiçoado filho de Tântalo.

Junito observa que Laio era herdeiro do trono de Tebas, e herdeiro, também, de muitas mazelas de “caráter religioso” de seus antepassados, em particular, de Cadmo, que matou o Dragão de Ares, e de Lábdaco, por ter contrariado o deus do êxtase, Dioniso. Achando pouco, ainda cometeu grave hamartia na corte de Pélops, ao desrespeitar a sagrada hospitalidade, cujo protetor era Zeus, e ofender severamente Hera, guardiã dos amores legítimos, raptando o jovem Crísipo, filho de Pélops. Agindo contrariamente ao que é justo e legítimo, para empregar a expressão de Heródoto, o futuro rei dos Tebanos acabou ferindo os deuses e praticando um amor contra naturam. Miticamente a pederastia se iniciava na Hélade. Crísipo, envergonhado, suicidou-se. Pélops execrou solenemente a Laio, e junto com a cólera incontida de Hera, foi gerada a maldição dos Labdácidas.

Junito diz, ainda, que segundo uma variante do mito, o crime de Édipo foi passional pois matara o pai, conscientemente, porque ambos disputavam o belo filho de Pélops.

Quando Laio, finalmente, assume o reino de Tebas, casa com Epicasta, conforme se viu na Odisseia de Homero, já descrita como a infortunada mãe e esposa. O nome de Jocasta, filha de Meneceu, foi criação de Sófocles em Édipo Rei.

As tradições arcaicas relativas ao oráculo que anunciava a morte de Laio por Édipo são desconhecidas. A primeira citação está  em  Os sete contra Tebas,  de Ésquilo,  peça muito anterior a Édipo: …por três vezes em Pito, seu santuário profético, centro do mundo, Apolo revelara a Laio que ele deveria morrer sem filhos, se quisesse salvar a cidade (Tebas). Na peça de Sófocles, consta a informação pela boca de Jocasta: um falso oráculo predissera a Laio que ele seria assassinado pelo próprio. Filho.  E Édipo também revela que Febo Apolo lhe vaticinara que ele desposaria a mãe e mataria o pai.

Embora três vezes ameaçado pelo Oráculo de Delfos, Laio desafia as vaticinações e tem um filho com Jocasta. Nascido o menino, o rei lembra-se do veto de Apolo e apressa-se em dar um fim ao filho. Há duas versões sobre esse momento, segundo Junito Brandão. Na primeira, a mais antiga, inclusive bem atestada na cerâmica, num escólio aos versos 26 e 28 das Fenícias de Eurípedes e na fábula 66 de Higino, a criança é colocada num cofre e jogada no mar, mas se salva porque o cofre chega a Corinto ou Sicione. Na outra versão, ele é simplesmente abandonado no monte Citerão.

Foi na literatura, na peça de Sófocles, em Édipo Rei, no verso 718 e seguintes que Laio ligou os pés do menino e mandou expô-lo num monte deserto, que sabemos ter sido o Citerão.

O curioso da história é que Sófocles não justifica a exposição, mas Ésquilo e Eurípides o fazem. Em Os sete contra Tebas, Ésquilo fala da falta antiga e Eurípides diz com clareza tratar-se do amor criminoso de Laio por Crísipo.

Criado por um pastor de Corinto, segundo uma variante, após ter recebido de outro pastor que o recebera do próprio Laio no monte Citerão; ou ainda, encontrado por Peribéia junto às praias do mar em Corinto e levado para a corte de seu marido, o rei Pólibo, ou em outra versão, levado pelo pastor Forbas, Édipo foi criado e ducado na corte de Corinto como filho do rei Pólibo e da rainha Mérope (nome de Peribéia, na versão de Sófocles).

Infância e adolescência tranquilas na corte. Na maioridade ele resolve abandonar os pais e ir embora. Segundo a versão arcaica, Édipo saíra de Corinto em busca de cavalos furtados do seu reino’. Segundo Sófocles, em Édipo Rei, num banquete, um dos convidados visivelmente embriagado, chamou Édipo de filho postiço. Apesar da indignação dos pais, Édipo resolve ir consultar um oráculo em Delfos. Ao invés de lhe tranquilizar, a sacerdotisa de Apolo o expulsa de lá, vaticinando-lhe matar o pai e casar com a mãe. Aterrorizado com essa vaticinação, Édipo foge para longe de Corinto, tentando escapar à Moira.

Quando passava pela encruzilhada de Pótnias, fronteira entre Delfos e Dáulis, Édipo encontra uma carruagem que vinha em sentido contrário ao dele. Segundo a versão de Sófocles, em Édipo Rei, o cocheiro e o próprio rei, tentaram afastá-lo do caminho usando de muita violência. Profundamente irado com a atitude deles, Édipo usa o bastão em que se apoiava por conta dos pés deformado e golpeia o cocheiro. O rei sai em defesa dele e dá dois golpes no herói com o aguilhão que reage imediatamente e com um só golpe de bastão prostra Laio, em seguida, liquida os outros componentes da comitiva do rei, pelo menos ele assim pensava, mas um deles escapou, segundo a versão, o que escapou foi justo aquele que havia levado Édipo, bebê, para o Citerão. Envergonhado por ter fugido, ele conta ao voltar que a comitiva havia sido alvo de salteadores. O remorso lhe pesou tanto que ele pediu à rainha que o mandasse para o campo, para cuidar do rebanho, que ele não queria mais servir no palácio. Na versão de Sófocles, Jocasta diz que ele ao ver Édipo no trono, pede para ir trabalhar no campo. Nesta passagem, fica a impressão de que entre a morte de Laio e Édipo assumir o poder foi muito curto o tempo.

A cidade de Tebas estava vivendo momentos de horror por conta de uma Esfinge que, postada no monte Fíquion, às portas da cidade, devorava a todos os que não lhe decifrassem o enigma. Muitos jovens tebanos, inclusive Hêmon, filho de Creonte, irmão de Jocasta e regente do trono quando Laio morreu, “servira de pasto à cruel cantora”. Sófocles já havia usado Hêmon como personagem de Antígona. Fora esse o motivo da viagem de Laio a Delfos: consultar o oráculos sobre como se livrar daquele flagelo. Depois de ter assassinado Laio, Édipo ao chegar às portas de Tebas derrota a esfinge, decifrando o seu enigma ao responder que era o homem, aquele que ao nascer tinha quatro pernas (ao engatinhar), ao meio dia, duas, e à noite, três (apoio do cajado).

Jaboatão dos Guararapes, 16 de abril de 2013

Lourdes Rodrigues

O Teatro de Sófocles e Antígona

Nos dias 24 e 25 de agosto de 2016, realizou-se no Hotel Mércure, o Colóquio Ética, Antígona e a Invenção da Mulher promovido pelo Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise, tendo como palestrante o escritor, tradutor, filósofo e doutor em letras, Donaldo Schuler. A participação da platéia com perguntas,  reflexões,  enriqueceu muito o debate que enveredou não só pela mitologia, pela tragédia, mas, também, pela psicanálise, filosofia, ética. Questões fundamentais foram debatidas: limites do público e do privado, ética versus moral, ethos, daimon, a mulher na Grécia Antiga, o silêncio da mulher e a sua construção, desejo e subjetividade para os gregos, e muitas outras questões.

O Colóquio confirmou a relevância e atualidade da tragédia de Antígona, pela presença de tantas pessoas atraídas pela peça, dispostas não só a ouvirem o que Donaldo Schüler traria de novo sobre ela, mas a discutir as suas próprias reflexões e elaborações construídas ao longo do tempo.

Há alguns anos pensei em criar um blog. Ao pensar numa frase para o meu perfil, lembrei de Antígona quando disse para Creonte: Eu não nasci para odiar, mas para amar. Havia lido a peça de Sófocles e ficara impressionada com a força daquela mulher que nascera para amar. Enfrentar um tirano sabendo que a desobediência significaria a morte, pois ela mesma reconhecera diante dele esse saber: Sei que vou morrer.Como poderia ignorá-lo? , senhora de si, completamente senhora da sua própria lei, como diz o Corifeu: Gloriosa e acompanhada de louvor te encaminhas ao recinto dos mortos, sem feridas de enfermidades molestas, sem golpes de espada voraz, senhora de tua própria lei, viva, só tu entre os mortais baixarás ao Hades.

Antígona não reconhecia a lei do Estado que determinava deixar insepulto o corpo de Polinice, o seu irmão muito amado, Quem é ele para separar-me dos meus?, indaga referindo-se a Creonte), (…) Não foi, com certeza, Zeus que as proclamou,/ nem a justiça com trono entre os deuses dos mortos/ as estabeleceu para os homens./ Nem eu supunha que tuas ordens/ tivessem o poder de superar /as leis-não escritas, perenes, dos deuses,/ visto que és mortal.  Quando Creonte pergunta se ela não se envergonha por ir de encontro a todos que reconhecem em Polinice o traidor, aquele que invadiu Tebas para tomar o poder do seu irmão Eteócles, Antígona não argumenta, como ela bem o poderia ter feito, que ele lutou para tentar recuperar o que era seu por direito, uma vez que a alternância de poder havia sido pactuada pelos dois irmãos e  Eteócles decidiu não cumpri-la obrigando Polinice a tentar à força o que deveria ter sido na paz. Não, ela não está preocupada com esse tipo de  justiça. E acredita que os outros aprovariam a sua atitude se o medo não lhes travasse a língua, que estão todos intimidados e mordem a lingua para não falarem o que pensam daquele edito e conclui: Não há nada de vergonhoso em honrar os do mesmo sangue.

A postura irredutvel de Antígona – tão bem expressa pelo Corifeu: Nela se revela uma estirpe inflexível,/de um pai inflexível/ filha. Não sabe ceder aos golpes do mal.-  deixa Creonte, o tirano, em total desatino, e a sua fala revela o quanto ela o ameaçou: Muito bem, se precisas amar os mortos,/incorporate a eles,/ama-os. Mas, em minha vida, não permitirei/ que uma mulher governe. E mais adiante ele complementa: Agora, entretanto, homem não serei eu,/homem será ela,/ se permanecer impune tamanho atrevimento.

Donaldo Schuler disse no Colóquio realizado pelo Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise que, Antígona, ao ocupar o espaço publico para propor a Ismene o sepultamento do irmão, espaço reservado para os homens, inventou a mulher.O espaço público grego pertencia ao homem, o espaço privado à mulher. Mas foi no espaço publico que Antígona fez a sua ação. Para esse mesmo sentido Werner Jaeger, em a Paidéia, parece convergir quando ao analisar o teatro de Sófocles diz que É especialmente significativo que seja a primeira vez que a mulher aparece como representante do humano, ao lado do homem, com idêntica dignidade. As numerosas figuras femininas de Sófocles, como Antígona, Electra, Dejanira, Tecmesa, Jocasta, para não falar de outras secundárias, como Clitemnestra, Ismena e Crisótemis, iluminam com o maior fulgor a elevação e a amplitude da humanidade de Sófocles. A descoberta da mulher é a consequência necessária da descoberta do homem como objeto próprio da tragédia.

Das 120 peças que a tradição antiga atribui a autoria a Sófocles, apenas 7 delas sobreviveram até os nossos dias, destacando-se Antígona que, junto com ElectraÉdipo, Rei, é uma das mais representadas no teatro moderno.Otto Maria Carpeaux em História da Literatura Ocidental diz que a descoberta do fundo eternamente humano no mito grego, pela psicanálise, forneceu explicação satisfatória do efeito permanente do teatro da Antiguidade. Sobretudo Sófocles e Eurípides são forças das mais vivas do teatro moderno, influências permanentes.

Falando de Sófocles, Otto Maria Carpeaux diz que ele era um artista da palavra, dono de extraordinário lirismo musical, sobretudo nos coros.Mas foi também artista da cena, sábio calculador dos efeitos, mestre incomparável da arquitettura dramática, da exposição analítica dos enredos. Apesar disso, o que destacou Sófocles dos seus concorrentes na dramaturgia da época, especialmente de Ésquilo, de Eurípides um pouco menos, o que mais contribuiu para a imortalidade da sua obra foi a sua maestria na construção dos personagens: O espectador moderno reconhece-se nos personagens de Sófocles, primeiro grande mestre da dramaturgia de caracteres, diz Carpeaux. Os seus personagens são figuras ideais. Werner Jaeger falando sobre Sófocles diz que ele, ao seguir a tendencia formadora da sua épocas, dirige-se ao próprio Homem e proclama as suas normas na representação das suas figuras humanas. (…) É a elas que se liga Sófocles, cujas figuras capitais encarnam um poderoso elemento de idealidade.  (…) Os homens de Sófocles (aqui Werger fala de homens no sentido geral, homens e mulheres) nascem de um sentimento da beleza que tem a fonte numa animação dos personagens até então desconhecida. Nele se manifesta o novo ideal da arete, que pela primeira vez e de modo consciente faz da psyche o ponto de partida de toda a educação humana.´

Antígona diante do conflito trágico de obedecer a lei do Estado ou a lei não-escrita, a lei Natural, deixa de ser um personagem meramente sentimental para se tornar um ser trágico: o conflito lhe revela a força do seu imperativo de consciência que lhe impôs a resistência – e assim Antígone se tornou o símbolo permanente de todas as Resistências.

Assim, tantos séculos depois, Antígona ainda é capaz de atrair as pessoas para ouvir falar dela, do seu destino trágico, da força de uma mulher que não transige sequer diante da Morte, que com o seu gesto derruba a barreira entre o público e o privado e recria o Homem, reinventa a Mulher. Antígona, ao não cumprir a lei escrita para seguir uma lei não-escrita, afronta com altivez o tirano que a condena à morte e  torna-se símbolo de todas as resistências, o ideal Humano que atravessa os tempos.