Tradução de Sofrimento e Paixão, análise de Memórias de um Egotista, de Stendhal, por Dóris Lessing

Acabamos de ler na Oficina, O Vermelho e o Negro, de Stendhal. Obra grandiosa, no tamanho, quase 500 páginas e, principalmente, no valor literário. Esnesto Sábato dizia que um grande livro se reconhecia quando ao terminarmos a sua leitura sentíamos que já não éramos mais os mesmos. Quando eu pensava num modelo de romance, jamais imaginava que pudesse existir algo assim.  A obra é tão completa, cada página abre um mundo de outras páginas de leituras para você. Penso que só ao ler o Inferno, de a Divina Comédia, de Dante, eu senti o mesmo impacto. São inúmeras as análises que se podem fazer a partir desse livro, seja em termos históricos, sociológicos, ideológicos, de economia política, psicológicos e sobretudo, no campo da análise literária. São infindáveis os caminhos que se abrem. E vejam que a história foi baseada em fatos reais. Como alguém pôde, a partir de um caso policial fazer uma obra dessa envergadura? Não é por acaso que ela vem constando da lista dos clássicos quase dois séculos depois de ter sido elaborada.

Quero parabenizar a todos que participaram dessa viagem pela persistência, pelos vários olhares que recaíram sobre ela contribuindo para uma discussão rica e alegre. Observei que sempre perdíamos o horário como se fosse difícil fechar o livro. Esses marujos estão acostumados a grandes navegações, como a do Som e a Fúria, de Faulkner, que igualmente a de Stendhal, em termos literários, exigiu também muito fôlego.

A nossa maruja Maria Adelaide Câmara realizou uma tradução do inglês, do prefácio que a escritora Dóris Lessing fez de Memórias de um Egotista, no qual fala do autor Stendhal e de suas obras, entre elas, O Vermelho e o Negro. Essa tradução, Sofrimento e Paixão,  foi lida na Oficina e agora está postada nesse blog.

*Sofrimento e paixão

 

Ele venerava as mulheres, embora achasse o amor enganoso (ilusório). Ele suportou a Retirada de Moscou, mas adorava Napoleão. Stendhal era um poço de contradições – e sabia disso, escreve Doris Lessing.
• Doris Lessing
• The Guardian, sábado, 24 de maio de 2003.

Abrir um Stendhal depois de – você tem que pensar – um intervalo demasiado longo, é, pelo menos para mim, uma torrente de alegria, como se você tivesse virado uma esquina, e olhe só! – um velho amigo que você não tem visto há tempo e que você havia esquecido o ser extraordinário que ele é.

Stendhal disse que não esperava leitores que o compreendessem até 1890, mas esse seria um rendez-vous movediço com o futuro. De qualquer forma, eles ainda eram crianças ou nem haviam nascido. Esse grupo seleto está agora espalhado por toda parte, mas a natureza do nosso vício apaixonado talvez não seja tão simples, nem mesmo inteiramente livre de culpa. Uma pista está na sua observação de que, quando escreveu essas memórias ele não tinha 38, porém uns 20 anos. E é verdade que nós podemos facilmente reconhecer a nós mesmos adolescentes em sua espinhosa autoestima. Eu tinha uns 20 anos quando encontrei O Vermelho e o Negro – e um amigo.

O amante ideal de Stendhal vem, como ele, de uma família convencional numa cidade provinciana – no seu caso Grenoble –, que é agradável, complacente e reacionária, tanto política como socialmente. Sua família levou a obstinação social ao extremo. Sua amada mãe morreu quando ele tinha sete anos, e ele foi criado por três pessoas a quem odiava. Uma foi a tia solteirona que o atormentava; outra foi um jesuíta despótico que o tutelava e lhe ensinou a detestar a igreja e seus trabalhos; e então havia seu pai, um advogado, que tinha “todos os preconceitos da religião e da aristocracia, [e] veementemente me proibiu de estudar música. ”

Sem as intervenções do pai de sua mãe, um homem bondoso e inteligente, não teria havido influências mais agradáveis em sua juventude. Não lhe era permitido brincar com crianças consideradas socialmente inferiores a ele, era tratado mais como um animal recalcitrante do que como uma criança, era afligido por injunções e proibições de que ele nunca pôde alcançar o sentido. Eu não acho irrelevante que no fim de O Vermelho e o Negro, quando Julien Sorel está para ser levado à morte, o pai o visite e lamente que Julien não lhe tenha reembolsado o dinheiro que ele havia gasto com ele, alimentando-o e cuidando dele quando criança.

Seu trabalho está cheio de pais monstruosos e figuras de autoridade. Ninguém fiou mais grato do que ele quando finalmente cresceu e foi capaz de deixar o lar. Ele não conservou o esnobismo que tentaram ensinar-lhe, porém, permaneceu igualmente suscetível a uma rudeza diferente: as grosserias que odiava não eram sociais, mas os equívocos insultuosos do coração cruel.

“Eu tinha um medo quase furioso de qualquer pessoa grosseira. A conversa de algum comerciante provinciano gordo e grosseiro me deixava estupefato e infeliz pelo resto do dia.” Oh sim, as províncias – ou, em meu caso, a sociedade colonial das pequenas cidades – o despotismo mais tedioso. É o que está por trás dessa palavra desagradável que faz morada em cidades pequenas, impossível para aqueles que têm vivido nesta grande república, Paris” (O Vermelho e o Negro).

Seu Memórias de um Egotista descreve uma estada em Paris de 1821 a 1830. Ele escreveu imaginando que seria lido por alguém que lhe fosse caro, “uma pessoa como Mme. Roland ou M. Gros, o geômetra”. Aqui, em umas poucas palavras, estão sua paixão pela Matemática e sua necessidade de uma mulher compassiva, mas nesse caso ela estava morta, pela guilhotina, cuja sombra tinha de permanecer atravessada em sua vida e em sua mente e na de seus contemporâneos, para o bem ou para o mal: é duro compartilhar de seu entusiasmo por algumas de suas manobras militares. Inevitável, suponho, que, criado por tiranos, ele aplaudisse o instrumento que havia feito cair de posição alguns tiranos.  O homem era uma massa de contradições – e ele sabia disso.

Ele escreve para descobrir que tipo de ser ele é. “Que tipo de homem sou eu? Tenho senso comum, tenho senso comum e profundidade também? Sou notavelmente arguto? A verdade seja dita, não tenho a mais leve ideia.”

A lente de sua inteligência está focada nele próprio com uma concentração que atinge a ferocidade. Arrola tanto suas características absurdas quanto as boas, e nunca se poupa da descrição de um momento de humilhação ou estupidez. Tinha Rousseau como um modelo admirado, mas eu penso que esse autoconfessor não chega perto de Stendhal no que toca à honesta perspicácia, cuja qualidade é um dom compensatório para uma criança que passou anos observando, com olhos implacáveis e satíricos, as hipocrisias e injustiças dos adultos; que teve, a fim de sobreviver, de aprender que a atenção é a primeira qualificação para um escritor. A observação exata dos inimigos delas – mãe, pai, figuras de autoridade – ensina essas crianças infelizes como dissimular ou guardar silêncio… e ver tudo

Stendhal deixou Milão, deixou sua amada Itália, porque a polícia milanesa pensava que ele era um espião. Deixou para trás um caso de amor – não, uma grande paixão – que o fez muito infeliz e não foi consumada, apesar de haver pistas de que pode ter sido por sua culpa. Mas, se ele tivesse sido feliz, nós não teríamos tido seu livro “Sobre o amor” que ele terminaria e publicaria em Paris: uma dissecação exata dos estágios e processos do amor, quer dizer, do amor romântico.

É um livrinho mais útil para as loucuras do coração do que qualquer um que eu conheça. Ele tem a finura que resulta de uma veracidade absoluta e não sentimental. Mas esse homem que tinha tal talento para as emoções ternas relatava tantos fracassos quanto vitórias, e talvez nós devêssemos lembrar que seu herói, Fabrizio del Dongo (A Cartuxa de Parma), compartilhava com outras almas eleitas sua crença de que a condição de estar apaixonado era superior aos prazeres mais grosseiros da consumação.

Que extremos esse homem manteve em equilíbrio. A mais extremada era a sua paixão por Napoleão, cuja característica ele conferiu a seus audazes jovens heróis Julien Sorel e Fabrizio del Dongo. A ideia de Napoleão significava a nobreza de alma, a coragem de desafiar as circunstâncias depreciativas (como o infortúnio de Julien Sorel de nascer um camponês), repugnância do lugar-comum – como a vida provinciana; significava galanteria, beleza, a visão de uma águia, em vez dos horizontes de um chapim (canário da terra).

Nós todos temos amigos que precisamos esquecer devido a fraquezas incompreensíveis, tais como uma admiração acrítica e insensata por, digamos, magnatas da mídia, sedentos de poder. Interessante essa procura por uma comparação contemporânea com esse Napoleão rompe-horizonte, são financistas que vêm à mente, não líderes de nações. Que rei do presente, general ou líder tem o glamour de Napoleão?

Talvez nós nos tenhamos tornado demasiadamente sábios para fazer qualquer coisa, a não ser gemer com a notícia de mais um Grande Timoneiro?

O que o torna mais inexplicável é que Stendhal estava na Retirada de Moscou. Ele viveu no tempo dessa ignominiosa carnificina, em meio à doença e às intempéries. Ele ainda amava Napoleão, que não devia ser culpado pela debacle, insistia. Mas se não ele, quem então? Mas estamos diante de uma paixão sem crítica. O Napoleão de Stendhal tinha pouco a ver com o real Napoleão, era mais uma ideia de glória e magnificência a se contrapor à pequenez. Stendhal é uma dessas figuras que provoca questões aparentemente distantes da causa. Estou pensando em um relato de um soldado alemão – como acontece no exército de Hitler, a Grande Alemanha – que descreve crueldades imperdoáveis ​​na sua própria formação e na de seus companheiros, o que causa mutilações e algumas mortes. “Mas nós o adorávamos”, gritou o soldado desse general sádico. “Gostaríamos de ter morrido por ele.” Aqueles soldados, que ainda não tinham morrido nos exércitos de Napoleão, adoravam-no, embora ele tivesse arruinado suas vidas.

Estamos aqui diante de algo escuro e torcido: algo, é certo, muito antigo. Mas também ambíguo. Julien Sorel, adorando Napoleão, ou melhor, essa cristalização de uma centena de qualidades maiores do que a vida que levavam o nome de Napoleão, sobreviveu à destrutiva mediocridade de uma cidade provinciana, a um pai brutal, a perseguições. Como muito rapaz, visto que, preso em algum lugar atrasado e abandonado por Deus
sobreviveu, repetindo alguns comentários ferinos por meio da personagem de Stendhal dirigidos à estupidez local. “O Diretório em Paris, dando-se ares de um soberano bem estabelecido, revelou um ódio total a qualquer coisa não medíocre.” (Insira o seu próprio governo, município, timoneiro.).

Foi quando as mulheres em seus salões puderam fazer as fortunas de homens jovens, fossem eles seus amantes ou não. “É possível fazer progressos no mundo somente por meio das mulheres”, aconselharam mentores amigáveis ​​de Stendhal. Os heróis de Stendhal deviam toda a graça e charme de suas vidas às mulheres, e assim fez ele. Ele não só adorou o amor, ele amou a amizade, ambos sem limites, cálculo, interesse próprio. Só generosidade de espírito era permitida.

Chegando a Paris, ele desenvolveu uma amizade com um barão de Lussinge, que compartilhou suas frugalidades. Mas, ao mesmo tempo que ficava rico, tornava-se miserável e apadrinhava a pobreza de Stendhal. Stendhal fez uma coisa muito francesa: mudou de café, de modo a não sofrer com a companhia desse homem que viu como arruinado pelo dinheiro. Um sacrifício doloroso, ele o chamou. Mas nunca facilitou as coisas para si mesmo. Memórias de um Egotista está cheio de oportunidades para amizade, ou para salões vantajosos, desperdiçadas. Sua sensibilidade excessiva, seu orgulho, os elevados padrões de suas exigências relativas às pessoas o fizeram solitário. Ele já era conhecido como um escritor, tendo obras sobre música e arte publicadas, mas ele não era bem conhecido. Sofreu algumas críticas ferozes, que abrandou ao ruminar que “um ou outro de nós deve estar errado”.

Perdeu possíveis casos de amor, mesmo quando a memória de sua Métilde havia se tornado “um fantasma, profundamente triste, terno, que, por suas aparições, me tornavam poderosamente predisposto para ideias de ternura, bondade, justiça e indulgência.”

Esse fantasma nem sempre era beneficente. Sua história de fracasso em fazer sexo com uma garota alcovitada para ele é muito engraçada, porém, principalmente, porque ele não via que era. Ele não estava preocupado, a garota desguiava, já que ela era jovem e não tinha experimentado isso antes. Seus amigos eram desdenhosos e malevolentes. Por um curto período, ele adquiriu uma reputação de impotência, mas como sabemos a partir da literatura e da vida, isso podia – se usado por ele – ter atraído as mulheres para sua cama, por causa de seu instinto para remendar a situação.

Mas ele nunca jogou direito suas cartas. Não estava nele.Era doloroso para ele estar em Paris, que ele havia conhecido “como parte da Corte de Napoleão”. Ele tinha feito inimigos, também. Tendo-lhe sido oferecido, em 1814, o cargo de controlador de comida de Paris, pelo Chefe de Polícia, ele recusou. O homem que aceitou ficou rico em quatro ou cinco anos “sem roubar”. Aqui, em duas palavras, ele dá parte da moral financeira da época. Essa concisão é uma característica imediatamente reconhecível de Stendhal, como escritor.

“… um oficial aposentado com meio soldo, condecorado em Waterloo, absolutamente destituído de inteligência, e se tal coisa é possível, ainda mais de imaginação, tolo, mas com maneiras perfeitas, e tendo tido tantas mulheres que se tornara sincero em seu assunto. ” (Itálico meu).

Ou isto, que poderia ser a sinopse para um romance: ‘Esta Mme. Lavenelle é tão seca como um pedaço de pergaminho e, seja como for, não tem inteligência e, acima de tudo, paixão, e é quase impossível para ela ser afetada por outra coisa que as coxas robustas de uma companhia de granadeiros desfilando pelo jardim das Tuileries em calções folgados de casimira brancos. “

Dessa vez, os grifos são dele. Para ser sem paixão: Stendhal não podia dizer nada pior. Ele poderia elogiar Paris como um antídoto para Grenoble, mas ele não gostava do francês, a quem ele via como cheio de artifício, insinceridade e carente de paixão. “Eles amam o dinheiro acima de todas as coisas e nunca pecam por amor ou ódio.” Ao contrário dos italianos, que são francos, naturais e honestos, com quem ele se sentiu em casa:

 “Este governo é bom, e aquele governo que por si só garante a segurança do cidadão nas estradas, sua igualdade perante os juízes, e juízes bastante esclarecidos, bem como uma moeda não desvalorizada, estradas transitáveis/decentes e proteção adequada quando no exterior. “

Podemos imaginar como esse mote caiu nas salas de visita, sob o governo dos Bourbons, que ele desprezava, e sob o qual florescia todo tipo de agiotagem, desonestidade, corrupção, assim como acontece hoje. Essa definição alcança alturas de insolente sorriso em relação a seus pares e ao regime. Na Itália, ele tinha sido suspeito de ser um espião; eu não vejo como ele poderia ter evitado estar nos arquivos da polícia de Paris.

Sua viagem para a Inglaterra era para acabar com sua depressão, e ver as peças de Shakespeare, que ele lera muitas vezes, e sobre as quais havia escrito, juntamente com Racine. O contraste absoluto deve tê-lo agradado. Ele viu Kean em Otelo, e ficou surpreso de que na França e na Inglaterra eles usassem gestos diferentes para expressar as mesmas emoções; ele também ficou impressionado porque Kean dizia suas falas como se estivesse pensando nelas pela primeira vez.

Ele ficou encantado com Richmond. Não gostava de descrições da natureza, tentou manter sua prosa sem adornos, como um despacho militar, mas foi tentado por Richmond a esquecer suas austeridades. Lá estava ele, andando por Londres, indo ao teatro, mas ele omitiu cortejar essa hospedeira que lhe teria feito o maior bem. Em vez disso, foi levado para uma pequena casa onde três meninas tímidas, pobres, com cabelos castanhos – prostitutas – foram gentis, e tinham bom coração.

Stendhal amava as mulheres, para usar essa palavra, não como fez em Por Amor, mas como um sentimento de empatia geral. Ele tinha aprendido a compreensão das mulheres com a sua bem-amada irmã Pauline, que era uma espécie de doidivanas e rebelde (talvez inspirada pelo desdém de seu irmão pelos costumes da sociedade?) Ela escreveu-lhe sobre uma escapada na qual, vestida de homem, saiu para ver a vista, uma noite. Ele ficou horrorizado. Sua carta a ela diz tudo sobre a situação das mulheres naquele tempo. Implorou-lhe para nunca mais fazer uma coisa dessas de novo. Se ela fosse pega, ou mesmo se houvesse rumores, então ninguém iria se casar com ela, e ela estaria condenada a um convento ou a ficar solteirona. Arranje um marido a qualquer custo, disse a ela, e então, uma vez casada, você pode fazer como quiser. As mulheres casadas são livres; solteiras são escravas.

Ele não tinha ilusões sobre o “custo”. O marido, em O Vermelho e o Negro, o prefeito da cidade Monsieur de Renal – já houve em algum tempo uma tal descrição de um marido parecido com um peão estúpido e grosseiro? No entanto, ele não é um homem mau, certamente desejável como marido. Sobre o desamparo das mulheres em face da convenção, nunca foi escrito mais ternamente, mas o que poderia ser mais friamente sensato do que aquela carta? Em A Cartuxa de Parma, ele apenas registrou, friamente, que uma certa dama da sociedade trouxe para seu marido, como dote, 800.000 francos, e por esse lhe foi concedido 80 por mês para as despesas.

Nenhuma mulher maravilha o adorava, posto que ele não era bonito.

Memórias de um Egotista é incompleto, porque ele não estava escrevendo sobre o que mais estava em sua mente, seu tempo com Métilde. Ele não queria macular as lembranças que tinha dela. Mas poderia servir como uma introdução aos grandes romances: aqui está o minério a partir do qual ele elaborou O Vermelho e o Negro e A Cartuxa de Parma. Há também sua autobiografia, La Vie de Henri Brulard – ele usou dúzias de pseudônimos: seu nome verdadeiro era Marie Henri Beyle. Esse livro é menos revelador do que Memórias, escrito quando ele estava em carne viva e sangrando. Ele confessa que achou difícil mantê-lo em ordem cronológica, mas isso é bom: mais parecido com o que nossas memórias são realmente, Napoleão e Métilde, Richmond e Racine e pobres meninas pálidas com cabelo castanho.

Lá se vão 200 anos desde que ele, em Paris, o escreveu. É como ouvir a sua voz, talvez falando em alguma sala de visitas em sua amada Itália, na companhia de mulheres encantadoras e de seus amantes, uma das quais sua amante, ou que tenha sido, ou que venha a ser. Maridos estão curiosamente ausentes, mas se houver alguns, são os seus bons amigos. O céu de Stendhal, ele sonhava com ele; infelizmente seu destino o levou para lugares menos amenos.

© Doris Lessing, 2003. Este é um prefácio para Memórias de um Egotista de Stendhal, publicado pela Hesperus Press.

* Tradução do inglês realizada por Maria Adelaide do Rego Maciel Câmara, psicóloga clínica, membro do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise, participante da Oficina desde 2006.

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