Viagem Quarta pelo Riso

Às vésperas do Carnaval, os rufos dos tambores já sendo ouvidos muito próximos, a batucada no ar, a cuíca gemendo, alguns viageiros já alhures para não cederem a apelos tão fortes, nós navegantes que permanecemos a velejar vestimos as  fantasias e fizemos um carnaval literário com direito a muitos poemas, teatro e cantos. E festejamos a chegada do novo viageiro Sarmento que se diz disposto a enfrentar os mares das palavras com toda paixão que eles exigem. Salve, navegante! . 

O Momento Poético começou com Zodíaco,  de Daniel Lima, escolhido pela nossa viageira Adelaide Câmara que, infelizmente, não pôde estar presente  embora muito o quisesse. Só a saúde bombardeada por uma tosse inimiga atroz a impediria de ali estar para ela mesma ler o seu poeta. O poema escolhido fala mesmo do carnaval, do mês de fevereiro:

ZODÍACO
5 – Janeiro e fevereiro

                                                                                      Daniel Lima       

             E ao chegar fevereiro
             ainda serás imortal
            da trágica imortalidade dos palhaços
            das colombinas e dos arlequins.
 
                Fevereiro é o Brasil,
               já vem gingando.
             (e o que é gingar?
               Não perguntes,
           não se diz,
               não se explica:
                              só se vendo (ou se fazendo)
             Fevereiro desfila
                      gosta de ser fevereiro.
 
Ele se adora.
 
           E porque se adora,
              fevereiro samba e ri
              e se cobre todo de miçangas.
 
              Há borboletas que não vejo
                         no jardim de rosas que não tenho.
 
          Mas fevereiro cria
as rosas e o jardim
              e as borboletas.
 
                   Fevereiro não gosta de Scarlatti
               mas gosta de escarlate
                         e azul
                   e cores misturadas.
 
                  Fevereiro é ligeiro,
            um vôo de pássaro encantado,
                     um relâmpago no céu inesperado
                (o relâmpago e o céu),
                    o céu de fevereiro,
          a luz fugaz de um fósforo aceso.
 
            A alegria que levas de reserva
        colheste-a por certo em fevereiro,
         para queimá-la talvez a vida inteira.
 
               Mês leviano, essencial
                eterno e contingente.

               Fevereiro é geral, não te pertence.
         Universal riso puro
             de todos e ninguém.
 
          Fevereiro é Brasil.
       Viva Macunaíma!
      Ai, que preguiça!
     Do jeito que ora está
  Ninguém aguenta.
    Vou embora pra Bahia
Hoje mesmo,
Que ninguém é de ferro.
E a vida vai comigo.
E fevereiro fica.
Não te esqueças:
Dize:”adeus , fevereiro!”
E outra vez mais:
“Viva Macunaíma!
Ai que preguiça!”
                          Poemas,2011.

E os viageiros  quiseram saber mais de Daniel Lima. Nascido em Timbaúba, foi sacerdote, diretor da Gazeta de Nazaré, um Jornal literário de Recife durante mais de 20 anos, lecionou Psicologia e Filosofia na UFPE. Até 2011 havia escrito 27 livros, 13 de poesia e 14 de Filosofia. Modesto, recusava-se a publicar suas obras, uma de suas alunas levou os originais de Poemas para a CEPE que o editou. Com este livro ele conquistou o primeiro lugar no Prêmio Alphonsus de Guimarães da Biblioteca Nacional. Morreu às vésperas de completar 96 anos, em 2012.

 

Outros poemas de Daniel Lima:

Ao nasceres, tinhas o prefigurado rosto
Que hoje terias se houvesses sido tu mesmo
No tempo singular de tua vida.
Mas viveste o relógio, não teu tempo
e agora vê teu rosto:
o que dele te resta é a desfigurada
sombra do primeiro rosto
que não soubeste ter,
nem mereceste.

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Minha mãe era feita de incertezas.
tecida de solidão de infindas luas.
Nunca assentou seu coração viajeiro
de medo de esquecer o fim da viagem.
Não dormia, sonhava,
Vivia os sonhos acordada e louca
e amava a vida
com tal ódio e paixão, que até se percebia nos seus olhos,
nas mãos, nos gestos
na vontade de ser e o desespero
de não ser nunca e ainda.
E eu perguntava coisas
E ela não respondia,
apenas navegava incertos mares,
guiada por estrelas que eu não via.
Minha mãe era feita de incertezas
mas, por certo, sabia o que queria.

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Nada será jogado no vazio.
Nem mesmo o vazio da vida,
porque é vida.

Nem mesmo o gesto inútil,
pois-que é gesto.

Nem mesmo o que não chegou a realizar-se,
pois-que é possível.

Nem mesmo ainda o que jamais se realizará,
porque é promessa.

E o próprio impossível
é vontade absurda de existir.
E nisso existe.

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Os pássaros são sábios.
Não discutem: cantam.
Cantar é o jeito mais puro de entender
a vida.

Em seguida foi lido o poema Apego, da nossa viageira-poeta Salete Oliveira:

Apego

Salete Oliveira

Ah pego
Apego
Afeição
Ah pego
Simpatia
Gosto
Ah pego
Amor
Enamorar-me
Ah pego
Zelo
Paixão
Ah pego
Admiração
Enternecimento
Ah pego
Porque não sou uma pedra
E mesmo as pedras,
Vestem-se de multicoloridos limos

Após o Momento Poético, dirigimo-nos ao teatro para assistir o poema lírico em formato de peça teatral Máscaras, de Menotti Del Picchia, que fala do encantamento de dois homens muito diferentes, Arlequim e Pierrot, por uma mesma Mulher, Colombina.

Paulo Menotti del Picchia, paulista (1892/1988), poeta, ficcionista, ensaísta, editor, jornalista, industrial, banqueiro, deputado estadual e federal, escultor.  Ficou conhecido ao projetar a Semana de Arte Moderna de 1922, da qual fez um diário na imprensa entre 20 e 30, tendo sido membro das Academias Paulista e Brasileira de Letras. Ao completar 85 anos, Menotti concedeu entrevistas das quais transcrevemos um trecho que pensamos traduzir bem a sua escrita:

Em matéria de arte não admito pressão externa: a arte deve ser pessoal, independente e livre; é ela que tira o ser humano da animalidade. (Folha de S.Paulo, 20 mar.1982).

O texto foi escrito em 1920 período  de extrema  efervescência cultural no Brasil. Os personagens, entretanto, já eram conhecidos, vieram da Commedia dell”arte,  século XVIII, na Itália, também chamada de Comedia de Ofício e Comédia Artesã porque nasceu nos berços da cultura popular, com roteiros simples,  os personagens usavam máscaras durante a encenação para não serem identificados. Tratava-se de uma espécie de resposta ao teatro clássico, ao teatro dos grandes e nobres salões. Na ocasião lemos um texto que falava de cada personagem, de como ele surgiu, de suas características Quem são o Pierrô, o Arlequim e a Colombina?

Na leitura da peça, Salete foi a Colombina que Paulo-Arlequim e Eleta-Pierrot tentaram conquistar.  Foi muito engraçado, principalmente quando Colombina se confessava em dúvida com qual dos dois ficar. Foram horas muito divertidas.

Após a leitura, Sarmento disse que sempre havia gostado muito do tema, embora jamais houvesse pesquisado sobre as suas origens, disse ter gostado muito das informações e análises que foram levadas naquela tarde. Ele, inclusive, falou de  uma marchinha de carnaval que havia feito há alguns anos, usando os personagens, e nós tivemos que insistir para que ele a cantasse..

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Lemos ainda trechos de um artigo que analisa sob o ponto de vista psicanalítico e um pouco literário este poema e dá uma breve biografia do seu autor, As máscaras de Menotti del’Picchia: Arlequim, o desejo − Colombina, a mulher − Pierrot, o sonho, de Stetina Trani de Meneses Dacorso. A epigrafe deste trabalho, retirada de uma música de Chico Buarque e Edu LObo, diz muito dos conflitos amorosos, triangulares ou não:

Mesmo sendo errados os amantes, 
Seus amores serão bons.
 
(Choro Bandido,Chico Buarque/Edu Lobo)

 

E encerramos nossos trabalhos.

Jaboatão dos Guararapes, carnaval de 2017.

Lourdes Rodrigues

 

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