Veredas Mitológicas
Carlos R. C. dos Santos
Contribuição escrita de 2009 para o grupo Veredas Mitológicas que acontece semanalmente na sede do Traço Freudiano Veredas Lacanianas
Durante as sessões de cinema animaram as Veredas Mitológicas, veio esse comentário acerca do julgamento de Sócrates, procurando mostrar uma das muitas interpretações sobre essa passagem da cultura ocidental, a partir do filme Sócrates, de Roberto Rossellini.
Notas de Xantipa
Num certo momento de sua obra, Freud declarou que o psicanalista escuta um analisante da mesma forma como um arqueólogo escava num sítio de pesquisa. Trata-se de uma das inúmeras comparações feitas para entender o sentido da função clínica exigida pela Psicanálise, segundo a qual o achado do já havido comprova o tipo de presença humana num determinado local e numa determinada época. No entanto, o motivo dessa confluência também representa uma distância qualitativa, de modo que o achado concernente ao analítico não é do campo do havido, mas o do constituinte da subjetividade Inconsciente. O fato, nesse caso, é inseparável do falasser.
Mesmo no contexto dessa ponderação, como nos mostrou Freud, em Totem e tabu, alguns achados arqueológicos sugerem ao analista um havido que dimensiona a subjetividade analítica, mesmo que não sejam classificados de modo concreto.
Nesse caso, os achados estão em sítios ficcionais, por meio dos quais são encontrados cacos cerâmicos nas entrelinhas de certos escritos. Seguindo essa perspectiva, a Apologia a Sócrates, de Platão, mostra alguns cacos do vaso em que se depositavam os vinhos, servidos nos momentos prazerosos retratados nos interiores das casas gregas, por meio dos quais pode se apontar a dimensão de uma subjetividade. Além desses, existem outros que trazem a acidez do que muitos contemporâneos de Sócrates tiveram que engolir na convivência com ele, principalmente a sua mulher e mãe dos seus filhos. Assim então, na Apologia a Sócrates, existem cacos que os analistas podem, por meio deles, edificar algum ensino, por exemplo, um objeto de uso ornamentado com traços que indicam certas Notas de Xantipa, mesmo constando apenas algumas palavras esparsas, as quais foram salvas da ação erosiva do tempo.
Tomando a Apologia escrita por Platão, Roberto Rossellini ambientou os momentos que antecederam o suicídio de Sócrates, mesmo sendo tomado como conclusão de um processo acusatório movido contra o filósofo, no qual foi condenado a beber veneno. Chamar de suicídio o que se deu com Sócrates, é contrariar o senso comum, cuja forma reflete o assassínio movido pelo Estado ateniense. A passagem do texto para a composição de cenas deixou surgir um resto cerâmico que mostrou a visão de Xantipa e o quanto ela propôs a Sócrates e aos seus discípulos. De acordo com suas Notas, a prática socrática não refletia uma adequada cidadania, pois não estava conforme o ideal proposto pela Pólis grega, a qual colocava em foco o provimento das obrigações ao lado das produções mais elevadas de amor à sabedoria.
O lugar de filósofo, na visão de Rossellini, refletindo a Apologia a Sócrates, denunciava uma função que não se adequava ao exigido em Atenas, segundo a qual o sustento da família era uma atividade essencial. Já Sócrates deixava os integrantes de sua família em constante carência de bens materiais que são necessários ao sustento e à satisfação de exigências básicas. Sua principal atividade, na companhia de discípulos que com ele circulavam pelas ruas pedregosas da cidade, era, por meio da Maiêutica, a arte da parturição das idéias, colocar um constante furo no saber produzido pelos Sofistas.
A principal idéia de Sócrates era a de levar o interlocutor, por meio de argüições, à destituição do saber, de modo que a certeza sofresse abalos suficientes para não edificar qualquer ensino. Sendo assim, Sócrates, com o Só sei que nada sei, ia minando qualquer outro lugar de transmissão, sustentando apenas o seu, de apresentar-se aos seguidores. Enfim, surgiram reações dos que viviam em função da circulação de conhecimentos – os Sofistas –, questionando o fato de haver no modo de ser de Sócrates um desvio, trazido pelo projeto que consistia em um jovem poder produzir um outro saber, em função de um saber Outro dos deuses.
Nesse caso, os argumentos de corromper os jovens e trazer novos deuses, que formalizaram a peça acusatória contra Sócrates, estão fundamentados por um arrazoamento que vai além da simples cobiça quanto às idéias que existem no interior dele, tal como foi expresso por Platão nos diálogos do Banquete, afirmando que o seu mestre assemelhava-se aos Silenos, por ser feio exteriormente, mas cheio de preciosidades.
Sócrates não entrou no âmbito dessa acusação só porque gerou, entre os humilhados, ao decair em suas certezas, rivalidades homicidas. Ele alterava o vínculo do Estado Ateniense com os destinos dos jovens e com o culto às múltiplas divindades. Em suma, não era descabido numa sociedade politeísta e fundada na formação do jovem, acusar alguém que não via a variedade das argumentações relacionadas à linguagem articulada, sob inspiração política, e que se considerava equiparado aos deuses, pois sequer aceitava o dizer oracular de ser um homem sábio. Sendo um homem sábio, ele teria um lugar constituindo o discurso que se adequaria à Pólis ateniense. Recusando esse lugar, o único que lhe restava era o de equiparar-se aos deuses, tomando a si mesmo como alternativa de adoração para os gregos.
O que hoje pode ser visto como o modo de os medíocres se livrarem dos verdadeiros homens que amam o saber, na época socrática cabia como motivo suficiente para que alguém fosse acusado de levar aos gregos outros deuses e de não permitir que os jovens pudessem errar em suas elaborações, mas depois vir a acertar, usando formulações diversificadas.
Numa sociedade como a ateniense, tendo o panteão sagrado com diversos deuses, só é admissível a elevação multiplicada tantas vezes quantas os sofistas puderam fundamentar seus discursos. Além disso, prover a família se tratava de um modo objetivo de colocar um ordenamento do processo divinatório no contexto ateniense, visto que assim se constituía o lugar onde germinava a força do jovem que defenderia a cidade. A propósito das Notas de Xantipa, o que elas mostram é um Sócrates que viveu querendo constatar se ele seria mortal ou imortal, numa proporção concernente não à condição de sábio, mas a de um deus. Por mais que Xantipa quisesse mostrar-lhe a possibilidade de o amor ao saber ser condizente ao sustento da família, Sócrates negava dever direcionar o cotidiano ao ganho merecido pela sua prática de filósofo.
Estas são as Notas de Xantipa:
1. Pedras ... ruas ... buracos no que era dito.
2. Julgamento ... pena diferente.
3. Defesa na base da condenação.
4. Queria ... assassínio.
Trata-se de escritos ultimados pelas palavras que faz pensar Sócrates estar apostando na própria morte.
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A leitura de O Fausto levou o grupo a comentar o tanto que surgem referências à luz e ao processo de interação com as sombras e com o escuro. Por isso escrevi esse comentário que propicia dar uma formalização a tal aspecto literário.
A energia e o sonho no Fausto de Goethe
O ambiente cultural em que Goethe elaborou o seu Fausto antecedeu a mudança do significado sobre os termos harmonia e continuidade. Assim, o que virá com Plank e com Freud está anunciado literariamente, mas nas entrelinhas da luz fáustica, a qual visa formular um personagem voltado a absorver um saber além do meramente humano, qualificando os dotes do super-homem.
A harmonia e a continuidade serão redimensionadas depois que Plank fundamenta o conceito de quantum, segundo o qual está formalizado que a radiação gerada pela troca de energia entre os átomos não acontece de modo contínuo, tal como fora estabelecido por Newton. Nesse caso, o mundo físico não mais aclimatava a idéia de harmonia que circulava com total desenvoltura, no sentido de operar na construção de qualquer arrazoamento formal na sociedade ocidental. Desde a arte em geral, até à filosofia, o mundo não podia ser expresso por meio do equilíbrio harmonioso da continuidade, pois o quantum mostrou outra realidade.
Na mesma época em que Plank pôs um limite à aplicação da teoria de Newton, Freud irá mostrar aspectos da mente do ser humano que expressarão outro sentido para a subjetividade. Isso se deu na elaboração freudiana sobre o sonhar, determinando que o onírico não mais deveria ser abordado de modo tão desrespeitoso, mas como algo fundamental para mostrar a realidade do desejo. Assim, o mundo harmonioso da mente, cuja estruturação vinha pela visão cumulativa do processo de ensino-aprendizagem para edificar o processo de socialização, tem que estabelecer uma continuidade entre o sonhar e a realidade cotidiana. O sonhado não ficaria relegado à condição de produto do esquecimento, mas estava colocado no correr da vida em vigília.
A descontinuidade de Plank e a continuidade de Freud romperam com a perspectiva harmoniosa com que se olhava para o mundo cultural e para a subjetividade. Isso ocasionou uma retirada do contexto relacionado ao eu-ideal, concernente ao eixo imaginário, encaminhando o interesse para o ideal-do-eu, mais voltado para o registro simbólico. O efeito dessa passagem é o de que a sociedade e as pessoas experimentam o sentimento de despersonalização, não mais se reconhecendo da mesma forma que antes.
Mesmo que nas entrelinhas de Fausto seja possível ver os acenos acerca do corte dado ao sentido de harmonia, o texto lida com a luz do saber da maneira contínua, contrária a de Plank, e descontínua, afastando-se de Freud. Assim, é necessário que o leitor de Goethe vá até onde esse autor o pôde levar, não imputando-lhe atributos que somente aparecerão com a intervenção de Plank e a de Freud, relacionadas ao que o sonhar e a energia têm da natureza narrativa.
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Desde o início da leitura desse clássico da literatura ocidental, foi frisado que era importante que lêssemos o Livro de Jó. Dessa forma, o texto de Goethe expressa aspectos que podem até ultrapassar o sentido literário e ganhar dimensões bastante mais elevadas quanto à constituição do sentido dado ao ato de fé no domínio judaico-cristão.
O foco mitológico do livro de Jó no estudo de “O Fausto” de Goethe
O que mais se espera quando lemos o personagem Fausto de Goethe poder ambientar a leitura a partir do tipo de leitor pretendido pelo autor. Na teoria da recepção, o leitor não pode ser distanciado da obra lida, pois não há aspecto humano que não envolva o domínio do endereçamento. Em vista desse princípio, o esperado pelo autor, a partir da autoria demonstrada pelo próprio texto, é que a disposição entre Deus e o demônio seja ambientado seguindo a sinalização indicada pelo livro de Jó.
As perguntas que podem surgir ao leitor de Goethe:
O mefistofélico presente no livro de Goethe tem o caráter daquele que vem para indicar a perda da proximidade com Deus?
Mefistófeles é um demônio, no sentido de pretender afastar Fausto do bem?
A trajetória colocada pelo texto, relacionada ao lugar do demônio no Livro de Jó, indica que essas perguntas não encerram o verdadeiro sentido que tem Mefistófeles. Dentro do universo colocado pelo surgimento do mercantilismo ascendente, Mefistófeles recepciona o que designa como papel do demônio de Jó, principalmente naquilo que diz respeito ao sentido dado ao valor concernente aos bens e ao merecimento. O demônio pergunta a Deus se Jó o obedece somente porque nada lhe foi tirado, pois adorar Deus num estado de êxito constante não seria nada mais que a curvatura do agradecimento. Não haveria um gesto genuíno de fé quando se tem tudo, não faltando nada. Ai vem toda a indicação de Deus para Mefistófeles tirar o que puder de Jó, menos a sua vida. O demônio é, portanto, o eixo mais representativo do que virá com o movimento abraâmico de ter fé e obediência na privação radical daquilo que será tido como o maior bem.
O mefistofélico indica o sentido que o demônio de Jó coloca para estabelecer o movimento da ética judaico-cristã, não importando que lhe seja atribuído o estabelecimento em gerar o mal. O valor monetário que se eleva acima de qualquer relevância subjetiva, dá a base para que a ética fique restrita ao domínio do ter, esquecendo-se do sentido dado ao ser, no contexto de fundamentar o fato destacado por Lacan de que o ter se coloca diante do ser a partir da seguinte disposição:
1º Não é, sem tê-lo
2º Não tem, sem sê-lo
É assim que se pode questionar o dito que Freud colocou no frontispício da sua Traumdeutung:
Flectere si nequeo súperos, acheronta moverbo
O céu e o inferno estão colocados numa posição muito mais dinâmica do que se fossem apenas elementos antitéticos. O Fausto de Goethe indicou esse procedimento dinâmico, por meio das posições que foram enfatizadas por Lacan acerca do Ser e do Ter.
(Comentário a ser divulgado para os integrantes do grupo Veredas Mitológicas, que funciona nas quartas-feiras, das 17 horas até às 18:30, na sede do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise, coordenado por Adelaide Câmara e Dulcinea Santos)
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Cf. Comparação feita por Platão no “Banquete”, segundo a qual Sócrates era feio como a imagem dos Silenos, mas tendo preciosidades no interior. No caso de Sócrates, essas jóias são os conteúdos dos seus ensinamentos filosóficos.
